quinta-feira, 10 de Julho de 2014

O Silo - Hugh Howey

Terminei ontem o primeiro livro da distopia “O Silo”, do americano Hugh Howey. Usando o argumento pós-apocaliptico, o autor consegue ser criativo ao nos apresentar uma comunidade que tenta sobreviver num gigantesco silo subterrâneo com dezenas de níveis, onde milhares de pessoas vivem numa sociedade completamente estratificada e rígida, e onde falar do mundo exterior constitui crime.

As únicas imagens do que existe lá fora são captadas de forma difusa por câmaras de vigilância que deixam passar um pouco de luz natural para o interior do silo. Contudo há sempre aqueles que se questionam... Esses “rebeldes” são enviados para o exterior com a missão de limpar as câmaras em viagens suicidas. Expostos as toxinas de um mundo destruído, estes condenados são levados a cumprir seu último sacrifício par com o Silo antes de sucumbirem a atmosfera tóxica do exterior.
O que parece uma sociedade enquadrada em regras e dogmas, no entanto, desaba sob a comichão da curiosidade humana revelando uma realidade muito mais sombria do que se imagina.

Howey começou o universo proposto em O Sillo no outono de 2011, quando publicou um conto em ebook na Amazon. O conto atingiu um grande público que implorava por mais histórias do universo de onde esse conto viera. Quando finalmente lançou uma "versão completa" do ebook de Silo, o livro chegou a ficar por um tempo considerável no top 100 livros mais vendidos da Amazon, chegando ao primeiro lugar dos mais vendidos de ficção-científica e ao topo dos mais vendidos no Reino Unido e na Alemanha também.

Ridley Scott e Steve Zaillian pensaram que a história daria um filme em potencial e a 20th Century Fox comprou a ideia. Foi assim que o livro atraiu também a atenção da editora Random House, que publicou o livro físico nos Estados Unidos em tr~es volumes (o primeiro já lançado aqui no Brasil) . E esse foi o sucesso estrondoso e rápido de Silo, que já tem até Graphic Novel.

quarta-feira, 30 de Abril de 2014

Novembro de 63 – Stephen King



Sou suspeito para falar de qualquer livro de Stephen King. Para mim, o maior romancista de literatura pop das últimas décadas. Quem imagina que o autor navega apenas pelas fórmulas batidas do terror trash está enganado. King singra as águas do absurdo na mais pura tradição lovecraftiana. Porém, com um delicioso toque contemporâneo onde paisagens, sons, cheiros, tendências se misturam para tornar o irreal assustadoramente real.

O passado não quer ser mudado, garante Stephen King em seu mais recente livro, “Novembro de 63”, cuja leitura finalizei ontem. A obra começou a ser formulada em 1973, a partir de uma ideia baseada no conceito de viagem no tempo. Nesse projeto, um homem voltava ao passado para interromper o assassinato de Kennedy. A ideia ficou engavetada por três décadas até que foi retomada em 2009 e transformada em brochura em novembro passado.

O enredo, como tudo que sai da mente de King, mistura realismo e fantasia em doses cavalares. Jake Epping é um professor de inglês que, certo dia, se depara com a possibilidade de uma viagem no tempo a convite do amigo Al Templeton, prosaico dono de uma lanchonete que descobre em sua despensa uma “bolha” que o leva sempre ao dia 9 de setembro de 1958. Cada vez que alguém atravessa esse portal, é como se fosse pela primeira vez. Ou seja: todas as alterações que este alguém fez no passado serão desfeitas no momento que essa pessoa voltar para o futuro e tentar voltar ao passado.

Isso é o que Al Templeton acredita. No entanto, a cada viagem, rupturas ocorrem na realidade e o “presente” do viajante pode ser modificado radicalmente com as mais simples alterações.

A partir desta premissa King constrói uma história empolgante em pouco mais de 800 páginas recheada de tudo o que o autor costuma oferecer aos seus leitores fiéis: lirismo e absurdo.

segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2014

Os doze - Justin Cronin

Finalizei ontem à noite “Os doze”, segundo livro da trilogia de Justin Cronin que pega carona na onda pós-apocalíptica, mas, ao invés de zumbis, traz como “criaturas a serem temidas” os “virais”, seres humanos transformados em monstros vampirescos como resultado de uma pesquisa secreta de uma agência americana que deu terrivelmente errada.

