Semana On

terça-feira, 30 de junho de 2009

Israel captura navio que rumava para Gaza com brinquedos e remédios

Algumas horas atrás a marinha israelense, ilegalmente e em águas internacionais, abordou o navio “Spirit of Humanity” (Espírito de Humanidade) e forçou a tripulação a rumar para um porto de Israel. O navio levava ajuda humanitária e 21 ativistas dos direitos humanos provenientes de 11 países, entre eles a ganhadora do Nobel da Paz Mairead Maguire e a ex-congressista estadunidense Cynthia McKinney. O navio está carregado de remédios, brinquedos, e outros bens de auxílio humanitário para os palestinos que vivem sob o cerco em Gaza. O navio e sua carga já haviam sido vistoriados e liberados por autoridades cipriotas antes da partida rumo ao seu destino. A informação é do grupo Jewish Voice for Peace.

Open Thread: Você apoiaria um governo pouco democrático caso ele fosse bem sucedido na economia?

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Quero um pouco de Lafargue em minha vida

Mestre Avelar me deixou mais tranqüilo. Na entrevista que me concedeu, sexta-feira passada – publicada aqui ontem – disse o seguinte: “Para ser o mais honesto possível, eu posso manter o Biscoito sem propaganda porque eu tenho um salário muito bom como professor universitário. Sou professor titular, já conquistei o que eu queria na minha carreira e posso dedicar uma boa parte do meu tempo ao blog, porque é importante e prioritário para mim neste momento. Se eu dependesse de trabalhar oito horas por dia, eu não teria o Biscoito do jeito que ele é.”.

O Biscoito Fino e a Massa é um dos melhores blogs da atualidade - em língua portuguesa. Para tal é necessário tempo, tempo livre para que a produção seja aprofundada, relevante, instigante.

Eu, aqui no meu cantinho, estou sempre lutando contra o tempo, brigando para pesquisar, checar, escrever, revisar, nutrir o blog com material relevante. Trabalho das 8h às 18h chefiando a reportagem da assessoria de imprensa da Prefeitura de Campo Grande. É trabalho árduo, que exige minha atenção constante. Nos entretempos me debruço sobre um tema, lutando contra o tic tac digital a fim de concluir um pensamento, uma análise.

Qualquer hora adoto Paul Lafargue, elejo a preguiça como objetivo, passo a defender o ócio, a renegar o “direito ao trabalho”. Para Lafargue, lutar pelo “direito à preguiça” é a verdadeira busca libertária, por meio da qual se construiria uma sociedade mais justa, regida pelo aproveitamento do tempo livre e não pela lógica de um esforço irracional e desumano. Tentador.

Queria ter mais tempo para o blog. Mas o tempo é escasso, desesperadamente escasso.

Fotojornalismo

Soldados guardam a entrada do palácio presidencial, em Tegucigalpa, um dia depois do golpe que derrubou o presidente de Honduras, Manuel Zelaya. Ontem, foto da AFP.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Honduras: entre a cruz e a espada

A organização Repórteres sem Fronteiras denunciou hoje a tentativa de intimidação e censura a imprensa hondurenha, em seqüência ao golpe de estado que derrubou o presidente Manuel Zelaya no domingo.

No blog O biscoito fino e a massa, Idelber Avelar dá a senha para os cuidados necessários com a informação que circula na grande mídia hondurenha sobre o tema: “O ponto de vista dos golpistas está articulado em praticamente todos os grandes meios de comunicação de massas de Honduras. O mais explícito talvez seja El Heraldo, que chegou a inventar a incrível mentira de que Zelaya planejava dissolver o Congresso. O La Prensa se refere ao povo que protesta nas ruas como turba. Na televisão, ontem à noite, exibiam-se desenhos animados.”.

Outras fontes hondurenhas são os sites HablaHonduras - que está denunciando repressão contra manifestantes e a imprensa - e Hondudiario, que publicou uma reportagem interessante dando voz ao novo chanceler do país, Enrique Ortez Colindres: "Aqui não houve golpe de Estado porque os hondurenhos seguem regidos pela Constituição, a que o antigo governo quis reformar sem nenhum fundamento e de maneira ilegal… Com a influência do dinheiro e a propaganda esquerdista foi criada no exterior uma imagem falsa de Honduras, que estamos dispostos a contestar", afirma.

Na mesma reportagem, Colindres adverte: “Honduras estava a ponto de entrar em colapso devido a uma loucura política, vivia sob a lei da selva, e por isso algumas nações tentaram formar um bloqueio ideológico contra nós, o que tentaremos desarticular". Trata-se de uma alusão ao presidente venezuelano Hugo Chávez, que ameaçou uma intervenção militar em Honduras.

A reportagem finaliza fazendo um paralelo entre o que pretendia Zelaya e o que ocorreu nos populismos autoritários que permeiam as américas atualmente.

Eles queriam impor esta ‘consulta popular’ que o ex-presidente realizaria no dia 28 de junho para convocar uma Constituinte que reformaria a Constituição hondurenha de 1982 e facilitaria sua reeleição, apesar de a Corte Suprema de Justiça (CSJ) e todos os órgãos estatais terem declarado a intenção ilegal.

A iniciativa era rechaçada também pelos empresários e diferentes setores sociais. Contava somente com o apoio de alguns líderes esquerdistas de organizações operárias, de professores, camponeses, indígenas e estudantis.

A Constituição não permite aos legisladores, nem a CSJ, modificar sete dos 379 artigos chamados ‘pétreos’ para manter incólume a alternância do poder e proibir a reeleição do mandatário, que só deve cumprir um mandato de quatro anos.
”.

Esta leitura é esclarecedora em certos aspectos. Que houve golpe em Honduras não há dúvida, que ele é condenável, também. No entanto, o que pretendia Manuel Zelaya? Suas intenções eram republicanas? Provavelmente não.

Recomenda-se, portanto, que, ao ler os veículos de comunicação que apóiam o golpe hondurenho, obtenha-se também o contraponto em outros veículos que apresentem o contraditório como a venezuelana Telesur e a nicaragüense Notícia100. Mas cuidado, não se pode dizer que estes sejam 100% isentos, já que fazem parte do cartel oficial de comunicação dos populistas Hugo Chávez (Venezuela), Daniel Ortega (Nicarágua) e Evo Moralles (Colômbia). Dá para confiar neles mais que nos veículos hondurenhos que apóiam o golpe?

Para se aproximar do que de fato ocorre em Honduras, o melhor é fazer uma leitura de todos estes veículos, aparar as arestas ideológicas, e tirar nossas próprias conclusões. Eu, particularmente, iria às ruas contra um golpe que atingisse as instituições democráticas, que calasse a imprensa, mas não aplaudiria (e também iria às ruas contra) um populismo estúpido e retrógrado como o que pregam totalitários travestidos de esquerdistas.

Para entender o contexto do golpe leia (dicas de links pinçadas do Idelber):
- ENTREVISTA: Ruido de sables en Honduras MANUEL ZELAYA ROSALES Presidente de Honduras
- Las claves para entender qué pasa en Honduras
- Consuma-se o golpe anunciado nas Honduras
- El oligarca que cambió de bando

Entrevista: Idelber Avelar fala das novas mídias, de política e Jornalismo

Mineiro, torcedor do Galo, apreciador de uma boa cerveja, figura extremamente generosa ao dividir seu tempo com quem propõe idéias instigantes, Idelber Avelar é mestre em literatura brasileira pela Universidade da Carolina do Norte, Ph.D em literatura latino-americana pela Duke University e professor titular de literaturas latino-americanas e teoria literária na Tulane University, em New Orleans. Além disso, Idelber também é blogueiro. Toca O Biscoito Fino e a Massa desde 2004, um dos mais importantes representantes da blogosfera brasileira. Ali ele aborda assuntos os mais variados, de futebol ao conflito entre israelenses e palestinos, navega pela política, música e literatura, aponta os descaminhos da mídia e também seus acertos, tudo isso com uma crítica fundamentada e embasada pela participação atenta de seus leitores. Entre os dias 24 e 26, Idelber Avelar esteve em Mato Grosso do Sul, mais especificamente em Dourados, onde participou de um congresso internacional de literatura na Universidade Federal da Grande Dourados. Na noite de sexta-feira, entre um e outro gole de uma Original gelada, ele concedeu a seguinte entrevista ao Escrevinhamentos.

Em janeiro, os blogs foram os principais canais de comunicação para que o mundo soubesse o que ocorria na Faixa de Gaza. Nas últimas semanas, no Irã, a informação circulou por meio do twitter. Qual a sua análise sobre estas novas ferramentas de comunicação que, diante do totalitarismo, têm forçado as fronteiras da comunicação para além dos seus canais tradicionais? Elas terão impacto decisivo nestas sociedades?

Acho que elas já estão impactando de alguma forma. No caso, por exemplo, da China, do Irã, há o interesse dos governos de censurar estas novas mídias que formam uma espécie de termômetro. Acho que o impacto será cada vez maior, porque são ferramentas extremamente baratas. Um blog, literalmente, não custa nada, ele custa só o preço de sua conexão na internet a partir da qual você pode usar várias ferramentas como o blogspot, o wordpress. Nos Estados Unidos foi fundamental. Lá, o que houve não foi um caso de censura, mas de grande concentração da mídia. Na época da Guerra do Iraque, a mídia conservadora e liberal falou com uma voz única. Não havia diferença entre a Fox, que é uma emissora de direita, e a CNN, que supostamente é uma emissora de centro. O Washington Times, que é um jornal de direita, e o New York Times, que é mais liberal, não mostravam diferenças. Todos estavam batendo os tambores da guerra. A chegada das novas mídias teve um impacto tremendo depois da Guerra do Iraque, no desmascaramento da mentirada que levou à guerra, e depois, na campanha do Obama. Foi chave na campanha. A diferença entre a campanha do Obama e a campanha da Hillary nas primárias democratas foi que ela estava trabalhando, ainda, com um modelo unidirecional de informação. Um modelo de informação pré-internet. E quando se deu conta desta diferença já era tarde, o Obama já tinha levado. Então, o impacto é não só no sentido de liberalizar sociedades que têm governos autoritários, mas, também, de democratizar o acesso à informação em sociedades que têm governos democráticos.

Governos têm se armado de tecnologia para fazer frente às ameaças que estas novas ferramentas apresentam. Quem vence este cabo de guerra em longo prazo?

Isso vai depender muito do contexto. Por exemplo, estou um pouco cético quanto a certas coisas que foram ditas sobre o Irã. Não acho que esteja sendo feita uma revolução via twitter no Irã. Acho que estamos muito longe disso. E acho que o mais provável, no caso do Irã, é que um outro tipo de situação se produza logo, logo, ali. Passando este período, o mais provável é que a república islâmica se mantenha sólida, com dissidências pró-ocidentais se articulando via redes sociais, conquistando algum espaço. Mas, eu não vejo, de forma alguma, uma mudança social via twitter no Irã. Acho que o caso de Cuba é diferente, inclusive porque é uma população com um nível de alfabetização altíssimo. A tendência é que se produza algum tipo de abertura muito em breve, há vários sinais disso. E com estas mídias tendo algum tipo de papel neste processo.

Você faz uma crítica ácida à Lei Azeredo. Diz que ela interessa aos lobbies bancário e dos direitos autorais. Este debate está claro para a população, em especial para os 60 milhões de usuários da internet no Brasil?

Acho que uma parcela cada vez maior da população está ligada, a informação está circulando. Agora, enquanto estamos conversando aqui, está acontecendo em Porto Alegre o Fórum Internacional de Software Livre, e o presidente Lula está lá. Acabei de saber via twitter que ele deu uma declaração bem incisiva contra a Lei Azeredo, dizendo que aquilo é estado policialesco, que tem que lutar contra isso. Ou seja: o recado chegou ao Lula. É o tipo de coisa que o Lula não estaria dizendo, não fosse o impacto que a mobilização na internet produziu e que chegou ao Ministério da Cultura, nas áreas mais progressistas do Governo.

Uma das principais características da internet é propiciar o debate, mas qual a qualidade deste debate? Ele é menos qualificado do que o debate que ocorre em outros meios? Ou ele reflete o debate possível em nossa sociedade?

