Semana On

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

"O Tradutor" - Daoud Hari

Cartum, 12 jan 2009 (EFE) - O Partido do Congresso Nacional (PCN) sudanês apresentou nesta terça-feira oficialmente seu líder, o presidente Omar al-Bashir, como candidato às eleições presidenciais e legislativas, previstas para o próximo mês de abril.
A Comissão Eleitoral sudanesa informou hoje em comunicado que vários dirigentes do PCN apresentaram os papéis da candidatura de al-Bashir depois que abriu hoje o prazo para fazê-lo.
Ontem, al-Bashir anunciou a renúncia como comandante supremo das Forças Armadas, que ocupava desde 1989.
Segundo a lei eleitoral de 2007, nenhum candidato às eleições parlamentares ou presidenciais pode ocupar um cargo militar. Por isso, a atitude de al-Bashir era necessária para que ele pudesse concorrer ao pleito.
Al-Bashir, de carreira militar e nascido em 1944, ocupou a chefia do Exército após o golpe de estado que liderou em 30 de junho de 1989 contra o então presidente Sadek al-Mahdi.
Em 4 de março do ano passado, o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra ele por crimes de guerra e crimes contra a humanidade na região sudanesa de Darfur, onde morreram mais de 300 mil pessoas desde fevereiro de 2003.

-

A reportagem acima é mais um triste capítulo do drama humanitário que se abate sobre Darfur. Bem provavelmente o amigo leitor jamais ouviu falar neste lugar. Não é de se espantar. Darfur é uma região afastada da realidade do Ocidente, escondida no oeste do Sudão e, como tal, merece pouco espaço na nossa mídia. No entanto, é exatamente ali que vem ocorrendo o mais recente caso de genocídio da história moderna. Desde 2003, quando o governo sudanês – comandado pelo general Omar al-Bashir - armou milícias de origem árabe para combater os povos não-árabes da área, cerca de 400 mil homens, mulheres e crianças foram massacrados e outros dois milhões e meio de seres humanos se tornaram refugiados.

Tendas verdes esfarrapadas e pedaços de plástico branco rasgados também presos a estacas servem de paredes e cobertura. No aclive da estrada, essa tênue fileira de trapos retorcidos se transforma numa imensa cidade de desesperados, como se toda a miséria e toda a tristeza do mundo tivessem se concentrado naquele lugar.

Três de cada dez mulheres nos campos de refugiados do Darfur são estupradas diariamente. Elas partem no lombo de jumentos por quilômetros, em busca de água e de lenha. Os homens não as acompanham, porque seriam mortos pelas milícias. Elas sabem o que vai acontecer, mas sua escolha é ser estuprada ou morrer de sede. A violência tornou-se tão corriqueira que a tradição de casar virgem está sendo abolida, pois as meninas começam a ser violentadas na mais tenra infância.

Este é o contexto do livro "O Tradutor”, de Daoud Hari, para quem o verdadeiro motivo do conflito é o petróleo e o urânio que se espalham pelo subsolo da região. Desde 2006 ele vive em Baltimore (EUA), onde se refugiou depois de uma mobilização internacional que reuniu de ídolos pop como Bono ao ex-presidente americano Jimmy Carter.

Daoud Hari fora preso pela ditadura sudanesa quando trabalhava como intérprete para Paul Salopek, da revista National Geographic, jornalista duas vezes premiado com o Pulitzer. Daoud, Paul e o motorista foram torturados por mais de um mês pelo exército sudanês e só saíram vivos por força da campanha internacional por sua libertação. Se voltar para o Sudão, Daoud poderá ser morto, assim como são mortos diariamente outros que não tiveram a sorte de aliar seu destino ao destino de algum figurão ocidental.

A história do sudanês que dedicou sua vida, seus contatos e suas palavras a ajudar jornalistas estrangeiros a denunciar o massacre de seu povo é contada em “O Tradutor”, livro que se transformou em roteiro de cinema pelas mãos de Jeffrey Caine, de "O jardineiro fiel" (2005).

“O Tradutor” é um documento sobre a insensibilidade, sobre o horror a que seres humanos se propõem a submeter outros seres humanos. Este horror se desfia nas páginas da obra, em passagens dantescas, situações que dificilmente podem ser apagadas da mente e que, certamente, acompanham suas testemunhas para o resto da vida.

