sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Zelota - Reza Aslan



Terminei de ler hoje “Zelota: a vida e os tempos de Jesus de Nazaré”, do hisroriador iraniano, radicado nos Estados Unidos, Reza Aslan. Lançado no ano passado, o livro liderou a lista de mais vendidos do The New York Times e da Amazon e desbancou até recordistas de vendas como a britânica J.K.Rowling. Em 2014, chegou ao Brasil. E é de tirar o fôlego. 
 
Aslan defende a seguinte tese: Jesus, ao contrário do que prega a Igreja Católica, não foi um pacifista que, diante da violência “oferecia a outra face” e amava os inimigos. Jesus foi um revolucionário, cujo objetivo principal era expulsar os romanos da Judeia, criar um reino de Deus na Terra e assumir seu trono. “A maior parte dos cristãos pensa que Jesus não tinha ambições políticas ou terrenas, que foi um pacifista de boas ações. O que não percebem é que no tempo de Jesus religião e política eram a mesma coisa”, argumenta, com a autoridade de quem possui um doutorado e especializações em história das religiões e 20 anos de estudo sobre as origens do cristianismo

Zelota é uma palavra derivada do aramaico. Significa “Alguém que zela pelo nome de Deus”. Sua origem está ligada ao movimento político judaico que defendia a rebelião do povo da Judeia contra o Império Romano. Os zelotas pretendiam expulsar os romanos pela força.  Essa é a função do Messias. Se ele (Jesus) se intitulava o Messias, o que queria dizer é que era o descendente do rei David, que tinha vindo para estabelecer o trono de David na terra. É tão simples quanto isso. Ou nunca pensou que era o Messias; ou pensou e a sua tarefa era remover a ocupação romana. Era o que se esperava do Messias”, afirma o autor.

Como diz Aslan na introdução da sua obra, é um milagre que saibamos alguma coisa sobre o homem chamado Jesus de Nazaré. Pois sua figura não era incomum na Palestina dominada pelos romanos. “O pregador itinerante, vagando de cidade em cidade clamando sobre o fim do mundo e sendo seguido por um bando de maltrapilhos, era uma visão comum no tempo de Jesus - tão comum, de fato, que havia se tornado uma espécie de caricatura entre a elite romana”, afirma.

O século I foi uma era de expectativa apocalíptica entre os judeus da Palestina, a designação romana para a vasta extensão de terra que abrange os atuais Estados de Israel/Palestina, bem como grande parte da Jordânia, Síria e Líbano. Inúmeros profetas, pregadores e messias caminhavam pela Terra Santa proclamando mensagens do iminente julgamento de Deus. Acrescente-se a essa lista a seita dos essênios, da qual alguns membros viveram em reclusão no alto do planalto seco de Qumran, na costa noroeste do mar Morto; o partido revolucionário judeu do século I, conhecido como partido zelota, ou zelote, que ajudou a lançar uma guerra sangrenta contra Roma; e os temíveis bandidos-assassinos a quem os romanos apelidaram de sicários ("homens dos punhais"), e a imagem que emerge da Palestina no século I é a de uma era imersa em energia messiânica.

É difícil enquadrar Jesus de Nazaré em qualquer um dos movimentos político-religiosos conhecidos de seu tempo, afirma Aslan. Ele era um homem de contradições profundas, um dia pregando uma mensagem de exclusão racial ("Eu fui enviado apenas às ovelhas perdidas de Israel", Mateus 15:24), no outro, de benevolente universalismo ("Ide e fazei discípulos de todas as nações", Mateus 28:19); às vezes clamando por paz incondicional ("Bem- aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus", Mateus 5:9), às vezes promovendo violência e conflitos ("Se tu não tens uma espada, vai vender teu manto e compra uma", Lucas 22:36).

O Jesus histórico

O problema de situar o Jesus histórico é que, fora do Novo Testamento, não há quase nenhum vestígio do homem que iria alterar de modo permanente o curso da história humana. A referência não bíblica mais antiga e mais confiável de Jesus é do historiador judeu Flávio Josefo, do século I (morto em 100 d.C.). Em uma breve passagem na sua obra Antiguidades, Josefo escreve sobre um sumo sacerdote judeu chamado Ananus que, após a morte do governador romano Festo, condenou ilegalmente um certo "Tiago, irmão de Jesus, o que eles chamam de messias" a apedrejamento por transgressão da lei. A passagem prova não apenas que "Jesus, o que eles chamam de messias" provavelmente existiu, mas que pelo ano de 94 d.C., quando a obra Antiguidades foi escrita, era amplamente reconhecido como o fundador de um movimento novo e duradouro.

