Semana On

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Submissão - Michel Houellebecq


A palavra islã significa submissão a Alá, submissão à sua vontade. O termo deriva da raiz árabe “Salam” que significa paz, pureza, submissão, obediência, etc. No sentido religioso, Islam remete à “submissão voluntária à vontade de Deus e obediência à sua Lei”. A relação entre o sentido original e o religioso da palavra é forte e evidente, mais ainda quando pensamos a influência do islamismo sobre o mundo ocidental sob a ótica de “Submissão”, livro do romancista, poeta e ensaísta francês Michel Houellebecq, lançado em janeiro de 2015, quase ao mesmo tempo em que terroristas islâmicos invadiram o jornal humorístico Charlie Hebdo, matando 12 pessoas e deixando 11 feridas.

A tragédia lançou potentes holofotes sobre a questão de fundo e tema central de “Submissão”: a possibilidade de um islamismo político, fortalecido pelo enfraquecimento da eterna disputa entre esquerda e direita europeias, chegar ao poder.

Cenário improvável? Nem tanto. Hoje, 10% da população francesa professa a fé islâmica. Em 2022, no futuro imaginado por Houellebecq, esse número torna-se expressivamente maior.

Na guerra pela demografia, segundo um dos personagens do livro, as grandes massas que se reconhecem numa das três religiões do Livro Sagrado, entre os quais os valores patriarcais se mantiveram, têm mais filhos que os casais ateus ou agnósticos, oriundos de um humanismo ateu, sobre o qual repousa o ‘viver juntos’ laico, que, segundo a obra, está condenado a curto prazo, pois a percentagem da população monoteísta está fadada a aumentar rapidamente, especialmente no caso da população muçulmana.

“O individualismo liberal devia triunfar na medida em que se contentasse em dissolver essas estruturas intermediárias que eram as pátrias, as corporações, as castas, mas, ao atacar essa estrutura última que era a família, e portanto a demografia, assinalaria seu fracasso final... A chegada maciça de populações imigrantes impregnadas de uma cultura tradicional ainda marcada pelas hierarquias naturais, pela submissão da mulher e pelo respeito devido aos mais velhos constituía uma chance histórica para o rearmamento moral e familiar da Europa, abria a perspectiva de uma nova idade do ouro para o velho continente. Ás vezes estas populações eram cristãs; mas via de regra eram, devia-se reconhecer, muçulmanas.”, afirma uma passagem de “Submissão.

Na trama, ao fim do segundo mandato fictício de François Hollande, a França se encontra mergulhada em tal caos institucional que o tradicional Partido Socialista (PS), o partido do presidente, está fora do segundo turno, e a disputa se polariza entre a favorita Frente Nacional de Marine Le Pen e a fictícia Irmandade Muçulmana, do também fictício candidato Mohammed Ben Abbes.

Para impedir a vitória da ultradireita de Le Pen, os socialistas do PS acertam uma coligação com o partido muçulmano aceitando algumas medidas inesperadas: a restrição do ensino público universal até os 12 anos e a privatização de todas as universidades.

A Sorbonne, financiada pela abundante riqueza do novo aliado – a Arábia Saudita - torna-se uma instituição muçulmana oferecendo educação baseada na religião, e todos os que não partilham da mesma fé são compulsoriamente aposentados.

"A esquerda sempre tivera essa capacidade de fazer com que fossem aceitas reformar antissociais que teriam sido vigorosamente rejeitadas se viessem da direita", afirma um dos personagens da obra.

Os meandros que levam a vitória de Abbes expõe as entranhas mais carcomidas da democracia representativa. O jogo de alianças, o vale tudo pelo poder, inclusive o abandono das mais caras bandeiras e convicções. Além disso, Houellebecq faz uma leitura da reação da juventude diante da derrocada dos partidos e das utopias. Em determinado momento o autor diz: “Ben Abbes sempre evitara comprometer-se com a esquerda anticapitalista; a direita liberal ganhara a ‘batalha das ideias’, ele entendera perfeitamente isso, os jovens tinham se tornado empreendedores, e o caráter insuperável da economia de mercado era, agora, unanimemente admitido. Mas, sobretudo, o verdadeiro lance de gênio do líder muçulmano foi entender que as eleições não se disputariam no terreno da economia, e sim no dos valores”.

