Semana On

terça-feira, 12 de maio de 2015

Getúlio (1945-1954): Da Volta Pela Consagração Popular ao Suicídio – Lira Neto



Terminei na semana passada o terceiro e último voluma da trilogia de Lira Neto sobre a vida de Getúlio Vargas. O primeiro volume ia de seu nascimento, em 1882, até a Revolução de 1930. O segundo enfocava seu governo até 1945. O terceiro acompanha Vargas desde a deposição e o retiro nas terras da família, em São Borja (RS), onde articula o retorno à presidência, até o desfecho trágico no Palácio do Catete.

A finalização da trilogia reconstitui os acontecimentos políticos e pessoais mais importantes dos últimos anos do ex-presidente. Entre a deposição por um golpe militar, em outubro de 1945, e o suicídio, em agosto de 1954, o livro revela como a história do Brasil se entrançou com a vida de Getúlio, inclusive enquanto afastado do poder.

“Entrei para o governo por uma revolução, saí por uma quartelada”, lamentou-se Getúlio Vargas numa carta enviada de seu exílio rural em São Borja (RS), em novembro de 1945, ao amigo e correligionário João Neves da Fontoura. Depois de quinze anos no Palácio do Catete, emendando na sequência da Revolução de 1930 a chefia dos governos provisório e constitucional e a ditadura do Estado Novo, Getúlio fora obrigado a se retirar para sua região natal, na fronteira entre o Brasil e a Argentina, pelos mesmos militares que haviam apoiado seu projeto nacionalista de poder.

Os tempos estavam mudados, a Segunda Guerra Mundial já era história e ao ex-ditador, convertido num modesto estancieiro, apenas restavam as distrações das cavalgadas, do mate e dos charutos.  Mas Getúlio, animal político com aguçado senso de sobrevivência, não estava totalmente acabado, apesar do que pensavam os jornais do Rio de Janeiro, quase todos alinhados ao conservadorismo da União Democrática Nacional (UDN) e do Partido Social Democrático (PSD).

Sua filha Alzira — que havia permanecido na capital federal na companhia do marido, Ernani do Amaral Peixoto, e da mãe, Darcy — tornou-se uma espécie de embaixadora do getulismo, possibilitando ao ex-presidente perscrutar os bastidores do governo do general Eurico Gaspar Dutra e manter o controle sobre o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Com sua consagradora eleição ao Senado e as imunidades de constituinte, em 1946 Getúlio pôde voltar ao Rio de Janeiro num primeiro movimento de preparação do almejado retorno ao Catete.

Mas a hostilidade aberta da oposição udenista e as tentações de uma velhice tranquila no pampa gaúcho fizeram de seu mandato parlamentar pelo PTB um breve interlúdio do confinamento em São Borja, com raras aparições em plenário. Alzira, sempre no Rio, permaneceu sua conselheira e informante privilegiada por meio de detalhadas cartas-relatórios.

Apesar da derrota de candidatos que havia apoiado nas eleições regionais de 1947 e 48, Getúlio deu sinais à imprensa, com a sagacidade que lhe era peculiar, de que poderia tentar reconquistar o protagonismo político. O movimento queremista, que jamais havia se apagado, explodiu em todo o país, exigindo a candidatura do senador e “pai dos pobres” à presidência da República.

O retorno triunfal ao Catete, com a esmagadora votação obtida nas eleições de outubro de 1950, deu início a um dos períodos mais conturbados da política brasileira. A oposição ferrenha do udenismo e de parte da imprensa, personificada pelo jornalista Carlos Lacerda, combateu incessantemente todas as iniciativas (populares ou populistas) do segundo governo Getúlio. Realizações como a fundação da Petrobras e o aumento do salário mínimo foram ofuscadas por um sinistro clima de guerra psicológica.

O “mar de lama” denunciado à exaustão por seus inimigos – e confirmado pelo próprio presidente confrontado por esquemas de corrupção que envolviam a própria família Vargas - manietou o envelhecido presidente, dividido entre os afagos à classe trabalhadora e a obediência devida à praxe anticomunista da Guerra Fria. O próprio Lira Neto, no entanto, não crê que Getúlio estivesse envolvido, ele próprio, nas falcatruas de seu governo. “As pessoas que cercavam Getúlio perderam o senso de proporção. Mas tenho a convicção que ele não estava envolvido pessoalmente nos escândalos de corrupção. Tinha dificuldade de manter suas contas no fim do mês”, afirmou em recente entrevista ao Roda Viva da TV Educativa.

