Semana On

sábado, 31 de outubro de 2009

Poesia aos sábados

Ópera-rock sobre o cárcere de Abaetetuba

1 – os fatos

Tinha quinze anos e subtraíra um Rolex made
in China ou um CD by Zona Franca de Manaus.

Por isso fora jogada
numa cela úmida de suor e porra.

Uma cela ocupada por homens exemplares,
educados na arte da pederastia e da extorsão
– onde trocava um copo d’água por uma chupada.

Tinha quinze anos e roubara pouco mais
de uns reais, que não lhe pagavam a fome.

Por isso fora jogada
numa cela feita de aço, músculo, testosterona.

Uma cela abarrotada de orações sinceras,
de sífilis, de gonorréia
– onde trocava fiapos de colchão por tapas na cara.

Tinha quinze anos e roubara um pedaço de pão
ou uma carteira de couro de avestruz.

Por isso fora jogada
numa cela fedendo a desinfetante de menta e cu.

Uma cela decorada com frases de ódio
e estelares bocetas globais
– onde trocava um prato de comida por uma trepada.


2 – o carcereiro

Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.

(O trânsito é um problema que o incomoda:
busina, semáforo, lhe tiram do sério.)

Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.

(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)

Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.

(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)

Nada perturba o seu sono.


3 – os detentos

Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu couve.

Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.

Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos

– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.

Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas

– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.

Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.

Aqui o sol é o mesmo para todos
e o interruptor o apaga.


4 – fim

cada casa é uma trincheira
que se defende de um inimigo invisível

(talvez seja o vizinho
ou nós mesmos – algo nos diz)

e rua a rua a guerra é perdida
pelo avanço de exército nenhum

Rafael Nolli, esta semana, no Poema Dia

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Israel usa água como arma de submissão

Em 1997, o então vice-diretor geral da UNESCO, Adnan Badran disse, no seminário "Águas transfronteiriças: fonte de paz e guerra", que a água substituiria o petróleo como principal fonte de conflitos no mundo, em especial no Oriente Médio. Este prognóstico foi reforçado pelo estudo divulgado em 2007 pelo Banco Mundial (Bird), segundo o qual a disponibilidade de água per capita no Oriente Médio vai cair pela metade até 2050.

Uma das faces mais dramáticas deste conflito pode ser vista nos territórios palestinos ocupados por Israel.

Hoje, Israel exerce controle sobre a bacia do rio Jordão (incluindo o alto Jordão e seus tributários), o mar da Galiléia, o rio Yarmuk e o baixo Jordão, além dos grandes sistemas de aqüíferos da região: o da Montanha (totalmente sob o solo da Cisjordânia, com uma pequena porção sob o Estado de Israel), o de Basin e o Costeiro, que se estende por quase toda faixa litorânea israelense até Gaza.

Nesta semana, um relatório da ONG Anistia Internacional acusou Israel de privar os palestinos do direito à água. Segundo a ONG, Israel usa 80% dos recursos, deixando aos palestinos apenas 20%. Mas, esta não é uma denúncia nova, vem se arrastando há anos sem que o mundo tome conhecimento.

Em setembro, a Assistência Humanitária das Nações Unidas para Territórios Palestinos, denunciou que 10 mil moradores estavam sem acesso à água encanada na Faixa de Gaza, enquanto 60% dos 1,5 milhão de habitantes da região teriam apenas acesso esporádico.

Em julho de 2008, a ONG israelense B'Tselem, que atua nos territórios ocupados palestinos, afirmou a existência uma grave falta de água na Cisjordânia, provocada por uma "política discriminatória de Israel".

"A escassez terá sérias conseqüências na economia e na saúde de dezenas de milhares de palestinos. A falta crônica de água é resultado em grande parte da política discriminatória de Israel na distribuição dos recursos hídricos conjuntos na Cisjordânia, e às reservas que impõe à Autoridade Palestina para cavar novos poços", sustentava o documento.

O relatório da Anistia estima que o consumo diário entre os israelenses seja de 300 litros de água, enquanto entre os palestinos é de apenas 70 - volume que cai para 20 litros entre palestinos residentes em áreas rurais.

O relatório da ONG diz que "os 450 mil colonos israelenses na Cisjordânia têm piscinas e irrigação intensiva em suas fazendas", com mais água do que os 2,3 milhões de palestinos, forçados a pagar mais pela água trazida em caminhões, de higiene duvidosa. A situação é pior em Gaza, mantida sob rígido bloqueio israelense.

Há uma injusta divisão da água, deixando muitas famílias (palestinas) com apenas duas horas de água por semana no verão. Ao lado você tem um assentamento com piscinas e estufas. O que você espera que estas pessoas pensem?”, questiona o Rabbi Arik Ascherman, do grupo israelense Rabbis for Human Rights, argumentando que este tipo de estratégia colabora para acirrar os ânimos dos palestinos contra os israelenses que ocupam suas terras.

Apesar das alegações israelenses de que a escassez é responsabilidade dos palestinos, que não reciclariam a água, seriam ineficientes na sua distribuição e não perfurariam poços já autorizados, a Anistia Internacional sustenta que "40 anos de ocupação e de restrições impediram o desenvolvimento de uma infraestrutura [de tratamento] de água nos territórios palestinos, negando a milhões de pessoas o direito a comida, saúde e desenvolvimento econômico".

Advogada ambientalista, coordenadora do programa Eco&Ação, presidente da ONG Ambiental Acqua Bios e da Academia Livre das Águas, Ana Echevenguá garante que Israel desenvolve uma estratégia agressiva sobre os recursos hídricos na região como parte de uma estratégia de domínio. No artigo “A água (que ninguém vê) na guerra”, ela sustenta que Israel não cumpre as leis internacionais relativas ao compartilhamento de águas transfronteiriças, recursos naturais que devem ser compartilhados, segundo a UNESCO, por pelo menos dois países.

Há regras internacionais para o uso dessas águas. Algumas destas obrigam Israel a fornecer água potável aos palestinos. Mas Israel não compartilha a água; afinal, tais regras internacionais não prevêem mecanismos de coação ou coerção; é letra morta. O Tribunal Internacional de Justiça, até hoje, condenou apenas um caso relacionado com águas internacionais”, afirma.

Em seu artigo, Echevenguá cita um trecho do livro “Novas e Velhas Ordens Mundiais”, de Noam Chomsky, no qual o então ministro da agricultura de Israel é entrevistado pelo jornal Jerusalém Post (em 1990), expondo de forma clara a estratégia israelense para o tema: “é difícil conceber qualquer solução política consistente com a sobrevivência de Israel que não envolva o completo e contínuo controle israelense da água e do sistema de esgotos, e da infra-estrutura associada, incluindo a distribuição, a rede de estradas, essencial para sua operação, manutenção e acessibilidade", disse o ministro.

Em 1993, o Acordo de Paz de Oslo estipulou que os palestinos deveriam ter mais controle e acesso à água da região. Um levantamento feito na ocasião pelo professor Haim Gvirtzman, da Hebrew University, concluiu que dos 600 milhões de metros cúbicos de água retirados anualmente de fontes na Cisjordânia, cerca de 500 milhões eram usados pelos israelenses, o que teria gerado um “direito adquirido sobre a água”.

Questionado sobre o acesso palestino à água, o professor respondeu: "Israel deve somente se preocupar com um padrão mínimo de vida palestino, nada mais, o que significa suprimento de água para que eles supram as necessidades urbanas. Isso chega a cerca de cinqüenta/cem milhões de metros cúbicos por ano. Israel é capaz de suportar essa perda. Portanto, não deveríamos permitir que os palestinos desenvolvessem qualquer atividade agrícola, porque tal desenvolvimento virá em prejuízo de Israel. Certamente, nunca permitiremos aos palestinos suprir as necessidades hídricas da Faixa de Gaza por meio do aqüífero montanhoso. Se purificar a água do mar é uma solução realista, então deixemos que o façam para as necessidades dos residentes da Faixa de Gaza".

Sim, a água é questão vital na disputa política entre as forças de ocupação israelenses e os palestinos. Um exemplo de como esta relação conflituosa pode ultrapassar os limites da razão é a vila de Beit Ula, na Cisjordânia, cujas nove cisternas - construídas com dinheiro da União Européia e dos moradores locais, palestinos - foram destruídas pelo Exército israelense, sob a alegação de que a vila estava em "área militar restrita".

Os israelenses bombardeiam tanques de água, grandes ou pequenos (muitas vezes construídos nos telhados das casas), confiscam as bombas de água, destroem poços, proíbem a exploração de novos poços e novas fontes (a Cisjordânia, em 2003, contava com cerca de 250 fontes ilegais e a Faixa de Gaza, com mais de 2 mil). Israel irriga 50% das terras cultivadas, mas a agricultura na Palestina exige prévia autorização.