“Trata-se de uma avaliação que nos serve para enxergar e problematizar corridas eleitorais que se desenvolvem hoje no mundo”, avalia Alexandre Pilati, professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília (UNB). “O modelo econômico capitalista relega o debate acerca da emancipação política das classes subalternas a um plano secundário e distante, que cheira a anátema. Questões que envolvem valores cada vez mais definem a aparência do debate político das democracias burguesas, fazendo-se como determinantes em detrimento da essência da história, ou seja, a luta de classes”.

Mas não é esta zona de conflito, cujo palco é a democracia representativa e, os atores bufos, os representantes de uma direita e uma esquerda cada vez mais homogêneas que me chama a atenção na obra de Houellebecq. O que se destaca, com contornos, preocupantes, é a ideia de que muitos de nós cederíamos de bom grado espaço para ideias retrógradas caso estas fossem estabelecidas dentro do jogo democrático, dentro da disputa formal pelo poder.

É exatamente esta a postura do protagonista, François, professor de literatura na Sorbonne, um descrente de tudo, dos laços afetivos duradouros à social-democracia e ao chamado "humanismo". François acompanha o desenlace político enquanto tenta encontrar razão para uma existência cujo sentido ele não percebe.

Com a chegada dos muçulmanos ao poder, a nova realidade se faz sentir. Acaba o desemprego, porque as mulheres devem viver em casa. Aumenta o orçamento para auxílio-moradia, mas diminui o da educação. Os petrodólares inundam as escolas e universidades, a Sorbonne transforma-se em uma Universidade Islâmica sob o patrocínio saudita. Lá, o véu torna-se obrigatório, o pensamento vigiado.

Um colega medíocre se converte à nova religião, adota a poligamia, agora estimulada, e com isso ganha o triplo do salário. François é induzido a se aposentar, precocemente.

Meses adiante, é convidado a voltar à universidade. A proposta vem de um nietzschiano, carreirista e já convertido (a mulher mais nova tem 15 anos e usa camiseta da Hello Kitty), agora no poder. Oferece a François seu livro "Dez Questões sobre o Islã", em que concilia a defesa das ideias muçulmanas com a teoria da seleção natural, com a moderna ecologia, com a visão elitista de Nietzsche.

François acompanha tudo com a mesma indiferença explícita, amoral, numa neutralidade chocante que desemboca na aceitação passiva das mudanças. Nem tão passiva assim, já que ele parece ceder diante da tentação de um ótimo rendimento e da possibilidade da poligamia.

“O sentido de submissão é, para a consciência do mundo moderno, tudo de mais reprovável que pode haver. O pressuposto principal do Ocidente é a liberdade, e a luta por ela é a mais digna possível”, afirma Luis Augusto Fischer, professor de literatura da UFRGS. É exatamente esta ideia de submisso que mais choca na obra de Houellebecq.

O projeto gráfico em preto e dourado da editora Alfaguara traz na capa a inscrição “O livro mais polêmico do ano”. Talvez mais justiça à obra seja o comentário de Emmanuel Carrère, feito para o Le Monde – ambos, escritor e jornal, alinhados à esquerda: “Se há qualquer um hoje em dia, não só na literatura francesa como na mundial, que reflita sobre a enorme mutação em curso que todos nós sentimos e não sabemos como analisar, esse escritor é Houellebecq.”

A mutação em questão tem a ver com um mundo multicultural cujo centro é a Europa. É essa falta de compreensão de todos em relação a todos que é explorada com maestria em Submissão. O desnorteio dos personagens é o mesmo dos governos e das sociedades europeias diante da construção de uma nova identidade a partir da profunda influência que populações originárias da África, da Ásia e do Oriente Médio lhes imputaram como consequência direta dos processos de colonialismo.

Na obra de Houellebecq, a solução para esta encruzilhada contemporânea, para a angústia ocidental, estaria na aceitação – ou melhor, na submissão – de um ideal metafísico amparado na religião, ainda que tal religião seja tirânica e contrária a vários dos valores que fizeram o Ocidente.

