quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Paz e saúde
Quero desejar a todos os que costumam acessar este blog (e aos que acabam de cair aqui por acaso), aos meus amigos, conhecidos e companheiros de escrevinhamentos que tenham um início de ano de muita paz e saúde. Que possamos continuar pincelando a web aqui e ali com cadinhos de poesia e lucidez. Um beijo e um abraço carinhoso para todos vocês.
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Barone
Poesia corporal
Sensual, linda e expressiva performance da dançarina e blogueira Paula Bueno. Poesia dançada ao som de Cazuza. Recomendo.
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Barone
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama
As humildes sugestões que se seguem são baseadas nos meus 70 anos de experiência como combatente de trincheiras, soldado das forças especiais na guerra de 1948, editor-em-chefe de uma revista de notícias, membro do parlamento israelense e um dos fundadores do movimento pela paz:
1)No que se refere à paz israelense-árabe, o Sr. deve agir a partir do primeiro dia.
2)As eleições em Israel acontecerão em fevereiro de 2009. O Sr. pode ter um impacto indireto, mas importante e construtivo já no começo, anunciando sua determinação inequívoca de conseguir paz israelo-palestina, israelo-síria e israelo-pan-árabe em 2009.
3)Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de que falaram sobre paz da boca para fora, e às vezes realizaram gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço.
Particularmente, deram aprovação tácita à construção e ao crescimento dos assentamentos colonizadores de Israel nos territórios ocupados da Palestina e da Síria, cada um dos quais é uma mina subterrânea na estrada da paz.
4)Todos os assentamentos colonizadores são ilegais segundo a lei internacional. A distinção, às vezes feita, entre postos “ilegais” e os outros assentamentos colonizadores é pura propaganda feita para mascarar essa simples verdade.
5)Todos os assentamentos colonizadores desde 1967 foram construídos com o objetivo expresso de tornar um estado palestino – e portanto a paz – impossível, ao picotar em faixas o possível projetado Estado Palestino. Praticamente todos os departamentos de governo e o exército têm ajudado, aberta ou secretamente, a construir, consolidar e aumentar os assentamentos, como confirma o relatório preparado para o governo pela advogada Talia Sasson.
6)A estas alturas, o número de colonos na Cisjordânia já chegou a uns 250.000 (além dos 200.000 colonos da Grande Jerusalém, cujo estatuto é um pouco diferente). Eles estão politicamente isolados e são às vezes detestados pela maioria do público israelense, mas desfrutam de apoio significativo nos ministérios de governo e no exército.
7)Nenhum governo israelense ousaria confrontar a força material e política concentrada dos colonos. Esse confronto exigiria uma liderança muito forte e o apoio generoso do Presidente dos Estados Unidos para que tivesse qualquer chance de sucesso.
8)Na ausência de tudo isso, todas as “negociações de paz” são uma farsa. O governo israelense e seus apoiadores nos Estados Unidos já fizeram tudo o que é possível para impedir que as negociações com os palestinos ou com os sírios cheguem a qualquer conclusão, por causa do medo de enfrentar os colonos e seus apoiadores. As atuais negociações de “Annapolis” são tão vazias como as precedentes, com cada lado mantendo o fingimento por interesses políticos próprios.
9)A administração Clinton, e ainda mais a administração Bush, permitiram que o governo israelense mantivesse o fingimento. É, portanto, imperativo que se impeça que os membros dessas administrações desviem a política que terá o Sr. para o Oriente Médio na direção dos velhos canais.
10)É importante que o Sr. comece de novo e diga-o publicamente. Idéias desacreditadas e iniciativas falidas – como a “visão” de Bush, o “mapa do caminho”, Anápolis e coisas do tipo – devem ser lançadas à lata de lixo da história.
11)Para começar de novo, o alvo da política americana deve ser dito clara e sucintamente: atingir uma paz baseada numa solução biestatal dentro de um prazo de tempo (digamos, o fim de 2009).
12)Deve-se assinalar que este objetivo se baseia numa reavaliação do interesse nacional americano, de remover o veneno das relações muçulmano-americanas e árabe-americanas, fortalecer os regimes dedicados à paz, derrotar o terrorismo da Al-Qaeda, terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão e atingir uma acomodação viável com o Irã.
13)Os termos da paz israelo-palestina são claros. Já foram cristalizados em milhares de horas de negociações, colóquios, encontros e conversas. São eles:
a) estabelecer-se-á um Estado da Palestina soberano e viável lado a lado com o Estado de Israel.
b) A fronteira entre os dois estados se baseará na linha de armistício de 1967 (a “Linha verde”). Alterações não substanciais poderão ser feitas por concordância mútua numa troca de territórios em base 1: 1.
c) Jerusalém Oriental, incluindo-se o Haram-al-Sharif (o “Monte do Templo”) e todos os bairros árabes servirão como Capital da Palestina. Jerusalém Ocidental, incluindo-se o Muro Ocidental e todos os bairros judeus, servirão como Capital de Israel. Uma autoridade municipal conjunta, baseada na igualdade, poderia se estabelecer por aceitação mútua, para administrar a cidade como uma unidade territorial.
d) Todos os assentamentos colonizadores de Israel – exceto aqueles que possam ser anexados no marco de uma troca consensual – serão esvaziados (veja-se o 15 abaixo).
e) Israel reconhecerá o princípio do direito de retorno dos refugiados. Uma Comissão Conjunta de Verdade e Reconciliação, composta por palestinos, israelesnses e historiadores internacionais estudará os fatos de 1948 e 1967 e determinará quem foi responsável por cada coisa. O refugiado, individualmente, terá a escolha de 1) repatriação para o Estado da Palestina; 2) permanência onde estiver agora, com compensação generosa; 3) retorno e reassentamento em Israel; 4) migração a outro país, com compensação generosa. O número de refugiados que retornarão ao território de Israel será fixado por acordo mútuo, entendendo-se que não se fará nada para materialmente alterar a composição demográfica da população de Israel. As polpuldas verbas necessárias para a implementação desta solução devem ser fornecidas pela comunidade internacional, no interesse da paz planetária. Isto economizaria muito do dinheiro gasto hoje militarmente e a partir de presentes dos EUA.
f) A Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza constituirão uma unidade nacional. Um vínculo extra-territorial (estrada, trilho, túnel ou ponte) ligará a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
g) Israel e Síria assinarão um acordo de paz. Israel recuará até a linha de 1967 e todos os assentamentos colonizadores das Colinas de Golã serão desmantelados. A Síria interromperá todas as atividades anti-Israel, conduzidas direta ou vicariamente. Os dois lados estabelecerão relações normais.
h) De acordo com a Iniciativa Saudita de Paz, todos os membros da Liga Árabe reconhecerão Israel, e terão com Israel relações normais. Poder-se-á considerar conversações sobre uma futura União do Oriente Médio, no modelo da União Européia, possivelmente incluindo a Turquia e o Irã.
14)A unidade palestina é essencial. A paz feita só com um naco da população de nada vale. Os Estados Unidos facilitarão a reconciliação palestina e a unificação das estruturas palestinas. Para isso, os EUA terminarão com o seu boicote ao Hamas (que ganhou as últimas eleições), começarão um diálogo político com o movimento e sugerirão que Israel faça o mesmo. Os EUA respeitarão quaisquer resultados de eleições palestinas.
15)O governo dos EUA ajudará o governo de Israel a enfrentar-se com o problema dos assentamentos colonizadores. A partir de agora, os colonos terão um ano para deixar os territórios ocupados e voluntariamente voltar em troca de compensação que lhes permitirá construir seus lares dentro de Israel. Depois disso, todos os assentamentos serão esvaziados, exceto aqueles em quaisquer áreas anexadas a Israel sob o acordo de paz.
16)Eu sugiro ao Sr., como Presidente dos Estados Unidos, que venha a Israel e se dirija ao povo israelense pessoalmente, não só no pódio do parlamento, mas também num comício de massas na Praça Rabin em Tel-Aviv. O Presidente Anwar Sadat, do Egito, veio a Israel em 1977 e, ao se dirigir ao povo de Israel diretamente, mudou em tudo a atitude deles em relação à paz com o Egito. No momento, a maioria dos israelenses se sente insegura, incerta e temerosa de qualquer iniciativa ousada de paz, em parte graças a uma desconfiança de qualquer coisa que venha do lado árabe. A intervenção do Sr., neste momento crítico, poderia, literalmente, fazer milagres, ao criar a base psicológica para a paz.
(esta é uma carta aberta escrita por Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset, soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz. A tradução ao português é de Idelber Avelar. O obrigado pelo envio do link vai ao Daniel do Amálgama. O pedido de divulgação vai a todos os que desejam uma paz duradoura, nos termos já reconhecidos pela comunidade internacional).
Este material foi pinçado, na íntegra, do blogue O biscoito fino e a massa.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Terrorismo de Estado
- Judeus e Palestinos
- Olmert abre portas ao entendimento
- Erros que não se justificam
1)No que se refere à paz israelense-árabe, o Sr. deve agir a partir do primeiro dia.
2)As eleições em Israel acontecerão em fevereiro de 2009. O Sr. pode ter um impacto indireto, mas importante e construtivo já no começo, anunciando sua determinação inequívoca de conseguir paz israelo-palestina, israelo-síria e israelo-pan-árabe em 2009.
3)Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de que falaram sobre paz da boca para fora, e às vezes realizaram gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço.
Particularmente, deram aprovação tácita à construção e ao crescimento dos assentamentos colonizadores de Israel nos territórios ocupados da Palestina e da Síria, cada um dos quais é uma mina subterrânea na estrada da paz.
4)Todos os assentamentos colonizadores são ilegais segundo a lei internacional. A distinção, às vezes feita, entre postos “ilegais” e os outros assentamentos colonizadores é pura propaganda feita para mascarar essa simples verdade.
5)Todos os assentamentos colonizadores desde 1967 foram construídos com o objetivo expresso de tornar um estado palestino – e portanto a paz – impossível, ao picotar em faixas o possível projetado Estado Palestino. Praticamente todos os departamentos de governo e o exército têm ajudado, aberta ou secretamente, a construir, consolidar e aumentar os assentamentos, como confirma o relatório preparado para o governo pela advogada Talia Sasson.
6)A estas alturas, o número de colonos na Cisjordânia já chegou a uns 250.000 (além dos 200.000 colonos da Grande Jerusalém, cujo estatuto é um pouco diferente). Eles estão politicamente isolados e são às vezes detestados pela maioria do público israelense, mas desfrutam de apoio significativo nos ministérios de governo e no exército.
7)Nenhum governo israelense ousaria confrontar a força material e política concentrada dos colonos. Esse confronto exigiria uma liderança muito forte e o apoio generoso do Presidente dos Estados Unidos para que tivesse qualquer chance de sucesso.
8)Na ausência de tudo isso, todas as “negociações de paz” são uma farsa. O governo israelense e seus apoiadores nos Estados Unidos já fizeram tudo o que é possível para impedir que as negociações com os palestinos ou com os sírios cheguem a qualquer conclusão, por causa do medo de enfrentar os colonos e seus apoiadores. As atuais negociações de “Annapolis” são tão vazias como as precedentes, com cada lado mantendo o fingimento por interesses políticos próprios.
9)A administração Clinton, e ainda mais a administração Bush, permitiram que o governo israelense mantivesse o fingimento. É, portanto, imperativo que se impeça que os membros dessas administrações desviem a política que terá o Sr. para o Oriente Médio na direção dos velhos canais.
10)É importante que o Sr. comece de novo e diga-o publicamente. Idéias desacreditadas e iniciativas falidas – como a “visão” de Bush, o “mapa do caminho”, Anápolis e coisas do tipo – devem ser lançadas à lata de lixo da história.
11)Para começar de novo, o alvo da política americana deve ser dito clara e sucintamente: atingir uma paz baseada numa solução biestatal dentro de um prazo de tempo (digamos, o fim de 2009).
12)Deve-se assinalar que este objetivo se baseia numa reavaliação do interesse nacional americano, de remover o veneno das relações muçulmano-americanas e árabe-americanas, fortalecer os regimes dedicados à paz, derrotar o terrorismo da Al-Qaeda, terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão e atingir uma acomodação viável com o Irã.
13)Os termos da paz israelo-palestina são claros. Já foram cristalizados em milhares de horas de negociações, colóquios, encontros e conversas. São eles:
a) estabelecer-se-á um Estado da Palestina soberano e viável lado a lado com o Estado de Israel.
b) A fronteira entre os dois estados se baseará na linha de armistício de 1967 (a “Linha verde”). Alterações não substanciais poderão ser feitas por concordância mútua numa troca de territórios em base 1: 1.
c) Jerusalém Oriental, incluindo-se o Haram-al-Sharif (o “Monte do Templo”) e todos os bairros árabes servirão como Capital da Palestina. Jerusalém Ocidental, incluindo-se o Muro Ocidental e todos os bairros judeus, servirão como Capital de Israel. Uma autoridade municipal conjunta, baseada na igualdade, poderia se estabelecer por aceitação mútua, para administrar a cidade como uma unidade territorial.
d) Todos os assentamentos colonizadores de Israel – exceto aqueles que possam ser anexados no marco de uma troca consensual – serão esvaziados (veja-se o 15 abaixo).
e) Israel reconhecerá o princípio do direito de retorno dos refugiados. Uma Comissão Conjunta de Verdade e Reconciliação, composta por palestinos, israelesnses e historiadores internacionais estudará os fatos de 1948 e 1967 e determinará quem foi responsável por cada coisa. O refugiado, individualmente, terá a escolha de 1) repatriação para o Estado da Palestina; 2) permanência onde estiver agora, com compensação generosa; 3) retorno e reassentamento em Israel; 4) migração a outro país, com compensação generosa. O número de refugiados que retornarão ao território de Israel será fixado por acordo mútuo, entendendo-se que não se fará nada para materialmente alterar a composição demográfica da população de Israel. As polpuldas verbas necessárias para a implementação desta solução devem ser fornecidas pela comunidade internacional, no interesse da paz planetária. Isto economizaria muito do dinheiro gasto hoje militarmente e a partir de presentes dos EUA.
f) A Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza constituirão uma unidade nacional. Um vínculo extra-territorial (estrada, trilho, túnel ou ponte) ligará a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
g) Israel e Síria assinarão um acordo de paz. Israel recuará até a linha de 1967 e todos os assentamentos colonizadores das Colinas de Golã serão desmantelados. A Síria interromperá todas as atividades anti-Israel, conduzidas direta ou vicariamente. Os dois lados estabelecerão relações normais.
h) De acordo com a Iniciativa Saudita de Paz, todos os membros da Liga Árabe reconhecerão Israel, e terão com Israel relações normais. Poder-se-á considerar conversações sobre uma futura União do Oriente Médio, no modelo da União Européia, possivelmente incluindo a Turquia e o Irã.
14)A unidade palestina é essencial. A paz feita só com um naco da população de nada vale. Os Estados Unidos facilitarão a reconciliação palestina e a unificação das estruturas palestinas. Para isso, os EUA terminarão com o seu boicote ao Hamas (que ganhou as últimas eleições), começarão um diálogo político com o movimento e sugerirão que Israel faça o mesmo. Os EUA respeitarão quaisquer resultados de eleições palestinas.
15)O governo dos EUA ajudará o governo de Israel a enfrentar-se com o problema dos assentamentos colonizadores. A partir de agora, os colonos terão um ano para deixar os territórios ocupados e voluntariamente voltar em troca de compensação que lhes permitirá construir seus lares dentro de Israel. Depois disso, todos os assentamentos serão esvaziados, exceto aqueles em quaisquer áreas anexadas a Israel sob o acordo de paz.
16)Eu sugiro ao Sr., como Presidente dos Estados Unidos, que venha a Israel e se dirija ao povo israelense pessoalmente, não só no pódio do parlamento, mas também num comício de massas na Praça Rabin em Tel-Aviv. O Presidente Anwar Sadat, do Egito, veio a Israel em 1977 e, ao se dirigir ao povo de Israel diretamente, mudou em tudo a atitude deles em relação à paz com o Egito. No momento, a maioria dos israelenses se sente insegura, incerta e temerosa de qualquer iniciativa ousada de paz, em parte graças a uma desconfiança de qualquer coisa que venha do lado árabe. A intervenção do Sr., neste momento crítico, poderia, literalmente, fazer milagres, ao criar a base psicológica para a paz.
(esta é uma carta aberta escrita por Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset, soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz. A tradução ao português é de Idelber Avelar. O obrigado pelo envio do link vai ao Daniel do Amálgama. O pedido de divulgação vai a todos os que desejam uma paz duradoura, nos termos já reconhecidos pela comunidade internacional).
Este material foi pinçado, na íntegra, do blogue O biscoito fino e a massa.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Terrorismo de Estado
- Judeus e Palestinos
- Olmert abre portas ao entendimento
- Erros que não se justificam
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Barone
Todos os cariocas são desonestos, diz o Oráculo de MS
O colunismo social não faz parte das minhas leituras diárias. No entanto, respeito quem o faz e quem o lê. Cada um usa seu tempo como quer. Aqui em Mato Grosso do Sul há muitos colunistas sociais e também leitores (de coluna social). Um, em especial, Dácio Corrêa, gosta de expor em suas colunas as viagens que faz Brasil afora e (pasmem os provincianos) até para o exterior!É aquele tipo que pupula nos grandes centros, vivendo à sombra do poder e dos poderosos, tirando casquinhas aqui e ali e vendendo uma imagem que adoraria ter de fato. Sabe aquela história? Em terra de cego, quem tem um olho é rei. Mas Dácio não é rei e, ontem, em sua coluna semanal no jornal O Estado de MS, cometeu uma indelicadeza digna de um bufão da corte para com os cariocas (leia as três notinhas acima) ao contar uma historinha estranha e, a partir dela, concluir que estes não são pessoas confiáveis.
Não costumo usar este espaço para assuntos mundanos, mas meu amigo Fabio Pellegrini, jornalista, carioca de nascimento e sul-mato-grossense de coração, sentiu-se ofendido e enviou uma carta para a direção do jornal (reproduzida abaixo) cobrando um posicionamento. Tem meu apoio. Até agora o jornal não se manifestou.
Pede desculpas Dácio...
“De extremo mau gosto a coluna do senhor Dácio Corrêa publicada hoje (28 de dezembro de 2009). Penso que este renomado diário deveria rever o espaço dedicado a este senhor que publicou termos como “É por essas e outras razões que não devemos levar os cariocas a sério”.
Na ocasião o sr. Dácio Corrêa denigre a imagem de meus conterrâneos baseado num suposto fato ocorrido com um também suposto “amigo carioca” dele. Ora, em vez de falar mal das pessoas que nascem em determinada região geográfica com base em um fato ocasional, tal colunista deveria, sim, rever os amigos que tem. Ou não devemos acreditar em aquidauanenses porque são uns insolentes, preguiçosos e cachaceiros?