Acho que o que acontece na internet é expressão de uma realidade que existe fora dela. A internet dá vazão a uma série de bate-bocas que nunca chegaram até a grande mídia. Basta você escolher o que quer acompanhar. Não acredito, por exemplo, que a caixa de mensagem do meu blog seja caracterizada por bate-boca. E uma coisa mais reflexiva, com um nível bem razoável. Quando as pessoas criticam os blogs pelos seus erros, ou pela linguagem meio descuidada, me preocupo pouco. Vejo tudo isso como uma espécie de termômetro da realidade e a realidade também é feita de chute na arquibancada, de palpite, de gritaria, de indignação. Este tipo de linguagem - que não costumava entrar nas mídias tradicionais - entra no blog. Mas o bate-boca não me incomoda, a existência de blogs onde eles existem não me incomoda nem um pouco. Sou um pouco como o nosso ex-ministro Gilberto Gil nesta questão. Eu acredito em abraçar o mundo, o bom e a porcaria que tem no mundo.

As mídias sociais poderão ocupar o papel da imprensa na intermediação da informação?

Essa é uma discussão complexa. Às vezes, por causa do meu entusiasmo com as novas mídias, por causa das minhas criticas violentas à grande mídia brasileira, algumas pessoas me acusam de defender a idéia de que os blogs vão acabar com a imprensa. Eu acho que não vão. Eu acho que vai morrer um certo modelo de Jornalismo, a minha crítica esta aí. Este modelo de Jornalismo, onde a notícia é impressa às oito da noite para ser lida, na melhor das hipóteses, às oito da manhã do dia seguinte vai morrer. Acho que este tipo de Jornalismo vai acabar. Vai acabar porque não tem o menor sentido você pagar para ler o que você já leu de graça no dia anterior, na internet. Mas, acho que estamos muito longe de qualquer tipo de cenário no qual os grandes grupos de mídia tendam a desaparecer. É sempre bom lembrar que o Grupo Folha, as Organizações Globo, a família Mesquita, elas não estão nem perto da insolvência, elas estão ganhando ainda uma boa grana. Acho, porém, que a produção de informação está se pulverizando um pouco, democratizou-se bastante o acesso à produção e circulação de informação. Isso está impactando na forma como os grandes grupos de mídia lidam com a informação. Hoje, todos os grandes portais têm blogs, jornalistas ligados à grande mídia estão abrindo seus blogs. Enfim, algumas respostas para esta nova realidade já são visíveis nos grandes grupos de mídia. Não acredito que os blogs, o twitter e as redes sociais, necessariamente, vão substituir a grande imprensa. A grande mídia vai perder um pouco da centralidade que ela tinha, de ser a única intermediadora da informação, mas não vejo nenhuma revolução à vista.

Que papel terá a internet na política brasileira em 2010?

Acho que a internet terá um papel muito importante na eleição brasileira do próximo ano, maior do que teve na última eleição. Em 2006 ela já teve um papel significativo, por exemplo, como aconteceu na véspera da eleição do primeiro turno, quando a Rede Globo colocou no jornal aquelas fotos, aquele pacote de dinheiro. Havia acontecido no mesmo dia o acidente da Gol e a Globo optou por não mostrar no Jornal Nacional.

O que existe de singular em um blog?

O que existe de singular no blog é que ele é movido, em geral, pelo desejo individual do blogueiro. Isso traz uma característica muito particular, que é o fato de muitos blogs se dedicarem a temas que o blogueiro realmente domina. É uma situação um pouco diferente, por exemplo, de uma empresa de Jornalismo onde o jornalista tem que cobrir temas que ele não domina. Claro que existem milhões de blogs onde o sujeito está escrevendo bobagens sobre temas que não domina. Mas, hoje, você tem uma especialização bem grande em muitos blogs. No caso da tecnologia, você tem blogs que te informam muito melhor do que qualquer caderno de tecnologia da imprensa brasileira. Hoje, quem quer estar atualizado sobre tecnologia não vai ler o caderno de informática do Globo ou da Folha, por que sabe que, principalmente nos blogs em inglês, ele vai encontrar informações muito mais atualizadas e especializadas. A grande vantagem é esta. O blog traz problemas no sentido de que é um espaço não editado, um espaço em que a interpretação crítica do leitor é muito importante, porque você tem que avalizar ou não aquela informação. Você tem que aprender a dissociar os blogs que têm credibilidade dos blogs que estão dando tiro para todo lado. Este tipo de triagem é o leitor quem vai fazer. Então, muitas vezes, o blog é criticado por não ter um editor, ou porque ninguém sabe se aquela informação é verdade ou não, mas esta é uma habilidade que o leitor vai desenvolver. No caso da Palestina, eu fiz questão de fazer uma cobertura diária, de plantão mesmo sobre o massacre em Gaza, porque é um tema sobre o qual eu me informo há bastante tempo. Sobre o Irã eu ainda não escrevi. Acho que eu não tenho nada a dizer que seja diferente deste festival de chutes que eu vejo por ai. Então, penso em me pautar com este cuidado. Não escrevo sobre cinema, por exemplo, que é um assunto que eu domino pouco. É claro que eu erro, é evidente, mas acho que eu não dou chute na arquibancada. Então, esse é a primeira singularidade que eu vejo. Existe uma gama enorme de blogs, onde o blogueiro está escrevendo sobre aquilo que ele é apaixonado. Nem sempre este é o caso nos grandes veículos de mídia. Então acho que esta é uma primeira distinção que poderia ser feita.

Os blogs surgiram como diários pessoais e hoje passam por uma transformação, tentando encontrar sua vocação. Qual é esta vocação em sua opinião?

Olha, é muito difícil generalizar a esta altura do campeonato. Ele é uma ferramenta mais ou menos neutra em relação ao conteúdo que veicula. Muitos blogs começaram como diários pessoais, mas nem todos. Um dos blogs pioneiros no Brasil, que é o Catarro Verde, do Sergio Faria, lá de São Paulo - um cara que está blogando desde 2001 - não tem nada de diário. São petardos, frases secas, curtas, como a gente diz: jogando a merda no ventilador. Acho que a vocação é produzir contatos horizontais entre o produtor e o consumidor de conteúdo. Acho que ele não tem uma vocação relacionada ao conteúdo, qualquer conteúdo entra nele. Não dá para rotular. Acho que, em algumas áreas, temos melhores blogs. Por exemplo, os blogs de tecnologia estão muito na frente dos blogs de literatura. Não temos, no Brasil, grandes blogs de literatura, seja de crítica literária, seja de produção ficcional ou poética mesmo. Tem muita gente colocando contos e poesias na internet, mas eu ainda não vejo uma qualidade. Posso estar errado, mas é o que observo de longe. Eu ainda não navego a internet em português procurando literatura. Quando eu quero ler literatura vou aos livros.

Mas isso não te deixa um pouco isolado do que pode estar acontecendo fora das grandes editoras?

Bom, eu estou de olho aberto, ligado. Mas até agora não vi muita coisa não. Assim, têm bons escritores que têm blogs, mas não necessariamente são bons blogs. Bons escritores que usam blogs para divulgar eventos, lançamento de um livro. Este tipo de coisa você encontra com freqüência. Mas, o que eu vejo de interessante em termos de criação são coisas que não são exatamente literatura no sentido estrito. Por exemplo, um dos meus blogs favoritos, o Ao mirante, Nelson!, não é exatamente literatura, mas é literatura de um jeito que funciona naquele espaço. Não é algo que existia antes como literatura e que foi colocada naquele espaço.

Qual o público dos blogs? Blogeiro escreve para blogeiro? Você consegue definir o perfil deste público?

Depende. Eu acho que todo mundo quer ser lido. Não conheço ninguém que escreva para si próprio. Até porque, se for para escrever para si próprio, é melhor deixar na gaveta. Vai colocar na internet pra que? Eu tenho uma idéia bem clara de quem me lê. Mas esta informação depende muito da sua familiaridade com a ferramenta. Hoje, nem olho muito as estatísticas, porque eu tenho já uma noção boa de quantas pessoas são, de onde elas vêm, etc. No caso do meu blog, a grande maioria é formada por um leitor que tende à esquerda, existe uma predominância de leitores com algum tipo de inquietude intelectual, tem uma grande parte de acadêmicos, muita gente da literatura, do direito. Então, tenho uma idéia bem razoável de quem me lê. Mas tem muita gente que não se preocupa com isso, que não está nem aí, e acho isso saudável.

Quais são os seus blogs preferidos?

Eu não vou aos blogs né? Eu uso o RSS, que é uma ferramenta de coleta de feeds, como se fosse uma assinatura. As informações chegam em minha página do google reader e eu só vou quando quero comentar alguma coisa. Então, fico sabendo se tem post novo em cada lugar. Os blogs que checo com mais entusiasmo são o Ao mirante, Nelson!, o Consenso, só no paredão, do Alexandre Nodari, o Descurvo, que é um blog de um jovem leitor do Biscoito, que abriu seu próprio blog, o Hugo Albuquerque. Entre os grandões, eu acompanho muito o blog do Luis Nassif, o Viomundo, do Luiz Carlos Azenha, acompanho o Amálgama, um blog coletivo de uma garotada muito boa. Ultimamente tenho lido com muito interesse o blog da Marjorie Rodrigues. Acho que estes são os que eu leio com mais constância, interesse e entusiasmo, mas tenho uma lista de 200 blogs aos quais estou sempre ligado.

Recentemente você se manifestou sobre um caso de anonimato na internet. Esta prática enfraquece a produção online?

Acho que este é um fenômeno mais ou menos inevitável. Este anonimato se quebra, é muito fácil descobrir quem é o anônimo. Com a polarização política, este tipo de coisa vai acontecer. No caso em questão era um blog anônimo que trazia ataques bem pesados, difamatórios, o conteúdo era calunioso. E aí depende de cada um se aciona a justiça, se não aciona. A minha tendência é sempre deixar para lá. Prefiro deixar passar batido. Neste caso, o Luiz Nassif achou que tinha ataques à honra ali, que ele queria resolver na justiça. É um direito dele. Era um negócio barra pesada. Até agora, inclusive, não está na justiça. Ele simplesmente acionou o Google para que os dados daquela pessoa fossem entregues, inclusive para que ele pudesse decidir se iria processar ou não. Judicialmente o procedimento dele foi corretíssimo. Primeiro ele acionou o Google para ter os dados, obteve os dados e agora sabe quem foi. Se ele quiser processar ele pode. Mas o fato é que faz parte da vida, entra no rol daquelas coisas que são componentes da realidade e que a internet apenas dá vazão. Ataques anônimos sempre existiram desde que o mundo é mundo. O caso é que a internet amplifica isso.

Qual a sua análise sobre a qualidade do Jornalismo praticado hoje nos Estados Unidos e no Brasil, e no que eles diferem?

Eu acho que a imprensa brasileira é muito ruim. Quando eu falo imprensa, estou pensando nos grandes oligopólios de mídia. Acho até que fora dos grandes centros há boas iniciativas locais. Mas o Jornalismo brasileiro tem uma característica que em outras sociedades latino-americanas você não vai encontrar: a concentração em quatro ou cinco famílias. São quatro ou cinco famílias que decidem no Brasil o que é notícia. O que acontece aqui, e que diferencia, eu acho, o Jornalismo brasileiro do americano, é que no Jornalismo americano existe algum tipo de confronto, algum tipo de embate. Então, na campanha eleitoral – diferente do que ocorreu na Guerra do Iraque, quando todo mundo disse o que o Bush queria – você via, por exemplo, certo tipo de generalização sobre o Obama na Fox, e você via, imediatamente, o contraponto na MSNBC, e, ainda, a CNN fazendo o meio de campo. Este tipo de embate de idéias não acontece no Brasil. O que acontece no Brasil é uma espécie de efeito manada. A Folha inventa um escândalo, a Veja e a Globo repercutem, o Estadão repercute e todos dizem a mesma coisa. O caso da Operação Satiagraha é um exemplo. O que aconteceu com o delegado Protógenes Queiroz foi absurdo. Aquela história dos grampos que ninguém nunca viu, os áudios que nunca apareceram. Gilmar Mendes simplesmente disse que foi grampeado, acusou a Abin e a Polícia Federal. Nenhum indício de grampo foi encontrado, o princípio mais básico do direito, que é a presunção de inocência, não foi respeitado. A imprensa bateu tambores com aquilo durante semanas, meses, em cima de nada, de um factóide.

Alguns blogs de esquerda utilizam o termo Partido da Imprensa Golpista (PIG) para se referirem aos representantes da grande mídia. Você crê neste tipo de articulação?