É esse movimento, não o seu fundador, que recebe a atenção de historiadores do século II, como Tácito (morto em 118) e Plínio, o Jovem (morto em 113), que mencionam Jesus de Nazaré, mas revelam pouco sobre ele além de sua prisão e execução. Somos, portanto, restritos às informações que possam ser obtidas a partir do Novo Testamento.

O primeiro testemunho escrito sobre Jesus de Nazaré vem das epístolas de Paulo, um dos primeiros seguidores de Jesus, que morreu por volta de 66 d.C. (a primeira epístola de Paulo, 1 Tessalônicos, pode ser datada entre 48 e 50 d.C., cerca de duas décadas depois da morte de Jesus). O problema com Paulo, no entanto, é que ele exibe uma extraordinária falta de interesse pelo Jesus histórico. Apenas três cenas da vida de Jesus são mencionadas em suas epístolas: a Última Ceia (1 Coríntios 11:23-26), a crucificação (1 Coríntios 2:2), e, mais importante para Paulo, a ressurreição, sem a qual, segundo ele, "a nossa pregação é vazia e sua fé é em vão" (1 Coríntios 15:14). Paulo pode ser uma excelente fonte para os interessados na formação inicial do cristianismo, mas é um guia pobre para se descobrir o Jesus histórico.

Restam os evangelhos, que apresentam seu próprio conjunto de problemas. Primeiro de tudo, afirma Aslan, é preciso reconhecer que, com a possível exceção do evangelho de Lucas, nenhum dos evangelhos foi escrito pela pessoa que o nomeia. Isso é verdade para a maioria dos livros do Novo Testamento. “Tais obras, chamadas pseudoepigráficas - obras atribuídas a um autor específico, mas não escritas por ele -, eram extremamente comuns no mundo antigo e não devem ser, de forma alguma, consideradas falsificações”, alerta. Mas, mesmo estas obras não são relatos de testemunhas oculares das palavras e atos de Jesus. Eles são testemunhos de fé compostos por comunidades de fé e escritos muitos anos depois dos acontecimentos que descrevem. Simplificando, os evangelhos nos dizem sobre Jesus, o Cristo, e não sobre Jesus, o homem.

A teoria mais aceita sobre a formação dos evangelhos, "A teoria das duas fontes", sustenta que o testemunho de Marcos foi escrito algum tempo depois de 70 d.C., cerca de quatro décadas depois da morte de Jesus. Marcos tinha à disposição um conjunto de tradições orais e talvez um punhado de tradições escritas que haviam sido repassadas pelos primeiros seguidores de Jesus durante anos. Ao adicionar uma narrativa cronológica a este amontoado de tradições, Marcos criou um gênero literário totalmente novo chamado evangelho, palavra grega (evangelion) para "boa notícia". Duas décadas depois de Marcos, entre 90 e 100 d.C., Mateus e Lucas, trabalhando de forma independente um do outro e tomando o manuscrito de Marcos por modelo, atualizaram a história do evangelho, adicionando suas próprias e exclusivas tradições, incluindo duas narrativas - diferentes e conflitantes -  da infância e uma série de histórias de ressurreição elaboradas para satisfazer seus leitores cristãos.

Juntos, esses três evangelhos, Marcos, Mateus e Lucas, tornaram-se conhecidos como os sinópticos (grego para "vistos juntos"), porque eles mais ou menos apresentam uma narrativa e uma cronologia iguais sobre a vida e o ministério de Jesus, que é muito em desacordo com o quarto evangelho, o de João, que foi provavelmente escrito logo após o fim do século I, entre 100 e 120 d.C.