O que mais assusta na perspectiva proposta por Houellebecq é que, contra a liberdade sem perspectivas do Ocidente, a submissão islâmica diante de Alá pode agradar a mais pessoas do que se poderia imaginar.

“É a submissão”, disse suavemente Rediger. “A ideia assombrosa e simples, jamais expressada antes com essa força, de que o auge da felicidade humana reside na submissão mais absoluta.”

“E eu nada teria do que me lamentar”, afirma François encerrando o livro.

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Se quer saber o que venho lendo desde 2009, confira o link a seguir. Lá você confere minha lista de leituras e algumas resenhas mais aprofundadas. - http://tinyurl.com/ny6cjfw

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O povo da mercadoria e a queda do céu



“Quero alertar os brancos antes que acabem arrancando do solo até as raízes do céu.” – Davi Kopenawa

As imagens de devastação, de morte e obliteração que nos inundaram a alma nas últimas semanas, consequência do crime cometido pela ganância e pelo descaso em Mariana (MG), podem ser facilmente relegadas a obra do acaso, acidente. Não são. São, isso sim, o reflexo de uma noção de civilização que valoriza as coisas em detrimento dos seres. Nunca, portanto, a ideia de que é preciso escapar da escravidão do consumo desenfreado foi tão importante. É ela quem, como sugere o líder yanomami Davi Kopenawa, nos transformou no “povo da mercadoria”.

“(os brancos são) o povo da mercadoria. Por quererem possuir todas as mercadorias, foram tomados de um desejo desmedido. Seu pensamento se esfumaçou e foi invadido pela noite. Fechou-se para todas as outras coisas. Foi com essas palavras da mercadoria que os brancos se puseram a cortar todas as árvores, a maltratar a terra e a sujar os rios. Hoje já não resta quase nada de floresta em sua terra doente e não podem mais beber a água de seus rios. Agora querem fazer a mesma coisa em nossa terra. O valor que damos a essas coisas é maior até do que o que os brancos dão ao ouro que tanto cobiçam. Temo que sua excitação pela mercadoria não tenha fim e eles acabem enredados nela até o caos.” – Davi Kopenawa

No final da década de 80, uma corrida ao ouro sem precedentes devastava a terra dos yanomami, no noroeste da Amazônia Brasileira, fronteira com a selva venezuelana.  Com uma longa experiência de relacionamento com o homem branco e de luta contra seus avanços sobre a floresta, o líder e xamã yanomami Davi Kopenawa estava profundamente abalado pela verdadeira catástrofe epidemiológica e ecológica de que seu povo era vítima e que lhe parecia anunciar seu iminente desaparecimento. Ele tinha começado a elaborar, com seu sogro e mentor, “grande homem” da aldeia de Watoriki, uma profecia xamânica sobre a “fumaça do ouro”, a morte dos xamãs e a “queda do céu" (o mito yanomami da queda do céu conta o cataclismo que acabou com a primeira humanidade e que, para os Yanomami, pode prefigurar o destino de nosso mundo, devastado pela cobiça do homem branco em sua busca infindável por ouro, petróleo e “mercadorias”). 

“Se destruírem a floresta, o céu vai quebrar de novo e vai cair na terra! As costas do céu sustentam uma floresta tão grande quando a nossa, e seu peso enorme vai nos esmagar de repente com toda a sua força. Toda a terra na qual andamos será empurrada para o mundo subterrâneo, onde nossos fantasmas vão, por sua vez, virar vorazes ancestrais aõpatari. Vamos morrer antes mesmo de perceber. Ninguém vai ter tempo de gritar nem de chorar. Depois, os xapiri em fúria vão acabar atirando na terra também o sol, a lua e as estrelas. Então o céu vai ficar escuro para sempre.” – Davi Kopenawa

Em 24 de dezembro de 1989, após uma rápida visita a Brasília, Kopenawa enviou uma mensagem gravada em três fitas cassete ao seu amigo, o antropólogo Bruce Albert – proibido, como demais antropólogos e missionários que denunciavam a devastação, de entrar na região por ordem dos militares favoráveis à exploração do garimpo naquela região de fronteira. Na mensagem, Kopenawa relatava seu horror.