Talvez falte inteligência e bom senso a ele para saber que pessoas de má índole existem em todo lugar, seja no RJ ou em MS. Se for me basear em um caso isolado para exemplificar, tipificar ou até mesmo estereotipar determinada classe, então eu poderia dizer que os colunistas sociais de Mato Grosso do Sul são meros fofoqueiros e não sabem nada de gramática da Língua Portuguesa. Mas isso não é verdade. Não posso dizer que os outros colunistas são tão ruins quanto ele.
Da forma como o fez, esse tal colunista, que em outras ocasiões tanto idolatra minha cidade - tanto que utiliza uma ilustração baseada nos calçadões pavimentados do Rio de Janeiro em sua logomarca (se é que se pode chamar de logomarca) – está dizendo ao povo sul-mato-grossense que não deve confiar nos cariocas. Isso demonstra mal uso de um espaço tão importante de um veículo de comunicação. Tudo bem, não sou obrigado a ler o jornal, mas o que esta pessoa faz não é correto, afirmando inverdades em busca de uma auto-promoção. Jornais formam opiniões.
Aos meus 32 anos de idade, carioca de nascimento, sendo 20 desses anos de “sul-mato-grossense de coração”, informo que sempre fui um cidadão honesto e cumpridor de meus deveres e me senti ofendido ao ler um comentário tão estúpido como o dele. Não deveria nem mesmo ter parado meus ofícios diários por dez minutos para escrever este texto, mas penso que às vezes precisamos alertar às pessoas que utilizam espaços publicitários para divulgar informações cretinas como essa.
Sugiro que o tal colunista reveja seus conceitos de amizade e também de colunismo social, e, apesar dele não ser jornalista, deveria saber que o espaço que tem nesse importante veículo de comunicação deveria ser utilizado por uma boa causa e não por meras “fofoquinhas de comadres”. Basta sair de seu “mundinho socialite de vaidades e fantasias” em que vive e descobrir coisas boas do mundo que deveriam ser repassadas aos leitores.
A este renomado veículo de comunicação, sugiro que troque o espaço dedicado a tal colunista por um passatempo, que será mais interessante do o atual.
Fabio Mateus Coelho P. Freitas
Carioca há 32 anos, sul-mato-grossense há 20 e leitor assíduo do O Estado de MS.”
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Terrorismo de Estado
Idelber Avelar publicou ontem em seu blog, O Biscoito Fino e a Massa, um emocionado post sobre o terrorismo de estado implementado por Israel contra homens, mulheres e crianças palestinas em Gaza, e a vergonhosa reação da mídia. Pensei em escrever sobre o tema, mas não há mais a ser dito. Leiam o texto de Idelber e vejam o vídeo.
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Os melhores do ano no OI
O Observatório da Imprensa (OI) é, hoje, o principal fórum nacional para o debate do Jornalismo e do papel da imprensa na sociedade. Seus objetivos ultrapassam a análise do processo do fazer-jornalístico, debruçando-se, também, sobre as intervenções do Jornalismo sobre a sociedade e vice-versa. Trata-se, portanto, de um espaço fundamental para a compreensão deste ofício e de sua relação com as demais instituições.
Tive o privilégio e a honra de ter alguns artigos aceitos e publicados pelo staff do OI em 2008. Três deles estão entre os textos selecionados hoje para a “Retrospectiva 2008: O melhor do OI no ano que passou”, pinçados entre os 5.328 artigos publicados neste ano no Observatório.
São eles:
Quarenta anos após AI-5, ainda a censura
Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia
Mato Grosso do Sul: A coerção ao exercício do jornalismo
Também, hoje, foi publicado no OI o meu artigo “O Jornalismo e a verdade na qual queremos crer”, postado aqui no dia 23.
Tive o privilégio e a honra de ter alguns artigos aceitos e publicados pelo staff do OI em 2008. Três deles estão entre os textos selecionados hoje para a “Retrospectiva 2008: O melhor do OI no ano que passou”, pinçados entre os 5.328 artigos publicados neste ano no Observatório.
São eles:
Quarenta anos após AI-5, ainda a censura
Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia
Mato Grosso do Sul: A coerção ao exercício do jornalismo
Também, hoje, foi publicado no OI o meu artigo “O Jornalismo e a verdade na qual queremos crer”, postado aqui no dia 23.
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Um mês de Poema Dia
O projeto Poema Dia completa amanhã seu primeiro mês de existência. A idéia inicial era reunir 28 poetas que adotassem um dia do mês e, neste dia, postassem um poema de sua autoria. Deu certo. O nível dos poemas superou as expectativas, assim como as visitas que, enquanto escrevo esta mensagem, já somam 2487: quase 100 visitas por dia.
No início do mês o projeto foi destaque no Blog do Noblat (para quem não sabe, diariamente o jornalista Ricardo Noblat indica um blog aos seus leitores) e também circulou como novidade interessante em diversos espaços virtuais pela web.
Para quem ainda não conhece, vale uma visita.
No início do mês o projeto foi destaque no Blog do Noblat (para quem não sabe, diariamente o jornalista Ricardo Noblat indica um blog aos seus leitores) e também circulou como novidade interessante em diversos espaços virtuais pela web.
Para quem ainda não conhece, vale uma visita.
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Nuvens
Que eu seja silêncio
enquanto você dorme
e sonha com nuvens.
Que seja água
enquanto tua face lisa
envelhece.
Que eu seja capaz de afogar o medo
e de te dar flores e sonhos.
Parte do livro Outros Sentidos, lançado em junho passado.
enquanto você dorme
e sonha com nuvens.
Que seja água
enquanto tua face lisa
envelhece.
Que eu seja capaz de afogar o medo
e de te dar flores e sonhos.
Parte do livro Outros Sentidos, lançado em junho passado.
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domingo, 28 de dezembro de 2008
Judeus e Palestinos
Foi por água abaixo – por uma questão de fundo meramente político – a possibilidade de amenização do clima de violência entre palestinos e judeus. O ataque de Israel sobre Gaza é o maior já realizado desde que o território foi conquistado na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Por enquanto somam-se 195 os mortos do lado palestino. E pensar que o premiê de Israel, Ehud Olmert, disse recentemente que o ataque indiscriminado contra árabes e palestinos por parte de judeus assemelhava-se aos pogroms que vitimaram milhares de semitas durante séculos. Muito triste.
Leis mais sobre o mesmo tema:
- Olmert abre portas ao entendimento
- Erros que não se justificam
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- Olmert abre portas ao entendimento
- Erros que não se justificam
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Barone
Tarás Bulba - Nikolai Gógol
Terminei de ler Tarás Bulba, de Nikolai Gógol. Presente do amigo Cacho. O livro narra aventuras e desventuras de um coronel cossaco nos idos do século 18. Com um toque épico, a novela expõe características interessantes da sociedade ucraniana da época e seu sentimento em relação à vida. A seguir algumas frases e trechos interessantes aos meus olhos.
“As estrelas da noite olharam diretamente para eles.”
“Mas um jovem impetuoso não combina com um velho. Ambos têm uma natureza distinta e vêem a mesma coisa com olhos diferentes.”
“Mas o futuro é desconhecido; ele fica diante do homem semelhante à névoa de outono que se levanta dos pântanos. Nele as aves voam loucamente, para cima e para baixo, rasando com as asas e sem que umas percebam as outras – a pomba não vê o gavião, o gavião não vê a pomba – e ninguém, sabe a que distância está voando de sua perdição...”
“Os zarapogos são como crianças: se há pouco, comem tudo; se há muito, não deixam nada”
“Ela jogou o lenço, afastou os longos cabelos de sua trança que lhe caíam sobre os olhos e se desmanchou em palavras de lamento, falando em uma voz bem baixa, igual à brisa que se levanta num lindo anoitecer e corre de repente por um denso caniçal: sons finos e desolados começam a murmurar e vão ressoando e se propagando, e então um viandante pára e apanha-os com uma tristeza incomensurável, sem sequer perceber a tarde que vai sumindo, as alegres canções entoadas pelo povo que volta da ceifa e do trabalho no campo, ou mesmo o ruído distante de alguma telega que vai passando.”
“Quem disse que minha pátria é a Ucrânia? Quem me deu a Ucrânia como pátria? A pátria é aquilo que busca a nossa alma, aquilo que é mais caro para ela. Minha pátria é você! Aí está minha pátria! E levarei esta pátria em meu coração enquanto eu tiver vida, e veremos se algum cossaco vai tirá-la daqui! Por esta pátria eu vou vender, entregar e destruir tudo que tenho!”
“Não é muita sabedoria dizer palavras de censura; a grande sabedoria é dizer palavras que, sem tocar na desgraça do homem, incentivam-no e dão ânimo a seu espírito, tal como esporas animam o espírito de um cavalo que se refrescou numa fonte.”
“Mas estas palavras não agradaram a Tarás Bulba, e ele franziu ainda mais as suas sobrancelhas carregadas e grisalhas, que se pareciam como moitas crescidas no alto de montanhas escuras, cujo topo fora coberto pela geada cortante do norte.”
“Não há laços mais sagrados que os do companheirismo! O pai ama seu filho, a mãe ama seu filho, e o filho ama o pai e a mãe. Mas não é a mesma coisa, irmãos: também uma fera ama seu filho. Porém, estabelecer parentesco pela alma, e não pelo sangue, é algo de que só o homem é capaz.”
“Pois tudo que acontece de ruim sempre cai em cima do judeu; todo judeu é tomado por um cachorro; todo mundo pensa que, se é judeu, então não é gente.”
“Algumas pessoas discutiam acaloradamente, outras até faziam apostas; mas a maior parte era daqueles que olham para o mundo e seus acontecimentos cutucando o nariz com o dedo.”
“As estrelas da noite olharam diretamente para eles.”
“Mas um jovem impetuoso não combina com um velho. Ambos têm uma natureza distinta e vêem a mesma coisa com olhos diferentes.”
“Mas o futuro é desconhecido; ele fica diante do homem semelhante à névoa de outono que se levanta dos pântanos. Nele as aves voam loucamente, para cima e para baixo, rasando com as asas e sem que umas percebam as outras – a pomba não vê o gavião, o gavião não vê a pomba – e ninguém, sabe a que distância está voando de sua perdição...”
“Os zarapogos são como crianças: se há pouco, comem tudo; se há muito, não deixam nada”
“Ela jogou o lenço, afastou os longos cabelos de sua trança que lhe caíam sobre os olhos e se desmanchou em palavras de lamento, falando em uma voz bem baixa, igual à brisa que se levanta num lindo anoitecer e corre de repente por um denso caniçal: sons finos e desolados começam a murmurar e vão ressoando e se propagando, e então um viandante pára e apanha-os com uma tristeza incomensurável, sem sequer perceber a tarde que vai sumindo, as alegres canções entoadas pelo povo que volta da ceifa e do trabalho no campo, ou mesmo o ruído distante de alguma telega que vai passando.”
“Quem disse que minha pátria é a Ucrânia? Quem me deu a Ucrânia como pátria? A pátria é aquilo que busca a nossa alma, aquilo que é mais caro para ela. Minha pátria é você! Aí está minha pátria! E levarei esta pátria em meu coração enquanto eu tiver vida, e veremos se algum cossaco vai tirá-la daqui! Por esta pátria eu vou vender, entregar e destruir tudo que tenho!”
“Não é muita sabedoria dizer palavras de censura; a grande sabedoria é dizer palavras que, sem tocar na desgraça do homem, incentivam-no e dão ânimo a seu espírito, tal como esporas animam o espírito de um cavalo que se refrescou numa fonte.”
“Mas estas palavras não agradaram a Tarás Bulba, e ele franziu ainda mais as suas sobrancelhas carregadas e grisalhas, que se pareciam como moitas crescidas no alto de montanhas escuras, cujo topo fora coberto pela geada cortante do norte.”
“Não há laços mais sagrados que os do companheirismo! O pai ama seu filho, a mãe ama seu filho, e o filho ama o pai e a mãe. Mas não é a mesma coisa, irmãos: também uma fera ama seu filho. Porém, estabelecer parentesco pela alma, e não pelo sangue, é algo de que só o homem é capaz.”
“Pois tudo que acontece de ruim sempre cai em cima do judeu; todo judeu é tomado por um cachorro; todo mundo pensa que, se é judeu, então não é gente.”
“Algumas pessoas discutiam acaloradamente, outras até faziam apostas; mas a maior parte era daqueles que olham para o mundo e seus acontecimentos cutucando o nariz com o dedo.”
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Barone
sábado, 27 de dezembro de 2008
Poema de cama
Respiro teu perfume
em meus dedos de seda
Me alimento do teu gosto
em meus lábios crispados
Na fina pele
percebo teus gemidos
Na ponta da língua
me abasteço
de você
E o poema nasce assim,
órfão de sentidos
repleto de ti
Se esparrama
como sêmen
sobre a pele incauta
Ocupa o espaço
onde, antes,
nada.
em meus dedos de seda
Me alimento do teu gosto
em meus lábios crispados
Na fina pele
percebo teus gemidos
Na ponta da língua
me abasteço
de você
E o poema nasce assim,
órfão de sentidos
repleto de ti
Se esparrama
como sêmen
sobre a pele incauta
Ocupa o espaço
onde, antes,
nada.
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Barone
Frases - XXVII
“Hoje em dia, se algum ato revolucionário causar um blecaute, a classe trabalhadora perderia um episódio de um reality show, por isso ela vota nos que oferecem o show, e continua trabalhando para oferecer mais valia aos que oferecem divertimento.”
Umberto Eco
Umberto Eco
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Poema
da proximidade tortuosa de dezembro
esse mormaço sabe a fevereiro
na claridade vê-se um quê de março
tão longe vai abril igual vai maio
de junho o quase-frio hoje é passado
o que dizer de agosto então e julho
a anunciar setembro em tons de azul
outubro é tão recente e já novembro
se esvai em dias claros de janeiro
quando o torpor do meu viver disfarço
cerro janelas nem às ruas saio
e vejo a mim qual ser mal-acabado
de frágil vidro e carne um podre entulho
mistura de canário e urubu
sem calendário afirmo — é dezembro
Márcia Maia
esse mormaço sabe a fevereiro
na claridade vê-se um quê de março
tão longe vai abril igual vai maio
de junho o quase-frio hoje é passado
o que dizer de agosto então e julho
a anunciar setembro em tons de azul
outubro é tão recente e já novembro
se esvai em dias claros de janeiro
quando o torpor do meu viver disfarço
cerro janelas nem às ruas saio
e vejo a mim qual ser mal-acabado
de frágil vidro e carne um podre entulho
mistura de canário e urubu
sem calendário afirmo — é dezembro
Márcia Maia
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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
Os 100 mais
A empresa sueca Twingly divulgou semana passada seu ranking internacional de blogs, baseado na influência e a repercussão que estes exercem. O bacana é que o ranking é dividido por idiomas. Veja aqui os 100 mais entre os blogues em português.
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Barone
Poema de Natal
Balada homicida
É preciso matar o vizinho com um tiro de fuzil,
antes que ele compreenda os textos sagrados
e venha, como irmão, a seu lar,
comer do seu pão e beber do seu vinho.
É preciso degolar os amigos,
ou enforcá-los em seus cadarços
(eles não usam gravatas),
antes que eles entendam Marx,
decretem o fim da era dos desiguais
e venham exigir que você participe do combate,
deixando para trás sua coleção de tampinhas
de refrigerantes
e de caixinhas de Malrboro.
É preciso matar os homens
– contrariando Drummond –
antes que eles entendam a poesia que há nas coisas
e comecem a distribuí-la em seus gestos diários.
Assassiná-los antes que liguem para a sua casa
e convidem-no para ver a lua
ou um mosquito de Proust,
retirando você de seu conforto militar, remediado.
É preciso se matar, sobretudo se matar,
antes que a vida se refaça no interior dos lares
e a alegria volte a corar a face dos homens:
antes que eles se compreendam, venham à sua porta
e a derrubem, por acreditarem-na obsoleta.
Lucas Rafael Nolli
É preciso matar o vizinho com um tiro de fuzil,
antes que ele compreenda os textos sagrados
e venha, como irmão, a seu lar,
comer do seu pão e beber do seu vinho.
É preciso degolar os amigos,
ou enforcá-los em seus cadarços
(eles não usam gravatas),
antes que eles entendam Marx,
decretem o fim da era dos desiguais
e venham exigir que você participe do combate,
deixando para trás sua coleção de tampinhas
de refrigerantes
e de caixinhas de Malrboro.
É preciso matar os homens
– contrariando Drummond –
antes que eles entendam a poesia que há nas coisas
e comecem a distribuí-la em seus gestos diários.
Assassiná-los antes que liguem para a sua casa
e convidem-no para ver a lua
ou um mosquito de Proust,
retirando você de seu conforto militar, remediado.
É preciso se matar, sobretudo se matar,
antes que a vida se refaça no interior dos lares
e a alegria volte a corar a face dos homens:
antes que eles se compreendam, venham à sua porta
e a derrubem, por acreditarem-na obsoleta.
Lucas Rafael Nolli
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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Frases - XXVI
“Uma pergunta: teria mais serventia para o nosso país a criação de 7.343 novas vagas de vereadores ou a criação de 7.343 vagas de médicos atendendo pelo SUS?”
Cláudio Navarro Silveira
Cláudio Navarro Silveira
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terça-feira, 23 de dezembro de 2008
O Jornalismo e a verdade na qual queremos crer
“A imprensa pode causar mais danos que a bomba atômica. E deixar cicatrizes no cérebro."
Noam Chomsky
O jornalista estadunidense Chip Rowe publicou certa vez na revista American Journalism Review uma reportagem sobre a relutância dos profissionais de imprensa em dar entrevistas aos seus colegas de profissão: “As pessoas da comunidade jornalística têm as mesmas suspeitas do público de que suas palavras serão distorcidas”, afirmou Rowe. Na mesma linha, seu conterrâneo David Shaw citou – referindo-se ao mesmo tema - uma história dos tempos em que cobria a mídia para o Los Angeles Times, quando um editor do próprio veículo se recusou a conversar com ele sobre uma pauta, estendendo a proibição aos seus repórteres.
O professor Ken Metzler, que durante vinte anos estudou as relações entre fontes e repórteres na Universidade do Oregon, fez o seguinte diagnóstico sobre este desconforto: “A mídia comete tantos erros que os repórteres sentem-se paranóicos para dar entrevistas; sentem-se desamparados”. Outra explicação para o mal-estar entre colegas de ofício foi dada por Jack Shafer: “Eles vivem de encher lingüiça. Então sabem o que vai na lingüiça”.
