Semana On

sábado, 28 de fevereiro de 2009

No dos outros é refresco

Interessante o artigo “Virando a Folha”, de Sergio Leo. Trata-se de uma resposta ao artigo “Folha de São Paulo, cínica e mentirosa. Todo o apoio a Fabio Konder e Maria Victoria Benevides”, de Idelber Avelar, no qual Leo questiona as críticas feitas pelo último em relação a grande imprensa no Brasil. Concordo com Avelar, mas entendo a saia justa de Leo.

Afinal, Avelar chuta o pau da barraca (em defesa a Fabio Konder e Maria Victoria Benevides) dizendo aquilo que muita gente pensa, mas guarda para si, quando os assuntos são a hipocrisia e o baixo nível intelectual que reinam nas nossas redações. Cita “o paupérrimo, o assombrosamente rasteiro nível intelectual da grande mídia brasileira", diz que os jornalistas "além de mentirosos, venais e pouco transparentes, são fraquíssimos" e que os donos dos jornais têm "suas corjas de servidores". Pura (e doída) verdade quando observamos a regra.

Leo e sua esposa atuam nos jornalões (que não são melhores ou piores que os veículos de pequeno porte, visto que a crise moral na profissão é geral) e se doeu com as críticas. Confesso que também me sinto ferido. É que, em meio à hipocrisia reinante, há quem tente encaixar aqui e ali pinceladas de jornalismo de verdade na labuta diária. Como disse Leo, “esse tipo de ataque maniqueísta, virulento, totalizante deixa pouco espaço aos que, dentro dos jornais, tentam e muitas vezes conseguem fazer um trabalho de qualidade”.

É, há exceções. Melhor, há momentos de exceção durante a pasmaceira.

Ocorre que, logo depois, ele insiste em um argumento que me soa, realmente, típico de quem, como o próprio Leo diz, é “parte de uma corja que se acumplicia no projeto conspiratório dos jornais contra o interesse do povo”.

Diz ele: “Trabalho num jornal que é propriedade, em partes iguais, das famílias Frias e Marinho, que nunca me censuraram e me estimularam a trabalhar com bastante liberdade”. Diz também que os patrões não são os “vilões do imaginário daqueles que só enxergam manipulação nas empresas jornalísticas”.

Será? Fico com a leitura do Avelar.

Ah tá, agora entendi – X

Espera aí, deixa ver se entendi.
Quer dizer que o senador Leomar Quintanilha (PMDB-TO), presidente do Conselho de Ética do Senado – um cargo que deveria ser ocupado por alguém acima de qualquer suspeita – é acusado pelo Ministério Público de já ter recebido propina de empreiteiras?
Sim.
Ah, tá, agora entendi.

Fotojornalismo

Vincent Laforet, fotógrafo da Newsweek baseado nos Estados Unidos, venceu a categoria Sports Action Stories do 2008 World Press Photo of the Year contest, com esta foto.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A transformação autoritária de Israel

A transformação autoritária de Israel
Por Sharon Weill e Valentina Azarov (tradução Victor Barone)
Publicado originalmente no site Eletronic Intifada

Uma das principais questões levantadas durante o recente conflito na Faixa de Gaza – além do considerável número de denúncias de violações das leis humanitárias internacionais, que não trataremos neste artigo – diz respeito ao funcionamento da lei em Israel nos casos relacionados à liberdade de expressão, opinião e acesso a informação. O Estado fez tudo que estava ao seu alcance (e além dele) para silenciar as vozes que se opuseram as políticas de governo e a recente operação militar na Faixa de Gaza.

Estes eventos foram componentes primordiais no processo que levou ao resultado das eleições para o parlamento israelense, onde um partido, o Yisrael Beiteinu, cujo líder defende uma agenda racista e autoritária, tornou-se a terceira força política no País. As políticas de Estado, que serão examinadas neste artigo – o banimento dos protestos, as restrições à liberdade de expressão e a desqualificação dos partidos árabes – são parte da transformação de Israel em um regime autoritário baseado na segregação.

O banimento dos protestos

Durante as operações militares em Gaza, manifestantes pacifistas se defrontaram com a brutalidade da polícia e do exército. De acordo com relatórios de 12 de janeiro de 2009, de autoria do jornal Haaretz, e de 2 de janeiro de 2009, de autoria da organização de direitos humanos Adalah, em 230 protestos, 801 manifestantes foram presos, 277 deles crianças ou adolescentes. O motivo das prisões: “perturbação da paz”, “acenar com bandeias palestinas”, e “ferir o moral da nação”.

Em 7 de fevereiro de 2009, 225 pessoas permaneciam detidas, incluindo 89 crianças e adolescentes; 114 pessoas foram levadas a julgamento. Outras foram interrogadas pelos serviços de segurança e alertadas a não tomar parte de outras manifestações; alguns foram mantidos em prisão domiciliar e proibidos de entrar em certas cidades.

A grande maioria destes presos era composta por palestinos com cidadania israelense. Palestinos, israelenses e manifestantes de outros países participaram de protestos pacíficos na Cijordânia e foram violentamente reprimidos pelo exército israelense, inclusive à bala. Estes confrontos causaram a morte de quatro palestinos em Nilin, Qalqiliya e Sawad, além de inúmeros feridos.

A liberdade de expressão e de manifestação e as liberdades pessoais foram sistematicamente violadas pelo Estado.

Violação da liberdade de imprensa

Jornalistas israelenses têm sido proibidos de entrar na Faixa de Gaza nos últimos dois anos. Amira Hass e Shlomi Eldar, dois conhecidos jornalistas que entraram em Gaza antes da ofensiva, foram imediatamente presos e reenviados para Israel. Jornalistas estrangeiros também tiveram acesso negado à região desde o início de novembro de 2008, devido à interrupção do cessar fogo com o Hamas e o fechamento dos pontos de passagem entre Israel e a Faixa de Gaza.

A Foreign Press Association fez uma petição à Suprema Corte de Israel em 24 de novembro de 2008 solicitando livre acesso a região. A petição deixava claro que os repórteres eximiriam Israel de qualquer responsabilidade pela sua segurança ao adentrarem a Faixa de Gaza.

A primeira reação surgiu apenas em 31 de dezembro de 2008, após jornalistas terem pedido pressa na decisão devido ao início da operação militar israelense na Faixa de Gaza. O exército permitiria que oito jornalistas adentrassem a zona do conflito.

No dia 2 de janeiro de 2009 a justiça israelense se pronunciou:

... a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa, como o direito do público a informação, mantêm-se inalterados, mesmo em tempos de guerra, e em um período como este têm uma importância especial; no entanto, estes direitos não são absolutos e diante das circunstâncias têm de ser equilibrados diante do risco para vidas humanas como resultado da abertura de pontos de passagem entre Israel e a Faixa de Gaza”.

A corte, inequivocamente, endossou a proposta do Estado de liberar o acesso a apenas oito jornalistas estrangeiros, quando a passagem se tornasse possível para fins humanitários e esta entrada teria que ser coordenada junto às autoridades competentes com um dia de antecedência á data de entrada requerida pelos jornalistas.

Além disso, a corte endossou a posição do Estado de que os procedimentos estariam “sujeitos a mudanças de acordo com as circunstâncias. No entanto, esperamos que sejam tomadas todas as medidas necessárias, de acordo com os procedimentos estabelecidos e em consideração aos direitos e interesses representados pelos peticionários”.

Um dia depois, a operação terrestre em Gaza teve início. O Estado usou este fato como um fator de mudança nas condições expressas pela justiça, impossibilitando a entrada dos jornalistas na Faixa. Assim, a obrigação de viabilizar a entrada dos jornalistas, que havia sido acordada um dia antes, nunca foi implementada pelo exército israelense.

Em 20 de Janeiro de 2009, após o fim da operação, o Estado se predispôs a garantir o acesso dos jornalistas. Ainda assim, a Foreign Press Association protocolou outra petição requerendo acesso total dos jornalistas, como havia feito em novembro de 2008, pois não estava satisfeita com uma mera declaração de intenção por parte do Estado. No curso dos dias Israel concordou em permitir o acesso, mas apenas para jornalistas estrangeiros.

O Estado violou a primeira decisão?

Na sua segunda decisão, a corte afirmou que não iria julgar a violação de sua decisão anterior por parte do Estado, uma vez que a questão não seria relevante ao caso em questão. O Estado, por sua vez, também alegou que não houve violação da primeira decisão, uma vez que todas as restrições foram impostas apenas por razões de segurança.

Os peticionários não pediram que o Estado fosse confrontado pela corte. Eles ainda não tinham a informação - publicada um dia após a segunda petição ter sido feita pelo jornal Haaretz – revelada por uma carta do Ministério da Defesa endereçada ao assessor jurídico do Gabinete do primeiro-ministro, segundo a qual as condições de segurança não eram impedimentos para a entrada de jornalistas na Faixa de Gaza e que o bloqueio ao acesso dos jornalistas foi mantido por motivo de relações públicas. A questão da segurança teria sido uma desculpa.

Na carta, o conselheiro jurídico do Ministério da Defesa alertava que se o gabinete do primeiro-ministro continuasse a bloquear o acesso dos jornalistas, o Estado poderia se ver em confronto com a corte. Deve-se notar que o Estado israelense nunca negou a existência desta carta ou seu conteúdo (O artigo foi originalmente publicado em hebreu no dia 21 de janeiro de 2009 na edição impressa do Haaretz. Uma tradução parcial foi publicada na edição online do jornal).

Banindo partidos árabes das eleições israelenses

A repressão sobre a minoria palestina em Israel é uma reminiscência da história sócio-política do poder militar israelense e das suas políticas de limpeza étnica. Para destacar apenas um dos muitos problemas representados pela estrutura do autoritário sistema jurídico do país seria necessário lançar uma luz sobre sua própria natureza discriminatória, que visa a erosão da identidade dos palestinos que vivem dentro das fronteiras de Israel, através da proibição da bandeira palestina e da sistemática negação dos direitos à propriedade por parte de palestinos em Israel.