O primeiro livro da série, “A passagem” têm altos e baixos. Há momentos excelentes (o primeiro capítulo é ótimo) e outros repletos de clichês e incongruências. Tudo começa com a quebra de segurança em uma instalação secreta do governo norte-americano, que põe à solta um grupo de condenados à morte usados em um experimento militar. Infectados com um vírus modificado em laboratório que lhes dá incrível força, extraordinária capacidade de regeneração e hipersensibilidade à luz, tiveram os últimos vestígios de humanidade substituídos por um comportamento animalesco e uma insaciável sede de sangue. 

A partir daí o mundo como o conhecemos vai por água abaixo, pelo menos na América do Norte. Não se sabe o que ocorreu com o resto do mundo, pois uma barreira foi levantada pelos demais países para isolar o vírus. Cem anos depois os seres humanos retrocedem na escala tecnológica e passam a viver em colônias altamente protegidas em regiões devastadas pelos virais.

A trama se desenrola em direções imprevistas, nas quais Cronin tenta surpreender o leitor. Há excelentes momentos, e até momentos de lirismo. Mas há muita superficialidade também, especialmente na construção dos personagens, quando o autor tenta - sem sucesso - ser mais profundo do que o gênero, normalmente, exige.

“Os Doze”, segundo livro da trilogia, tem inicio em 97 D.V (Depois do Vírus), cinco anos depois de “A passagem” – com flashs do passado dos antigos e novos personagens. Na luta contra os virais, o que resta da civilização se defronta com uma sociedade até então desconhecida, com fortes características totalitárias, onde uma elite que se alimenta do sangue de um dos Doze (os doze infestados originais que deram origem a uma prole de milhões) e, por isso, alcançou a imortalidade, escravizando os demais.

Os personagens originais, aliados a caras novas que surgem para reforçar o time, se defrontam com os novos adversários em 590 páginas de muito sangue e aventura. É diversão sem muita expectativa. Mas, para quem - como eu - não resiste ao trio fantasia/terror/ficção científica, a obra é interessante.

Para mais dicas de leituras e resenhas, ou simplesmente para descobrir o que ando lendo, clique no link - http://tinyurl.com/ny6cjfw

Últimas leituras, resenhas e dicas literárias

2014

- The Apocalypse (The Undead World) - Peter Meredith
- American Sniper - Chris Kyle
- Operation Red Wings: The Rescue Story Behind Lone Survivor - Peter Nealen
- Lone Survivor - Marcus Luttrell
- O Silo - Hugh Howey
- Novembro de 63 - Stephen King
- O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota - Olavo de Carvalho
- A hora das bruxas (Volume 2) - Anne Rice 
- A hora das bruxas (Volume 1) - Anne Rice
- A queda do governador (Volume 1) - Robert Kirkman e Jay Bonansinga
- Os Doze - Justin Cronin 
- Os Irmãos Karamázov - Fiódor Dostoiévski

2013

- Ponto de impacto - Dan Brown
- Inferno -  Dan Brown
- Os últimos quartetos de Beethoven e  outros contos - Luis Fernando Veríssimo
- Getúlio: 1930-1945. Do governo provisório  à ditadura do Estado Novo - Lira Neto
- O vento pela fechadura - Stephen King
- O contrário da morte - Roberto Saviano
- Gomorra - Roberto Saviano
- A Ira dos Justos - Manel Loureiro
- Os dias escuros - Manel Loureiro
- A passagem - Justin Cronin
- Dirceu: a Biografia - Otávio Cabral
- Deixa ela entrar - John Ajvide Lindqvist
- Apocalipse Z - Manel Loureiro
- 50 anos a mil - Lobão
- Getúlio: 1882-1930. Dos anos de formação à conquista do poder – Lira Neto
- World War Z - Max Brooks
- O começo do tempo - Zecharia Sitchin
- Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo - Mário Magalhães
- O ciberespaço como fonte para jornalistas - Elias Machado
- Lincoln - Doris Kearns Goodwin
- A conversação em rede - Raquel Recuero
- O caminho para Woodbury - Robert Kirkman e Jay Bonansinga
- Lendo Lolita em Teerã - Azar Nafisi
- Duma Key - Stephen King
- Diálogos Impossíveis - Luis Fernando Veríssimo
- O segredo da pirâmide - Adelmo Genro Filho
- A identidade cultural na pós-modernidade - Stuart Hall
- Opinião Pública - Walter Lippmann
- A mesa voadora - Luis Fernando Veríssimo
- Livros de sangue V - Clive Barker
- O sol também se levanta - Ernest Hemingway
- Mortos entre vivos - John Ajvide Lindqvist
- Grandes Esperanças - Charles Dickens

