Semana On

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O Silmarillion - JRR Tolkien

Havia Eru, o Único, que em Arda se chama Ilúvatar; ele fez primeiro os Ainur, os Sagrados, que eram filhos do seu pensamento e que estiveram com ele antes de alguma coisa mais ser feita. E falava-lhes, propondo-lhes temas de música; e eles cantavam perante ele, que ficava satisfeito. Mas, durante muito tempo, cantavam só um de cada vez, ou poucos juntos, enquanto os restantes escutavam, pois cada um compreendia apenas aquela parte da mente de Ilúvatar donde proviera e só lentamente ia compreendendo os seus irmãos. No entanto, todas as vezes que escutavam, adquiriam uma compreensão mais profunda, e a sua unissonância e harmonia aumentavam.

E veio a acontecer um dia que Ilúvatar reuniu todos os Ainur e lhes comunicou um tema portentoso, mostrando-lhes coisas maiores e mais maravilhosas do que até então lhes revelara; e a glória do seu começo e o esplendor de seu fim de tal modo maravilharam os Ainur que eles se curvaram diante de Ilúvatar e ficaram silenciosos.

Então, Ilúvatar disse-lhes: "Do tema que vos anunciei quero agora que façais juntos, em harmonia, uma grande música. E, como acendi em vós a chama imperecível, demonstrareis os vossos poderes no adorno deste tema, cada um com os seus próprios pensamentos e engenho, se assim quiser. Mas eu ficarei sentado e escutarei e feliz me sentirei por, através de vós, grande beleza ter despertado num canto."

Então as vozes dos Ainur, traduzidas por harpas e alaúdes, flautas e trompas, violas e órgãos e por incontáveis coros cantando com palavras, começaram a moldar o tema de Ilúvatar numa grande música; e ergueu-se um som de intermináveis e intermutáveis melodias entretecidas em harmonia, um som que, ultrapassando o ouvido, se propagou às profundidades e às alturas, e os lugares de habitação de Ilúvatar encheram-se a transbordar, e a música e o eco da música chegaram ao vazio, que deixou de ser vazio. Jamais desde então fizeram os Ainur qualquer música como essa, embora tenha sido dito que outra ainda mais grandiosa será ouvida perante Ilúvatar pelos coros dos Ainur e pelos filhos de Ilúvatar depois do fim dos dias. Então, os temas de Ilúvatar serão tocados corretamente e assumirão um ser no momento da sua expressão, pois todos compreenderão totalmente a intenção dele na sua parte e cada um terá a compreensão de cada qual, e Ilúvatar, satisfeito, dará aos pensamentos deles o fogo secreto.

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Assim começa O Silmarillion, uma maravilhosa obra de fantasia na qual o lingüista britânico JRR Tolkien nos oferece a cosmologia de um mundo que abriga seres tirados da mitologia européia, mas cuja saga fala tão profundamente ao nosso espírito moderno. Acabo de reler minha estimada edição portuguesa, da editora Europa-América, cuja tradução – de Fernanda Pinto Rodrigues – acho deliciosamente pitoresca em comparação à edição brasileira da Martins Fontes.

Dividido em quatro livros (Ainulindalë, Valaquenta, Quenta Silmarillion e Akallabêth), o livro é uma mostra da magnífica imaginação de Tolkien, uma construção mitológica densa, costurada pelos relatos heróicos de deuses, elfos, homens e criaturas tiradas do imaginário europeu que, unidos, transformam-se em uma intrincada história do nosso próprio mundo em um passado remoto.

A obra, cujos primeiros traços datam do início de 1925, quando Tolkien escreveu um esboço da mitologia, teve o conceito dos personagens, temas e histórias específicas desenvolvidos em 1917 quando Tolkien, então um oficial britâncio que retornou da França durante a Primeira Guerra Mundial, estava numa cama sofrendo de Febre das Trincheiras. Àquela época, ele chamou seus escritos de The Book of Lost Tales.