Lira Neto destaca algumas atitudes controversas do Getúlio político que, durante a ditadura perseguiu intelectuais, manteve censura feroz, fechou o Congresso, mas que, em seu período como presidente eleito recusou-se a lançar mão de medidas autoritárias, mesmo descobrindo-se destreinado a governar sob as regras do jogo democrático, com a imprensa e o Congresso em seu encalço.

O atentado a Lacerda — coberto ainda hoje de mistérios e para o qual o livro apresenta múltiplas possibilidades e versões —, no início de agosto de 1954, foi a senha para a precipitação dos acontecimentos. Acuado por um iminente golpe militar, Getúlio chegou a esboçar resistência, mas, politicamente isolado, preferiu o suicídio à desonra da renúncia.

“O suicídio não foi uma medida desesperada, nem o gesto de um depressivo”, diz Lira Neto. Em situações-limite, Getúlio várias vezes tomou em perspectiva o sacrifício pessoal. Os escritos íntimos dele são como a crônica de uma morte anunciada. Sempre teve a consciência de que não se permitiria passar à História como alguém derrotado em situação vexatória, desonrado.

Getúlio já havia ensaiado em outras cinco oportunidades, ao longo de 24 anos, este desfecho fatal. Cartas, anotações e bilhetes comprovam que o presidente sempre cogitou confrontar a derrota humilhante com a própria vida. Vargas enxergava no suicídio a única forma de sobreviver à morte física, antecipar-se à vingança do inimigo vitorioso e seguir existindo na memória popular.

“E se perdermos?”, perguntou-se num manuscrito datado de 3 de outubro de 1930, horas antes da deflagração do movimento armado que o levaria à chefia do governo federal. A resposta (“Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”) seria repetida, com variações na forma que em nada afetam o conteúdo, em 10 de julho de 1932, quando registrou em seu diário o início da Revolução Constitucionalista, e em 19 de janeiro de 1942, ao optar pela adesão aos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

Nos três episódios, a vitória dispensou-o de consumar a ameaça. Mas o flerte com a morte foi retomado em abril de 1945, quando se multiplicaram as evidências de que a cúpula do exército tramava a deposição do ditador. “Estou resolvido ao sacrifício para que ele fique como um protesto, marcando a consciência dos traidores”, avisou. Desta vez, não cumpriu a promessa por acreditar que não fora liquidado politicamente. As urnas logo gritariam que o genial intuitivo estava certo
Passados mais de sessenta anos do desfecho trágico, Lira Neto reconstitui todos os lances do tenso xadrez político que se entrelaçou com os últimos anos da vida de Getúlio. Amparado numa minuciosa pesquisa, que incluiu centenas de livros e milhares de páginas de manuscritos e documentos originais, o autor elucida um período capital da história do Brasil e interpreta a personalidade de seu mais importante ator político no século XX.

Mais próxima da reportagem do que do ensaio histórico, a biografia de Lira foi elogiada por historiadores como Boris Fausto, autor de “Getúlio Vargas: o poder e o sorriso” (Companhia das Letras), e Maria Celina D’Araújo, autora de “A Era Vargas” (Moderna) e outros livros sobre o período. O próprio autor diz que não teve a pretensão de fazer uma análise dos governos do ex-presidente, mas sim de narrar sua trajetória “sem maniqueísmos”:

“Tentei falar de Getúlio sem devoção nem negação, com equilíbrio. Acho que consegui, porque sou atacado por todos os lados: getulistas me acusam de udenismo, antigetulistas me acusam de favorecê-lo. Os livros permitem várias leituras. Estão lá as atrocidades do Estado Novo, a tortura e o autoritarismo, mas também as conquistas da Era Vargas e seu legado para os trabalhadores”, diz o autor, que vê Getúlio “ainda muito presente” no cenário nacional. “Os grandes temas da Era Vargas, como o tamanho do Estado e os direitos trabalhistas, continuam em nosso debate político”.
 