2012
- Redes sociais na internet - Raquel Recuero
- Teorias do Jornalismo: porque as notícias são como são - Nelson Traquina
- Livros de sangue IV - Clive Barker
- O rei da montanha - Farah
- A zona morta - Stephen King
- Notícia de um sequestro - Gabriel García Márquez
- Guerra dos Tronos 5: A dança dos dragões - George R.R. Martin
- Os filhos dos dias - Eduardo Galeano
- Deuses Americanos - Neil Gaiman
- A morte da luz - George R.R. Martin
- A auto-estrada - Stephen King
- Nova Antologia do Conto Russo - Organizado por Bruno Barreto Gomide
- Che Guevara: uma biografia - Jon Lee Anderson
- Ao cair da noite - Stephen King
- Jack Kerouac: king of the beats - Barry Miles
- Guia politicamente incorreto da história do Brasil - Leandro Narloch
- Band of Brothers - Stephen E. Ambrose
- Dia D - Antony Beevor
- Animal Tropical - Pedro Juan Gutiérrez
- O Rei de Havana - Pedro Juan Gutiérrez
- Trilogia suja de Havana - Pedro Juan Gutiérrez
- Lancaster & York: The War of the Roses - Alison Weir
- A ascenção do Governador - Robert Kirkman e Jay Bonansinga
- Love - Stephen King
- De Cuba, com Carinho - Yoani Sánchez
- Chatô: o Rei do Brasil - Fernando Morais
- No coração do mar - Nathaniel Philbrick
- O caminho  para o céu - Zecharia Sitchin
- Moby Dick - Herman Melville
- Devoradores de Mortos - Michael  Crichton
- Coisas Frágeis - Neil Gaiman
- O Lobo do Mar - Jack London
- Guerra dos Tronos 4: O Festim dos Corvos - George R.R. Martin
- Almas Mortas - Nikolai Gógol
- O 12º Planeta - Zecharia Sitchin
- O Duplo - Fiódor Dostoievski
- Battle Cry of Freedom: The Civil War Era - James M. McPershon

2011
- Guerra dos Tronos 3: A Tormenta de Espadas - George R.R. Martin
- Guerra dos Tronos 2: A Fúria dos Reis - George R.R. Martin
- Guerra dos Tronos 1: As Crônicas de Gelo e Fogo - George R.R. Martin
- Matadouro 5 - Kurt Vonnegut
- The Last Full Measure - Jeff Shaara
- The Killer Angels - Michael Shaara
- Gods and Generals - Jeff Shaara
- Cidades da Planície - Cormac McCarthy
- A Travessia  - Cormac McCarthy
- Todos os belos cavalos -  Cormac McCarthy
- O emblema vermelho da coragem - Stephen Crane
- O Capote e outras histórias - Nikolai Gógol
- Dänichen em julgamento - Erich Von Dänichen
- De volta às estrelas - Erich Von Däniken
- Eram os deuses astronautas? - Erich Von Däniken
- A Estrada – Cormac McCarthy
- Pobre Nação – Robert Fisk
- História da Palestina moderna – Ilan Pappe
- A menina que roubava livros – Markus Zusak
- O Tradutor – Daoud Hari
- Numa fria – Charles Bukowski
- Crônica de um amor louco – Charles Bukowski

terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

"Os Irmãos Karamazov" - Fiódor Dostoiévski

“Eu sempre gostei de becos, de recantos desertos e escuros, atrás da praça – lá estão as aventuras, as surpresas, lá estão as pepitas no lodo.” - Mítia Karamázov em conversa com o irmão, Aliócha (Pág. 164)

