Semana On

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Caiu a exigência do diploma: viva o Jornalismo

Caiu. O Supremo Tribunal Federal (STF) acaba de derrubar definitivamente a exigência do diploma para o exercício do Jornalismo no Brasil. Finalmente nos afastamos de países como Arábia Saudita, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Croácia, Equador, Honduras, Indonésia, Síria, Tunísia, Turquia e Ucrânia – que exigem o diploma – e nos aproximamos de Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, China, Costa Rica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Peru, Polônia, Reino Unido, Suécia, Suíça e vários outros países onde – mesmo sem exigir diploma para o exercício da profissão - se faz um Jornalismo de tão boa (ou melhor) qualidade que o nosso.

Agora, os nossos cursos superiores de Jornalismo terão que ser o que eles são nestes países: um diferencial na formação de profissionais e não uma fábrica de diplomas, como ocorre hoje (com honrosas exceções). Estas instituições de ensino terão de se adequar a uma nova realidade e transformar os quatros anos que um jovem passa nas salas de aula em um processo que realmente colabore para a formação de um profissional de imprensa capacitado, coisa que nem de longe ocorre atualmente.

Isso já havia sido apontado por muita gente da área, embora a Fenaj e a academia tenham optado por boicotar o debate sobre o tema desde o início usando para isso falsas premissas e a vergonhosa estratégia da desqualificação de seus antagonistas e da superficialidade dos argumentos.

Veja o que disse o jornalista Luiz Garcia em julho passado no artigo “Tiro na pata”.

Uma conseqüência inevitável do fim do diploma de jornalista obrigatório seria uma enxugada vigorosa na quantidade de faculdades privadas de jornalismo. A exigência do diploma específico fez surgir no Brasil uma quantidade de cursos fáceis para quem pode pagar, que jogam anualmente no mercado uma quantidade de profissionais com mínimas possibilidades de emprego. Claro, há instituições de alto nível, como a nossa [Pontifícia] Universidade Católica. Mas não faltam arapucas, que só prosperam graças à exigência do diploma em comunicação”.

Apesar da gritaria dos sindicalistas, de parte da academia e da massa de desinformados com canudo debaixo do braço (que compõe grande parte da força de trabalho do Jornalismo no país) a queda da exigência do diploma não vai tornar o nosso Jornalismo antiético, não vai “precarizar” a profissão nem inundar as redações com gente incapaz de exercer este nobre ofício.

O grande impacto, portanto, se dará sobre a formação profissional, que precisará se adequar a uma nova realidade que possibilite dotar as próximas gerações de jornalistas de capacidade intelectual para assumir a difícil missão de bem informar, de visão empreendedora para criar postos de trabalho além da grande mídia e das malfadadas assessorias de imprensa – que tudo fazem, menos Jornalismo propriamente dito -, de curiosidade para explorar as novas fronteiras da informação – advindas da internet – de forma profissional, criativa e rentável.

Professor de Jornalismo da Universidade de Carolina do Norte em Chapell Hill e autor dos livros Precision Journalism e The Vanishing Newspaper, Philip Meyer resume a ópera.

O primeiro problema para o jornalismo de precisão no Brasil será superar um sistema muito rígido que é feito para resistir à inovação. A maior barreira que vejo, de minha perspectiva norte-americana, é a lei que exige que os jornalistas sejam formados em escolas de jornalismo. Essa lei dá às escolas um mercado garantido e as priva do incentivo de fazer melhor as coisas. Sem a lei, as escolas teriam que visivelmente adicionar valor às habilidades existentes de seus estudantes para que pudessem sobreviver. Uma escola profissional deve ser a fonte da inovação e do desenvolvimento para a profissão a que serve. Mas, com um mercado cativo, não há necessidade de que ela faça nada além de assinar certificados de conclusão”.

Pois é...

Leia mais sobre o tema:
- Na semana em que pedi a colação de grau o STF pode derrubar o diploma
- Diploma: lucidez em meio ao obscurantismo
- A desqualificação como argumento
- Com ou sem diploma?
- Priscila, Greenpeace e o canudo
- Os defensores do diploma e seus debates imaginários
- Debate sobre o diploma de jornalismo... que debate?

8 comentários:

Luiz Felipe Vasques disse...

Que maravilha, parabéns à classe!...

... agora só falta cair a proibição de que não-jornalistas não podem escrever colunas em jornais, e tudo belê. ;-)

james p. disse...

Parabéns,meu caro Barone.
Era mesmo uma exigência absurda.
Abraços.

Felipe disse...