Muitos anos depois da guerra, encorajado pelo sucesso de O Hobbit, Tolkien enviou uma versão incompleta, porém mais desenvolvida de O Silmarillion para seu editor, George Allen & Unwin, que rejeitou o trabalho por ser muito obscuro e "demasiadamente celta". Ele então pediu a Tolkien que ao invés de O Silmarillion, trabalha-se em uma continuação para O Hobbit, idéia que se transformaria na mais famosa, mas não mais importante, obra: O Senhor dos Anéis.

No fim dos anos 50 ele começou novamente a trabalhar no Silmarillion, mas seu trabalho era mais relacionado a assuntos teológicos e filosóficos que com a narrativa propriamente dita. Durante esse tempo ele escreveu muito sobre estes tópicos, como o surgimento do mal em Arda, a origem dos Orcs, o costume dos Elfos e sua imortalidade, o Mundo Plano, a história do Sol e da Lua. Por esses tempos, sérias dúvidas o acometeram sobre alguns aspectos fundamentais do trabalho e ele voltou às versões mais antigas das histórias e parece ter sentido que devia solucionar esses problemas antes de publicar a versão final. Mas não pode concluir este trabalho em vida.

Depois de sua morte, em 1973, seu filho, Christopher Tolkien, compilou a narrativa de O Silmarillion de modo a mantê-la consistente com O Senhor dos Anéis. O livro foi então publicado no ano de 1977.

O Silmarillion não relata apenas os eventos de uma época muito anterior àquela de O Senhor dos Anéis; em todos os pontos essenciais de sua concepção, ele também é, de longe, a obra mais antiga. Na realidade, embora na época não se chamasse O Silmarillion, ele já existia meio século atrás. Em cadernos velhíssimos, que remontam a 1917, podem ser lidas as versões iniciais das histórias mais importantes da mitologia, muitas vezes escritas às pressas, a lápis. Ele nunca foi publicado (ainda que alguma indicação de seu conteúdo pudesse ser depreendida de O Senhor dos Anéis), mas meu pai, durante sua longa vida, jamais o deixou de lado, nem parou de trabalhar nele, mesmo em seus últimos anos. Durante todo esse tempo, O Silmarillion, se considerado meramente como uma grande estrutura narrativa, sofreu relativamente poucas mudanças radicais: há muito, tornou-se uma tradição estabelecida e uma fonte de referência para textos posteriores.”, diz Christopher Tolkien na introdução do livro.

O fato é que O Silmarillion é recheado por trechos de extrema beleza, como o capítulo IV do Quenta Silmarillion, “De Thingol e Melian”, que narra o encontro entre o alto-elfo Elwë (Thingol) e a maia Melian, na floresta de Noldoreth, em Beleriand;

Ela não proferiu nenhuma palavra, mas cheio de amor, Elwë aproximou-se e pegou-lhe na mão, e, acto contínuo, caiu sobre ele um encantamento, de modo que ficaram assim enquanto longos anos eram medidos pelas irrequietas estrelas que os cobriam; as árvores de Nam Elmoth tornaram-se altas e escuras antes de eles proferirem qualquer palavra.

ou o capítulo XII, “Do Regresso dos Noldor”, que trata da volta dos altos-elfos da família dos Noldor para a Terra Média:

Mas quando o exército de Fingolfin entrou em Mithrim, o Sol ergueu-se flamejante no Ocidente; e Fingolfin desfraldou as suas bandeiras, azuis e prateadas, e tocou as suas trompas, e irromperam flores sob os seus pés em marcha e as eras das estrelas terminaram.

O livro é composto, ainda, de uma poesia épica de rara consistência. O capítulo XIX do Quenta Silmarillion, “De Beren e Lúthien” é um exemplo deste estilo - que se estende à prosa - recheado de heroísmo e beleza, do qual o poema Balada de Leithian é um exemplo delicioso.