Citados os exemplos acima - pinçados de um artigo publicado pelo Instituto Gutteberg (autor não especificado) - seria de bom tom perguntar: se nem os jornalistas confiam nos jornalistas é de se esperar que a sociedade o faça? Apesar de provocativa e abrangente dentro do contexto em que as afirmações anteriores foram feitas, a questão tem fundamento. Afinal, que verdades são estas que trazemos à tona diariamente? As do leitor? Do dono do jornal? Do poder político-econômico por detrás dele? Muito se fala de ética, mas podemos perguntar também qual a ética que prevalece na selva das redações?
Jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), Eugenio Bucci sustenta, no artigo “O que significa acreditar na imprensa” (onde dá continuidade a reflexões feitas no artigo “O patriotismo do consumo”), que “não há canal mais adequado para dialogar com a sociedade do que a instituição da imprensa”. Diz, também, respondendo a alguns de seus leitores que contestaram a credibilidade dos jornais, que acreditar na imprensa não significa crer passivamente em tudo o que os veículos publicam, mas sim participar ativamente do que nela é discutido. Para Bucci, “fora da imprensa vista como instituição, não existe um fórum democrático para o florescimento de uma opinião pública bem fundamentada e vibrante”. E completa: “Acreditar nela significa ter disposição para dentro dela formular, apoiar e criticar pontos de vista”.
Não me sinto capacitado teoricamente para confrontar o cerne da argumentação de Bucci. Desenvolvo estas mal traçadas linhas, imbuído, isso sim, de um sentimento de impotência diante do que hoje se apresenta como Jornalismo – sentimento que, penso, é compartilhado por muitos. E assim, tento raciocinar sobre o que diz o professor em seu artigo, por exemplo, quando expõe as diferenças básicas entre a instituição da imprensa e outras formas de comunicação. “A publicidade é uma prática nitidamente comercial, ainda que se beneficie legitimamente da liberdade de expressão. Já a imprensa é uma prática não-comercial, ainda que notícias também possam circular como mercadorias”. Ocorre que, analisando o mainstream, já não me sinto seguro para discernir o que é jornalismo e o que é publicidade dada a perniciosa e constante influência do poder político-econômico sobre a pauta.
Uma tarde dedicada à leitura dos “jornalões”, das revistas semanais e dos blogs autorais que proliferam na web pode ser uma experiência e tanto para reforçar este sentimento de desorientação. A revista x acusa a revista y de editorializar sua pauta. A revista y responde dizendo que a revista x vive da publicidade governamental. Em meio a isso, colegas entram em um tiroteio ideológico cujo objetivo é mostrar, através de artigos bem delineados e de dossiês, que tal setor da mídia não é digno de confiança. Como resposta, os acusados iniciam campanhas de desconstrução profissional dignas de uma KGB (ou de uma CIA, para não soar ideológico de minha parte).
Em quem devemos acreditar?
Bem, os mais argutos podem argumentar que a conclusão sobre esta ou aquela afirmação deve ser resultado do cabedal de informação de cada um. Ocorre que, em meio a esta tempestade de informação na qual se transformou o Jornalismo contemporâneo, dominar um leque tão vasto de assuntos complexos é tarefa hercúlea até para jornalistas, estes profissionais que se arvoram no direito de dar pitaco sobre as mais diversas áreas, mas que se arrepiam quando o assunto adentra sua seara. Se, é assim para nós, imagine para o leitor.
Em 2005 o jornalista Luciano Martins Costa, no artigo “A partidarização oculta os problemas reais”, perguntava se “a imprensa ainda é um instrumento confiável para a interpretação da realidade nacional?”. Tratando especificamente do caso “mensalão” e de sua abordagem na mídia, ele finaliza com uma avaliação que pode, no entanto, ser ampliada para esta guerra de confiabilidade na qual estão imersos hoje os muitos atores da imprensa no Brasil. Diz ele:
“Difícil aceitar que a imprensa jogue deliberadamente um jogo de esconde-esconde com a opinião pública, mas não é complicado entender que, depois de haver enfrentado uma crise de quase uma década, durante a qual perdeu muitos colaboradores e foi obrigada a firmar compromissos com credores, ela possa ter se tornado mais vulnerável à tentação de se manter alinhada a grupos de poder cujas premissas, afinal, não teria dificuldade para assimilar. Problema mesmo é constatar que a imprensa abdicou de participar da formulação de grandes estratégias sociais e políticas para se resignar ao papel secundário de correligionária na tarefa de fazer muito barulho para não revelar o essencial.”
Em recente entrevista ao site do Instituto Humanitas Unisinos (IHU On-Line), o professor Erick Torrico Villanueva, diretor da pós-graduação em Comunicação e Jornalismo da Universidade Andina Simon Bolívar, disse que a crise no setor deriva da desconfiguração de suas práticas e princípios em prol de uma vertente onde o fator comercial é o que impera. Entre as causas e conseqüências desta inversão de valores e objetivos, Villanueva cita o desaparecimento da informação de interesse do público dos espaços de notícias na televisão e no rádio; o esvaziamento do conteúdo básico das notícias; a tendência do noticiário em gerar incerteza e alarme ao invés de informar e a busca, pela imprensa, em assimilar forma e conteúdo dos padrões dos meios audiovisuais que desvirtuam a atividade jornalística.
Na introdução do livro “Imprensa na berlinda – a fonte pergunta”, de Norma S. Alcântara, Manual Carlos Chaparro e Wilson Garcia, os autores lembram com propriedade Luiz Beltrão, que no livro “Jornalismo interpretativo” acentuou a necessidade de conhecer a fonte e seus propósitos: "Conhecer a fonte é distinguir os propósitos do sujeito promotor da ocorrência, ou as intenções do intermediário ou do testemunho, de quem (pessoa ou instituição) fornece dados mediante os quais se mede o peso do acontecimento noticiável. Sem esse prévio conhecimento da política informativa da fonte, sem essa atividade cognitiva fundamental, não poderá o comunicador da informação de atualidade distinguir, na maré das circunstâncias e ângulos que concorrem para torná-los visíveis e desapercebidos, os autênticos valores e aspectos com que irá preencher as lacunas, os vazios da informação, habilitando-o a dar à mensagem aquela transparência e complementação, sem a qual o receptor continuará mal informado ou, pior ainda, passível de trocar seu status do titular do direito de ser informado pelo de tutelado sem poder ou capacidade decisória".
Muito correto. A falta de atenção ou entendimento a respeito desta importante reflexão sobre o fazer-jornalístico tem condenado muitos jornalistas e veículos de comunicação a um papel de assessoria de imprensa do poder político-econômico. Um exemplo recente deste comportamento foi retratado no artigo “Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS”, publicado neste Observatório no dia 17 de dezembro.
Mas, pinçando desta reflexão o argumento de fundo, não terá a população o mesmo direito de conhecer a fonte e seus propósitos – no caso, os veículos de comunicação - ao folhear seu jornal predileto, ou ao assistir do sofá da sala ao telejornal de sua preferência? São dados ao consumidor de notícia os meios de conhecer o que de fato há por detrás das manchetes?
Uma frase de Chaparro, citada na introdução do livro supracitado, também poderia ter sua construção adaptada. "Quando o jornalismo se acomoda no aconchego das fontes organizadas e foge dos maus cheiros que atormentam os desprotegidos, ele próprio começa a cheirar mal", diz ele. Da mesma forma o leitor/telespectador não cheira melhor ao engolir a notícia como verdade absoluta. E se não é isso o que está ocorrendo, então, por favor, mehr licht!
De fato, há argumentos para todos os lados. Pode-se dizer que a maioria acredita piamente e confia no que lê e ouve. Pode-se, também, dizer que não, que a população está mais consciente, mais propensa a questionar a notícia, a interagir com os veículos de comunicação e – como pediu Bucci – “participar ativamente do que neles é discutido”. Há, inclusive, pesquisas para todos os gostos.
Pesquisas e contos da carochinha, ou não?
Um destes estudos – divulgado neste ano – é o Latinobarómetro, promovido anualmente pelo Economist, abordando o pensamento político dos cidadãos latino-americanos. O levantamento, conduzido no Brasil pelo IBOPE, concluiu, entre outras coisas, que apenas 44% dos brasileiros acredita que “a democracia garante a liberdade de expressão sempre e em todas as partes”. Ficamos em penúltimo lugar entre os países latino-americanos, à frente apenas da Guatemala (com 42%) e 36 pontos percentuais atrás do Uruguai, primeiro colocado entre os que atribuem à democracia um papel de garantia para a liberdade de expressão.
Estes mesmos brasileiros, que, segundo o Latinobarómetro, disseram que não se importariam em viver sob um governo não democrático desde que este resolvesse problemas econômicos (57% dos entrevistados) elegeram o rádio como veículo de comunicação mais confiável (64% disseram confiar no rádio), seguido pelos jornais (62%) e pela tevê (60%). O Brasil aparece na mostra patrocinada pelo Economist no segundo lugar entre os países latino-americanos que mais confiam nestes veículos de comunicação, sempre acima da média apresentada pelos demais países pesquisados (55% para rádios, 51% para tevê e 48% para os jornais).
Outra pesquisa otimista foi realizada pela multinacional de relações públicas Edelman, segundo a qual 64% dos brasileiros consideram a mídia a instituição mais confiável. A Edelman revelou ainda que 71% dos entrevistados julgam ser confiáveis os artigos publicados por revistas especializadas em negócios. No Brasil (a pesquisa foi realizada em 18 países) foram ouvidas 150 pessoas com idade variando entre 25 e 64 anos, entre outubro e novembro de 2007.
Pouco divulgado, no entanto, foi o perfil das 150 pessoas ouvidas pela empresa. Além do número muito aquém do desejado para uma pesquisa que pretendia traçar um perfil nacional (segundo quis fazer parecer o jornal O Globo), os entrevistados foram gente considerada pela Endelman “líderes de opinião”: com curso superior, pertencentes aos 25% detentores do maior nível de renda por domicílio e com grande interesse em assuntos relacionados à mídia, à economia e aos negócios públicos. Trata-se, portanto, de uma amostra de parte da elite brasileira.
Para os que se aventuraram no link intitulado “segundo quis fazer parecer o jornal O Globo” ou já estavam por dentro das maquinações dos Marinho para vender gato por lebre, pergunto: se nosso Jornalismo (ou parte importante dele) se esforça por noticiar uma informação incorreta sobre seus próprios níveis de aceitação popular, o que fará com outras notícias de interesse político-econômico?
No contraponto está, por exemplo, a pesquisa realizada em 2006 pelo Instituto GlobeScan para a BBC, a Reuters e o The Media Center (no Brasil o trabalho foi realizado pela GfK Indicator, que ouviu mil adultos de nove regiões metropolitanas – Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo – no período de 16 a 22 de março). O levantamento revelou que, no Brasil, mais da metade dos entrevistados (55%) não confia nas informações obtidas através da mídia. Entre todos os países pesquisados, esse percentual só não foi maior do que o obtido na Alemanha (57%).
Além disso, a pesquisa revelou que o Brasil é o país onde as pessoas estão mais descontentes com a sua própria mídia, segundo os seguintes fatores: a mídia exagera na cobertura das notícias ruins (80%); os leitores raramente encontram na grande mídia as informações que gostariam de obter (64%); não concordam que a cobertura da grande mídia seja acurada (45%); declaram ter trocado de fonte de informação nos 12 meses anteriores por terem perdido a confiança (44%).
O que eles querem? E nós?
Durante o evento "Mitos e Verdades do Brasil de Hoje – a Visão da Mídia", realizado em São Paulo no dia 27 de novembro, Otavio Frias Filho, da Folha de S.Paulo, disse que, para que os jornais sobrevivam, é preciso que eles conheçam e entendam seu leitor, e admitiu que a distância entre o que a imprensa oferece e o que os leitores querem ler é imensa. Mas afinal, o que quer o leitor? Ao que parece ninguém sabe ao certo. Analisando o evento (do qual também participaram Ricardo Gandour, do Estado de S.Paulo, e Josemar Gimenez, do Correio Braziliense), Luciano Martins Costa diz o seguinte (no artigo “Um melancólico olhar para dentro”):
“Os três representantes do grupo que se costuma qualificar como ‘a grande imprensa’ não deram demonstração de otimismo quanto ao futuro dos jornais. Também deixaram a impressão de que os jornais que saem de suas impressoras não são aqueles que eles gostariam de ver impressos. Muito do que expuseram como opiniões suas se opõe diametralmente ao que seus diários publicam. A imagem que deixaram na platéia de convidados foi a de uma melancolia profunda, como a dos velhos elefantes que se encaminham lentamente para o cemitério.”
A análise dos três publishers não é diferente da minha ou da de milhares de jornalistas perdidos nos descaminhos da profissão. Alguns têm mais poder de decisão que outros, mas todos nós estamos mergulhados até o pescoço em uma pantomima na qual fingimos que fazemos Jornalismo enquanto a população finge que acredita nisso.
Talvez, como sugeriu monsenhor Paul Tighe, secretário do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais do Vaticano, tenhamos que recorrer à ética e a incessante busca da “verdade até a morte” para entendermos, de fato, o que quer o leitor e, além, o que queremos nós, jornalistas.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Quarenta anos depois do AI-5 continuamos sob censura
- Concessões de tevê e rádio: velhas práticas políticas e o nosso conformismo
- Um financiamento público para o Jornalismo?
- A coerção ao exercício do jornalismo no Mato Grosso do Sul
- Jornalismo e assessoria de imprensa: ética e realidade
Noam Chomsky
O jornalista estadunidense Chip Rowe publicou certa vez na revista American Journalism Review uma reportagem sobre a relutância dos profissionais de imprensa em dar entrevistas aos seus colegas de profissão: “As pessoas da comunidade jornalística têm as mesmas suspeitas do público de que suas palavras serão distorcidas”, afirmou Rowe. Na mesma linha, seu conterrâneo David Shaw citou – referindo-se ao mesmo tema - uma história dos tempos em que cobria a mídia para o Los Angeles Times, quando um editor do próprio veículo se recusou a conversar com ele sobre uma pauta, estendendo a proibição aos seus repórteres.
O professor Ken Metzler, que durante vinte anos estudou as relações entre fontes e repórteres na Universidade do Oregon, fez o seguinte diagnóstico sobre este desconforto: “A mídia comete tantos erros que os repórteres sentem-se paranóicos para dar entrevistas; sentem-se desamparados”. Outra explicação para o mal-estar entre colegas de ofício foi dada por Jack Shafer: “Eles vivem de encher lingüiça. Então sabem o que vai na lingüiça”.
Citados os exemplos acima - pinçados de um artigo publicado pelo Instituto Gutteberg (autor não especificado) - seria de bom tom perguntar: se nem os jornalistas confiam nos jornalistas é de se esperar que a sociedade o faça? Apesar de provocativa e abrangente dentro do contexto em que as afirmações anteriores foram feitas, a questão tem fundamento. Afinal, que verdades são estas que trazemos à tona diariamente? As do leitor? Do dono do jornal? Do poder político-econômico por detrás dele? Muito se fala de ética, mas podemos perguntar também qual a ética que prevalece na selva das redações?
Jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), Eugenio Bucci sustenta, no artigo “O que significa acreditar na imprensa” (onde dá continuidade a reflexões feitas no artigo “O patriotismo do consumo”), que “não há canal mais adequado para dialogar com a sociedade do que a instituição da imprensa”. Diz, também, respondendo a alguns de seus leitores que contestaram a credibilidade dos jornais, que acreditar na imprensa não significa crer passivamente em tudo o que os veículos publicam, mas sim participar ativamente do que nela é discutido. Para Bucci, “fora da imprensa vista como instituição, não existe um fórum democrático para o florescimento de uma opinião pública bem fundamentada e vibrante”. E completa: “Acreditar nela significa ter disposição para dentro dela formular, apoiar e criticar pontos de vista”.
Não me sinto capacitado teoricamente para confrontar o cerne da argumentação de Bucci. Desenvolvo estas mal traçadas linhas, imbuído, isso sim, de um sentimento de impotência diante do que hoje se apresenta como Jornalismo – sentimento que, penso, é compartilhado por muitos. E assim, tento raciocinar sobre o que diz o professor em seu artigo, por exemplo, quando expõe as diferenças básicas entre a instituição da imprensa e outras formas de comunicação. “A publicidade é uma prática nitidamente comercial, ainda que se beneficie legitimamente da liberdade de expressão. Já a imprensa é uma prática não-comercial, ainda que notícias também possam circular como mercadorias”. Ocorre que, analisando o mainstream, já não me sinto seguro para discernir o que é jornalismo e o que é publicidade dada a perniciosa e constante influência do poder político-econômico sobre a pauta.
Uma tarde dedicada à leitura dos “jornalões”, das revistas semanais e dos blogs autorais que proliferam na web pode ser uma experiência e tanto para reforçar este sentimento de desorientação. A revista x acusa a revista y de editorializar sua pauta. A revista y responde dizendo que a revista x vive da publicidade governamental. Em meio a isso, colegas entram em um tiroteio ideológico cujo objetivo é mostrar, através de artigos bem delineados e de dossiês, que tal setor da mídia não é digno de confiança. Como resposta, os acusados iniciam campanhas de desconstrução profissional dignas de uma KGB (ou de uma CIA, para não soar ideológico de minha parte).
Em quem devemos acreditar?
Bem, os mais argutos podem argumentar que a conclusão sobre esta ou aquela afirmação deve ser resultado do cabedal de informação de cada um. Ocorre que, em meio a esta tempestade de informação na qual se transformou o Jornalismo contemporâneo, dominar um leque tão vasto de assuntos complexos é tarefa hercúlea até para jornalistas, estes profissionais que se arvoram no direito de dar pitaco sobre as mais diversas áreas, mas que se arrepiam quando o assunto adentra sua seara. Se, é assim para nós, imagine para o leitor.
Em 2005 o jornalista Luciano Martins Costa, no artigo “A partidarização oculta os problemas reais”, perguntava se “a imprensa ainda é um instrumento confiável para a interpretação da realidade nacional?”. Tratando especificamente do caso “mensalão” e de sua abordagem na mídia, ele finaliza com uma avaliação que pode, no entanto, ser ampliada para esta guerra de confiabilidade na qual estão imersos hoje os muitos atores da imprensa no Brasil. Diz ele:
“Difícil aceitar que a imprensa jogue deliberadamente um jogo de esconde-esconde com a opinião pública, mas não é complicado entender que, depois de haver enfrentado uma crise de quase uma década, durante a qual perdeu muitos colaboradores e foi obrigada a firmar compromissos com credores, ela possa ter se tornado mais vulnerável à tentação de se manter alinhada a grupos de poder cujas premissas, afinal, não teria dificuldade para assimilar. Problema mesmo é constatar que a imprensa abdicou de participar da formulação de grandes estratégias sociais e políticas para se resignar ao papel secundário de correligionária na tarefa de fazer muito barulho para não revelar o essencial.”