Antes de devolver (simbolicamente) a Faixa de Gaza, Israel destruiu os recursos hídricos da região. Até hoje, os sistemas não foram re-implantados. Achim Steiner, subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas e diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), que visitou Gaza no primeiro semestre, afirmou que a situação já era séria antes da última ofensiva israelense (entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009), devido à inadequada infra-estrutura e à falta de reparos nas unidades de tratamento de esgoto e água. “Agora é muito pior”, garante.

O embargo de Israel bloqueou o fornecimento de material de construção necessário para reparar a devastada infra-estrutura de Gaza e de combustível suficiente para fazer funcionar as unidades de tratamento de água e resíduos. “Os dejetos perigosos e hospitalares não recebem tratamento. Esgoto, também sem tratar, foi bombeado ao mar e atingiu as camadas subterrâneas e o fornecimento de água potável, criando uma ameaça sanitária”, disse Steiner. O exército israelense tem mais de 600 postos de controle e barreiras rodoviárias em toda a Cisjordânia, o que prejudica o tráfego de caminhões-tanque que transportam esgoto das aldeias e dos povoados. Por isso, “os palestinos não têm acesso suficiente aos lixões ou capacidade para tratar o lixo adequadamente”, acrescentou.

Depósito de lixo

Outra estratégia macabra de Israel para impossibilitar o desenvolvimento da sociedade civil palestina é transformar os territórios ocupados em lixeiras a céu aberto. A destruição da infra-estrutura básica de distribuição de água potável e de saneamento na Faixa de Gaza faz com que entre 50 e 80 milhões de litros de esgoto sejam despejados diariamente no mar.

Em maio, o jornalista Mel Frykberg publicou um artigo arrepiante mostrando como esta estratégia de destruição da auto-estima e de empastelamento das condições básicas de higiene ocorre na prática.

Segundo ele, empresas israelenses usam as terras palestinas como depósitos de lixo a apenas US$ 30 a tonelada, muito mais barato do que utilizar lixões israelenses. Empresas israelenses que fabricam produtos potencialmente perigosos se instalam em territórios palestinos para evitar as rígidas leis que controlam as operações em Israel. Em Hebron, foram descobertos recentemente 500 barris de inseticida de procedência israelense.

Além disso, os moradores dos assentamentos judeus ilegais na Cisjordânia costumam jogar seu lixo e esgoto em rios e outras fontes de água. Segundo o Instituto de Pesquisa Aplicada de Jerusalém “o esgoto dos assentamentos não se restringe aos afluentes domestico, mas incluem pesticidas, asbesto, baterias, cimento e alumínio, que contêm compostos cancerígenos e perigosos”.

Fotojornalismo

Palestinos enchem galões de água num carro-pipa, em Qarawat Bani Zeid, Cisjordânia. A Anistia Internacional acusou nesta nesta semana Israel de privar os palestinos de água, deixando os colonos israelenses na Cisjordânia usarem quantidades "quase ilimitadas". Foto da AFP.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Fotojornalismo

Homem carrega o corpo de um menino morto em ataque a um mercado em Peshawar, no Paquistão. Cerca de 100 pessoas, a maioria mulheres e crianças, perderam a vida no atentado que aconteceu cerca de três horas após a chegada da secretária de estado dos EUA, Hillary Clinton ao país. Foto de Fayaz Aziz/Reuters.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Comercial e editorial

Temos uma separação bem clara entre Igreja e Estado, o ‘cara do comercial’ é um cara com quem eu tenho uma boa relação, mas brigo. É melhor por em risco a viabilidade comercial do veículo do que a boa informação

Pedro Doria, editor-chefe de conteúdos digitais do Grupo Estado, hoje, no Media On 09.

BBC Online investirá forte em mídias sociais

Interessante a entrevista com a editora-executiva da BBC News Online, Nathalie Malinarich, conduzida por Beth Saad (Professora titular da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP e diretora de estratégia da Digital Happenings) no Media On 09.

Malinarich é responsável pela área internacional do site bbc.com/news e há nove anos ela participa do dia-a-dia do serviço online, atuando em programação interativa, infográficos, reportagem e edição da primeira página.

Ela disse que a BBC News investirá forte em mídias sociais e que em breve terá um editor de mídias sociais trabalhando lado a lado com a equipe de jornalistas, na redação. “Esta pessoa não apenas utilizará e ajudará a utilizar a mídia social como ferramenta, mas ajudará a pensar nos investimentos no setor”, afirmou.

O jornalismo nasceu para servir uma comunidade e alimentar ela de informação

O jornalismo nasceu para servir uma comunidade e alimentar ela de informação. A Internet foi feita para jornalismo, ainda que não profissional. A informação bem apurada continua sendo absolutamente necessária para que o mundo continue coeso.

Pedro Doria, editor-chefe de conteúdos digitais do Grupo Estado, hoje, no Media On 09.

Se quer permanecer jornalista, viva online o quanto puder

Infelizmente, falo do ponto de vista americano. Você não terá esse trabalho (de jornalista) para sempre. Não conheço as especificidades do Brasil. Nos Estados Unidos, muitos migraram para organizações públicas, para o governo. Muitos atuam como detetives particulares. Se quer permanecer jornalista, viva online o quanto puder. Esse é o conselho mais valioso que posso dar. Faça um blog sobre aquilo que você se interessa, dissemine isso no Twitter. Aprenda a trabalhar com multimídia, aprenda a usar flash, programação. O número de pessoas que fazem isso hoje é pequeno. Se você conseguir isso, estará um passo à frente”.

Joshua Benton, jornalista investigativo e diretor do Nieman Journalism Lab, da Universidade de Harvard, dos Estados Unidos, ontem, no Media On 09. Interessante também a entrevista concedida por ele ao jornal Folha de S.Paulo, sobre o jornalismo contemporâneo.

Câmara insiste no obscurantismo e vota hoje obrigatoriedade do diploma

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara deve votar nesta quarta-feira a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que estabelece a necessidade de curso superior para o exercício da profissão de jornalista. A PEC, do deputado Paulo Pimenta (PT-RS), foi apresentada depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou a exigência de diploma para o exercício da profissão e visa incluir na Constituição um dispositivo que estabelece a necessidade do curso superior. A PEC também estabelece que nenhuma lei poderá conter dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação.

Na hipótese de ser aprovada, a PEC será julgada inconstitucional pelo Supremo, que já definiu categoricamente a questão. O presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, descartou no final de junho a hipótese de o Congresso reverter a decisão da Suprema Corte.

"Não há possibilidade de o Congresso regular isto, porque a matéria decorre de uma interpretação do texto constitucional. Não há solução para isso. Na verdade, essa é uma decisão que vai repercutir, inclusive sobre outras profissões. Em verdade, a regra da profissão regulamentada é excepcional, no mundo todo e também no modelo brasileiro", disse Gilmar Mendes.

Na avaliação do presidente do STF, o decreto-lei 972/69, que estabelece que o diploma é necessário para o exercício da profissão de jornalista, não atende aos critérios da Constituição de 1988 para a regulamentação de profissões.

A presidente da Associação Nacional dos Jornais, Judith Britto, explica: “O processo legislativo de emenda constitucional não pode ser uma instância a mais de recurso contra decisões do Poder Judiciário. E seria esdrúxulo ter na Constituição uma regulamentação para o exercício da profissão de jornalista, como para qualquer outra atividade profissional. A Carta Maior é um documento de princípios gerais, filosóficos mesmo, e por isso não contém absolutamente nenhum tipo de regulamentação profissional.

A insistência do sindicato em manter este debate em detrimento de outros mais importantes para a profissão, como a qualidade dos próprios cursos de Jornalismo que se espelham pelo País e vomitam anualmente uma massa de graduados despreparados para exercerem a profissão – salvo exceções – é resultado da política que se apóia única e exclusivamente no corporativismo, na reserva de mercado, em uma visão burra da profissão.

O sindicato, assim como grande parte da academia, passou anos evitando um debate honesto sobre o assunto, propagando uma visão distorcida sobre o tema. Diziam que a não exigência do diploma inundaria o mercado com profissionais sem capacitação, que haveria desvalorização salarial e profissional. Balela. Hoje estes argumentos caíram por terra, nada disso ocorreu. Mesmo antes da decisão do Supremo, mas quando já vigorava liminar que desobrigava as empresas jornalísticas de contratarem exclusivamente os formados em escolas de jornalismo, elas prosseguiram na contratação de profissionais com essa qualificação. É assim na maior parte das democracias do mundo, onde não há a exigência do diploma universitário de jornalista para o exercício da profissão, mas existem excelentes cursos de jornalismo.

O fato é que ninguém é contra a qualificação dos jornalistas por meio de cursos universitários, o problema é que não se pode impor esta exigência sem ferir o princípio da liberdade de expressão. Além disso, e principalmente, para o horror dos jornalistas de sala de aula, não há nem mesmo um currículo mínimo consensual para a formação jornalística.