Em 12 de Janeiro de 2009, a Comissão Eleitoral Central (CEC) do parlamento israelense desqualificou a candidatura dos dois partidos árabes - United Arab List-Ta'al e Balad (ou Aliança Democrática Nacional (NDA) - que representam mais de 160 mil eleitores israelenses. Estes partidos se viram proibidos de disputar as eleições para o Knesset (Parlamento), a ser realizada em 10 de Fevereiro de 2009. A desqualificação foi seguida de uma denúncia apresentada ao CEC por Avigdor Lieberman, chefe do partido da extrema-direita Yisrael Beiteinu.

De acordo com a secção 7A da Lei Básica de Israel, o Knesset permite a desqualificação de um partido quando seus objetivos ou os de seus candidatos envolvem: (i) a destruição do Estado de Israel como um Estado judeu e democrático, (ii) incitamento racismo, ou (iii) apoio a um estado inimigo ou de uma organização terrorista durante um conflito. Além disso, a lei foi recentemente alterada para incluir todos aqueles que visitaram um país inimigo nos últimos sete anos antes da apresentação da sua candidatura, como se tais ações pudessem ser vistas como suporte a um conflito armado contra Israel.

A moção de desqualificação foi proposta por partidos de direita e defendidos por uma maioria dos membros da comissão, incluindo membros do partido Kadima e os trabalhistas. Vários membros da CEC equipararam o apoio dos partidos árabes aos palestinos residentes na Faixa de Gaza durante as recentes incursões, ao apoio ao terrorismo. A maior preocupação dos membros da Comissão foi a intenção destes partidos em alterar a definição da constituição de Israel de um Estado "judeu e democrático" para um Estado “democrático de todos os seus cidadãos.".

A Adalah, uma organização não governamental dedicada a proteger os direitos dos palestinos em Israel, submeteu uma petição legal contra a decisão do Knesset.

A principal alegação foi de que a decisão fere os direitos dos candidatos serem eleitos e que impede o direito constitucional dos cidadãos votarem nestes partidos para elegerem seus representantes para o Knesset. Além disso, a ONG alegou que maioria dos membros do CEC levou em conta argumentos irrelevantes, negligenciando a legislação e a jurisprudência existentes. As plataformas destes partidos já haviam sido avaliadas e aprovadas por uma extensa banca de juízes nas eleições anteriores e desde então não houve nenhuma mudança na sua agenda política.

A ONG Adalah salientou que os debates na CEC foram violentos e descontrolados, não permitindo um encaminhamento construtivo sobre a questão e isolando uma das partes. A situação ficou tão fora de controle que Eliezer Rivlin, presidente da Comissão de Justiça declarou: "tendo em conta a situação que foi criada, eu decidi não votar" (Ata dos debates de 12 de Janeiro de 2009, p. 60).

Os representantes das partes não tiveram a oportunidade de apresentar seus argumentos e foram várias vezes interrompidos (ver págs. 20-25 da ata). No curto período de tempo que foi concedido a MK Ahmed Tibi, líder da United Arab List (UALAMC), ele declarou claramente que "os partidos árabes se opõe a uma política e não a um país" e confirmou que as suas agendas políticas buscam uma solução comum para que os dois povos possam "viver em conjunto e não morrer juntos" (pp 31-33 da ata).

Assim, a decisão tomada pela CEC foi tendenciosa e baseada em informações incompletas, colhidas muitas vezes da mídia. Mesmo que as alegações feitas pelos que pediram a desqualificação dos partidos árabes fossem verdadeiras, ainda assim não constituiriam motivo suficiente para esta desqualificação. No entanto, uma maioria esmagadora aprovou a medida: 21 votaram a favor da inelegibilidade do UALAMC, sete membros votaram contra e dois abstiveram, 26 membros votaram a favor da retirada da NDA, três membros votaram contra e um absteve-se.

Em 21 de Janeiro de 2009 o Supremo Tribunal de Israel, com uma bancada de nove juízes, aceitou por unanimidade a petição que invalidou a decisão da CEC e reintegrou o direito de ambos os partidos disputarem a eleição para o Knesset.

Caminhando para um regime autoritário

Uma vez que o Estado comece a dificultar a criação e desenvolvimento de uma opinião pública; uma vez que a mídia é silenciada ou transforma-se em uma ferramenta de propaganda; uma vez que manifestações e partidos políticos são colocados na clandestinidade por se oporem ao governo, a sociedade passa a se transformar lenta mas inexoravelmente, movendo-se ao largo dos regimes democráticos rumo ao autoritarismo.

Os alegados crimes de Guerra cometidos pelo exército israelense na Faixa de Gaza, as violações de direitos básicos de cidadãos israelenses e o resultado das eleições de 2009 são exemplos desta transformação. O que ocorreu nos dois meses que antecederam as eleições em Israel explica, em certo ponto, o voto de muitos israelenses que fizeram de um partido racista a terceira força política em Israel.

O partido de Avigdor Lieberman advoga o banimento dos partidos árabes que clamam por um “Estado democrático para todos os cidadãos” e a repressão do que vê como “traição” por parte dos cidadãos árabes em Israel. De acordo com seu site, o Yisrael Beiteinu reivindica um “patriotismo incondicional” e exige que os cidadãos “afirmem sua lealdade ao Estado e estejam prontos a servir ao exército ou ao Serviço Nacional para poderem se tornar elegíveis para qualquer benefício estatal”.

O partido declara em sua plataforma a intenção de fazer de Israel um Estado puramente judeu e, ao mesmo tempo, “aumentar a Presença Judia em Yehuda, Shomron, (Cijordânia em outras palavras), Golan (Colinas de Golas, território sírio ocupado) e Jerusalém Leste, assim como trabalhar para a separação entre Gaza e Cijordânia".

De acordo com o site do partido, "Idealmente, o lobo habitará com o carneiro, mas nós não vivemos tempos ideais. A história tem mostrado que há um perigoso potencial para a eclosão de conflitos em regiões habitadas por povos que professam religiões diferentes. ...Membros desta minoria (árabe) tendem a servir como agentes terroristas sob o comando da Autoridade Palestina. Muitos já tornaram pública sua falta de lealdade para com o Estado. Esta situação pode levar ao colapso de Israel como um Estado Judeu e democrático e, talvez, como entidade coesa. Além disso, em nossa opinião, a única solução possível é a troca de territórios e de população, com o objetivo de separar as nações judia e árabe respectivamente”.

Lieberman tem feito incitações racistas contra palestinos com nacionalidade israelense. Em uma recente coletiva de imprensa organizada pelo seu partido em Haifa, impediu a participação de jornalistas árabes. Como o Haaretz noticiou em 6 de fevereiro, durante recente visita a escolas no norte de Israel, Lieberman foi saudado com gritos de “morte aos árabes” e propostas de “revocar a nacionalidade israelense dos árabes”. O Haaretz revelou também que Lieberman foi seguidor do movimento Kahane Kach, de extrema-direita, banido em 1988.

Idéias que já foram consideradas extremamente racistas para serem legitimamente expressas são agora parte do discurso político em Israel, enquanto outras opiniões são silenciadas. Trata-se de um sério sinal de que a situação em Israel lembra mais e mais a era do apartheid na África do Sul.

Sharon Weill is a PhD candidate in International Humanitarian Law, University of Geneva, Research Assistant with the Rule of Law in Armed Conflicts project and lecturer in IHL. Valentina Azarov is a Legal Researcher with HaMoked - Center for the defence of the individual and author with the International Law Observer and the Alternative Information Center.

Democracia caudilhesca

Antonio Ledezma, eleito prefeito de Caracas com apoio de uma coligação de pequenos partidos, governa a capital da Venezuela de uma sala alugada em um prédio comercial. Não pode entrar na Prefeitura, invadida por chavistas. Motivo: recusou-se a renovar o contrato de 8 mil funcionários fantasmas.

Frases - LXIX

“Fiquei chocada com aquela loucura apaixonada acontecendo ao ar livre no Brasil, enquanto nós, fãs da música americana, ficávamos presos como ovelhas anestasiadas no curral comercial de shows de estádio, caros e cheios.”
Camille Paglia, referindo-se a Daniela Mercury em entrevista a Veja

Fotojornalismo

Zhao Qing, fotógrafo chinês do China Youth Daily venceu a categoria Sports Features Stories do 2008 World Press Photo of the Year com esta foto dos jojos olímpicos sendo exibidos em um telão, em Beijing.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Plug n’ Play

Plug n’ Play
(Ctrl C, Ctrl V em um tema de M. Bandeira)
Para Ricardo Wagner


Não me venham com uma poesia que não esteja inflamada de morte: onde nem todo antibiótico do mundo possa surtir efeito; não me venham com uma poesia que não esteja intoxicada, que seja análoga às mensagens dos suicidas, aos bilhetes dos seqüestradores e as cartas-bombas dos que resistem

– e que da boca prefira o beijo à mordida.

Não me venham com uma poesia que não esteja em guerra: esses pequenos anúncios sobre biomas familiares, infestados de bactérias da moral conservadora, que veio escondida no bolor das bíblias e na sujeira da cueca dos padres

– e toda a merda sobre o amor adolescente, que culminou em frustração irreversível, visitas aos psiquiatras behavioristas e horas de onanismo diante do espelho embaçado do banheiro.

Não me venham com uma poesia que não esteja de pé, caminhando pela boca negra da madrugada, cheirando o cio dos que sofrem por não estarem se matando para alimentar os donos de __________, o proprietário da ___________, e os arrendatários dos ___________; uma poesia que não esteja agora farejando o fedor do sangue dos que foram mastigados pela fome,
que não possuem sequer a terra debaixo das unhas

– e toda a bobagem umbilical, encharcada de nostalgia hanna-barberiana: o campo de futebol de terra batida e o jardim privado, que deveriam ter sido varridos da história, sobretudo com seus personagens: futuros técnicos e operadores da moenda capitalista, esfomeada por braços.

Não me venham com uma poesia artificial, criada no semi-árido dos dicionários, no glacial coercivo das gramáticas: essas invenções laboratoriais sintetizando o som das caixas registradoras e o canto das máquinas de refrigerantes

– e tudo aquilo que acalma: o verso que não esteja envenenado para matar the dear president; e tudo aquilo de inútil e irrelevante: adultérios bem- omportados que causam sono nos confessionários e levam ao bocejo os telespectadores das novelas das 6; e tudo aquilo de covarde: o poema que pede por favor para que as pessoas tumultuem.