Em recente entrevista ao site do Instituto Humanitas Unisinos (IHU On-Line), o professor Erick Torrico Villanueva, diretor da pós-graduação em Comunicação e Jornalismo da Universidade Andina Simon Bolívar, disse que a crise no setor deriva da desconfiguração de suas práticas e princípios em prol de uma vertente onde o fator comercial é o que impera. Entre as causas e conseqüências desta inversão de valores e objetivos, Villanueva cita o desaparecimento da informação de interesse do público dos espaços de notícias na televisão e no rádio; o esvaziamento do conteúdo básico das notícias; a tendência do noticiário em gerar incerteza e alarme ao invés de informar e a busca, pela imprensa, em assimilar forma e conteúdo dos padrões dos meios audiovisuais que desvirtuam a atividade jornalística.
Na introdução do livro “Imprensa na berlinda – a fonte pergunta”, de Norma S. Alcântara, Manual Carlos Chaparro e Wilson Garcia, os autores lembram com propriedade Luiz Beltrão, que no livro “Jornalismo interpretativo” acentuou a necessidade de conhecer a fonte e seus propósitos: "Conhecer a fonte é distinguir os propósitos do sujeito promotor da ocorrência, ou as intenções do intermediário ou do testemunho, de quem (pessoa ou instituição) fornece dados mediante os quais se mede o peso do acontecimento noticiável. Sem esse prévio conhecimento da política informativa da fonte, sem essa atividade cognitiva fundamental, não poderá o comunicador da informação de atualidade distinguir, na maré das circunstâncias e ângulos que concorrem para torná-los visíveis e desapercebidos, os autênticos valores e aspectos com que irá preencher as lacunas, os vazios da informação, habilitando-o a dar à mensagem aquela transparência e complementação, sem a qual o receptor continuará mal informado ou, pior ainda, passível de trocar seu status do titular do direito de ser informado pelo de tutelado sem poder ou capacidade decisória".
Muito correto. A falta de atenção ou entendimento a respeito desta importante reflexão sobre o fazer-jornalístico tem condenado muitos jornalistas e veículos de comunicação a um papel de assessoria de imprensa do poder político-econômico. Um exemplo recente deste comportamento foi retratado no artigo “Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS”, publicado neste Observatório no dia 17 de dezembro.
Mas, pinçando desta reflexão o argumento de fundo, não terá a população o mesmo direito de conhecer a fonte e seus propósitos – no caso, os veículos de comunicação - ao folhear seu jornal predileto, ou ao assistir do sofá da sala ao telejornal de sua preferência? São dados ao consumidor de notícia os meios de conhecer o que de fato há por detrás das manchetes?
Uma frase de Chaparro, citada na introdução do livro supracitado, também poderia ter sua construção adaptada. "Quando o jornalismo se acomoda no aconchego das fontes organizadas e foge dos maus cheiros que atormentam os desprotegidos, ele próprio começa a cheirar mal", diz ele. Da mesma forma o leitor/telespectador não cheira melhor ao engolir a notícia como verdade absoluta. E se não é isso o que está ocorrendo, então, por favor, mehr licht!
De fato, há argumentos para todos os lados. Pode-se dizer que a maioria acredita piamente e confia no que lê e ouve. Pode-se, também, dizer que não, que a população está mais consciente, mais propensa a questionar a notícia, a interagir com os veículos de comunicação e – como pediu Bucci – “participar ativamente do que neles é discutido”. Há, inclusive, pesquisas para todos os gostos.
Pesquisas e contos da carochinha, ou não?
Um destes estudos – divulgado neste ano – é o Latinobarómetro, promovido anualmente pelo Economist, abordando o pensamento político dos cidadãos latino-americanos. O levantamento, conduzido no Brasil pelo IBOPE, concluiu, entre outras coisas, que apenas 44% dos brasileiros acredita que “a democracia garante a liberdade de expressão sempre e em todas as partes”. Ficamos em penúltimo lugar entre os países latino-americanos, à frente apenas da Guatemala (com 42%) e 36 pontos percentuais atrás do Uruguai, primeiro colocado entre os que atribuem à democracia um papel de garantia para a liberdade de expressão.
Estes mesmos brasileiros, que, segundo o Latinobarómetro, disseram que não se importariam em viver sob um governo não democrático desde que este resolvesse problemas econômicos (57% dos entrevistados) elegeram o rádio como veículo de comunicação mais confiável (64% disseram confiar no rádio), seguido pelos jornais (62%) e pela tevê (60%). O Brasil aparece na mostra patrocinada pelo Economist no segundo lugar entre os países latino-americanos que mais confiam nestes veículos de comunicação, sempre acima da média apresentada pelos demais países pesquisados (55% para rádios, 51% para tevê e 48% para os jornais).
Outra pesquisa otimista foi realizada pela multinacional de relações públicas Edelman, segundo a qual 64% dos brasileiros consideram a mídia a instituição mais confiável. A Edelman revelou ainda que 71% dos entrevistados julgam ser confiáveis os artigos publicados por revistas especializadas em negócios. No Brasil (a pesquisa foi realizada em 18 países) foram ouvidas 150 pessoas com idade variando entre 25 e 64 anos, entre outubro e novembro de 2007.
Pouco divulgado, no entanto, foi o perfil das 150 pessoas ouvidas pela empresa. Além do número muito aquém do desejado para uma pesquisa que pretendia traçar um perfil nacional (segundo quis fazer parecer o jornal O Globo), os entrevistados foram gente considerada pela Endelman “líderes de opinião”: com curso superior, pertencentes aos 25% detentores do maior nível de renda por domicílio e com grande interesse em assuntos relacionados à mídia, à economia e aos negócios públicos. Trata-se, portanto, de uma amostra de parte da elite brasileira.
Para os que se aventuraram no link intitulado “segundo quis fazer parecer o jornal O Globo” ou já estavam por dentro das maquinações dos Marinho para vender gato por lebre, pergunto: se nosso Jornalismo (ou parte importante dele) se esforça por noticiar uma informação incorreta sobre seus próprios níveis de aceitação popular, o que fará com outras notícias de interesse político-econômico?
No contraponto está, por exemplo, a pesquisa realizada em 2006 pelo Instituto GlobeScan para a BBC, a Reuters e o The Media Center (no Brasil o trabalho foi realizado pela GfK Indicator, que ouviu mil adultos de nove regiões metropolitanas – Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo – no período de 16 a 22 de março). O levantamento revelou que, no Brasil, mais da metade dos entrevistados (55%) não confia nas informações obtidas através da mídia. Entre todos os países pesquisados, esse percentual só não foi maior do que o obtido na Alemanha (57%).
Além disso, a pesquisa revelou que o Brasil é o país onde as pessoas estão mais descontentes com a sua própria mídia, segundo os seguintes fatores: a mídia exagera na cobertura das notícias ruins (80%); os leitores raramente encontram na grande mídia as informações que gostariam de obter (64%); não concordam que a cobertura da grande mídia seja acurada (45%); declaram ter trocado de fonte de informação nos 12 meses anteriores por terem perdido a confiança (44%).
O que eles querem? E nós?
Durante o evento "Mitos e Verdades do Brasil de Hoje – a Visão da Mídia", realizado em São Paulo no dia 27 de novembro, Otavio Frias Filho, da Folha de S.Paulo, disse que, para que os jornais sobrevivam, é preciso que eles conheçam e entendam seu leitor, e admitiu que a distância entre o que a imprensa oferece e o que os leitores querem ler é imensa. Mas afinal, o que quer o leitor? Ao que parece ninguém sabe ao certo. Analisando o evento (do qual também participaram Ricardo Gandour, do Estado de S.Paulo, e Josemar Gimenez, do Correio Braziliense), Luciano Martins Costa diz o seguinte (no artigo “Um melancólico olhar para dentro”):
“Os três representantes do grupo que se costuma qualificar como ‘a grande imprensa’ não deram demonstração de otimismo quanto ao futuro dos jornais. Também deixaram a impressão de que os jornais que saem de suas impressoras não são aqueles que eles gostariam de ver impressos. Muito do que expuseram como opiniões suas se opõe diametralmente ao que seus diários publicam. A imagem que deixaram na platéia de convidados foi a de uma melancolia profunda, como a dos velhos elefantes que se encaminham lentamente para o cemitério.”
A análise dos três publishers não é diferente da minha ou da de milhares de jornalistas perdidos nos descaminhos da profissão. Alguns têm mais poder de decisão que outros, mas todos nós estamos mergulhados até o pescoço em uma pantomima na qual fingimos que fazemos Jornalismo enquanto a população finge que acredita nisso.
Talvez, como sugeriu monsenhor Paul Tighe, secretário do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais do Vaticano, tenhamos que recorrer à ética e a incessante busca da “verdade até a morte” para entendermos, de fato, o que quer o leitor e, além, o que queremos nós, jornalistas.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Quarenta anos depois do AI-5 continuamos sob censura
- Concessões de tevê e rádio: velhas práticas políticas e o nosso conformismo
- Um financiamento público para o Jornalismo?
- A coerção ao exercício do jornalismo no Mato Grosso do Sul
- Jornalismo e assessoria de imprensa: ética e realidade
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Artigo no OI
Publicado aqui no dia 17 de dezembro, meu artigo “Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS” foi publicado hoje no Observatório da Imprensa.
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Um passo para frente, dois para trás
Depois da declaração do porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, de que a Igreja Católica é a favor da descriminalização do homossexualismo, pensei que haveria espaço para bom senso no Vaticano. Ledo engano.
Todos já devem ter lido a respeito da comparação estapafúrdia entre desmatamento e homossexualismo, feita ontem pelo papa Bento 16, mas não resisto em comentar. Até quando teremos que aturar a ingerência religiosa sobre assuntos que dizem respeito apenas ao livre arbítrio de cada um? Passa pela cabeça destes insanos que o que eles têm como verdade pode não ser aceito por outras pessoas?
Todos já devem ter lido a respeito da comparação estapafúrdia entre desmatamento e homossexualismo, feita ontem pelo papa Bento 16, mas não resisto em comentar. Até quando teremos que aturar a ingerência religiosa sobre assuntos que dizem respeito apenas ao livre arbítrio de cada um? Passa pela cabeça destes insanos que o que eles têm como verdade pode não ser aceito por outras pessoas?
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Obscurantismo em pauta
No artigo “Ideologia versus reconhecimento público?”, o economista Olegario da Costa – de Florianópolis - aborda a guinada rumo ao obscurantismo em Campo Grande (MS) com o arquivamento da Lei que concederia o título de utilidade pública para a Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul. O tema foi abordado na semana passada aqui no Escrevinhamentos e alguns dos artigos relativos a ele estão circulando em fóruns de discussão pela web.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado
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Frases - XXV
“Talvez venha a ser considerado no futuro como o Ano da Verdade, se as revelações e desvendamentos prosseguirem com a mesma intensidade em todas as direções. Caíram por terra as promessas, as ilusões, as quimeras políticas, filosóficas e religiosas.”
Alberto Dines, referindo-se ao ano de 2008
Alberto Dines, referindo-se ao ano de 2008
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Evoluímos?
O debate envolvendo criacionistas e evolucionistas, que freqüentou as páginas de grandes jornais recentemente, está sendo alvo de um confronto de idéias muito interessante no espaço dedicado aos comentários do artigo “A torre de marfim e o risco de macaquear o evolucionismo”, no blog Laudas Críticas, do jornalista Maurício Tuffani. Os interessados sobre o tema não devem deixar de acompanhar.
Leia mais sobre o mesmo tema
- Criacionismo e Evolucionismo
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- Criacionismo e Evolucionismo
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domingo, 21 de dezembro de 2008
Livros Usados
O site Gojaba, onde pode-se vender livros usados e encontrar livros raros, chegou à marca de 1 milhão de livros disponíveis para venda. Muito interessante o projeto. Dica pinçada do excelente blog literário Livros e Afins.
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sábado, 20 de dezembro de 2008
Frases - XXIV
“Se resolver continuar repetindo o que os outros meios informam mais rapidamente e com mais vibração, haja peixe e banana para embrulhar”
Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S.Paulo, referindo-se ao futuro dos jornais impressos.
Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S.Paulo, referindo-se ao futuro dos jornais impressos.
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Esperança para nosso etanol?
Os produtores brasileiros de etanol estão cruzando os dedos para que o Governo Obama seja menos protecionista que a administração de George W. Bush. A indicação de Tom Vilsack para o departamento de Agricultura estadunidense animou o setor, já que ele tem um histórico de defesa do álcool como fonte alternativa de energia e seria favorável à derrubada da barreira para importação do etanol brasileiro – segundo afirmação feita à rádio Iowa, em 2007.
O fato é que o setor não vai nada bem devido a prejuízos acumulados, falta de crédito, custos altos, ameaça de falências e de calotes, conforme aponta reportagem da jornalista Denise Carvalho, publicada no início do mês na Revista Exame.
Colocar as fichas de uma possível reviravolta neste setor na boa vontade de Obama pode não ser uma boa idéia. No artigo “Obama e o biocombustível”, publicado aqui no dia 12 de novembro, traço um panorama histórico pouco convincente sobre os interesses do novo governo estadunidense sobre o nosso etanol. Torço para estar errado.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Obama e o biocombustível
O fato é que o setor não vai nada bem devido a prejuízos acumulados, falta de crédito, custos altos, ameaça de falências e de calotes, conforme aponta reportagem da jornalista Denise Carvalho, publicada no início do mês na Revista Exame.
Colocar as fichas de uma possível reviravolta neste setor na boa vontade de Obama pode não ser uma boa idéia. No artigo “Obama e o biocombustível”, publicado aqui no dia 12 de novembro, traço um panorama histórico pouco convincente sobre os interesses do novo governo estadunidense sobre o nosso etanol. Torço para estar errado.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Obama e o biocombustível
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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
O atirador de sapatos e a pasmaceira
É tentador cair em um discurso fácil de retidão e manutenção da ordem pública quando se está sentado sob a pasmaceira ideológica em que se transformou o Brasil. Que ordem é esta que deve ser defendida com unhas e dentes? Devemos, mesmo, fazer careta diante de qualquer manifestação popular mais exaltada? Será que está tudo andando sobre os trilhos da dignidade e da lisura a ponto de clamarmos pela manutenção da ordem?
O jornalista Guilherme Fiúza publicou hoje em seu blog um artigo intitulado “A ética do sapatão” no qual critica a atitude do repórter iraquiano que arremessou um sapato contra George Bush e dos que sentiram-se um pouco representados pela atitude. É a lógica do conformismo acima de tudo na qual, em nome da legalidade, toda perversão é aceitável.
Na década de 30 cidadãos espanhóis e de várias nações pegaram em armas contra a tirania de Franco. Logo depois, durante a segunda guerra mundial, para combater as atrocidades do fascismo, grupos de cidadãos combateram na clandestinidade em diversos países europeus. Em todas as ditaduras que vieram em seguida, de esquerda ou de direita, cidadãos se armaram e responderam violência com violência.
Os fundamentos ideológicos de todas estas lutas foram diferentes uns dos outros, diferentes também dos fundamentos da sapatada proferida pelo jornalista iraquiano em Bush. No entanto, todas estas manifestações de violência surgiram como respostas a violências maiores, em especial contra os direitos civis, contra a liberdade de expressão, de associação, de respirar.
Volto a perguntar: é possível condenar estas reações sob o ponto de vista fácil de quem está sentado confortavelmente em meio a uma pasmaceira ideológica? Acho que, especialmente no Brasil, há uma falta danada de gente com coragem de atirar sapatos.
O jornalista Guilherme Fiúza publicou hoje em seu blog um artigo intitulado “A ética do sapatão” no qual critica a atitude do repórter iraquiano que arremessou um sapato contra George Bush e dos que sentiram-se um pouco representados pela atitude. É a lógica do conformismo acima de tudo na qual, em nome da legalidade, toda perversão é aceitável.
Na década de 30 cidadãos espanhóis e de várias nações pegaram em armas contra a tirania de Franco. Logo depois, durante a segunda guerra mundial, para combater as atrocidades do fascismo, grupos de cidadãos combateram na clandestinidade em diversos países europeus. Em todas as ditaduras que vieram em seguida, de esquerda ou de direita, cidadãos se armaram e responderam violência com violência.
Os fundamentos ideológicos de todas estas lutas foram diferentes uns dos outros, diferentes também dos fundamentos da sapatada proferida pelo jornalista iraquiano em Bush. No entanto, todas estas manifestações de violência surgiram como respostas a violências maiores, em especial contra os direitos civis, contra a liberdade de expressão, de associação, de respirar.
Volto a perguntar: é possível condenar estas reações sob o ponto de vista fácil de quem está sentado confortavelmente em meio a uma pasmaceira ideológica? Acho que, especialmente no Brasil, há uma falta danada de gente com coragem de atirar sapatos.
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Grato
Recebi estes dias um e-mail da turismóloga e pesquisadora Louise Prado Alfonso, autora da dissertação de mestrado intitulada “Embratur: Formadora de imagens da nação brasileira”, citada no artigo “Toda brasileira é bunda?”, que publiquei aqui dia 12.
Fiquei muito grato pelo incentivo e pela sua gentileza em se propor a me enviar a tese via correio. A seguir as palavras da pesquisadora:
“Escrevo este e-mail para parabenizá-lo pelo artigo intitulado “Toda brasileira é bunda?”. Dentre muitas citações ao meu trabalho considero este artigo um dos mais interessantes”.
Fiquei muito grato pelo incentivo e pela sua gentileza em se propor a me enviar a tese via correio. A seguir as palavras da pesquisadora:
“Escrevo este e-mail para parabenizá-lo pelo artigo intitulado “Toda brasileira é bunda?”. Dentre muitas citações ao meu trabalho considero este artigo um dos mais interessantes”.
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
A jornalista Adriana Santana desenvolve como tese de doutorado uma pesquisa sobre o que classifica como “Jornalismo Cordial”. O termo, como ela explica em seu blog, remete ao conceito de “homem cordial” do historiador Sérgio Buarque de Holanda, e quer retratar “aquele profissional que, relegando apuração e compromisso com a busca dos fatos, numa postura de agradar a todos (ou não desagradar a ninguém), acaba por não cumprir sua função social de investigador e responsável por levantar e disseminar informações do interesse dos cidadãos”.