Leia mais sobre este tema
- Gay Talese: "Um diploma não torna você um jornalista"
- Diploma e Jornalismo: visões inglesas e argentinas
- Ainda, o diploma
- Diploma: algumas leituras sobre o tema
- Caiu a exigência do diploma: viva o Jornalismo
- Na semana em que pedi a colação de grau o STF pode derrubar o diploma
- Ainda o diploma para jornalistas
- Sobre o diploma para jornalistas
- Diploma: lucidez em meio ao obscurantismo
- A desqualificação como argumento
- Mantido ou não o diploma, algo muda no nosso Jornalismo?
- Com ou sem diploma?
- Priscila, Greenpeace e o canudo
- Os defensores do diploma e seus debates imaginários
- Debate sobre o diploma de jornalismo... que debate?

Resenhas para todos os gostos

Para quem gosta de resenhas, seguem as minhas últimas leituras. É um material diversificado, que inicia por Gogol, passa por Robert Fisk, JRR Tolkien, Foucault, Laurentino Gomes, Cortazar e afins.

Adeus Robinson e outras peças curtas - Júlio Cortazar
Leoa ou gazela – Flávia Perez
As ruínas - Scott Smith
O Chamado de Cthulhu e outros contos - H.P. Lovecraft
1808 - Laurentino Gomes
Confissões de um assassino econômico - John Perkins
O mundo sem nós - Alan Weisman
Vigiar e Punir - Michel Foucault
O Silmarillion - JRR Tolkien
A grande guerra pela civilização: a conquista do Oriente Médio - Robert Fisk
29 Fragmentos - Alyne Costa
Drácula - Bram Stoker
Tarás Bulba - Nikolai Gógol

Fotojornalismo

A rebelião na unidade de Campinas (SP) da Fundação Casa acabou ontem por volta das 18h50 de ontem, depois de quatro horas de negociações. Três professoras, que ficaram reféns sob a mira de canivetes e barras de ferro foram soltas. A rebelião começou após uma tentativa fracassada de fuga. Os adolescentes então colocaram fogos nos colchões e fizeram sete funcionários reféns. Após pouco tempo, os quatro primeiros funcionários foram libertados. Após negociações, os outros três professores foram liberados. Foto do site Terra.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A Imagem da Mulher na Mídia - Como você vê esta relação?

Acontece nesta quarta-feira (28), em Campo Grande (MS), a conferência livre "A Imagem da Mulher na Mídia - Como você vê esta relação?". Promovido pela Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para a Mulher, o evento tem como proposta discutir o reforço de estereótipos femininos nos veículos de comunicação.

O tema já foi discutido aqui no Escrevinhamentos, em especial a partir do artigo “Toda brasileira é bunda?”, publicado em dezembro do ano passado, e é sempre motivo para bons debates. É o que propõe a conferência já que, “com as conquistas no mercado de trabalho, política, dentro da família e na sociedade, as mulheres ainda enfrentam diariamente a luta contra idéias prontas e conceitos previamente estabelecidos sobre sua imagem no convívio social.”

Segundo Valéria Mont' Serrat, assessora técnica da Coordenadoria da Mulher, a principal iniciativa da conferência é combater o reforço de estereótipos femininos. "Queremos entender como a mulher se vê na mídia, como ela quer e como não quer ser retratada. E o diálogo entre as instituições de defesa dos direitos da mulher e os veículos de comunicação vem agregar o debate, permitindo que todos sejam ouvidos e que se chegue a um consenso sobre o tema".

A idéia de mulheres bonitas, com forte apelo sexual, ainda é veiculada em propagandas e vendida ao exterior como principal atrativo do Brasil. Submissão de mulheres, choque de valores e a construção de uma identificação feminina sólida e que seja condizente com a realidade tornam-se necessidades urgentes de toda a sociedade.

A abertura da conferência será com o tema "A imagem da mulher na mídia - A visão de quem faz a notícia", com dois paineis (rádio e TV; impresso e internet). A seguir, serão debatidos temas autosugestionados, como "Qual o sexo da notícia?"; "Propaganda de cerveja sem mulher?", sobre o apelo sexual da publicidade; "Rir é mesmo o melhor remédio?", abordando os estereótipos nos programas femininos; e "Um tapinha não doi?", que engloba música, vulgarização da sexualidade feminina e banalização da violência contra a mulher.

A Conferência Livre "A Imagem da Mulher na Mídia" é voltada aos organismos de defesa dos direitos das mulheres e profissionais de comunicação. O evento acontece no dia 28, a partir das 13 horas, na Escola de Governo de Campo Grande, localizada na Avenida Ernesto Geisel, 4009.

Atuam como parceiras do evento Articulação de Mulheres de Mato Grosso do Sul/AMMS; União Brasileira de Mulheres/UBM; Coletivo de Mulheres Negras "Raimunda Luiza de Brito"; Coordenadoria da Juventude; Movimento de Estudos de Sexualidade, Cultura, Liberdade e Ativismo de Mato Grosso do Sul/MESCLA; ABGLT; Núcleo de Estudos de Gênero da UFMS/ NEG-UFMS; Marcha Mundial de Mulheres-MS/MMM-MS, entre outras.

Fotojornalismo

Refugiadios do Sri Lanka, resgatados pela guarda costeira australiana, aguardam autorização para is para a Indonésia. Foto de Vivek Prakash, da Reuters. Nos seis primeiros meses deste ano, 185 mil pessoas apresentaram pedidos de asilo em 38 países industrializados europeus, Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália, Nova Zelândia e na República da Coréia. Este número representa um incremento de 10% com relação ao mesmo período do ano passado, segundo o informe publicado pela Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

75% dos pedidos de asilo foram encaminhados a países europeus, embora os Estados Unidos continuem sendo o maior receptor em nível individual, com aproximadamente 13% de todos os pedidos apresentados. A França é o segundo destino, com 10% de todos os pedidos (19.400), seguido do Canadá (18.700), Reino Unido (17.700) e Alemanha, em quinto lugar (12 mil).

Pelo quarto ano consecutivo, é do Iraque que vem a maioria dos refugiados, com 13.200 pedidos. Afegãos (12.200) e somalis (11 mil) são respectivamente o segundo e o terceiro maiores grupos, à medida que suas condições de segurança pioram. Em seguida, vêm a China, Sérvia (incluindo Kosovo), a Federação Russa, Nigéria, México, Zimbábue, Paquistão e Sri Lanka.

A movimentação de pessoas não tende a diminuir: segundo o Acnur, no segundo semestre de 2009 poderá se observar um maior incremento no número de pedidos de refúgio nos países industrializados.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Adeus Robinson e outras peças curtas - Júlio Cortazar

“Adeus Robinson” foi originalmente escrito por Júlio Cortazar para o rádio (ouça aqui). A peça traz de volta à ilha de Juan Fernández o britânico Robinson Crusoé e seu companheiro “selvagem”, sexta-feira. Palco para que Cortazar construa uma análise sobre a solidão humana – “não há lugar para os náufragos da história, para os senhores da poeira e da fumaça, para os herdeiros do nada” - a peça foi definida por Fausto Wolff como uma “pequena obra-prima”.

O texto compõe o livro “Adeus Robinson e outras peças curtas”, publicado postumamente em 1995, que traz também as peças “Peça em Três Cenas” e “A Temporada das Pipas”, ambas escritas entre 1948 e 1950, e “Nada para Pehuajó”, desenvolvida pelo autor nos anos 70.

O primeiro texto traz o teatro do absurdo como referência, “idéias colocadas no palco onde, certamente, pensava o autor, poderiam ser melhor julgadas em seu experimentalismo no qual é bastante visível a influência do teatro de Jean Cocteau”, sintetiza Wolff. De fato, há em “Peça em Três Cenas” momentos de extrema poesia entrecortados a um conjunto lisérgico. O conjunto, propriamente dito, se perde em meio aos momentos entrecortados de lirismo.

Ninguém deve abrir as luas. Dentro delas ou está o horror ou está o nada, mas às vezes lá dentro existem cachorros ou seres disformes que atacam porque não esperavam ser descobertos”.

A noite vai durar até as cinco e cinqüenta e cinco, e depois começa esse trapo sujo que também chamam amanhecer”.

A luz é livre para andar por onde quiser

...pobres dos que acreditam ainda ser os de antes...

Em “A Temporada das Pipas”, Cortazar continua trafegando pelo teatro do absurdo em um cenário campestre habitado por personagens improváveis e momentos de poesia explícita.

O senhor ordena: ‘a partir de amanhã os girassóis deverão ser azuis. Todo girassol amarelo será decapitado’”.

Aquilo que se diz cria asas. E então...

Não gosto deste caminho. Não sei se andamos por ele ou se é ele que anda por nós

A normalidade é uma coisa muito sobrenatural

A terceira peça do livro, “Nada para Pejuahó” tem lances kafkanianos e também trafega pelo mesmo clima que as duas primeiras, tendo, ainda, na comédia um pé bem fincado ao analisar “a louca obstinação da classe-média lutando por valores que lhe foram impostos e dos quais não pode e nem quer se livrar, na medida em que confunde o real com o verdadeiro, a ponto de perder de vista o fim que lhe dá significado”, para continuar citando Wolff.

