Semana On

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Atire a primeira pedra quem apóia a burca

“Os submissos e as submissas, os crentes e as crentes, os homens obedientes e as mulheres obedientes, os homens leais e as mulheres leais, os homens perseverantes e as mulheres perseverantes, os homens humildes e as mulheres humildes, os homens caridosos e as mulheres caridosas, os homens que jejuam e as mulheres que jejuam, os homens castos e as mulheres castas, os homens que invocam a Deus com freqüência e as mulheres que invocam a Deus com freqüência – para todos eles, Deus preparou a indulgência e grandes recompensas.” (Sura 33:35)

por Victor Barone — Uma derrota militar pode ter sido a origem de práticas que colocam a mulher em um patamar de inferioridade no islamismo fundamentalista. Quando Aisha – a mais querida e respeitada das mulheres de Maomé – caiu em desgraça após ter sido derrotada nas convulsões religiosas que se seguiram à sucessão do profeta, muitos de seus comentários e correções sobre importantes Hadith foram suprimidos ou ignorados. Desde então, os Hadith tornaram-se a principal justificativa para a inferioridade feminina imposta pelos que interpretam o Corão a ferro e fogo, embora esta visão não estivesse presente nas origens do islamismo.

Mais de 1400 anos depois, quando o presidente da França Nicolas Sarkozy afirmou que o uso da burca representava “subserviência” e “humilhação” para as mulheres, muita gente se apressou em condená-lo sob o argumento de que a prática é parte de uma visão de mundo ancorada em bases religiosas, cuja existência não nos cabe negar. Devemos reconhecer a existência do outro, sua cultura complexa e diferente da nossa, dizem os que se apóiam no relativismo cultural para validar práticas que degradam o ser humano: como o uso da burca.

LEIA O ARTIGO COMPLETO NO AMÁLGAMA

Ideólogos da farsa

No último dia 21 publiquei aqui uma reflexão sobre o julgamento ideológico que se faz hoje sobre quem “ousa” criticar o Governo Lula e o PT. Muita gente não consegue digerir posicionamento críticos sobre a atuação destas duas “entidades” do imaginário político do país. Esta patrulha ideológica se apropriou ilegitimamente dos conceitos de esquerda, atribuindo aos seus adversários a pecha de direitistas ou reacionários.

Na verdade, entre os que colocam o dedo na ferida do populismo, há muitos que conservam vivas noções muito aprofundadas do pensamento libertário de esquerda e, por isso mesmo, não pactuam com a pérfida idéia de que os fins justificam os meios, de que tudo é válido em busca um objetivo final, de que a arma do adversário pode ser usada sem conseqüências funestas.

Ética, igualdade, cooperativismo, democracia direta, mecanismos que permitam um despertar de consciência que levem o cidadão a tomar as rédeas de seu futuro, não são ferramentas a serem colocadas ao serviço de projetos de poder. Os que se apoderam destes conceitos, aplicando-os sobre o imaginário de gente sofrida, com o objetivo de perpetuar-se no poder não são piores do que os que “se lixam para a opinião pública”, ou àqueles que enriquecem às custas da população. São todos feitores de almas.

Trazendo esta reflexão para a nossa realidade política, destaco um trecho do artigo de J.R. Guzzo, publicado nesta semana na Veja.

“O que poderia haver de mais avançado em matéria de falsificação, por exemplo, do que sustentar, como fazem os mestres de doutrina do PT, que são de direita todos os que discordam do governo Lula e de esquerda todos os que são a favor? O resultado prático dessa maneira de separar os lados na política brasileira é a criação de um tumulto mental em modo extremo, no qual não se entende rigorosamente nada. Cada caso, aí, é mais esquisito que o outro. O governador José Serra, que foi presidente da UNE, teve de fugir da polícia no golpe militar de 1964 e ficou anos exilado, é o principal nome da oposição para disputar as eleições presidenciais de 2010 contra a candidatura do governo; é apontado pelo PT, por isso, como o grande líder da "direita" brasileira. O presidente do Senado, José Sarney, foi um dos principais servidores do regime militar, esse mesmo que queria colocar Serra no xadrez; hoje está a favor do governo Lula e é defendido até a morte pelo PT, como um herói daquilo que o partido descreve como sendo o campo progressista, popular e de "esquerda". Qual o nexo de uma coisa dessas? Pela mesma visão, o deputado Fernando Gabeira, que quando jovem fez tudo o que a esquerda mais radical podia fazer, e hoje é um opositor aberto da ladroagem no governo Lula, é excomungado como homem de "direita". Já o senador Romeu Tuma, que fez carreira durante a ditadura como delegado do Dops e andava atrás, justamente, de subversivos como Gabeira, hoje é um dos destaques da "base aliada" e se vê premiado pelo PT como participante ativo do "projeto de esquerda" neste país. A senadora Marina Silva, que até outro dia estava para ser canonizada pelo governo, tornou-se suspeita de ajudar a "aliança conservadora" no dia seguinte ao seu rompimento com o PT; é uma questão de tempo até ser enfiada sem maior cerimônia no balaio geral da "direita". O deputado Paulo Maluf, que o PT sempre tratou como uma espécie de King Kong do direitismo nacional, foi promovido, pelos serviços que fornece ao governo, a associado emérito das forças de "esquerda". Fica assim, então: Serra, Gabeira e Marina, entre dezenas de nomes semelhantes, estão na direita; Sarney, Tuma e Maluf, entre outros tantos, estão na esquerda. É nisso que veio dar, no Brasil atual, a distinção entre ideologias.”

Escrevinhamentos no programa Blog da Vez

O Escrevinhamentos será o destaque do programa Blog da Vez na próxima sexta-feira (4). Ouça o programa ao vivo às 8h, ou a reprise, às 14h, no EloFM. Grato ao Alexandre Lana Lins, apresentador e produtor do Blog da Vez.

Fotojornalismo

O caudilhismo populista sul-americano volta a ameaçar a liberdade de expressão. No sábado, o presidente equatoriano, Rafael Correa, disse que pedirá o fechamento do canal de televisão Teleamazonas, por ter divulgado uma gravação clandestina de uma reunião em seu escritório. Está virando moda. Foto da AFP.

domingo, 30 de agosto de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

Poesia aos sábados

Vento

Peguei o lampião, auscultei a alma.
Marido dormia no sofá quando o vento veio.
Perfume de homem, com canela.
Entrou pelas narinas, percorreu o ventre.
Abri porta, pernas, montei no seu cavalo de cheiros, me perdi.
Quando voltei, marido se acordou.
- Você está diferente.
- Bestagem. Dorme.
No meio das pernas latejava, borboleta negra da lembrança.

Maria Helena Bandeira, esta semana, no Poema Dia.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Coluna do Capssa - "Eugénie Grandet e Thérèse Raquin"

Duas Senhoras” tem como pano de fundo a França de hoje, onde uma jovem enfermeira árabe, cansada dos comentários racistas, resolve trabalhar como enfermeira de uma judia idosa.

Apesar de interessante o tema, não falarei sobre o filme, embora tenha sentido na pele este tipo de preconceito. Em 1988, como médico, participei de um congresso em Palma de Mallorca. Éramos cinco brasileiros. Fui o único barrado no aeroporto de Orly. Na ocasião, tinha o cabelo e bigodes negros e essa inconfundível expressão árabe. Depois de muita conversação e apresentação de documentos fui liberado com um certo olhar de desconfiança, é claro.

A introdução se fez necessária, uma vez que fiquei traumatizado com os franceses. Trauma que resolvi combater neste mês de agosto, quando, entre exames médicos de rotina, preocupações com a saúde e, ainda, de férias, resolvi ler duas interessantes obras de autores franceses: uma de Honoré de Balzac, outra de Émile Zola (cujo “Germinal”, lido na juventude, me marcou profundamente como uma das mais instigantes obras com que tive contato).

Eugénie de Grandet” e “Thérèse de Raquin” são, na verdade, duas jovens que persistiram, teimosamente, em viver, embora antagônicas em sua maneira de pensar e agir. Em “Eugénie de Grandet”, Balzac faz um amplo estudo ficcional sobre a futilidade pequeno-burguesa, ressaltando o poder que o dinheiro exerce sobre a vida e o caráter das pessoas, a frustração amorosa e a índole humana, personificada pela figura do seu pai, o velho Grandet, avarento da mais perfeita repugnância.

Em “Thérèse Raquin”, Zola, por sua vez, nos mostra uma jovem - de maneira extremamente realista - que vai do adultério ao crime, sofrendo todas as conseqüências morais de seus atos. Embora Zola seja um naturalista - “cada capítulo constitui o estudo de um caso curioso de fisiologia” - parece-me que vai mais longe do que o simples retrato do fisiologismo (atuando o meio como fator preponderante sobre as ações do ser humano) na justificativa de seus atos.

Concluindo, penso que Balzac era, definitivamente, um crítico voraz da sociedade francesa. Zola subestimou-se. Assim como o grande Dostoievski, dissecou a alma humana. Nenhum outro autor teve a capacidade de explorar o ser humano na plenitude de suas mentes inquietas como eles.
Luiz Carlos Capssa Lima
25/08/09

Fotojornalismo

O caseiro Francenildo dos Santos Costa no STF, em Brasília,ontem, aguardando o julgamento da ação do MP contra o ex-ministro da Fazenda e atual deputado Antonio Palocci (PT-SP), que foi inocentado. Foto de Celso Junior/AE.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Mercenárias

As Mercenárias: Me perco neste tempo
Ouça no volume máximo!