Não acho que seja, necessariamente, um partido organizado e golpista contra o Lula, nem que haja uma conspiração. É simplesmente o fato de que a concentração do capital midiático chegou a tal ponto que o os grandes grupos pensam mais ou menos da mesma forma. É como a gente diz em inglês: money thinks alike. O dinheiro pensa mais ou menos de forma parecida. Então, na questão política, eu acho que temos um Jornalismo cada vez mais fundamentado em factóides, em escândalos, em assassinatos de reputação, em uma escandalização da política que é muito daninha.

E nas demais áreas do Jornalismo?

Há também, nas outras áreas, problemas graves. Eu acompanho muito futebol, e o jornalismo esportivo que se faz no Brasil é péssimo. Você vê em alguns veículos, claramente, que as matérias têm dedo de empresário que quer vender tal jogador. Você vê repórter concominado com cartola. O que aconteceu com meu clube, por exemplo, o Atlético Mineiro, que no começo dos anos 80 tinha um dos maiores patrimônios do Brasil, é exemplo. Ele foi completamente dilapidado, hoje tem uma das maiores dividas do Brasil. Nos anos 80 vendeu meia seleção brasileira, aquele timão do Telê Santana. Todos estes nomes foram vendidos e ninguém viu o dinheiro. Se você abrir o Estado de Minas no caderno de esportes, você vê claramente o dedo do cartola. O jornalismo cultural é de qualidade cada vez mais baixa, cada vez mais centrado em fofoca, histórias do galã da novela, muito pouco conteúdo real. O caderno supostamente intelectual do maior jornal brasileiro, que é a Folha, é um negócio, sinceramente, vergonhoso. A grande maioria do que está lá são traduções de coisas já publicadas em inglês ou em francês que, quem tem condições de ler aquilo e entender, já leu na língua original. Quem não leu não tem interesse e nem quer acompanhar.

Falta uma produção original?

Sim, e não falta gente capaz de fazer isso no Brasil. No caso do Mais!, é uma opção por um determinado tipo de modelo de capital simbólico, de capital cultural, um certo tipo de expectativa sobre o que é que vai trazer distinção para o jornal. Fica um negócio completamente vazio. É um modelo de caderno cultural que não tem o menor sentido.

E o Jornalismo americano?

Não acho o jornalismo americano grande coisa, não. Mas acho que pelo menos lá você tem embate de idéias, você tem o contraponto.

É possível fazer um jornalismo de qualidade no Brasil dentro do mainstream? Ou não é possível e a saída poderia estar, inclusive, nas novas ferramentas que a internet está propiciando?

Eu acho que o mainstream pode mudar, ele está mudando. Acho que uma revista como a Carta Capital, com todos os problemas dela, faz uma coisa um pouco diferente do que você vê na Veja. Muitas vezes você se refere à Carta Capital e alguém vai dizer: “ah, mas é uma revista do PT, a única diferença é que ela é de esquerda e a Veja é de direita, é uma revista chapa branca, etc”. Eu não entendo muito esta crítica, pois a Carta Capital foi a revista que denunciou a armação do PT para sufocar o escândalo do chefe da Polícia Federal que torturou uma empregada doméstica. Foi a Carta Capital quem fez uma matéria sobre o Luis Eduardo Greenhall, mostrando como este sujeito que era advogado dos trabalhadores sem terra, ligado aos direitos humanos, virou advogado do Daniel Dantas. Foi esta revista que investigou a fundo o que foi o mensalão, além da bateção de tambor. Então, não vejo a Carta Capital como uma revista chapa branca. Vejo muitas críticas ao Governo Federal lá. Agora, é muito diferente do que se vê na Veja. Acho que o mainstream pode mudar, mas, sem dúvida, a transformação do Jornalismo brasileiro passa pela internet. Não só pelo que se produz na internet, mas pelo impacto que se dará sobre a mídia impressa, televisiva e radiofônica.

Qual sua posição sobre a inserção da chamada mídia alternativa na distribuição de recursos públicos de publicidade?

A primeira coisa que tem que ser dita é que o grosso do dinheiro público que vai para a mídia vai para a grande mídia. Se você tirar o dinheiro público da Veja, da Globo, da Folha de S.Paulo, se você tirar os anúncios da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa, estes grandes grupos de mídia vão tomar um baque tremendo, eu não sei se eles se sustentam sem dinheiro público. Quando o dinheiro público vai para alguma iniciativa menor, alternativa, sempre tem gritaria. Mas pouca gente fala dos anúncios do governo nas páginas da Veja. É uma revista que bate no governo sistematicamente, e nove em cada dez vezes bate a partir de factóides ou de escandalização. Então, acho que esta foi uma das mudanças positivas do Governo Lula, mas podia ter mudado ainda mais. Diversificou-se muito o destinatário deste dinheiro público. Hoje o número de veículos de mídia que recebe publicidade oficial é muito mais alto do que era oito anos atrás. Houve uma certa democratização desta distribuição. E aí eles chiaram né? A Folha e a Globo chiaram. Fizeram matérias totalmente manipuladas, do tipo ”aumenta em 560% os veículos que recebem publicidade oficial”. É algo que não faz o menor sentido, porque para o leitor fica parecendo que houve aumento de gastos na publicidade, o que não houve. Simplesmente aumentou o número de veículos que recebem estas publicidades. Mas acho o Governo Lula ainda muito tímido quanto a isso.

Você pensa, então, que deveria haver uma pluralidade maior na distribuição destes recursos?

Maior, maior. Acho que a Veja, não tem nada que receber dinheiro público...

Alguém na mídia deveria, de fato, receber dinheiro público? Não seria mais adequado se o leitor bancasse a mídia? Ou é utópico?

Olha Barone, é difícil responder no abstrato assim. Se for para ser capitalista, vamos ser capitalistas de verdade. Que a dona Veja, que a dona Folha de S.Paulo renunciem a verba pública e se banquem com anúncios privados e com as assinaturas. Por que eles chiam tanto quando o governo investe, por exemplo, R$ 2 milhões em um projeto como o Overmundo, que informa milhões de internautas – ou centenas de milhares - sobre manifestações culturais brasileiras que jamais teriam espaço na grande mídia? Acho que o Overmundo é um site de qualidade muito irregular, têm coisas muito boas e têm coisas muito ruins, muito mal escritas. Mas é isso mesmo, a vida é isso mesmo. Você vai lá e faz sua triagem. O governo investiu R$ 2 milhões ali. Pode parecer muito dinheiro, mas no mar de verba publicitária do Governo Federal não é absolutamente nada. Quando abriram o Overmundo foi uma chiadeira tremenda. Acho que, se for para usar verba pública para mídia, que se estabeleçam critérios. Interesse público? Definido de que forma? Quem vai ser o comitê gestor disso? Que seja claro. Do jeito que está é muito fácil para os grandes veículos de mídia usar isso como chantagem. “Não tira o anúncio da Petrobras não, senão vamos cair de pau”.

O que é melhor, uma imprensa travestida do manto da isenção, mas que opera seus interesses nas entrelinhas, ou uma imprensa abertamente engajada?

Isenção no sentido de imparcialidade política não existe né? isso é bobagem. Eu gosto muito desta tradição americana, por exemplo, de fazer suas escolhas em editorial. Quer dizer: o New York Times fez uma escolha pelo Obama e deixou isso claro em editorial. No caso das eleições brasileiras de 2006, a Carta Capital foi a única que fez isso e fez uma cobertura das eleições muito mais isenta do que os veículos de mídia que supostamente eram neutros, mas que estavam claramente fazendo campanha para o Geraldo Alckmin. Pega as capas da Veja. É a manipulação insidiosa que é irritante, eu acho, para a inteligência do leitor. Você pega a capa com o Lula: é uma charge do Lula, com uma viseira, uma roubalheira acontecendo em volta dele, e ele sem ver nada. A capa com o Alckmin é iluminada, com um close up e a legenda: “a alternativa”. Tem que ser imbecil para não ver que aquela revista está manipulando. E aí depois eles reclamam de que a internet está acabando com os leitores deles, mas são eles que estão acabando com os leitores. Ninguém é burro, as pessoas não são burras. Eu insisto muito nisso na internet. Não subestime a inteligência das pessoas. É um principio pelo qual eu me pauto, que eu uso para criar meus filhos. É melhor ser honesto, contar a verdade. Dizer assim: a Carta Capital acha que a candidatura Lula é melhor por isso, por isso e por isso. Isso é no editorial, matérias jornalísticas são matérias jornalísticas. A credibilidade não tem nada a ver com neutralidade. São coisas completamente diferentes. Todo mundo que lê o meu blog sabe que eu não sou neutro, todo mundo sabe disso. Agora, a credibilidade vem do fato deles saberem que eu chequei a informação que eu estou passando. É evidente que eu posso errar, mas eles sabem que eu chequei a informação. Eles sabem que tem ali, embutido no argumento, o contraditório. Eles sabem quem eu sou, de onde eu escrevo, quais são as minhas escolhas políticas. A credibilidade vem disso, ela não vem de uma pretensa neutralidade. A Folha de S.Paulo tenta passar a impressão de que é um jornal eqüidistante das forças políticas deste país, quando todo mundo sabe as relações da Folha com o José Serra. Todo mundo conhece. Qualquer um que saiba o beabá da política brasileira sabe das relações da família Frias com José Serra. Os escândalos que se sucederam no governo paulista. Eles fizeram um contrato sem licitação para o metrô, abriu-se uma cratera no centro de São Paulo, uma cratera do tamanho deste quarteirão, morreu um monte de gente, o contrato era sem licitação, era superfaturado, todo mundo sabe disso. E não teve uma matéria que investigasse isso.

Dá para levar a sério uma imprensa assim?

Recentemente publiquei no meu blog os números da grande imprensa brasileira mostrando que todos os grandes jornais estão perdendo leitores de ano para ano. De 2000 a 2008 a Folha de S.Paulo perdeu 30% dos seus leitores. Você junta a falta de transparência com o fato de que estas escolhas políticas não ficam claras, com o fato de que a internet vai oferecendo cada vez mais opções plurais, instantâneas, e você tem a receita da crise da mídia. Não é muito difícil de entender.

Alguns apontam como saída para o Jornalismo impresso um aprofundamento da pauta, da análise. Isso não é o que estão fazendo os blogs, apesar da crítica de que eles apenas repercutem o que é publicado nos jornais?

É, é. Eu acho que esta critica procede em um certo sentido. Os blogs no Brasil ainda não produzem informação. A informação primária, da qual os blogs se nutrem, vem da imprensa mesmo. Eu não tenho um representante no Senado procurando informação para mim. Não tenho condição de ter isso. No caso da política é muito raro você ter blogs que realmente produzam a informação primária. Um blog que eu leio com assiduidade e que é um dos melhores blogs do Brasil - e que é uma exceção a esta regra - é o RS urgente. Eles produzem informação primária. O Marco Aurélio Weissheimer tem contatos na Câmara dos Vereadores, na Assembléia Legislativa, no Governo do Rio Grande do Sul, e quem segue o colapso, a crise profunda do governo Yeda Crusius sabe de tudo desde 2007. A imprensa começou a cobrir agora. A Veja fez uma matéria - porque a Yeda Crusius estava se transformando em um peso para a candidatura Serra – e a grande mídia brasileira resolveu rifá-la. Mas o escândalo está lá desde 2007. Eles levaram dois anos para descobrir que tinha superfaturamento no Detran, que tinha venda de carteira no Detran. É um escândalo que já tem cadáver. E o Zero Hora não dava nada. O Zero Hora, que passou quatro anos inventando um escândalo atrás do outro na época do Governo Olívio Dutra. Você pode olhar os artigos do Zero Hora nestes quatro anos do governo do PT no Rio Grande do Sul. Era um escândalo atrás do outro. Todos eles, no geral, inventados. Voltando a sua pergunta, é verdade que a grande maioria dos blogs não produz informação primária no caso da política, com algumas poucas exceções como o RS Urgente. O papel dos blogs tem sido aprofundar, checar dados, o que é muito importante. A informação em geral vem da grande mídia, mas a gente vai lá checar e muitas vezes achamos matérias mentirosas.

Este papel de aprofundar o debate não deveria estar sendo ocupado pelo impresso, até para a sua sobrevivência?