Estes são os evangelhos canônicos. Mas eles não são os únicos. “Temos hoje acesso a uma biblioteca inteira de escrituras não canônicas, escritas principalmente nos séculos II e III, que fornecem uma perspectiva muito diferente sobre a vida de Jesus de Nazaré”, alerta Aslan. Estas incluem o evangelho de Tomé, o evangelho de Filipe, o Livro Secreto de João, o evangelho de Maria Madalena e uma série de outros chamados "evangelhos gnósticos", descobertos no alto Egito, perto da cidade de Nag Hammadi, em 1945. Embora eles tenham sido deixados de fora do que se tornaria o Novo Testamento, esses livros são importantes na medida em que demonstram a dramática divergência de opinião que existia sobre quem era Jesus e o que Jesus significava, mesmo entre aqueles que andaram com ele, que compartilharam seu pão e comeram com ele, que ouviram suas palavras e oraram com ele.

Revolucionário

No final, há apenas dois fatos históricos efetivos sobre Jesus de Nazaré nos quais se pode realmente confiar, afirma o pesquisador: o primeiro é que Jesus foi um judeu que liderou um movimento popular judaico na Palestina no início do século I d.C.; o segundo é que Roma o crucificou por isso.

Por si sós, esses dois fatos não podem fornecer um retrato completo da vida de um homem que viveu há 2 mil anos. “Mas quando combinados com tudo o que sabemos sobre a época tumultuada em que Jesus viveu - e graças aos romanos sabemos bastante -, esses dois fatos ajudam a pintar um retrato de Jesus de Nazaré que pode ter mais precisão histórica do que o pintado pelos evangelhos. Na verdade, o Jesus que emerge desse exercício histórico - um revolucionário fervoroso arrebatado, como todos os judeus da época o foram, pela agitação política e religiosa da Palestina do século I - tem pouca semelhança com a imagem do manso pastor cultivado pela comunidade cristã primitiva”.

Aslan argumenta, com bases históricas, que a crucificação era uma punição que Roma reservava quase exclusivamente para o crime de sedição. A placa que os romanos colocaram acima da cabeça de Jesus enquanto ele se contorcia de dor - "Rei dos Judeus" - era chamada de titulus, e, apesar da percepção comum, não era para ser sarcástica. Todo criminoso que era pendurado em uma cruz recebia uma placa declarando o crime específico pelo qual estava sendo executado. O crime de Jesus, aos olhos de Roma, foi o de buscar o poder político de um rei (ou seja, traição), o mesmo crime pelo qual foram mortos quase todos os outros aspirantes messiânicos da época. E Jesus também não morreu sozinho. Os evangelhos afirmam que em ambos os lados de Jesus estavam pendurados homens que, em grego, eram chamados lestai, uma palavra muitas vezes traduzida como "ladrões", mas que, na verdade, significa "bandidos" e era a designação romana mais comum para um insurreto ou rebelde.

Três rebeldes em uma colina coberta de cruzes, cada cruz com o corpo torturado e ensanguentado de um homem que ousou desafiar a vontade de Roma. Essa imagem por si só deveria lançar dúvidas sobre a interpretação dos evangelhos de Jesus como um homem de paz incondicional quase totalmente isolado das convulsões políticas de seu tempo. “A ideia de que o líder de um movimento messiânico popular pedindo a imposição do ‘Reino de Deus’ - um termo que teria sido entendido, tanto por judeus quanto por gentios, como implicando revolta contra Roma - pudesse ter permanecido sem envolvimento com o fervor revolucionário que atingiu quase todos os judeus na Judeia é simplesmente ridícula”, diz o autor.

De revolucionário a sagrado

Por que então os escritores dos evangelhos iriam tão longe para amainar o caráter revolucionário da mensagem e do movimento de Jesus? Para responder a essa pergunta, Aslan sugere que devemos primeiro reconhecer que quase toda história dos evangelhos escrita sobre a vida e a missão de Jesus de Nazaré foi composta após a rebelião judaica contra Roma, em 66 d.C. Naquele ano, um grupo de rebeldes judeus, estimulado por seu fervor por Deus, levou seus companheiros judeus à rebelião. Milagrosamente, os rebeldes conseguiram libertar a Terra Santa da ocupação romana. Durante quatro anos, a cidade de Deus esteve de novo sob controle judaico. Então, em 70 d.C., os romanos voltaram. Depois de um breve cerco a Jerusalém, os soldados violaram as muralhas da cidade e desencadearam uma orgia de violência contra seus residentes. Quando o massacre foi completado, os soldados atearam fogo ao Templo, aos prados de Jerusalém, as terras cultivadas e as oliveiras.