Um dos janjaweeds começou a me matar de forma dolorosa. Minha filha não agüentou ver aquilo calada e correu em minha direção, gritando ‘Abba, abba’ (papai, na língua zaghawa). O homem que tinha me amarrado à árvore viu minha filha correndo em minha direção. Então baixou o rifle e enfiou-lhe a baioneta, empurrando a arma fundo, varando o ventre da menina. Mesmo assim, ela ainda conseguiu gritar ‘Abba, abba’. Ele então levantou a arma, ainda enfiada na barriga da minha filha, o sangue derramando sobre ele. Em seguida, começou a dançar com ela suspensa no ar e gritou para os companheiros: ‘Olhem só como estou bravo’. Os outros responderam em coro: ‘Você bravo, bravo, bravo’, enquanto matavam outras pessoas. Minha filha olhou para mim, demonstrando estar sentindo uma dor imensa, os bracinhos estendidos em minha direção. Ela ainda tentou dizer ‘Abba’, mas não conseguiu. Demorou muito para morrer, o sangue tão vivo, de um vermelho intenso, escorrendo sobre aquele... o que ele era? Um homem? A encarnação do mal? Ele estava pintado de vermelho, coberto com o sangue da minha filhinha. O que ele era?”

Bem perto da fronteira do Chade, passamos por uma árvore onde uma mulher e seus filhos estavam mortos. O terceiro morreu em nossos braços”, conta Daoud. A mulher tinha 30 anos. Fora capturada e presa com seus filhos quando sua aldeia foi destruída. Foi estuprada muitas e muitas vezes. Depois, foi largada para morrer no meio do deserto com seus quatro filhos pequenos. Dessa forma, os soldados economizariam munição. Sem suportar ver os filhos passar fome até a morte, embaixo do sol, a mulher enforcou-se com seu xale.

Outra cena presenciada por Daoud lembra a canção “Strange fruit”, de Abel Meeropol, tornada famosa na voz de Billie Holiday – que descreve como os corpos de negros linchados e enforcados em Indiana (USA) pareciam “frutas estranhas” penduradas nas árvores. Percorrendo uma região atacada pelas milícias patrocinadas pelo Sudão o autor deparou-se com os corpos de homens que haviam subido nas árvores, numa última tentativa de defesa de suas terras e famílias. Foram baleados e mortos. Quando Daoud e a equipe da BBC guiada por ele alcançaram o lugarejo, estavam mortos havia três dias. Braços, pernas e cabeças começaram a cair das árvores, esborrachando-se no chão. Em seguida, depararam com 81 corpos de homens e meninos mutilados. Parte da equipe da BBC, em choque, teve de voltar ao Chade para receber cuidados médicos.

Há uma parte morta na minha vida. Mas tenho de continuar denunciando que tudo continua piorando em Darfur. Isso é mais importante que meus sentimentos. O que está morto na minha vida é o modo como cresci, o modo como minha comunidade vivia, as montanhas, as árvores, os vales, os camelos, as cabras, as crianças brincando. Nada disso existe mais. Tudo foi destruído, e a maioria das pessoas com quem eu cresci está morta. São pesadelos que ficam no meu coração durante três ou quatro dias. É muito assustador o que eu vi lá. Como isso aconteceu? Como transformar isso em palavras?”, pergunta Daoud, que em junho passado esteve no Brasil para contar sua história no Antídoto – Seminário internacional de ações culturais em zonas de conflito, promovido pelo Itaú Cultural.

2 comentários:

Dan disse...

Barone, eu conheci primeiro o poeta.Que sou fã de carteirinha! Mas sempre que leio as prosas do jornalista, ou as resenhas do pesquisador. Eu me elevo quando vejo ou escuto (minha pista de captação é a auditiva, felizmente)algo do viés: "...Outra cena presenciada por Daoud lembra a canção "Strange Fruit" tornada famosa na voz de Billie Holiday...". Penso em você mais ainda como poeta. O jornalista está envergado pela notícia e o poeta altíssimo. Ora mencionando um fato mesclando a notícia, ora perpetuando uma linha de raciocínio executando uma interpretação - mas sempre poeta! Na realidade, eu quis dizer altíssimo não para glorificar o poeta em detrimento do narrador, do resenhista ou do jornalista, mas por você se expor, na resenha, com a coragem e a liberdade dos poetas.

Barone disse...

Meu caro, muito grato pelas palavras.