Semana On

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Um financiamento público para o Jornalismo?

Enquanto por aqui sindicatos e parte substancial da academia perdem tempo com uma luta de caráter corporativista que ganho nenhum trará ao Jornalismo ou aos jornalistas, lá fora novos olhares sobre as formas do “fazer jornalístico” são lançados sobre o mercado. Salvo um ou outro raio de luz dos que tentam clarear o debate aqui no Brasil, o que resta são trevas. Continuamos focados no mainstream.

Uma análise superficial sobre os canais de discussão do Jornalismo brasileiro deixa nítida a insatisfação de profissionais e gente interessada em boa informação com o que hoje está sendo feito nos “jornalões” e nas emissoras de TV. Um jornalismo de qualidade duvidosa, comprometido com o poder econômico, seduzido pela “espetacularização” da notícia, pouco comprometido com a essência do ofício.

Há saídas? Arrisco dizer que não há saídas fáceis. Para encontrá-las é preciso despir-se de dogmas e verdades absolutas sobre a profissão.

Algumas propostas têm surgido, em especial nos Estados Unidos. Se elas se adaptam a realidade brasileira, é algo a ser analisado com cuidado. O debate local já teve início em alguns blogs de cunho jornalístico como o Gjol e o Webmanario.

De imediato, o que estas propostas sugerem é que é possível estabelecer uma prática jornalística diferente do que está posto como única alternativa, do que é oferecido como prato feito aos milhares de recém formados e profissionais que gravitam um mercado de trabalho saturado.

É fato que já há algum tempo jornalistas incentivam seus leitores a colaborarem financeiramente com seus blogs. Lá fora, Josh Marshall, Andrew Sullivan, Jason Kottke e Jim Hopkins adotaram esta tática com sucesso. Da mesma forma, o jornalista Chris Allbritton levantou US$ 15 mil entre seus leitores para financiar sua viagem ao Iraque em 2003, que rendeu o blog Back to Iraq blog. No Brasil, jornalistas como Pedro Doria e Alex Castro – para citar alguns - também descobriram o caminho das pedras. A novidade é a sistemarização deste conceito como opção para o mercado.

Entre as propostas já em andamento está o jornalismo representativo, preconizado pelo professor Leonard Witt - da Kennesaw State University - e o jornalismo financiado (crowdfunding journalism), defendido por David Cohn. Ambos propõem um modelo no qual jornalistas sejam financiados diretamente por parcelas da população para desenvolverem pautas do interesse destas comunidades.

Uma das primeiras experiências concretas de um jornalismo financiado pela população – ainda que mesclado com o chamado citizen journalism - ocorreu ano passado por meio de uma parceria entre Cohn e Jay Rosen, professor da New York University. Ambos desenvolveram o projeto Assignment Zero, que não vingou. Hoje, duas experiências de jornalismo financiado estão em andamento, o Spot.us e o Representative Journalism.

No Spot.us, jornalistas freelancers são alimentados por sugestões de pauta e recursos financeiros provenientes da população residente na Bay Area de San Francisco. O Representative Journalism (ou RepJ), testa a idéia em Northfield (Minnesota), a partir de um jornalista fulltime que cobre assuntos de interesse da comunidade local e publica o material no site Locally Grown.

O Spot.us é fruto do trabalho de David Cohn, que investiu no projeto os U$ 340 mil que ganhou como bolsa da Knight Foundation.

Assim trabalha o Spot.us:

1. Qualquer pessoa sugere uma pauta que gostaria de ver transformada em reportagem.

2. Jornalistas freelancers se propõem a escrever estas reportagens, propondo um valor por este trabalho.

3. Uma vez que um jornalista tenha sido designado para uma determinada reportagem, as pessoas pode doar recursos para viabilizá-la (mas ninguém pode doar mais que 20% do custo total dela).

4. Quando a reportagem tiver angariado recursos suficientes para ser viabilizada, o jornalista a escreve. Neste momento 10% do valor angariado é pago para custos de edição e revisão.

5. Com a reportagem pronta, veículos de comunicação têm uma oportunidade de adquirir os direitos exclusivos de sua publicação, pagando o custo integral por ela. Neste caso, os fundos adquiridos como doação popular são devolvidos aos doadores. Caso nenhum veículo se interesse em publicar a reportagem exclusivamente, ela é postada na Internet (no site Spot.us) e qualquer veículo de comunicação passa a ter o direito de reproduzi-la gratuitamente.