Não me venham com uma poesia que possa ser lida nos salões sem despertar o pânico e instaurar o caos: essa poesia que o rádio transmite sem tirar o sono de ninguém, que tenha uma pátria e atenda por um nome

– e que da cama prefira o sono ao sexo.

Rafael Nolli, mais uma pérola do Poema Dia

Chavez, direita, esquerda e fascismo

No último domingo, 22, postei aqui uma frase de Pedro Doria, pinçada de uma reflexão feita pelo jornalista em seu blog, a respeito das origens autoritárias das constituições de Venezuela, Bolívia e Equador. Dizia Doria: “Há um conceito novo de revolução de esquerda sendo testado na América Latina, uma revolução constitucional idealizada por um ex-fascista tornado comunista.”.

O post recebeu o seguinte comentário do jornalista e blogeiro Pedro Ayres: “É bem engraçado esse tipo de pensamento, além de ser ter como base a opinião de alguém simpático ao direitismo e estar à leguas do que seja a verdade dos fatos e da história política daquele país.”.

Ayres discorda da análise feita por Doria que, por sua vez, inspirou-se em um artigo do jornalista Joshua Partlow, publicado no dia 17 de fevereiro no The Washington Post, e em reportagem do jornal espanhol ABC, de novembro de 2007, segundo a qual a constituição dos três países foi escrita (ou profundamente influenciada) por um grupo de acadêmicos espanhóis – reunidos no Centro de Estudos Político e Sociais (CEPS), da Universidade de Valença - encabeçado por Roberto Viciano Pastor.

Professor de Direito Constitucional na Universidade de Valencia (titular da Cátedra Jean Monnet sobre Instituições Comunitárias), Pastor é ex-militante do grupo fascista Fuerza Nova, que na década de 60 apoiava o ditador Francisco Franco na Espanha.

Não é a primeira vez que o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, se envolve com ideólogos de origem fascista. Basta uma rápida pesquisa no google para relacionar seu nome ao do sociólogo e cientista político argentino Norberto Ceresole.

Ora, perguntará o leitor menos avisado, mas que diabos têm a ver as mudanças políticas na América Latina com fascismo? A pergunta seria bem colocada, visto que todos estes movimentos sociais procuram se alinhar com a esquerda. Não é “socialista” a revolução proposta por Chavez e seus companheiros de Equador e Bolívia?

Benito Mussolini resumiu a doutrina fascista numa regra concisa: "Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado.". Se alguém lembrar dos totalitarismos de esquerda ao ouvir este conceito não poderá ser condenado por isso. De fato, o empoderamento do Estado é comum a várias linhas políticas - de esquerda e direita - que se relacionam pelo seu viés totalitário. Mussolini, Hitler, Franco, Stalin, Perón, Vargas, etc, etc, etc. Todos se alimentaram da leitura fascista na qual o poder se concentra nas mãos do Estado.

Em comum, as três Cartas (Venezuela, Bolívia e Equador) tratam da re-fundação de seus países para corrigir injustiças históricas em torno de um ideal mítico, seja a memória de Simón Bolívar, seja a cultura das populações indígenas locais. Na prática, as Cartas sob orientação do CEPS promovem a concentração de poder nas mãos do Executivo.”, afirma Pedro Doria. Nada mais do que a verdade.

Não ocorre o mesmo na ilha de Fidel, na China de Hu Jintao, na Coréia do Norte de Kim Jong-il?

No artigo “Sombras no avanço da esquerda”, publicado no jornal O Estado de S.Paulo no último dia 22, o sociólogo José de Souza Martins vai à fundo na questão. Segundo ele, as políticas implementadas por esta nova mobilização na América Latina “são demandas de esquerda porque questionam as estruturas sociais injustas, as iniqüidades que se renovam, a economia que não gesta transformações nem viabiliza uma sociedade nova, de desigualdades sociais no mínimo atenuadas”. No entanto, continua Martins, suas respostas são “oriundas desse neo-autoritarismo, que se materializa nos governos da nova esquerda latino-americana”, e “tem sido, na verdade, respostas de direita”.

Não faço, aqui, uma defesa da democracia representativa. Tenho cá minhas dúvidas sobre sua funcionalidade. No entanto, substituí-la por um simulacro de democracia direta de cunho autoritário, como têm feito Chavez, é solução pior.

Penso que continuamos nos digladiando sobre a mesma dicotomia que coloca liberdade e igualdade em campos opostos. Os conceitos de esquerda e de direita, longe de se configurarem em temas desgastados, estão inseridos em todos os debates que travamos. O grande perigo, que se fortaleceu com a destruição dos totalitarismos de esquerda no século passado, é a noção de que esquerda é apenas, única e exclusivamente o fortalecimento do Estado. É este pensamento que permite chamarmos de revolução socialista um regime fascista e condenarmos ao lixo histórico conceitos sócio-políticos que, ao contrário, deveriam estar sendo debatidos diante da crise estrutural que as sociedades contemporâneas vivenciam.

Leia mais sobre este tema:
- Conduzindo a boiada
- Sabedoria popular?
- Economia faria maioria dos brasileiros trocar democracia por ditadura

Frases - LXVII

“Neste processo de reinventar o jornalismo, a primeira coisa que temos que fazer é reconquistar a confiança de leitores e espectadores”.
Pedro Doria

Fotojornalismo

O fotógrafo Mashid Mohadjerin, baseado na Bélgica, venceu a categoria Contemporary Issues Singles do 2008 World Press Photo of the Year contest com esta foto da guarda costeira localizando um barco de refugiados em Lampedusa, Italia.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Poesia

ela se arruma toda na espera do tempo chegar
ela não espera o tempo chegar, se arruma toda
ela chega toda à espera do tempo que arruma
ela o tempo o todo a espera, o nunca.

Belo poema da bela Paula Bueno, bailarina e poetisa que expressa os blogs ser é ser percebido e jardim de delírios.

Comunicar-se é mudar o mundo

Comunicar-se é mudar o mundo”. Belíssimo artigo de Diego Viana sobre o poder da palavra, da comunicação. Viana é uma pérola em meio ao caos da blogsfera. Ler suas reflexões é um prazer que indico sem medo.

“Comunicar” não é “co”-“municar”, mas tornar “comum”. É esse o étimo latino que você procura, o mesmo que está em “comunidade”, “comuna” e “comunismo”. Ergo, quando comunicamos alguma coisa, é porque a tornamos comum

...

Afinal, em “comum” há o tal do “co”. Communis significa “aquilo que pertence a todos”, onde encontramos o “co” e o ablativo de “unus”, ou seja, aquilo que é um, mas é plural. Uma entidade coletiva, que tem sua individualidade, mas só existe enquanto pertence a mais de uma pessoa.

Cinzas

"Alma minha gentil, que te partiste." – Camões

É quarta, calendário, o dia pimba!
Eu caio de supeta na real.
É cinzas e, por Deus, nenhuma guimba
Restou para a paulista do mortal.

O cão não se traveste, cara limpa,
Não brinca de colomba, e sim au-au,
Seus dentes no calcanha nada simpa:
Quedou-se, acabou-se o carnaval...

Tô grogue e tá doendo quase tudo –
Carcaça não é corpo e, menos, alma -,
Preciso de aspirina e de higiene.

No meio da avenida tô, contudo,
E o enredo desse samba não me acalma:
"Camões foi se afogar com Dinamene".

Beleza de poema do parceiro de blogagem Henrique Pimenta

Frases - LXVI

"Nada é mais perigoso do que permitir que um mesmo cidadão permaneça no poder por um longo tempo"
Simón Bolívar

Fotojornalismo


O fotógrafo Walter Astrada venceu a categoria Spot News Singles do 2008 World Press Photo of the Year contest, com esta foto de um menino queniano apavorado ao se deparar com policiais aproximando-se de sua casa em the Kibera, subúrbio de Nairobi.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Frases - LXV

"A minha cama... é uma folha de jornal”
Noel Rosa

Fotojornalismo

Chiba Yasuyoshi, fotógrafo da AFP, baseado no Japão, venceu a categoria News Singles do 2008 World Press Photo of the Year contest com esta foto do conflito tribal no Kenya.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Frases - LXIV

“...nossa política tem o hábito asqueroso de chamar de traidor aqueles que se insubordinam contra os esquemas obscuros...”
Eugênio Bucci

Fotojornalismo

A americana Callie Shell, para a Time, vencedora do 2008 World Press Photo of the Year contest na categpria People in the. Barack Obama e a primeira dama durante a campanha.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Israel condenado por morte de crianças

A morte de 492 crianças na Faixa de Gaza levou o Tribunal Internacional sobre a Infância condenar Israel por crimes de lesa humanidade e genocídio contra a infância palestina. Na sentença, o tribunal, formado por promotores internacionais de 11 países, sendo nove da América Latina, um da África e um da Ásia, denuncia os crimes aberrantes e o avanço sistemático do infanticídio contra as crianças da Faixa de Gaza por parte do exército israelense. Veja o relatório completo aqui.

Frases - LXIII

“Há um conceito novo de revolução de esquerda sendo testado na América Latina, uma revolução constitucional idealizada por um ex-fascista tornado comunista.”
Pedro Doria

Fotojornalismo

Foto vencedora da General News Singles category do 2008 World Press Photo of the Year contest. Autor, o brasileiro Luiz Vasconcelos.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Famílias alternativas

No livro do Genesis, encontramos uma linda e educativa história de amor, procriação e fidelidade. Uma história acerca de um homem que se vê casado com duas irmãs em simultâneo, usa escravas sexuais para ter filhos, tudo com a bênção de um Deus então menos preocupado em montar baias à volta dos seus fiéis. O arranjinho correu tão bem que o bom do Jacó acabou por ter 12 filhos e uma filha. A dúzia de varões deu origem às 12 tribos de Israel, prova de que na base da querida civilização judáico-cristã está afinal um modelo bem “alternativo” de família.

A sacação acima foi pinçada do blog português 5dias.