Fotojornalismo

"Abre os olhos!!!", dizem cartazes espalhados em Bogotá. Recado ao presidente da Venezuela, Hugo Chavez. Foto da AP

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

1808 - Laurentino Gomes

“Foi o único que me enganou”
Napoleão Bonaparte, nas suas memórias escritas pouco anets de morrer no exílio da Ilha de Santa Helena, referindo-se a D. João VI, Rei do Brasil e de Portugal

Em dez anos, o jornalista Laurentino Gomes leu e pesquisou 150 livros e fontes impressas e eletrônicas sobre a fuga da família real portuguesa para o Brasil durante as convulsões sociais geradas pelo avanço das forças de Napoleão Bonaparte sobre as monarquias européias. O resultado desta extensiva pesquisa foi o best-seller 1808, publicado no ano passado pela editora Planeta.

O livro faz um apanhado das circunstancias mais pitorescas do périplo da família real e sua corte fugitiva, de como o ocorrido influenciou Portugal - lançando o reino em anos de fome e incerteza – e sua influência na construção da nação brasileira. Laurentino lança luzes sobre este importante momento da história do Brasil e de Portugal, analisando a fraqueza de Portugal enquanto nação, a manipulação inglesa sobre o fraco aliado, a implantação de uma corte corrupta e perdulária – que daria origem aos vícios que se perpetuam hoje no Estado brasileiro.

“Era uma corte perdulária e voraz. Em 1820, ano anterior ao retorno a Portugal, consumia 513 galinhas, frangos, pombos e perus e 90 dúzias de ovos por dia. Eram quase 200 000 aves e 33 000 dúzias de ovos por ano, que custavam cerca de 900 contos de réis ou quase 50 milhões de reais em dinheiro atual”, diz o autor na página 189, mostrando que a gula de nossas excelências tem raiz histórica.

Senhores e escravos, na lida e na imprensa

O escravagismo é protagonista de alguns momentos interessantes da obra. Dados como o preço de um escravo, o custo do aluguel de um serviçal são informações que Laurentino traz e que aguçam a curiosidade. “O viajante alemão Ernst Ebel contou que, ao chegar ao Rio de Janeiro, em 1824, alugou um negro por 700 réis ao dia – o equivalente a pouco menos de 30 reais atualmente.”, diz na página 248.

Os escravos rebeldes eram punidos com violência, alguns a açoite proferido por um carrasco que ganhava uma pataca (antiga moeda de prata no valor de 320 réis – menos de 15 reais atuais) por cem chibatadas.

Ainda citando o alemão Erst Ebel, o autor relata os primórdios da publicidade no país.

“Insatisfeito com o serviço, demitiu-o depois de algum tempo e colocou um anúncio no Diário Fluminense procurando ‘uma negra que soubesse lavar e passar a ferro’. Conseguiu contratar uma ‘pretinha’, segundo sua própria definição, de dezesseis anos chamada Delfina, que lhe saia por 11 000 réis mensais, sendo 6 000 em dinheiro e o restante em comida e outras necessidades diárias. Por esse valor, que hoje equivale a aproximadamente mio salário mínimo, ‘eu dispunha de alguém que não somente me lavava a roupa como a consertava e, em caso de necessidade, entendia um pouco de cozinha, ficando em casa, de mais a mais, o tempo todo, para minha maior segurança’, escreveu Ebel.” (Pág. 248)

1808 é um livro fascinante em diversos aspectos, embora repetitivo em alguns momentos e superficial em outros. Um aspecto em especial me chamou a atenção: os trechos referentes aos primeiros momentos de nossa imprensa. A seguir, alguns trechos que deixam a mostra as origens "pouco republicanas" do jornalismo brasileiro.

“Uma nova impressora, que tinha sido recentemente comprada em Londres, também foi embarcada a bordo da nau Medusa como chegara da Inglaterra, sem sair da caixa. Nesse caso, era uma carga irônica: para evitar a propagação de idéias consideradas revolucionárias na colônia, o governo português havia proibido expressamente a existência de impressoras no Brasil. Para fugir da censura, o Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro criado pelo jornalista gaúcho Hipólito José da Costa, em 1808, seria impresso e distribuído em Londres.” (Pág. 75)

“Para fugir à censura, o Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro, era publicado em Londres. Seu fundador, o jornalista Hipólito José da Costa, nasceu no Rio Grande do Sul e deixou o Brasil quando tinha dezesseis anos. Formou-se em Coimbra e morou dois anos nos Estados Unidos. Voltou para Lisboa e foi preso em 1803 por integrar a maçonaria. Processado pela Inquisição, fugiu para a Inglaterra em 1805 onde criou o Correio três anos mais tarde.” (Pág. 135)

“O mesmo Hipólito que defendia a liberdade de expressão e idéias liberais acabaria, porém, inaugurando o sistema de relações promíscuas entre imprensa e governo no Brasil. Por um acordo secreto, D. João começou a subsidiar Hipólito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado número de exemplares do Correio Braziliense, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal. Segundo o historiador Barman, por esse acordo, negociado pelo embaixador português em Londres, D. Domingos de Souza Coutinho, a partir de 1812 Hipólito passou a receber uma pensão anual em troca de críticas mais amenas ao governo de D. João, que era um leitor assíduo dos artigos e editoriais da publicação. ‘O público nunca tomou conhecimento desse acordo’, afirma o historiador.” (Págs. 135/136).

“No começo do século XIX, havia 278 jornais em circulação em Londres. Esse número incluía periódicos ingleses, como o já venerável The Times, e também uma infinidade de jornais em língua estrangeira, ali publicados para fugir à censura e à perseguição em seus países de origem, caso do brasileiro Correio Brazliense, de Hipólito da Costa.” (Pág 206)

“A Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal publicado em território acional, começou a circular no dia 10 de setembro de 1808, impresso em máquinas trazidas ainda encaixotadas da Inglaterra. Com uma ressalva: só imprimia notícias favoráveis ao governo: ‘A julgar-se o Brasil pelo seu único periódico, seria um paraíso terrestre, onde nunca se tinha expressado uma só crítica ou reclamação’, observou o historiador John Armitage. Hipólito da Costa, que lançou o seu Correio Braziliense em Londres três meses antes da estréia da Gazeta no Rio de Janeiro, reclamava de se ‘gastar tão boa qualidade de papel para imprimir tão ruim material’ e que ‘melhor se empregaria se fosse usado para embrulhar manteiga’”. (Págs 217/218)

“O primeiro viajante-repórter da época de D. João VI foi o mineralogista inglês John Mawe. Seu livro, Viagens ao interior do Brasil, publicado em Londres em 1812, foi um sucesso instantâneo”. (Pág 261)

“’O Brasil não é lugar de literatura’, afirmou James Henderson. ‘Na verdade, a sua total ausência é marcada pela proibição geral de livros e a falta dos mais elementares meios pelos quais seus habitantes possam tomar conhecimento do mundo e do que se passa nele. Os habitantes estão mergulhados em grande ignorância e sua conseqüência natural: o orgulho’”. (Pág 269).

“Por fim, proclamaram a liberdade de imprensa – uma grande novidade no Brasil, onde as idéias, o direito de opinião e a publicação de livro haviam sido controlados com rigor nos três séculos desde o Descobrimento”. (Pág. 289)

“Na Inglaterra, os revolucionários tentaram obter o apoio do jornalista Hipólito José da Costa, fundador do Correio Braziliense, oferecendo-lhe o cargo de ministro plenipotenciário da nova república. Hipólito recusou. Como já foi visto, sem que os pernambucanos soubessem, a Coroa portuguesa havia feito um acordo secreto com o dono do Correio em 1812, que previa a compra de um determinado número de exemplares do jornal e um subsídio para o próprio jornalista, em troca de moderação nas suas críticas contra a monarquia. Num despacho oficial de Londres, o embaixador português, D. Domingos de Souza Coutinho, avaliava os resultados do acordo: ‘Eu tenho-o contido em parte até aqui com a esperança da subscrição que pede. Eu não sei outro modo de o fazer calar’. O historiador Oliveira Lima, ao avaliar essa relação secreta, dizia que Hipólito José da Costa, ‘se não foi propriamente venal, não foi todavia incorruptível, pois se prestava a moderar seus arrancos de linguagem a troco de considerações, de distinções e mesmo de patrocínio oficial’”. (Págs 290/291)

Fotojornalismo

Antes tarde do que nunca. O senador petista Eduardo Suplicy (SP) defendeu ontem, em discurso no Plenário do Senado, a renúncia de José Sarney (PMDB-AP) da presidência da Casa. Suplicy subiu o tom e, como um juiz de futebol, puxou um cartão vermelho do bolso. Antes, Suplicy e a bancada do PT defendiam apenas que Sarney se licenciasse do cargo. Para lembrar isso, o senador Heráclito Fortes (PI) sugeriu que Suplicy puxasse o cartão vermelho para o presidente Lula, que pressionou a bancada petista a salvar Sarney. Foto de Ed Ferreira.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Eu e Interney no OI

A entrevista com o blogueiro Edney Souza, publicada aqui no Escrevinhamentos ontem, foi reproduzida hoje no Observatório da Imprensa. AQUI.