Em reportagem assinada pelo jornalista Mark Glaser, publicada no Mediashift, David Cohn assegura que esta é apenas uma forma de viabilizar este modelo de jornalismo. “Nunca tentei vender o Spot.us como fórmula para todas as organizações de mídia, embora possa vê-la ajudando a mostrar que é possível fazer algo além dos meios já estabelecidos. O Jornalismo baseado na comunidade repousa sobre dois pilares básicos. Primeiro: o leitor tem que pensar o Jornalismo como um bem público, como arte, algo que pode sustentar com seu próprio dinheiro. Segundo: os jornalistas têm que se envolver e dar sua marca pessoal para conquistar o público”, afirma.

O RepJ trabalha de outra forma. Ao invés de jornalistas freelancers designados e pagos por cada reportagem, optou-se por um jornalista contratado para trabalhar para uma determinada comunidade ou para desenvolver um assunto específico. Leonard Witt sugeriu a idéia para a Harnisch Family Foundation e obteve um investimento de US$ 51 mil para estabelecê-la na comunidade de Northfield, em Minnesota.

Para financiar o projeto, pretende-se reunir mil pessoas (ou grupos) que se comprometam a pagar anualmente a quantia de US$ 100. Para isso, o jornalista Bonnie Obremski iniciou um trabalho de imersão na comunidade, cuja população chega a 17 mil pessoas. "Temos que trabalhar em três fronts. 1) temos que prover jornalismo de alta qualidade; 2) temos que fazer nosso jornalista conhecido pela comunidade; e 3) a comunidade tem que sentir que o seu jornalista e as notícias e informações que ele produz possuem valor parelho ao suporte financeiro provido por ela”, afirma Witt.

Experiências do gênero, com diferenças sutis em seu formato, têm surgido com frequência. Nelson de Sá publicou ontem (19), no blog Toda Mídia, uma nota intitulada “Os novos cães de guarda?”, onde cita reportagem do jornalista Richard Pérez-Peña, publicada no New York Times, sobre o site Voice of San Diego, um dos mais vigilantes veículos de comunicação no que diz respeito a fiscalização sobre o estado. O Voice of San Diego funciona no estilo “nonprofit”, vive de doações, assim como o Propublica e o pequenino Crosscut.

Há quem critique estas propostas sob a égide da ética. Discutível, em especial frente ao direcionamento gerado por interesse econômico que vemos na grande mídia. Será pior escrever mediante o interesse de um setor da comunidade? Além disso, pode-se dizer que um “financiamento público do Jornalismo” teria características semelhantes à de uma assessoria de imprensa. Ocorre que, no Brasil, diferentemente de outros países como os Estados Unidos, a assessoria de imprensa é atribuição do jornalista. Portanto...

Outras objeções questionam se haverá público disposto a pagar pelas reportagens, ou se o alcance delas - se limitadas aos sites das próprias organizações – valerá o dinheiro investido. São questões importantes e que – creio - serão analisadas durante as experiências em vigência e em outras que virão. O importante é percebermos que há alternativas para o “fazer jornalístico” além das tradicionais e saturadas redações.

14 comentários:

Anónimo disse...

Victor,

Acabo de receber mail-padrão de Dave Cohn anunciando que começa agora a campanha de doações no http://spot.us/

abs
ALEC DUARTE

Alice Salles disse...

Sim! Estamos começando a realmente viver em uma era em que ou se muda a forma de se fazer noticia ou se afunda com critérios que já não mais funcionam para esse mundo completamente SEM regras.
Grande artigo, Victor!

Luiz Roberto Lins Almeida disse...

isso mesmo. temos que procurar opções para ganhar dinheiro. há maneiras inteligentes de explorar a internet e trabalhar com independência. Seja na área que quiser.

Barone disse...

Oi Alec, vou me cadastrar por lá para receber os informes. O assunto me interessou muito. Se tiveres alguma dica de fonte compartilhe.

Alice e Luiz. Acho muito importante a busca por saídas em todas as áreas que fujam do mainstream. É preciso criar formas de driblar o que está posto.

Alice Salles disse...

Sim! E mudar tudo!

Rafael Rodrigues disse...