Sicko: vendendo saúde

Assisti estes dias ao documentário “Sicko”, do cineasta estadunidense Michael Moore. Estarrecedor. O documentário expõe as vísceras do sistema de saúde dos Estados Unidos, de uma forma que nunca vimos nos seriados que pipocam pela TV a cabo. Chocante a máfia que se apoderou da saúde naquele país por meio dos planos de saúde, transformando o setor em comércio puro e simples. O documentário mostra também as vantagens de países como Inglaterra, Canadá, França e Cuba, onde a saúde é gratuita e universal (como propõe o SUS).

Sim, apesar dos problemas e falhas, o SUS é uma tentativa de romper com o modelo estadunidense de saúde adotado pelo Brasil. Há muito a caminhar, mas a realidade inglesa e canadense, especialmente, é um objetivo que pode ser alcançado a longo prazo com o SUS, desde que a visão mercantilista da saúde – em voga ainda hoje no imaginário dos profissionais da área – seja substituído, de fato, por uma visão social.

O documentário traz trechos emocionantes, como a ida de voluntários que atuaram no resgate às vítimas do 11 de setembro (rejeitados pelos planos de saúde estadunidenses) a Cuba (isso mesmo!), onde obtiveram tratamento digno e gratuito.

Outro momento marcante é a entrevista com Tony Benn, antigo deputado britânico, uma aula de cidadania. “Quando surgiu esta idéia de que qualquer cidadão britânico deveria ter direito a cuidados de saúde?”, pergunta Moore, e Benn responde:

Se voltarmos atrás, tudo começou com a democracia. Antes de podermos votar, todo o poder estava nas mãos dos ricos. Se tivesse dinheiro, podia ter cuidados de saúde, educação, prevenir-se para a velhice... E o que a democracia fez foi dar o voto aos pobres, e passou o poder do mercado para a cabine de voto, da carteira, para o voto.

E o que as pessoas disseram foi muito simples, elas disseram: "Na década de 1930, tivemos desemprego em massa, mas não houve desemprego durante a guerra. Se se pode ter emprego pleno por matar Alemães, por que não se pode ter emprego pleno para construir hospitais, para construir escolas, contratando enfermeiras, contratando professores?" Se conseguimos arranjar dinheiro para matar pessoas, conseguimos arranjar dinheiro para ajudar as pessoas. Este panfleto foi lançado em 1948 de uma forma muito direta.

‘O seu novo Serviço Nacional de Saúde começa a 5 de Julho. Ele irá fornecer-lhe todos os cuidados médicos, dentários e de enfermagem. Qualquer pessoa, rica ou pobre, homem, mulher ou criança pode utilizá-lo, qualquer parte dele. Não tem custos, exceto para alguns casos especiais, não há obrigações de seguro, mas não é uma caridade. Estão pagando quando são contribuintes, e irá aliviar as suas preocupações financeiras em tempos de doença.’

De alguma forma, estas poucas palavras resumem tudo.

Luxo e Lixo

O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, comemora hoje seu aniversário de 85 anos com uma festa que terá, entre outros luxos, 2 mil garrafas de champagne Moët & Chandon, 500 garrafas de whisky Johnny Walker Blue Label e Chivas de 22 anos, 8 mil lagostas, 4 mil porções de caviar, 3 mil patos, 10 mil ovos e 8 mil caixas de chocolate Ferrero Rocher.

Enquanto isso, a população sofre com a fome e a falta de condições mínimas de higiene que ajudam a propagar uma epidemia de cólera que já afetou mais de 65 mil pessoas, das quais 3.323 morreram desde agosto do ano passado. A situação de crise humanitária da população do Zimbábue é uma das mais grafes do mundo e a economia é assolada por uma hiperinflação que fez com que 350 milhões de dólares do país valham apenas 1 dólar americano. A taxa de desemprego é de 94% e 7 milhões de pessoas dependem de ajuda humanitária para sobreviver.

Fotojornalismo

O fotógrafo chinês Chen Qinggang para o jornal Hangzhou Daily, flagrou esta imagem de tropas de resgate transportando um sobrevivente do terremoto de Beichuan, em 14 de maio de 2008.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Orientação sexual em MS

As questões de orientação sexual voltaram à pauta em Mato Grosso do Sul nesta semana, por meio de dois episódios: um envolvendo uma escola de samba de Campo Grande e outro a secretaria estadual de Educação.

Com o enredo “O Mundo Adverso do Planeta Cor-de-Rosa”, a escola de samba Unidos do São Francisco pretendia “rasgar a fantasia do preconceito” na avenida, mas teve que mudar o enredo devido à ação da Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS).

Segundo a presidente da entidade, Cris Stefanny, o enredo trazia “erros de terminologia” que poderiam reforçar o preconceito: “O enredo falava de borboleta, enrustido, ala da bolsinha. A maioria dos homossexuais tem trabalho como qualquer cidadão e não vive nas esquinas. Muitos são vítimas sim da exclusão social”, explicou, em entrevista ao site de notícias Midiamax.

Banheiro

A Coordenadoria de Políticas para a Diversidade – ligada a Secretaria Estadual de Educação – orientou, por meio de um comunicado, as escolas da rede estadual de ensino a destinar às estudantes travestis e transgêneros os banheiros dos professores e das meninas. Segundo o documento, “o uso do banheiro masculino pode implicar em risco para estes estudantes, sujeitos ao preconceito”.

A proposta contou com o apoio da ATMS, mas esbarrou na Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (Fetems), cujo presidente, Jaime Teixeira, disse em entrevista ao site de notícias Campo Grande News que o Estado deveria criar banheiros próprios para as travestis. “Não dá para aceitar isso. Tem criança de seis anos que vai usar o mesmo banheiro público... Construir espaços específicos não é garantir a exclusão, mas a privacidade”, opinou.

Pouco depois, a secretaria estadual de Educação anunciou um lapso no comunicado enviado às escolas: “a determinação valia apenas para uso do banheiro dos professores,e não o banheiro das meninas”.

Preconceito

No ano passado, as bancadas católica e evangélica da Câmara Municipal de Campo Grande barraram a votação da concessão do título de utilidade pública para a Associação dos Travestis de Mato Grosso do Sul. Cobri a notícia mostrando, ainda, a omissão da imprensa local. Confira os links a seguir

Leia mais sobre o mesmo tema:
- Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay
- Eles eram mais livres

Futuro do Jornalismo

Vale a pena ler o post “O futuro do jornalismo. (Que futuro?)”, de Pedro Doria. Uma análise contundente da profissão e de seu futuro nestes tempos de incertezas e mudanças de paradigmas.

Quem são os traídos?

Jornalista, professor-doutor da Escola de Comunicações e Artes da USP e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da mesma universidade, Eugênio Bucci fez, no artigo “Considerações éticas sobre a repercussão da entrevista”, a análise mais lúcida e ácida que li até o momento sobre o “desabafo” do senador Jarbas Vasconcelos a respeito do PMDB.

Diz que “embora Jarbas Vasconcelos não tenha ‘entregado’ o nome de ninguém, será chamado de traidor pelos caciques”, e questiona: “...se olharmos essa confusão por outro ângulo, quem é o traidor? É o que denuncia, mesmo que tardiamente, ou o que mercadeja votos, o que acoberta os apaniguados, o que comete crimes em nome de uma tortuosa alegação de justiça social, ou em nome do partido? Quem é o traidor?...”.

Ele mesmo responde poucos parágrafos depois: “Nesse mundo, o antigo deglute a aspiração de emancipação e a devolve como farsa carnívora. Para sobreviver dentro dele, o sujeito precisa reproduzi-lo para além do seu próprio corpo. A isso nós assistimos impassíveis. Sim, somos nós os traídos. Nós, atônitos, atordoados, sem ter para onde correr, sem ter como desativar a besta.”.

E não nos sentimos exatamente desta forma em nosso cotidiano? Condenados a reproduzir as mesmas práticas que criticamos, imersos em um redemoinho no qual tudo que nos resta é vagar de acordo com a corrente? O artigo de Bucci é desafiador na medida em que cobra de todos nós posturas éticas que podem colocar-nos em dificuldades práticas como, por exemplo, manter um emprego.

Como reunir coragem suficiente para ser um traidor?

Olhando o próprio rabo

“A repulsa aos neonazistas europeus não pode servir de pretexto a patriotadas furiosas não muito diferentes do que fazem os hooligans e os skinheads. Todas as nações têm culpas em cartório, também a chocolatada Suíça. Também o Brasil, se revermos o passado com o olhar paraguaio. A justiça histórica faz-se com inteligência e, se possível, com compostura.”

Alberto Dines, no artigo “A brutalidade em estado puro”.

Ah tá, agora entendi - IX

Espera aí, deixa ver se entendi.
Quer dizer que Roberto Viciano Pastor, pai intelectual das constituições autoritárias da Venezuela, Bolívia e Equador, pertenceu ao grupo católico de extrema-direita Fuerza Nueva, que nos anos 60 defendia a ditadura de Franco na Espanha?
Sim.
Ah, ta, agora entendi.

Fotojornalismo

Anthony Suau, USA, para a Time. Economia americana em crise: O Detective Robert Kole precisa se certificar de que os moradores deixaram a residência. Cleveland, Ohio, 26 de março. Vencedora do 2008 World Press Photo of the Year contest

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Ninguém gosta dele

Interessante o artigo "Ninguém gosta dele", do jornalista Dante Filho, publicado no site de notícias sul-mato-grossense Midiamax. Dante trata de um tema complexo, que permeia as relações sociais em todos os níveis: a desqualificação do outro mediante suas diferenças. Vale a leitura.

Jornalistas e assessores

O jornalista Alec Duarte tem levantado uma questão interessante em seu blog, Webmanário. Pergunta ele: “Agora me diz: assessoria de imprensa é jornalismo?”. Ele sustenta que não e eu concordo. Para embasar a opinião, cita os planos da Secretaria de Comunicação da Presidência da República para a agência CDN, ganhadora de licitação da conta de assessoria de comunicação do órgão, que “evidenciam claramente como o trabalho tem tudo a ver com relações públicas _ e quase nada de afinidade com jornalismo”.

Discordo dele, no entanto, quando afirma que trabalhar em assessoria de imprensa é mais fácil que em jornalismo, como atestou no post “A culpa é da assessoria”. Tenho atuado nesta área há três anos e digo que é um trabalho duro como qualquer outro relacionado com a comunicação social. Há especificidades, diferenças, momentos mais tranqüilos e mais complicados, como no jornalismo. Tratei do tema no ano passado no artigo “Jornalismo e assessoria de imprensa: ética e realidade”.