“Getúlio, inegavelmente, modernizou o Brasil. Em 1930, pegou um país agrário, semifeudal e, no espaço de pouco mais de duas décadas, o conduziu para o rumo do desenvolvimento. O projeto nacional desenvolvimentista nos deixou legados indiscutíveis, como a Petrobras, a siderúrgica de Volta Redonda, o BNDES e o Banco do Nordeste, entre tantos outros. Também é evidente a herança positiva das leis trabalhistas, que estabeleceu relativo equilíbrio na relação entre capital e trabalho em um país, do ponto de vista histórico, recém-saído da escravidão. Isso não significa que o legado de Getúlio seja inteiramente positivo. A ditadura do Estado Novo permanece como uma nódoa indelével em nossa história. O cerceamento das liberdades, a censura à imprensa, a perseguição feroz a intelectuais e sindicalistas, tudo isso merece crítica veemente. Portanto, é impossível analisar a trajetória de Getúlio por uma única perspectiva, encará-lo historicamente de modo maniqueista, reducionista. Como bem escreve o historiador Boris Fausto, na quarta capa do primeiro volume, Getúlio é, para o bem e para o mal, a figura mais importante da história brasileira no século XX”, resume Lira Neto.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Vladimir Nabokov – Contos reunidos

Finalizei ontem “Contos reunidos” (Alfaguara, 832 pgs), de Vladimir Nabokov. A obra traz 68 contos (a maioria deles em russo, com exceção de um em francês e dez em inglês) escritos entre 1920 e 1951 e traduzidos com competência por José Rubens Siqueira.

Os contos são apresentados em ordem cronológica, o que permite ao leitor observar os temas, abordagens e estilos que traçam um panorama das relações humanas. Os grandes temas não são tratados diretamente nos contos, mas aparecem como pano de fundo que permeia as circunstâncias de vida dos personagens: a nostalgia do país natal, a ascensão do totalitarismo, a desintegração dos laços com o passado, a necessidade de lidar com a perda e com o destino sempre implacável.

A leitura cronológica permite facilita a análise dos temas, que em um primeiro momento se focam no estranhamento provocado pelo êxodo forçado de russos a uma Europa que não lhes acomoda a alma, migram para enfoques mais ocidentais, sem perder, no entanto, a intensidade e a vibração de um autor que abordava a alma humana em seus mais profundos significados.

Sabores, odores, sons, poesia, encantamento. Tudo isso compõe o texto de Nabokov a partir das descrições dos sentimentos experimentados pelos personagens, como neste trecho do conto “Fala-se russo”:

“A alma de um homem pode ser comparada a uma loja de departamentos e seus olhos, a vitrines gêmeas. A julgar pelos olhos de Martin, estavam na moda cores cálidas, castanhas. A julgar por aqueles olhos, a mercadoria dentro de sua alma era de soberba qualidade.”

Ou neste, de “Um homem ocupado”:

“Numa calma noite de verão ele completou 33 anos. Sozinho em seu quarto, vestido de ceroulas listradas como as de um prisioneiro, sem óculos, piscando, ele comemorou seu aniversário indesejado.”

Ou, ainda, este libelo antifascista em “Tiranos destruídos”:

“Ficarei contente se o fruto de minhas noites insones, esquecidas, servirem por um longo tempo como uma espécie de remédio secreto contra futuros tiranos, monstros tigroides, torturadores imbecis do homem.”

Nabokov nasceu em São Petersburgo (Rússia), em 1899. Oriundo de uma família aristocrática deserdada com a Revolução deixou o país em 1919, durante a guerra civil. Exilado, estudou literatura em Cambridge, na Inglaterra (onde seu pai foi assassinado em 1922), e viveu em Berlim (1923 a 1937) e Paris (1937-1940), quando escreveu seus primeiros contos, em russo, antes de se radicar nos Estados Unidos, onde lecionou em Stanford, Cornell e Harvard.

Seu primeiro livro escrito em inglês foi “A verdadeira vida de Sebastian Knight” (1941), em que já revelava as características que o distinguiriam como um dos maiores estilistas da língua inglesa. Mas foi com “Lolita” (1955), que descreve a paixão de um professor quarentão por sua enteada de 12 anos, que o escritor alcançou o reconhecimento e o sucesso comercial que lhe permitiram largar a atividade acadêmica para se dedicar exclusivamente à literatura.

Adaptado para o cinema por Stanley Kubkrick com roteiro do próprio Nabokov, “Lolita” foi acusado de pornográfico e indutor da pedofilia,  mas o escândalo não comprometeu os méritos literários do romance. Em 1961, o escritor mudou de país mais uma vez, passando a morar com a mulher Vera e o filho Dmitri em Montreux, na Suíça, até sua morte, em 1977.