Mas o senhor tem certeza de que sabe o que é isso? Todos falam muito do dever... Sempre usam essa palavra quando causam mal a alguém, ou quando causam ma a si mesmos...

Considerado um dos autores mais inovadores e originais de seu tempo, mestre do conto curto e da prosa poética, Cortazar nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 26 de agosto de 1914. Sua família viveu na Suíça até o final da guerra, quando retornou à Argentina. Opositor do peronismo, abandonou o país em 1951. Mais conhecido no Brasil pelo seu romance “O Jogo da Amarelinha” (1963), faleceu de leucemia em 12 de fevereiro de 1984.

Fotojornalismo

Palestinos olham barricada após confronto com policiais israelenses que deuxou 20 feridos ontem, em Jerusalém. Os conflitos aconteceream após líderes relçigiosos terem convocado os muçulmanos para protegerem os lugares sagrados da religião. Foto de Menahen Kahana/France Presse

domingo, 25 de outubro de 2009

sábado, 24 de outubro de 2009

Poesia aos sábados

O Tigre

E o tigre de mil bocas rolou, estilhaçando o solo.
E a cotovia cantou em algum lugar do Norte.
E a fumaça subiu enquanto assavam búfalos
E os galos fugiram do amanhecer, mudos de espanto
E Pedro negou dez, Judas beijou quarenta,
E todos os jornais negaram infinitas vezes.
E o ouro escorreu pelas mãos ávidas dos poderosos
Enquanto o tigre de mil bocas, faminto
Levantou seu dorso esquálido
E com uma só patada,
destruiu, engoliu, arrasou
E comeu
Ricos e pobres, brancos e negros, judeus e palestinos
americanos e árabes, europeus e latinos,
oriente e ocidente
oceanos e nuvens
O tigre de mil bocas digeriu o mundo
Depois dormiu cem anos esperando o Messias.

Maria Helena Bandeira, esta semana, no Poema Dia.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Uma chance de ajudar os animais abandonados

Neste domingo, 25, das 8h às 12h, nos altos da Avenida Afonso Pena (próximo ao Parque das Nações Indígenas), a ONG Abrigo dos Bichos participará de um evento promovido pela Fundação de Esporte (FUNESP), onde, juntamente à comemoração do Dia da Criança, haverá uma ação de conscientização sobre os direitos dos animais.

O Abrigo dos Bichos vai comercializar camisetas (R$ 20) e adesivos (R$ 5) para arrecadar fundos com o objetivo de quitar despesas de animais abandonados e vítimas de maus tratos que os voluntários da ONG resgatam e encaminham para adoção.

Mais informações com Andréa (Dir. Adm. do Abrigo dos Bichos) nos telefones 8406-2288 e 9237-2596.

Fotojornalismo

A violência urbana no Rio de Janeiro ultrapassou os limites. Em meio a comunidades esquecidas pelo poder público, sem forças para fazer frente ao domínio de traficantes e milícias armadas, o homem de bem sucumbe a permissividade e crianças crescem acostumadas ao inaceitável. Foto publicada hoje no Terra.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Para Lula, imprensa boa é imprensa domesticada

A entrevista exclusiva concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao jornalista Kennedy Alencar, publicada hoje no jornal Folha de S.Paulo, é apavorante e entristecedora. Apavorante no que diz respeito à forma como a qual o presidente encara o papel da imprensa e entristecedora ao mostrar que Lula se sente muito à vontade em meio ao circo da política tradicional brasileira. Na entrevista, Lula endossa a síntese feita recentemente pelo jornalista Otávio Cabral no artigo “O dono do PT”, sobre a crise de identidade do partido e o domínio de Lula sobre ele. Segundo Cabral, as prioridades de Lula “pela ordem: Luiz Inácio da Silva, Lula e Lula”.

Os conceitos políticos do presidente assustam, embora não sejam novos. Eles permeiam a prática das velhas raposas que vivem cercando o galinheiro, mamando as tetas do estado, perpetuando sua influência na coisa pública. Os conceitos políticos do presidente assustam por ter Lula um passado que, teoricamente, não o credenciaria a estabelecer uma relação de normalidade com a anormalidade que rege a política brasileira. Lula não deve ser demonizado, ele não é pior do que os cercam, é igual.

Em janeiro de 2003 tive a oportunidade de entrevistar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pouco depois da sua posse. O PT tomava, finalmente, o comando da nação e alimentava em muitos brasileiros a esperança de um futuro melhor. Tendo isso em mente, perguntei ao presidente se ele temia a possibilidade de seu governo decepcionar os milhões de eleitores que sempre haviam apostado nele e no PT como a possibilidade de uma guinada radical no jeito de se fazer política neste País. Lula, como era de se esperar, respondeu que não e disse uma frase marcante: “Acredito que só tem sentido uma pessoa como eu chegar à Presidência da República se for para fazer diferente do que foi feito até agora”.

Uma pena que o presidente tenha ficado apenas em palavras vazias. Depois de sete anos no Governo, Lula falhou miseravelmente em sepultar as práticas corrosivas da política nacional no que ela ainda tem de pior: o clientelismo, o paternalismo e o personalismo.

Ao dizer a Kennedy Alencar que a manutenção de José Sarney na presidência do Senado foi uma “questão de segurança institucional”, que sua queda seria “o único espaço de poder que a oposição tinha” e que, se ela ocorresse, a oposição faria “um inferno neste país”, Lula diz claramente que o que importa não é combater a corrupção, mas criar mecanismos que mantenham seu grupo político no poder, custe o que custar.

Qualquer um que ganhar as eleições, pode ser o maior xiita deste país ou o maior direitista, não conseguirá montar o governo fora da realidade política. Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma diferença do tamanho do oceano Atlântico. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”, afirmou o presidente. Mais claro impossível.

Para o jornalista Clóvis Rossi, a posição do presidente apenas reforça a imagem de "metamorfose ambulante", que o acompanha desde a vitória eleitoral de 2002. “O triste é que Lula passou da metamorfose à rendição a uma realidade política horrorosa”, reflete e vai além “Que Lula tivesse obsessão com a governabilidade até dá para entender. Que desista de ao menos tentar reformar a ‘realidade política’ é um irremediável desastre”.

A imprensa

Em 2006, no artigo “Lula e a imprensa”, Mario Sergio Conti disse que Lula entende perfeitamente o papel dos jornalistas, mas que não possui o entendimento de que “não foi capaz de cumprir o prometido: começar a mudar o Brasil”. Creio que não. Penso que um olhar sobre a relação de Lula com a imprensa nos faz considerar esta análise e concluir que o presidente não compactua com a idéia de uma imprensa livre.

Foram muitos os momentos em que Lula espezinhou a importância da imprensa nestes sete anos, dando mostras de que tem uma visão “bolivariana” de seu papel: servir como porta voz do governo. Já nas primeiras críticas ao seu governo, o presidente fez questão de expressar seu desejo de criar “algum mecanismo de controle externo da mídia”, mostrando sua simpatia pelo autoritarismo que já começava a ser implantado na Venezuela de Hugo Chaves.

Em discurso proferido ano passado, em Nova York – onde recebeu o Prêmio Inter Press Service (IPS) International 2008, concedido a personalidades engajadas na luta pelos direitos humanos e pela justiça social – o presidente defendeu a liberdade de imprensa. “A liberdade de imprensa é uma garantia contra os desmandos do poder e eu sou o resultado da democracia e da liberdade de imprensa. Nunca teria chegado à Presidência da República do meu país e não seria o que sou se não fosse a democracia", afirmou na oportunidade. Foi para americano ouvir.

A declaração de Lula à Kennedy Alencar, segundo a qual o papel da imprensa não é o de fiscalizar, mas apenas o de informar, é preocupante. “Para ser fiscal, tem o Tribunal de Contas da União, a Corregedoria-Geral da República, tem um monte de coisas”, afirmou. Um Presidente da República que sequer imagine que a imprensa não deva fiscalizar as ações do governo não pode ter compromisso com a verdade.

Ao completar seu raciocínio, Lula tentou corrigir a derrapada: “A imprensa tem de ser o grande órgão informador da opinião pública. Essa informação pode ser de elogios, de denúncias sobre o governo, de outros assuntos. A única coisa que peço a Deus é que a imprensa informe da maneira mais isenta possível, e as posições políticas sejam colocadas nos editoriais”.

Ocorre que não é a primeira vez que o presidente sai da pista ao se referir a atuação da imprensa. Ano passado, durante a inauguração da segunda casa de força da usina hidrelétrica da Tucuruí, no Pará, Lula criticou a atuação da imprensa que, em sua opinião, destaca as coisas ruins em detrimento das boas. “Ou será que a nossa cabeça está condicionada a pensar que o bom é obrigação fazer e só o mal tem que mostrar”, questionou.