Leia mais sobre este tema:
- Jornalismo e assessoria de imprensa

Irresponsável

Irresponsável como sempre quando o assunto é Oriente Médio, Reinaldo Azevedo continua confundindo palestino com terrorista em comentário sobre recente declaração da líder do Partido Kadima, Tzipi Livni, segundo quem o país precisa desistir de uma parte considerável de território em troca da paz com os palestinos. "Nós precisamos desistir de metade da Terra de Israel", disse ela, durante uma convenção de líderes de organizações judaicas norte-americanas, usando um termo que se refere às fronteiras bíblicas de Israel, que incluíram, durante períodos na Antiguidade, o atual território e a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

Para Azevedo, “Israel não tem de desistir de um palmo de terra enquanto os palestinos não desistirem do terror. Sem isso, é melhor Israel desistir da paz ... em troca de terra.”. Se pensassem assim há quarenta anos atrás os terroristas judeus do Irgun e do Stern (entre eles os ex-primeiros ministros Menachim Begin e Yitzhak Shamir) teriam pressionado o mundo a ceder-lhes a terra dos palestinos?

Assim como a maioria dos judeus não é terrorista, apesar do Irgun e do Stern, a maioria dos palestinos também não o é, apesar do Hamas. No entanto, diante da intolerância, é mais fácil colocar uma venda sobre o passado e olhar apenas para a direção que se quer.

Frases - LXII

“Certa vez, até brinquei com meus colegas de governo, dizendo que a diferença entre jornalismo e propaganda é bem simples. Jornalismo é tudo aquilo que a imprensa divulga e a gente acha ruim. Propaganda é tudo aquilo que a imprensa divulga e a gente gosta.”
Ricardo Kotscho

Fotojornalismo

A partir desta quinta-feira, diariamente, os "trabalhos" no Escrevinhamento serão abertos com fotojornalismo.

Foto: Flora Egécia

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Conduzindo a boiada

O plebiscito é uma ferramenta de democracia direta a partir da qual a população, mediante o voto, pode decidir sobre políticas vitais para o seu futuro. No entanto, aliado a ele, é necessário democratizar a informação para que o voto seja embasado por conhecimento de causa. A máxima segundo a qual “a voz do povo é a voz de Deus”, as artimanhas que atribuem ao povo sabedoria suficiente para decidir sobre todos os campos do conhecimento, são balelas perigosas.

Defendo a democracia direta, mecanismos nos quais a população possa decidir diretamente sobre as coisas que lhe dizem respeito, que lhes permita exercer autoridade sobre o executivo e o legislativo, que de ao povo a chance de ser protagonista de seu destino.

No entanto, sem informação, de nada valem estas ferramentas de empoderamento popular. Que valor tem uma decisão popular se os que decidem não conhecem, de fato, as propostas em questão? Se não podem ser informadas com isenção sobre este ou aquele caminho?

Em uma sociedade dominada pela corrupção ou pelo poder político-econômico, uma consulta popular pode, até mesmo, ser um tiro pela culatra. De posse da máquina pública, com o poder midiático sob seu controle (ou amordaçado), determinadas forças podem, facilmente, manipular os fatos, criar mecanismos onde o autoritarismo se fortaleça sob o disfarce da democracia.

Leia mais sobre este tema:
- Sabedoria popular?

Fascismo

A crise econômica global, que já levou governos na Europa a adotar medidas protecionistas, pode aumentar a xenofobia no continente, disse o sociólogo Marc Jacquemain, em entrevista a Samy Adghirni publicada na edição da Folha de S.Paulo da última segunda-feira. Os sinais estão por toda a parte. Na Alemanha, um confronto entre membros da central sindical DGB e neonazistas causou transtornos e deixou feridos em um posto de gasolina situado à beira de uma rodovia no leste da Alemanha na noite de sábado, 14.

Leia mais sobre este tema:
- Sob a sombra do fascismo

Chomsky: Terrorismo de Estado ameaça a segurança de Israel

O poder dos homens do Hamas permanece intacto e a maior parte dos que sofreram em Gaza é de civis: um resultado positivo, segundo uma doutrina bem difundida, a do terrorismo de Estado. Israel calculou que seria vantajoso parecer que “estava ficando louco”, causando terror largamente desproporcional à população. O recado era claro: deixem de apoiar o Hamas. Enquanto isso, observamos calmamente um evento raro na história, que o velho sociólogo israelense, Baruch Kimmerling, chamou de “politicídio”, o assassinato de uma nação. Confira o artigo de Noam Chomsky.

Sabedoria popular?

No último domingo o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, conseguiu emplacar via referendo popular a proposta de reeleição contínua para presidente da República. As análises políticas sobre o fato são facilmente separadas por um muro ideológico. De um lado, a esquerda mais idealista aponta os avanços da consulta popular que legitimaria a mudança, enquanto a esquerda pragmática assina embaixo das estatizações, do controle sobre a educação e a imprensa além de outras barbaridades. Do outro lado, liberais e direitistas apontam rastros de um populismo-ditatorial que estaria condenando o país ao atraso.

Na agência Carta Maior, Emir Sader aponta os motivos da vitória de Chavez: “A pobreza extrema foi reduzida de 17,1 a 7,9. Cresceu a taxa de escolaridade, que subiu de 40 a 60%. O analfabetismo foi erradicado. A taxa de mortalidade infantil caiu pela metade. O consumo de alimentos subiu 170%”, afirma.

Na última edição da Veja, no entanto, os números do atraso gerados pelos dez anos de Chavez são claros. Entre 1998 e 2008 a produção de Petróleo no país foi reduzida em reduziu 32% (de 3,4 para 2,3 milhões de barris/dia), o investimento externo reduziu 77% (de 4,9 bilhões de dólares para 1,1 bilhão), o número de indústrias reduziu 36% (de 11.117 para 7.093), a inflação aumentou 10% (de 29% para 32%), a criminalidade aumentou 166% (de 18 homicídios - para cada 100 mil habitantes - para 48), o déficit habitacional aumentou 108% (de 1,2 milhão de casas para 2,5 milhões), os gastos militares aumentaram 175% (1,2 bilhão de dólares para 3,3 bilhões), o número de funcionários públicos aumentou 50% (de 1,4 milhão para 2,1 milhões), o emprego na indústria reduziu 23% (de 449.636 empregados para 345.168) e os gastos públicos aumentaram 85% (de 21% do PIB para 39%).

Em seu blog, Conversa Afiada, Paulo Henrique Amorim diz que Chavez é o mais democrático dos líderes latino-americanos. Para corroborar isso, sustenta que, desde que chegou ao poder, o líder venezuelano submeteu-se a 15 consultas populares, que ganhou no voto e que não se pode acusá-lo de ser o único a usar a máquina estatal para convencer os eleitores de caminhar na direção que ele deseja.

“A máquina estatal condiciona a opinião do eleitor? Claro que sim. Como aqui em São Paulo, onde Zé Pedágio e os tucanos usam a máquina para se perpetuar no poder. Chávez está no poder há dez anos. Os tucanos, em São Paulo, estão há 14 anos. A eleição de Chávez é menos legítima do que a Gilberto Taxab?”, questiona o jornalista, esquecendo-se de dizer que o presidente Lula (a quem PHA apóia em seu blog) também tem o hábito de usar a máquina em proveito político próprio – vide o assistencialismo que impera no Governo e a campanha precoce de Dilma Roussef.

O fato é que população escolheu apoiar a reeleição infinita. Cerca de 54% dos venezuelanos votaram pelo “sim”, contra 45% que optaram pelo “não” e 30% preferiram a abstenção. Isso é suficiente para legitimar a opção? Sim. A população votou e fez sua escolha. Tudo o que a população escolhe é isento de erro e deve ser “abençoado” como a melhor opção? Não. A história está repleta de momentos em que, com apoio popular, governos erraram e até mesmo implementaram ações autoritárias e violentas. O nazismo é apenas um destes momentos (Hitler não chegou ao poder por meio de um golpe, mas com o apoio popular).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A pesada mão suíça

A nota a seguir é do jornalista Ricardo Noblat, reproduzo:

“Há 20 anos, um brasileiro ilegal na Suíça foi preso por falsificar cartões de crédito. Saiu da prisão tetraplégico – segundo ele, de tanto apanhar, segundo a polícia, de tanto bater com a cabeça na parede. No final dos anos 90, o mordomo de Celso Lafer, embaixador do Brasil na Suíça, foi preso por engano. Apanhou. Depois, recebeu uma condecoração e visto permanente para trabalhar na Suíça. Na semana passada, os dois episódios foram relembrados nos corredores do Itamaraty devido à má vontade inicial da polícia suíça com a advogada Paula Oliveira.”

Jornalismo e assessoria de imprensa

Interessante o artigo “Imprensa: os dois lados do balcão”, de Ricardo Kotscho. Nele, o experiente jornalista analisa as diferenças e semelhanças entre jornalismo e assessoria de imprensa.

Segundo Kotscho, ambas as atividades são jornalismo: “...tudo tem que ser bem feito, tem que ser honesto _ e não importa se estou trabalhando numa redação ou numa assessoria de imprensa... A matéria prima é a mesma: a informação de qualidade, quer dizer, bem checada e confiável para divulgação... Caso contrário, meu trabalho não serviria nem para o governo, nem para a imprensa.”, afirma.

Diz ainda que quando ocupou a secretaria de Imprensa e Divulgação do Governo Lula, nunca tirou jornalistas “do caminho certo, mesmo quando a pauta era inconveniente ao governo”, mas completa em seguida: “Posso não ter sido muito eficiente neste meu papel de assessor-repórter, não fornecendo todas as informações que eles queriam, mas posso garantir a vocês que nunca passei uma informação errada a nenhum deles.”.

Kotscho diz ainda que o “jornalismo é, por natureza, uma atividade crítica, investigativa, que procura denunciar o que há de errado para que seja consertado”, e logo depois atesta: “Antes que me perguntem se no governo poderia fornecer todas as informações de que dispunha, inclusive as que eram contra os interesses do governo, já vou logo respondendo que não.”.

