Semana On

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O dono do PT

Excelente a matéria de Otávio Cabral na Veja desta semana sobre a crise de identidade do PT e o domínio de Lula sobre a legenda. Resume com maestria a triste redução de um partido. Reproduzo a seguir:



Eleito presidente da República em 2002, Lula acrescentou a sua magnífica história de vida, personalidade e insuperável carisma um balaio com 50 milhões de votos. Levou para o graal da política seus correligionários do Partido dos Trabalhadores (PT), cujos integrantes mais ativos foram acomodados em cargos executivos, ocupando os postos mais cobiçados da hierarquia política do país. Começava então o governo do PT. Internamente, a militância discutia que transformações o partido sofreria com a experiência de governar o Brasil. Depois de tanto sucesso como pedra, como reagiria o PT sendo vidraça por quatro, oito ou... vinte anos? Tornando ainda mais curta uma curta história, a ideia de que o PT governaria o Brasil começou a ruir, como se sabe, quando o economista da agremiação, Guido Mantega, foi preterido para o posto de presidente do Banco Central, entregue a um banqueiro internacional e, ainda por cima, tucano, Henrique Meirelles. O choque seguinte foi a queda em desgraça do herdeiro aparente de Lula, José Dirceu. As outras cabeças rolariam em 2005, no vórtice do escândalo do mensalão. De lá para cá, o petismo sobreviveu mantendo as aparências mas já sem bandeiras e vitalmente dependente do oxigênio político instilado por Lula. Na semana passada, Lula ameaçou cortar o oxigênio e o PT viu, pela primeira vez com clareza, que a experiência de governar foi sem nunca ter sido e serviu apenas para que o presidente desse andamento a suas prioridades, que são, pela ordem: Luiz Inácio da Silva, Lula e Lula.

Os senhores acima empalhados são a imagem desse quadro. Eles foram obrigados a encenar o teatro de salvar a pele de um inimigo histórico do partido, o senador José Sarney, fazendo o mesmo papel de guarda-costas desempenhado por Fernando Collor e Renan Calheiros, que dispensam apresentação. A missão foi cumprida com sucesso. No escândalo do mensalão, em 2005, o PT que subornava deputados, comprava partidos e desviava dinheiro público obedecia apenas ao ex-ministro José Dirceu, pelo menos segundo as conclusões oficiais. Agora, o PT que não se incomoda mais com o nepotismo, o fisiologismo e a corrupção tem um novo e inquestionável comandante em chefe: o próprio presidente Lula. Partiu dele a ordem para poupar Sarney a qualquer custo no Conselho de Ética do Senado, mesmo que esse custo fosse a implosão do que ainda restava de pudor nas fileiras petistas. Como recompensa, o chefe promete limpar a biografia de todos eles usando sua popularidade quando chegar a hora do voto.

Ao reduzir moralmente seu partido e abrir mão de aliados históricos, como foi o caso da ex-ministra Marina Silva, que deixou o PT por discordar dos caminhos trilhados, o presidente Lula certamente tem em mente um plano auspicioso. Difícil talvez seja convencer as pessoas de como algo que se imagina virtuoso possa passar pela salvação do senador José Sarney. Lula acredita que fez o melhor governo da história do Brasil e quer provar isso elegendo o sucessor. Apesar da resistência do PT, o presidente escolheu a ministra Dilma Rousseff para o papel de candidata, e está empenhando sua imensa popularidade numa pré-campanha que começou há meses. O governo precisa do PMDB para viabilizar seu projeto de poder. É nessa hora que aparece a fatura pesada. Se para quitá-la for preciso fazer alguns sacrifícios, como defender corruptos ou enfraquecer o partido que levou Lula ao poder, segue-se em frente, sem nenhum constrangimento.