Fica claro que, na concepção do presidente, liberdade de imprensa é boa quando esta está alinhada aos interesses do governo.

Fotojornalismo

Para o presidente Luiz Inácio Lula a Silva a imprensa não deve fiscalizar, apenasn informar. Para a população, cabe fechar os olhos e rezar. Foto de Alan Marques/Folha Imagem.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Ato Médico é retrocesso para a saúde

O PL 7703, o Ato Médico, fere a autonomia de fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas, dentistas, farmacêuticos e profissionais das áreas de Educação Física e Assistência Social.

O projeto de lei confere ao médico a exclusividade no diagnóstico nosológico (identificação da doença ou disfunção, através de avaliação de sintomas e sinais) e na prescrição terapêutica (tratamento recomendado), o que fere a autonomia de outros profissionais de saúde. A Medicina é a precursora da Ciência da Saúde. Porém, também existem outras profissões, que surgiram de atos legalizados. Não se pode restringir a Medicina a um único profissional.

O projeto também retira da população a liberdade de escolher a quem quer recorrer. Ainda nas área de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, o projeto engloba outros dois pontos considerados restritivos.

O primeiro diz que compete apenas aos médicos realizar procedimentos invasivos na derme e epiderme, enquanto muitos fisioterapeutas são capacitados, por exemplo, a realizar procedimentos como os de acupuntura.

Outro afirma que é de poder exclusivo do médico a prescrição de órteses (dispositivos auxiliares a uma função). A prescrição de órteses é, há muito tempo, de competência de fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.

O autoritarismo de branco e o Ato Médico

“Nossa posição é clara e cristalina: nós não abriremos mão da prerrogativa do diagnóstico, do tratamento e do comando da equipe multidisciplinar no tratamento de um paciente. Do contrário seria negar a Medicina. Precisamos debater sobre o quê podemos avançar para o paciente”.
Ronaldo Caiado - Deputado Federal (DEM-GO) e médico durante debate sobre o projeto de lei mais conhecido como ATO MÉDICO.

A OMS - Organização Mundial da Saúde, define SAÚDE como sendo “o bem estar físico, psíquico e social do ser humano e não somente a ausência de enfermidade ou invalidez”. Quer os médicos, senhores da razão, CONCORDEM ou NÃO, esta é a definição aprovada e chancelada pelos países de todo o mundo através da entidade maior da saúde.

Dentre vários significados, esta definição traz um emblemático que é a multidisciplinaridade. Que quer dizer, a Saúde é uma construção feita por 14 diferentes áreas de atuação profissional, todas muito importantes para a recuperação do paciente e não apenas por uma única, hegemônica, auto-suficiente e soberana, como querem impor alguns médicos (entre eles o Dr. Ronaldo Caiado) às outras 13 profissões.

Há casos de países desenvolvidos, como a Itália, que o profissional que cuida da prevenção das doenças recebe remuneração maior do que aqueles especializados em procedimentos de alta complexidade, como por exemplo as cirurgias cardíacas. A lógica é simples: quando há prevenção, as pessoas precisam bem menos de operar o coração.

Portanto o paciente necessita, com o mesmo grau de importância, de cuidados e da atuação de profissionais especializados para atuar em situações diferentes. Dos cuidados dos enfermeiros; das informações dos farmacêuticos sobre o uso correto de medicamentos; da orientação do psicólogo; das técnicas do fisioterapeuta e do fonoaudiólogo, das dietas receitadas pelos nutricionistas; dos laudos dos exames de sangue e hormonais feitos pelos bioquímicos e de todos os outros profissionais. E precisam muito do médico. Da atuação do médico. As outras 13 profissões reconhecem e valorizam esse profissional.

Observação: Os relatos feitos acima são endereçados ao Deputado Federal Ronaldo Caiado que chegou atrasado para o debate, que aconteceu nesta quarta feira 14/10 na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados sobre o PL 7703/06, mais conhecido como ATO MÉDICO, e saiu antes de terminar. Por que pelo que disse em seu pronunciamento revelou um profundo autoritarismo e retrocedeu a saúde a um momento remoto da evolução humana e envolto na luz de velas que ainda emanam do candelabro, em um canto escuro da medicina medieval.

Farmacêutico Danilo Caser
Presidente da FEIFAR
para entrar em contato envie seu email para feifar@feifar.org.br

A Terceira Margem do Sena, no OPS!

O blog A terceira margem do Sena do excelente Leonardo Souza integra agora o coletivo O Pensador Selvagem (OPS!), imaginado pelo não menos interessante Rafael Reinehr. O blog do Lelec é um dos espaços mais instigantes da blogosfera. Vale a pena visitar com freqüência.

Fotojornalismo

Judeu ultraortodoxo sobre em bloco de concreto para observar o mundo por detrás do muro que cerca o assentamento de Modilin Illit, a maior comunidade judáica no território ocupado da Cisjordânia. Foto de Nati Shohat/EFE.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Atire a primeira pedra quem apóia a burca

O artigo a seguir foi publicado originalmente no Amálgama, no dia 31 de agosto. Trata-se de um debate interessante, por isso volto a publicá-lo aqui no Escrevinhamentos, com atualizações.

“Os submissos e as submissas, os crentes e as crentes, os homens obedientes e as mulheres obedientes, os homens leais e as mulheres leais, os homens perseverantes e as mulheres perseverantes, os homens humildes e as mulheres humildes, os homens caridosos e as mulheres caridosas, os homens que jejuam e as mulheres que jejuam, os homens castos e as mulheres castas, os homens que invocam a Deus com freqüência e as mulheres que invocam a Deus com freqüência – para todos eles, Deus preparou a indulgência e grandes recompensas.” (Sura 33:35)

Uma derrota militar pode ter sido a origem de práticas que colocam a mulher em um patamar de inferioridade no islamismo fundamentalista. Quando Aisha – a mais querida e respeitada das mulheres de Maomé – caiu em desgraça após ter sido derrotada nas convulsões religiosas que se seguiram à sucessão do profeta, muitos de seus comentários e correções sobre importantes Hadith foram suprimidos ou ignorados. Desde então, os Hadith tornaram-se a principal justificativa para a inferioridade feminina imposta pelos que interpretam o Corão a ferro e fogo, embora esta visão não estivesse presente nas origens do islamismo.

Mais de 1400 anos depois, quando o presidente da França Nicolas Sarkozy afirmou que o uso da burca representava “subserviência” e “humilhação” para as mulheres, muita gente se apressou em condená-lo sob o argumento de que a prática é parte de uma visão de mundo ancorada em bases religiosas, cuja existência não nos cabe negar. Devemos reconhecer a existência do outro, sua cultura complexa e diferente da nossa, dizem os que se apóiam no relativismo cultural para validar práticas que degradam o ser humano: como o uso da burca.

As declarações de Sarkozy geraram uma onda de protestos sob a égide da defesa da “liberdade religiosa”, consagrando a tese segundo a qual se a servidão é voluntária, o problema é do servo. E o governo não tem nada a ver com isso. A Human Rights Watch, repudiou o prounciamento de Sarkozy argumentando que: "A liberdade de exprimir a religião e a liberdade de consciência são direitos fundamentais”

A polêmica francesa começou quando parlamentares pediram uma investigação sobre o uso da vestimenta no país. Desde então, uma série de incidentes se seguiram, como o caso de uma mulher de 35 anos que foi impedida de usar uma piscina pública na cidade de Emerainville, a 30 km de Paris, trajando um “burkini” (roupa de banho que cobre todo o corpo). A proibição da burca em lugares públicos vem sendo analisada pela Assembléia Nacional francesa desde 1º de julho e um parecer deve ser divulgado nos próximos meses.

Nesta semana, o chefe do Conselho Francês de Muçulmanos, Mohammed Moussaoui , afirmou que a burca é usada por uma minoria na França e considerou que o debate nacional estigmatiza toda a comunidade muçulmana. Moussaoui afirmou que qualquer decisão legislativa sobre a burcapode alimentar um sentimento de descriminação. Para ele, o debate ganhou "dimensões inesperadas" e "os muçulmanos estão cada vez mais confrontados com estereótipos cuja consequência é a estigmatização de uma religião inteira".

Um caso que a primeira vista parece burlesco, pede, na verdade, profundas reflexões. Há nele um abismo. A proibição da burca, caso seja oficializada, se configurará na extrapolação da vontade do estado sobre a vontade do indivíduo. Se alguém quer, por livre e espontânea vontade, esconder-se do mundo sobre um manto negro, este direito individual deve ser protegido pelo Estado e não cerceado. O que não se deve permitir é que este hábito seja imposto a quem não quer adotá-lo. Ou seja, o que deve ser proibido é a imposição e não a escolha. Se uma freira quer manter seu voto de castidade, sua vida regrada e regida pelos conceitos da cristandade, bem. O que não se pode admitir é que a Igreja obrigue todas as mulheres a seguirem tal padrão de comportamento.