Terminei ontem a leitura da "Os Irmãos Karamazov", de Fiódor Dostoiévski. Confesso que assimilar as 1000 páginas do romance (999 para ser exato) exigiu um mergulho profundo e apaixonado, uma imersão voluntária na alma russa do século 19, cujas histórias individuais são tão atuais, tão presentes em nosso cotidiano. Cobiça e desapego, ciúme e compaixão, ódio e amor, alegria e tristeza, fé e descrença, liberdade e escravidão. Não somos feitos disso tudo ainda hoje? Não somos todos almas karamazovianas?
Esperei bastante antes de me debruçar sobre a obra que, para muitos, está entre os mais importantes clássicos da literatura universal. Aguardei a aclamada tradução da Editora 34, feita por Paulo Bezerra diretamente do russo. As traduções anteriores, baseadas no francês, eram incompletas. A tradução de Bezerra baseia-se em uma edição crítica da obra de Dostoievski realizada por um time de filólogos russos nos anos 70 – buscava-se, então, corrigir os cortes realizados pelas censuras czarista e stalinista. É, de acordo com o posfácio do tradutor, "a única efetivamente integral em língua portuguesa".

Bezerra também buscou respeitar o estilo "às vezes meio tosco" do original. Dostoievski não era propriamente um cultor da palavra exata. "A coisa mais feia deste mundo é a realidade. Se um escritor deseja retratá-la com justiça, é preciso dominar uma forma literária que a copie - não é permitido dispensar a feiura”, disse certa vez. Seu estilo era duro, porque ele via cruamente a aspereza do universo à sua volta.
No entanto, poucos o superam na criação de personagens que vivem no extremo da condição humana – humilhados, atormentados, torturados pela própria personalidade mesquinha.

É o caso da família Karamázov. O pai, Fiódor, bêbado e bufão, conseguiu acumular alguma fortuna graças ao matrimônio com mulheres de melhor extração social. Teve três filhos: Dmitri (ou Mítia), Ivan e Alieksiêi (ou Aliócha. Negligente, abandonou-os à própria sorte para serem educados por criados.
Violento e lascivo, Dmitri saiu ao pai – e disputa com ele os favores de Grúchenka, jovem mulher de má fama. Aliócha é um místico. Vive em um mosteiro ortodoxo, onde segue as orientações do caridoso monge Zossima. Ivan é o mais filosófico e especulativo, um livre-pensador que parece ironizar todos os sistemas religiosos ou filosóficos: flerta com o ateísmo, mas discute teologia de igual para igual com Aliócha.

“Sabei que não há nada mais elevado, nem mais forte, nem mais saudável, nem doravante mais útil para a vida que uma boa lembrança, sobretudo aquela trazida ainda na infância, da casa paterna. Muitos vos falam de vossa educação, mas uma lembrança maravilhosa, sagrada, conservada desde a infância, pode ser a melhor educação. Se o homem traz consigo muitas destas lembranças para sua vida, está salvo pelo resto da existência.” - Aliócha palestrando para as crianças (Pág. 996)

É Ivan é a figura mais marcante da obra, apesar da miríade de personagens repletos de verdade e força. O capítulo mais conhecido e celebrado do romance, "O grande inquisidor", deve-se a ele. Trata-se de um poema (ou, antes, do enredo de um poema que ele deseja escrever, já que não está em versos), no qual Jesus retorna à Terra, em Sevilha, no século XVI, e acaba preso pela Inquisição espanhola.
“E o homem realmente inventou Deus. E os estranho, o surpreendente não seria o fato de Deus realmente existir; o que, porém, surpreende é que essa ideia – a ideia da necessidade de Deus – possa ter subido à cabeça de um animal tão selvagem e perverso como o homem...” - Ivan Karamázov (Pág. 323)

Quando Fiódor, o patriarca dos Karamázov, é assassinado e Dmitri surge como o principal suspeito, questões morais ganham uma premência incontornável, que muito atormentarão Ivan, seus irmãos e a todos que nos cercam. É em torno desta disputa que a trama se desenvolve, uma tempestade de virtudes e falhas de caráter, um vendaval de humanidade no que ela tem de mais sublime e torpe.
“De fato, às vezes se fala da crueldade ‘bestial’ do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente, tão esteticamente cruel. / Acho que se o diabo não existe e, portanto, o homem o criou então o criou à sua imagem e semelhança.” - Ivan Karamázov (Pág. 329 e 330)

Ler “Os irmãos Karamázov” foi, também, um exercício de sensibilidade. A cada página me lembrava de um querido amigo que nos deixou há algumas semanas, Luiz Capssa Lima, o Cacho, apaixonado por literatura, especialmente a literatura russa, que tanto me incentivou a experimentar a tradução de Paulo Bezerra.
Pensei muito no amigo, especialmente nas últimas páginas e nos trechos finais em que Aliócha conversa com as crianças no sepultamento de Iliúchetchka.