“Ele cantou um canto de feitiçaria,
de traspassar, abrir, de atraiçoar,
revelar, descobrir, denunciar.
Então, de súbito, Felagund, vacilante,
cantou em resposta um canto de ficar,
resistir, batalhar contra grande poder,
de segredos guardados, força de torre,
e confiança incólume, liberdade, fuga;
de mudar e de forma mutável,
de ciladas eludidas, armadilhas quebradas,
da prisão a abrir-se, da corrente que quebra.
De cá para lá andava o canto deles.
Cambaleante e soçobrante, quando, cada vez mais forte,
o canto se dilatava, Felagund lutava,
e toda a magia e poder concentrava
da elficidade de suas palavras.
Docemente no escuro cantavam as aves,
cantavam longe de Nargothrond
o suspiro do mar, para além,
para além do mundo ocidental, sobre areia,
sobre areia de pérolas na terra élfica.
Depois adensaram-se as trevas, a escuridão cresceu
em Valinor, o sangue vermelho correu
ao lado do mar, onde os Noldor chacinaram
os viajantes da espuma e roubando levaram
os seus barcos brancos com as suas velas brancas
dos portos iluminados. O vento assobia,
o lobo uiva. Os corvos fogem.
O gelo murmura nas bocas do mar.
Os cativos tristes de Angband choram.
O trovão atroa, as fogueiras ardem...
E Finrod caiu diante do trono.

O Silmarillion traz, também, passagens que podem ser relacionadas à época em que Tolkien viveu - apesar de o autor sempre ter negado qualquer veiculação ideológica ou política em sua obra. Ainda assim, certas passagens ressoam o espírito de uma época, como os trechos a seguir, do Quenta Silmarillion, Capítulo XX, “Da quinta batalha: Nirnaeth Arnoediad”.

Então, quando Fingon ouviu ao longe a grande trompa de Turgon, seu irmão, a sombra passou, o seu coração animou-se e ele gritou alto: “Utúlie’n aurë! Aiya Eldalië ar Atanatári, utúlie’n aurë!” (O dia chegou! Olhai, povo dos Eldar e pais dos Homens, o dia chegou!). E todos aqueles que ouviram a sua grande voz ecoar nos montes gritaram em resposta: “Auta i lómë!” (a noite está a passar!).

Ou

Por fim, Húrin encontrava-se sozinho. Então lançou fora o escudo e empunhou um machado com as duas mãos; e canta-se que o machado fumegou no sangue preto do guarda troll de Gothmog até o sangue secar e que, cada vez que o brandia, Húrin gritava: “Aurë entuluva!” (O dia voltará a nascer!).

No capítulo XXIV, outro trecho avassalador, quando Eönwë, arauto de Manwë, saúda Eärendil entre Tirion e o mar de Valinor.

“Salve Eärendil, dos marinheiros o mais famoso, o esperado que chega inesperadamente, o desejado que chega quando perdida é a esperança! Salve Eärendil, portador de luz perante o Sol e a Lua! Esplendor dos filhos da Terra, estrela na escuridão, pedra preciosa no crepúsculo, radiante na manhã”

Para os que se deliciam com a fantasia (gênero tão pouco respeitado e conhecido no Brasil) e conseguem pinçar elementos de beleza profunda e poesia destas construções literárias recheadas de analogias com o nosso tempo, O Silmarillion é uma parada obrigatória.

2 comentários:

james p. disse...

Olá,Barone.Não sei porque a crítica torce o nariz para Tolkien,para mim,um dos grandes escritores do século XX.o'Senhor dos anéis' é uma obra prima que ombreia com as maiores.Em termos de 'fantasia' acho difícil um outro livro supera-lo,especialmente a parte 3.O 'Silmarillion' também é alta literatura.
Parabéns pela análise.Esperamos mais resenhas!Abraços.

Tathy Panziera disse...

JRR Tolkien é perfeito. Gosto do estilo dele. Quero muito ler Silmarillion. Empresta?

Enfim, o que mais gosto é que no meio da narrativa ele coloca versos e canções, lembro das citação que ele escreveu para falar do Aragorn

"Nem tudo que reluz é dia, nem tudo que fulgura é ouro..."

Enfim, perfeito!