“Tudo queimado. Tão completa foi a devastação praticada sobre a Cidade Santa que Josefo escreve que nada fora deixado que provasse que Jerusalém já tinha sido habitada. Dezenas de milhares de judeus foram massacrados. O resto foi levado acorrentado para fora da cidade”, explica.

O trauma espiritual enfrentado pelos judeus após esse evento catastrófico foi tão grande que, exilados da terra a eles prometida por Deus, forçados a viver como párias entre os pagãos do Império Romano, os rabinos do século II gradual e deliberadamente divorciaram o judaísmo do nacionalismo messiânico radical que tinha iniciado a guerra malfadada com Roma. A Torá substituiu o Templo no centro da vida judaica, e surgiu o judaísmo rabínico.

Aslan argumenta que os cristãos também sentiram necessidade de se distanciarem do fervor revolucionário que levara ao saque de Jerusalém, não só porque isso permitia à Igreja primitiva afastar a ira de uma Roma profundamente vingativa, mas também porque, tendo a religião judaica se tornado pária, os romanos tinham se transformado no principal alvo de evangelismo da Igreja. Assim começou o longo processo de transformar Jesus de um nacionalista judeu revolucionário em um líder espiritual pacífico, sem nenhum interesse em qualquer assunto terreno. Esse era um Jesus que os romanos podiam aceitar, e de fato aceitaram três séculos mais tarde, quando o imperador romano Flávio Teodósio (morto em 395) fez do movimento do pregador judeu itinerante a religião oficial do Estado, e nascia o que hoje reconhecemos como o cristianismo ortodoxo.

A obra de Reza Aslan traz também dados fundamentais para a compreensão das origens do cristianismo através da disputa entre duas vertentes do movimento nas primeiras décadas após a morte de Jesus: os “hebreus”, cristãos liderados por Thiago (irmãos de Jesus) e Pedro, que não apartavam sua crença das bases do judaísmo, e os “helenistas”, liderados por Paulo, que rompiam radicalmente com o judaísmo em busca de uma nova religião que alçava Jesus ao patamar do divino, filho de Deus, o que não ocorrera até então.

O processo que culminou, a partir daí, na transformação de uma seita judaica do século I na maior religião do planeta é magistralmente construído por Aslan, especialmente em sua descrição do Credo de Niceia, em 325 d.C., quando, convocados pelo recém convertido imperador Constantino, dois mil bispos definiram as bases do Novo Testamento, transformando para sempre a leitura que o mundo faria de Jesus e de sua história nos próximos 1687 anos.

“De fato, se nos comprometermos a colocar Jesus firmemente dentro do contexto social, religioso e político da época em que ele viveu - uma época marcada por uma persistente revolta contra Roma que iria transformar para sempre a fé e a prática do judaísmo -, então, de certa forma, sua biografia se escreve por si própria. O Jesus que é revelado nesse processo pode não ser o Jesus que esperamos, e ele certamente não será o Jesus que os cristãos mais modernos reconheceriam. Mas, no final, ele é o único Jesus que podemos acessar por meios históricos. Todo o resto é uma questão de fé.”,  finaliza Aslan.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Silo - Hugh Howey

Terminei ontem o primeiro livro da distopia “O Silo”, do americano Hugh Howey. Usando o argumento pós-apocaliptico, o autor consegue ser criativo ao nos apresentar uma comunidade que tenta sobreviver num gigantesco silo subterrâneo com dezenas de níveis, onde milhares de pessoas vivem numa sociedade completamente estratificada e rígida, e onde falar do mundo exterior constitui crime.

As únicas imagens do que existe lá fora são captadas de forma difusa por câmaras de vigilância que deixam passar um pouco de luz natural para o interior do silo. Contudo há sempre aqueles que se questionam... Esses “rebeldes” são enviados para o exterior com a missão de limpar as câmaras em viagens suicidas. Expostos as toxinas de um mundo destruído, estes condenados são levados a cumprir seu último sacrifício par com o Silo antes de sucumbirem a atmosfera tóxica do exterior.
O que parece uma sociedade enquadrada em regras e dogmas, no entanto, desaba sob a comichão da curiosidade humana revelando uma realidade muito mais sombria do que se imagina.