O xamã estava hospedado na casa da antropóloga Alcida Ramos. Em Brasília, havia percorrido mais uma vez os corredores do poder em busca da salvação de seu povo e de sua floresta. Tinha acabado de assistir a uma reportagem da TV Globo sobre o avanço dos garimpeiros pelo território yanomami. Os jornalistas mostraram a considerável extensão de suas escavações ao longo dos rios e igarapés das terras altas da região, que devastavam, sistematicamente. 

“Logo compreendi que os garimpeiros eram verdadeiros comedores de terra, e que iam devastar tudo. O ouro não passa de poeira brilhante na lama. No entanto, os brancos são capazes de matar por ele. Seu pensamento está todo fechado. Só se importam em cozinhar o metal e o petróleo para fabricar suas mercadorias.” – Davi Kopenawa

Segundo o relato de Alcida, chocado com as imagens de depredação apocalíptica do centro histórico do território de seu povo, Kopenawa permaneceu mudo e pensativo por um bom tempo. Por fim declarou em tom grave, em português: “Os brancos não sabem sonhar, é por isso que destroem a floresta deste jeito”. A antropóloga, sob o impacto da afirmação enigmática, propôs a ele que gravasse, em yanomami, suas reflexões sobre o que acabara de ver.

Foi um relato angustiado das doenças e mortes, das violências e estragos provocados pela cobiça desenfreada do garimpo. Um relato entrecortado por reflexões xamânicas, tiradas da cosmologia yanomami e das sessões de consumo de yakoana (alucinógeno usado pelos xamãs yanomami para “fazer dançar” os xapiris – espíritos da natureza - que cuidam dos seres humanos e da floresta) realizadas com seu sogro em Watoriki. No final, Kopenawa pedia a ajuda de Bruce Albert para divulgar suas palavras.

“Tanta destruição nos deixa muito preocupados. Tememos que a floresta acabe revertendo ao caos e aniquilando os humanos, como ocorreu no primeiro tempo.” – Davi Kopenawa

Esta gravação foi o evento fundador que selou entre ambos o pacto político e “literário” que deu origem ao livro “A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami” (Companhia das Letras, tradução de Beatriz Perrone-Moisés e prefácio de Eduardo Viveiros de Castro), cuja leitura tive o imenso prazer de finalizar esta semana graças a um presente precioso dos queridos amigos Emerson Merhy e Erminia Silva.

Foram 100 horas de depoimento, gravados entre 1989 e 2001, que serviram de base para as mais de 700 páginas desta obra de enorme impacto na história da etnografia. Lançado em 2010 na França (na prestigiosa coleção Terre Humaine) e só agora traduzido para o português, o livro é uma rara interlocução entre dois universos culturais, em que um índio assume a (co)autoria do discurso para introduzir os seus sistemas cosmopolíticos e intelectuais aos brancos. “Trata-se de uma obra de colaboração na qual duas pessoas – o autor das palavras transcritas e o autor da redação empenharam-se em seu um só”, explica Bruce Albert. 

“Por manterem a mente cravada em seus próprios rastros, os brancos ignoram os dizeres distantes de outras gentes e lugares.” – Davi Kopenawa

O livro de Davi e Bruce não é apenas uma porta de entrada para um universo complexo e revelador. É uma ferramenta crítica poderosa para questionar a nossa noção de progresso e desenvolvimento.

A obra é composta de três partes: a primeira, Devir Outro, retrata a vocação xamânica de Davi desde a infância até sua iniciação na idade adulta, descrevendo a riqueza de um saber cosmológico secular. A segunda parte, denominada A fumaça do metal, relata por meio de sua experiência pessoal, não raro dramática, a história do avanço dos brancos sobre a floresta – missionários, garimpeiros entre outros – e sua bagagem de epidemias, violência e destruição. Finalmente, a terceira parte, A queda do céu, refere-se à odisseia vivida por Davi ao denunciar a dizimação de seu povo nas viagens que fez à Europa e aos Estados Unidos. 