A concessão do título de Utilidade Pública para a Associação dos Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS), que deveria ocorrer nesta quarta-feira, 17, serve de objeto para a análise deste tipo de jornalismo que - aliado ao domínio do poder econômico sobre a definição das pautas e ao que o jornalista Washington Araújo classifica como “jornalismo insano” - está nos condenando a uma morte lenta e dolorosa.
Resumindo a ópera: desde dezembro de 2005 alguns vereadores tentam fazer aprovar no legislativo municipal campo-grandense um projeto de Lei que concederia o título à ATMS. Em 2006 a proposta foi reprovada por um placar de nove votos a oito, apesar de a entidade preencher os preceitos legais para receber o título. A oposição maciça de vereadores evangélicos e ligados a Igreja Católica foi o fator decisivo.
O debate se estendeu por 2007, desta vez sob a batuta do vereador Athayde Nery (PPS), que reapresentou a proposta sob o projeto de Lei 6353/07, argumentando que a associação é responsável por cursos, convênios e campanhas de prevenção à Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. Ontem, em uma manobra burocrática, o vereador Pastor Sergio (PMDB), integrante da bancada evangélica da Casa, pediu vistas ao projeto, impossibilitando que ele seja votado neste ano e virtualmente condenando-o novamente ao arquivamento. O projeto tramitava há quase dois anos, mas só ontem Sergio alegou desconhecer seus detalhes técnicos...
Presentes na sessão, militantes e simpatizantes da ATMS, pastores evangélicos e religiosos quase partiram para as vias de fato, coroando um drama de caráter social que poderia render muito material de qualidade além do factual óbvio e ululante.
Poderia-se, por exemplo, aproveitando o gancho dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, questionar se os motivos que levaram as bancadas evangélica e católica da Casa a obstruírem mais uma vez a aprovação do projeto teve caráter homofóbico. Uma leitura rápida da Declaração mostra, inequivocamente, que pelo menos seus Artigos I, II, VI e VIII foram violados.
Também seria possível analisar o fato de a Câmara Municipal de Campo Grande ter aprovado inúmeros títulos de Utilidade Pública nos últimos meses (inclusive um, hoje – Projeto de Lei 6557/08). Se a ATMS tinha requisitos legais para requerer a utilidade pública municipal, qual o motivo de este benefício estar sendo sistematicamente negado a ela, quando foi garantido a inúmeras outras associações?
Indo mais longe, os veículos de comunicação de Mato Grosso do Sul poderiam ligar o que ocorreu ontem na capital do Estado com os movimentos nacionais e internacionais de combate ao preconceito e pela discriminação aos homossexuais. Poderia-se ter usado como gancho fatos recentes, como a declaração do porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, de que a Igreja Católica é a favor da descriminalização do homossexualismo.
O fato é que o tema poderia ter sido abordado de muitas formas, todas elas fugindo do que o jornalista Luis Weiss, no artigo “Desafio ao leitor - e ao jornalista”, classifica como “a saída pelo facilitário”, isto é, pela abordagem óbvia e pouco desafiadora para o leitor.
No entanto, o que se viu na mídia sul-mato-grossense entre ontem e hoje foi somente pasmaceira e omissão.
O jornal Correio do Estado foi o veículo que mais destaque deu ao tema, dedicando a ele manchete secundária de capa (“Homossexuais, evangélicos e vereadores colidem”) e reportagem (na página 9A) intitulada “Projeto pró-homossexuais gera bate-boca na Câmara”, expondo o factual e os dois lados da questão sem, no entanto, questionar o seu mérito. O jornal O Estado de MS, por sua vez, deixou o tema de fora da capa, dando o mesmo tratamento que o Correio em matéria interna sob o título “Votação sobre utilidade pública de associação é suspensa após tumulto”. Outros dois jornais diários da capital, Diário do Pantanal e Folha do Povo não dedicaram uma linha sequer à polêmica.
Ontem, o site de notícias Campo Grande News noticiou com a matéria “Bate-boca entre evangélicos e travestis suspende sessão”. Mais tarde, deu espaço a uma vereadora evangélica eleita: “Evangélica, Rose votaria contra Associação das Travestis”. O Midiamax não deu uma linha sequer sobre o tema, apesar de ter noticiado no dia 15 que o projeto seria votado. Na mesma linha, o site TVMorena, braço virtual da TV Morena (repetidora da TV Globo em MS), deixou o fato passar em branco, embora tenha incluído a votação da Lei em nota sobre a pauta da Câmara Municipal.
As emissoras de tevê locais também ignoraram o projeto e as suas repercussões. A TV Morena, ontem, citou apenas que a Câmara Municipal havia aprovado o orçamento municipal de 2009. A TV Record e a repetidora do SBT no Estado, TV Campo Grande, também passaram batidas.
Recentemente, no artigo “Jornalismo e assessoria de imprensa: ética e realidade”, citei uma análise do professor Venício A. de Lima, pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (Nemp) da Universidade de Brasília, segundo a qual: “...imparcialidade e objetividade são princípios irrealizáveis na prática concreta da apuração e da redação de notícias, sejam elas de política ou de outra editoria”. Para Lima, “o que se busca no jornalismo sério e responsável é minimizar a contaminação da cobertura pelas preferências pessoais do(a) repórter e pelos interesses dos donos dos jornais, expressos nos editoriais e nas colunas de opinião dos respectivos veículos”.
Em sua resenha do livro “Políticas Públicas Sociais e os Desafios para o Jornalismo”, o jornalista Luciano Milhomem aponta um caminho similar ao dizer que, apesar de estabeleceram as regras para o setor, os grandes meios de comunicação de massa não são totalmente impermeáveis a mudanças e que é nesse nicho que “o jornalista de sólida e vasta formação pode e deve atuar, de maneira a promover a criatividade, a inovação, a consciência crítica, a cidadania”. Segundo ele, “se, hoje em dia, jornalismo engajado é visto como de qualidade duvidosa ou, no mínimo, de baixa credibilidade, o jornalismo neutro é considerado um mito”.
Talvez esteja aí o principal paradigma a ser quebrado no Jornalismo para que ele volte a cumprir um papel mais importante que a mera reprodução de notícias velhas, mornas e descomprometidas com a sociedade. Não sugiro que os jornalistas devam rasgar o código de ética, mas que busquem um equilíbrio entre um fazer-jornalístico imbuído de seriedade, que busca a verdade antes de tudo, e o que poderia ser chamado de função social da profissão.
Um dos relatórios do Fórum dos Cursos de Jornalismo realizado em São Paulo, em 2002, resume este pensamento: “O compromisso do jornalismo é com a cidadania e com os interesses gerais e públicos da sociedade, especialmente na defesa dos setores marginalizados, excluídos e sem espaço no sistema de comunicação. A defesa da liberdade de informação e da cidadania está acima dos interesses comerciais do mercado”.
Voltando a citar a análise de Milhomem, o jornalismo tem, inevitavelmente, responsabilidade social, seja quando se omite, seja quando assume posições, e contribui, de forma significativa, para o estabelecimento de prioridades, seja no âmbito público ou privado, sendo um fator decisivo para a formulação de políticas públicas sociais.
Em sua edição de dezembro de 2006 o Jornal da ABI traz editorial no qual reforça a necessidade de um jornalismo focado nos temas de caráter social, nas questões que dizem respeito à situação da gente comum e à grande massa de deserdados. “É esse jornalismo de superior qualidade ética, política e social que eleva os profissionais e seus veículos a merecido destaque na copiosa massa de informações que todo santo dia se oferecem aos leitores, ouvintes e espectadores”.
Para isso, no entanto, é preciso fugir do óbvio.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado
A concessão do título de Utilidade Pública para a Associação dos Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS), que deveria ocorrer nesta quarta-feira, 17, serve de objeto para a análise deste tipo de jornalismo que - aliado ao domínio do poder econômico sobre a definição das pautas e ao que o jornalista Washington Araújo classifica como “jornalismo insano” - está nos condenando a uma morte lenta e dolorosa.
Resumindo a ópera: desde dezembro de 2005 alguns vereadores tentam fazer aprovar no legislativo municipal campo-grandense um projeto de Lei que concederia o título à ATMS. Em 2006 a proposta foi reprovada por um placar de nove votos a oito, apesar de a entidade preencher os preceitos legais para receber o título. A oposição maciça de vereadores evangélicos e ligados a Igreja Católica foi o fator decisivo.
O debate se estendeu por 2007, desta vez sob a batuta do vereador Athayde Nery (PPS), que reapresentou a proposta sob o projeto de Lei 6353/07, argumentando que a associação é responsável por cursos, convênios e campanhas de prevenção à Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. Ontem, em uma manobra burocrática, o vereador Pastor Sergio (PMDB), integrante da bancada evangélica da Casa, pediu vistas ao projeto, impossibilitando que ele seja votado neste ano e virtualmente condenando-o novamente ao arquivamento. O projeto tramitava há quase dois anos, mas só ontem Sergio alegou desconhecer seus detalhes técnicos...
Presentes na sessão, militantes e simpatizantes da ATMS, pastores evangélicos e religiosos quase partiram para as vias de fato, coroando um drama de caráter social que poderia render muito material de qualidade além do factual óbvio e ululante.
Poderia-se, por exemplo, aproveitando o gancho dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, questionar se os motivos que levaram as bancadas evangélica e católica da Casa a obstruírem mais uma vez a aprovação do projeto teve caráter homofóbico. Uma leitura rápida da Declaração mostra, inequivocamente, que pelo menos seus Artigos I, II, VI e VIII foram violados.
Também seria possível analisar o fato de a Câmara Municipal de Campo Grande ter aprovado inúmeros títulos de Utilidade Pública nos últimos meses (inclusive um, hoje – Projeto de Lei 6557/08). Se a ATMS tinha requisitos legais para requerer a utilidade pública municipal, qual o motivo de este benefício estar sendo sistematicamente negado a ela, quando foi garantido a inúmeras outras associações?
Indo mais longe, os veículos de comunicação de Mato Grosso do Sul poderiam ligar o que ocorreu ontem na capital do Estado com os movimentos nacionais e internacionais de combate ao preconceito e pela discriminação aos homossexuais. Poderia-se ter usado como gancho fatos recentes, como a declaração do porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, de que a Igreja Católica é a favor da descriminalização do homossexualismo.
O fato é que o tema poderia ter sido abordado de muitas formas, todas elas fugindo do que o jornalista Luis Weiss, no artigo “Desafio ao leitor - e ao jornalista”, classifica como “a saída pelo facilitário”, isto é, pela abordagem óbvia e pouco desafiadora para o leitor.
No entanto, o que se viu na mídia sul-mato-grossense entre ontem e hoje foi somente pasmaceira e omissão.
O jornal Correio do Estado foi o veículo que mais destaque deu ao tema, dedicando a ele manchete secundária de capa (“Homossexuais, evangélicos e vereadores colidem”) e reportagem (na página 9A) intitulada “Projeto pró-homossexuais gera bate-boca na Câmara”, expondo o factual e os dois lados da questão sem, no entanto, questionar o seu mérito. O jornal O Estado de MS, por sua vez, deixou o tema de fora da capa, dando o mesmo tratamento que o Correio em matéria interna sob o título “Votação sobre utilidade pública de associação é suspensa após tumulto”. Outros dois jornais diários da capital, Diário do Pantanal e Folha do Povo não dedicaram uma linha sequer à polêmica.
Ontem, o site de notícias Campo Grande News noticiou com a matéria “Bate-boca entre evangélicos e travestis suspende sessão”. Mais tarde, deu espaço a uma vereadora evangélica eleita: “Evangélica, Rose votaria contra Associação das Travestis”. O Midiamax não deu uma linha sequer sobre o tema, apesar de ter noticiado no dia 15 que o projeto seria votado. Na mesma linha, o site TVMorena, braço virtual da TV Morena (repetidora da TV Globo em MS), deixou o fato passar em branco, embora tenha incluído a votação da Lei em nota sobre a pauta da Câmara Municipal.
As emissoras de tevê locais também ignoraram o projeto e as suas repercussões. A TV Morena, ontem, citou apenas que a Câmara Municipal havia aprovado o orçamento municipal de 2009. A TV Record e a repetidora do SBT no Estado, TV Campo Grande, também passaram batidas.
Recentemente, no artigo “Jornalismo e assessoria de imprensa: ética e realidade”, citei uma análise do professor Venício A. de Lima, pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (Nemp) da Universidade de Brasília, segundo a qual: “...imparcialidade e objetividade são princípios irrealizáveis na prática concreta da apuração e da redação de notícias, sejam elas de política ou de outra editoria”. Para Lima, “o que se busca no jornalismo sério e responsável é minimizar a contaminação da cobertura pelas preferências pessoais do(a) repórter e pelos interesses dos donos dos jornais, expressos nos editoriais e nas colunas de opinião dos respectivos veículos”.
Em sua resenha do livro “Políticas Públicas Sociais e os Desafios para o Jornalismo”, o jornalista Luciano Milhomem aponta um caminho similar ao dizer que, apesar de estabeleceram as regras para o setor, os grandes meios de comunicação de massa não são totalmente impermeáveis a mudanças e que é nesse nicho que “o jornalista de sólida e vasta formação pode e deve atuar, de maneira a promover a criatividade, a inovação, a consciência crítica, a cidadania”. Segundo ele, “se, hoje em dia, jornalismo engajado é visto como de qualidade duvidosa ou, no mínimo, de baixa credibilidade, o jornalismo neutro é considerado um mito”.
Talvez esteja aí o principal paradigma a ser quebrado no Jornalismo para que ele volte a cumprir um papel mais importante que a mera reprodução de notícias velhas, mornas e descomprometidas com a sociedade. Não sugiro que os jornalistas devam rasgar o código de ética, mas que busquem um equilíbrio entre um fazer-jornalístico imbuído de seriedade, que busca a verdade antes de tudo, e o que poderia ser chamado de função social da profissão.
Um dos relatórios do Fórum dos Cursos de Jornalismo realizado em São Paulo, em 2002, resume este pensamento: “O compromisso do jornalismo é com a cidadania e com os interesses gerais e públicos da sociedade, especialmente na defesa dos setores marginalizados, excluídos e sem espaço no sistema de comunicação. A defesa da liberdade de informação e da cidadania está acima dos interesses comerciais do mercado”.
Voltando a citar a análise de Milhomem, o jornalismo tem, inevitavelmente, responsabilidade social, seja quando se omite, seja quando assume posições, e contribui, de forma significativa, para o estabelecimento de prioridades, seja no âmbito público ou privado, sendo um fator decisivo para a formulação de políticas públicas sociais.
Em sua edição de dezembro de 2006 o Jornal da ABI traz editorial no qual reforça a necessidade de um jornalismo focado nos temas de caráter social, nas questões que dizem respeito à situação da gente comum e à grande massa de deserdados. “É esse jornalismo de superior qualidade ética, política e social que eleva os profissionais e seus veículos a merecido destaque na copiosa massa de informações que todo santo dia se oferecem aos leitores, ouvintes e espectadores”.
Para isso, no entanto, é preciso fugir do óbvio.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado
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Artigo no OI
Meu artigo “Quarenta anos depois do AI-5 continuamos sob censura”, publicado aqui no dia 9, foi publicado hoje no Observatório da Imprensa.
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terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
A Câmara Municipal de Campo Grande perdeu nesta terça-feira a oportunidade de dar um exemplo de tolerância aprovando o projeto de Lei 6353/07, de autoria do vereador Athayde Nery (PPS), que concederia o título de utilidade pública para a Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS). O vereador Pastor Sergio (PMDB), integrante da bancada evangélica da Casa, pediu vistas ao projeto com o intuito de postergar sua votação para o ano que vem.
A manobra causou descontentamento entre representantes e simpatizantes da ATMS, e alegria em meio aos evangélicos presentes na sessão. Os vereadores Athayde e Edmar Neto (PSDB) argumentaram contra o pedido de Sérgio e a Mesa Diretora optou por colocar a solicitação sob a votação do plenário.
O clima esquentou quando, durante a defesa pela imediata votação da Lei, Athayde foi vaiado pelos evangélicos. Indignado, o vereador do PPS disse que “fé cristã e discriminação são duas coisas que não combinam” e, diante da pressão dos religiosos, soltou uma frase que fez ir pelos ares o clima que já era de confronto: “Evangélico que apóia a discriminação está a serviço do capeta e não de Jesus Cristo”, alfinetou.
Foi o bastante para que a vereadora petista Thais Helena mostrasse sua indignação acusando Athayde de ter quebrado o decoro parlamentar. O bate boca se prolongou no plenário e na platéia até que a sessão foi interrompida. Ainda não se sabe qual será o destino do projeto. Provavelmente será arquivado.
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A notícia poderia findar aqui, seca, isenta, morna. Ocorre que, para qualquer um dotado de compromisso social, isso não é possível.
O que se viu na Câmara Municipal de Campo Grande nesta terça-feira foi uma demonstração camuflada de homofobia digna de grupos como o God Hate Fags.
Homofobia
Em 1971 o psicólogo George Weinberg cunhou o termo homofobia, um neologismo combinando a palavra grega phobos ("fobia") com o prefixo homo para definir a aversão ou repulsa aos homossexuais. Ou seja, preconceito.
Preconceito é um juízo preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, lugares ou tradições considerados diferentes ou "estranhos". Costuma indicar desconhecimento pejorativo de alguém ao que lhe é diferente. As formas mais comuns de preconceito são: social, racial e sexual. De modo geral, o ponto de partida do preconceito é uma generalização superficial, chamada estereótipo: "todos os alemães são prepotentes", "todos os americanos são arrogantes", "todos os ingleses são frios", "todos os baianos são preguiçosos", "todos os paulistas são metidos", etc.
Pode-se atribuir a origem da homofobia às mesmas motivações que fundamentam o racismo e qualquer outro preconceito. Uma oposição instintiva a tudo o que não corresponde à maioria com que o indivíduo se identifica e a normas implícitas e estabelecidas por essa mesma maioria. Pode-se até mesmo dizer que a homofobia é uma forma de xenofobia na sua definição mais estrita: medo a tudo o que seja considerado estranho.
Vale tudo?
A pergunta que deve ser feita é se há níveis de preconceito e de homofobia aceitáveis. É lícito uma pessoa ser agredida ou assassinada pelo simples fato de ter uma opção sexual diferente de outra? É aceitável que um casal homossexual tenha que implorar na justiça por direitos básicos de cidadania? É correto negar um título de utilidade pública a uma associação apenas porque se discorda da orientação sexual que ela se propõe defender?
A homofobia pode ser explicitada de diversas maneiras, algumas sutis, outras violentas. Palavras com conotação discriminatória, gestos e mímicas obscenas, falta de cordialidade, antipatia no convívio social, insinuações, ironia, sarcasmo e agressão física não são piores que a negação de direitos civis através do poder político.