Howey começou o universo proposto em O Sillo no outono de 2011, quando publicou um conto em ebook na Amazon. O conto atingiu um grande público que implorava por mais histórias do universo de onde esse conto viera. Quando finalmente lançou uma "versão completa" do ebook de Silo, o livro chegou a ficar por um tempo considerável no top 100 livros mais vendidos da Amazon, chegando ao primeiro lugar dos mais vendidos de ficção-científica e ao topo dos mais vendidos no Reino Unido e na Alemanha também.

Ridley Scott e Steve Zaillian pensaram que a história daria um filme em potencial e a 20th Century Fox comprou a ideia. Foi assim que o livro atraiu também a atenção da editora Random House, que publicou o livro físico nos Estados Unidos em tr~es volumes (o primeiro já lançado aqui no Brasil) . E esse foi o sucesso estrondoso e rápido de Silo, que já tem até Graphic Novel.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Novembro de 63 – Stephen King



Sou suspeito para falar de qualquer livro de Stephen King. Para mim, o maior romancista de literatura pop das últimas décadas. Quem imagina que o autor navega apenas pelas fórmulas batidas do terror trash está enganado. King singra as águas do absurdo na mais pura tradição lovecraftiana. Porém, com um delicioso toque contemporâneo onde paisagens, sons, cheiros, tendências se misturam para tornar o irreal assustadoramente real.

O passado não quer ser mudado, garante Stephen King em seu mais recente livro, “Novembro de 63”, cuja leitura finalizei ontem. A obra começou a ser formulada em 1973, a partir de uma ideia baseada no conceito de viagem no tempo. Nesse projeto, um homem voltava ao passado para interromper o assassinato de Kennedy. A ideia ficou engavetada por três décadas até que foi retomada em 2009 e transformada em brochura em novembro passado.

O enredo, como tudo que sai da mente de King, mistura realismo e fantasia em doses cavalares. Jake Epping é um professor de inglês que, certo dia, se depara com a possibilidade de uma viagem no tempo a convite do amigo Al Templeton, prosaico dono de uma lanchonete que descobre em sua despensa uma “bolha” que o leva sempre ao dia 9 de setembro de 1958. Cada vez que alguém atravessa esse portal, é como se fosse pela primeira vez. Ou seja: todas as alterações que este alguém fez no passado serão desfeitas no momento que essa pessoa voltar para o futuro e tentar voltar ao passado.

Isso é o que Al Templeton acredita. No entanto, a cada viagem, rupturas ocorrem na realidade e o “presente” do viajante pode ser modificado radicalmente com as mais simples alterações.

A partir desta premissa King constrói uma história empolgante em pouco mais de 800 páginas recheada de tudo o que o autor costuma oferecer aos seus leitores fiéis: lirismo e absurdo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Os doze - Justin Cronin

Finalizei ontem à noite “Os doze”, segundo livro da trilogia de Justin Cronin que pega carona na onda pós-apocalíptica, mas, ao invés de zumbis, traz como “criaturas a serem temidas” os “virais”, seres humanos transformados em monstros vampirescos como resultado de uma pesquisa secreta de uma agência americana que deu terrivelmente errada.

O primeiro livro da série, “A passagem” têm altos e baixos. Há momentos excelentes (o primeiro capítulo é ótimo) e outros repletos de clichês e incongruências. Tudo começa com a quebra de segurança em uma instalação secreta do governo norte-americano, que põe à solta um grupo de condenados à morte usados em um experimento militar. Infectados com um vírus modificado em laboratório que lhes dá incrível força, extraordinária capacidade de regeneração e hipersensibilidade à luz, tiveram os últimos vestígios de humanidade substituídos por um comportamento animalesco e uma insaciável sede de sangue. 

A partir daí o mundo como o conhecemos vai por água abaixo, pelo menos na América do Norte. Não se sabe o que ocorreu com o resto do mundo, pois uma barreira foi levantada pelos demais países para isolar o vírus. Cem anos depois os seres humanos retrocedem na escala tecnológica e passam a viver em colônias altamente protegidas em regiões devastadas pelos virais.