O dono do PT

Excelente a matéria de Otávio Cabral na Veja desta semana sobre a crise de identidade do PT e o domínio de Lula sobre a legenda. Resume com maestria a triste redução de um partido. Reproduzo a seguir:



Eleito presidente da República em 2002, Lula acrescentou a sua magnífica história de vida, personalidade e insuperável carisma um balaio com 50 milhões de votos. Levou para o graal da política seus correligionários do Partido dos Trabalhadores (PT), cujos integrantes mais ativos foram acomodados em cargos executivos, ocupando os postos mais cobiçados da hierarquia política do país. Começava então o governo do PT. Internamente, a militância discutia que transformações o partido sofreria com a experiência de governar o Brasil. Depois de tanto sucesso como pedra, como reagiria o PT sendo vidraça por quatro, oito ou... vinte anos? Tornando ainda mais curta uma curta história, a ideia de que o PT governaria o Brasil começou a ruir, como se sabe, quando o economista da agremiação, Guido Mantega, foi preterido para o posto de presidente do Banco Central, entregue a um banqueiro internacional e, ainda por cima, tucano, Henrique Meirelles. O choque seguinte foi a queda em desgraça do herdeiro aparente de Lula, José Dirceu. As outras cabeças rolariam em 2005, no vórtice do escândalo do mensalão. De lá para cá, o petismo sobreviveu mantendo as aparências mas já sem bandeiras e vitalmente dependente do oxigênio político instilado por Lula. Na semana passada, Lula ameaçou cortar o oxigênio e o PT viu, pela primeira vez com clareza, que a experiência de governar foi sem nunca ter sido e serviu apenas para que o presidente desse andamento a suas prioridades, que são, pela ordem: Luiz Inácio da Silva, Lula e Lula.

Os senhores acima empalhados são a imagem desse quadro. Eles foram obrigados a encenar o teatro de salvar a pele de um inimigo histórico do partido, o senador José Sarney, fazendo o mesmo papel de guarda-costas desempenhado por Fernando Collor e Renan Calheiros, que dispensam apresentação. A missão foi cumprida com sucesso. No escândalo do mensalão, em 2005, o PT que subornava deputados, comprava partidos e desviava dinheiro público obedecia apenas ao ex-ministro José Dirceu, pelo menos segundo as conclusões oficiais. Agora, o PT que não se incomoda mais com o nepotismo, o fisiologismo e a corrupção tem um novo e inquestionável comandante em chefe: o próprio presidente Lula. Partiu dele a ordem para poupar Sarney a qualquer custo no Conselho de Ética do Senado, mesmo que esse custo fosse a implosão do que ainda restava de pudor nas fileiras petistas. Como recompensa, o chefe promete limpar a biografia de todos eles usando sua popularidade quando chegar a hora do voto.

Ao reduzir moralmente seu partido e abrir mão de aliados históricos, como foi o caso da ex-ministra Marina Silva, que deixou o PT por discordar dos caminhos trilhados, o presidente Lula certamente tem em mente um plano auspicioso. Difícil talvez seja convencer as pessoas de como algo que se imagina virtuoso possa passar pela salvação do senador José Sarney. Lula acredita que fez o melhor governo da história do Brasil e quer provar isso elegendo o sucessor. Apesar da resistência do PT, o presidente escolheu a ministra Dilma Rousseff para o papel de candidata, e está empenhando sua imensa popularidade numa pré-campanha que começou há meses. O governo precisa do PMDB para viabilizar seu projeto de poder. É nessa hora que aparece a fatura pesada. Se para quitá-la for preciso fazer alguns sacrifícios, como defender corruptos ou enfraquecer o partido que levou Lula ao poder, segue-se em frente, sem nenhum constrangimento.

O presidente acredita que seu carisma, combinado com uma dose de sagacidade política, é capaz de reduzir a nada qualquer crise que se apresente. Na semana passada, por exemplo, houve um encontro de contas. O governo queria – e conseguiu – evitar a convocação da ministra Dilma para falar do caso envolvendo uma suposta interferência na Receita Federal (veja reportagem), e o PMDB queria – e também conseguiu – arquivar as denúncias contra José Sarney. É nisso que o presidente aposta. Se sua imagem e a do seu governo forem preservadas, tanto faz se o partido do governo é o PT, o PMDB ou o PSL. O que move Lula é o pragmatismo, a tranquilidade de colher frutos da parte positiva do governo e, ao mesmo tempo, transferir ao PT o ônus por defender figuras como Fernando Collor, Renan Calheiros e José Sarney. O PT percebe claramente esse desgaste, mas não pode nem tem condições de reagir à estratégia do criador. Na semana passada, lideranças do partido tiveram acesso aos dados de uma pesquisa qualitativa feita nas principais capitais do país. O objetivo: avaliar as consequências para a legenda do mensalão, do dossiê dos aloprados, da salvação de Renan Calheiros e, agora, de Sarney – todos escândalos que contaram com o envolvimento direto dos petistas. A maior parte dos entrevistados apoia e admira Lula, não vincula o nome do presidente a nenhum dos escândalos, mas tem sérias restrições em votar no PT. Sendo assim, ao empalhar as cabeças do partido, Lula pode alegar que está apenas protegendo-as de si mesmas.

Fotojornalismo


Mais uma cena constrangedora. Após esquecer do "acordão" feito entre seu partido e o PMDB para salvar Sarney, o senador Eduardo Suplicy faz - para um plenário vazio - um pedido de esclarecimentos sobre a crise, para depos ser repreendido por Sarney. Lamentável. O PT afundou de vez no mar da subserviência. Foto de Wilson Dias.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Entrevista: Edney Souza fala de mídias sociais e Jornalismo

Empresário, blogueiro, sociólogo, poeta, cervejeiro, dublador, analista de sistemas, publicitário, filósofo y otras cositas más...”. Assim Edney Souza se apresenta no twitter, onde arrebanha 35.711 seguidores (até às 14h deste domingo). Atuando em informática desde 1990, Edney teve seu primeiro contato com os blogs em 2001, por meio de uma reportagem da Revista da Web. “Percebi que tratava-se de um CMS gratuito que poderia facilitar muito o processo de atualização do meu site então decidi transformá-lo em blog”. Passados oito anos, Interney, como é mais conhecido na rede, tem um dos maiores faturamentos da blogosfera brasileira, iniciado com o InterNey.net e, desde 2005, solidificado em parceria com Alexandre Inagaki no mais importante portal independente de blogs da internet brasileira, o Interney Blogs (hoje com mais de 4,8 milhões de page views mensais). Formado em Processamento de Dados pelo Mackenzie (1997), Edney Souza é um dos nomes mais respeitados da Web brasileira na atualidade. Em julho fundou a Polvora, consultoria em comunicação especializada em mídias sociais que nasceu da parceria estabelecida entre a Blog Content e o Grupo RMA. Ele esteve em Campo Grande entre sexta (21) e sábado (22) participando do Workshop Mídias Sociais, promovido pelo Sebrae. Suas palestras atraíram geeks, jornalistas e publicitários interessados em conhecer um pouco mais sobre esta revolução que tem exigido novos padrões de comportamento nas relações sociais e nos negócios. Logo ao chegar à cidade, na sexta, acomodado em um sofá no saguão do Sebrae, concedeu a seguinte entrevista ao Escrevinhamentos.

Fotografia gentilmente cedida pelo amigo Lucas Reino


Vivemos hoje uma febre das redes sociais, mas a internet sempre foi uma rede social...

Sempre foi. O pessoal entrava em BBS na primeira metade dos anos 90. Eu entrava em 95, para conversar com os amigos, falar. Internet, além desta plataforma onde você pode depositar conteúdo, é um grande meio de comunicação, com a vantagem de ser um meio de comunicação digital que permite que esta troca de informação ocorra por diversos meios. O que estamos vivendo hoje é esta facilidade que você tem de não só escrever, como também se fazia antigamente, mas de subir uma foto, fazer um vídeo ao vivo. Hoje, você tem MSN, Skype, pode falar em voz e vídeo ao vivo com outras pessoas do outro lado do mundo, em tempo real. É um caminho sem volta. Você não vai mais querer falar por telefone, não vai mais querer escrever uma carta. Não sei quais ferramentas estaremos usando no futuro, mas certamente a gente não vai abandonar o meio digital, a não ser que haja um colapso mundial.

Por outro lado, estas novas ferramentas surgem a cada dia. Até que ponto é difícil acompanhar esta revolução constante?

Você tem que separar os tipos de ferramentas. Se pegarmos uma coisa que todo mundo usa hoje, que é o MSN, na verdade ele é apenas o sucessor do ICQ. Há algum tempo todo mundo perguntava “ah, será que o ICQ vai acabar?”. O ICQ ainda existe, mas já não é a principal ferramenta de instant message. O formato, do MSN, no entanto, ficou, é o mesmo.

E o Twitter?

Não sei se o Twitter vai estar de pé daqui a dois anos, pois ele ainda não tem rentabilidade própria, depende de investimento. Mas o formato de microblog veio para ficar.

Por que?

Porque com ele você consegue acessar de qualquer lugar. Por meio de um celular, se você está em um jogo, em um debate, você já escreve na hora o que está vendo. Você está no trânsito, aconteceu algo, você tira uma foto e tuita aquela foto no mesmo instante. Esta velocidade, esta instantaneidade é um prazer que a pessoa tem e que dificilmente vai trocar por outra ferramenta. Amanhã, pode deixar de ter um Twitter, mas você vai ter esta ferramenta de microblog. Não importa muito o nome que se dá a determinadas coisas: Twitter, ICQ, MSN, Orkut, Facebook. O que importa é o tipo da ferramenta. Muita gente está migrando hoje para o Facebook, amanhã pode estar migrando para outro produto. Ms, provavelmente, as pessoas sempre estarão em alguma rede social, pois este comodismo, este prazer já está incorporado.

Trata-se de um novo ambiente de interação e comportamento.

Sim, e tudo muito novo. Eu e você nascemos em uma geração onde o telefone era um bem de consumo caro. Hoje, todo mundo tem um telefone celular. Hoje, mesmo quem não tem computador ou internet em casa pode ir a uma Lan e se conectar por um baixo custo. Hoje, o computador está à disposição de todo mundo. A geração que vai crescer com computador desde o minuto zero dentro de casa, vai explorar isso de formas como a gente nem imagina. Então, é uma onda que estamos vivendo agora. Assim como quem viu a TV em preto e branco se impressiona hoje com os efeitos em computação gráfica. A gente, que viu a internet através do BBS, praticamente só texto, se maravilha com as redes sociais. Daqui a 10 anos, vai mudar radicalmente de novo. Vai continuar mudando toda hora? Vai. Para onde vai? Não tenho a menor idéia.