É o que pensa a escritora iraniana (radicada nos Estados Unidos) Azar Nafisi: “O problema não é a religião, mas quando a religião se transforma em Estado, quando a religião vira lei. A submissão total e irrestrita nunca fez parte da cultura das mulheres do Irã. A questão não é usar ou não o véu. É se a mulher tem o direito de escolher, se pode interpretar a religião da forma que bem entender. Eu não gosto de usar véu, mas não digo que seja errado. Digo que não é certo impô-lo a todas. O problema atual não é a religião. É a liberdade de escolha.”

No Sudão, a jornalista Loubna Ahmed al-Hussein não teve o direito de escolher. Por vestir calças, escapou (graças à pressão internacional) de ser condenada a 40 chicotadas, embora tenha sido condenada a um mês de prisão e multa de 200 dólares. Ela foi detida no início de julho, quando estava em um restaurante na capital, Cartum, com outras 12 mulheres. Dez delas foram imediatamente convocadas pela polícia do Sudão e receberam dez chicotadas cada uma. A punição tem como base o artigo 152 do código penal sudanês que prevê a pena a todo aquele que “comete um ato indecente ou um ato que viola a moralidade pública ou use vestuários indecentes”, segundo o texto da lei. Loubna escreve num diário sudanês e trabalha para a seção de comunicação da missão da ONU no país.


"O direito à liberdade religiosa não é uma carta-branca dada ao clero para afrontar outros direitos fundamentais da pessoa humana. Pena de lapidação para mulheres adúlteras, mutilação genital feminina e obrigatoriedade do uso da burca não são um exercício razoável do direito à liberdade religiosa, mas uma violação gritante ao direito fundamental à igualdade entre os gêneros que está consagrado nos estados democráticos contemporâneos.”, sintetiza o excelente Túlio Vianna

Além do direito de escolha, está a nossa condição humana, nosso hábito – enquanto espécie – de impor aos demais, principalmente aos mais fracos, a nossa visão de mundo. Quando consideramos válido – sob a égide do relativismo cultural – que uma mulher seja obrigada a usar a burca, permitimos também que outra seja chicoteada por usar calças, apoiamos hábitos culturais horrorosos adotados em alguns países que vivem sobre a égide do fundamentalismo islâmico, como o apedrejamento de mulheres adúlteras, a proibição de que meninas freqüentem escolas, o casamento forçado, a excisão (mutilação genital feminina, que em seu mais remoto propósito pretende controlar o ímpeto sexual da mulher, também ocorre mediante a aceitação cultural de quem a pratica).

É certo que estas torturas físicas e morais são de alguma forma aceitas e incorporadas por muitas mulheres que a elas são sujeitas. Isso ocorre pura e simplesmente pela propagação de mitos que reforçam e perpetuam a ignorância. A Ex-parlamentar holandesa Ayaan Hirsi Ali, que aos cinco anos teve o clitóris extirpado à tesoura, explica em entrevista ao The Washington Post:

“O sujeito chegou para nos circuncidar a todas. Ele usou uma tesoura, tinha anti-séptico, mas não tinha anestesia. Como um dos objetivos é garantir que você se manterá virgem, o costurar dos lábios é mais importante do que o cortar do clitóris. Há muitas histórias que contam para explicar o corte. Minha avó acreditava que o clitóris ia crescer e crescer, ficaria pendurado entre suas pernas. Até maior que um pênis. Outra superstição é que, quando o bebê nasce, se o clitóris da mãe não tiver sido cortado pode enforcá-lo. Também há quem diga que o clitóris torna o homem impotente.”

No final de 2008, dois importantes líderes da comunidade islâmica na Guiné-Bissau insurgiram-se contra um projeto do parlamento para abolir no país a prática de mutilação genital feminina. Para eles, seria “um erro grave e uma afronta ao Islã”.

A mutilação genital feminina representa uma grave ameaça à saúde de crianças e mulheres adultas, implicando danos irreparáveis ao nível psicológico, sexual e reprodutivo, ao mesmo tempo em que aumenta a vulnerabilidade ao HIV e acarreta riscos obstétricos com conseqüências fatais. Estudos da Organização Mundial de Saúde demonstram que mais de 140 milhões de mulheres foram vítimas deste ritual que constitui uma hedionda violação dos direitos humanos. Até quando se mascarará este holocausto silencioso?

O caso de Ayaan Hirsi Ali é emblemático. Roteirista do curta-metragem Submissão – Parte I, ela conhece bem a repressão sofrida pelas mulheres no Islã fundamentalista. Nascida em Mogadíscio (Somália), aos 22 fugiu de um casamento arranjado com o primo pelo pai. Refugiada na Holanda trabalhou como tradutora nos centros sociais para imigrantes e foi brilhante universitária de ciências políticas. Por ter ousado expor o sofrimento de mulheres como ela, vive sob ameaça de morte após o assassinato do cineasta Theo van Gogh (que filmou Submissão) pelo fundamentalista islâmico Mohammed Bouyeri. Ajoelhado numa rua de Amsterdã, Van Gogh ainda tentou argumentar com o assassino após ter sido alvejado várias vezes. Bouyeri cortou-lhe a jugular com uma faca de açougueiro e, com outra, espetou no cadáver uma carta endereçada à Ali: “A próxima será você”.

“Em nome da convivência multicultural, do respeito às tradições de outrem, intelectuais do Ocidente hesitam em colocar em evidência a situação subjugada da mulher dentro do Islã”, critica Ali, e vai além: “Eles têm receio de ofender, de suscitar cólera, e assim ajudam a perpetuar o sofrimento e a injustiça. Ora, aqui não cabem relativismos. Abuso e mutilação sexual são crimes, e ponto final. Hoje, agora, já! Tampouco deve ser tolerado o assédio, a perseguição da qual são vítimas os homossexuais muçulmanos. Os ocidentais não podem fazer vista grossa nem calar, como já fizeram durante a existência dos gulags soviéticos. O Islã não viveu o Iluminismo. As sociedades islâmicas enfrentam os mesmos problemas do cristianismo anterior ao século XVIII. Ainda não se estabeleceu o justo equilíbrio entre razão e religião.”

É possível estabelecer uma relação racional com uma prática deste gênero sob o argumento puro e simples de que, aceito pela sociedade, ele deve ser encarado como culturalmente válido? O relativismo cultural sustenta que sim, e combate a idéia de que existam valores objetivos. O filósofo Harry Gensler desmontou este conceito em seu livro Ethics: A contemporary introduction, onde aponta as contradições do relativismo cultural e sua tendência a estabelecer uma cultura do conformismo prejudicial às minorias.

Para ele, existem, sim, verdades a serem descobertas no domínio moral, embora nenhuma cultura possua o monopólio destas verdades. As diferentes culturas necessitam aprender umas com as outras, defende. Para que tomemos consciência dos erros e dos nossos valores, é necessário conhecer como procedem as outras culturas, e de que forma reagem ao que nós fazemos. Aprender com diferentes culturas pode ajudar-nos a corrigir os nossos valores e a aproximar-nos da verdade acerca do modo como devemos viver.

“A perspectiva objetivista (também designada realismo moral) defende que certas coisas são objetivamente um bem ou objetivamente um mal, independentemente do que possamos sentir ou pensar. Martin Luther King, por exemplo, defendia que o racismo está objetivamente errado. Que o racismo esteja errado era para ele um fato. Qualquer pessoa e cultura que aprovasse o racismo estariam erradas. Ao dizer isto, King não estava a absolutizar as normas da nossa sociedade; discordava, pelo contrário, das normas amplamente aceitas. Fazia apelo a uma verdade mais elevada acerca do bem e do mal, uma verdade que não estava dependente do modo de pensar ou sentir das pessoas neste ou naquele momento. Fazia apelo a valores objetivos.”, diz Gensler.

Diante disso, de que há valores a serem defendidos acima de culturas e religiões, é preciso questionar com critério que tipo de relação se estabelecerá entre países que – ao menos em tese – procuram viver sob a égide da carta dos direitos fundamentais dos direitos do homem e grupos cuja tradição cultural e religiosa agride estes conceitos. Recentemente, o pensador francês Luc Ferry, ex-professor da École Normale Supérieure, ex-ministro da Educação no governo de Jacques Chirac, atualmente chefe de um grupo de reflexão socioeconômica no governo Sarkozy apontou – em entrevista à Folha de S.Paulo – caminhos no caso do fundamentalismo islâmico.

“A burca é um sinal de vínculo ao fundamentalismo. Ela significa que as mulheres não devem ter lugar na esfera pública e que elas devem ficar em casa. Se saírem, elas têm de se dissimular. Devemos aceitar essa concepção do lugar da mulher? Respondo tranquilamente não, cem vezes não. E eu não digo isso porque defendo uma tradição cultural ocidental, mas porque penso que as mulheres simplesmente fazem parte da humanidade. Nesse tema, o relativismo é sempre cúmplice dos totalitarismos”.