Durante sua vida, Nabokov publicou 52 contos, reunidos em quatro volumes de 13 (as famosas “dúzias” de Nabokov). Pouco antes de morrer, selecionou mais oito para um quinto volume, que não chegou a ver. Coube a seu filho e tradutor Dmitri Nabokov fazer a seleção final dos 65 contos (cinco “dúzias”) que constavam na edição americana original dos “Contos reunidos”, aos quais foram acrescentados mais três, à medida que novos originais foram descobertos pelos pesquisadores.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Zelota - Reza Aslan



Terminei de ler hoje “Zelota: a vida e os tempos de Jesus de Nazaré”, do hisroriador iraniano, radicado nos Estados Unidos, Reza Aslan. Lançado no ano passado, o livro liderou a lista de mais vendidos do The New York Times e da Amazon e desbancou até recordistas de vendas como a britânica J.K.Rowling. Em 2014, chegou ao Brasil. E é de tirar o fôlego. 
 
Aslan defende a seguinte tese: Jesus, ao contrário do que prega a Igreja Católica, não foi um pacifista que, diante da violência “oferecia a outra face” e amava os inimigos. Jesus foi um revolucionário, cujo objetivo principal era expulsar os romanos da Judeia, criar um reino de Deus na Terra e assumir seu trono. “A maior parte dos cristãos pensa que Jesus não tinha ambições políticas ou terrenas, que foi um pacifista de boas ações. O que não percebem é que no tempo de Jesus religião e política eram a mesma coisa”, argumenta, com a autoridade de quem possui um doutorado e especializações em história das religiões e 20 anos de estudo sobre as origens do cristianismo

Zelota é uma palavra derivada do aramaico. Significa “Alguém que zela pelo nome de Deus”. Sua origem está ligada ao movimento político judaico que defendia a rebelião do povo da Judeia contra o Império Romano. Os zelotas pretendiam expulsar os romanos pela força.  Essa é a função do Messias. Se ele (Jesus) se intitulava o Messias, o que queria dizer é que era o descendente do rei David, que tinha vindo para estabelecer o trono de David na terra. É tão simples quanto isso. Ou nunca pensou que era o Messias; ou pensou e a sua tarefa era remover a ocupação romana. Era o que se esperava do Messias”, afirma o autor.

Como diz Aslan na introdução da sua obra, é um milagre que saibamos alguma coisa sobre o homem chamado Jesus de Nazaré. Pois sua figura não era incomum na Palestina dominada pelos romanos. “O pregador itinerante, vagando de cidade em cidade clamando sobre o fim do mundo e sendo seguido por um bando de maltrapilhos, era uma visão comum no tempo de Jesus - tão comum, de fato, que havia se tornado uma espécie de caricatura entre a elite romana”, afirma.

O século I foi uma era de expectativa apocalíptica entre os judeus da Palestina, a designação romana para a vasta extensão de terra que abrange os atuais Estados de Israel/Palestina, bem como grande parte da Jordânia, Síria e Líbano. Inúmeros profetas, pregadores e messias caminhavam pela Terra Santa proclamando mensagens do iminente julgamento de Deus. Acrescente-se a essa lista a seita dos essênios, da qual alguns membros viveram em reclusão no alto do planalto seco de Qumran, na costa noroeste do mar Morto; o partido revolucionário judeu do século I, conhecido como partido zelota, ou zelote, que ajudou a lançar uma guerra sangrenta contra Roma; e os temíveis bandidos-assassinos a quem os romanos apelidaram de sicários ("homens dos punhais"), e a imagem que emerge da Palestina no século I é a de uma era imersa em energia messiânica.

É difícil enquadrar Jesus de Nazaré em qualquer um dos movimentos político-religiosos conhecidos de seu tempo, afirma Aslan. Ele era um homem de contradições profundas, um dia pregando uma mensagem de exclusão racial ("Eu fui enviado apenas às ovelhas perdidas de Israel", Mateus 15:24), no outro, de benevolente universalismo ("Ide e fazei discípulos de todas as nações", Mateus 28:19); às vezes clamando por paz incondicional ("Bem- aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus", Mateus 5:9), às vezes promovendo violência e conflitos ("Se tu não tens uma espada, vai vender teu manto e compra uma", Lucas 22:36).

O Jesus histórico

O problema de situar o Jesus histórico é que, fora do Novo Testamento, não há quase nenhum vestígio do homem que iria alterar de modo permanente o curso da história humana. A referência não bíblica mais antiga e mais confiável de Jesus é do historiador judeu Flávio Josefo, do século I (morto em 100 d.C.). Em uma breve passagem na sua obra Antiguidades, Josefo escreve sobre um sumo sacerdote judeu chamado Ananus que, após a morte do governador romano Festo, condenou ilegalmente um certo "Tiago, irmão de Jesus, o que eles chamam de messias" a apedrejamento por transgressão da lei. A passagem prova não apenas que "Jesus, o que eles chamam de messias" provavelmente existiu, mas que pelo ano de 94 d.C., quando a obra Antiguidades foi escrita, era amplamente reconhecido como o fundador de um movimento novo e duradouro.