“É um dos mais impressionantes testemunhos reflexivos jamais oferecidos por um pensador oriundo de uma tradição cultural indígena”, avalia o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor do Prefácio da obra. “Fruto da colaboração exemplar entre dois intelectuais, um xamã ameríndio e um antropólogo europeu, o livro é uma prova eloquente do brilhantismo da imaginação conceitual indígena, de sua potência analítica e sua nobreza existencial”.


“Os antigos brancos desenharam o que chamam de suas leis em peles de papel, mas para eles parece que não passam de mentiras! Na verdade, eles só escutam as palavras da mercadoria! Eles estão sempre impacientes e temerosos de não chegar a tempo a seus empregos ou de serem despedidos. Só falam do trabalho e do dinheiro que lhes falta. Vivem sem alegria e envelhecem depressa, sempre atarefados, com o pensamento vazio e sempre desejando adquirir novas mercadorias. Então, quando seus cabelos ficam brancos, eles se vão e o trabalho, que não morre nunca, sobrevive sempre a todos. Depois, seus filhos e netos continuam fazendo a mesma coisa.” – Davi Kopenawa

Encontro Improvável 

O etnógrafo francês conheceu o futuro líder yanomami quando este ainda trabalhava como intérprete da Funai, em 1978. Ambos tinham 20 e poucos anos e uma ideia distorcida um do outro: Albert ouvira falar de Kopenawa como um índio aculturado a serviço dos militares, enquanto Kopenawa ouvira rumores de que Albert seria um perigoso estrangeiro infiltrado nas terras de seu povo. 

As caricaturas cruzadas, porém, não demoraram para se desmanchar. Assim que se viram juntos em uma sessão xamânica, descobriram que compartilhavam o compromisso com os yanomami e o engajamento contra o garimpo dos brancos que exterminava a etnia.

“Davi sabia que eu falava yanomami e queria explicar aos brancos a história e a tradição do seu povo para não serem exterminados pela cobiça do ouro. Ele teve contato na sua infância com missionários evangélicos cuja referência constante era a Bíblia. Desde cedo ficou atento ao poder da escrita no mundo dos brancos. Sabia, portanto, que para adquirir existência para os brancos a história e o pensamento yanomami deviam ser escritos na forma de um (grande) livro. De minha parte, escrever este livro a partir dos depoimentos do Davi foi uma tentativa de inventar uma nova forma de escrita etnográfica para resolver meu crescente mal-estar em manter estanques interesses acadêmicos e ação política”, afirmou Bruce Albert em entrevista ao jornal O Globo.

No início, o céu ainda era novo e frágil. A floresta era recém-chegada à existência e tudo nela retornava facilmente ao caos. Moravam nela outras gentes, criadas antes de nós, que desapareceram. Era o primeiro tempo, nos quais os ancestrais foram pouco a pouco virando animais de caça. E quando o centro do céu finalmente despencou, vários deles foram arremessados para o mundo subterrâneo. As costas deste céu que caiu no primeiro tempo tornaram-se a floresta em que vivemos, o chão no qual pisamos. Por esse motivo chamamos a floresta wãro patarima mosi, o velho céu. Depois, um outro céu desceu e se fixou acima da terra, substituindo o que tinha desabado. Sempre que o céu começa a tremer e ameaça arrebentar, (nossos xamãs) enviam sem demora seus xapiri para reforçá-lo. Sem isso, o céu já teria desabado de novo há muito tempo!” – Davi Kopenawa

Um fim

Apesar de ter sido oficialmente homologada em 1992, quase 55% da Terra Indígena Yanomami já é objeto de mais de seiscentos pedidos ou concessões de prospecção mineral registrados junto ao Ministério de Minas e Energia, feitos por empresas públicas e privadas, nacionais e multinacionais. Os projetos de colonização agrícola implementados no limite leste do território yanomami a partir de 1978 por agências federais e depois regionais – amplificados por um grande movimento de ocupação espontânea – geraram uma dinâmica de povoamento e desmatamento que já atingiu os limites da terra indígena e ameaça invadi-la.