É claro. A história dos grampos, por exemplo, mostra isso. A imprensa toda noticiava os grampos sem prova nenhuma. O sujeito diz que foi grampeado pela Abin. Ele encontrou algum vestígio? Não. Qual é a prova? É o depoimento dele, que a própria revista que ele chamou foi lá e transcreveu e depois ele mesmo foi lá e disse que a transcrição era correta. É um negócio absolutamente delirante. E aí o que a internet fez? Vários leitores meus, por exemplo, que são engenheiros, demonstraram que, para que o tal grampo tivesse acontecido, determinado aparelho deveria ter sido instalado em tal lugar, o que, naquele prédio, era impossível por isso, por isso e por isso. Isso se dá com informação especializada, que muitas vezes não vem nem do blogeiro, vem dos leitores. No meu blog, modéstia à parte - e não é mérito meu, é mérito dos leitores - posso colocar qualquer coisa, dizer: “preciso que vocês chequem isso”. Não vai demorar duas horas e eles vão dar a resposta. Se eu coloco uma informação errada, o nome do goleiro que jogou a Copa de 38 por Cuba, não demora meia hora e alguém aponta este erro. É transparência.

Qual sua opinião sobre as possibilidades de financiamento de um Jornalismo blogueiro?

Há esta esperança de que a internet ocupe um pouco do espaço da grande mídia. A questão chave para isso é saber quem vai pagar a conta. Para que os blogs, portais, sites de internet ocupem este espaço, eles precisam ser financiados. Alguém precisa pagar os custos da produção de notícia. Esta ainda é uma questão que está no ar no Brasil. Os blogs brasileiros que conseguem algum tipo de renda que permita ao blogueiro viver daquilo são, em geral, blogs de tecnologia.

Você acha que o modelo de conteúdo pago não funcionaria no futuro?

O modelo de conteúdo pago não funciona. Esta história de você colocar uma grade no seu site na qual o sujeito tenha que pagar para ler este ou aquele artigo não funciona, pois a oferta é muito grande. É uma simples questão de oferta e procura. Como a oferta é muito grande, quem começar a botar grade paga vai dançar. O modelo do add sense, propagandas via Google, rendem uma mixaria que não sustenta ninguém. Outro dia estava conversando com o Miguel do Rosário, jornalista carioca que tem um blog muito bom, o Óleo do diabo, um blog de esquerda, e ele disse que tirou o add sense porque rendia R$ 30 por mês. Nos Estados Unidos a coisa esta um pouco mais adiantada. Aconteceu há seis meses uma coisa muito promissora. O Hunffington Post, que é um dos melhores blogs de política do país, conseguiu uma bolsa em uma fundação privada de US 1,2 milhão para fazer jornalismo investigativo. Mas esta é uma coisa bem americana, esta história das fundações que têm grana e investem.

Sem este respaldo fica mais difícil produzir conteúdo de qualidade?

Para ser o mais honesto possível, eu posso manter o Biscoito sem propaganda porque eu tenho um salário muito bom como professor universitário. Sou professor titular, já conquistei o que eu queria na minha carreira e posso dedicar uma boa parte do meu tempo ao blog, porque é importante e prioritário para mim neste momento. Se eu dependesse de trabalhar oito horas por dia, eu não teria o Biscoito do jeito que ele é.

Há um caminho neste sentido no Brasil, um vislumbre para o financiamento deste trabalho na internet?

Eu acho que no Brasil, os empresários e grupos empresariais que fizerem uma aposta inteligente vão se dar bem. O grupo empresarial que fizer um investimento em um grupo de meia dúzia de bons blogs - que estabeleça um contrato com eles em que fique claro o que se espera destes blogs, até a freqüência de posts, que permita que estes blogueiros preservem sua liberdade e independência - pode obter bons resultados. A burguesia brasileira é muito medrosa e pouco criativa, mas o cara que perceber que ali tem um filão, ele vai gastar dinheiro nos primeiros seis meses, no primeiro ano, mas se ele mantiver esta idéia e fizer uma boa seleção de blogs, uma boa aposta, ele vai se dar muito bem, pois a visibilidade é enorme. Pode até fazer uma escolha plural: um blogueiro de esquerda, um de centro, outro de direita, para atingir um espectro maior. Faltam ainda no Brasil modelos de financiamento para o jornalista que está na internet, mas estes modelos existem, estão aí.

Como você analisou a reação pública à decisão do Supremo Tribunal Federal pela não obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão no Brasil?

Foi interessante. Eu senti nos jornalistas um pânico que foi absolutamente revelador. No final das contas, o Supremo não proibiu nenhum grupo de mídia de exigir o diploma, ele não proibiu o diploma, ele não acabou com a faculdade de jornalismo, ele não fez absolutamente nada, a não ser dizer que uma obrigatoriedade que já nem era respeitada deixaria de existir na letra da lei. Se você olha, por exemplo, o futebol. Quem são os jornalistas esportivos mais respeitados e de credibilidade no Brasil? Eu diria Juca Kfouri, que é formado em Sociologia, e Tostão, que é formado em Medicina. Alguém duvida que estes caras estão entre os três ou quatro melhores comentaristas de futebol do Brasil? Então, eu vi muito pânico, uma mostra da situação de crise do jornalismo brasileiro, a incerteza do jornalismo. Às vezes eu tiro sarro, pois tenho uma critica muito aguda à mídia, e os jornalistas foram muito arrogantes durante muito tempo. Agora é a nossa vez de tirar um sarrinho. Nós, os leitores de jornais, que passamos 20 anos escrevendo cartas para painel de leitor sendo ignorados, às vezes com correções importantes. Então, estamos agora, realmente, tirando um sarrinho com a reação dos jornalistas. No caso das reações negativas à decisão do STF, a única que realmente chegou perto de me fazer refletir foi a do Leandro Fortes, que eu considero o grande jornalista brasileiro de hoje. O Leandro argumentava que, com a queda da obrigatoriedade do diploma, os donos de veículos de comunicação do interior do Brasil estariam livres para contratar capangas. A manipulação ficaria mais fácil. Eu não conheço a realidade do interior do Brasil para dizer se o Leandro está certo ou não. Mas foi o único argumento que eu levei a sério. O resto foi desespero. Não vi nenhuma defesa da obrigatoriedade do diploma sendo feita por quem não fosse jornalista. Curioso.

Fotojornalismo

Militar ameaça cinegrafista durante operação na casa do presidente Manuel Zelaya, em Tegucigalpa (Honduras), momentos antes do presidente do país, Manuel Zelaya, ser preso por militares. Ontem, foto da Efe.

domingo, 28 de junho de 2009

Música aos domingos

Don't stop till you get enough - Michael Jackson
Ouça no volume máximo!




sábado, 27 de junho de 2009

Bate papo com Idelber

Acabo de chegar de Dourados (MS), onde tive o grande prazer de conhecer pessoalmente, compartilhar umas cervejinhas e entrevistar o professor e blogueiro Idelber Avelar. Figura instigante e muito generosa, Idelber está no estado, onde participou (entre quarta e sexta) de um congresso internacional de literatura na Universidade Federal da Grande Dourados. A entrevista, sobre mídias digitais, sua influência no mundo e no Jornalismo, publico na segunda-feira.

Idelber Avelar fala sobre a Lei Azeredo

Excelente a entrevista do professor e blogeiro Idelber Avelar no programa Mundo Político da TV Assembleia-MG, sobre a Lei Azeredo, o AI-5 Digital.


Entrevista com Idelber Avelar sobre o AI-5 Digital

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Imprensa precisa ajustar o foco ao tratar da homossexualidade

Amanhã - sábado, 27 - acontece em Campo Grande (MS) a abertura do V Encontro Regional das Travestis e Transexuais da Região Centro-Oeste. Parte do Programa Nacional de DST e Aids (PN), o evento vai tratar de assistência social, emprego, trabalho e previdência social. Vem em boa hora, já que Campo Grande foi marcada no ano passado por um lamentável episódio de intolerância em plena Câmara Municipal, quando, devido à atuação da bancada católica e evangélica da Casa, foi negada à Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS) a concessão do título municipal de utilidade pública.

O brasileiro cultiva o germe da intolerância. Por mais que rejeitemos o rótulo, ele está estampado em nossa sociedade e é visto com mais clareza em pesquisas, como a que foi encomendada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (do MEC), segundo a qual 99,9% dos entrevistados têm algum tipo de preconceito e mais de 90% gostariam de manter algum nível de distanciamento social dos portadores de necessidades especiais, homossexuais, pobres e negros. Em maio, outra pesquisa apontou que um em cada quatro brasileiros tem preconceito contra pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneras (LGBT) e assume sua rejeição às identidades que compõem esta população.

São números alarmantes, que podem ser inflados com uma postura dúbia sobre o tema por parte da mídia – como apontou a jornalista Ligia Martins Almeida no artigo “A mídia e o preconceito contra os homossexuais”. No episódio que envolveu a ATMS e o legislativo municipal campo-grandense, a abordagem da imprensa foi morna, não esmiuçou o tema sob o ponto de vista da homofobia – mesmo diante do fato de a Câmara ter negado a concessão do título sem base ou argumento técnico que corroborasse a decisão.

O jornalista Irineu Ramos, que desde 2003 estuda a sexualidade e o gênero na mídia, desenvolveu em sua tese de mestrado uma análise do telejornalismo na cobertura da 11ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em 2007. Ele concluiu que das 48 reportagens sobre o evento, mais de 30 usavam abordagens pouco apropriadas sobre os homossexuais. Em entrevista ao site A Capa, ele fez a seguinte análise sobre a Parada Gay deste ano: “Como nos anos anteriores a mídia se prendeu em questões concretas, como o aumento nas vendas no comércio, lotação de hotéis, violência e nada mais. Há uma dificuldade significativa da grande imprensa em abordar as questões subjetivas das sexualidades. A grande imprensa reproduz um discurso heterocentrado e não deixa nenhum espaço para as diferenças de gênero.”.

Para ele, “a grande imprensa não se permite ir um pouco mais a fundo nas questões envolvendo a homossexualidade”.

Referindo-se as duas ocorrências de violência durante o evento neste ano, Irineu afirmou que a imprensa insiste em navegar por águas rasas quando aborda temas relacionados aos homossexuais: “A grande imprensa poderia pegar o gancho da bomba e explorar a questão da homofobia, com se forma isso no indivíduo, o que está por trás desta agressão, a conseqüência disso nas pessoas vítimas de homofobia etc. Mas não, restringiu tudo a uma questão policial.”. A mesma relação pode ser feita com a reação da imprensa sul-mato-grossense frente a flagrante homofobia patrocinada pela Câmara Municipal de Campo Grande contra a ATMS.

O jornalista carioca André Fischer, dono da marca Mix Brasil, vê melhoras nesta relação entre mídia e o universo LGBT, mas considera que há ainda um longo caminho a ser trilhado. Em janeiro, em entrevista ao Escrevinhamentos, citou a abordagem sobre o tema nas novelas: “É lá que esta discussão aparece de forma mais clara. Talvez, o melhor exemplo do tratamento dado pela mídia à questão esteja no tabu do beijo gay na tevê. A Globo é uma emissora comercial que é simpática aos gays, sempre retrata personagens gays em novelas de maneira positiva, mas tem um receio de ir além disso.”.

No último dia 12, durante um evento que reuniu profissionais de imprensa em São Paulo, a abordagem da homossexualidade nas redações foi um dos temas discutidos. Apesar de a maioria dos integrantes da mesa ter garantido que não há preconceito nas redações em relação ao enfoque de temas que envolvem o mundo LGBT, Ivan Martins - editor executivo da revista Época – afirmou: "Dizer que não há preconceito na redação é mentira. Existe uma pressão por parte de quem edita a revista para que abordemos pautas mais 'normais'. A grande imprensa ainda não sabe lidar com o tema".

Totalitarismo?

Esta postura negligente da mídia em relação ao preconceito de gênero e de opção sexual não é novidade, como aponta Victor Barroco no artigo “Mídia brasileira ignorou rebelião de Stonewall”, e surgiu novamente no dia 1º de junho, quando os jornais A Tarde, O Globo, Estado de S. Paulo e Gazeta do Povo publicaram o artigo Totalitarismo e Intolerância, do jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco, que ataca as políticas públicas para o combate à homofobia no Brasil.

Di Franco critica medidas que integram o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), documento firmado por representantes de 18 ministérios do governo Lula, entre elas a inclusão nos livros didáticos de temáticas relacionadas a famílias compostas por lésbicas, gays, travestis e transexuais; a recomendação da implantação de cursos de capacitação para evitar a homofobia nas escolas e pesquisas sobre comportamento de professores e alunos em relação ao tema.