É esse movimento, não o seu fundador, que recebe a atenção de historiadores do século II, como Tácito (morto em 118) e Plínio, o Jovem (morto em 113), que mencionam Jesus de Nazaré, mas revelam pouco sobre ele além de sua prisão e execução. Somos, portanto, restritos às informações que possam ser obtidas a partir do Novo Testamento.

O primeiro testemunho escrito sobre Jesus de Nazaré vem das epístolas de Paulo, um dos primeiros seguidores de Jesus, que morreu por volta de 66 d.C. (a primeira epístola de Paulo, 1 Tessalônicos, pode ser datada entre 48 e 50 d.C., cerca de duas décadas depois da morte de Jesus). O problema com Paulo, no entanto, é que ele exibe uma extraordinária falta de interesse pelo Jesus histórico. Apenas três cenas da vida de Jesus são mencionadas em suas epístolas: a Última Ceia (1 Coríntios 11:23-26), a crucificação (1 Coríntios 2:2), e, mais importante para Paulo, a ressurreição, sem a qual, segundo ele, "a nossa pregação é vazia e sua fé é em vão" (1 Coríntios 15:14). Paulo pode ser uma excelente fonte para os interessados na formação inicial do cristianismo, mas é um guia pobre para se descobrir o Jesus histórico.

Restam os evangelhos, que apresentam seu próprio conjunto de problemas. Primeiro de tudo, afirma Aslan, é preciso reconhecer que, com a possível exceção do evangelho de Lucas, nenhum dos evangelhos foi escrito pela pessoa que o nomeia. Isso é verdade para a maioria dos livros do Novo Testamento. “Tais obras, chamadas pseudoepigráficas - obras atribuídas a um autor específico, mas não escritas por ele -, eram extremamente comuns no mundo antigo e não devem ser, de forma alguma, consideradas falsificações”, alerta. Mas, mesmo estas obras não são relatos de testemunhas oculares das palavras e atos de Jesus. Eles são testemunhos de fé compostos por comunidades de fé e escritos muitos anos depois dos acontecimentos que descrevem. Simplificando, os evangelhos nos dizem sobre Jesus, o Cristo, e não sobre Jesus, o homem.

A teoria mais aceita sobre a formação dos evangelhos, "A teoria das duas fontes", sustenta que o testemunho de Marcos foi escrito algum tempo depois de 70 d.C., cerca de quatro décadas depois da morte de Jesus. Marcos tinha à disposição um conjunto de tradições orais e talvez um punhado de tradições escritas que haviam sido repassadas pelos primeiros seguidores de Jesus durante anos. Ao adicionar uma narrativa cronológica a este amontoado de tradições, Marcos criou um gênero literário totalmente novo chamado evangelho, palavra grega (evangelion) para "boa notícia". Duas décadas depois de Marcos, entre 90 e 100 d.C., Mateus e Lucas, trabalhando de forma independente um do outro e tomando o manuscrito de Marcos por modelo, atualizaram a história do evangelho, adicionando suas próprias e exclusivas tradições, incluindo duas narrativas - diferentes e conflitantes -  da infância e uma série de histórias de ressurreição elaboradas para satisfazer seus leitores cristãos.

Juntos, esses três evangelhos, Marcos, Mateus e Lucas, tornaram-se conhecidos como os sinópticos (grego para "vistos juntos"), porque eles mais ou menos apresentam uma narrativa e uma cronologia iguais sobre a vida e o ministério de Jesus, que é muito em desacordo com o quarto evangelho, o de João, que foi provavelmente escrito logo após o fim do século I, entre 100 e 120 d.C.

Estes são os evangelhos canônicos. Mas eles não são os únicos. “Temos hoje acesso a uma biblioteca inteira de escrituras não canônicas, escritas principalmente nos séculos II e III, que fornecem uma perspectiva muito diferente sobre a vida de Jesus de Nazaré”, alerta Aslan. Estas incluem o evangelho de Tomé, o evangelho de Filipe, o Livro Secreto de João, o evangelho de Maria Madalena e uma série de outros chamados "evangelhos gnósticos", descobertos no alto Egito, perto da cidade de Nag Hammadi, em 1945. Embora eles tenham sido deixados de fora do que se tornaria o Novo Testamento, esses livros são importantes na medida em que demonstram a dramática divergência de opinião que existia sobre quem era Jesus e o que Jesus significava, mesmo entre aqueles que andaram com ele, que compartilharam seu pão e comeram com ele, que ouviram suas palavras e oraram com ele.