A trama se desenrola em direções imprevistas, nas quais Cronin tenta surpreender o leitor. Há excelentes momentos, e até momentos de lirismo. Mas há muita superficialidade também, especialmente na construção dos personagens, quando o autor tenta - sem sucesso - ser mais profundo do que o gênero, normalmente, exige.

“Os Doze”, segundo livro da trilogia, tem inicio em 97 D.V (Depois do Vírus), cinco anos depois de “A passagem” – com flashs do passado dos antigos e novos personagens. Na luta contra os virais, o que resta da civilização se defronta com uma sociedade até então desconhecida, com fortes características totalitárias, onde uma elite que se alimenta do sangue de um dos Doze (os doze infestados originais que deram origem a uma prole de milhões) e, por isso, alcançou a imortalidade, escravizando os demais.

Os personagens originais, aliados a caras novas que surgem para reforçar o time, se defrontam com os novos adversários em 590 páginas de muito sangue e aventura. É diversão sem muita expectativa. Mas, para quem - como eu - não resiste ao trio fantasia/terror/ficção científica, a obra é interessante.

Para mais dicas de leituras e resenhas, ou simplesmente para descobrir o que ando lendo, clique no link - http://tinyurl.com/ny6cjfw

Últimas leituras, resenhas e dicas literárias

2014

- Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré - Reza Aslan
- Survivors (The Undead World) - Peter Meredith 
- The Apocalypse (The Undead World) - Peter Meredith
- American Sniper - Chris Kyle
- Operation Red Wings: The Rescue Story Behind Lone Survivor - Peter Nealen
- Lone Survivor - Marcus Luttrell
- O Silo - Hugh Howey
- Novembro de 63 - Stephen King
- O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota - Olavo de Carvalho
- A hora das bruxas (Volume 2) - Anne Rice 
- A hora das bruxas (Volume 1) - Anne Rice
- A queda do governador (Volume 1) - Robert Kirkman e Jay Bonansinga
- Os Doze - Justin Cronin 
- Os Irmãos Karamázov - Fiódor Dostoiévski

2013

- Ponto de impacto - Dan Brown
- Inferno -  Dan Brown
- Os últimos quartetos de Beethoven e  outros contos - Luis Fernando Veríssimo
- Getúlio: 1930-1945. Do governo provisório  à ditadura do Estado Novo - Lira Neto
- O vento pela fechadura - Stephen King
- O contrário da morte - Roberto Saviano
- Gomorra - Roberto Saviano
- A Ira dos Justos - Manel Loureiro
- Os dias escuros - Manel Loureiro
- A passagem - Justin Cronin
- Dirceu: a Biografia - Otávio Cabral
- Deixa ela entrar - John Ajvide Lindqvist
- Apocalipse Z - Manel Loureiro
- 50 anos a mil - Lobão
- Getúlio: 1882-1930. Dos anos de formação à conquista do poder – Lira Neto
- World War Z - Max Brooks
- O começo do tempo - Zecharia Sitchin
- Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo - Mário Magalhães
- O ciberespaço como fonte para jornalistas - Elias Machado
- Lincoln - Doris Kearns Goodwin
- A conversação em rede - Raquel Recuero
- O caminho para Woodbury - Robert Kirkman e Jay Bonansinga
- Lendo Lolita em Teerã - Azar Nafisi
- Duma Key - Stephen King
- Diálogos Impossíveis - Luis Fernando Veríssimo
- O segredo da pirâmide - Adelmo Genro Filho
- A identidade cultural na pós-modernidade - Stuart Hall
- Opinião Pública - Walter Lippmann
- A mesa voadora - Luis Fernando Veríssimo
- Livros de sangue V - Clive Barker
- O sol também se levanta - Ernest Hemingway
- Mortos entre vivos - John Ajvide Lindqvist
- Grandes Esperanças - Charles Dickens