A queda do céu, profetizada pelo xamanismo yanomami é um espectro que nos persegue a cada dia. A cada imagem de Mariana, do Rio Doce, do mar contaminado, nos lembramos do quanto estamos imersos na lógica da mercadoria, que nos faz indignar, mas não sublevar.

“Tudo isso, em nossa língua, é urihi a pree – a grande terra-floresta. Acho que é o que os brancos chamam de mundo inteiro.” – Davi Kopenawa

“Davi nos diz que hoje só os xamãs dos povos indígenas sabem ainda chamar e fazer dançar os xapiri para conter os seres maléficos do mundo, combater as epidemias xawara e manter o céu em seu lugar. Se o ‘povo da mercadoria’ acabar exterminando os últimos povos indígenas e seus xamãs, os espíritos xapiri fugirão para sempre, abandonando o mundo ao caos. Chegará então o tempo da queda do céu”, avida Bruce Albert.

Não são poucos os estudos científicos que apontam o início de um desastre ambiental global de magnitude ainda pouco imaginável. Estamos no começo do fim do modelo de predação generalizada dos povos e do planeta inventado pelo “povo da mercadoria” há poucos séculos. A palavra do Davi não é portanto, uma mera profecia exótica. É um diagnóstico e um aviso.

Quem é Davi Kopenawa

Xamã e porta-voz dos índios Yanomami do Brasil , ele nasceu em 1956. em uma comunidade isolada do norte amazônico. Sua família foi morta por uma violenta epidemia de rubéola quando ele tinha 11anos. Vinte anos mais tarde milhares de garimpeiros em busca de ouro invadiram o território Yanomami e desta vez é todo o povo Yanomami que está ameaçado de extinção. Para impedir a tragédia anunciada, Davi se engajou em uma luta ao redor do mundo onde é reconhecido como uma dos maiores defensores da Amazônia e de seus primeiros habitantes. Em 1988, Davi recebeu o Global 500 Award das Nações Unidas e em 1989 o Right Livelihood Award considerado o prêmio Nobel alternativo. Foi condecorado em 1999 com a Ordem do Rio Branco pelo Presidente da República brasileiro e em 2008 recebeu uma menção honrosa especial do prestigiado Prêmio Bartolomé de Las Casas outorgada pelo governo espanhol por sua luta em defesa dos direitos dos povos autóctones das Américas.

Quem é Bruce Albert

Nasceu no Marrocos em 1952, é doutor em Antropologia pela Universidade de Paris X, diretor de pesquisa do IRD (Paris), e defensor da cultura e dos direitos dos Yanomami no Brasil com os quais trabalha desde 1975. A ONG CCPY, que ele co-fundou em 1978, no Brasil, auxiliou Davi na batalha para obter do governo brasileiro o reconhecimento legal do direito de ocupação exclusiva dos Yanomami sobre um território de floresta maior que o de Portugal - a Terra Indígena Yanomami.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Getúlio (1945-1954): Da Volta Pela Consagração Popular ao Suicídio – Lira Neto



Terminei na semana passada o terceiro e último voluma da trilogia de Lira Neto sobre a vida de Getúlio Vargas. O primeiro volume ia de seu nascimento, em 1882, até a Revolução de 1930. O segundo enfocava seu governo até 1945. O terceiro acompanha Vargas desde a deposição e o retiro nas terras da família, em São Borja (RS), onde articula o retorno à presidência, até o desfecho trágico no Palácio do Catete.

A finalização da trilogia reconstitui os acontecimentos políticos e pessoais mais importantes dos últimos anos do ex-presidente. Entre a deposição por um golpe militar, em outubro de 1945, e o suicídio, em agosto de 1954, o livro revela como a história do Brasil se entrançou com a vida de Getúlio, inclusive enquanto afastado do poder.

“Entrei para o governo por uma revolução, saí por uma quartelada”, lamentou-se Getúlio Vargas numa carta enviada de seu exílio rural em São Borja (RS), em novembro de 1945, ao amigo e correligionário João Neves da Fontoura. Depois de quinze anos no Palácio do Catete, emendando na sequência da Revolução de 1930 a chefia dos governos provisório e constitucional e a ditadura do Estado Novo, Getúlio fora obrigado a se retirar para sua região natal, na fronteira entre o Brasil e a Argentina, pelos mesmos militares que haviam apoiado seu projeto nacionalista de poder.