Revolucionário

No final, há apenas dois fatos históricos efetivos sobre Jesus de Nazaré nos quais se pode realmente confiar, afirma o pesquisador: o primeiro é que Jesus foi um judeu que liderou um movimento popular judaico na Palestina no início do século I d.C.; o segundo é que Roma o crucificou por isso.

Por si sós, esses dois fatos não podem fornecer um retrato completo da vida de um homem que viveu há 2 mil anos. “Mas quando combinados com tudo o que sabemos sobre a época tumultuada em que Jesus viveu - e graças aos romanos sabemos bastante -, esses dois fatos ajudam a pintar um retrato de Jesus de Nazaré que pode ter mais precisão histórica do que o pintado pelos evangelhos. Na verdade, o Jesus que emerge desse exercício histórico - um revolucionário fervoroso arrebatado, como todos os judeus da época o foram, pela agitação política e religiosa da Palestina do século I - tem pouca semelhança com a imagem do manso pastor cultivado pela comunidade cristã primitiva”.

Aslan argumenta, com bases históricas, que a crucificação era uma punição que Roma reservava quase exclusivamente para o crime de sedição. A placa que os romanos colocaram acima da cabeça de Jesus enquanto ele se contorcia de dor - "Rei dos Judeus" - era chamada de titulus, e, apesar da percepção comum, não era para ser sarcástica. Todo criminoso que era pendurado em uma cruz recebia uma placa declarando o crime específico pelo qual estava sendo executado. O crime de Jesus, aos olhos de Roma, foi o de buscar o poder político de um rei (ou seja, traição), o mesmo crime pelo qual foram mortos quase todos os outros aspirantes messiânicos da época. E Jesus também não morreu sozinho. Os evangelhos afirmam que em ambos os lados de Jesus estavam pendurados homens que, em grego, eram chamados lestai, uma palavra muitas vezes traduzida como "ladrões", mas que, na verdade, significa "bandidos" e era a designação romana mais comum para um insurreto ou rebelde.

Três rebeldes em uma colina coberta de cruzes, cada cruz com o corpo torturado e ensanguentado de um homem que ousou desafiar a vontade de Roma. Essa imagem por si só deveria lançar dúvidas sobre a interpretação dos evangelhos de Jesus como um homem de paz incondicional quase totalmente isolado das convulsões políticas de seu tempo. “A ideia de que o líder de um movimento messiânico popular pedindo a imposição do ‘Reino de Deus’ - um termo que teria sido entendido, tanto por judeus quanto por gentios, como implicando revolta contra Roma - pudesse ter permanecido sem envolvimento com o fervor revolucionário que atingiu quase todos os judeus na Judeia é simplesmente ridícula”, diz o autor.

De revolucionário a sagrado

Por que então os escritores dos evangelhos iriam tão longe para amainar o caráter revolucionário da mensagem e do movimento de Jesus? Para responder a essa pergunta, Aslan sugere que devemos primeiro reconhecer que quase toda história dos evangelhos escrita sobre a vida e a missão de Jesus de Nazaré foi composta após a rebelião judaica contra Roma, em 66 d.C. Naquele ano, um grupo de rebeldes judeus, estimulado por seu fervor por Deus, levou seus companheiros judeus à rebelião. Milagrosamente, os rebeldes conseguiram libertar a Terra Santa da ocupação romana. Durante quatro anos, a cidade de Deus esteve de novo sob controle judaico. Então, em 70 d.C., os romanos voltaram. Depois de um breve cerco a Jerusalém, os soldados violaram as muralhas da cidade e desencadearam uma orgia de violência contra seus residentes. Quando o massacre foi completado, os soldados atearam fogo ao Templo, aos prados de Jerusalém, as terras cultivadas e as oliveiras.

“Tudo queimado. Tão completa foi a devastação praticada sobre a Cidade Santa que Josefo escreve que nada fora deixado que provasse que Jerusalém já tinha sido habitada. Dezenas de milhares de judeus foram massacrados. O resto foi levado acorrentado para fora da cidade”, explica.