“E ainda que venhamos a nos dedicar aos mais importantes assuntos, a conquistar honrarias, ou a cair na maior desgraça – apesar de tudo nunca esqueçais como certa vez nos sentimos bem aqui, todos comungando, unidos por aquele sentimento tão bom e bonito, que durante aquele momento de nosso amor pelo infeliz menino nos fez, talvez, melhores do que em realidade somos.” - (Pág. 996)

sexta-feira, 13 de Dezembro de 2013

Palavras



Contorço as palavras
e delas extraio um pouco de mim.

Poema



Ao encontrar minh’alma
no reflexo do teu olhar
me depara a tempestade
por detrás da calmaria.
Me constrange a pequenez
por entre frestas de grandeza.

Ao enxergar-me
nas sombras do teu sorriso
me descubro menino
escondido na face carcomida.
Me encolho diante
do mundo.

quinta-feira, 3 de Outubro de 2013

Getúlio 1930-1945 - Do governo provisório à ditadura do Estado Novo

O segundo volume da trilogia Getúlio, de Lira Neto, cuja leitura finalizei esta semana, trata de um período conturbado da política brasileira, seguindo a trajetória de Vargas do início do governo provisório, de 1930 a 1934, à sua passagem como presidente constitucional, de 1934 a 1937 e culminando no período do ditatorial do Estado Novo, entre 1937 e 1945.

A obra, um hercúleo esforço jornalístico e de pesquisa histórica, traz à tona toda a ambivalência de Getúlio Vargas que, se por um lado foi responsável direto pela modernização do Estado brasileiro, de outro comandou uma ditadura violenta, fortemente influenciada pelo fascismo.

Durante o período abarcado pelo segundo volume de Lira Neto, o Brasil passou por transformações imensas no âmbito político, social e econômico. Livre das amarras da Constituição de 1891, Getúlio procurou estabelecer uma agenda nacionalista e estatizante de desenvolvimento socioeconômico enquanto, no plano político, engendrava complicadas maquinações palacianas para manter opositores e apoiadores — entre comunistas e militares, integralistas e sindicalistas — sob a égide de sua autoridade pessoal. A Revolução Constitucionalista de 1932, a eleição indireta e a Constituição de 1934, a “intentona” comunista de 35, o putsch integralista em maio de 38, o Estado Novo e o namoro com o Eixo, o recrudescimento da Segunda Guerra Mundial e a aproximação com os Estados Unidos são magistralmente desenhados por Lira Neto como cenário para as articulações políticas e fatos da vida pessoal de Getúlio, pinçados dos diários escritos pelo biografado.

Ali, em seus escritos pessoais, fica claro que o mito construído pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que viria a ser cristalizado com o desenrolar dos acontecimentos, o homem sorridente, bonachão e simpático que ficou na memória coletiva nem sempre encontra correspondência e ressonância nos escritos do próprio Getúlio. As anotações revelam que o homem com sorriso estampado no rosto se preocupava em saber se estava conduzindo o país a alguns becos sem saída.

Com Vargas, de um país essencialmente agrícola e semicolonial, o país deu o primeiro passo rumo a um processo de industrialização que seria reforçado nas décadas seguintes. Os setores mais tradicionais, focados na manufatura, foram contrapostos com a implementação de um parque industrial de base, especialmente no setor metal-mecânico. O Estado Novo fortaleceu a área da pesquisa, abriu caminho para as grandes empresas estatais, como a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Vale do Rio Doce e a Fábrica Nacional de Motores.

Aliado a esta orientação desenvolvimentista, a regulamentação das relações entre capital e trabalho, por meio da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), foi outra coluna de sustentação para a política do regime, apresentada às massas trabalhadoras como uma benesse do Estado, uma concessão que, de fato, havia sido construída sobre as ruínas do movimento sindical e pela cooptação das lideranças operárias, apequenadas pelo fenômeno do peleguismo.

Apesar do viés fascista, o sustentáculo social do regime deixou como legado uma imagem de Getúlio como defensor das massas oprimidas, “pai dos pobres”. Este sentimento foi fortalecido pelo passado corrompido de uma oligarquia omissa quanto ao destino da maior parte da população brasileira. Com Vargas, pela primeira vez na história política do país um líder buscava no povo sua legitimação.