Os tempos estavam mudados, a Segunda Guerra Mundial já era história e ao ex-ditador, convertido num modesto estancieiro, apenas restavam as distrações das cavalgadas, do mate e dos charutos.  Mas Getúlio, animal político com aguçado senso de sobrevivência, não estava totalmente acabado, apesar do que pensavam os jornais do Rio de Janeiro, quase todos alinhados ao conservadorismo da União Democrática Nacional (UDN) e do Partido Social Democrático (PSD).

Sua filha Alzira — que havia permanecido na capital federal na companhia do marido, Ernani do Amaral Peixoto, e da mãe, Darcy — tornou-se uma espécie de embaixadora do getulismo, possibilitando ao ex-presidente perscrutar os bastidores do governo do general Eurico Gaspar Dutra e manter o controle sobre o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Com sua consagradora eleição ao Senado e as imunidades de constituinte, em 1946 Getúlio pôde voltar ao Rio de Janeiro num primeiro movimento de preparação do almejado retorno ao Catete.

Mas a hostilidade aberta da oposição udenista e as tentações de uma velhice tranquila no pampa gaúcho fizeram de seu mandato parlamentar pelo PTB um breve interlúdio do confinamento em São Borja, com raras aparições em plenário. Alzira, sempre no Rio, permaneceu sua conselheira e informante privilegiada por meio de detalhadas cartas-relatórios.

Apesar da derrota de candidatos que havia apoiado nas eleições regionais de 1947 e 48, Getúlio deu sinais à imprensa, com a sagacidade que lhe era peculiar, de que poderia tentar reconquistar o protagonismo político. O movimento queremista, que jamais havia se apagado, explodiu em todo o país, exigindo a candidatura do senador e “pai dos pobres” à presidência da República.

O retorno triunfal ao Catete, com a esmagadora votação obtida nas eleições de outubro de 1950, deu início a um dos períodos mais conturbados da política brasileira. A oposição ferrenha do udenismo e de parte da imprensa, personificada pelo jornalista Carlos Lacerda, combateu incessantemente todas as iniciativas (populares ou populistas) do segundo governo Getúlio. Realizações como a fundação da Petrobras e o aumento do salário mínimo foram ofuscadas por um sinistro clima de guerra psicológica.

O “mar de lama” denunciado à exaustão por seus inimigos – e confirmado pelo próprio presidente confrontado por esquemas de corrupção que envolviam a própria família Vargas - manietou o envelhecido presidente, dividido entre os afagos à classe trabalhadora e a obediência devida à praxe anticomunista da Guerra Fria. O próprio Lira Neto, no entanto, não crê que Getúlio estivesse envolvido, ele próprio, nas falcatruas de seu governo. “As pessoas que cercavam Getúlio perderam o senso de proporção. Mas tenho a convicção que ele não estava envolvido pessoalmente nos escândalos de corrupção. Tinha dificuldade de manter suas contas no fim do mês”, afirmou em recente entrevista ao Roda Viva da TV Educativa.

Lira Neto destaca algumas atitudes controversas do Getúlio político que, durante a ditadura perseguiu intelectuais, manteve censura feroz, fechou o Congresso, mas que, em seu período como presidente eleito recusou-se a lançar mão de medidas autoritárias, mesmo descobrindo-se destreinado a governar sob as regras do jogo democrático, com a imprensa e o Congresso em seu encalço.

O atentado a Lacerda — coberto ainda hoje de mistérios e para o qual o livro apresenta múltiplas possibilidades e versões —, no início de agosto de 1954, foi a senha para a precipitação dos acontecimentos. Acuado por um iminente golpe militar, Getúlio chegou a esboçar resistência, mas, politicamente isolado, preferiu o suicídio à desonra da renúncia.

“O suicídio não foi uma medida desesperada, nem o gesto de um depressivo”, diz Lira Neto. Em situações-limite, Getúlio várias vezes tomou em perspectiva o sacrifício pessoal. Os escritos íntimos dele são como a crônica de uma morte anunciada. Sempre teve a consciência de que não se permitiria passar à História como alguém derrotado em situação vexatória, desonrado.