Felipe Porto (Brasília - DF): venceu o verdadeiro Jornalismo, com J maiúsculo, e perdeu o "jornalismo", pois COMPETÊNCIA não se compra junto com diploma. Acabou a "reserva de mercado" ou o "cotismo" de uma categoria que, apenas por ter um canudo na mão, se acha melhor do que a maioria dos profissionais de sucesso no ramo, quase sempre sem diploma. Se fossem competentes, não precisariam garantir seu "curral", e conquistariam seu espaço através de mérito. Quem tem capacidade não sai da faculdade procurando emprego, já é contratado desde antes pelos "olheiros". O resto é a "rapa do tacho", aliás, como ex-dono de dois jornais, cansei de REPROVAR canudeiros que mal sabiam escrever a língua pátria! Vão vender bananinha na feira agora!!!

otelhado disse...

Vai haver uma sacudida, sem dúvida, e eu espero que as frutas podres do jornalismo caiam de uma vez.

E espero que os jornais contratem gente capacitada para as colunas de ciência, por exemplo, para a gente nunca mais ver barrigas como as do JB :-P

-Daniel

Barone disse...

Sim, a briga agora é por um ensino superior que realmente forme gente qualificada para o mercado de trabalho. Vai haver uma depuração destes cursos, espero.

Diego disse...

Vou já pegar todas as matérias que já publiquei e levar no sindicato pra fazer minha carteirinha. Argh, finalmente!

PS: Alguma coisa estranha aconteceu com seus feeds de uns dias pra cá. Agora, só aparecem as primeiras linhas do que você escreveu...

ALINE disse...

Concordo que muitos fazem faculdade só por um diploma - o que não acontece apenas com o jornalismo - e não saem das universidades preparados para trabalhar na área, mas quem deve selecionar isso é o mercado de trabalho.
Derrubar a exigência do diploma não vai ser a solução. Isso depende da consciência de cada um. Agora ficou uma curiosidade no ar... em um país onde a minoria tem a oportunidade de entrar em uma faculdade por falta de dinheiro, você acredita que alguém vai pagar por quatro anos de um curso se não precisa de diploma para trabalhar na área??
Sai muita gente ruim da faculdade de jornalismo? Sim, muita! Da mesma forma que de muitos outros cursos! Que tal acabar com todos os diplomas?
Levante essa bandeira!! Você está no caminho certo!
Espero que você não exclua esse comentário, já que no seu bloq, curiosamente, só existem comentários a seu favor... ou você não estudou ética na faculdade... ou talvez não tenha feito faculdade... faz falta viu!

Barone disse...

Aline,

aqui no Escrevinhamentos não há censura. Opiniões, críticas, sugestões são sempre bem vindas. O único tipo de comentário que me dou o direito de vetar é o que traz ofensas pessoais, mas nunca tive o desprazer de precisar fazer isso. Quanto a sua dúvida: sou formado, pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) – se quiser saber quem sou eu e o que penso sobre a questão do diploma confira a recente entrevista que concedi ao Midiamax.

Algumas considerações sobre o seu comentário:

1- Você está repleta de razão ao dizer que as fábricas de diploma não se concentram apenas no Jornalismo. Todas as profissões passam por este problema. Há boas instituições de ensino e bons alunos em todas as áreas, inclusive no Jornalismo. Mas esta não é a questão. A base de argumentação que norteou este debate e que levou o STF a considerar que o diploma de Jornalismo não é necessário para o exercício da profissão (como ocorre no primeiro mundo) foi o fato de o Jornalismo não possuir uma gama de conhecimentos específicos para a formação de seus profissionais. E isso não ocorre só com o Jornalismo. Algumas outras profissões se enquadram no mesmo espectro. Se você quiser entender melhor do que se trata este argumento sugiro o artigo “Os defensores do diploma e seus debates imaginários”, do jornalista Maurício Tuffani.

2- Você pergunta quem vai pagar por quatro anos em uma universidade agora que o diploma não é mais exigido para o exercício da profissão. Eu te respondo com uma pergunta: quem está em uma universidade está “pagando” por um diploma ou “adquirindo” conhecimento? Se você acha que a resposta correta está na primeira opção, então não tenho respostas para a sua dúvida. Sugiro dois artigos para iluminar suas idéias. Um do jornalista Marcelo Soares, “Debate sobre o diploma de jornalismo... que debate?” e outro do jornalista e professor do curso de Comunicação Social do Centro Universitário Assunção (Unifai), de São Paulo-SS. Alec Duarte, “O fim do diploma e o começo de outro jornalismo”.

Ah... em tempo: ética não se aprende em sala de aula, ética se aprende vivendo.