De fato, não há níveis aceitáveis de preconceito e discriminação. Eles existem ou não.
Trazendo o assunto novamente para o que ocorreu nesta terça-feira no legislativo municipal campo-grandense, seria de bom tom se todos os parlamentares – como sugeriu Athayde Nery – manifestassem abertamente seu posicionamento sobre o tema e os explicassem em detalhes. Representar a igreja católica ou evangélica não pode ser motivo para que um homem público assuma posições homofóbicas. Quem assim se porta está na contramão da história.
No Brasil, além da Constituição de 1988 proibir qualquer forma de discriminação de maneira genérica, várias leis estão sendo discutidas neste momento a fim de proibirem especificamente a discriminação aos homossexuais. Uma delas é o PLC 122/06, que criminaliza a homofobia em nível nacional.
Em pesquisa realizada pelo instituto Data Senado - entre 6 e 16 de junho, a partir de entrevistas com 1.222 pessoas com idade superior a dezesseis anos - 70% dos entrevistados se declararam favoráveis ao projeto. No que se refere à religião, a criminalização de atos de preconceito contra homossexuais foi defendida por 55% dos evangélicos. Entre os entrevistados de outras religiões, o que inclui a católica, mais de 70% defendem a aprovação da proposta.
Eu não
É curioso perceber que os mesmos vereadores que optaram por não trabalhar pela aprovação do projeto de Lei 6353/07, que concederia o título de utilidade pública para a ATMS, não se consideram homofóbicos.
O fenômeno de atribuir os preconceitos aos outros sem reconhecer o próprio é comum e esperado, já que, por definição, a atitude preconceituosa é politicamente incorreta. No Brasil esta característica pode ser percebida por meio da pesquisa “Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil, Intolerância e respeito às diferenças sexuais nos espaços público e privado” – da Fundação Perseu Abramo, em parceria com a alemã Rosa Luxemburg Stiftung – realizada em junho passado.
A pesquisa mostra que 93% da população brasileira acredita que existe preconceito contra travestis (muito preconceito para 73% e pouco para 16%), 91% contra transexuais (respectivamente 71% e 17%), 92% contra gays (70% e 18%), 92% contra lésbicas (para 69%, para 20%) e 90% contra bissexuais (para 64% muito, para 22% um pouco).
No entanto, quando perguntados se são preconceituosos, apenas 29% admitem ter preconceito contra travestis (só 12% admitem ter muito preconceito), 28% contra transexuais (11% muito), 27% contra lésbicas e bissexuais (10% muito para ambos) e 26% contra gays (9% muito).
Atitudes como esta – de negação ao preconceito - apenas acirram a discriminação contra os homossexuais, colaborando para ampliar a violência que coloca o Brasil como um dos líderes mundiais em agressões homofóbicas. É o que assegura o professor Luiz Mott, do departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia – e autor do estudo “Homofobia: A Violação dos Direitos Humanos de Gays, Lésbicas & Travestis no Brasil” - para quem a homofobia no Brasil é uma "epidemia nacional".
Obscurantismo
Ainda caminhamos por searas obscuras no que se refere aos direitos civis básicos para homossexuais, apesar de distante o ano de 1870, quando o psiquiatra alemão Carl Westphal, em seu trabalho intitulado "As Sensações Sexuais Contrárias", definiu a homossexualidade em termos psiquiátricos como um desvio sexual, uma inversão do masculino e do feminino, abrindo as portas para que a homossexualidade fosse descrita como uma degeneração.
Esta visão esteriotipada da sexualidade foi questionada desde o século passado. Em abril de 1974 a Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association, APA) retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais e em 1992 a Organização Mundial da Saúde seguiu o mesmo exemplo.
Ainda assim, ser homossexual ainda é crime em 75 países. Em sete (Afeganistão, Arábia Saudita, Iémen, Irã, Sudão, Mauritânia e Paquistão) o “crime” é punido com a pena de morte e em quase duas dezenas as penas ultrapassam os dez anos de cadeia.
Será este o objetivo inconvessável dos homofóbicos campo-grandenses?
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado
A manobra causou descontentamento entre representantes e simpatizantes da ATMS, e alegria em meio aos evangélicos presentes na sessão. Os vereadores Athayde e Edmar Neto (PSDB) argumentaram contra o pedido de Sérgio e a Mesa Diretora optou por colocar a solicitação sob a votação do plenário.
O clima esquentou quando, durante a defesa pela imediata votação da Lei, Athayde foi vaiado pelos evangélicos. Indignado, o vereador do PPS disse que “fé cristã e discriminação são duas coisas que não combinam” e, diante da pressão dos religiosos, soltou uma frase que fez ir pelos ares o clima que já era de confronto: “Evangélico que apóia a discriminação está a serviço do capeta e não de Jesus Cristo”, alfinetou.
Foi o bastante para que a vereadora petista Thais Helena mostrasse sua indignação acusando Athayde de ter quebrado o decoro parlamentar. O bate boca se prolongou no plenário e na platéia até que a sessão foi interrompida. Ainda não se sabe qual será o destino do projeto. Provavelmente será arquivado.
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A notícia poderia findar aqui, seca, isenta, morna. Ocorre que, para qualquer um dotado de compromisso social, isso não é possível.
O que se viu na Câmara Municipal de Campo Grande nesta terça-feira foi uma demonstração camuflada de homofobia digna de grupos como o God Hate Fags.
Homofobia
Em 1971 o psicólogo George Weinberg cunhou o termo homofobia, um neologismo combinando a palavra grega phobos ("fobia") com o prefixo homo para definir a aversão ou repulsa aos homossexuais. Ou seja, preconceito.
Preconceito é um juízo preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, lugares ou tradições considerados diferentes ou "estranhos". Costuma indicar desconhecimento pejorativo de alguém ao que lhe é diferente. As formas mais comuns de preconceito são: social, racial e sexual. De modo geral, o ponto de partida do preconceito é uma generalização superficial, chamada estereótipo: "todos os alemães são prepotentes", "todos os americanos são arrogantes", "todos os ingleses são frios", "todos os baianos são preguiçosos", "todos os paulistas são metidos", etc.
Pode-se atribuir a origem da homofobia às mesmas motivações que fundamentam o racismo e qualquer outro preconceito. Uma oposição instintiva a tudo o que não corresponde à maioria com que o indivíduo se identifica e a normas implícitas e estabelecidas por essa mesma maioria. Pode-se até mesmo dizer que a homofobia é uma forma de xenofobia na sua definição mais estrita: medo a tudo o que seja considerado estranho.
Vale tudo?
A pergunta que deve ser feita é se há níveis de preconceito e de homofobia aceitáveis. É lícito uma pessoa ser agredida ou assassinada pelo simples fato de ter uma opção sexual diferente de outra? É aceitável que um casal homossexual tenha que implorar na justiça por direitos básicos de cidadania? É correto negar um título de utilidade pública a uma associação apenas porque se discorda da orientação sexual que ela se propõe defender?
A homofobia pode ser explicitada de diversas maneiras, algumas sutis, outras violentas. Palavras com conotação discriminatória, gestos e mímicas obscenas, falta de cordialidade, antipatia no convívio social, insinuações, ironia, sarcasmo e agressão física não são piores que a negação de direitos civis através do poder político.
De fato, não há níveis aceitáveis de preconceito e discriminação. Eles existem ou não.
Trazendo o assunto novamente para o que ocorreu nesta terça-feira no legislativo municipal campo-grandense, seria de bom tom se todos os parlamentares – como sugeriu Athayde Nery – manifestassem abertamente seu posicionamento sobre o tema e os explicassem em detalhes. Representar a igreja católica ou evangélica não pode ser motivo para que um homem público assuma posições homofóbicas. Quem assim se porta está na contramão da história.
No Brasil, além da Constituição de 1988 proibir qualquer forma de discriminação de maneira genérica, várias leis estão sendo discutidas neste momento a fim de proibirem especificamente a discriminação aos homossexuais. Uma delas é o PLC 122/06, que criminaliza a homofobia em nível nacional.
Em pesquisa realizada pelo instituto Data Senado - entre 6 e 16 de junho, a partir de entrevistas com 1.222 pessoas com idade superior a dezesseis anos - 70% dos entrevistados se declararam favoráveis ao projeto. No que se refere à religião, a criminalização de atos de preconceito contra homossexuais foi defendida por 55% dos evangélicos. Entre os entrevistados de outras religiões, o que inclui a católica, mais de 70% defendem a aprovação da proposta.
Eu não
É curioso perceber que os mesmos vereadores que optaram por não trabalhar pela aprovação do projeto de Lei 6353/07, que concederia o título de utilidade pública para a ATMS, não se consideram homofóbicos.
O fenômeno de atribuir os preconceitos aos outros sem reconhecer o próprio é comum e esperado, já que, por definição, a atitude preconceituosa é politicamente incorreta. No Brasil esta característica pode ser percebida por meio da pesquisa “Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil, Intolerância e respeito às diferenças sexuais nos espaços público e privado” – da Fundação Perseu Abramo, em parceria com a alemã Rosa Luxemburg Stiftung – realizada em junho passado.
A pesquisa mostra que 93% da população brasileira acredita que existe preconceito contra travestis (muito preconceito para 73% e pouco para 16%), 91% contra transexuais (respectivamente 71% e 17%), 92% contra gays (70% e 18%), 92% contra lésbicas (para 69%, para 20%) e 90% contra bissexuais (para 64% muito, para 22% um pouco).
No entanto, quando perguntados se são preconceituosos, apenas 29% admitem ter preconceito contra travestis (só 12% admitem ter muito preconceito), 28% contra transexuais (11% muito), 27% contra lésbicas e bissexuais (10% muito para ambos) e 26% contra gays (9% muito).
Atitudes como esta – de negação ao preconceito - apenas acirram a discriminação contra os homossexuais, colaborando para ampliar a violência que coloca o Brasil como um dos líderes mundiais em agressões homofóbicas. É o que assegura o professor Luiz Mott, do departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia – e autor do estudo “Homofobia: A Violação dos Direitos Humanos de Gays, Lésbicas & Travestis no Brasil” - para quem a homofobia no Brasil é uma "epidemia nacional".
Obscurantismo
Ainda caminhamos por searas obscuras no que se refere aos direitos civis básicos para homossexuais, apesar de distante o ano de 1870, quando o psiquiatra alemão Carl Westphal, em seu trabalho intitulado "As Sensações Sexuais Contrárias", definiu a homossexualidade em termos psiquiátricos como um desvio sexual, uma inversão do masculino e do feminino, abrindo as portas para que a homossexualidade fosse descrita como uma degeneração.
Esta visão esteriotipada da sexualidade foi questionada desde o século passado. Em abril de 1974 a Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association, APA) retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais e em 1992 a Organização Mundial da Saúde seguiu o mesmo exemplo.
Ainda assim, ser homossexual ainda é crime em 75 países. Em sete (Afeganistão, Arábia Saudita, Iémen, Irã, Sudão, Mauritânia e Paquistão) o “crime” é punido com a pena de morte e em quase duas dezenas as penas ultrapassam os dez anos de cadeia.
Será este o objetivo inconvessável dos homofóbicos campo-grandenses?
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado
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Barone
A democracia vista pelo canto do olho
O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso do Sul (OAB-MS), Fábio Trad, expôs recentemente, no artigo “A Política Despolitizada” (Midiamax - 27/11/2008), sua preocupação para com os rumos da política no Brasil e, em conseqüência, com o desencanto do brasileiro para com a democracia.
Para Trad, “a Política degenera-se e, muitas vezes, expõe a face mais cruel das misérias morais do ser humano”. A falta de critérios republicanos na política partidária tupiniquim é apontada em seu artigo de forma incisiva: “...a indiscutível mediocridade do diálogo entre os programas partidários aliada a superficialidade da mensagem discursiva da classe política brasileira robustecem a impressão de que a política deixou de ser um ideal, reduzindo-se a uma ocupação semi-profissionalizada cuja atração maior é o status e, eventualmente, a vantagem material”.
Ele ilustra os efeitos da crise de credibilidade política citando a pesquisa PNUD/ONU, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo há quatro, que aponta um flagrante desprezo dos latino-americanos pela democracia. O levantamento conclui, entre outras coisas, que 56,3% da população do continente crê que o desenvolvimento econômico seja mais importante que a democracia e que 54,7% apoiaria um governo autoritário se este resolvesse os problemas econômicos.
Outros dados dignos de nota sustentam que 58,1% dos entrevistados concorda que o presidente possa ir além das leis; 43,9% não crê que a democracia solucione os problemas do país e 37,2% concorda que o presidente controle os meios de comunicação.
Trad sugere que a saída para esta perigosa seara na qual caminha a América Latina seja “uma urgente retomada da credibilidade da atividade política” e conclui com a seguinte reflexão crítica sobre o modus operandi dos homens públicos.
“A política, que deveria recordar o vôo das águias pelo idealismo sobranceiro de quem assume a árdua missão de trabalhar para o coletivo, impressiona pelo sentido contrário, porque à medida em que se distancia dos bons, dos idealistas, dos ingênuos de boa-fé, dos que desconhecem a complicada linguagem do tráfico de favores, dos que ignoram a engenharia das manobras ardilosas e dos frios cálculos das traições com hora marcada, mais e mais, o que era para recordar o vôo das águias, lembra o passo insinuante das raposas.”
No artigo “Economia faria maioria dos brasileiros trocar democracia por ditadura”, publicado aqui no dia 17/11/2008, analisei o Latinobarómetro, pesquisa anual da Economist sobre o pensamento político dos cidadãos latino-americanos, cujos resultados reforçam os motivos de preocupação expostos pelo presidente da OAB-MS.
Entre os brasileiros ouvidos pela pesquisa, a democracia é apontada como o regime preferido de 47% dos entrevistados, embora 57% deles tenham afirmado que não se importaria em ter um governo não democrático desde que este resolvesse os problemas econômicos de seus países.
Em 2001 o percentual de entrevistados pelo Latinobarómetro que trocaria a democracia por uma ditadura, caso esta fosse mais competente para guiar a economia de seu País, era de 51%, contra 55% em 2004 e 53% em 2008.
O fato é que há, sim, motivos para preocupação. Quando a população abre mão do conceito de democracia (independente das críticas que possam ser feitas à democracia representativa) em prol de soluções autoritárias, abre-se caminho para o totalitarismo. A história já nos mostrou isso em diversas oportunidades e nada impede que volte a nos apresentar a face da tirania. Para isso, basta continuarmos enterrando a noção básica segundo a qual todo o poder emana do povo.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- O ciberespaço e as possibilidades de democracia participativa
- Economia faria maioria dos brasileiros trocar democracia por ditadura
Para Trad, “a Política degenera-se e, muitas vezes, expõe a face mais cruel das misérias morais do ser humano”. A falta de critérios republicanos na política partidária tupiniquim é apontada em seu artigo de forma incisiva: “...a indiscutível mediocridade do diálogo entre os programas partidários aliada a superficialidade da mensagem discursiva da classe política brasileira robustecem a impressão de que a política deixou de ser um ideal, reduzindo-se a uma ocupação semi-profissionalizada cuja atração maior é o status e, eventualmente, a vantagem material”.
Ele ilustra os efeitos da crise de credibilidade política citando a pesquisa PNUD/ONU, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo há quatro, que aponta um flagrante desprezo dos latino-americanos pela democracia. O levantamento conclui, entre outras coisas, que 56,3% da população do continente crê que o desenvolvimento econômico seja mais importante que a democracia e que 54,7% apoiaria um governo autoritário se este resolvesse os problemas econômicos.
Outros dados dignos de nota sustentam que 58,1% dos entrevistados concorda que o presidente possa ir além das leis; 43,9% não crê que a democracia solucione os problemas do país e 37,2% concorda que o presidente controle os meios de comunicação.
Trad sugere que a saída para esta perigosa seara na qual caminha a América Latina seja “uma urgente retomada da credibilidade da atividade política” e conclui com a seguinte reflexão crítica sobre o modus operandi dos homens públicos.
“A política, que deveria recordar o vôo das águias pelo idealismo sobranceiro de quem assume a árdua missão de trabalhar para o coletivo, impressiona pelo sentido contrário, porque à medida em que se distancia dos bons, dos idealistas, dos ingênuos de boa-fé, dos que desconhecem a complicada linguagem do tráfico de favores, dos que ignoram a engenharia das manobras ardilosas e dos frios cálculos das traições com hora marcada, mais e mais, o que era para recordar o vôo das águias, lembra o passo insinuante das raposas.”
No artigo “Economia faria maioria dos brasileiros trocar democracia por ditadura”, publicado aqui no dia 17/11/2008, analisei o Latinobarómetro, pesquisa anual da Economist sobre o pensamento político dos cidadãos latino-americanos, cujos resultados reforçam os motivos de preocupação expostos pelo presidente da OAB-MS.
Entre os brasileiros ouvidos pela pesquisa, a democracia é apontada como o regime preferido de 47% dos entrevistados, embora 57% deles tenham afirmado que não se importaria em ter um governo não democrático desde que este resolvesse os problemas econômicos de seus países.
Em 2001 o percentual de entrevistados pelo Latinobarómetro que trocaria a democracia por uma ditadura, caso esta fosse mais competente para guiar a economia de seu País, era de 51%, contra 55% em 2004 e 53% em 2008.
O fato é que há, sim, motivos para preocupação. Quando a população abre mão do conceito de democracia (independente das críticas que possam ser feitas à democracia representativa) em prol de soluções autoritárias, abre-se caminho para o totalitarismo. A história já nos mostrou isso em diversas oportunidades e nada impede que volte a nos apresentar a face da tirania. Para isso, basta continuarmos enterrando a noção básica segundo a qual todo o poder emana do povo.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- O ciberespaço e as possibilidades de democracia participativa
- Economia faria maioria dos brasileiros trocar democracia por ditadura
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Democracia participativa
No dia 1º de novembro publiquei aqui o artigo “O ciberespaço e as possibilidades de democracia participativa”, no qual abordei o uso das novas tecnologias digitais como ferramentas para o estabelecimento de critérios mais radicais de democracia.
No domingo passado o Estadão publicou a reportagem “'Governo digital' de Obama dá voz à população”, que trafega por searas similares. A jornalista Luciana Alvarez fala sobre o uso da Internet pela equipe de transição de Obama pra colher sugestões da população.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- O ciberespaço e as possibilidades de democracia participativa
No domingo passado o Estadão publicou a reportagem “'Governo digital' de Obama dá voz à população”, que trafega por searas similares. A jornalista Luciana Alvarez fala sobre o uso da Internet pela equipe de transição de Obama pra colher sugestões da população.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- O ciberespaço e as possibilidades de democracia participativa
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Acervo da Veja online
A partir de hoje o arquivo completo da Revista Veja, desde saua primeira edição – editada em 11/09/1968 - estará disponivel na internet para livre acesso. As edições podem ser acessadas na íntegra e em sua paginação original.