Existe fórmula para transformar um blog em uma ferramenta rentável?

Existe fórmula. Agora, precisa ver se a fórmula se aplica a todo mundo. Existem algumas maneiras de você rentabilizar um blog. São três caminhos principais. Você é um produtor de conteúdo e usa o blog como portfólio para mostrar a qualidade de sua produção, conseguindo trabalhos através dele. Você pode usar o blog para criar reputação em um determinado mercado e, através desta reputação, se colocar em melhores trabalhos, vender mais produtos, conquistar mais clientes ou melhores funcionários, se posicionar melhor no mercado. Ou, você pode, efetivamente, criar um veículo, publicar textos diariamente sobre determinado assunto, conquistar uma grande audiência e vender publicidade. Então, você pode usar o blog como uma vitrine para vender algo, usar como uma vitrine para se vender, ou usar como vitrine para vender outros produtos através daquela audiência. Para cada um destes caminhos existem fórmulas diferentes. Agora, não necessariamente todo mundo precisa se encaixar nestas fórmulas.

E no meio disso tudo ainda há espaço para a vocação inicial do blog? Ser um diário pessoal.

Sim. Por exemplo, sou escritor e quero organizar um livro. Estou usando o blog como uma escrivaninha onde amontôo os textos enquanto o livro não sai. Estou fazendo terapia e estou usando o blog para descarregar as coisas da minha cabeça, para desestressar, para relaxar. Estou usando o blog para contar meu dia a dia, sem nenhuma pretensão. Tem que existir ainda este espaço despretencioso. Assim como no mundo offline existe este espaço despretencioso, isso continuará existindo no mundo digital. E o blog se presta a este papel.

Dentro destes três caminhos, dois se adequariam bem para jornalistas que queiram usar um blog como ferramenta de negócios.

Sim. Para os jornalistas, o portfólio é muito interessante. O cara quer contratar um jornalista, dá uma olhada no blog dele e já sabe qual a qualidade da produção textual daquele cara. Ou, transformar aquilo em um mini-veículo. Ao invés de você ser o colunista de algum jornal, você dá uma grandiosidade para sua coluna, na qual você pode vender publicidade diretamente nela.

Em 2007 você e o Alexandre Inagaki criaram o maior portal de blogs independente do Brasil. Que análise você faz desta experiência?

Em fevereiro de 2007 colocamos o bloco na rua efetivamente, mas começamos a conversar em janeiro de 2006. Parecia um negócio maluco na verdade. Hoje eu olho e a coisa parece muito óbvia: pegar um monte de gente que escreve e reuni-las em um veículo grande. Na verdade, os jornais surgiram assim. Reuniam um monte de jornalistas, colunistas, repórteres e tinham um jornal. Para mim, que não vim de comunicação, pensar que eu poderia ter um grande veículo era algo fantástico. Hoje, o Interney Blogs está com 4,8 milhões de page views por mês. É uma enormidade. É maior que muitos jornais pelo Brasil. A grande transformação foi mostrar que, mesmo alguém que não é de comunicação, tem condições de ter um espaço na rede se souber produzir este conteúdo adequadamente.

E este não é um campo privativo do jornalista.

Ontem (20) teve o Blogcamp Espírito Santo. Uma das funcionárias da Polvora que nos representou lá foi a Carla Coutinho e o pessoal perguntou a ela sobre o diploma de Jornalismo e ela disse que diploma de Jornalismo morreu com os blogs, há muito tempo. E não é que não valha a pena se formar em Jornalismo, é óbvio que se você gradua em Jornalismo, vai ter muito mais técnica e conhecimento para poder conquistar seu espaço. Eu sou formado em processamento de dados. Você não precisa se formar em processamento de dados para aprender a programar computador. Mas, quando você se gradua, tem muito mais capacidade e facilidade em crescer no mercado. O pessoal tem que perceber essa mudança de paradigma, esta liberdade, não como um esquema onde ninguém é de ninguém, onde as pessoas perdem seu espaço, mas onde há democratização da informação. Se você é capaz de produzir bom conteúdo, entende de alguma coisa, tem condições de ir à luta e conquistar seu espaço digital. O espaço digital não depende de concessão de governo, de grandes investimentos. Você consegue se estabelecer inicialmente com uma ferramenta gratuita.

Você lê algum jornal impresso, ou só se informa através da internet?

Só leio jornal impresso quando me entregam aquele Jornal Destaque ou o Metrô, no carro, quando estou indo para o trabalho. Dou aquela folheadinha rápida para dar uma olhada nos highlights. Se não jogassem estes jornais na minha mão eu não leria absolutamente nada de jornal tradicional. Acabo lendo links, um ou outro, em forma de twitter e rss feed. Muitas vezes, um blog que estou lendo no feed ou no twitter passa um link de uma mídia tradicional e aí eu vou ler. O que me pauta são os amigos e algumas pessoas que são referências para mim e não as capas de jornais e portais.

Em entrevista concedida ao Júlio Borges, no Digestivo Cultural, em maio do ano passado, você disse que “O jornal se distanciou da população e vive da transferência de reputação do papel — só que a receita do on-line não paga a estrutura off-line, que sustenta essa reputação.”. Esta situação piorou de um ano para cá?

Isso piorou um pouco. Se a gente pegar como exemplo os Estados Unidos, onde este processo está muito mais adiantado do que aqui, o grande problema dos jornais foi começar a vender a publicidade online como bonificação. O que aconteceu? No momento em que o público alvo daquela mídia já estava em grande parte no online e aquele anunciante começou a ver que o anuncio online estava dando muito mais retorno, ele disse que queria só o online. Só que o online era bonificação. Ele agora não topa pagar por algo que antes estava ganhando de graça.

Prostituíram o mercado muito cedo...

Exatamente. Eles estragaram o próprio mercado. Dizer que os blogs estão tomando espaço dos grandes jornais é megalomania de blogueiro. Os próprios jornais é que entraram errado no mercado digital. Lá nos Estados Unidos muito jornal já quebrou e estão criando um monte de modelos. Se você acompanhar o De Repente, do Rafael Sbarai, todo dia ele fala de alguma coisa nova que os jornais de lá estão tentando fazer para se manter. Criam sessões fechadas, serviços de rede social, misturam twitter com a home, criam jornalismo colaborativo, contratam blogueiro, demitem colunista, faz isso, faz aquilo, é um caos. Não dá para pintar um cenário de como isso vai se solidificar.

Você disse que o jornal se distanciou da população...

O Rodrigo Lara Mesquita diz que no tempo dele o jornalista andava no meio do povo, estruturava aquilo no jornal e no outro dia ele estava vendo como aquilo repercutiu. Ele era uma câmara que ressoava a informação da sociedade. A partir do momento em que o jornalista deixa de andar nas ruas, está na redação coletando informação pela internet, traduzindo o que chega, ele cria um mundo onde só repercute dentro dele mesmo. O que as pessoas estão discutindo no MSN, Orkut, blogs, fóruns, listas de discussão às vezes passa longe daquilo que o jornal está discutindo. Então, o jornal passou a ser um veiculo feito para os jornalistas e para os assinantes mais tradicionais, acaba virando uma câmara de eco ao invés de algo que está reverberando, algo que aborde assuntos que de fato a sociedade esta discutindo.

Você acredita que a tendência é que esta mídia tradicional vá perder cada vez mais espaço?

O que tem acontecido muito nos Estados Unidos, que como eu disse está mais adiantado nesta relação, é a criação de nichos locais. Sou um jornal de Nova Iorque, tenho um repórter no Central Park, outro no Brooklin, etc. Vamos falar do que está acontecendo aqui, no âmbito local. Vou falar de algo estadual, nacional ou internacional se é algo que o pessoal está falando nas ruas. É fazer o cara voltar às ruas. Obviamente, quando estou falando isso, estou generalizando. Tem muita gente que está trabalhando bem dentro deste espectro. Mas, no geral, eu vejo as redações dos jornais como lugares onde todos estão sentados traduzindo informações que vem de outro lugar. O cara não está na rua coletando. Confesso que não conheço os veículos aqui de Campo Grande, mas será que o que pessoal está falando aqui é efetivamente o que as pessoas estão falando nas ruas? Ou são apenas ecos de jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília? O que é mais importante para a população local? É evidente que o que se decide em Brasília afeta o país todo, o que é decidido na economia de São Paulo também, mas será que o que está acontecendo a duas quadras da sua casa não pode afetar muito mais sua segurança, saúde, sua capacidade de criar negócios locais?

O que falta para que a imprensa encontre um modelo de negocio viável na internet?

Primeiro tem que aprender a valorizar o online e não desvalorizar, como foi feito. Não se pode hiper-valorizar também, como alguns estão fazendo. É preciso fazer uma transição entendendo que esta faixa da população, com idade entre 25 e 35 anos, que é quase 100% da população economicamente ativa, têm os veículos impressos no quarto ou quinto lugar entre suas fontes de informação. É preciso criar modelos para capitalizar junto a este público. O que faz este cara consumir esta informação digital em detrimento de outra? Falta entender quem é o seu leitor, quem é o cara para quem você está escrevendo. O jornal se tornou uma instituição que construiu um estilo próprio e se prende a este estilo. Talvez seja hora de mudar este estilo, de rejuvenescer sua linguagem e a forma como os assuntos são abordados para que você faça mais sentido para as faixas etárias que estão subindo na escala econômica.