Olá, tudo bem? Sou editor-assistente do Digestivo Cultural e gostamos muito do seu texto "Um financiamento público para o Jornalismo?". Gostaríamos de republicá-lo no site, como coluna. Você autoriza? Atenciosamente, Rafael Rodrigues

Barone disse...

Será um grande prazer Rafael. Sou apreciador do trabalho que vocês fazem no Digestivo. Peço apenas a sitação da fonte e que me mande o link quando publicar. Um abraço.

Rafael Rodrigues disse...

Com certeza, Barone! Você poderia me enviar um email, por favor? Preciso saber em que cidade você está e seu email: rafaelnikov@gmail.com. E também para ter seu contato, pro caso de precisar conversar com você sobre o texto. Abraço!

Marco disse...

É o fim da picada.
O mundo passando por uma baita crise ética ( outra palavra para desonestidade ) enquanto alguns acham "muito importante a busca por saídas em todas as áreas que fujam do mainstream. É preciso criar formas de driblar o que está posto" ( outras palavras para "jeitinho" ).
Não sou jornalista - talvez ingênuo. Mas tenho certeza que, muito mais do que eu, vocês sabem exatamente qual alternativa editorial deveriam tomar.
Se me permitem ( será que posso ou preciso fazer alguma doação ? ) aqui vai um desabafo de um leitor indignado : por favor, não deturpem as palavras ! Ser profissional não significa buscar dinheiro a qualquer custo.
Concordo que a profissão deva ter "sustentabilidade financeira", mas essa "nova" alternativa tinha outro nome antigamente : dizia-se jabá.
E como foi postado na coluna sobre o mesmo assunto no Observatório Nacional :

"... Mas quem conhece as entranhas de uma redação de jornal sabe que a realidade é bem outra."

Triste ...

Marco disse...

Este comentário não deveria ser publicado. Nem sequer existir.

Não faça moderação dos comentários ( outra palavra para censura )

Além de ficar feio para um jornalista, é improdutivo e, mais importante, não condiz com as novas alternativas editoriais impostas pela internet. Essa sim uma nova alternativa bastante válida ( me desculpe - talvez - a ingenuidade )

Barone disse...

Olá Marcos.

O tema é polêmico, pois sugere uma alternativa totalmente nova para o fazer-jornalístico. Discordo de suas leituras sobre o tema.

Você classifica como “jeitinho” a busca por novas formas de desenvolver o Jornalismo e dá a este “jeitinho” uma conotação negativa. Na verdade, quando falo em “criar formas de driblar o que está posto” me refiro a necessidade de o Jornalismo driblar o controle exercido pelo poder econômico e fazer, de fato, um Jornalismo verdadeiro, àquele voltado para os interesses da população. Dentro do “mainstream”, ou seja, dos jornalões e das emissoras de tevê, isso não é mais possível.

Muitos jornalistas conscientes sabem que alternativa editorial deveriam tomar. Ocorre que não são os jornalistas que definem este caminho, mas sim os donos da mídia. Colocar esta responsabilidade exclusivamente nas mãos do profissional, é, sim, ingenuidade. Mais fácil seria se a própria sociedade cobrasse dos veículos de comunicação uma postura diferente, o que não acontece.

O Jornalismo é, hoje, uma das profissões pior remuneradas entre as que exigem curso superior. Para você ter uma idéia, aqui em Campo Grande, um jornalista trabalhando 6 horas em um site de notícias ou de 6 a 8h em um jornal ganha entre R$ 800,00 e R$ 1.500,00 em média. E este salário é pago não para que este profissional faça um Jornalismo voltado aos interesses da população, mas sim do patrão. Será que as novas propostas que abordei no artigo são piores que isso?

Particularmente prefiro escrever por encomenda para uma comunidade, reivindicando, cobrando e exigindo ações do poder público em seu benefício do que servir de corsário para poderosos cujo único compromisso é com a sua conta bancária.

Discordo radicalmente de você, quando colocas que estas novas alternativas são o mesmo que jabá. Jabá, na verdade, é o que se faz hoje no Jornalismo “oficialesco”, onde as verdades são medidas de acordo com o interesse do veículo e de quem ele representa.

Isso sim, é muito triste.

Barone disse...