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Deu no Jornal - MS em destaque
Entre os dias 8 e 15 de dezembro o Mato Grosso do Sul foi alvo de dois destaques no site Deu no Jornal, cuja proposta é estabelecer um banco de dados de reportagens relacionadas à corrupção e seu combate, publicadas em jornais e revistas de todos os estados. No dia 8 foi pinçada a reportagem “Vaga na Câmara custou só R$ 108 mil”, do jornalista Humberto Marques, publicada no jornal O Estado de MS. No dia 9, foi a vez da reportagem “PGJ dá parecer contrário a recurso de Zeca do PT”, da jornalista Fernanda Brigatti, publicada no mesmo veículo.
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Wantuir na mira
O secretário de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul, Wantuir Francisco Brasil Jacini, está sob a mira da imprensa. Hoje, foi alvo de artigo no site Brasil Verdade. Sob o título “Covardia previsível”, o artigo, assinado pelo presidente da entidade, Paulo Magalhães, expõe um passado pouco honrado de Jacini.
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Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
A Câmara Municipal de Campo Grande (MS) volta a votar nesta terça-feira (16) o pedido de título de utilidade pública para a Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS).
O tema é polêmico no legislativo municipal e começou a ser debatido em dezembro de 2005, quando os vereadores Youssif Domingos (PMDB) e Marcos Trad (PMDB) – hoje deputados estaduais - apresentaram o projeto de Lei 6.021/06, sob o argumento de que a entidade, que atua desde janeiro de 2001, se propunha garantir a seus representados o direito de ir e vir, de livre expressão e manifestação da sexualidade, além de atuar nas áreas de prevenção das DST/AIDS.
No dia 14 de junho de 2006 a proposta foi reprovada por nove votos a oito, apesar de a entidade preencher os preceitos legais para receber o título. A oposição maciça de vereadores evangélicos e ligados a Igreja Católica foi o fator decisivo.
O fato causou indignação em setores da sociedade. A então presidente do Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS), Rejane Aparecida Sartor, chegou a enviar uma moção de repúdio para a Câmara Municipal e a presidente da entidade, Cris Stefanny, pediu o apoio do Ministério Público Estadual (MPE), dando entrada a uma denúncia de discriminação.
O debate se estendeu por 2007, desta vez sob a batuta do vereador Athayde Nery (PPS), que reapresentou a proposta sob o projeto de Lei 6353/07, argumentando que a associação é responsável por cursos, convênios e campanhas de prevenção à Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. A concessão do título é um passo necessário para que a entidade possa pleitear verbas públicas. A proposta já passou pelas comissões temáticas da Câmara e depende apenas da aprovação em plenário, amanhã.
Avanços
Mato Grosso do Sul já protagonizou neste mês um avanço significativo para a garantia da cidadania dos homossexuais. No dia 10 foi promulgado o projeto apresentado pelo deputado estadual Paulo Duarte (PT), que alterou o Regime de Previdência Social de Mato Grosso do Sul. O texto reconhece os casais formados por pessoas do mesmo sexo para fins previdenciários.
Por conta de sua iniciativa, Duarte e sua família foram alvos de ataques homofóbicos. Um de seus filhos recebeu um e-mail anônimo comparando a homossexualidade a uma aberração.
O reconhecimento da união estável de pessoas do mesmo sexo tem sido bandeira de luta de representantes de entidades ligadas à defesa dos direitos dos homossexuais. Trata-se de uma ferramenta que torna possível evitar questionamentos de ordem moral em relação ao casamento entre gays e garantir, aos parceiros, direitos como herança e comunhão parcial de bens. O objetivo é incluir essa proposta no Projeto de Lei 1151/95, que disciplina a união civil entre pessoas do mesmo sexo.
Intolerância e Justiça
A busca por respeito e tolerância para com os homossexuais tem sido uma luta constante da ATMS e de entidades ligadas aos direitos humanos em Mato Grosso do Sul. Agressões e assassinatos, especialmente de travestis e transexuais, ainda são uma realidade no Estado. Em novembro de 2005, uma pesquisa feita pela entidade apontou que entre 2000 e 2005 45 gays e travestis foram agredidos fisicamente ou mortos em MS. No Brasil, segundo dados da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), 2.803 homossexuais foram assassinados nos últimos 20 anos.
Em 2005, uma pesquisa feita entre os participantes da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, mostrou que cerca de 72% dos homossexuais foram vítimas de algum tipo de discriminação por conta de sua orientação sexual. Travestis e transexuais são as maiores vítimas de violência e marginalização.
Enquete feita pelo site Não Homofobia entre os dias cinco de outubro e sete de novembro – com 459 pessoas – mostrou que mais de 60% dos internautas ouvidos já sofreram discriminação por sua orientação sexual e identidade de gênero e 90% presenciaram algum tipo de homofobia. A Justiça, no entanto, está se manifestando. Em novembro, o pastor evangélico Náurio Martins França foi condenado pelo juiz da Vara de Direitos Difusos Coletivos e Individuais (de MS), Dorival Moreira dos Santos, a pagar indenização por dano moral coletivo no valor de R$ 2 mil. Em setembro do ano passado ele foi acusado de homofobia pela Defensoria Pública depois de publicar o livro "A maldição de Deus sobre o homossexual: o homossexual precisa conhecer a maldição divina que está sobre ele". Na época, em caráter liminar, o juiz determinou o recolhimento do livro e foi proibida a sua divulgação pelo autor. Na obra, Naurio diz que todo homossexual é “endemoniado”. Em outro trecho alerta: "Aquele que continuar sendo homossexual está desafiando o poder de Deus e corre grande risco".
A ABGLT voltou a defender neste mês a aprovação do PLC 122/06, que torna crimes a discriminação e o preconceito contra homossexuais. O projeto, de autoria da ex-deputada federal Iara Bernardi, atualmente tramita no Senado, na Comissão de Assuntos Sociais (CAS), onde tem como relatora a senadora Fátima Cleide (PT-RO). A proposta esbarra na bancada evangélica. Os senadores Marcelo Crivella (PRB-RJ) e Magno Malta (PR-ES), por exemplo, dizem que ela "vai calar a voz dos pastores e padres".
Dados da ABGLT apontam que ainda há pena de morte para homossexuais em sete países, enquanto em muitos outros há pena de prisão (em especial países islâmicos). No último dia 12, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, disse que a Igreja Católica Romana se posiciona a favor da descriminalização da homossexualidade, ou seja, é contra que gays sejam encarcerados, julgados e punidos por serem homossexuais. O posicionamento do Vaticano foi fruto da pressão de entidades que lutam contra a violência oficializada contra os homossexuais.
Leia mais sobre o mesmo tema:
- Melhor ser ladrão que viado
O tema é polêmico no legislativo municipal e começou a ser debatido em dezembro de 2005, quando os vereadores Youssif Domingos (PMDB) e Marcos Trad (PMDB) – hoje deputados estaduais - apresentaram o projeto de Lei 6.021/06, sob o argumento de que a entidade, que atua desde janeiro de 2001, se propunha garantir a seus representados o direito de ir e vir, de livre expressão e manifestação da sexualidade, além de atuar nas áreas de prevenção das DST/AIDS.
No dia 14 de junho de 2006 a proposta foi reprovada por nove votos a oito, apesar de a entidade preencher os preceitos legais para receber o título. A oposição maciça de vereadores evangélicos e ligados a Igreja Católica foi o fator decisivo.
O fato causou indignação em setores da sociedade. A então presidente do Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS), Rejane Aparecida Sartor, chegou a enviar uma moção de repúdio para a Câmara Municipal e a presidente da entidade, Cris Stefanny, pediu o apoio do Ministério Público Estadual (MPE), dando entrada a uma denúncia de discriminação.
O debate se estendeu por 2007, desta vez sob a batuta do vereador Athayde Nery (PPS), que reapresentou a proposta sob o projeto de Lei 6353/07, argumentando que a associação é responsável por cursos, convênios e campanhas de prevenção à Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. A concessão do título é um passo necessário para que a entidade possa pleitear verbas públicas. A proposta já passou pelas comissões temáticas da Câmara e depende apenas da aprovação em plenário, amanhã.
Avanços
Mato Grosso do Sul já protagonizou neste mês um avanço significativo para a garantia da cidadania dos homossexuais. No dia 10 foi promulgado o projeto apresentado pelo deputado estadual Paulo Duarte (PT), que alterou o Regime de Previdência Social de Mato Grosso do Sul. O texto reconhece os casais formados por pessoas do mesmo sexo para fins previdenciários.
Por conta de sua iniciativa, Duarte e sua família foram alvos de ataques homofóbicos. Um de seus filhos recebeu um e-mail anônimo comparando a homossexualidade a uma aberração.
O reconhecimento da união estável de pessoas do mesmo sexo tem sido bandeira de luta de representantes de entidades ligadas à defesa dos direitos dos homossexuais. Trata-se de uma ferramenta que torna possível evitar questionamentos de ordem moral em relação ao casamento entre gays e garantir, aos parceiros, direitos como herança e comunhão parcial de bens. O objetivo é incluir essa proposta no Projeto de Lei 1151/95, que disciplina a união civil entre pessoas do mesmo sexo.
Intolerância e Justiça
A busca por respeito e tolerância para com os homossexuais tem sido uma luta constante da ATMS e de entidades ligadas aos direitos humanos em Mato Grosso do Sul. Agressões e assassinatos, especialmente de travestis e transexuais, ainda são uma realidade no Estado. Em novembro de 2005, uma pesquisa feita pela entidade apontou que entre 2000 e 2005 45 gays e travestis foram agredidos fisicamente ou mortos em MS. No Brasil, segundo dados da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), 2.803 homossexuais foram assassinados nos últimos 20 anos.
Em 2005, uma pesquisa feita entre os participantes da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, mostrou que cerca de 72% dos homossexuais foram vítimas de algum tipo de discriminação por conta de sua orientação sexual. Travestis e transexuais são as maiores vítimas de violência e marginalização.
Enquete feita pelo site Não Homofobia entre os dias cinco de outubro e sete de novembro – com 459 pessoas – mostrou que mais de 60% dos internautas ouvidos já sofreram discriminação por sua orientação sexual e identidade de gênero e 90% presenciaram algum tipo de homofobia. A Justiça, no entanto, está se manifestando. Em novembro, o pastor evangélico Náurio Martins França foi condenado pelo juiz da Vara de Direitos Difusos Coletivos e Individuais (de MS), Dorival Moreira dos Santos, a pagar indenização por dano moral coletivo no valor de R$ 2 mil. Em setembro do ano passado ele foi acusado de homofobia pela Defensoria Pública depois de publicar o livro "A maldição de Deus sobre o homossexual: o homossexual precisa conhecer a maldição divina que está sobre ele". Na época, em caráter liminar, o juiz determinou o recolhimento do livro e foi proibida a sua divulgação pelo autor. Na obra, Naurio diz que todo homossexual é “endemoniado”. Em outro trecho alerta: "Aquele que continuar sendo homossexual está desafiando o poder de Deus e corre grande risco".
A ABGLT voltou a defender neste mês a aprovação do PLC 122/06, que torna crimes a discriminação e o preconceito contra homossexuais. O projeto, de autoria da ex-deputada federal Iara Bernardi, atualmente tramita no Senado, na Comissão de Assuntos Sociais (CAS), onde tem como relatora a senadora Fátima Cleide (PT-RO). A proposta esbarra na bancada evangélica. Os senadores Marcelo Crivella (PRB-RJ) e Magno Malta (PR-ES), por exemplo, dizem que ela "vai calar a voz dos pastores e padres".
Dados da ABGLT apontam que ainda há pena de morte para homossexuais em sete países, enquanto em muitos outros há pena de prisão (em especial países islâmicos). No último dia 12, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, disse que a Igreja Católica Romana se posiciona a favor da descriminalização da homossexualidade, ou seja, é contra que gays sejam encarcerados, julgados e punidos por serem homossexuais. O posicionamento do Vaticano foi fruto da pressão de entidades que lutam contra a violência oficializada contra os homossexuais.
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- Melhor ser ladrão que viado
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Julgamento do "deproma" ficou para 2009
Ficou para o ano que vem o julgamento do Recurso Extraordinário 511961 pelo Supremo Tribunal Federal. Se aprovado, o documento acaba com a estapafúrdia obrigatoriedade de diploma específico em Comunicação Social, habilitação Jornalismo, para o exercício da profissão.
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Barone
domingo, 14 de dezembro de 2008
Poema prum dia de chuva
Pelo vidro embaçado
vejo o mendigo bailarino.
Ele dança conforme a chuva.
Ele mexe imitando os pingos.
O mendigo dança sem música.
Na calçada ele dança
e se cala.
Da janela embaçada
ouço a música
que o embala.
O mendigo bailarino
baila
ao som do nada.
vejo o mendigo bailarino.
Ele dança conforme a chuva.
Ele mexe imitando os pingos.
O mendigo dança sem música.
Na calçada ele dança
e se cala.
Da janela embaçada
ouço a música
que o embala.
O mendigo bailarino
baila
ao som do nada.
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Barone
sábado, 13 de dezembro de 2008
Errei
No artigo “Toda brasileira é bunda?”, que publiquei aqui ontem, errei o nome e a profissão de Alex Castro, editor do blog Liberal Libertário Libertino. Chamei-o de Alec Castro e disse que ele era jornalista. Corrigido.
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Barone
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Toda brasileira é bunda?
Realizado em Madri (Espanha) entre os dias 5 e 8 de dezembro, o evento Integra Madrid - uma feira de serviços e produtos para imigrantes – foi palco de uma situação que trafegou entre o cômico e o trágico e que remete a um triste aspecto de nossa sociedade: a forma como a mulher brasileira é vista no exterior.
O caso foi o seguinte: no stand da revista Periodista Latino, um cartaz promocional exibia uma modelo colombiana de biquíni, saindo do mar. A peça publicitária alterou os ânimos de alguns participantes do evento, provocando protestos. O cartaz foi apontado como fruto do chauvinismo e quase despedaçado. Foi preciso a ação da polícia para dispersar os revoltosos. Responsável pela publicação, Paul Monzón, reclamava: “E estas brasileiras dançando no meio da feira?”, referindo-se a dançarinas de funk que, em trajes sumários, se exibiam em frente ao stand da revista.
Pronto, chegamos ao ponto. Ao optar por apresentar o Brasil por meio da sexualidade feminina inerente ao funk, os expositores brasileiros no evento colaboraram para o fortalecimento de uma imagem pouco lisonjeira da mulher brasileira. À primeira vista pode parecer uma reflexão exagerada, mas, de fato, a exploração da imagem da mulher com intuitos turísticos ainda é uma realidade traiçoeira no Brasil.
Apesar dos esforços no sentido de coibir o turismo sexual, em especial o que violenta crianças e adolescentes, ainda pecamos por alçar a mulher como atrativo turístico. É que, como já disseram Fernando Carrazedo Feijó e Flávio Mário de Alcântara Calazans no artigo “A imagem internacional do turismo sexual no Brasil: o ‘prostiturismo’ no marketing turístico”, “o turismo sexual é muito maior, pois não se trata apenas de uma pessoa em busca de uma simples aventura sexual, ele se constitui numa verdadeira indústria de serviços, que apesar de inúmeros esforços de alguns governos e ONGs, continua crescendo e muito”.
Esta indústria é alimentada especialmente pela visão deturpada com a qual a mulher brasileira é apresentada no exterior. Esta prática ocorre por diversos meios, de forma oficial ou não. Um exemplo é a campanha publicitária da cachaça Cabana, veiculada nos Estados Unidos, que mostra mulheres exibindo o que lá fora eles chamam de "depilação brasileira".
Laura Martinez, em artigo no site Advertising Age, diz o seguinte sobre o assunto: “A campanha de verão da Cabana, que foi chamada de ‘mais quente que o Rio no verão’ inclui um vídeo sexual e explícito, que qualquer pessoa (maior de 21 anos, claro) pode ver aqui. Ele termina com um close-up na modelo mostrando sua Brazilian wax (sic), aparentemente uma outra característica típica das mulheres no país da América do Sul”. A blogeira e feminista Denise Arcoverde aprofunda o caso em seu blog e alerta: “...não se iludam. Essa imagem não ajuda em nada nem à mulher brasileira, nem ao país, é um insulto e só estimula o país como um paraíso do turismo sexual.”.
Não é de hoje
A conotação pejorativa sobre a mulher brasileira não é novidade. O próprio Pero Vaz de Caminha, em 1º de Maio de 1500, foi quem deu início a ela em carta a El Rei. Diz o escriba, admirado com a “falta de vergonha” das índias: “Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras... E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela...".
Bem depois, em "Casa Grande & Senzala" (1961), Gilberto Freyre também apontava para a sexualidade acentuada das brasileiras. No segundo capítulo do primeiro tomo da obra, ele descreve o relacionamento do colonizador com as índias que faziam lembrar a figura mitológica da "moura encantada" de longos cabelos negros a banhar-se nos rios. No quarto capítulo do segundo tomo, intitulado "O escravo negro na vida sexual e da família do brasileiro", Freyre descreve as relações dos colonizadores com as escravas negras e com as índias.
Fazendo um paralelo com as funkeiras brasileiras presentes ao Integra Madrid, podemos continuar citando Freyre e os aspectos erotizados das danças brasileiras que, segundo ele, “podem representar muito mais uma necessidade de estimulação do que a voracidade sexual”. Para o autor de "Casa Grande & Senzala", as danças eróticas desempenham “funções de afrodisíaco, de excitante ou de estímulo à atividade sexual”.
A mulher oficialmente desconstruída
Foi entre os anos 70 e 80, quando o turismo começou a ser apontado como a “indústria do futuro”, que o Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur) – criada pelo decreto-lei n. 55 de 18 de novembro de 1966, dois anos após o golpe militar de 1964 – deu início a campanhas publicitárias com a intenção de “vender” o Brasil como destino para o turismo mundial. Estas campanhas enalteciam as belezas naturais do país e, também, a sexualidade da mulher brasileira.
Foi nesta época que o material oficial do turismo brasileiro – cartazes, folders, filmes publicitários e até a participação em congressos mundiais – passou a explorar a imagem da mulher, sempre em trajes sumários, expondo sua sensualidade inerente como um produto a ser consumido. Também teve início neste período a transmissão via satélite dos desfiles de carnaval, onde as mulatas eram os principais focos de atenção, assim como a transmissão pela tevê de bailes de carnaval do Rio de Janeiro, onde a pouca roupa das mulheres era o principal atrativo das câmeras.