Falei sobre o tema, aqui no Escrevinhamentos, no ano passado, no artigo “Jornalismo e assessoria de imprensa: ética e realidade”. Discordo de Kotscho. Jornalismo e assessoria de imprensa não são a mesma coisa (isso não fica claro nas suas próprias afirmações). Em Jornalismo espera-se que a notícia tenha isenção e transparência. Em assessoria de imprensa isenção e transparência são filtradas sempre pelo interesse do patrão.

Em seu raciocínio Kotscho diz: “Também nunca escrevi nada contra os interesses do Estadão, do JB, da revista Istoé, da Folha, da Globo, da Bandeirantes, do SBT, da revista Época, nem de nenhum outro veículo onde já tenha trabalhado.”.

Ora, não o fez, pois, diferentemente do que se ensina das universidades, a ética é um objetivo a ser alcançado e não um parâmetro a ser seguido de olhos fechados. Escrever contra o interesse do patrão é assinar bilhete azul, em qualquer lugar. Cabe a cada um consultar sua consciência (e as contas a serem pagas no final do mês) e tomar a decisão que melhor lhe caber.

Em assessoria de imprensa este conflito inexiste. Não é função de assessor de imprensa se digladiar moralmente sobre se um fato que prejudica seu patrão deve ou não ser divulgado. Ele, simplesmente, não deve.

Frases - LXI

“O PMDB é um condomínio de interesses regionais e dificilmente marchará unido na eleição presidencial, mesmo que indique o vice em uma das chapas”.
Fernando Pimentel

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O que todo mundo já sabia

O senador Jarbas Vasconcelos, 66, ex-governador de Pernambuco e fundador do antigo MDB soltou o verbo neste final de semana, em entrevista publicada na revista Veja. Sem papas na língua, “detonou” sua legenda, o PMDB, desfiando críticas ácidas que são correntes no meio político, mas que nunca haviam sido expostas de forma tão clara. "Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção", alfinetou.

Em meio à política nenhum ponto é dado sem nó. Vasconcelos está isolado no partido e olha de soslaio para a possibilidade de se viabilizar sem ter de deixar a legenda que ajudou a fundar. Pensa em ser vice na chapa de José Serra. Isso não tira o mérito do “desabafo” feito ao jornalista Otávio Cabral, cujos momentos mais bombásticos você confere a seguir:

“Ele (Renan Calheiros) não tem nenhuma condição moral ou política para ser senador, quanto mais para liderar qualquer partido. Renan é o maior beneficiário desse quadro político de mediocridade em que os escândalos não incomodam mais e acabam se incorporando à paisagem.”

“Hoje, o PMDB é um partido sem bandeiras, sem propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos.”

“(o PMDB quer cargos) Para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral. A corrupção está impregnada em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção.”

“Com o desenrolar do primeiro mandato, diante dos sucessivos escândalos, percebi que Lula não tinha nenhum compromisso com reformas ou com ética. Também não fez reforma tributária, não completou a reforma da Previdência nem a reforma trabalhista. Então eu acho que já foram seis anos perdidos. O mundo passou por uma fase áurea, de bonança, de desenvolvimento, e Lula não conseguiu tirar proveito disso.”

“O marketing e o assistencialismo de Lula conseguem mexer com o país inteiro. Imagine isso no Nordeste, que é a região mais pobre. Imagine em Pernambuco, que é a terra dele. Ele fez essa opção clara pelo assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo.”

“Há um restaurante que eu frequento há mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife. Na semana passada cheguei lá e não encontrei o garçom que sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele conseguiu uma bolsa para ele e outra para o filho e desistiu de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família. A situação imediata do nordestino melhorou, mas a miséria social permanece.”

Poesia

"Meu coração está deserto
Mas não desconhece mar."

Primeiro verso do poema Mar de Homens, de Tiago Tenório, mais uma pérola entre as jóias do projeto Poema Dia.

Frases - LX

“Edmar Moreira foi esmagado porque é apenas uma lagartixa. Sarney é um dinossauro. Vai sobreviver porque não é único.”
Alberto Dines

domingo, 15 de fevereiro de 2009

De volta

Graciliano Rocha, jornalista de primeira que trocou terras pantaneiras por bombacha e chimarrão, para representar a Folha de S.Paulo em Porto Alegre, retomou seu blog depois de um bom tempo de afastamento. Recomendo a leitura.

Adote um animal

Quem gosta de animais sofre ao vê-los abandonados pelas ruas. Há quem endureça o coração, feche os olhos e ande a passos rápidos para não permitir que a compaixão emerja. Há quem ponha a mão na massa e tente fazer algo de concreto para atenuar o sofrimento destas criaturas que nos oferecem amor incondicional. Entre estes está o jornalista Sidney Rezende e seu blog Vira Lata. O Escrevinhamentos acaba de inseririr em sua barra lateral o selo do blog, cujo objetivo é ajudar na adoção de animais abandonados e incentivar esta prática.

Alguns links do blog:
Lista de animais para doação
Amor incondicional
Saiba como ajudar os animais
Clube dos 500

Por que para os palestinos seria interessante ser cidadão de Israel

A possibilidade da criação de um Estado binacional reunindo judeus e palestinos, como saída para o conflito na região, tão bem fundamentada no ensaio do filósofo Vladimir Safatle - publicado recentemente o UOL (e também aqui) – é parcialmente observada no excelente artigo do jornalista Gustavo Chacra, intitulado “Por que para os palestinos seria interessante ser cidadão de Israel”. Chacra está no Oriente Médio, de onde escreve para o jornal O Estado de São Paulo.

Frases - LIX

"Quem vota no PMDB alimenta a máquina PMDB e é a máquina PMDB que mantem o poder de José Sarney no Brasil."
Pedro Doria

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Quentinha

Reflexo da sociedade, a imprensa está paralisada diante do esfacelamento social. Assim como nos acostumamos à violência, de modo que, apenas quando ela ocorre conosco ou com os nossos familiares sentimos, de fato, seu impacto; a imprensa também está perdendo a sensibilidade, deixando de olhar com mais cuidado para os “detalhes” que permeiam os acontecimentos que regem a vida em sociedade e sua deterioração. Este fato foi abordado com maestria nesta semana pelo professor Muniz Sodré, no artigo “A lógica dos choques de desordem”, ao analisar um “fato corriqueiro” na guerra urbana carioca: o roubo de uma quentinha.

Professores nota zero

Cerca de 1.500 professores que tiraram zero em uma prova de seleção promovida pelo governo estadual de São Paulo poderão lecionar neste ano na rede de ensino. O exame foi promovido pela Secretaria da Educação do governo José Serra (PSDB) com a intenção de selecionar 100 mil docentes temporários. 214 mil pessoas se candidataram. Os 1.500 professores "nota zero" vão poder dar aulas porque uma decisão liminar (provisória) da 13ª Vara da Fazenda Pública suspendeu os resultados do exame, de 25 testes, realizado em dezembro passado.

Sob a sombra do fascismo

"Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado."
Benito Mussolini


A suposta agressão promovida por três jovens skinheads neonazistas à advogada brasileira Paula Oliveira, 26, funcionária em Zurique, na Suiça, do maior conglomerado econômico da Dinamarca - A P Moeller/Maersk, líder mundial em transporte marítimo de contêineres – é mais um tentáculo do monstro do fascismo, que emerge novamente das profundezas da história. O renascimento desta ideologia repugnante, que coloca os interesses do Estado sobre os interesses do indivíduo fomentando o racismo e a xenofobia, está ocorrendo sem que se tome qualquer iniciativa para esmagá-la no berço.

No artigo “O fantasma do fascismo”, publicado no último dia três, no Observatório da Imprensa, o jornalista Luciano Martins Costa expressa o temor de que o monstro que assolou o mundo por décadas no século passado, inspirou ditadores de esquerda e de direita e levou a morte de milhões de seres humanos esteja novamente abrindo suas mandíbulas.

O suposto ataque à Paula Oliveira expôs uma faceta macabra da Suíça. O País, que é conhecido por sua neutralidade, parece estar sob as lentes do filósofo Max Weber, para quem “neutro é aquele que já optou pelo lado do mais forte”.

Tenha sido o ataque verídico ou não, o fato é que a Suiça está desenvolvendo fama de país perigoso para estrangeiros. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, uma pesquisa divulgada em junho de 2006 mostra que um terço dos suíços é declaradamente xenófobo. “Doudou Diène, relator especial da ONU para o racismo, afirmou recentemente que o racismo é uma grave questão na Suíça, principalmente porque as autoridades locais não acreditam que o problema seja sério”, afirma a reportagem.

Também em entrevista ao Estadão, a diretora da Comissão Federal Suíça contra o Racismo, Doris Ansgt, comentou o comportamento da polícia suiça em seu trato com casos de racismo: "A polícia suíça é parcialmente cega quando se trata de casos de extremistas e de neonazistas”. Segundo ela, há de fato um mal-estar no país em relação à xenofobia: “O comportamento de jovens extremistas contra os estrangeiros é um reflexo dos sentimentos que vive a sociedade suíça".

Irene Zwentsch, brasileira que trabalha para o Conselho Brasil-Suíça - entidade com sede na Suiça e que ajuda a integração dos brasileiros vai além: "O público em geral não se importa com as vítimas dos extremistas. Qualquer um que se pareça estrangeiro ou que tenha pele escura tem razão de ter medo da violência. Racismo, antissemitismo, islamofobia são inerentes às ideologias de extrema direita".

Além dos Alpes

Levantamento feito por duas juntas de Direitos Humanos da Comissão Europeia, em Viena e Estrasburgo, baseando-se em dados recentes, apontou que o número de denúncias de violência racial aumentou drasticamente em oito dos 11 países-membros da União Europeia desde os atentados de 11 de Setembro e o início da chamada "Guerra ao Terror".

Os relatórios mostram que o número de crimes antissemitas cresceu no Reino Unido e na França, enquanto outras manifestações de violência de extrema direita são cada vez mais frequentes na Alemanha. A Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia, com sede em Viena, na Áustria, apontou – por meio de dados atualizados até 2006 – que as denúncias, investigações e crimes raciais e xenofóbicos aumentaram na Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Áustria, Irlanda, Reino Unido, França e Eslováquia.