Na mosca.

O fato é que, tomando o conceito do relativismo cultural podemos criar fórmulas que justifiquem todos os tipos de atrocidades. O infanticídio na Roma antiga, o escravagismo, o nazismo, a discriminação racial, o apartheid, o preconceito contra a homossexualidade. Todas estas manifestações contaram, em algum lugar no tempo e no espaço (e ainda hoje em alguns lugares), com apoio de “maiorias”. Ainda assim, foram combatidas, reformadas, colocadas em seu devido lugar no rol das falhas de caráter, de formação e de direcionamento político (algumas engatinham, neste objetivo).

Deveriam os que lutaram pelos direitos civis nos Estados Unidos terem aceitado passivamente sua condição de inferioridade visto que, para grande parte da população estadunidense da época, a segregação era algo moralmente correto? Deveriam os negros sul-africanos aceitar sua condição sob o apartheid? Devem os homossexuais residentes nos países que lhes imputam a pena de morte aceitar passivamente este “descalabro cultural”? Devem os que olham estas manifestações sob a ótica de outra cultura simplesmente validá-las como moralmente corretas?

Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, a secretária de Estado francesa responsável para política das cidades, Fadela Amara (ex-diretora da ONG de defesa do direito das mulheres Nem Prostitutas nem Submissas), disse o seguinte: “A grande maioria dos muçulmanos é contra a burca. A razão é evidente. Os que participaram na luta pelos direitos das mulheres em seus países, penso em particular na Argélia, sabem o que representa e que tipo de projeto de obscurantismo político dissimula, com o objetivo de sufocar as liberdades mais fundamentais. A burca e o niqab (véu integral que deixa apenas uma brecha para os olhos) representam a opressão da mulher, sua redução à escravidão e sua humilhação”. De origem argelina, Amara destacou ainda a diferença entre o islamismo e sua vertente fundamentalista: “A França, pátria de um islã progressista, deve lutar contra a gangrena, o câncer que representa o islã radical, que deforma completamente a mensagem do islã”.

A arte expõe o preconceito

Jornalista experimentada na cobertura de conflitos no Kosovo e na Chechênia, a norueguesa Asne Seierstad acompanhou a queda do regime fundamentalista do Talibã, em novembro de 2001, quando conheceu em Cabul o livreiro Shah Mohammed Rais. O resultado foi o consagrado livro O livreiro de Cabul, no qual relata o dia a dia das mulheres afegãs em uma crítica contundente à opressão feminina nas sociedades islâmicas. Ela define bem a situação:

“Não sou uma relativista cultural. A dor de uma mulher que apanha do marido não é menor só porque a cultura local aprova esse ato… Eu acredito na Declaração Universal dos Direitos Humanos, segundo a qual todos têm valores e direitos iguais. O relativismo cultural justifica costumes inaceitáveis das sociedades islâmicas. Há muito abuso em uma família em que o poder e o destino das mulheres ficam concentrados nas mãos de um único homem. As agressões psicológicas são inevitáveis e os castigos físicos, freqüentes. Não se pode dizer que as mulheres muçulmanas não sofram só porque a submissão feminina faz parte da sua cultura. Um tapa dói do mesmo jeito em uma mulher afegã, norueguesa ou brasileira. Algumas pessoas me criticam dizendo que não se pode julgar uma sociedade islâmica, de Terceiro Mundo, com base em valores e padrões europeus. É uma das coisas mais estúpidas que já ouvi na vida. A crítica faz com que as sociedades evoluam. Os muçulmanos também nos julgam. Dizem que somos imorais e impuros. E se tiverem razão em algum ponto? O mundo precisa de debates. Tentar impedir alguém de dar opinião é muito perigoso.”

Sobre a burca, o depoimento de Asne mostra como a incorporação de hábitos culturais pode ser fruto do comodismo e da repressão: “Como mulher ocidental, eu era vista como uma espécie de criatura bissexuada. Não era obrigada a seguir os severos códigos de vestimenta das mulheres afegãs. Mesmo assim, quase sempre vestia a burca, simplesmente para ser deixada em paz. Com o tempo, comecei a odiá-la. A burca aperta e dá dor de cabeça. Enxerga-se mal através da rede bordada. É abafada e faz suar. É preciso tomar cuidado o tempo todo onde pisar, porque não podemos ver nossos pés. Era um alívio tirá-la ao chegar em casa.”

Outra mulher que ousou relatar os abusos impetrados pelo fundamentalismo islâmico foi a iraniana Azar Nafisi. Professora de literatura inglesa na Universidade Johns Hopkins, em Washington, ela é autora do livro Lendo Lolita em Teerã, um retrato sensível e chocante da situação das mulheres no Irã no início do século 21, que relata a experiência de Nafisi e de sete alunas da época em que ela lecionava na Universidade de Teerã. Por dois anos elas desafiaram a repressão do regime em encontros semanais onde discutiam autores proibidos no país, como Henry James e Vladimir Nabokov.

Os relatos de Nasifi sobre as condições do Irã logo após a revolução islâmica são um retrato melhorado do que ocorreu em outros países nos quais o fundamentalismo islâmico assumiu o poder, como o Afeganistão, onde um grupelho transformou em lei uma versão tacanha da sharia (o conjunto de leis e regras de comportamento prescritos para os muçulmanos).

“A idade mínima para o casamento passou de 18 para 9 anos. O apedrejamento até a morte se tornou o castigo para o adultério e a prostituição. Nos ônibus, adotou-se a segregação. Destinaram-se às mulheres a porta traseira e os assentos no fundo do veículo… Um vestígio de maquiagem, uma mecha de cabelo para fora do véu e eles vinham, implacáveis. Prendiam-nos, arremessavam-nos para dentro de carros, deixavam-nos em prisões imundas, chicoteavam-nos. Por fim, jogavam-nos nas ruas. A situação era pior para as solteiras. Muitas de minhas alunas tiveram de passar por coisa pior, como o teste de virgindade. Não havia nada mais humilhante e nojento do que aquilo, feito em qualquer lugar, sem nenhuma assepsia, a qualquer hora. Quantas jovens não foram presas e chicoteadas só porque, sem querer, cruzaram o olhar com o de um guarda?”, relembra.

Em O Círculo (Dayereh, Irã, 2000), o cineasta iraniano Jafar Panahi tece uma elegante crítica à exclusão feminina em seu país por meio de belíssimas alegorias. Durante uma hora e meia, Panahi segue os passos de mulheres que trafegam pelas ruas movimentadas de Teerã, cada uma carregando sobre os ombros o peso da opressão. O filme ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, mas está proibido no Irã.

A situação iraniana hoje é menos sufocante, as mulheres podem se dar ao luxo de usar véus coloridos e batom – mas as leis discriminatórias continuam as mesmas. Uma mulher vale a metade de um homem em depoimentos no tribunal e em casos de indenização. Na divisão da herança, uma filha pode levar apenas metade da quantia recebida por seus irmãos. Uma menina pode ser forçada a se casar a partir dos 13 anos, e seu marido pode proibi-la de trabalhar fora de casa ou estudar quando quiser. Para viajar ao exterior, é necessária uma permissão por escrito do marido. Caso se divorciem, ele ganha a custódia dos filhos com mais de 7 anos. Elas são proibidas de ser magistradas e não ocupam o posto de ministra há três décadas.

Apesar dos pesares, o Islã…

Na Arábia Saudita as mulheres não podem dirigir automóvel ou sentar-se sozinhas num restaurante. O Egito, que no início do século XX aboliu o uso do véu e nos anos 50 adotou o voto feminino, não permite que a mãe passe a nacionalidade egípcia ao filho. Na década de 90, o Estado baniu a mutilação genital, mas o hábito continua amplamente difundido. No início do século, para não contrariar a oposição islâmica, o governo retirou um projeto de lei que permitiria às mulheres viajar para o exterior sem autorização escrita do marido.

Em alguns países regidos pelo fundamentalismo, a lei concede ao marido o direito de repudiar a esposa, sem que ela possa contestar ou pedir pensão. Em outros, a mãe divorciada só pode criar as filhas até os 12 anos e os filhos até os 10, quando são entregues ao pai. Em outras nações, a viúva não tem direito à herança do marido, repartida apenas entre a prole masculina. A partir da adolescência, elas não podem nem falar com homens, exceto parentes próximos. São impedidas de trabalhar e estudar, só saem à rua por motivo justificado, assim mesmo acompanhadas de um parente e cobertas da cabeça aos pés pelo burca.

Na Jordânia, os chamados “crimes de honra” são um gravíssimo problema social. Pais ou irmãos matam a filha ou a irmã solteira suspeita de conduta sexual imprópria e raramente são punidos – como ocorreu com a poeta afegã Nadia Anjuman, espancada até a morte pelo próprio marido, com a conivência da mãe, pois discordavam de seu modo de vida.

O escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie, que em 1979 foi alvo de uma fatwa proclamada pelo governo iraniano devido à publicação de seu livro “Versos Satânicos” (Khomeini ordenou a todos os “muçulmanos zelosos” o dever de tentar assassinar o escritor, os editores do livro que soubessem dos conceitos do livro e quem tomasse conhecimento de seu conteúdo) diz que o hábito de invocar a autoridade divina para legitimar preconceitos, perseguições e atrocidades é muito antigo, mas ressurgiu com força nos últimos tempos: “A meu ver, é o problema central do mundo contemporâneo – e não está de maneira nenhuma restrito ao universo islâmico… Mesmo num país democrático como os Estados Unidos, a religião voltou a interferir na vida pública, e esse é um fato que eu, que pertenço a uma geração de mentalidade extremamente dessacralizada, só posso lamentar.”

Ainda assim o Islã fundamentalista pode mudar, acredita Azar Nafisi: “Todas as religiões têm flexibilidade para mudar, inclusive o Islã. A questão é que o mundo islâmico está passando por uma crise cujo pivô é o fundamentalismo. Diferentemente do que possa parecer, o radicalismo não é uma tradição muçulmana, mas um fenômeno moderno. As outras religiões passaram por momentos de rigidez e intolerância similares aos que nós, muçulmanos, vivemos agora – e por isso se reformaram. O que se vê hoje em alguns países islâmicos é muito parecido com o que ocorreu com a Igreja Católica na Idade Média. Muitos muçulmanos querem uma mudança, uma abordagem mais moderna dos costumes religiosos. Mas esbarram na resistência daqueles que têm medo de um novo estilo de vida, do que pode acontecer, de tornar ainda pior o que já está ruim.”

O economista e articulista da Veja, Claudio de Moura Castro, tem uma análise que, penso, fecha bem este artigo. Diz ele: “A imprensa cotidiana mistura árabe com islã, com fundamentalismo e com terrorismo. Árabe pode não ser muçulmano, como os libaneses cristãos que vieram para o Brasil. E muçulmano pode não ser árabe, como é o caso dos turcos, iranianos, indonésios e outros. Mas o erro daninho é imputar ao islã uma índole fundamentalista e intolerante. Pior: supor que mesmo as minorias fundamentalistas endossam o terrorismo. Desfazer tais equívocos é vital, tratando-se de uma religião abraçada por 1,3 bilhão de pessoas – um quinto da população do globo.”

Twitter e política

“A internet foi criada para dar a todos a possibilidade de obter e publicar informações. Essa troca livre e desimpedida é muito poderosa. O problema era a barreira técnica. Muita gente deixa de publicar na internet por desconhecer a linguagem técnica do meio. O Twitter reduziu essa barreira. O único requisito para publicar é saber digitar. Os políticos precisam estar conectados com seus eleitores. Como o Twitter permite a conexão direta, é natural que tenha se tornado uma ferramenta presente nas campanhas políticas. Não há nada de errado nisso. Quanto mais pessoas compartilharem informações, melhor para todos.”

Biz Stone, criador do Twitter, em entrevista na Veja desta semana sob o título “O mundo em 140 caracteres”. Na semana passada, publiquei aqui (no Observatório da Imprensa e no twitterportugal) o artigo “Política em 140 caracteres”, apontando a relação entre o microblog e os políticos.

Fotojornalismo

O uso da burca estigmatiza a mulher, submete-a a condições degradantes. É a manifestação pura da intolerância religiosa. Na foto acima, muçulmanas francesas, ocultas da vida.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Leoa ou gazela – Flávia Perez

Recebi na semana passada um presente delicioso: o livro “Leoa e gazela: todo dia é dia dela”, da poetisa carioca – radicada em Campinas - Flávia Perez. A poesia de Flávia é sensual, crua e ao mesmo tempo elegante. Passeia pelo erotismo e pela paixão com estilo próprio.

“Eu tão anjo tenho andado
Que em mim nasceram asas.”

Dividido em duas partes, Leoa e Gazela, a obra, editada este ano, traz 91 poemas, todos eles imbuídos de um estilo que Heloisa Galves atribui a “maga dos poemas sensuais, carnais, santos, profanos”. Betty Vidigal, por sua vez, define Flávia como uma “raridade neste mundo de jovens que se recusam a rimar, engano de quem não foi tomado pela alma da palavra...”. Sim, a rima faz parte da poesia de Flávia. Uma rima bem fundamentada, bem construída.

“Presságios no céu
da boca
avisam ao navegante:
há perigo e naufrágio
nas carnes das fendas,
nas carnes das coxas,
em falésias envoltas em rendas.”

Leoa e Gazela é repleto de momentos preciosos, “ou esse deus me apolínea / ou o descaminho”, de versos impactantes, “Todo argumento de cuidado / é tolo / aos ouvidos dos furacões”, de luxúria, “Em desvario / vou sugar teus poemas / recitar teu sexo / decorar teu corpo, dar e sorver teus melhores gozos”, tiradas fatais, “(pro meu antídoto / só eu tenho a doença)”, conclusões arrebatadoras, “Sendo assim / te cuspo fora / volátil / apagado de mim”.

Enfim, “Leoa e gazela: todo dia é dia dela” é um excelente livro. Recomendo.

Ela - Bióloga, com mestrado em Microbilogia Agrícola pela USP, Flávia publicou anteriormente "A Filha de Capitu" (poesia) e "Não Culpem Nelson Rodrigues" (contos), participou da Antologia Poética “Vide – Verso”, da Editora Andross, venceu concursos nas comunidades literárias "Vale das Sombras" e "Concursos de Microcontos" e recebeu Menção Honrosa em concursos da Associação dos Escritores Niteroienses e do Sindicato dos Comerciários de Limeira.

Seu passeio no parque não será mais o mesmo

Acabo de receber um email (com a montagem ao lado) satirizando o governador André Puccinelli, especificamente suas recentes declarações sobre o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. Recentemente escrevi sobre os excessos do governador no post "Quando é que Puccinelli fala sério?". A repercussão negativa das bravatas do "italiano" é reflexo direto da forma como a internet está afetando a difusão de informações. Há alguns anos, situações como estas se perderiam na cacofonia do dia a dia. Hoje não. Qualquer deslize é multiplicado por mil através das redes sociais. É preciso ter cuidado com o que e para quem se fala.

Fotojornalismo

Policial revista um homem durante patrulha em Candahar. Força policial afegã é vista como incompetente e corrupta. Só lá? Foto de Tyler Hicks/The New York Times

domingo, 18 de outubro de 2009

sábado, 17 de outubro de 2009

Poesia aos sábados

pelo sim,
pelo não,
foi atropelo.

quem, de nós,
ultrapassou
sinal vermelho?

qual dos dois,
está estendido
no chão?


Valéria Tarelho, esta semana, no Poema Dia

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ONU condena Israel e Hamas

Apesar do jogo de interesses que levou o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas a tentar abafar o Relatório Goldstone em prol da continuidade das negociações com Israel, o texto foi aprovado nesta sexta-feira pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, reunido em Genebra. Dos 47 países que formam o Conselho, 25 apoiaram a resolução (entre eles o Brasil), seis a rejeitaram e 11 se abstiveram.

O relatório esmiuçou os 23 dias da operação israelense iniciada em 27 de dezembro de 2008, que causou a morte de 1.400 palestinos (960 civis – boa parte crianças e adolescentes, 239 policiais e 235 militantes) e 13 israelenses – segundo informações de hospitais locais e de ONGs israelenses, palestinas e internacionais.

O Conselho condenou Israel e o movimento islâmico palestino Hamas por crimes de guerra e decidiu enviar o texto para o Conselho de Segurança da organização – que teoricamente tem poder para votar uma resolução contra Israel e o Hamas, decisão que, no que se refere a Israel, esbarrará no poder de veto dos Estados Unidos.

O documento, assinado pelo ex-promotor do tribunal internacional de crimes de guerra, o juiz sul-africano Richard Goldstone – e por 14 juristas – conclui que, sob o pretexto de retaliar o grupo islâmico Hamas na faixa de Gaza pelo lançamento de foguetes contra o território israelense, Israel fez uso desproporcional da força e violou o direito humanitário internacional. De origem judaica, Goldstone disse ao New York Times ter aceitado a missão da ONU por acreditar profundamente “na obediência à lei e às leis de guerra e no princípio de que, em um conflito armado, os civis devem ser protegidos ao máximo.

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Fotojornalismo

Criança observa a poça de sangue, resultado de um veículo atingido duranet um ataque aéreo israelense sobre a Faixa de Gaza, em janeiro. Duas pessoas morreram, entre elas Beit Lahiya, um menino de 12 anos de idade. Foto de Abid Katib/Getty Images