Segundo Feijó e Calazans, técnicos da própria Embratur apontavam o órgão como um dos responsáveis pela consolidação do Brasil como rota do Turismo Sexual. “Através da sua política de propaganda, associando a imagem da mulher nativa às paisagens naturais, bem como às festas populares (o Carnaval é o maior exemplo delas), a Embratur teria atraído a atenção, tanto de turistas quanto de agenciadores nacionais e internacionais, para as potencialidades de exploração desse mercado".
Na década de 80, um estande da Embratur em Nova York (EUA) exibia uma modelo brasileira com roupas de banho desfilando na frente de fotos do país. Os atuais cartões-postais da praia de Copacabana, por exemplo, ainda estampam quatro mulheres de biquíni na areia.
Em sua dissertação de mestrado intitulada “Embratur: Formadora de imagens da nação brasileira”, orientada pelo professor Omar Ribeiro Thomaz e apresentada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Louise Prado Alfonso também sustenta que a divulgação deste tipo de imagem da mulher brasileira por organismos oficiais de turismo levou uma mensagem negativa e equivocada que contribui para o aumento do turismo sexual. Para Louise, os aspectos depreciativos da divulgação da mulher brasileira como atrativo turístico poderiam ter sido previstos pela Embratur.
No artigo “A exploração das mulheres na dinâmica do turismo sexual”, Maria Jaqueline de Souza Leite, do Centro Humanitário de Apoio à Mulher (CHAME), completa o quadro, ampliando os agentes propagadores desta imagem desconstruída de nossas mulheres: “A imagem de sensualidade, erotismo e liberdade sexual que alimenta as fantasias dos homens no exterior a respeito das mulheres brasileiras, sobretudo negras e mulatas... é projetada não apenas através de propaganda turística, mas também da literatura e cinema nacionais”
Novas estratégias
Como já foi dito anteriormente, as estratégias de combate ao turismo sexual implementadas pelo poder público e pela sociedade civil limitam-se – em grande parte - a exploração da criança e do adolescente. Ocorre que, aliado a isso, é preciso também agir para reconstruir a imagem da mulher brasileira lá fora. É necessário unir os programas que combatem à exploração sexual de nossa juventude a outras ações que reforcem outra imagem de nossas mulheres além da mulata e do biquíni.
Enquanto a preocupação com o turismo sexual no Brasil estiver apenas focada sobre sua modalidade infanto-juvenil o nosso turismo permanecerá ligado a uma sexualidade feminina esteriotipada, focada no mito da “orla caliente", atraindo turistas sexuais e perpetuando a imagem negativa da mulher brasileira - uma imagem que construímos e que pode parecer inocente à primeira vista, mas que é perniciosa ao extremo.
É o que revela a documentarista italiana Silvia Capucci, uma das organizadoras da campanha Stop Sexual Tourism. Para ela, é difícil mudar o comportamento do turista europeu que enxerga no Brasil uma fonte de mulheres bonitas e fáceis de conquistar. Em entrevista à jornalista Fabrina Martinez, em 2005, ela disse que esta noção está arraigada no pensamento europeu.
“Essa questão está no condicionamento da gente e a publicidade brasileira no exterior reforça essa imagem. Assim como acontece na Tailândia e em Cuba, muitos turistas já viajam com o intuito de ficar com a mulher brasileira, que muitas vezes, já está incluídas no pacote que eles compram. Esses clientes não são pedófilos, mas homens normais, casados e com filhos”, afirmou.
Outro caso que demonstra as estratégias equivocadas do turismo tupiniquim, que colaboram ainda hoje para a construção de uma imagem deturpada das nossas mulheres foi abordado pela jornalista Elaine Chrysostomo, no artigo “Desrespeito lá fora, despudor aqui dentro”, publicado em 2004 no Observatório da Imprensa. Ela relata “o episódio do desembarque dos passageiros do navio Queen Mary 2 no Rio de Janeiro, em que mulatas-sambistas, indignamente ‘vestidas’, agarraram um turista velhinho (e furibundo), de bengala, na saída do Cais do Porto, só para posar para foto”. “O pior é que essas iniciativas recebem apoio do governo do estado e da Prefeitura, para desrespeitar a imagem da mulher brasileira”, finaliza Elaine.
Entre as estratégias que poderiam ser adotadas em um processo de recuperação da imagem das brasileiras no exterior está o combate à prostituição que leva milhares de brasileiras a vender o corpo no velho mundo. Não pretendo construir uma imagem de pudico exacerbado e nem condeno quem opta pela prostituição para ganhar a vida. Mas, é fato que este grupo constrói uma imagem negativa do Brasil e das brasileiras em especial.
A criação de mecanismos que evitem o aumento deste contingente é importante e, certamente, ajudaria a mitigar a idéia que permeia as mentes de muitos “gringos” de que o Brasil é um paraíso de praias e de sexo fácil e barato.
E não adianta adotar discursos fáceis, calcados em noções pseudo-liberais, para refutar isso, como fez, em junho, Alex Castro em seu blog ao ridicularizar o desabafo de uma brasileira residente em Londres exposta – em uma reunião social - ao assédio de estrangeiros que, movidos pelo álcool, mostraram como, de fato, enxergam a mulher brasileira. Diz ela:
“Um babaca com uma risadinha sacana me perguntou se as mulheres andavam peladas no Brasil porque era muito quente. Um imbecil francês disse que seria bom ir participar de uma reunião no Brasil para poder ‘catar’ as mulheres, afinal, as mulheres no Brasil estão assim disponíveis como qualquer mercadoria barata e descartável, bastando escolher. O outro concordou e imaginou e descreveu uma cena bizarra dele saindo do aeroporto e sendo agarrado por três mulheres desesperadas querendo levá-lo para cama. Um teve a cara de pau de dizer que se fosse ia voltar com umas três para casa. Nessa hora meu sangue ferveu mas infelizmente não poderia falar muita coisa pois eh isso que o Brasil vende aqui fora - TURISMO SEXUAL E BARATO.”.
Para Alex e muitos de seus leitores (e leitoras, pasmem), o desabafo não passa de “uma verdadeira antologia de todos os preconceitos das brasileiras bem-nascidas contra a invasão das oportunistas - ou seja, aquelas que não tiveram as mesmas vantagens que elas e precisam usar o próprio corpo pra se virar”.
Penso que cada um deve fazer com seu corpo o que quiser. Ponto. Mas daí a “glamourizar” a prostituição é, para dizer o mínimo, inocência. Defendo com unhas e dentes o direito de todo ser humano fazer o que bem entender com seu próprio corpo – inclusive vendê-lo sexualmente. Considerar esta prática saudável ou exemplar, no entanto, é outra questão.
Quem sustenta que prostituição é "uma profissão como outra qualquer" está, lamentavelmente, prestando um desserviço às mulheres e colaborando de forma perigosa para o fortalecimento da visão estereotipada sobre nossas “Marias e Clarices”.
Como bem disse Rita Lee, “nem toda brasileira é bunda”.
O caso foi o seguinte: no stand da revista Periodista Latino, um cartaz promocional exibia uma modelo colombiana de biquíni, saindo do mar. A peça publicitária alterou os ânimos de alguns participantes do evento, provocando protestos. O cartaz foi apontado como fruto do chauvinismo e quase despedaçado. Foi preciso a ação da polícia para dispersar os revoltosos. Responsável pela publicação, Paul Monzón, reclamava: “E estas brasileiras dançando no meio da feira?”, referindo-se a dançarinas de funk que, em trajes sumários, se exibiam em frente ao stand da revista.
Pronto, chegamos ao ponto. Ao optar por apresentar o Brasil por meio da sexualidade feminina inerente ao funk, os expositores brasileiros no evento colaboraram para o fortalecimento de uma imagem pouco lisonjeira da mulher brasileira. À primeira vista pode parecer uma reflexão exagerada, mas, de fato, a exploração da imagem da mulher com intuitos turísticos ainda é uma realidade traiçoeira no Brasil.
Apesar dos esforços no sentido de coibir o turismo sexual, em especial o que violenta crianças e adolescentes, ainda pecamos por alçar a mulher como atrativo turístico. É que, como já disseram Fernando Carrazedo Feijó e Flávio Mário de Alcântara Calazans no artigo “A imagem internacional do turismo sexual no Brasil: o ‘prostiturismo’ no marketing turístico”, “o turismo sexual é muito maior, pois não se trata apenas de uma pessoa em busca de uma simples aventura sexual, ele se constitui numa verdadeira indústria de serviços, que apesar de inúmeros esforços de alguns governos e ONGs, continua crescendo e muito”.
Esta indústria é alimentada especialmente pela visão deturpada com a qual a mulher brasileira é apresentada no exterior. Esta prática ocorre por diversos meios, de forma oficial ou não. Um exemplo é a campanha publicitária da cachaça Cabana, veiculada nos Estados Unidos, que mostra mulheres exibindo o que lá fora eles chamam de "depilação brasileira".
Laura Martinez, em artigo no site Advertising Age, diz o seguinte sobre o assunto: “A campanha de verão da Cabana, que foi chamada de ‘mais quente que o Rio no verão’ inclui um vídeo sexual e explícito, que qualquer pessoa (maior de 21 anos, claro) pode ver aqui. Ele termina com um close-up na modelo mostrando sua Brazilian wax (sic), aparentemente uma outra característica típica das mulheres no país da América do Sul”. A blogeira e feminista Denise Arcoverde aprofunda o caso em seu blog e alerta: “...não se iludam. Essa imagem não ajuda em nada nem à mulher brasileira, nem ao país, é um insulto e só estimula o país como um paraíso do turismo sexual.”.
Não é de hoje
A conotação pejorativa sobre a mulher brasileira não é novidade. O próprio Pero Vaz de Caminha, em 1º de Maio de 1500, foi quem deu início a ela em carta a El Rei. Diz o escriba, admirado com a “falta de vergonha” das índias: “Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras... E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela...".
Bem depois, em "Casa Grande & Senzala" (1961), Gilberto Freyre também apontava para a sexualidade acentuada das brasileiras. No segundo capítulo do primeiro tomo da obra, ele descreve o relacionamento do colonizador com as índias que faziam lembrar a figura mitológica da "moura encantada" de longos cabelos negros a banhar-se nos rios. No quarto capítulo do segundo tomo, intitulado "O escravo negro na vida sexual e da família do brasileiro", Freyre descreve as relações dos colonizadores com as escravas negras e com as índias.
Fazendo um paralelo com as funkeiras brasileiras presentes ao Integra Madrid, podemos continuar citando Freyre e os aspectos erotizados das danças brasileiras que, segundo ele, “podem representar muito mais uma necessidade de estimulação do que a voracidade sexual”. Para o autor de "Casa Grande & Senzala", as danças eróticas desempenham “funções de afrodisíaco, de excitante ou de estímulo à atividade sexual”.
A mulher oficialmente desconstruída
Foi entre os anos 70 e 80, quando o turismo começou a ser apontado como a “indústria do futuro”, que o Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur) – criada pelo decreto-lei n. 55 de 18 de novembro de 1966, dois anos após o golpe militar de 1964 – deu início a campanhas publicitárias com a intenção de “vender” o Brasil como destino para o turismo mundial. Estas campanhas enalteciam as belezas naturais do país e, também, a sexualidade da mulher brasileira.
Foi nesta época que o material oficial do turismo brasileiro – cartazes, folders, filmes publicitários e até a participação em congressos mundiais – passou a explorar a imagem da mulher, sempre em trajes sumários, expondo sua sensualidade inerente como um produto a ser consumido. Também teve início neste período a transmissão via satélite dos desfiles de carnaval, onde as mulatas eram os principais focos de atenção, assim como a transmissão pela tevê de bailes de carnaval do Rio de Janeiro, onde a pouca roupa das mulheres era o principal atrativo das câmeras.
Segundo Feijó e Calazans, técnicos da própria Embratur apontavam o órgão como um dos responsáveis pela consolidação do Brasil como rota do Turismo Sexual. “Através da sua política de propaganda, associando a imagem da mulher nativa às paisagens naturais, bem como às festas populares (o Carnaval é o maior exemplo delas), a Embratur teria atraído a atenção, tanto de turistas quanto de agenciadores nacionais e internacionais, para as potencialidades de exploração desse mercado".
Na década de 80, um estande da Embratur em Nova York (EUA) exibia uma modelo brasileira com roupas de banho desfilando na frente de fotos do país. Os atuais cartões-postais da praia de Copacabana, por exemplo, ainda estampam quatro mulheres de biquíni na areia.
Em sua dissertação de mestrado intitulada “Embratur: Formadora de imagens da nação brasileira”, orientada pelo professor Omar Ribeiro Thomaz e apresentada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Louise Prado Alfonso também sustenta que a divulgação deste tipo de imagem da mulher brasileira por organismos oficiais de turismo levou uma mensagem negativa e equivocada que contribui para o aumento do turismo sexual. Para Louise, os aspectos depreciativos da divulgação da mulher brasileira como atrativo turístico poderiam ter sido previstos pela Embratur.
No artigo “A exploração das mulheres na dinâmica do turismo sexual”, Maria Jaqueline de Souza Leite, do Centro Humanitário de Apoio à Mulher (CHAME), completa o quadro, ampliando os agentes propagadores desta imagem desconstruída de nossas mulheres: “A imagem de sensualidade, erotismo e liberdade sexual que alimenta as fantasias dos homens no exterior a respeito das mulheres brasileiras, sobretudo negras e mulatas... é projetada não apenas através de propaganda turística, mas também da literatura e cinema nacionais”
Novas estratégias
Como já foi dito anteriormente, as estratégias de combate ao turismo sexual implementadas pelo poder público e pela sociedade civil limitam-se – em grande parte - a exploração da criança e do adolescente. Ocorre que, aliado a isso, é preciso também agir para reconstruir a imagem da mulher brasileira lá fora. É necessário unir os programas que combatem à exploração sexual de nossa juventude a outras ações que reforcem outra imagem de nossas mulheres além da mulata e do biquíni.
Enquanto a preocupação com o turismo sexual no Brasil estiver apenas focada sobre sua modalidade infanto-juvenil o nosso turismo permanecerá ligado a uma sexualidade feminina esteriotipada, focada no mito da “orla caliente", atraindo turistas sexuais e perpetuando a imagem negativa da mulher brasileira - uma imagem que construímos e que pode parecer inocente à primeira vista, mas que é perniciosa ao extremo.
É o que revela a documentarista italiana Silvia Capucci, uma das organizadoras da campanha Stop Sexual Tourism. Para ela, é difícil mudar o comportamento do turista europeu que enxerga no Brasil uma fonte de mulheres bonitas e fáceis de conquistar. Em entrevista à jornalista Fabrina Martinez, em 2005, ela disse que esta noção está arraigada no pensamento europeu.
“Essa questão está no condicionamento da gente e a publicidade brasileira no exterior reforça essa imagem. Assim como acontece na Tailândia e em Cuba, muitos turistas já viajam com o intuito de ficar com a mulher brasileira, que muitas vezes, já está incluídas no pacote que eles compram. Esses clientes não são pedófilos, mas homens normais, casados e com filhos”, afirmou.
Outro caso que demonstra as estratégias equivocadas do turismo tupiniquim, que colaboram ainda hoje para a construção de uma imagem deturpada das nossas mulheres foi abordado pela jornalista Elaine Chrysostomo, no artigo “Desrespeito lá fora, despudor aqui dentro”, publicado em 2004 no Observatório da Imprensa. Ela relata “o episódio do desembarque dos passageiros do navio Queen Mary 2 no Rio de Janeiro, em que mulatas-sambistas, indignamente ‘vestidas’, agarraram um turista velhinho (e furibundo), de bengala, na saída do Cais do Porto, só para posar para foto”. “O pior é que essas iniciativas recebem apoio do governo do estado e da Prefeitura, para desrespeitar a imagem da mulher brasileira”, finaliza Elaine.
Entre as estratégias que poderiam ser adotadas em um processo de recuperação da imagem das brasileiras no exterior está o combate à prostituição que leva milhares de brasileiras a vender o corpo no velho mundo. Não pretendo construir uma imagem de pudico exacerbado e nem condeno quem opta pela prostituição para ganhar a vida. Mas, é fato que este grupo constrói uma imagem negativa do Brasil e das brasileiras em especial.
A criação de mecanismos que evitem o aumento deste contingente é importante e, certamente, ajudaria a mitigar a idéia que permeia as mentes de muitos “gringos” de que o Brasil é um paraíso de praias e de sexo fácil e barato.
E não adianta adotar discursos fáceis, calcados em noções pseudo-liberais, para refutar isso, como fez, em junho, Alex Castro em seu blog ao ridicularizar o desabafo de uma brasileira residente em Londres exposta – em uma reunião social - ao assédio de estrangeiros que, movidos pelo álcool, mostraram como, de fato, enxergam a mulher brasileira. Diz ela:
“Um babaca com uma risadinha sacana me perguntou se as mulheres andavam peladas no Brasil porque era muito quente. Um imbecil francês disse que seria bom ir participar de uma reunião no Brasil para poder ‘catar’ as mulheres, afinal, as mulheres no Brasil estão assim disponíveis como qualquer mercadoria barata e descartável, bastando escolher. O outro concordou e imaginou e descreveu uma cena bizarra dele saindo do aeroporto e sendo agarrado por três mulheres desesperadas querendo levá-lo para cama. Um teve a cara de pau de dizer que se fosse ia voltar com umas três para casa. Nessa hora meu sangue ferveu mas infelizmente não poderia falar muita coisa pois eh isso que o Brasil vende aqui fora - TURISMO SEXUAL E BARATO.”.
Para Alex e muitos de seus leitores (e leitoras, pasmem), o desabafo não passa de “uma verdadeira antologia de todos os preconceitos das brasileiras bem-nascidas contra a invasão das oportunistas - ou seja, aquelas que não tiveram as mesmas vantagens que elas e precisam usar o próprio corpo pra se virar”.
Penso que cada um deve fazer com seu corpo o que quiser. Ponto. Mas daí a “glamourizar” a prostituição é, para dizer o mínimo, inocência. Defendo com unhas e dentes o direito de todo ser humano fazer o que bem entender com seu próprio corpo – inclusive vendê-lo sexualmente. Considerar esta prática saudável ou exemplar, no entanto, é outra questão.
Quem sustenta que prostituição é "uma profissão como outra qualquer" está, lamentavelmente, prestando um desserviço às mulheres e colaborando de forma perigosa para o fortalecimento da visão estereotipada sobre nossas “Marias e Clarices”.
Como bem disse Rita Lee, “nem toda brasileira é bunda”.
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