Segundo os levantamentos, o País com maior númerio de crimes raciais e ligados a xenofobia é a Alemanha, com 18,1 mil crimes cometidos em 2006, alta de 5,3% na década. É a Dinamarca, país que acolhe grande contingentes de novos imigrantes, apresenta, no entanto, os maiores índices porcentuais. Lá, incidentes do gênero tornaram-se 59,1% mais comuns entre 2000 e 2006. Entre as nações mais populosas do bloco, a França, com aumento de 27,7%, e o Reino Unido, de 27,3%, também foram destaques negativos.

Para Luciano Costa, porém, “o caso mais grave acontece na Itália, onde o governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi quer estimular os médicos a denunciar pacientes que sejam imigrantes em situação irregular.”. Em seu artigo, o jornalista destaca estratégias do governo italiano que muito se assemelham ao que as milícias fascistas que perseguiam opositores, judeus, homossexuais e outros desafetos do regime de Mussolini faziam nos anos 30 e 40: “... o governo italiano autoriza a criação de ‘patrulhas de cidadãos para supostamente controlar a segurança nas ruas.”.

A medida foi aprovado pelo Senado italiano com um placar de 156 votos a favor, 132 contra e uma abstenção. Ela faz parte da Lei de Segurança também aprovada pelo governo e reduz os médicos a condição de delatores. A Lei também estabelece pena de quatro anos de prisão para imigrantes com ordem de expulsão, mas que mesmo assim permanecem na Itália; eleva a taxa para permissão de residência no país de 80 para 200 euros por ano e taxa oficialmente de “vagabundos” todos os imigrantes “sem teto”.

Palco de intensos protestos nas últimas semanas, o Reino Unido também demonstrou tendências xenófobas nos últimos dias quando centenas de trabalhadores britânicos protestaram carregando placas cujos dizeres pediam “empregos do Reino Unido para trabalhadores britânicos”. Uma greve envolvendo trabalhadores em uma refinaria, cujos postos eram ocupados por italianos e portugueses, foi o estopim da crise. Sindicatos protestaram contra o governo, dizendo que trabalhadores nativos estavam sendo minados por estrangeiros com salários mais baixos. O primeiro ministro inglês, Gordon Brown, ao invés de apaziguar os ânimos, repetiu o grito de guerra dos grevistas, acirrando ainda mais o clima de confronto.

Vale lembrar notícia que pipocou nesta semana pela internet, segundo a qual o Príncipe Harry vai frequentar um curso anti-xenofobia promovido pelo exército inglês. Segundo o jornal Daily Mail a decisão surgiu depois dalgumas gaffes racistas do filho mais novo do Príncipe Charles terem sido reveladas ao público.

Na Espanha, onde o desemprego chega a quase 16%, os estrangeiros também têm sofrido. Segundo Ivan Briscoe, do Centro de Pesquisa para a Paz, Fundação para as Relações Internacionais e o Diálogo Externo, na Espanha, por trabalharem com menos garantias, os estrangeiros ficam no front do desemprego.

Parelelos

Em reportagem publicada no JB Online, Antônio Inácio Andrioli, professor do Instituto de Sociologia da Universidade Johannes Kepler, de Linz, na Áustria, considerou que há paralelos entre o que ocorre hoje na Europa e a crise de 1929, que possibilitou a ascensão do nazismo.

O aumento da desigualdade social e do desemprego, as principais conseqüências visíveis do desmonte das políticas de privatização das últimas décadas, contribuiu para produzir um antigo fenômeno social: a xenofobia. Em períodos marcados pela recessão e pela ausência de movimentos e utopias revolucionários, abre-se o espaço para a interpretação simplista e populista da realidade, que culpa os estrangeiros pelos problemas sociais. A ausência de alternativas políticas e o conseqüente sentimento de impotência e desesperança social são um terreno fértil para o aumento da xenofobia”, afirmou.

O primeiro ministro espanhol, José Luís Rodríguez Zapatero, pediu nesta semana que a Europa esteja “unida e forte para combater sintomas inquietantes de nacionalismo, xenofobia e tentações protecionistas”. No entanto, de forma geral, esta não parece ser uma preocupação dos dirigentes europeus que, em junho de 2008, por meio do Parlamento Europeu, aprovaram uma diretiva de retorno de imigrantes ilegais, que entrará em vigor em 2010 e que pode gerar a expulsão de cerca de oito milhões de imigrantes irregulares da Europa, grande parte deles latino-americanos.

Tempestade em copo d´água?

Este tipo de política pode parecer sem importância. Há quem possa argumentar que é legítima e que os governantes devem defender os interesses de seus cidadãos. Ocorre que estamos falando de algo mais completo, que tem origem na intolerância gerada pela crise e que não é coisa nova. A história já viu situações similares no passado e os resultados são sempre funestos: para dar vazão à insatisfação causada por crises econômicas, populações nativas atacam gente de cor, convicção ou credo diverso dos seus como se isso fosse solucionar o problema.

A xenofobia e o racismo são primos indissociáveis e as reações que suscitam atingem o seio das sociedades onde proliferam. É o caso dos Estados Unidos, por exemplo, onde o anúncio feito pela Microsoft no último dia 22, de que demitiria mais de cinco mil funcionários por causa da crise, fez com que o senador republicano Chuck Grassley, de Iowa, escrevesse uma carta à empresa pedindo que seu executivo-chefe dispensasse primeiro trabalhadores estrangeiros com visto H-1B (de trabalho qualificado temporário): "A Microsoft tem uma obrigação moral de proteger os trabalhadores americanos ao priorizar seus empregos durante esses tempos difíceis", disse.

Organizações civis como a Coalizão para o Futuro do Trabalhador Americano (CFAW) - que reúne grupos anti-imigração – seguem na mesma linha. A CFAW iniciou neste ano uma campanha de TV associando o desemprego aos trabalhadores estrangeiros, como os com o visto H-1B.

Do outro lado do mundo, em Israel, o fortalecimento do partido neo-fascista Yisrael Beitenum, liderado por Avigdor Lieberman, com seus seguidores que entoam gritos de "morte aos árabes", é outro exemplo de como a intolerância pode proliferar diante de nossos olhos. Contraposta aos radicais islâmicos que, da mesma forma entoam cânticos pela destruição de Israel, a guinada política israelense à direita é temerosa.

Até nas redes sociais o fenômeno é identificável. As denúncias de xenofobia no site de relacionamentos Orkut, por exemplo, cresceram mais de 150% no segundo semestre de 2008 na comparação com os seis primeiros meses do ano, segundo a ONG SaferNet Brasil, que defende os direitos humanos na web.

No primeiro semestre do ano passado, a ONG recebeu 706 denúncias de crimes relacionados à xenofobia, contra 1.876 recebidas no segundo semestre, o que corresponde a um crescimento de 165,7%. O segundo maior aumento foi nos casos de homofobia, com 47,3% - passou de 567 denúncias (primeiro semestre de 2008) para 835 (segundo semestre). Na mesma comparação, as denúncias de neonazismo cresceram 28,2% e as de apologia e incitação a crimes contra a vida, 18,5%.

São as sementes do fascismo germinando, devagar, mas ininterruptamente.

Finalmente, vale dizer que a história caminha sem que estejamos dando a real importância aos fatos. Olhando o passado, nos chocamos hoje com o que este tipo de atitude permitiu: os holocaustos armênio e judeu, as grandes guerras (e as pequenas), os campos da fome de Stalin e as genocidas ditaduras comunistas do Oriente, as barbáries no continente africano etc. Olhando para trás nos perguntamos como foi possível às massas terem seguido Mussolini, Hitler, Stalin. Como permitiram?

Assim como aquelas pessoas deixaram a irracionalidade guiar seus desatinos, nada impede que, hoje, outros povos façam o mesmo. É fácil esquecermos os precedentes abertos, imaginando que estamos livres de tais barbaridades no futuro, mas o fato é que os crimes do passado tiveram início com os mesmos argumentos que hoje vemos proferidos por líderes mundiais: intolerância, ódio, xenofobia.

Quando um primeiro ministro inglês – país que lutou contra o nazismo e que sofreu as conseqüências desta opção – levanta a voz contra trabalhadores estrangeiros, devemos parar para pensar.

Todas as barbaridades começam com uma idéia que a muitos parece aceitável.

Frases - LVIII

“Um dos golpes mais baixos (e mais idiotas) que alguém pode fazer durante uma discussão é criticar a gramática, ortografia ou sintaxe do outro.”
Alex Castro

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Pedra e telhado

Belo raciocínio do jornalista Otávio Cabral na Veja desta semana, sobre o comentário do deputado Cândido Vaccarezza (PT), segundo quem “É preciso ir devagar e separar fatos e denúncias contra o corregedor”. Ele se referia ao deputado Edmar Moreira (DEM), o dono do castelo, que renunciou à corregedoria da Câmara.

Diz Cabral: “Nos tempos de pedra na mão, o petista seria capaz de fazer uma greve de fome acorrentado a uma árvore no meio da Esplanada dos Ministérios só para protestar contra a escolha do novo corregedor. Mas quando se é telhado, a visão fica turva, e torna-se bastante aceitável que um corregedor possua um castelo, e melhor ainda se o reino dele for o da fantasia”.

Terror?

...a opção que a esquerda italiana fez pela luta armada foi um erro político crasso. A Itália não passou por uma ditadura como o Brasil. Aqui, nós nos envolvemos na luta armada porque enfrentávamos um governo ilegítimo, que tomou o poder à força. Podemos ter cometido um erro político, mas nossa ação era legitimamente justificável. Na Europa não, lá ninguém rasgou a Constituição. Optaram pela luta armada em um período de democracia, o que, por si só, é moralmente condenável”.

O comentário é do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, em entrevista à Veja desta semana. O tema é interessante, a diferença entre terroristas e guerrilheiros. Escrevi sobre ele estes dias: veja aqui.

Israel não atacou escola da ONU, mas continua oprimindo palestinos

Antes tarde do que nunca. Sinto-me na obrigação de colaborar com a disseminação desta notícia datada do último dia 4 e que só agora encontrei tempo de postar: “Onu recua e diz que Israel não atacou escola na Faixa de Gaza”.