Caro Marco,
Faço, sim, moderação de comentário pelo simples fato de que nem todos fazem uso desta ferramenta para expressar sua opinião, debater, criticar, ou, até mesmo, elogiar. Alguns, infelizmente, usam para fazer propaganda, repassar vírus e até mesmo para ofender outras pessoas. Portanto, faço, sim, moderação. No entanto, não modero críticas. Estas são publicadas na íntegra, assim como ocorreu com as suas. Qual sua área de atuação Marcos? Um abraço e volte.

Marco disse...

Olá novamente Barone.
Obrigado pelas respostas.

Por não fazer parte, não conheço a verdadeira dimensão do problema enfrentado pela categoria, mas tento imaginar : patrões que não querem um jornalismo sério e, ainda por cima, podem pagar uma miséria a jornalistas-copydesks ...

Mas, analisando o tema da matéria :

"1. Qualquer pessoa sugere uma pauta..."

...

5. Com a reportagem pronta, veículos de comunicação têm uma oportunidade de adquirir os direitos exclusivos ... e qualquer veículo de comunicação passa a ter o direito de reproduzi-la gratuitamente."


???

Isso é um verdadeiro tiro no pé. No pé dos leitores-doadores.

1. O jornalista recebe uma remuneração pela matéria ( até aqui sem problemas )

Se me permitem outro parênteses :
"Em reportagem assinada pelo jornalista Mark Glaser ... O Jornalismo baseado na comunidade repousa sobre dois pilares básicos. Primeiro: o leitor tem que pensar o Jornalismo como um bem público, como arte, algo que pode sustentar com seu próprio dinheiro ...afirma David Cohn."

Na minha opinião, isso vai totalmente contra a proposta. Ou está muito mal escrita/expressa ( péssimo vindo de jornalistas ) ou é simples conversa de vendedor.


continuando ...

2. Qualquer veículo de comunicação pode gratuitamente reproduzir a matéria ( caso a matéria não tenha direitos de exclusividade )

Alguém aqui arrisca prever qual a porcentagem das matérias terão seus direitos exclusivos ?
Eu arrisco : mínimo.

Caso seja de seu interesse, o patrão pode testar a matéria e, caso seja de seu interesse, dar prosseguimento sem pagar os direitos ao "pai" da matéria ( entramos em outro debate ... )
Ou pior : usar a (pré)matéria como moeda de troca em alguma barganha ... ( sem falar que alguns jornalistas podem eles mesmos fazer isso ... )

Em ambos os casos, até o jornalista-copydesk vai ver seu mísero salário reduzido.

Ou seja, de todas as formas não consigo ver viabilidade nessa alternativa.

Barone, você mesmo apresentou outras soluções ...
E usando as palavras de David Cohn sobre o jornalismo sustentar-se com seu próprio dinheiro, onde está (por exemplo) o Google ADSense aqui no seu blog ?

A propósito, trabalho com TI.

Abraços e sucesso

Barone disse...

Olá Marcos,

Tive uma semana atribulada no trabalho e, devido a isso, não tive o tempo que desejava para me dedicar ao blog. Por isso a demora na resposta.

Vamos lá.

O Jornalismo hoje (e não sou eu que digo isso, trata-se de uma realidade que se apresenta aos profissionais da área em todo o mundo e que está sendo alvo de pesquisas pelos que se dedicam a estudar o tema) se encontra em um beco sem saída. Há uma crise de confiabilidade, de conteúdo e de finanças. A busca por novas formas de desenvolver o Jornalismo tem sido a tônica em nosso meio profissional.

Em minha opinião, o cerne desta crise repousa em dois pilares: a confiabilidade e a forma.

A crise de confiabilidade é sutil. Algumas pesquisas (como o Latinobarometro, realizada recentemente pelo The Economist na América Latina) mostram que a maioria da população ainda acredita na mídia. Isso é bom? Não, em minha avaliação. Não é bom devido a um fato simples: a mídia, hoje, de forma geral, não está compromissada com um Jornalismo voltado para os interesses da população. Portanto a população não está dotada de senso crítico mínimo para observar isso. Os interesses de mercado, de grupos econômicos e políticos comandam o noticiário. E isso não é teoria da conspiração, é fato. Ao omitir do leitor o direito a um noticiário que desperte nele um sentimento de cidadania, que o leve a cobrar seus direitos e a exigir de seus governantes ética e honestidade, a mídia assume um papel fundamental na manutenção da passividade da população.