A construção desta mística e de uma política que, de fato, levava o Brasil a romper com uma tradição que privilegiava unicamente os setores de uma aristocracia político-econômica, se deu sobre o signo do totalitarismo. O Brasil avançava enquanto greves eram proibidas, jornais empastelados, opositores perseguidos, organizações de trabalhadores, patronais e mesmo da elite eram cooptadas pela máquina do Estado.

O Brasil de 1945 não era o mesmo de 1930. Getúlio também não. Suas origens, fincadas na oligarquia regional de matriz positivista, não impediram que ele galgasse o poder como revolucionário empunhando a bandeira da ruptura radical com as oligarquias que até então comandavam os rumos da nação, mas o colocariam em um impasse diante da revolução democrática que varreria o mundo com a derrocada no nazi-fascismo.

Um dos pontos interessantes dos dois primeiros livros é a tendência de Getúlio a um fatalismo suicida. Em três de outubro de 1930, quando inicia as anotações em seu diário, já pergunta: “E se perdermos? Serei apontado como responsável. Só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”. Já anunciava a solução extrema caso a situação chegasse ao limite. Em 1932, no dia seguinte ao Nove de Julho, em outro bilhete de suicida, escreve que o sacrifício pessoal é algo que está no campo de possibilidade. Depois, na Segunda Guerra, diz que seu sacrifício pessoal seria a forma de mitigar um possível desastre. E em 1945, em abril, seis meses antes de ser deposto, escreve o que seria um esboço da Carta Testamento, colocando mais uma vez o sacrifício pessoal.

O primeiro volume da trilogia, "Getúlio (1882-1930): Dos Anos de Formação à Conquista do Poder", foi publicado em 2012 (e resenhado por mim). O título que fecha a série, ainda sem data prevista para chegar às livrarias, tratará do fim da Segunda Guerra até a volta à presidência por voto democrático e o suicídio em 1954.

quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

Gomorra - Roberto Saviano



Nos últimos dias passei algumas horas garimpando o Google e o Youtube por reportagens, relatos e documentários sobre a Camorra, a violentíssima máfia napolitana, que domina o sul da Itália e os italianos que ali vivem. Minha curiosidade adveio da leitura de “Gomorra”, primeiro livro do jornalista Roberto Saviano. Precisava olhar o rosto dos homens e mulheres citados em sua obra, gente capaz de monstruosidades e de atos de coragem que imaginamos restritos a ficção da literatura e do cinema.


"Gomorra" não é um livro que se leia sem que os olhos ardam, as mãos se crispem, o espírito encolha. A cada linha, a cada parágrafo, a obscenidade do poder a todo custo, a lógica dos quem têm no acúmulo de poder “o único motivo que os faz levantar da cama de manhã, tirar o pijama e permanecer de pé”, nos é explicitada por Saviano em um relato que em determinados momentos flerta com a prosa poética e em outros com o jornalismo.


Mais que uma obra literária, "Gomorra" é uma autópsia da Camorra e seus principais líderes, cuja sede de conquista transformou o sul da Itália em um canteiro de lixo e em um imenso morgue.

Lançada em 2006 (em 2008 no Brasil, pela Bertrand), a obra foi traduzido em mais de 40 países, vendeu milhões de exemplares, foi adaptada para o teatro e para o cinema – o filme arrebatou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, em 2008 – e catapultou Saviano para o olimpo literário. No entanto, soterrou sua vida particular, transformando-o em mais uma vítima de um “sistema” criminoso que se impõe a vastas regiões da Itália, transformando centenas de milhares de pessoas em massa de manobra, algumas vezes conivente, em outras, reféns de um modo de vida da qual não conseguem escapar.


Desde 2006, pelo menos 14 policiais e dois carros blindados se alternam 24 horas por dia na escolta de Saviano. Jurado de morte pela Camorra, ele dorme em hotéis e apartamentos alugados, nunca por mais de um mês. "Não consigo imaginar meu futuro. Gostaria de ter uma vida normal, com um pouco de liberdade. Eu me arrependi mil vezes de ter escrito Gomorra e não outro livro, que poderia ter me dado uma vida de escritor, e não de perseguido. Eu odiei o livro por muito tempo. Sabia que devia muito a ele, talvez até demais, mas às vezes eu gostaria de poder voltar atrás e nunca tê-lo escrito”, afirmou em recente entrevista.