Seria importante para a formação do jornalista um conhecimento mais aprofundado sobre as ferramentas da internet e sobre noções de empreendedorismo que permitam a ele atuar economicamente sobre estas ferramentas?

Sim. Acho isso absurdamente importante, 100% importante. Se os grandes jornais estão bem estabelecidos, eles começaram lá atrás, com um cara que escrevia e vendia o anúncio. Aos poucos, este cara criou uma estrutura e virou uma regra não misturar comercial e editorial. Só que, quando este cara começou, sozinho lá atrás, ele fazia tudo. Ele era o gráfico, escrevia, vendia, resolvia tudo. Estão faltando caras como estes nos dias de hoje. Falta o cara que construa do zero. É o cara que vai montar um veiculo digital, vai escrever, vai vender publicidade. Ele tem que repensar está fórmula do zero.

Qual sua opinião sobre a polêmica do conteúdo pago nos jornais online?

Muito difícil se estabelecer, pois as pessoas hoje são emissoras de informação. O cara lê uma coisa no jornal, o outro lê no Twitter, o outro no MSN, e a coisa anda. Quando tivemos em São Paulo o toque de recolher promovido pelo PCC, o vice-governador foi à TV dizer que não havia problema algum e ainda assim todo mundo foi para casa. A notícia se espalhou via SMS. A mensagem do SMS prevaleceu sobre todo e qualquer tipo de mídia estabelecida. A partir do momento em que as pessoas confiam mais na informação dada por seus amigos e familiares do que na imprensa, a imprensa querer cobrar por esta informação é querer criar uma barreira definitiva. O conteúdo pago é uma barreira adicional. Hoje ninguém tem aquela confiança no jornal que se tinha há 50 anos atrás.

Há um preconceito entre o profissional de imprensa e o blogueiro?

Existem mais blogueiros com megalomania, que acham que seus blogs são mais importantes que a mídia tradicional. Também há jornalistas preconceituosos, mas a maioria já está utilizando a ferramenta de blog para o colunismo. Acho que existem mais blogueiros com este pensamento que jornalistas. Alguns jornalistas escrevem puro lixo e são adorados, pois conseguiram transferir do meio offline tradicional para o meio online uma reputação e você vê nos comentários as pessoas endeusando o cara. Mas, se você for parar para ler o que ele escreveu e desconstruir, procurar até onde é verdade ou bulshitagem, você vê que o cara escreveu um monte de besteira. Quando as pessoas tiverem mais opções de informação, provavelmente estes caras já terão morrido. Agora, tem muito blogueiro que copia e cola notícia e acha que é um grande e relevante formador de opinião. Tem que entender que alguns caras que estão aí com muita audiência pesquisam para caramba antes de produzir um conteúdo. Sou fã de alguns blogueiros. Você lê o texto do cara e tem ali uns 15 links. O cara leu uma caralhada de coisa antes de escrever aquilo. Há um trabalho de pesquisa, cuidado, você não senta inspirado e espirra um texto. Você, por exemplo, está fazendo uma série de perguntas para mim de coisas que você leu. Esta é a diferença que a formação jornalística dá, coisa que muito blogueiro não tem e acha que vai surgir do nada.

Que análise você faz da blogosfera brasileira?

Falta muito blogueiro produzindo conteúdo primário. O cara que vai a campo apurar a informação no minuto zero. Hoje, o blogueiro vive muito, não de copiar e colar, mas de montagem. Ele lê um jornal, ouve uma pessoa, pega ali um comentário, e a partir disso monta algo. Falta o cara que vai à rua, fotografa, filma, entrevista, vai a campo para ver efetivamente o que está acontecendo. É o trabalho jornalístico. O blogueiro quer se posicionar como sucessor da mídia, mas ele não está fazendo trabalho jornalístico.

Mas, não necessariamente, um blog necessita ser composto por conteúdo jornalístico. O sujeito pode querer apenas comentar determinado assunto e pode fazer isso com ou sem qualidade.

Sim. Quando eu digo que falta esta produção primária é porque se há o desejo – e muitos blogueiros expressam isso – de ser a nova mídia, acho que para isso falta esta produção primária. Se você quer apenas um espaço de publicação de conteúdo, não precisa de nada, continua escrevendo descompromissado, beleza, tranqüilo, está certíssimo. Mas, para a galera do tipo “eu sou a nova mídia”, falta comer muito arroz com feijão. Assim como falamos de jornalistas que tem que aprender sobre empreendedorismo, o blogueiro que quer ser nova mídia tem que aprender técnicas jornalísticas, tem que aprender a escrever, não só na forma gramaticalmente correta, mas aprender a apurar, pautar, buscar informação etc.

Quais os blogs que você lê por prazer?

Gosto do Pensar Enlouquece, do Inagaki, do De Repente, do Rafael Sbarai, que fala sobre comunicação, do Thiago Doria, gosto de ler o blog do André Forastieri, do André Pugliesi, gosto do LLL, gosto do Filme do Chico, que é um blog de cinema. Gosto de ler o Blog de Guerrilha. Tem um montão de blogs bons.

Fotojornalismo

Em manifestação em Hong Kong, homem pede a libertação do dissidente chinês Liu Xiabo. Foto da AP.

domingo, 23 de agosto de 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

Poesia aos sábados

eu queria para ti um deus que desenhasse
a pedra o fogo o trigo o sal
- o som diáfano que persigo Adicionar imagem

nas entranhas misteriosas
uma canção que fosse de desvelo - uma planície.

Maria Gomes

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Não, apesar de esquerdista, não fecho os olhos para esta putaria federal

Acabo de chegar da rua, onde tive a oportunidade de fazer uma interessantíssima entrevista com o blogueiro Edney Souza do Interney. Minha programação era a seguinte: decupar a fita, montar a entrevista e colocar no ar antes das 18h. Mudei de planos. É que, ao abrir o blog, me deparei com três comentários de “Alê M.” que merecem uma resposta imediata. São comentários feitos nos últimos três posts (aqui, aqui e aqui), nos quais externei a minha indignação pela falta de honestidade ideológica que permeia o Governo Federal e o Partido dos Trabalhadores.

Meu primeiro post sobre a crise envolvendo a ex-secretária da Receita Federal Lina Maria Vieira e a ministra mitômana da Casa Civil Dilma Roussef suscitou o seguinte comentário de Alê:

que guinada deu esse blog, hem? ok...
vamos então todos acreditar na ex-secretaria demitida, que 7 meses depois "lembrou" de uma reunião "secreta", sem data, hora, testemunhas (tirando a Folha, e o motorista que "acabou" de mudar de emprego, que tb não lembra de data hora...), provas e conteúdo (10 minutos de amenidades e um pedido para agilizar uma investigação), casada com ex-ministro do santo fhc, que responde a um processo no stf junto com roseana sarney, por improbidade administrativa.aliás... vocês jornalistas são muito pouco desconfiados. largam o osso muito cedo. só vão atrás do que fortalece suas teses.


Penso que este comentário é revelador em sua primeira linha. “Que guinada deu esse blog...”. De que ponto imagina Alê este blog se desviou? Da esquina na qual só cabem elogios e loas ao Governo Federal pelo simples fato de que em seu timão está um ex-operário proveniente de um partido de esquerda (de esquerda ou populista até os ossos?)? Do boteco onde só sentam ideólogos de uma esquerda transfigurada que mal reconhece em si mesma os valores que, de fato, poderiam classificá-la como socialista? Se Alê pensa que em algum momento este blog se propôs a defender desatinos pelo simples fato deles virem de gente que se auto-intitula progressista está profundamente enganado.

Em nenhum momento este blog se propôs a isso. Não faço parte desta turma maniqueísta para quem todos de um lado são santos e todos do outro são demônios. Não faço aqui proselitismo de José Serra apenas por ter criticas pesadas a Dilma e ao PT. Não voto em Serra. Nem por isso me calarei quanto à hipocrisia que reina no Palácio do Planalto. Minha formação é de esquerda, mas tive a sorte de beber da fonte de uma esquerda que rejeita os totalitarismos e os populismos idiotizantes, sejam eles de que vertentes políticas forem.

O segundo e o terceiro comentários de Alê – sobre o mesmo tema – vieram em dois posts de fotojornalismo. No primeiro, de ontem, expus uma foto do senador Aloízio Mercadante reunido com a bancada petista no Congresso. Depois da saída de Marina Silva e do senador Flávio Arns, e do jogo de cena de Mercadante, disse o que muita gente inteligente (de esquerda e de direita) pensa: “A culpa é desta ‘esquerda’ burra, que pensa que tudo é válido para se alcançar objetivos. Qualquer aliança espúria, qualquer amnésia para com o passado, qualquer lapso ideológico é válido para manter-se no poder. Que poder é este? Qual o preço disso tudo? De que adianta vender a alma?

Alê respondeu da seguinte forma:

Será mesmo?Os avanços (se é que aqui, alguém reconhece algum avanço) valem aturar (e defender) um Sarney?
Eu nunca passei fome na vida.
Mas li por aí que tinha um monte de gente vivendo abaixo da linha da pobreza e que hoje se encontram em situação menos desconfortável. Dizem que quem tem fome, tem pressa.
Eu não tenho fome. Nem pressa.
Quem aqui tem fome?
E será mesmo que uma gestão de choque, briga e enfrentamento garantiria os avanços (se é que aqui, alguém reconhece algum avanço) que tivemos?
E toda essa indignação por causa desse sujeito novo? Esse tal de Sarney?
Quem é burro mesmo?