Para falar de forma bem clara. Escolha um dos milhares de absurdos emanados de nosso Congresso Nacional ou do Governo Federal (independente de quem esteja em seu comando, a questão aqui não é partidária, mas estrutural) – o aumento no número de vereadores, por exemplo, ou o papel ridículo das comissões de ética do Congresso, sempre manipuladas pelo executivo ou pelo interesse dos poderosos - e acompanhe a forma com a qual a mídia os aborda. Compare a ênfase dada a estes assuntos com outros temas de pouca ou nenhuma relevância no macro – como o Caso Eloá, ou o da menina Isabella Nardoni. Verás que a mídia dedica espaço incomensuravelmente maior a casos que deveriam estar relegados as páginas policiais – e a um ou outro artigo de conteúdo social ou comportamental – do que a assuntos que dizem respeito ao futuro do país. Estes últimos caem no esquecimento e nas coberturas sem teor elucidativo, repetitivas, mornas, que não levam o leitor a refletir, de fato.

O resultado é uma falsa confiança. Podemos, de fato, dizer que a população brasileira tem na mídia – em seu formato atual - um fator de fortalecimento de sua capacidade de reflexão?

A crise de forma, por sua vez, é perniciosa ao extremo. Também tem sido alvo de estudos por parte dos que pensam o Jornalismo. O fato é que o Jornalismo feito em rádio, tevê, jornais, revistas e na web está perdido. É preciso encontrar formatos que melhor se adequem a cada linguagem.

Penso que os jornais impressos, que lá fora passam por crise sem precedentes, terão que se dedicar a um público mais antenado, com reportagens aprofundadas, transformando-se em um veículo para os que buscam informação com conteúdo diferenciado e analítico. É a única maneira – ao menos a única que posso vislumbrar – para que sobrevivam ao Jornalismo feito na internet e na tevê, que faz com que as notícias dos jornais impressos nasçam mortas toda manhã. O jornalismo da web tenta encontrar caminhos entre blogs e sites de notícias ligados ao mainstream. A tevê, como profetizou Edward R. Murrow na década de 50, se transformou em “cabos e luzes em uma caixa”. Um instrumento transformador, que poderia ser usado para educar, conscientizar, cobrar, é dedicado quase que exclusivamente ao grotesco, ao entretenimento barato.

A conclusão está à vista para quem quiser perceber. O Jornalismo, em seus moldes atuais, não se presta ao objetivo pr5imordial: procurar informações e divulgá-las segundo o interesse público, relacionando os fatos e suas conseqüências.

Diante disso, não devemos procurar outras formas de um fazer-jornalístico que prime por estes objetivos? Penso que é esta a obrigação de todos os profissionais da área.

Voltando ao tema do nosso bate-papo, as tentativas de estabelecer um Jornalismo pautado por grupos sociais.

Penso que os modelos exemplificados em meu artigo são experiências. Como tais, vão esbarrar em erros, dificuldades, contra-sensos. No entanto, não perdem a sua importância. São tentativas de encontrar outros caminhos para os profissionais da área e para o público. E isso é muito mais do que está fazendo a maioria dos jornalistas pelo mundo afora.

Sobre seus comentários, farei algumas observações tentando ligá-los a fatos concretos ocorridos recentemente aqui em Campo Grande (MS). Faço isso para estabelecer uma linha de raciocínio que fuja da teoria e se aplique diretamente ao dia a dia de uma comunidade e dos profissionais de imprensa inseridos nela.
Para compreender os comentários que farei aqui, peço que – antes de prosseguir - leia o artigo “Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS” (http://escrevinhamentos.blogspot.com/2008/12/imprensa-fecha-os-olhos-e-fortalece.html), que publiquei aqui dia 17.
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Suponhamos que tivéssemos aqui em Campo Grande uma estrutura baseada no Jornalismo Representativo ou Financiado. Ora, representantes da comunidade gay poderiam procurar estes jornalistas e contratá-los para fazer o que a imprensa “oficial” não fez: denunciar a homofobia implícita na negação do título de utilidade pública municipal para a ATMS. Veja, a reportagem que nasceria dali não seria uma reportagem com conteúdo de assessoria de imprensa – na qual apenas a visão dos interessados seria exposta. Manteria-se o teor jornalístico, ouvindo, inclusive, as opiniões das bancadas evangélica e católicas da Câmara, sem, no entanto, esconder os motivos por detrás dos fatos ocorridos, sem amaciar nas perguntas ou adotar uma postura de afastamento irresponsável do fato, como ocorreu na cobertura feita pela mídia de Campo Grande.