A situação de Saviano tem paralelo com a das poucas pessoas que resolveram enfrentar a Camorra e que, se não tiveram a vida abreviada pelos killers da organização, foram lançadas em um ostracismo social. É o caso de uma jovem professora citada pelo autor no percurso da obra, que opta por testemunhar um crime cometido por matadores a soldo da máfia.


“O que torna escandaloso o gesto da jovem professora foi a sua escolha de considerar natural, instintivo, vital, o ato de poder testemunhar. Possuir esta conduta de vida é como acreditar realmente que a verdade pode existir... uma escolha inexplicável. Aí acontece de as pessoas próximas se sentirem em dificuldade, se sentirem descobertas pelo olhar de quem renunciou às regras da própria vida, que elas aceitam integralmente. Aceitam sem vergonha, porque afinal deve ser assim, porque é assim que sempre foi, porque não se pode mudar tudo com as próprias forças e então é melhor economizá-las e aderir à caravana e viver como é permitido viver.”


Saviano não descreve o panorama social napolitano sob as lupas da isenção e do afastamento crítico. Ele o decompõe com a intimidade de quem, como um verme, esteve inserido na carne deste corpo putrefato que incha e explode revelando toda a sujeira interior da estrutura física e moral da Camorra.

O porto de Nápoles é o ponto de partida para a jornada de Saviano. Lá desembarcam diariamente todo tipo de mercadorias vindas da Itália, do oriente e de várias partes da Europa. Desde resíduos químicos, material tóxico e lixo, vestuário e quinquilharias de todos os tipos produzidas nos mercados asiáticos, toneladas de cocaína, alta costura e até restos humanos descartados de cemitérios de forma clandestina para abrir espaço ao lucro. Tudo isso é despejado clandestinamente na região da Campânia sob os olhos gulosos dos boss da Camorra.


Em “Gomorra”, Saviano explica o esquema que permite que o lixo tóxico produzido no norte industrializado do país - cuja legislação de descarte de resíduos é mais rígida - seja enterrado no sul da Itália contaminando os lençóis freáticos e até mesmo a produção da conhecida mussarela local. Esmiúça a falsificação de alta costura, que inclui o trabalho escravo de mão-de-obra chinesa e é ostentada até mesmo no tapete vermelho hollywodiano. Aponta o controle mafioso de ramos importantes da construção civil, como a produção de cimento.


Se no século XX a máfia se ocupava apenas de negócios ilegais, como o jogo, o contrabando de bebidas e o tráfico de drogas, agora, financiada pelo lucro da ilegalidade, estes conglomerados criminosos tem cada vez mais participações em negócios legais e muito lucrativos. E estão mais perto do que imaginamos. Conexões brasileiras da máfia são citadas em alguns trechos da obra e nos fazem pensar em negócios ocorridos em nossas grandes (e não tão grandes) cidades.


Em meados de novembro de 2008 Saviano voltou a participar de eventos públicos, sempre acompanhado por sua escolta. Foi homenageado pela Academia Nobel, em Estocolmo, que promoveu uma conferência sobre liberdade de expressão em apoio a ele e a Salman Rushdie – cuja cabeça ainda está a prêmio devido ao livro “Versos Satânicos” - pela coragem de terem publicado obras que denunciaram autoridades religiosas, morais, políticas e criminosas.


A insistência em enfrentar uma estrutura tão entranhada no tecido social italiano e de expor suas fissuras de forma tão clara tem um preço alto. Saviano se diz sufocado por uma vida que não escolheu, mas da qual nunca fugiu. Talvez o último parágrafo de “Gomorra” traduza bem este sentimento, que compartilham todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se veem obrigados, sob a pena de enlouquecer, a contrapor o óbvio, a nadar contra a maré, a esmurrar a ponta da faca.


 “Em certas horas não há nada que se possa fazer senão seguir nossos delírios como alguma coisa que você não escolhe, que você sofre e pronto. Tive vontade de berrar, queria gritar, queria rasgar os pulmões com toda a força do estômago, romper a traqueia, com toda a voz que a garganta pudesse ainda soltar: “Malditos filhos-da-puta, eu ainda estou vivo!”.