Sustenta Di Franco: “os governos, num espasmo de totalitarismo, querem impor à sociedade um modo único de pensar, de ver e de sentir. Uma coisa é o combate à discriminação, urgente e necessário. Outra, totalmente diferente, é o proselitismo de uma opção de vida. Não cabe ao governo, com manuais, cartilhas e material didático, formatar a cabeça dos brasileiros.”. Segundo ele, “tal estratégia tem nome: totalitarismo”, e vai além: “O governo deve impedir os abusos da homofobia, mas não pode impor um modelo de família que não bate com as raízes culturais do Brasil e sequer está em sintonia com o sentir da imensa maioria da população.”.

É verdade, o governo não pode impor um modelo de família. No entanto, dizer que é isso o que ocorre a partir das diretrizes propostas pelo Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT seria um contra-senso caso a afirmação viesse como simples opinião em um artigo. Mas é apavorante vindo de uma pessoa que – como aponta Leandro Colling no artigo “Opus Dei ataca homossexuais e os jornais dizem amém“ – “presta ou prestou assessoria a vários jornais brasileiros, inclusive para aqueles que publicaram seu texto claramente homofóbico”.

Colling lembra, ainda, que – segundo a revista Época – Di Franco já treinou mais de 200 editores brasileiros. “Talvez por isso não devamos estranhar a qualidade de nossos periódicos na atualidade”, espeta, e lembra: “Também fico a imaginar o que esse professor de ética está ensinando aos seus alunos. Seria ele mais ético se assinasse seus textos como representante da Opus Dei no Brasil.”.

Ora, um membro ativo da Opus Dei criticando a imposição de modelos de família é, no mínimo, muito estranho.

Leia mais sobre este tema:
- Orientação sexual em MS
- Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay
- Eles eram mais livres
- Preconceito e cidadania
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado

Uma ótima análise sobre o Jornalismo

O que faz a indústria jornalística é, na verdade, centenas ou milhares de pessoas dizendo a mesma coisa como se fosse novidade. A diferença é que tudo indica que, cada vez mais, isso vai ser feito pela própria sociedade, dona de seus próprios meios de produção e distribuição da informação. Na ausência da grande indústria jornalística, a notícia procurará outros canais de distribuição. Podem ser blogs de jornalistas independentes. Podem ser sites de organizações não governamentais dedicadas a um ou outro assunto. Podem ser sites de jornalistas que, com estrutura reduzida, farão exatamente o mesmo papel que um grande jornal hoje faz.”

De Rafael Galvão no artigo “De jornalistas e ascensoristas”, a melhor análise que li sobre o Jornalismo e o diploma.

Fotojornalismo

Envolto por acusações de irregularidades no Senado, José Sarney fez ontem o que fazem melhor os poderosos quando são acossados: culpou a imprensa. Foto de Geraldo Magela/Agência Senado.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O Silmarillion - JRR Tolkien

Havia Eru, o Único, que em Arda se chama Ilúvatar; ele fez primeiro os Ainur, os Sagrados, que eram filhos do seu pensamento e que estiveram com ele antes de alguma coisa mais ser feita. E falava-lhes, propondo-lhes temas de música; e eles cantavam perante ele, que ficava satisfeito. Mas, durante muito tempo, cantavam só um de cada vez, ou poucos juntos, enquanto os restantes escutavam, pois cada um compreendia apenas aquela parte da mente de Ilúvatar donde proviera e só lentamente ia compreendendo os seus irmãos. No entanto, todas as vezes que escutavam, adquiriam uma compreensão mais profunda, e a sua unissonância e harmonia aumentavam.

E veio a acontecer um dia que Ilúvatar reuniu todos os Ainur e lhes comunicou um tema portentoso, mostrando-lhes coisas maiores e mais maravilhosas do que até então lhes revelara; e a glória do seu começo e o esplendor de seu fim de tal modo maravilharam os Ainur que eles se curvaram diante de Ilúvatar e ficaram silenciosos.

Então, Ilúvatar disse-lhes: "Do tema que vos anunciei quero agora que façais juntos, em harmonia, uma grande música. E, como acendi em vós a chama imperecível, demonstrareis os vossos poderes no adorno deste tema, cada um com os seus próprios pensamentos e engenho, se assim quiser. Mas eu ficarei sentado e escutarei e feliz me sentirei por, através de vós, grande beleza ter despertado num canto."

Então as vozes dos Ainur, traduzidas por harpas e alaúdes, flautas e trompas, violas e órgãos e por incontáveis coros cantando com palavras, começaram a moldar o tema de Ilúvatar numa grande música; e ergueu-se um som de intermináveis e intermutáveis melodias entretecidas em harmonia, um som que, ultrapassando o ouvido, se propagou às profundidades e às alturas, e os lugares de habitação de Ilúvatar encheram-se a transbordar, e a música e o eco da música chegaram ao vazio, que deixou de ser vazio. Jamais desde então fizeram os Ainur qualquer música como essa, embora tenha sido dito que outra ainda mais grandiosa será ouvida perante Ilúvatar pelos coros dos Ainur e pelos filhos de Ilúvatar depois do fim dos dias. Então, os temas de Ilúvatar serão tocados corretamente e assumirão um ser no momento da sua expressão, pois todos compreenderão totalmente a intenção dele na sua parte e cada um terá a compreensão de cada qual, e Ilúvatar, satisfeito, dará aos pensamentos deles o fogo secreto.

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Assim começa O Silmarillion, uma maravilhosa obra de fantasia na qual o lingüista britânico JRR Tolkien nos oferece a cosmologia de um mundo que abriga seres tirados da mitologia européia, mas cuja saga fala tão profundamente ao nosso espírito moderno. Acabo de reler minha estimada edição portuguesa, da editora Europa-América, cuja tradução – de Fernanda Pinto Rodrigues – acho deliciosamente pitoresca em comparação à edição brasileira da Martins Fontes.

Dividido em quatro livros (Ainulindalë, Valaquenta, Quenta Silmarillion e Akallabêth), o livro é uma mostra da magnífica imaginação de Tolkien, uma construção mitológica densa, costurada pelos relatos heróicos de deuses, elfos, homens e criaturas tiradas do imaginário europeu que, unidos, transformam-se em uma intrincada história do nosso próprio mundo em um passado remoto.

A obra, cujos primeiros traços datam do início de 1925, quando Tolkien escreveu um esboço da mitologia, teve o conceito dos personagens, temas e histórias específicas desenvolvidos em 1917 quando Tolkien, então um oficial britâncio que retornou da França durante a Primeira Guerra Mundial, estava numa cama sofrendo de Febre das Trincheiras. Àquela época, ele chamou seus escritos de The Book of Lost Tales.

Muitos anos depois da guerra, encorajado pelo sucesso de O Hobbit, Tolkien enviou uma versão incompleta, porém mais desenvolvida de O Silmarillion para seu editor, George Allen & Unwin, que rejeitou o trabalho por ser muito obscuro e "demasiadamente celta". Ele então pediu a Tolkien que ao invés de O Silmarillion, trabalha-se em uma continuação para O Hobbit, idéia que se transformaria na mais famosa, mas não mais importante, obra: O Senhor dos Anéis.

No fim dos anos 50 ele começou novamente a trabalhar no Silmarillion, mas seu trabalho era mais relacionado a assuntos teológicos e filosóficos que com a narrativa propriamente dita. Durante esse tempo ele escreveu muito sobre estes tópicos, como o surgimento do mal em Arda, a origem dos Orcs, o costume dos Elfos e sua imortalidade, o Mundo Plano, a história do Sol e da Lua. Por esses tempos, sérias dúvidas o acometeram sobre alguns aspectos fundamentais do trabalho e ele voltou às versões mais antigas das histórias e parece ter sentido que devia solucionar esses problemas antes de publicar a versão final. Mas não pode concluir este trabalho em vida.

Depois de sua morte, em 1973, seu filho, Christopher Tolkien, compilou a narrativa de O Silmarillion de modo a mantê-la consistente com O Senhor dos Anéis. O livro foi então publicado no ano de 1977.

O Silmarillion não relata apenas os eventos de uma época muito anterior àquela de O Senhor dos Anéis; em todos os pontos essenciais de sua concepção, ele também é, de longe, a obra mais antiga. Na realidade, embora na época não se chamasse O Silmarillion, ele já existia meio século atrás. Em cadernos velhíssimos, que remontam a 1917, podem ser lidas as versões iniciais das histórias mais importantes da mitologia, muitas vezes escritas às pressas, a lápis. Ele nunca foi publicado (ainda que alguma indicação de seu conteúdo pudesse ser depreendida de O Senhor dos Anéis), mas meu pai, durante sua longa vida, jamais o deixou de lado, nem parou de trabalhar nele, mesmo em seus últimos anos. Durante todo esse tempo, O Silmarillion, se considerado meramente como uma grande estrutura narrativa, sofreu relativamente poucas mudanças radicais: há muito, tornou-se uma tradição estabelecida e uma fonte de referência para textos posteriores.”, diz Christopher Tolkien na introdução do livro.

O fato é que O Silmarillion é recheado por trechos de extrema beleza, como o capítulo IV do Quenta Silmarillion, “De Thingol e Melian”, que narra o encontro entre o alto-elfo Elwë (Thingol) e a maia Melian, na floresta de Noldoreth, em Beleriand;

Ela não proferiu nenhuma palavra, mas cheio de amor, Elwë aproximou-se e pegou-lhe na mão, e, acto contínuo, caiu sobre ele um encantamento, de modo que ficaram assim enquanto longos anos eram medidos pelas irrequietas estrelas que os cobriam; as árvores de Nam Elmoth tornaram-se altas e escuras antes de eles proferirem qualquer palavra.

ou o capítulo XII, “Do Regresso dos Noldor”, que trata da volta dos altos-elfos da família dos Noldor para a Terra Média:

Mas quando o exército de Fingolfin entrou em Mithrim, o Sol ergueu-se flamejante no Ocidente; e Fingolfin desfraldou as suas bandeiras, azuis e prateadas, e tocou as suas trompas, e irromperam flores sob os seus pés em marcha e as eras das estrelas terminaram.

O livro é composto, ainda, de uma poesia épica de rara consistência. O capítulo XIX do Quenta Silmarillion, “De Beren e Lúthien” é um exemplo deste estilo - que se estende à prosa - recheado de heroísmo e beleza, do qual o poema Balada de Leithian é um exemplo delicioso.

“Ele cantou um canto de feitiçaria,
de traspassar, abrir, de atraiçoar,
revelar, descobrir, denunciar.
Então, de súbito, Felagund, vacilante,
cantou em resposta um canto de ficar,
resistir, batalhar contra grande poder,
de segredos guardados, força de torre,
e confiança incólume, liberdade, fuga;
de mudar e de forma mutável,
de ciladas eludidas, armadilhas quebradas,
da prisão a abrir-se, da corrente que quebra.
De cá para lá andava o canto deles.
Cambaleante e soçobrante, quando, cada vez mais forte,
o canto se dilatava, Felagund lutava,
e toda a magia e poder concentrava
da elficidade de suas palavras.
Docemente no escuro cantavam as aves,
cantavam longe de Nargothrond
o suspiro do mar, para além,
para além do mundo ocidental, sobre areia,
sobre areia de pérolas na terra élfica.
Depois adensaram-se as trevas, a escuridão cresceu
em Valinor, o sangue vermelho correu
ao lado do mar, onde os Noldor chacinaram
os viajantes da espuma e roubando levaram
os seus barcos brancos com as suas velas brancas
dos portos iluminados. O vento assobia,
o lobo uiva. Os corvos fogem.
O gelo murmura nas bocas do mar.
Os cativos tristes de Angband choram.
O trovão atroa, as fogueiras ardem...
E Finrod caiu diante do trono.

O Silmarillion traz, também, passagens que podem ser relacionadas à época em que Tolkien viveu - apesar de o autor sempre ter negado qualquer veiculação ideológica ou política em sua obra. Ainda assim, certas passagens ressoam o espírito de uma época, como os trechos a seguir, do Quenta Silmarillion, Capítulo XX, “Da quinta batalha: Nirnaeth Arnoediad”.