Com a reportagem pronta, digamos, sob o correto título “Homofobia barra concessão de utilidade pública para associação de travestis”, esta seria oferecida com exclusividade a um jornal local. Caso este jornal se interessasse pela pauta, pagaria por ela ao jornalista responsável e o valor pago pela comunidade gay seria devolvido. Se nenhum veículo se interessasse pela exclusividade, a reportagem seria publicada no site (ou no veículo impresso) deste grupo de jornalistas independentes e ficaria livre para ser reproduzida por quem quer que se interessasse, sem custos (afinal a comunidader já pagou ao jornalista). Em ambas as hipóteses a reportagem seria publicada com o enfoque correto (não um enfoque encomendado, mas o enfoque correto), ao contrário do que ocorreu, de fato. Não vejo o motivo pelo qual devamos considerar isso um “tiro no pé dos leitores-doadores”.

Penso que Cohn quis dizer o seguinte com o comentário que você citou: para que o Jornalismo Financiado funcione, é preciso que a população encare o Jornalismo como bem público, ou seja, como algo que existe para servir aos seus interesses. E não é este o objetivo primordial do Jornalismo? Servir aos interesses da população? Se ele é um bem público, é possível mantê-lo com recursos provenientes desta comunidade. Isso já ocorre. Afinal, quando compramos um jornal ou uma revista, quando sintonizamos uma estação de rádio ou de tevê estamos financiando estes veículos. Ocorre que este financiamento propicia uma programação, ou uma cobertura jornalística, que muitas vezes não defende os interesses dos financiadores. No Jornalismo Financiado, setores da população assegurariam que assuntos de seu interesse fossem abordados de maneira ética e sem a intervenção do poder político-econômico que comanda a mídia.

O material jornalístico proveniente de um Jornalismo Financiado nasceria do interesse direto de uma parcela da população e seria financiado por ela ou pelo veículo que quisesse exclusividade pelo tema. De qualquer forma o material seria divulgado e o jornalista seria remunerado (ou pela população ou pelo veículo que pagasse pela exclusividade). O que vier além disso não está no escopo do debate. É claro que um veículo pode comprar a reportagem, publicá-la e, posteriormente, dar continuidade ao tema sob ponto de vista diferente dos interesses da população. Mas isso já ocorre hoje, no Jornalismo praticado na grande mídia.

Não arrisco dizer que estas experiências vão vingar. Muitos aspectos podem dar errado, é claro. Mas esta é a beleza da inovação – em todos os campos. Sem colocar a mão na massa nunca saberemos.

Sobre a sustentabilidade do meu blog, estou engatinhando nisso. Penso que no Brasil ainda é muito difícil estabelecer um público fiel, que possibilite recursos para um jornalista que se proponha a escrever diariamente na web sem vínculos com grande grupos de comunicação, políticos ou econômicos. Já há quem ganhe – ou possa ganhar - dinheiro com isso devido ao número de acessos de seus sites ou blogs como Pedro Doria, Noblat, Guilherme Fiúza Azevedo, Paulo Henrique Amorim, Mino Carta etc. No entanto, estes estão escorados – a maioria pelo menos – em grandes veículos de comunicação (Veja, Carta Capital, O Globo etc) ou em um cabedal profissional muito forte, que os credencia a ter um público cativo. Fora a possibilidade de terem patrocínios de grupos políticos e econômicos, embora não me arrisque em fazer esta afirmação.

Os que começam agora nestas searas de forma totalmente independente ainda terão muito a caminhar.

Ainda assim, particularmente, iniciei uma experiência neste sentido. No canto superior direito do blog você vai perceber que tenho meu livro disponível para venda, o link de parceria com a Livraria Cultura, que pode me propiciar 4% sobre as vendas feitas através dele e, também, o link do pagseguro, para quem quiser fazer uma doação. São experiências...

Não coloquei o ADsense por pura ignorância nos procedimentos desta ferramenta. Sou um curioso nestas coisas da web e não domino metade do que gostaria de dominar para incrementar o blog.

Falando em ignorância (perdoe a minha), o que é TI?

Um abraço.