2012
- Redes sociais na internet - Raquel Recuero
- Teorias do Jornalismo: porque as notícias são como são - Nelson Traquina
- Livros de sangue IV - Clive Barker
- O rei da montanha - Farah
- A zona morta - Stephen King
- Notícia de um sequestro - Gabriel García Márquez
- Guerra dos Tronos 5: A dança dos dragões - George R.R. Martin
- Os filhos dos dias - Eduardo Galeano
- Deuses Americanos - Neil Gaiman
- A morte da luz - George R.R. Martin
- A auto-estrada - Stephen King
- Nova Antologia do Conto Russo - Organizado por Bruno Barreto Gomide
- Che Guevara: uma biografia - Jon Lee Anderson
- Ao cair da noite - Stephen King
- Jack Kerouac: king of the beats - Barry Miles
- Guia politicamente incorreto da história do Brasil - Leandro Narloch
- Band of Brothers - Stephen E. Ambrose
- Dia D - Antony Beevor
- Animal Tropical - Pedro Juan Gutiérrez
- O Rei de Havana - Pedro Juan Gutiérrez
- Trilogia suja de Havana - Pedro Juan Gutiérrez
- Lancaster & York: The War of the Roses - Alison Weir
- A ascenção do Governador - Robert Kirkman e Jay Bonansinga
- Love - Stephen King
- De Cuba, com Carinho - Yoani Sánchez
- Chatô: o Rei do Brasil - Fernando Morais
- No coração do mar - Nathaniel Philbrick
- O caminho  para o céu - Zecharia Sitchin
- Moby Dick - Herman Melville
- Devoradores de Mortos - Michael  Crichton
- Coisas Frágeis - Neil Gaiman
- O Lobo do Mar - Jack London
- Guerra dos Tronos 4: O Festim dos Corvos - George R.R. Martin
- Almas Mortas - Nikolai Gógol
- O 12º Planeta - Zecharia Sitchin
- O Duplo - Fiódor Dostoievski
- Battle Cry of Freedom: The Civil War Era - James M. McPershon

2011
- Guerra dos Tronos 3: A Tormenta de Espadas - George R.R. Martin
- Guerra dos Tronos 2: A Fúria dos Reis - George R.R. Martin
- Guerra dos Tronos 1: As Crônicas de Gelo e Fogo - George R.R. Martin
- Matadouro 5 - Kurt Vonnegut
- The Last Full Measure - Jeff Shaara
- The Killer Angels - Michael Shaara
- Gods and Generals - Jeff Shaara
- Cidades da Planície - Cormac McCarthy
- A Travessia  - Cormac McCarthy
- Todos os belos cavalos -  Cormac McCarthy
- O emblema vermelho da coragem - Stephen Crane
- O Capote e outras histórias - Nikolai Gógol
- Dänichen em julgamento - Erich Von Dänichen
- De volta às estrelas - Erich Von Däniken
- Eram os deuses astronautas? - Erich Von Däniken
- A Estrada – Cormac McCarthy
- Pobre Nação – Robert Fisk
- História da Palestina moderna – Ilan Pappe
- A menina que roubava livros – Markus Zusak
- O Tradutor – Daoud Hari
- Numa fria – Charles Bukowski
- Crônica de um amor louco – Charles Bukowski

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"Os Irmãos Karamazov" - Fiódor Dostoiévski

“Eu sempre gostei de becos, de recantos desertos e escuros, atrás da praça – lá estão as aventuras, as surpresas, lá estão as pepitas no lodo.” - Mítia Karamázov em conversa com o irmão, Aliócha (Pág. 164)

Terminei ontem a leitura da "Os Irmãos Karamazov", de Fiódor Dostoiévski. Confesso que assimilar as 1000 páginas do romance (999 para ser exato) exigiu um mergulho profundo e apaixonado, uma imersão voluntária na alma russa do século 19, cujas histórias individuais são tão atuais, tão presentes em nosso cotidiano. Cobiça e desapego, ciúme e compaixão, ódio e amor, alegria e tristeza, fé e descrença, liberdade e escravidão. Não somos feitos disso tudo ainda hoje? Não somos todos almas karamazovianas?
Esperei bastante antes de me debruçar sobre a obra que, para muitos, está entre os mais importantes clássicos da literatura universal. Aguardei a aclamada tradução da Editora 34, feita por Paulo Bezerra diretamente do russo. As traduções anteriores, baseadas no francês, eram incompletas. A tradução de Bezerra baseia-se em uma edição crítica da obra de Dostoievski realizada por um time de filólogos russos nos anos 70 – buscava-se, então, corrigir os cortes realizados pelas censuras czarista e stalinista. É, de acordo com o posfácio do tradutor, "a única efetivamente integral em língua portuguesa".