Então, quando Fingon ouviu ao longe a grande trompa de Turgon, seu irmão, a sombra passou, o seu coração animou-se e ele gritou alto: “Utúlie’n aurë! Aiya Eldalië ar Atanatári, utúlie’n aurë!” (O dia chegou! Olhai, povo dos Eldar e pais dos Homens, o dia chegou!). E todos aqueles que ouviram a sua grande voz ecoar nos montes gritaram em resposta: “Auta i lómë!” (a noite está a passar!).

Ou

Por fim, Húrin encontrava-se sozinho. Então lançou fora o escudo e empunhou um machado com as duas mãos; e canta-se que o machado fumegou no sangue preto do guarda troll de Gothmog até o sangue secar e que, cada vez que o brandia, Húrin gritava: “Aurë entuluva!” (O dia voltará a nascer!).

No capítulo XXIV, outro trecho avassalador, quando Eönwë, arauto de Manwë, saúda Eärendil entre Tirion e o mar de Valinor.

“Salve Eärendil, dos marinheiros o mais famoso, o esperado que chega inesperadamente, o desejado que chega quando perdida é a esperança! Salve Eärendil, portador de luz perante o Sol e a Lua! Esplendor dos filhos da Terra, estrela na escuridão, pedra preciosa no crepúsculo, radiante na manhã”

Para os que se deliciam com a fantasia (gênero tão pouco respeitado e conhecido no Brasil) e conseguem pinçar elementos de beleza profunda e poesia destas construções literárias recheadas de analogias com o nosso tempo, O Silmarillion é uma parada obrigatória.

Poesia

"Meu coração de pernas curtas insiste em passos largos"
Pinçada de um poema de Vinícios Paes

Fotojornalismo

Meninas se vestem como noivinhas em celebração de tradição ortodoxa em Sofia, na Bulgária. Ontem. Foto de Petar Petrov/AP.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Diploma e Jornalismo: visões inglesas e argentinas

A não exigência do diploma de nível superior específico para o exercício da profissão de jornalista – decidida pelo Supremo Tribunal Federal na quarta-feira (17/6) foi o assunto do programa Observatório da Imprensa exibido ao vivo ontem, 23, pela TV Brasil.

O programa exibiu participações gravadas via internet dos correspondentes Sílio Boccanera, baseado em Londres, e Ariel Palácios, que reside em Buenos Aires. Boccanera explicou que não existe a exigência do diploma para a prática jornalística na Inglaterra, na Escócia, no País de Gales, nas duas Irlandas e na maior parte dos países da Europa continental. "Na verdade, eu ousaria dizer que os editores aqui ficariam espantados se soubessem que poderiam contratar apenas quem fosse formado em jornalismo. Eles consideram que o essencial é a formação da pessoa. Talvez até uma qualificação universitária que pode ser, inclusive, em Jornalismo, mas que na maioria das vezes não é".

Sílio Boccanera disse que as universidades oferecem um curso chamado Estudos de Mídia, mas que esta formação não é "muito bem-vista" porque enfatiza mais a teoria do que a prática. Na Inglaterra, o recrutamento de jornalistas é feito "com base no potencial que o editor acredita que ele vá oferecer". A maioria das empresas oferece treinamento através de um curso específico de jornalismo. De uma maneira geral, os editores que contratam não levam em conta a formação acadêmica em jornalismo. "Como experiência pessoal de alguém conhece jornalismo aqui na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil – e eu sou formado em jornalismo – eu diria que a exigência do diploma não faz muito sentido. Não é um diploma inútil, mas não deve ser uma exigência, um requerimento oficial para que alguém possa exercer uma profissão", avaliou.

Na Argentina, nunca existiu a obrigatoriedade de diploma para exercício da profissão de jornalista. Ariel Palacios explicou que os profissionais argentinos têm uma ampla variedade de formação. A geração de veteranos é composta quase que integralmente por pessoas que cursaram um amplo leque de cadeiras de ciências humanas, sociais e econômicas ou não têm grau superior. Poucos desta geração são formados em comunicação social. A geração intermediária, formada nos anos de 1980, é mista. Já os profissionais que entraram no mercado a partir de meados da década de 1990 são, em sua maioria, formados em comunicação social.

A tendência da contratação de pessoal formado em jornalismo na Argentina ocorreu de forma natural nos últimos anos apesar da ausência da obrigatoriedade do diploma. Ao longo dos anos 1970 existiam poucas faculdades de jornalismo, mas a volta da democracia em 1983 e o fim da censura começaram a expandir o mercado. O boom ocorreu no início dos anos 1990, com o crescimento dos canais a cabo, além do crescimento do prestígio do jornalismo por conta de reportagens investigativas sobre corrupção. "Isso aumentou a demanda e gerou um boom de faculdades pequenas", explicou Palacios. Além disso, surgiram diversos cursos técnicos, principalmente na área de jornalismo esportivo.

Traduções iranianas

A Translation and Interpretation Initiative for Iranian Protesters (TIIIP) – Iniciativa pela Tradução e Interpretação para os Manifestantes Iranianos – tem o objetivo de traduzir do persa para o inglês a maior quantidade possível de documentos, cartas e textos diversos sendo produzidos pelos manifestantes no país. O grupo tem um blog e um wiki. Pinçado no blog do Pedro Doria.

Qual é o Valor do Conhecimento?

Stephen Kanitz

O ESTADO DE SÃO PAULO publica anúncio de página inteira, com os seguintes dizeres:

"Qual É O Valor Do Conhecimento?
A Informação Está Em Todo Lugar. Se Hoje Em Dia A Informação É De Graça: Qual É O Valor Do Conhecimento?"

É uma excelente discussão, especialmente para quem pretende escolher a profissão de jornalista no próximo vestibular.

De fato, a informação está em todo lugar. Está em blogs de economistas, advogados, professores, de empresas como a Petrobras, nas associações de classe.

Obama fez uma campanha em que as informações de seu Twitter passavam diretamente dele para os seus eleitores, sem ter a imprensa como intermediária. Tal fato reduziu, e muito, o poder da imprensa sobre os políticos americanos.

Políticos brasileiros há uns 25 anos descobriram este poder de intermediação (e de distorção) que a imprensa fazia das propostas do candidatos, e passaram a ter veículos de imprensa próprios, como rádios e TVs. Assim, Sarney governou dando concessões de rádios e TVs aos políticos em troca da aprovação de leis necessárias. ACM, Collor de Melo etc. e etc. eram (e são) donos de TV e jornais.

A imprensa escrita sofre há 20 anos a concorrência do jornalismo de TV, que é mais rápido e grátis.

Como pode O Estado de São Paulo concorrer com os telejornais, que oferecem a mesma informação grátis (basta ligar a televisão)?

Como os jornalistas podem concorrer com prêmios Nobel como Paul Krugman, que supostamente entendem muito mais de economia do que qualquer jornalista?
É um problema sério para qualquer futuro jornalista.

Aqueles que geram conhecimento não precisam mais da imprensa para transmitir tal conhecimento à sociedade. Basta abrir um blog e colocar as palavras-chave ou assunto. Depois, o Google te acha.

Melhor: se você der uma entrevista a um jornalista (e ele nem sempre escreve o que você disse), você pode preservar para sempre tal entrevista no seu blog, enquanto o jornal só fica nas bancas por um único dia.

Ainda existe uma saída para o jornalista, e eu até participei de uma mudança positiva no jornalismo brasileiro, algo inédito até então, e que acredito seja a solução.
Criei na revista Exame o banco de dados das 1000 maiores empresas brasileiras. Criamos conhecimento, publicávamos as melhores empresas, os benchmarks, as fórmulas de sucesso. Criávamos nós mesmos o conhecimento que estávamos publicando. A Exame pagou pelo conhecimento gerado, em vez de obtê-lo de graça dos entrevistados.

A Folha criou depois o Datafolha, com o mesmo objetivo: criar conhecimento.

A saída, como insinua o Estadão, é você pagar pelo conhecimento. E, provavelmente, terá de pagar caro. Terá de criar no jornal um conhecimento que ninguém mais tem, como fiz por 25 anos na Revista Exame, criando análises exclusivas sobre a economia brasileira, sob o ângulo do administrador. Tais análises eram aguardadas todo ano: sucesso de banca por 25 anos.

Assim sendo, talvez a escola de jornalismo não seja a melhor opção, mas sim uma escola que ensine conteúdo: seja de sociologia, política, economia ou administração -- uma das várias ciências ou assuntos que seu futuro jornal cobrirá. E criar um núcleo de pesquisas, como fizeram a Folha e a Revista Exame.

É algo para se pensar.

Morin e a internet

A internet hoje dá uma possibilidade de multiplicação de informação e comentários, que é muito útil, por que a vida de uma democracia é a pluralidade das opiniões, visões, sem a homogeneidade da imprensa. Não há muitas diferenças na grande imprensa. É muito útil a internet, o que não significa que não há coisas falsas que venham dessas redes. Mas é a educação que dá à pessoa condição de ver e confrontar o que vê na internet e na televisão. Penso que hoje a internet dá uma possibilidade de mudança muito grande, por exemplo, pela complexidade. No México, há um curso de complexidade da educação virtual, com 25 países.

Do filósofo francês Edgar Morin, que está no Brasil para uma série de palestras e seminários, em entrevista ao jornalista Lincoln Macário.

Fotojornalismo

O presidente reeleito do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, despacha na segunda-feira (22) em seu escritório em Teerã enquanto nas ruas a violência e a repressão correm soltas. Foto: AP

terça-feira, 23 de junho de 2009

Direitos humanos: estamos mal na foto

"O Brasil vê os direitos humanos como um obstáculo para suas metas. Acredita que seu apoio a políticas anticolonialistas em [países] do Terceiro Mundo deve sobrepor-se a considerações sobre direitos humanos. O México é um país-modelo no tocante a padrão de política de direitos humanos, seguido por Chile, Argentina e Uruguai. O Brasil está do outro lado do espectro."

José Miguel Vivanco, diretor regional da ONG Human Rights Watch, em entrevista a Andres Oppenheimer, no Miami Herald.

Leia mais sobre este tema:
- Lula surta em declarações sobre o Irã
- Diplomacia de resultados e a arte de se equilibar sobre muros

Rede de espionagem do Irã na internet conta com tecnologia ocidental

Por Christopher Rhoads em Nova Iorque e Loretta Chao em Beijing
Tradução de Victor Barone
Publicado originalmente no
Wall Street Journal

O regime iraniano desenvolveu, com o auxilio de empresas de telecomunicação européias, um dos mais sofisticados mecanismos de controle e censura para a internet, que permite ao governo examinar o conteúdo de comunicações individuais online em escala maciça.

Segundo especialistas em tecnologia do Irã e de outros países, os esforços do governo iraniano em monitorar o conteúdo da internet vão muito além do simples bloqueio de acesso a sites ou do corte de conexões.

Segundo estes especialistas, para confrontar a instabilidade política que consome o país desde a semana passada, o governo iraniano se engajou em práticas que permitem as autoridades não apenas bloquear as comunicações, mas, também, monitorá-las a ponto de colher informações individuais dos usuários, além de alterá-las em uma guerra de contra-informação.

Este monitoramento foi viabilizado, ao menos em parte, a partir do segundo semestre de 2008, por uma joint venture chamada Nokia Siemens Networks, reunindo a Siemens AG, um conglomerado alemão, e a Nokia Corp, companhia finlandesa de telefonia celular, garante Bem Roome, porta voz da joint venture.

Segundo Roome, o centro de monitoramento, instalado junto à empresa estatal iraniana de telecomunicações, é parte de um grande contrato com o Irã que inclui tecnologia de rede de telefonia celular. “Se você vende redes, você também pode vender a capacidade de interceptar qualquer comunicação feita a partir dela”, afirmou.

A venda destes equipamentos ao país já havia sido divulgada no ano passado pelo web site Futurezone, dedicado à tecnologia de informação.

O governo iraniano fez, recentemente, breves experiências com o equipamento, mas ainda não havia usado suas capacidades ostensivamente até os recentes distúrbios.

Não sabíamos que eles podiam fazer tanto com estes equipamentos”, disse um engenheiro de redes em Teerã. “Agora sabemos que eles têm equipamentos poderosos que permite que eles façam rastreamentos muito complexos pela rede”.

Estas capacidades envolvem rastreamento de dados online de e-mails e chamadas de telefone virtuais, imagens e mensagens feitas por meio de redes sociais com Facebook e Twitter. Cada pacote de informações é desconstruído, examinado com palavras–chave e reconstruídos em milésimos de segundos. No caso do Irã, esta pesquisa é feita em todo o país por meio de um único provedor, segundo os engenheiros de rede familiarizados com o sistema do país.