Getúlio já havia ensaiado em outras cinco oportunidades, ao longo de 24 anos, este desfecho fatal. Cartas, anotações e bilhetes comprovam que o presidente sempre cogitou confrontar a derrota humilhante com a própria vida. Vargas enxergava no suicídio a única forma de sobreviver à morte física, antecipar-se à vingança do inimigo vitorioso e seguir existindo na memória popular.

“E se perdermos?”, perguntou-se num manuscrito datado de 3 de outubro de 1930, horas antes da deflagração do movimento armado que o levaria à chefia do governo federal. A resposta (“Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”) seria repetida, com variações na forma que em nada afetam o conteúdo, em 10 de julho de 1932, quando registrou em seu diário o início da Revolução Constitucionalista, e em 19 de janeiro de 1942, ao optar pela adesão aos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

Nos três episódios, a vitória dispensou-o de consumar a ameaça. Mas o flerte com a morte foi retomado em abril de 1945, quando se multiplicaram as evidências de que a cúpula do exército tramava a deposição do ditador. “Estou resolvido ao sacrifício para que ele fique como um protesto, marcando a consciência dos traidores”, avisou. Desta vez, não cumpriu a promessa por acreditar que não fora liquidado politicamente. As urnas logo gritariam que o genial intuitivo estava certo
Passados mais de sessenta anos do desfecho trágico, Lira Neto reconstitui todos os lances do tenso xadrez político que se entrelaçou com os últimos anos da vida de Getúlio. Amparado numa minuciosa pesquisa, que incluiu centenas de livros e milhares de páginas de manuscritos e documentos originais, o autor elucida um período capital da história do Brasil e interpreta a personalidade de seu mais importante ator político no século XX.

Mais próxima da reportagem do que do ensaio histórico, a biografia de Lira foi elogiada por historiadores como Boris Fausto, autor de “Getúlio Vargas: o poder e o sorriso” (Companhia das Letras), e Maria Celina D’Araújo, autora de “A Era Vargas” (Moderna) e outros livros sobre o período. O próprio autor diz que não teve a pretensão de fazer uma análise dos governos do ex-presidente, mas sim de narrar sua trajetória “sem maniqueísmos”:

“Tentei falar de Getúlio sem devoção nem negação, com equilíbrio. Acho que consegui, porque sou atacado por todos os lados: getulistas me acusam de udenismo, antigetulistas me acusam de favorecê-lo. Os livros permitem várias leituras. Estão lá as atrocidades do Estado Novo, a tortura e o autoritarismo, mas também as conquistas da Era Vargas e seu legado para os trabalhadores”, diz o autor, que vê Getúlio “ainda muito presente” no cenário nacional. “Os grandes temas da Era Vargas, como o tamanho do Estado e os direitos trabalhistas, continuam em nosso debate político”.
 
“Getúlio, inegavelmente, modernizou o Brasil. Em 1930, pegou um país agrário, semifeudal e, no espaço de pouco mais de duas décadas, o conduziu para o rumo do desenvolvimento. O projeto nacional desenvolvimentista nos deixou legados indiscutíveis, como a Petrobras, a siderúrgica de Volta Redonda, o BNDES e o Banco do Nordeste, entre tantos outros. Também é evidente a herança positiva das leis trabalhistas, que estabeleceu relativo equilíbrio na relação entre capital e trabalho em um país, do ponto de vista histórico, recém-saído da escravidão. Isso não significa que o legado de Getúlio seja inteiramente positivo. A ditadura do Estado Novo permanece como uma nódoa indelével em nossa história. O cerceamento das liberdades, a censura à imprensa, a perseguição feroz a intelectuais e sindicalistas, tudo isso merece crítica veemente. Portanto, é impossível analisar a trajetória de Getúlio por uma única perspectiva, encará-lo historicamente de modo maniqueista, reducionista. Como bem escreve o historiador Boris Fausto, na quarta capa do primeiro volume, Getúlio é, para o bem e para o mal, a figura mais importante da história brasileira no século XX”, resume Lira Neto.