O trauma espiritual enfrentado pelos judeus após esse evento catastrófico foi tão grande que, exilados da terra a eles prometida por Deus, forçados a viver como párias entre os pagãos do Império Romano, os rabinos do século II gradual e deliberadamente divorciaram o judaísmo do nacionalismo messiânico radical que tinha iniciado a guerra malfadada com Roma. A Torá substituiu o Templo no centro da vida judaica, e surgiu o judaísmo rabínico.

Aslan argumenta que os cristãos também sentiram necessidade de se distanciarem do fervor revolucionário que levara ao saque de Jerusalém, não só porque isso permitia à Igreja primitiva afastar a ira de uma Roma profundamente vingativa, mas também porque, tendo a religião judaica se tornado pária, os romanos tinham se transformado no principal alvo de evangelismo da Igreja. Assim começou o longo processo de transformar Jesus de um nacionalista judeu revolucionário em um líder espiritual pacífico, sem nenhum interesse em qualquer assunto terreno. Esse era um Jesus que os romanos podiam aceitar, e de fato aceitaram três séculos mais tarde, quando o imperador romano Flávio Teodósio (morto em 395) fez do movimento do pregador judeu itinerante a religião oficial do Estado, e nascia o que hoje reconhecemos como o cristianismo ortodoxo.

A obra de Reza Aslan traz também dados fundamentais para a compreensão das origens do cristianismo através da disputa entre duas vertentes do movimento nas primeiras décadas após a morte de Jesus: os “hebreus”, cristãos liderados por Thiago (irmãos de Jesus) e Pedro, que não apartavam sua crença das bases do judaísmo, e os “helenistas”, liderados por Paulo, que rompiam radicalmente com o judaísmo em busca de uma nova religião que alçava Jesus ao patamar do divino, filho de Deus, o que não ocorrera até então.

O processo que culminou, a partir daí, na transformação de uma seita judaica do século I na maior religião do planeta é magistralmente construído por Aslan, especialmente em sua descrição do Credo de Niceia, em 325 d.C., quando, convocados pelo recém convertido imperador Constantino, dois mil bispos definiram as bases do Novo Testamento, transformando para sempre a leitura que o mundo faria de Jesus e de sua história nos próximos 1687 anos.

“De fato, se nos comprometermos a colocar Jesus firmemente dentro do contexto social, religioso e político da época em que ele viveu - uma época marcada por uma persistente revolta contra Roma que iria transformar para sempre a fé e a prática do judaísmo -, então, de certa forma, sua biografia se escreve por si própria. O Jesus que é revelado nesse processo pode não ser o Jesus que esperamos, e ele certamente não será o Jesus que os cristãos mais modernos reconheceriam. Mas, no final, ele é o único Jesus que podemos acessar por meios históricos. Todo o resto é uma questão de fé.”,  finaliza Aslan.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Silo - Hugh Howey

Terminei ontem o primeiro livro da distopia “O Silo”, do americano Hugh Howey. Usando o argumento pós-apocaliptico, o autor consegue ser criativo ao nos apresentar uma comunidade que tenta sobreviver num gigantesco silo subterrâneo com dezenas de níveis, onde milhares de pessoas vivem numa sociedade completamente estratificada e rígida, e onde falar do mundo exterior constitui crime.

As únicas imagens do que existe lá fora são captadas de forma difusa por câmaras de vigilância que deixam passar um pouco de luz natural para o interior do silo. Contudo há sempre aqueles que se questionam... Esses “rebeldes” são enviados para o exterior com a missão de limpar as câmaras em viagens suicidas. Expostos as toxinas de um mundo destruído, estes condenados são levados a cumprir seu último sacrifício par com o Silo antes de sucumbirem a atmosfera tóxica do exterior.
O que parece uma sociedade enquadrada em regras e dogmas, no entanto, desaba sob a comichão da curiosidade humana revelando uma realidade muito mais sombria do que se imagina.

Howey começou o universo proposto em O Sillo no outono de 2011, quando publicou um conto em ebook na Amazon. O conto atingiu um grande público que implorava por mais histórias do universo de onde esse conto viera. Quando finalmente lançou uma "versão completa" do ebook de Silo, o livro chegou a ficar por um tempo considerável no top 100 livros mais vendidos da Amazon, chegando ao primeiro lugar dos mais vendidos de ficção-científica e ao topo dos mais vendidos no Reino Unido e na Alemanha também.