Todos os olhos estão voltados para a internet nesta crise iraniana, assim como para as tentativas governamentais de combater a troca de informações online entre os dissidentes. A infiltração no tráfico de informações online no Irã pode explicar a razão pela qual o governo permitiu que a Internet continuasse a funcionar – e, também, porque a velocidade de acesso caiu pela metade nos dias seguintes a divulgação dos resultados da votação presidencial que impulsionou os distúrbios no país.

Usuários iranianos da internet reportaram esta diminuição na velocidade do acesso a uma proporção de décimo do normal. A análise de dados por meio dos mecanismos de espionagem atrasa a transmissão de dados online a não ser que seja acompanhada por um grande aumento no poder de processamento, dizem os analistas.

O Irã está “escavando sua opinião pública”, afirmou Bradley Anstis, diretor de estratégia técnica da Marshal8e6 Inc., uma companhia de segurança em internet situada em Orange, Califórnia. Ele e outros especialistas entrevistados examinaram o fluxo do tráfico online entrando e saindo do Irã e concluíam que ele possui características de monitoramento: “Parece que eles estão um passo à frente do que qualquer outro país esta fazendo, inclusive a China”, afirmou.

A China gaba-se de seu “Grande Firewall”, considerado o mais avançado e caro programa de censura à internet no mundo, e que também envolve inspeções nos moldes do que foi desenvolvido pela Nokia Siemens Networks. No entanto, na China, estas técnicas estão sendo desenvolvidas de forma mais descentralizada, ao nível dos provedores de acesso à internet, ao invés de um único centro de filtragem, dizem os especialistas. Isso sugere que esta filtragem não seja tão uniforme quanto a que acontece no Irã.

A diferença, ao menos em parte, tem a ver com a escala: a China possui cerca de 300 milhões de usuários de internet, mas que qualquer país. O Irã, onde se estima um contingente de 23 milhões de usuários, é capaz de rastrear toda a comunicação online em um único lugar, o Telecommunication Infrastructure Co., parte do monopólio estatal de telecomunicações iraniano. Todos os links internacionais rodam por meio desta companhia.

Filtros

Paralelamente ao que ocorre no Irã, membros da embaixada estadunidense em Beijing encontraram-se na sexta-feira com representantes chineses para expressar sua preocupação quando as novas exigências de que todos os computadores vendidos na China a partir de 1º de julho sejam equipados com software de filtragem de dados.

Se um governo quiser controlar o fluxo de informações através de suas fronteiras é necessário mais que bloquear o acesso a web sites localizados em outros locais. Agora, com a troca de dados por meio das redes sociais se tornando cada vez mais populares, regimes repressores estão se voltando para tecnologias que permitem analisar as informações produzidas e recebidas por seus cidadãos, mensagem por mensagem.

Grupos de direitos humanos têm criticado a venda deste tipo de software ao Irã e a outros regimes considerados repressores, pois eles podem ser usados para controlar dissidentes, com evidencia a crise iraniana. Questionado sobre o tema, Roome disse que a companhia “não pode escolher com quem faz negócios” e que “acredita ser melhor proporcionar às pessoas, onde quer que elas estejam, os meios de se comunicar do que deixá-las sem opção de serem ouvidas”.

Países com governos repressores não são os únicos interessados neste tipo de tecnologia. A Inglaterra tem uma lista de sites bloqueados, e o governo alemão está considerando medidas similares. Nos Estados Unidos, a National Security Agency tem esta capacidade – utilizada durante o Governo Bush por meio do "Terrorist Surveillance Program". A Casa Branca não comenta oficialmente se o programa tem sido usado pelo Governo Obama.

O governo da Austrália está experimentando filtros de internet para proteger seus jovens da pornografia online e tem recebido críticas dos que consideram a ação uma tentativa de censura.

Tecnologias de análise de conteúdo e filtragem já são comuns entre corporações, escolas e outras instituições, como parte dos esforços para bloquear spams e vírus, assim como de assegurar que os empregados e estudantes sigam as diretrizes de uso estabelecidas por estas entidades. Famílias também usam filtros em suas casas, para proteger seus filhos de sites indesejados, como os dedicados à pornografia e ao jogo.

A censura à internet no Irã foi desenvolvida com esta justificativa inicial, de bloquear a pornografia online, entre outros materiais considerados ofensivos pelo regime, segundo os que têm estudado o histórico da censura online no país.

O Irã tem apertado o cerco deste controle desde que a internet ampliou sua presença no país para além das universidades e das agências de governo no final dos anos 90. Neste período, o governo tentou limitar a vibrante blogosfera do país obrigando os blogeiros a obterem uma licença governamental. A medida provou-se de difícil implantação, segundo a OpenNet Initiative, uma parceria entre universidades que estudam a filtragem e vigilância sobre a internet (integram a parceria as seguintes instituições: Harvard University, University of Toronto, University of Cambridge e University of Oxford).

A partir de 2001, o governo do Irã requisitou aos provedores que instalassem sistemas de filtragem e também que todas as conexões internacionais fossem dirigidas a uma única gateway controlada pelo monopólio estatal de telecomunicação, segundo a OpenNet. Desde então o país bloqueou mais de cinco milhões de sites, de acordo com estimativas da ONG Repórteres sem Fronteiras.

Nas eleições presidenciais de 2005, o governo derrubou a internet por horas, responsabilizando um cyber ataque vindo de fora do país, que mais tarde provou-se ser uma acusação falsa de acordo com engenheiros de Teerã.

Alguns anos depois, uma pesquisa da OpenNet descobriu que o governo iraniano estava usando equipamentos de filtragem provenientes da empresa estadunidense Secure Computing Corp, apesar do embargo de comércio imposto pelos Estados Unidos ao Irã, em vigor desde a revolução islâmica de 1979. A Secure Computing Corp, agora incorporada pela McAfee Inc. negou, na época, qualquer conhecimento sobre uso de seus produtos no Irã. A McAfee, por sua vez, afirmou ter realizado diligências antes da aquisição da empresa, não tendo observado nenhum contrato com o Irã.

A construção de uma estrutura online de alcance nacional e coordenada de um ponto central requer imensos recursos, incluindo técnicos capazes, grande poder de processamento de dados e energia, garantem especialistas em internet.

A Nokia Siemens Networks proveu o Irã com equipamentos no ano passado, dentro do conceito internacionalmente aceito de "lawful intercept", afirmou Roome. A interceptação de dados para fins de combate ao terrorismo, pornografia infantil, tráfico de drogas e outras atividades criminosas exercidas pela internet é algo que muitas, senão todas as companhias de telecomunicação, possuem, afirmou o porta-voz.

O centro de monitoramento que a Nokia Siemens Networks vendeu ao Irã é descrito no catálogo da empresa como capaz de “monitorar e interceptar todos os tipos de comunicação por voz ou dados em todas as redes”. A joint venture deixou o ramo dos equipamentos de monitoramento, classificados como “soluções inteligentes”, em fins de março, vendendo o negócio para a Perusa Partners Fund 1 LP, uma empresa de investimentos baseada em Munique. Segundo Roome, a companhia decidiu que o ramo não seria mais parte de seus negócios.

Os cinco clichês dos entusiastas do “clubinho douto”

Estudante de História na UFES, Maxwell dos Santos enviou-me o interessante artigo Os cinco clichês dos entusiastas do “clubinho douto”, sobre as falácias recorrentes usadas pelos que defendiam a obrigatoriedade do diploma para o exercício do Jornalismo no Brasil. Você pode ler o artigo do Maxwell no Blog do Capeta.

Fotojornalismo

Manifestantes pró-oposição iraniana em protesto, ontem, próximo à Embaixada do Irã em Paris contra a violência policial no país. Protestos contra o regime iraniano ocorreram em vários países, como França, EUA e Emirados Árabes Unidos. (Foto: AP)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Ainda, o diploma

Ontem o site de notícias Midiamax publicou a entrevista que concedi para a jornalista Fernanda Brigatti, a respeito da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de derrubar a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão. Creio que por motivos técnicos a publicação da entrevista não contou com todos os links e itálicos originais. Portanto, para tornar o material mais rico em referências, reproduzo aqui as perguntas de Fernanda e as minhas respostas.

Para começar, gostaria que você relatasse há quantos anos é jornalista e qual sua formação.

Tenho 21 anos de profissão, iniciados em 1988, pelas mãos do jornalista Luiz Paulo Coutinho (Jornal do Brasil), precursor do jornalismo comunitário que floresceu na Barra da Tijuca (RJ) nas décadas de 80 e 90, do qual participei ativamente. Nos anos que se seguiram passei por todos os nichos do Jornalismo. Fui repórter de Geral, Polícia e Esportes em veículos de bairro e em diários cariocas, editei meus próprios jornais e revistas, fiz assessoria de imprensa. Mudei-me para Campo Grande (MS) em 2000 e aqui participei das equipes que fundaram dois jornais diários da capital (Diário do Pantanal e O Estado de Mato Grosso do Sul), onde atuei como repórter e editor; passei pelo site de notícias Midiamax e pelo semanário A Crítica, trabalhei na TV Brasil Pantanal (antiga TVE) e em secretarias estaduais, assessorei associações, empresas, políticos e o legislativo campo-grandenses. Hoje atuo na assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Campo Grande. Em 1988 ingressei no curso de Jornalismo da antiga Faculdade da Cidade (hoje UniverCidade), no Rio de Janeiro, onde cursei até o sétimo período, quando, por problemas particulares, precisei abandonar os estudos. Nesta época eu já trabalhava na área e nunca mais parei. Em 2006, já em MS, resolvi concluir o curso e ingressei na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), onde cursei o sétimo e o oitavo períodos. Ainda faltavam algumas matérias que haviam surgido na grade curricular após uma lacuna de quase 20 anos entre minha primeira experiência na Faculdade da Cidade e a retomada dos estudos. Estas, cursei de forma orientada. Concluí o curso em janeiro.

À sua formação profissional, a universidade foi fundamental?

Penso que o estudo é fundamental para qualquer pessoa. No entanto, estudo não é, necessariamente, apenas, o que aprendemos nas salas de aula. O hábito da leitura, a curiosidade sobre o mundo e sobre como o homem caminhou para a contemporaneidade são, também, formas de obter conhecimentos tão ou mais importantes do que se pode aprender formalmente. Não digo que o curso de Jornalismo não tenha agregado valores na minha formação pessoal. Mas não posso dizer, também, que foi ele (o curso) que me fez jornalista. Portanto, não, não foi fundamental na minha formação profissional.

Você acredita que a não obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão representa em uma noção de que o ensino superior é dispensável? Para você, pessoalmente, é isso que significa?

De forma alguma. O ensino é fundamental. Desde o início, e ainda agora, este debate foi poluído com falsos conceitos. Em nenhum momento defendeu-se que o curso superior de Jornalismo era algo desnecessário. O que se defendia é que ele (o curso) não seria a “única forma de aferir se uma pessoa teria ou não condições de exercer a profissão”. E há uma diferença gritante entre as duas coisas. A imensa maioria dos grandes jornalistas que construíram esta profissão pelo mundo não passaram pelas universidades. Eles são a prova de que o curso superior não é “essencial” para definir se alguém tem ou não condições de ser um jornalista. No entanto, nos países civilizados – onde o diploma não é condição para o exercício do Jornalismo e, ainda assim, se pratica um Jornalismo tão bom, ou melhor, que o nosso – as universidades oferecem o curso de Jornalismo. Uma coisa não exclui a outra. Na Argentina e nos Estados Unidos, por exemplo, onde o diploma não é exigência para o exercício do Jornalismo, as salas de aula dos cursos de Jornalismo estão cheias. Diferente do que ocorre no Brasil, nestes países – e em muitos outros - os cursos superiores de Jornalismo são um diferencial na formação de profissionais e não fábricas de diploma como ocorre no Brasil (salvo honrosas exceções). É inconcebível ouvir de um jornalista recém-formado argentino, alemão ou norte-americano o que temos ouvido aqui. Coisas como “Com a não exigência do diploma perdi quatro anos de vida”, ou “Meu diploma não vale mais nada, pois agora qualquer um vai poder ser jornalista”. Balela. Gente muito mais capacitada que eu tem dito a mesma coisa. Para não me estender, indico a leitura do artigo “O fim do diploma e o começo de outro jornalismo”, do jornalista Alec Duarte, professor do curso de Comunicação Social do Centro Universitário Assunção (Unifai), de São Paulo-SP.