Aqui há uma questão muito importante. Questiona Alê se as alianças com Sarney, Collor, Calheiros, e outros representantes do que há de pior e mais atrasado na prática política brasileira seria válida para garantir avanços sociais. Não, não, mil vezes não. Pelo simples fato de que ao perpetuar o tipo de política que estes parasitas sustentam o governo está condenando os excluídos a uma relação de eterna subserviência ao poder. O Brasil não tem fome apenas de comida, muito mais latente é a fome de cidadania.

De que adianta subsidiar alimentação se estas pessoas jamais sairão do estado de cidadania vegetativa na qual se encontram? Se para Alê sinônimo de avanço social é um estado paternalista, alianças espúrias, vale-tudo político, então este blog não lhe será uma leitura agradável.

Finalmente Alê comenta a foto de hoje, na qual Lula confraterniza com Collor, que mereceu a seguinte legenda: “Os bons amigos. Eu que vivi os anos 80 e 90, acreditando que o PT poderia fazer diferente, olho esta foto e me sinto um perfeitíssimo idiota”.

Diz Alê:

essa foto tem um contexto, e tirar a foto desse contexto não faz de vc um idiota. faz de vc, na minha opinião, um mal jornalista.
talvez vc troque seu prato de comida por um soco na cara do collor. mas, soco dado, vc ainda
vai ter fome e um collor, de olho rocho, pela frente.
tua valentia não muda nada.
lula e esse pt que vc não acredita mais, mudou alguma coisa.
tomara que esse comentário, um tanto agressivo, te leve a alguma reflexão.
abs


Qual o contexto desta foto Alê? Eu te digo: é a mais cruel tradução de uma política apodrecida, que tem como objetivo final a conquista e a permanência no poder acima de tudo e todos. Mau jornalista? Temos noções muito diferentes do que é ser jornalista. No seu caso, pelo que percebo, ser jornalista é adotar um lado e seguir cegamente e acriticamente em linha reta. Como o burro de carga que puxa a carroça sem olhar para os lados.

Se Lula e o PT mudaram alguma coisa foi a ilusão de que um partido político tivesse em suas mãos a ética e a honestidade. Isso, com certeza, mudou.

Fotojornalismo

Os bons amigos. Eu que vivi os anos 80 e 90, acreditando que o PT poderia fazer diferente, olho esta foto e me sinto um perfeitíssimo idiota.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Fotojornalismo

Situação constrangedora. A culpa é desta "esquerda" burra, que pensa que tudo é válido para se alcançar objetivos. Qualquer aliança espúria, qualquer amnésia para com o passado, qualquer lapso ideológico é válido para manter-se no poder. Que poder é este? Qual o preço disso tudo? De que adianta vender a alma? Foto da Agência Senado.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Mentira como prática política

Não tive tempo de escrever ontem sobre o depoimento da ex-secretária da Receita Federal Lina Maria Vieira na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. No entanto, pude assistir trechos do depoimento, em especial o momento em que o senador Aloízio Mercadante (PT-SP) a inquiriu, tentando de todas as formas imprimir no seu seguro depoimento traços de inconsistência e contradição.

É triste, muito triste, ver um homem público da envergadura de Mercadante rastejando na ética para poupar a escolhida do líder máximo. Dilma Roussef é mentirosa costumaz. Mentiu no episódio do dossiê FHC, mentiu sobre o próprio currículo, mente sobre o encontro com Lina Vieira.

Se não há provas físicas da reunião em que a ministra da Casa Civil pediu descaradamente que a ex-secretária da Receita “apressasse a investigação sobre o filho de Sarney”, a segurança extrema com que a última encarou os mitômanos da República convenceu. Ela diz a verdade, por mais que isso enfureça quem confunde mentira com ossos do ofício da política.

Tão ruim quanto a mentira é o cinismo e o presidente Lula protagonizou um momento constrangedor ao “desafiar” Lina Vieira a mostrar sua agenda para provar o encontro com Dilma, como se todos os encontros e reuniões que permeiam o dia a dia deste pessoal fossem precedidos de anotações formais.

Disse o filósofo Roberto Romano em reportagem publicada na última edição da Veja: "A mentira sempre foi um componente histórico da política. O avanço da sociedade democrática serve como um antídoto, mas os políticos continuam fazendo da mentira um instrumento de trabalho".

No fim das contas fica a impressão de que qualquer cidadão que ouse dizer a verdade quanto aos descaminhos de nossas excelências arriscam ter sua imagem desconstruída, sua palavra posta em cheque, sua reputação questionada (que o diga Francenildo). Tudo para preservar a imagem de gente que se sente acima do bem e do mal.

Fotojornalismo

A ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, confirmou ontem, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), que manteve um encontro com a ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Dilma Rousseff, em dezembro de 2008, e que a ministra pediu que ela agilizasse a investigação sobre o filho do presidente do Senado, José Sarney. Foto de José Cruz.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Fotojornalismo

Bombeiros, seputados e senadores tentaram conter as chamas em Brasília. Um incêndio próximo ao Congresso deu trabalho. Foto da AFP.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Os descaminhos do relativismo cultural

Harry Gensler
Tradução de Paulo Ruas
Extraído de “
Ethics: A contemporary introduction”, (Routledge, 1998)

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O relativismo cultural (RC) defende que o bem e o mal são relativos a cada cultura. O "bem" coincide com o que é "socialmente aprovado" numa dada cultura. Os princípios morais descrevem convenções sociais e devem ser baseados nas normas da nossa sociedade.

Começaremos por ouvir uma figura ficcional, a que chamarei Ana Relativista, que nos explicará a sua crença no relativismo cultural. Ao ler o que se segue, ou explicações semelhantes, proponho-lhe que reflita até que ponto esta é uma perspectiva plausível e se ela se harmoniza com o seu ponto de vista. Depois de ouvirmos o que Ana tem para dizer, consideraremos várias objeções ao RC.

1. Ana Relativista

O meu nome é Ana Relativista. Aderi ao relativismo cultural ao compreender a profunda base cultural que suporta a moralidade.

Fui educada para acreditar que a moral se refere a fatos objetivos. Tal como a neve é branca, também o infanticídio é um mal. Mas as atitudes variam em função do espaço e do tempo. As normas que aprendi são as normas da minha própria sociedade; outras sociedades possuem diferentes normas. A moral é uma construção social. Tal como as sociedades criam diversos estilos culinários e de vestuário, também criam códigos morais distintos.

Considere a minha crença de que o infanticídio é um mal. Ensinaram-me isto como se tratasse de um padrão objetivo. Mas não é; é apenas aquilo que defende a sociedade a que pertenço. Quando afirmo "O infanticídio é um mal" quero dizer que a minha sociedade desaprova essa prática e nada mais. Para os antigos romanos, por exemplo, o infanticídio era um bem. Não tem sentido perguntar qual das perspectivas é "correta". Cada um dos pontos de vista é relativo à sua cultura, e o nosso é relativo à nossa. Não existem verdades objetivas acerca do bem ou do mal. Quando dizemos o contrário, limitamo-nos a impor a nossas atitudes culturalmente adquiridas como se tratassem de "verdades objetivas".

"Mal" é um termo relativo. Deixem-me explicar o que isto significa. Quero dizer que nada está absolutamente "à esquerda", mas apenas "à esquerda deste ou daquele" objeto. Do mesmo modo, nada é um mal em absoluto, mas apenas um mal nesta ou naquela sociedade particular. O infanticídio pode ser um mal numa sociedade e um bem noutra.

Podemos expressar esta perspectiva claramente através de uma definição: "X é um bem" significa "a maioria (na sociedade em questão) aprova X". Outros conceitos morais como "mal" ou "correto", podem ser definidos da mesma forma. Note-se ainda a referência a uma sociedade específica. A menos que o contrário seja especificado, a sociedade em questão é aquela a que pertence a pessoa que formula o juízo. Quando afirmo "Hitler agiu erradamente" quero de fato dizer "de acordo com os padrões da minha sociedade".

O mito da objetividade afirma que as coisas podem ser um bem ou um mal de uma forma absoluta — e não relativamente a esta ou àquela cultura. Mas como poderemos saber o que é o bem ou o mal em termos absolutos? Como poderíamos argumentar a favor desta idéia sem pressupor os padrões da nossa própria sociedade? As pessoas que falam do bem e do mal de forma absoluta limitam-se a absolutizar as normas que vigoram na sua própria sociedade. Consideram as normas que lhes foram ensinadas como fatos objetivos. Essas pessoas necessitam estudar antropologia, ou viver algum tempo numa cultura diferente.

Quando adotei o relativismo cultural tornei-me mais receptiva a aceitar outras culturas. Como muitos outros estudantes, eu partilhava a típica atitude "nós estamos certos e eles errados". Lutei arduamente contra isto. Apercebi-me de que o outro lado não está "errado", mas que é apenas "diferente". Temos, por isso, que considerar os outros a partir do seu próprio ponto de vista; ao criticá-los, limitamo-nos a impor-lhes padrões que a nossa própria sociedade construiu. Nós, os relativistas culturais, somos mais tolerantes.

Através do relativismo cultural tornei-me também mais receptiva às normas da minha própria sociedade. O RC dá-nos uma base para uma moral comum no interior da cada cultura — uma base democrática que abrange as idéias de todos e assegura que as normas tenham um amplo suporte. Assim, posso sentir-me solidária com pessoas que partilham comigo uma mesma comunidade, ainda que outros grupos possuam diferentes valores.

2. Objeções ao RC

Ana deu-nos uma formulação clara de um ponto de vista acerca da moral que muitas pessoas consideram atrativa. Refletiu bastante acerca da moral e isto permite-nos aprender com ela. Contudo, estou convencido de que a sua perspectiva básica neste domínio está errada. Suponho que Ana acabará por concordar à medida que as suas idéias ficarem mais claras.

