Semana On

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Pedra e telhado

Belo raciocínio do jornalista Otávio Cabral na Veja desta semana, sobre o comentário do deputado Cândido Vaccarezza (PT), segundo quem “É preciso ir devagar e separar fatos e denúncias contra o corregedor”. Ele se referia ao deputado Edmar Moreira (DEM), o dono do castelo, que renunciou à corregedoria da Câmara.

Diz Cabral: “Nos tempos de pedra na mão, o petista seria capaz de fazer uma greve de fome acorrentado a uma árvore no meio da Esplanada dos Ministérios só para protestar contra a escolha do novo corregedor. Mas quando se é telhado, a visão fica turva, e torna-se bastante aceitável que um corregedor possua um castelo, e melhor ainda se o reino dele for o da fantasia”.

2 comentários:

Alê disse...

Não entendi a "beleza" do raciocínio. Aliás, também não entendi porque o petista, no caso, é telhado. E pra fechar... não entendi o que significa "separar fatos e denúncias".

Resumindo. Não entendi nada! ;-)

Barone disse...

Olá Ale,
não tem problema, se não entendeu, explico.

O deputado Edmar Moreira (DEM-MG), então 2º vice-presidente da Câmara Federal, havia acabado de assumir a Corregedoria da Casa quando sugeriu que ela (a Corregedoria), cuja função é investigar denúncias e suspeitas contra os deputados, não deveria cumprir esta sua missão sob o argumento de que os membros da corregedoria sofreriam de um “vício de amizade” com os possíveis investigados. Resumindo para quem tem dificuldade de entender: o presidente da Corregedoria, órgão cuja função é zelar para que a Casa seja habitada por gente de bem, acha que não deveria haver Corregedoria na Câmara.

Obviamente, como ainda não estamos vivendo na esbornia total, parte da sociedade se movimentou e o escândalo ficou insustentável. Levantaram a ficha do Edmar e descobriram, entre outras coisas, que ele é dono de um castelo de R$ 25 milhões de reais, nunca declarado à receita federal. Descobriram também, entre outras coisas, indícios de que ele teria usado de forma irregular verba indenizatória no valor de R$ 90,6 mil em 2007 para pagar serviços de segurança prestados por empresa especializada e, em 2008, R$ 140 mil para o mesmo fim. Detalhe: o deputado é dono de empresas de segurança. Obviamente, renunciou a 2ª vice-presidência e a Corregedoria.

Diante disso, o deputado petista Cândido Vaccarezza (PT), líder do PT na Câmara, muito zeloso dos direitos de um aliado, disparou: “É preciso ir devagar e separar fatos e denúncias contra o corregedor”.

Ir devagar? Explico...

A relação entre Edmar e o PT vem de longa data. Além de ter votado pela absolvição de deputados petistas acusados no "mensalão", foi favorável à CPMF, mesmo sendo de partido da oposição. Deu para entender? E o pior é que pesam sobre o deputado denúncias de ligação com a ditadura militar e tortura de presos políticos, mas o passado pode ser apagado em nome da governabilidade do presente e o poder no futuro.

Sobre o raciocínio de Otávio Cabral, explico novamente.

Disse ele: “Nos tempos de pedra na mão, o petista seria capaz de fazer uma greve de fome acorrentado a uma árvore no meio da Esplanada dos Ministérios só para protestar contra a escolha do novo corregedor. Mas quando se é telhado, a visão fica turva, e torna-se bastante aceitável que um corregedor possua um castelo, e melhor ainda se o reino dele for o da fantasia”.

Ora, quem lembra dos petistas na oposição, quando o menor indício de corrupção era denunciado aos quatro ventos? Nesta época era bom ser pedra. Agora, no entanto, vale tudo para defender um voto na Câmara, em especial um voto que pode influenciar outros. Não importa a procedência deste apoio. Os fins justificam os meios não é? Portanto, em época de telhado (com ou sem vidraça) a melhor estratégia e tergiversar quando um aliado como Edmar é acusado. Pelo menos até que ele seja lançado aos abutres.

Entendeu agora?