A história do jornalismo no Brasil registra grandes nomes que jamais passaram pela academia e, no entanto, são os que embelezam a memória da profissão. Ainda é possível que surja nos jornais, nos sites, nos blogs, gente que exerça a profissão por aptidão e com o mesmo rigor do profissional diplomado?

Acho que o futuro do Jornalismo, de um Jornalismo fiel ao que a profissão tem de mais belo – a busca da informação como fator de transformação social -, está para ser construído a partir das novas ferramentas que estão, ainda, sendo desenvolvidas por meio da internet. É neste novo ambiente que surgirão novos valores do Jornalismo, com ou sem diploma. Penso que a grande mídia está vivendo uma crise de credibilidade sem precedentes. Como acreditar no que é dito em um jornal, na tevê, nas rádios, nos sites de notícia se a informação é, na verdade, uma mercadoria? O jornalista, um peão neste intrincado jogo, é obrigado a se adaptar a estas regras. Ele tem contas para pagar, família para sustentar. O jornalista Dante Filho disse algo muito sério em recente artigo publicado aqui no Midiamax: “Quando o jornal (ou o jornalista) é corrupto ele abandona a comunidade e só pensa em seu umbigo. Quando ele é voluntarista e acredita que seu papel é salvar o mundo corre o risco de viver de migalhas, acreditando em moinhos de vento. O mundo é cruel. Não há situação confortável para quem decide se sustentar entre o clero e o Estado.”. Ele resume em poucas palavras o dilema do jornalista na atualidade. Por isso, aposto nestas novas ferramentas e em um Jornalismo de menor porte estrutural, focado na comunidade. Experiências neste sentido estão engatinhando em alguns lugares do planeta. Entre as propostas já em andamento está o jornalismo representativo, preconizado pelo professor Leonard Witt – da Kennesaw State University – e o jornalismo financiado (crowdfunding journalism), defendido por David Cohn. Ambos propõem um modelo no qual jornalistas sejam financiados diretamente por parcelas da população para desenvolverem pautas do interesse dessas comunidades. Escrevi sobre este tema recentemente, no artigo “Um financiamento público para o Jornalismo?”.

A Fenaj considerou a decisão do STF um retrocesso e uma demonstração do atrelamento do supremo “ao baronato” que controla a imprensa. Os termos dos votos dos ministros, o entendimento deles sobre a atuação do jornalista e as comparações com outras profissões foram os principais termos de indignação nas manifestações oficiais. Como você, que atua na área, enxergou essa questão, e, ainda o que é histeria e o que é análise crítica?

Pode-se discordar de alguns aspectos utilizados pelos ministros – em especial pelo relator, mas eles não desqualificam a decisão, propriamente dita. Penso que a decisão do STF teve como base a impossibilidade de a Fenaj sustentar as teses com as quais objetivava a manutenção da exigência do diploma.

Diziam, por exemplo, que "A não obrigatoriedade do diploma iria aviltar o mercado de trabalho possibilitando que qualquer um possa exercer a profissão". Se isso fosse verdade o problema já estaria ocorrendo, visto que, antes mesmo da decisão do STF, qualquer cidadão podia ir a Delegacia Regional de Trabalho e solicitar um registro precário de jornalista. No entanto, não houve nenhuma modificação no mercado de trabalho diante desta realidade, pois, na verdade, o filtro profissional é feito pelo próprio mercado. O que avilta a profissão é a reserva de mercado tornada possível com a exigência do diploma, que fez proliferar os cursos de jornalismo, que despejam anualmente um contingente que o mercado de trabalho não consegue absorver, mas que ajuda a Fenaj e os sindicatos a arrecadarem taxas de emissão de carteiras e até mensalidades de desempregados.

Vale citar que em junho de 2005 havia 35.322 jornalistas com carteira assinada no Brasil. Nesse mesmo ano, foram diplomados 28.185 alunos pelos nossos 497 cursos superiores em jornalismo, nos quais ingressaram 47.390 alunos. Supondo por baixo que os contratados pela CLT sejam um terço do total de profissionais em atividade, bastariam menos de quatro “fornadas” anuais para ocupar todo o mercado de trabalho. Na Itália, cuja população é um terço da brasileira, em 2005 havia 12 cursos de graduação em jornalismo. Espera-se que o fim da exigência do diploma enxugue este mercado obrigando as escolas de jornalismo a oferecer um ensino de alta qualidade.

Diziam também que "O jornalista diplomado é dotado de melhor formação técnica e ética para exercer a profissão". Esta noção é derrubada primeiramente pela existência de vários profissionais sem diploma e altamente qualificados atuando por todo o país e pelo mundo. Os que defendem esta tese fazem vista grossa ao crescente despreparo da massa de graduados despejada anualmente no mercado, isso sim uma ameaça para a ética e para a técnica jornalística.

Por fim, sustentavam que "Os defensores da não exigência do diploma confundem jornalismo com liberdade de expressão”. A idéia de que o principal argumento contra a obrigatoriedade do diploma é que ela ameaçaria a liberdade de opinião é falsa. Essa alegação equivocada foi amplamente utilizada em níveis vulgares de argumentação, mas, com o tempo, e graças a veículos como o Observatório da Imprensa – que incentivou o debate sobre o tema – esta idéia foi sistematicamente derrubada. Resumindo, o que estava em questão não é liberdade de expressão como a conhecemos, mas em um sentido muito mais amplo. Indico, para uma melhor compreensão deste aspecto, a leitura do artigo “A liberdade de expressão e o diploma de jornalismo”, do jornalista Maurício Tuffani.

Para esclarecer, é preciso dizer que o argumento central da tese que defendia a não obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo é que a formação superior específica em jornalismo não é condição necessária nem condição suficiente para o exercício dessa profissão com base em seus preceitos éticos e técnicos.

A tese sustenta que:

Em primeiro lugar falta razoabilidade a esta exigência, pois (1) “existem pessoas capacitadas para exercer o jornalismo sem serem graduadas em jornalismo”, (2) “existem pessoas graduadas em jornalismo e que não são capacitadas para exercer essa profissão” e, (3) “conseqüentemente, a graduação em jornalismo não é condição necessária nem condição suficiente para a capacitação para o exercício dessa profissão”.

A verificação de 1. se dá pelo fato de existirem vários exemplos de pessoas capacitadas para exercer o jornalismo sem serem graduadas em jornalismo e pela constatação de diversos países não exigirem a formação superior específica para o exercício da profissão, e foi corroborada pela forma como diversos teóricos do jornalismo o definem como atividade que prescinde de formação superior específica. A verificação de 2. se deu principalmente pelos fatos de que o jornalismo exige vocação e de que não existe consenso sobre o conteúdo curricular mínimo dos cursos para assegurar a qualificação profissional; ela poderia ser verificada também pela má qualidade de muitos cursos, mas esse argumento pode ser aplicado aos cursos de todas as profissões.

Os jornalistas se dividiram entre os contrários, os favoráveis e um bom montante de desinteressados e até desinformados. Nas universidades, o debate foi morno, quase inexistente. Essa situação, ainda que em uma análise superficial, não é sintomática de um certo fracasso organizacional? ... uma incapacidade de comunicação e mobilização?

Concordo. Diante dos desafios que se colocam diante de nossa profissão, da necessidade de encontrarmos novos nichos de mercado, de reinventarmos parte de nossa práxis profissional, ver um sindicato erguendo como bandeira de luta uma causa anacrônica como a defesa da exigência do diploma para o exercício do Jornalismo é extremamente preocupante, mostra o quanto estas instituições estão agarradas ao velho, ao arcaico. Mas há um aspecto ainda menos nobre. Os sindicatos e grande parte da academia se omitiram deste debate ao se recusarem efetuá-lo dentro de regras civilizadas. Usaram e abusaram da desqualificação de seus antagonistas, venderam para uma massa de estudantes desinformados idéias contraditórias e baseadas em falsas premissas. Já falei sobre isso no artigo “Debate sobre o diploma de jornalismo... que debate?”.

Você vislumbra alguma mudança nas relações profissionais a partir dessa decisão? Esse retrocesso visto pela Fenaj, ele deve refletir nas redações? Ou mesmo no ensino?

O jornalista Marcelo Soares matou este tema no artigo “Se você tem medo de concorrer com analfabetos, melhor plantar batatas”, mas faço minhas as palavras de Alec Duarte sobre a reação de alguns jornalistas ao anúncio da decisão do STF, sobre o futuro dos cursos de Jornalismo e da profissão.

... que triste constatar centenas de comentários de jornalistas diplomados tratando a questão meramente como ‘joguei quatro anos no lixo’ ou ‘e os R$ 60 mil que paguei pelo curso, como ficam?’. Sintomáticas, são frases que exemplificam porque o jornalismo está tão ruim. Quer dizer que desde sempre a questão foi tratada apenas como um trâmite, uma obrigação a se cumprir, como se a formação pessoal não contasse nada. Pois bem: é exatamente nesse aspecto (o da formação) que eu vejo um futuro auspicioso.

Afinal de contas, agora a formação prevalece sobre a imbecil reserva de mercado. E, para ser jornalista, você terá de se preparar de verdade. Não bastará cumprir (sabe-se lá em que nível) uma quarentena obrigatória de oito semestres para, ao final dela, chegar ao pote de ouro. A mudança atingirá a universidade justamente no momento em que uma
comissão de notáveis discute mudanças no currículo da graduação. Essa reformulação precisa ser mais aprofundada agora que a formação e especialização serão a moeda corrente _sim, as empresas seguirão dando preferência a quem entende do assunto.

A diferença é que, agora, o portador do diploma não terá um passe para exercer automaticamente a profissão. Ou seja: a faculdade só poderá lhe fornecer informação, não o passe de papel. E as que vivem acenando com o passe, estas sim, estão seriamente ameaçadas.

Com a decisão do STF, preparar-se passou a ser o fim, não um incômodo entre aluno e salvo-conduto para trabalhar. Prevejo ainda uma enxurrada de cursos de especialização no que você puder imaginar (jornalismo esportivo, político, econômico, cultural, oficinas de reportagem, texto etc.). Aliás, já há vários projetos sendo preparados para 2010.

No quesito categoria profissional, o fim do diploma também traz consigo a oportunidade histórica de, finalmente, reunir os jornalistas numa categoria de verdade. Qualquer argumentação sobre o fim da obrigatoriedade precipitar contratações irregulares, jornadas extenuantes de trabalho, não pagamento de horas extras, condições precárias de trabalho e quetais não colam.

Tudo isso já existe hoje, no mundo real. E sob a égide do diploma. O que leva o patronato a tratar os jornalistas como subempregados é precisamente a ausência de um espírito coletivo.

Vejo a suposta fragilização da profissão, após a decisão do STF, por outro ângulo: o fim da reserva de mercado, e a possibilidade de ingresso no jornalismo de profissionais com outras experiências inclusive no trato com os patrões, dão a todos nós a chance imensa de estabelecer outro tipo de relação com o empregador _e, quem sabe, atingir a tão sonhada categoria que discurso nenhum de sindicato conseguiu forjar.

Quem se habituou a ser tratado como gado, como os jornalistas diplomados, ganha uma ótima perspectiva com a companhia, agora oficializada, de gente que não está acostumada a essas relações de trabalho tão podres que foram construídas com a conivência de quem (eu, inclusive) deveria ter protegido o exercício da profissão.

Restringir o acesso a ela, como já sabemos, não funcionou.


Dá pra dizer quem ganha e quem perde com o fim da obrigatoriedade?

Ganha o Jornalismo, os jornalistas e a sociedade. A partir de agora, os cursos de Jornalismo que queiram sobreviver serão obrigados a oferecer qualidade, formação aprofundada, um diferencial, jogando para o mercado de trabalho gente realmente qualificada. Pessoas talentosas que optem por se dedicar a outros campos do conhecimento - importantes para a formação de um jornalista - como história, filosofia e sociologia poderão ingressar no Jornalismo sem amarras, aumentando a qualidade crítica da produção de informação, o que se refletirá diretamente na sociedade. Quem perde é o sindicalismo burro, que se agarra ao micro, ao corporativismo, perdendo o foco do macro, do que é, de fato, bom para a sociedade. Perdem também as fábricas de diploma, que jamais se preocuparam com a formação, encarando a educação apenas como comércio.