Deixem-me indicar o principal problema. RC força-nos a conformar-nos com as normas sociais — ou contradizemo-nos. Se "bem" e "socialmente aprovado" significam a mesma coisa, seja o que for ao qual o primeiro termo se aplique também o segundo lhe é aplicável.

Assim, o seguinte raciocínio seria válido:

Isto e aquilo são socialmente aprovados. Logo, isto e aquilo são bens.

Se o relativismo cultural fosse verdadeiro, não poderíamos consistentemente discordar dos valores da nossa sociedade. Mas este resultado é absurdo. Claro que é possível consistentemente discordar dos valores da nossa sociedade. Podemos afirmar consistentemente que algo é socialmente aprovado e negar que seja um "bem". Isto não é possível se o RC for verdadeiro.

Ana poderia aceitar esta conseqüência implausível e dizer que é contraditório discordar moralmente da maioria. Mas esta seria uma conseqüência especialmente difícil de ser aceita. Ana teria de aceitar que os defensores dos direitos civis estariam se contradizendo ao discordarem da perspectiva aceita pelos segregacionistas. E teria de aceitar a perspectiva da maioria em todas as questões morais — mesmo que perceba que a maioria é ignorante.

Suponha que Ana tinha aprendido que a maioria das pessoas da sua cultura aprovam a intolerância e também a idéia de ridicularizar pessoas de outras culturas. Teria ainda assim de concluir que a intolerância é um bem (apesar de esta atitude contrariar as suas próprias intuições).

A intolerância é socialmente aprovada. Logo, a intolerância é um bem.

Ana teria que aceitar a conclusão (aceitar que a intolerância é boa) ou rejeitar o relativismo cultural. Se quiser ser consistente é necessário modificar pelo menos uma destas perspectivas.

Eis uma dificuldade ainda mais grave. Imaginemos que Ana encontrasse alguém chamada Rita Rebelde, oriunda de um país nazista. Na terra natal de Rita, os judeus e os críticos do governo são colocados em campos de concentração. Sucede que a maioria das pessoas, mal informadas sobre o que se passa, aprovam esta política. Rita é uma dissidente. Defende que esta política, apesar do apoio da maioria das pessoas, está errada. Se Ana quisesse aplicar o RC a esta situação particular teria que dizer a Rita algo do género:

Rita, a palavra "bem" refere-se ao que é aprovado pela tua cultura. Como essa cultura aprova o racismo e a opressão, deves aceitar esta atitude como um bem. Não podes pensar diferentemente. A perspectiva minoritária está sempre errada — o "bem" é, por definição, aquilo que socialmente é aprovado.

A perspectiva do RC é intolerante para com as minorias (que automaticamente estão erradas) e forçaria Rita a aceitar o racismo e a opressão como sendo bons. Isto decorre da definição de "bem" como algo "socialmente aprovado". Ao compreendê-lo, talvez abandone o RC.

O racismo é um bom teste para a ética. Uma perspectiva ética satisfatória deve fornecer-nos os meios para combater atos racistas. O RC falha neste aspecto, dado estar comprometido com a tese segundo a qual as ações racialmente motivadas são boas numa dada sociedade se essa sociedade as aprova. Se Rita seguisse o RC, teria que concordar com a atitude racista da maioria, ainda que as pessoas estivessem mal informadas ou fossem ignorantes. O relativismo cultural parece bastante insatisfatório neste ponto.

A educação moral é também um bom teste ético. Se aceitássemos o RC, como educaríamos os nossos filhos em questões de ordem moral? Ensinar-lhes-íamos que pensassem e agissem de acordo com as normas da sua sociedade, qualquer que esta fosse. Estaríamos a ensiná-los a serem conformistas. Ensinar-lhes-íamos, por exemplo, que os seguintes raciocínios são corretos:

"A minha sociedade aprova A; logo, A é bom."

"O meu grupo aprova que nos embebedemos às sextas-feiras à noite e dirijamos nossos carros no regresso a casa; logo, esta é uma boa atitude."

"A minha sociedade é nazista e aprova o racismo; logo, o racismo é um bem."

Aceitar o RC priva-nos de exercer qualquer sentido crítico acerca das normas da nossa sociedade. Estas normas não podem estar erradas — ainda que resultem da estupidez e da ignorância.

Do mesmo modo, as normas de outras sociedades (mesmo as da terra natal de Rita) não podem estar erradas ou serem criticadas. O RC contraria o espírito crítico que é próprio da filosofia.

3. Diversidade moral

O relativismo cultural considera o mundo como algo que está dividido de uma forma nítida em sociedades distintas. Em cada uma delas não existe desacordo em questões morais ou apenas em pequena escala, dado que a perspectiva majoritária determina o que é considerado um bem ou um mal nessa sociedade. Mas o mundo não é assim. Pelo contrário, o mundo é uma mistura confusa de sociedades e grupos sobrepostos; e os indivíduos não seguem necessariamente o ponto de vista da maioria.

O relativismo cultural ignora o problema dos subgrupos. Todos nós fazemos parte de grupos sobrepostos. Cada um de nós, por exemplo, faz parte de uma nação, de um estado, de uma cidade, de um bairro. Além disso, cada um de nós pertence a várias comunidades, profissionais, religiosas, grupos de amigos, etc. É freqüente estes grupos terem valores que estão em conflito. De acordo com o RC, quando afirmo "O racismo é um mal" pretendo dizer "A minha sociedade desaprova o racismo". Mas a que sociedade nos referimos? Talvez a maioria das pessoas que pertencem à minha comunidade religiosa e ao meu país desaprove o racismo, enquanto a maioria dos que fazem parte do meu grupo profissional e familiar o aprovem. O relativismo cultural poderia dar-nos meios para nos conduzirmos corretamente no plano moral apenas se cada um de nós pertencesse a uma única sociedade. Mas o mundo é muito mais complicado do que este quadro sugere. Até certo ponto, todos nós somos indivíduos multi-culturalizados.

O RC não tenta estabelecer normas comuns entre sociedades. À medida que a tecnologia invade o planeta, as disputas morais entre diferentes sociedades têm tendência para se tornarem mais importantes. O país A aprova a existência de direitos iguais para as mulheres (ou outras raças e religiões), mas o país B desaprova-o. Que deve fazer uma companhia multinacional que opera nos dois países? Ou as sociedades A e B têm conflitos de valores que conduzem à guerra. Dado que o relativismo cultural pouco nos ajuda acerca destes problemas, oferece-nos uma base muito pobre para responder às exigências da vida no século XXI.

Como responder à diversidade cultural entre sociedades? Ana rejeita a atitude dogmática do gênero "Nós estamos certos e eles errados". Percebe a necessidade de compreender as sociedades e culturas diferentes da sua própria a partir do ponto de vista dessas culturas e sociedades. Estas são idéias positivas. Mas, em seguida, afirma também que nenhum dos lados pode estar errado. Isto limita a nossa capacidade para aprender. Se a nossa cultura não pode estar errada, não pode aprender com os seus próprios erros. Compreender as normas de outras culturas não permitirá ajudar-nos a corrigir os erros das nossas próprias sociedades.

Aqueles que acreditam em valores objetivos vêem estes assuntos de um modo diferente. Poderiam defender algo como isto:

Existem verdades para descobrir no domínio moral, mas nenhuma cultura possui o monopólio destas verdades. As diferentes culturas necessitam de aprender umas com as outras. Para que tomemos consciência dos erros e dos nossos valores, é necessário conhecer como procedem as outras culturas, e de que forma reagem ao que nós fazemos. Aprender com diferentes culturas pode ajudar-nos a corrigir os nossos valores e a aproximar-nos da verdade acerca do modo como devemos viver.

4. Valores objetivos

É necessário falar um pouco mais acerca da objetividade dos valores. Este é um tópico bastante vasto e importante.

A perspectiva objetivista (também designada realismo moral) defende que certas coisas são objetivamente um bem ou objetivamente um mal, independentemente do que possamos sentir ou pensar. Martin Luther King, por exemplo, defendia que o racismo está objetivamente errado. Que o racismo esteja errado era para ele um fato. Qualquer pessoa e cultura que aprovasse o racismo estariam erradas. Ao dizer isto, King não estava absolutizando as normas da nossa sociedade; discordava, pelo contrário, das normas amplamente aceites. Fazia apelo a uma verdade mais elevada acerca do bem e do mal, uma verdade que não estava dependente do modo de pensar ou sentir das pessoas neste ou naquele momento. Fazia apelo a valores objetivos.

Ana rejeita a crença em valores objetivos e chama-lhe "o mito da objetividade". Nesta perspectiva, as coisas são um bem ou um mal apenas relativamente a esta ou àquela cultura. Não são objetivamente boas ou más, como King pensava. Mas serão os valores objetivos realmente um "mito"? Para responder a isto convém examinar o raciocínio de Ana.

Ana tinha três argumentos contra a objetividade dos valores. Não existem verdades morais objetivas porque:

- A moral é um produto da cultura;

- As sociedades discordam amplamente acerca da moralidade;

- Não existe uma maneira clara de resolver diferenças morais.

De fato, qualquer destes argumentos cede com facilidade se o examinarmos cuidadosamente.

"Dado que a moral é um produto da cultura, não podem existir verdades morais objetivas". O problema deste raciocínio é que um produto da cultura pode expressar uma verdade objetiva. Qualquer livro é um produto cultural; no entanto, muitos livros exprimem verdades objetivas. Da mesma forma, um código moral pode ser um produto cultural e expressar verdades objetivas acerca da maneira como as pessoas devem viver.