O presidente acredita que seu carisma, combinado com uma dose de sagacidade política, é capaz de reduzir a nada qualquer crise que se apresente. Na semana passada, por exemplo, houve um encontro de contas. O governo queria – e conseguiu – evitar a convocação da ministra Dilma para falar do caso envolvendo uma suposta interferência na Receita Federal (veja reportagem), e o PMDB queria – e também conseguiu – arquivar as denúncias contra José Sarney. É nisso que o presidente aposta. Se sua imagem e a do seu governo forem preservadas, tanto faz se o partido do governo é o PT, o PMDB ou o PSL. O que move Lula é o pragmatismo, a tranquilidade de colher frutos da parte positiva do governo e, ao mesmo tempo, transferir ao PT o ônus por defender figuras como Fernando Collor, Renan Calheiros e José Sarney. O PT percebe claramente esse desgaste, mas não pode nem tem condições de reagir à estratégia do criador. Na semana passada, lideranças do partido tiveram acesso aos dados de uma pesquisa qualitativa feita nas principais capitais do país. O objetivo: avaliar as consequências para a legenda do mensalão, do dossiê dos aloprados, da salvação de Renan Calheiros e, agora, de Sarney – todos escândalos que contaram com o envolvimento direto dos petistas. A maior parte dos entrevistados apoia e admira Lula, não vincula o nome do presidente a nenhum dos escândalos, mas tem sérias restrições em votar no PT. Sendo assim, ao empalhar as cabeças do partido, Lula pode alegar que está apenas protegendo-as de si mesmas.

3 comentários:

Daniel "Gargula" Braga disse...

Excelente artigo meu caro!

Adriana Godoy disse...

Sempre desconfio da VEJA por que a rigor seus membros nunca aceitaram Lula na presidência.( Basta ler a forte campanha contra Lula, desde de antes de assumir o governo até hoje ). Embora o artigo tenha em seu corpo elementos suficientes para desmoralizar o PT no qual sempre votei e acreditava, tenho cá pra mim que o buraco é mais embaixo. A VEJA sempre se bandeou pro lado da direita, embora a distinção esquerda/direita não seja mais clara na política atual. Essa questão do senado deixou enojados e envergonhados os militantes, e todo um segmento da sociedade que acreditava em algo diferente. Algo execrável, imperdoável, intragável. O PT e o Lula não poderiam jamais apoiar esses calhordas que tanto mal fizeram à pátria.Concordo com Marina( ela tinha que sair mesmo)mesmo achando que o PV é um partido escroto que abriga os dissidentes( em um momento pol´tico favorávela a ele) e depois os abandonam à propria sorte, veja por exemplo, Cristovam Buarque).Os caminhos do PT estão completamente desvirtuados, em nome da governabilidade tudo pode , até vender a própria alma; o PT envergonha a todos , sobretudo sua militância). Isso é execrável, imperdoável, Lula não está acima de tudo. E situações como essas só nos deixam mais descrentes, decepcionados,quase sem saída. Mas, apesar de tudo, tudo, apesar do meu total desapontamento, apesar de execrar essas atitudes de Lula, não posso compará-lo a um Sarney ou a outros governos. Mesmo que se sinta um deus, Lula tem feito pelo povo, pelo Brasil coisas que nenhum governo jamais fez. E o povo sabe disso.
Barone, desculpe esse comentário tão grande, mas não pude deixar de fazê-lo. A VEJA não me desce. beijo.

Barone disse...

Adriana, acho importante que olhemos a crítica em si e não de onde ela provém. A Veja tem posicionamento político, mas as suas denúncias tem cabimento, são embasadas, difíceis de refutar.

Sobre Lula estar fazendo algo mais que os demais governantes fizeram pelo povo, acho questionável. Sim, ele estabeleceu programas assistencalistas importantes para quem está na linha de miséria. Por outro lado, não criou forma alguma para que estas pessoas superassem este estado de dependência ao Estado.

Penso que esta estratégia piora a situação. Transforma carentes em párias, parasitas do sistema. Já tive contato com acampados, aqui em MS, que não plantam um pé de couve, preferem aguardar o "sacolão" governamental.

O que é pior? Um faminto revoltado ou um parasita acomodado? Não sei.