Bezerra também buscou respeitar o estilo "às vezes meio tosco" do original. Dostoievski não era propriamente um cultor da palavra exata. "A coisa mais feia deste mundo é a realidade. Se um escritor deseja retratá-la com justiça, é preciso dominar uma forma literária que a copie - não é permitido dispensar a feiura”, disse certa vez. Seu estilo era duro, porque ele via cruamente a aspereza do universo à sua volta.
No entanto, poucos o superam na criação de personagens que vivem no extremo da condição humana – humilhados, atormentados, torturados pela própria personalidade mesquinha.

É o caso da família Karamázov. O pai, Fiódor, bêbado e bufão, conseguiu acumular alguma fortuna graças ao matrimônio com mulheres de melhor extração social. Teve três filhos: Dmitri (ou Mítia), Ivan e Alieksiêi (ou Aliócha. Negligente, abandonou-os à própria sorte para serem educados por criados.
Violento e lascivo, Dmitri saiu ao pai – e disputa com ele os favores de Grúchenka, jovem mulher de má fama. Aliócha é um místico. Vive em um mosteiro ortodoxo, onde segue as orientações do caridoso monge Zossima. Ivan é o mais filosófico e especulativo, um livre-pensador que parece ironizar todos os sistemas religiosos ou filosóficos: flerta com o ateísmo, mas discute teologia de igual para igual com Aliócha.

“Sabei que não há nada mais elevado, nem mais forte, nem mais saudável, nem doravante mais útil para a vida que uma boa lembrança, sobretudo aquela trazida ainda na infância, da casa paterna. Muitos vos falam de vossa educação, mas uma lembrança maravilhosa, sagrada, conservada desde a infância, pode ser a melhor educação. Se o homem traz consigo muitas destas lembranças para sua vida, está salvo pelo resto da existência.” - Aliócha palestrando para as crianças (Pág. 996)

É Ivan é a figura mais marcante da obra, apesar da miríade de personagens repletos de verdade e força. O capítulo mais conhecido e celebrado do romance, "O grande inquisidor", deve-se a ele. Trata-se de um poema (ou, antes, do enredo de um poema que ele deseja escrever, já que não está em versos), no qual Jesus retorna à Terra, em Sevilha, no século XVI, e acaba preso pela Inquisição espanhola.
“E o homem realmente inventou Deus. E os estranho, o surpreendente não seria o fato de Deus realmente existir; o que, porém, surpreende é que essa ideia – a ideia da necessidade de Deus – possa ter subido à cabeça de um animal tão selvagem e perverso como o homem...” - Ivan Karamázov (Pág. 323)

Quando Fiódor, o patriarca dos Karamázov, é assassinado e Dmitri surge como o principal suspeito, questões morais ganham uma premência incontornável, que muito atormentarão Ivan, seus irmãos e a todos que nos cercam. É em torno desta disputa que a trama se desenvolve, uma tempestade de virtudes e falhas de caráter, um vendaval de humanidade no que ela tem de mais sublime e torpe.
“De fato, às vezes se fala da crueldade ‘bestial’ do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente, tão esteticamente cruel. / Acho que se o diabo não existe e, portanto, o homem o criou então o criou à sua imagem e semelhança.” - Ivan Karamázov (Pág. 329 e 330)

Ler “Os irmãos Karamázov” foi, também, um exercício de sensibilidade. A cada página me lembrava de um querido amigo que nos deixou há algumas semanas, Luiz Capssa Lima, o Cacho, apaixonado por literatura, especialmente a literatura russa, que tanto me incentivou a experimentar a tradução de Paulo Bezerra.
Pensei muito no amigo, especialmente nas últimas páginas e nos trechos finais em que Aliócha conversa com as crianças no sepultamento de Iliúchetchka.

“E ainda que venhamos a nos dedicar aos mais importantes assuntos, a conquistar honrarias, ou a cair na maior desgraça – apesar de tudo nunca esqueçais como certa vez nos sentimos bem aqui, todos comungando, unidos por aquele sentimento tão bom e bonito, que durante aquele momento de nosso amor pelo infeliz menino nos fez, talvez, melhores do que em realidade somos.” - (Pág. 996)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013