Ridley Scott e Steve Zaillian pensaram que a história daria um filme em potencial e a 20th Century Fox comprou a ideia. Foi assim que o livro atraiu também a atenção da editora Random House, que publicou o livro físico nos Estados Unidos em tr~es volumes (o primeiro já lançado aqui no Brasil) . E esse foi o sucesso estrondoso e rápido de Silo, que já tem até Graphic Novel.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Novembro de 63 – Stephen King



Sou suspeito para falar de qualquer livro de Stephen King. Para mim, o maior romancista de literatura pop das últimas décadas. Quem imagina que o autor navega apenas pelas fórmulas batidas do terror trash está enganado. King singra as águas do absurdo na mais pura tradição lovecraftiana. Porém, com um delicioso toque contemporâneo onde paisagens, sons, cheiros, tendências se misturam para tornar o irreal assustadoramente real.

O passado não quer ser mudado, garante Stephen King em seu mais recente livro, “Novembro de 63”, cuja leitura finalizei ontem. A obra começou a ser formulada em 1973, a partir de uma ideia baseada no conceito de viagem no tempo. Nesse projeto, um homem voltava ao passado para interromper o assassinato de Kennedy. A ideia ficou engavetada por três décadas até que foi retomada em 2009 e transformada em brochura em novembro passado.

O enredo, como tudo que sai da mente de King, mistura realismo e fantasia em doses cavalares. Jake Epping é um professor de inglês que, certo dia, se depara com a possibilidade de uma viagem no tempo a convite do amigo Al Templeton, prosaico dono de uma lanchonete que descobre em sua despensa uma “bolha” que o leva sempre ao dia 9 de setembro de 1958. Cada vez que alguém atravessa esse portal, é como se fosse pela primeira vez. Ou seja: todas as alterações que este alguém fez no passado serão desfeitas no momento que essa pessoa voltar para o futuro e tentar voltar ao passado.

Isso é o que Al Templeton acredita. No entanto, a cada viagem, rupturas ocorrem na realidade e o “presente” do viajante pode ser modificado radicalmente com as mais simples alterações.

A partir desta premissa King constrói uma história empolgante em pouco mais de 800 páginas recheada de tudo o que o autor costuma oferecer aos seus leitores fiéis: lirismo e absurdo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Os doze - Justin Cronin

Finalizei ontem à noite “Os doze”, segundo livro da trilogia de Justin Cronin que pega carona na onda pós-apocalíptica, mas, ao invés de zumbis, traz como “criaturas a serem temidas” os “virais”, seres humanos transformados em monstros vampirescos como resultado de uma pesquisa secreta de uma agência americana que deu terrivelmente errada.

O primeiro livro da série, “A passagem” têm altos e baixos. Há momentos excelentes (o primeiro capítulo é ótimo) e outros repletos de clichês e incongruências. Tudo começa com a quebra de segurança em uma instalação secreta do governo norte-americano, que põe à solta um grupo de condenados à morte usados em um experimento militar. Infectados com um vírus modificado em laboratório que lhes dá incrível força, extraordinária capacidade de regeneração e hipersensibilidade à luz, tiveram os últimos vestígios de humanidade substituídos por um comportamento animalesco e uma insaciável sede de sangue. 

A partir daí o mundo como o conhecemos vai por água abaixo, pelo menos na América do Norte. Não se sabe o que ocorreu com o resto do mundo, pois uma barreira foi levantada pelos demais países para isolar o vírus. Cem anos depois os seres humanos retrocedem na escala tecnológica e passam a viver em colônias altamente protegidas em regiões devastadas pelos virais.

A trama se desenrola em direções imprevistas, nas quais Cronin tenta surpreender o leitor. Há excelentes momentos, e até momentos de lirismo. Mas há muita superficialidade também, especialmente na construção dos personagens, quando o autor tenta - sem sucesso - ser mais profundo do que o gênero, normalmente, exige.

“Os Doze”, segundo livro da trilogia, tem inicio em 97 D.V (Depois do Vírus), cinco anos depois de “A passagem” – com flashs do passado dos antigos e novos personagens. Na luta contra os virais, o que resta da civilização se defronta com uma sociedade até então desconhecida, com fortes características totalitárias, onde uma elite que se alimenta do sangue de um dos Doze (os doze infestados originais que deram origem a uma prole de milhões) e, por isso, alcançou a imortalidade, escravizando os demais.

Os personagens originais, aliados a caras novas que surgem para reforçar o time, se defrontam com os novos adversários em 590 páginas de muito sangue e aventura. É diversão sem muita expectativa. Mas, para quem - como eu - não resiste ao trio fantasia/terror/ficção científica, a obra é interessante.

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