A notícia, que circulou durante o ataque israelense sobre a Faixa de Gaza correu o mundo como exemplo dos horrores perpetrados pelo exército de Israel aos palestinos. De acordo com a ONU os disparos não atingiram a escola, mas uma rua próxima a ela.

No entanto, diferentemente dos que insistem em confundir a opinião pública sobre a diferença entre o direito dos Palestinos sobre Gaza e Cijordânia e a ação de extremistas islâmicos, devo lembrar que a notícia não inocenta Israel de outros atos bárbaros, como o uso de fósforo branco em áreas povoadas, a morte de civis inocentes e a política de ocupação sistemática dos territórios palestinos que apenas serve para entregá-los de mão beijada para os fundamentalistas.

Fósforo Branco

Aproveitando o tema, vale ler a entrevista de Luiz Carlos Azenha com Marc Garlasco, analista militar sênior da Human Rights Watch, uma organização não-governamental, independente que se dedica há 30 anos à defesa e à proteção dos direitos humanos. Ele acompanha em Gaza as investigações sobre a guerra.

Frases - LVII

“Entendi que fosse meu dever praticar o jornalismo em um país submetido à ditadura imposta pela classe dominante com a inestimável ajuda dos seus gendarmes, e que se uma única, escassa linha da minha escrita sobrasse para o futuro, teria conseguido conferir um mínimo de importância à minha profissão. Faço questão de sublinhar que não agia desta maneira pelo Brasil, e sim por mim mesmo.”
Mino Carta

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Racistas podem comandar o governo em Israel

Macabro o horizonte que se revela nas bandas do Oriente Médio. Após as eleições desta semana, a indefinição pelo poder poderá colocar nas mãos da extrema direita um poder perigoso. O partido centrista Kadima, liderado pela chanceler Tzipi Livni, obteve a maior bancada no Parlamento, com 28 deputados, seguido pelo conservador Likud, de Benjamin Netaniahu, com 27 cadeiras.

O equilíbrio poderá deixar nas mãos dos racistas xenófobos do partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu a definição do comando do Governo. Com 15 deputados, a legenda liderada por Avigdor Lieberman já se movimenta para isso. O bloco de partidos de direita e extrema-direita (seculares e religiosos), com 65/66 cadeiras, é bem mais amplo do que as agremiações de centro e esquerda (54/55 cadeiras). O Likud pode apostar neste “blocão direitista”, o que seria péssimo para qualquer esperança de paz na região, além de contrário à tendência de Washington.

Diante deste quadro, começa-se a pensar no “menos pior”, E ele seria uma coalizão entre Kadima, Likud e o Partido Trabalhista, com um esquema rotativo de poder entre Livni e Netanyahu, o que vem ocorrendo desde os anos 80 entre Likud e Partido Trabalhista.

Poema Dia

O projeto Poema Dia continua navegando pelos bravios mares da poesia. Nossa anárquica-nau venceu tempestades, driblou rochedos e mantém-se deslizando rumo ao desconhecido. Neste mês ampliamos nossa tripulação escalando dois poetas por dia. De 28 remadores passamos para 56, um aumento quantitativo e, principalmente, qualitativo. Muita gente boa uniu forças aos veteranos neste projeto que nasceu de uma brincadeira e, agora, ganha vida própria. Para quem gosta de poesia, trata-se de uma para obrigatória.

Novos de Ferreira Gullar

Desordem

meu assunto por enquanto é a desordem
o que se nega
à fala

o que escapa
ao acurado apuro
do dizer
a borra
a sobra
a escória
a incúria
o não-caber

ou talvez
pior dizendo
o que a linguagem
não disse
por não dizer
porque
por mais que diga
e porque disse
sempre restará
no dito o mudo
o por dizer
já que não é da linguagem
dizer tudo

ou é
se se
entender
que
o que foi dito
é o que é
e por isso
nada há mais por dizer

portanto
o meu assunto
é o não-dito não
o sublime indizível
mas o fortuito
e possível
de ser dito
e não o é
por descuido
ou por intuito
já que
somente a própria coisa
se diz toda
(por ser muda)

é próprio da palavra
não dizer
ou
melhor dizendo
só dizer

a palavra
é o não ser
isto porque
a coisa
(o ser)
repousa
fora de toda
fala
ou ordem sintática

e o dito (a
não-coisa) é só
gramática
o jasmim, por exemplo,
é um sistema
como a aranha
(diferente do poema)
o perfume
é um tipo de desordem
a que o olfato
põe ordem
e sorve
mas o que ele diz
excede à ordem
do falar
por isso
que

desordenando
a escrita
talvez se diga
aquela perfunctória
ordem
inaudita

uma pêra
também
funciona
como máquina
viva
enquanto quando
podre
entra ela (o sistema)
em desordem:
instala-se a anarquia
dos ácidos
e a polpa se desfaz
em tumulto
e diz
assim
bem mais do que dizia
ao extravasar
o dizer

dir-se-ia
então
que
para dizer
a desordem
da fruta
teria a fala
— como a pêra —
que se desfazer?
que de certo
modo
apodrecer?

mas a fala
é só rumor
e idéia
não exala
odor
(como a pêra)
pela casa inteira

a fala, meu amor,
não fede
nem cheira


Dentro

“O um é um e não é dois”
Parmênides, de Platão

estamos dentro de um dentro
que não tem fora

e não tem fora porque
o dentro é tudo o que há

e por ser tudo
é o todo:
tem tudo dentro de si

até mesmo o fora se,
por hipótese,
se admitisse existir


Insônia

É alta madrugada. A culpa
joga dama comigo
no entressono. Cismo
que ela me engana
mas não bispo o seu logro.
Ganho? Perco? Blefo?
Afinal, qual de nós rouba no jogo?


Uma Corola

Em algum lugar
esplende uma corola
de cor vermelho-queimado
metálica

Não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
da sala
ou na janela

Não cheira
não atrai abelhas
não murchará

apenas fulge
em alguma parte algumada vida.

Bom senso e convicção

O debate de idéias é vital para a democracia. Saber expor sua opinião e ouvir a opinião alheia é premissa básica de civilidade. Há momentos, no entanto, em que é preciso um exercício de paciência e humildade para não ceder à tentação de mandar às favas quem pisa sobre questões básicas de humanidade e bom senso, preferindo ofertar com as mãos cheias porções de desfaçatez.

Lendo os blogs de Pedro Doria e Reinaldo Azevedo neste final de semana, pude traçar uma clara linha divisória entre a boa intenção e o puro espírito de porco.

No dia 29 de janeiro, na postagem “Aqueles próximos de nós”, Doria mostra o motivo pelo qual seu blog é ponto de parada obrigatória dos que querem informação e sagacidade. Ao comentar a tendência em radicalizar o discurso e transformá-lo em um castelo argumentativo a ser defendido com unhas e dentes diante dos que empunham contra nós as armas do contraditório, ele aponta o caminho para, no mínimo, a adoção de uma postura de respeito mútuo que deve permear as relações humanas.

Podemos e devemos ter opiniões diferentes. A conversa tem melhor qualidade porque opiniões diferentes convivem. Podemos nos emocionar. Podemos defender nossos pontos de vista apaixonadamente. Mas devemos sempre ter em mente que aqueles do outro lado da discussão também têm opiniões, também têm paixões. E que, às vezes, estão muito mais próximos da realidade do que imaginamos.”, afirma.

Alguns dias depois, na postagem “VEJA 2 - Reinaldo Azevedo - "Um homem sem (certas) qualidades", o colunista do semanário mais amado e odiado do Brasil escolhe a contramão e desanca a nos oferecer seu estilo desdenhoso e pouco afeito ao diálogo.

Falando sobre as reações contrárias que recebe em relação as suas opiniões sobre o conflito entre Israel e palestinos, Azevedo chuta os argumentos e se encastela sobre a colina avisando de longe que ninguém se aproxime com ramos de oliveira. E, pior, classifica como “convicção” sua dificuldade para dialogar. Diz ele – referindo-se aos que ponderam que palestino e terrorista são duas coisas diferentes:

Durante um bom tempo, a convicção viverá dias de desprestígio, e a afirmação que não apelar a zonas de ambiguidade e teorias da incerteza, para afetar tolerância e paixão pela especulação intelectual, será tachada de radical – e o radicalismo, claro, deve ser monopólio dos nossos inimigos... Tudo nos será permitido, exceto ter algumas velhas certezas. Você mesmo, leitor, deve ficar atento à orientação moral máxima destes tempos: ‘A virtude está no meio’ – ainda que esse ‘meio’, de fato, tenha lado. Fuja se alguém o ameaçar com uma moeda: ‘Cara ou coroa?’. Ele é um sabotador da virtude. Na praia, quando o sorveteiro lhe perguntar o sabor do picolé, pense no que você pode perder ao ser obrigado a fazer uma escolha. Opte pela incerteza e responda: ‘Qualquer um’. Diante de um sorveteiro, do aborto, dos foguetes do Hamas, da eutanásia, da comida japonesa, da pena de morte, do pagode, do Bolero de Ravel ou da ditadura cubana, prefira a dúvida que faz a fama dos sensíveis à certeza que faz a má fama dos dogmáticos. Não seja um lobo da estepe. Não provoque os outros com suas convicções. Não seja desagradável!”.

Azevedo é um mestre da retórica. O desavisado que o lê corre sério risco de ser cooptado e levantar os olhos pensando: “Não é que ele está certo?”. Mas em suas análises não é difícil encontrar o fio de linha que leva ao novelo da intolerância. Ainda comparando-o com Pedro Doria, é possível exemplificar isso com muita consistência. O assunto, o Irã.

Enquanto Doria faz uma leitura aprofundada e isenta de preconceitos sobre a situação irianiana no artigo “O Irã entre Ahmadinejad e Khatami”, Azevedo apela para o que sabe fazer: diatribes histéricas de quem elegeu um inimigo e transformou-o em meio de vida. Os artigos “Ahmadinejad, os EUA e a lógica” e “Jimmy Carter, o cretino filoterrorista” são bons exemplos de como a agressão em forma de palavra escrita, quando exercida por quem domina a arma, pode ser perigosa e nefasta aos mais simples esforços de entendimento e de desnudamento do que, de fato, ocorre a nossa volta.