"Visto as diferentes culturas discordarem amplamente sobre a moral, não podem existir verdades morais objetivas." O simples fato de existir desacordo não mostra, no entanto, que não existe verdade neste domínio e que nenhum dos lados está certo ou errado. O extenso desacordo entre diferentes culturas acerca de antropologia, religião, e até em física, não impede a existência de verdades objetivas nestes domínios. Logo, o desacordo em questões morais não mostra que não exista verdade nestes assuntos.

Podemos igualmente questionar-nos se as diferentes culturas divergem assim tão profundamente sobre a moral. Na maior parte das culturas existem normas muito semelhantes quanto a matar, roubar e mentir. E muitas das diferenças podem ser explicadas em resultado da aplicação dos mesmos valores básicos a diferentes situações. A Regra de Ouro "Trata os outros como queres ser tratado" é quase universalmente aceite em todo o mundo. E as diferentes culturas que constituem as Nações Unidas concordaram em larga medida a respeito dos direitos humanos mais elementares.

"Como não existe uma maneira clara de resolver diferenças morais, não é possível que existam verdades morais objetivas." Mas podem existir maneiras claras de resolver pelo menos um grande número de diferenças morais. Precisamos de uma forma de raciocinar em ética que faça apelo às pessoas inteligentes e com suficiente abertura de espírito de todas as culturas — isto faria pela ética o que se obteve em ciência com o método experimental.

Ainda que não existisse uma maneira sólida de conhecer verdades morais, daí não se segue que tais verdades não existam. Existem verdades que não conhecemos inequivocamente. Terá chovido neste lugar 500 anos atrás? Há seguramente uma verdade acerca disto que nunca conheceremos. Apenas uma pequena percentagem de verdades é conhecida. Logo, podem existir verdades morais objetivas mesmo que não possamos sabê-lo.

O ataque de Ana aos valores morais objetivos falhou. Mas isto não encerra o tema porque há mais argumentos. O debate sobre a objetividade dos valores é importante. Antes de terminar gostaria de clarificar alguns aspectos.

O ponto de vista objetivista afirma que algumas coisas são objetivamente um bem ou um mal, independentemente do que possamos pensar ou sentir; contudo, esta perspectiva está preparada para aceitar algum relativismo noutras áreas. Muitas regras sociais são claramente determinadas por padrões locais:

Regra local: "É proibido virar à direita com a luz vermelha."

Regra de etiqueta local: "Use o garfo apenas com a mão esquerda."

É necessário respeitar este gênero de regras locais; ao proceder de outra maneira podemos ferir as pessoas, quer porque chocamos contra os seus carros quer porque ferimos os seus sentimentos. Na concepção objetivista, a exigência de não magoar as outras pessoas é uma regra de um gênero diferente — uma regra moral — não determinada por costumes locais. Considera-se que as regras morais possuem mais autoridade que as leis governamentais ou as regras de etiqueta; são regras que qualquer sociedade deve respeitar se quiser sobreviver e prosperar. Se visitamos um lugar cujos padrões permitem magoar as pessoas por razões triviais, então esses padrões estão errados. O relativismo cultural disputa esta afirmação. A idéia é que os padrões locais são determinantes ainda que se trate de princípios morais básicos; assim, ferir outras pessoas por motivos triviais é um bem se esta atitude for socialmente aprovada.

Respeitar as diferenças culturais não nos transforma em relativistas culturais. Este é um falso estereótipo. O que caracteriza o relativismo cultural é a afirmação de que tudo o que é socialmente aprovado é um bem.

5. Ciências sociais

Há um estereótipo bastante divulgado que afirma que todos os especialistas em ciências sociais são relativistas culturais. Na verdade, os especialistas em ciências sociais defendem um âmbito variado de perspectivas sobre os fundamentos da ética. Muitos rejeitam este gênero de relativismo. O psicólogo moral Lawrence Kohlberg, por exemplo, considerava o relativismo cultural uma abordagem relativamente imatura da moralidade, típica de adolescentes e de adultos jovens.

Kohlberg afirmava que todos nós, independentemente da nossa cultura, desenvolvemos o pensamento moral através de uma série de estádios. Os primeiros quatro são os seguintes:

Punição/obediência: o "mal" é o que implica punição.

Recompensas: o "bem" é aquilo que nos dá o que desejamos.

Aprovação familiar: o "bem" é o que agrada à mamãe e ao papai.

Aprovação social: o "bem" é aquilo que é socialmente aprovado.

Quando são muito novas, as crianças pensam na moral em termos de punições e obediência. Mais tarde, começam a pensar em termos de recompensa e, em seguida, em termos de aprovação familiar. Mais tarde ainda, na adolescência ou quando são adultos jovens, atingem a fase do relativismo cultural. Nesta fase, o "bem" coincide com o que é socialmente aprovado, o grupo de amigos em primeiro lugar, e depois a sociedade como um todo. É dada importância ao tipo de vestuário que se usa e ao gênero certo de música que se ouve — onde "gênero certo" significa o que é socialmente aprovado. São muitos os jovens que se debatem com estas questões. Talvez por isso levem a sério o relativismo cultural — mesmo que o ponto de vista seja implausível quando o analisamos cuidadosamente.

Segundo Kohlberg, que fase sucede ao relativismo cultural? Por vezes, confusão e ceticismo; de fato, um curso de ética pode promover esta atitude. A seguir, passamos para o estádio 5 (semelhante ao utilitarismo das regras) ou para o estádio 6 (próximo da Regra de Ouro). Ambos procuram avaliar as normas convencionais racionalmente.

Não estou me referindo a Kohlberg com o objetivo de argumentar que, sendo correta a sua perspectiva, o relativismo cultural está errado. Esta perspectiva é controversa. São vários os psicólogos que propõem uma seqüência diferente dos estádios morais ou que rejeitam a idéia de que existem estádios. Além disso, o relativismo cultural já foi adequadamente demolido; não é necessária a ajuda da psicologia. Mencionei Kohlberg porque muitas pessoas se sentem pressionadas a aceitar o relativismo cultural em virtude do mito de que todos os especialistas em ciências sociais são relativistas culturais. Mas este gênero de consenso não existe. Kohlberg e muitos outros especialistas em ciências sociais rejeitam enfaticamente o relativismo cultural. Vêem nele um estádio imaturo do pensamento moral que nos faz conformar com a nossa sociedade.

A abordagem de Kohlberg coloca, no entanto, um problema acerca do significado de "bem". As pessoas podem querer dizer com esta palavra diferentes coisas em estádios diferentes; numa criança, "bem" pode significar "o que agrada à mamã e ao papá". Logo, devemos dirigir a nossa atenção para aquilo que as pessoas com maturidade moral têm em vista com esta palavra. Se o nosso argumento estiver correto, uma pessoa com maturidade moral, quando utiliza este termo, não pretende afirmar que "bem" significa "socialmente aprovado".

6. Sumário

O relativismo cultural afirma que "bem" significa o que é "socialmente aprovado" pela maioria de uma dada cultura. O infantícidio não é objetivamente um bem ou um mal; pelo contrário, é um bem numa sociedade que o aprove e um mal numa sociedade onde não obtenha aprovação.

O relativismo cultural considera que a moral é um produto da cultura. Afirma que as diferentes sociedades discordam amplamente sobre a moral e que não temos meios claros para resolver as diferenças. Os relativistas culturais consideram-se pessoas tolerantes; olham para as outras culturas não como estando "erradas", mas como "diferentes".

Apesar de inicialmente plausível, o relativismo cultural tem vários problemas. Por exemplo, torna impossível discordar dos valores da nossa sociedade. Acontece, por vezes, afirmarmos que, apesar de socialmente aprovada, uma certa atitude não é boa. E isto está em contradição com o RC.

Além disso, o relativismo cultural implica que a intolerância e o racismo sejam um "bem" se a sociedade o aprovar. Leva-nos ainda a aceitar as normas da nossa sociedade de forma acritica.

O relativismo cultural combate a idèia de que existem valores objetivos. O ataque pode ser desmontado com facilidade se o examinarmos cuidadosamente.

São muitos os especialistas em ciências sociais que se opõem ao relativismo cultural.

O psicólogo Lawrence Kohlberg, por exemplo, defende que as pessoas de todas as culturas passam pelos mesmos estádios de desenvolvimento moral. O relativismo cultural representa um estádio relativamente baixo no qual simplesmente nos conformamos com os valores da sociedade em que vivemos. Em estágios mais avançados, o relativismo cultural é rejeitado; consideramos criticamente as normas aceites e pensamos pela nossa cabeça em questões de ordem moral.

Fotojornalismo

Calçada no porto de Yaizu, no Japão. O país foi atingido por um terremoto de 6,4 pontos na escala Richter na semana passada. Foto da AP.

sábado, 15 de agosto de 2009

Poesia aos sábados

de sol a cio

amo você
pelo avesso
e [confesso]
pelo verso:
o torto
e reto
afora
adentro

amo você
a quilo
a metro
a quilômetros
e perto
s e p a r a d o
bemjuntodopeito

amo você
água & vento
de fato
de feito
mundo & átomo
fogo-fátuo
astro

por você:
léu & cardo
chuva & chama
brando & árduo

eu ardo

Valéria Tarelho , esta semana, no Poema Dia

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Ezra Nawi será sentenciado neste domingo

No próximo domingo, dia 16, o ativista israelense Ezra Nawi será sentenciado por ter sido considerado culpado de agredir dois policiais em 2007, enquanto lutava contra a demolição de casas palestinas em Um El Hir, na parte sudoeste da Cisjordânia. Uma campanha internacional já reuniu mais de 150 mil cartas de repúdio à decisão da justiça de Israel. Entre os signatários, gente do porte de Naomi Klein, Neve Gordon e Noam Chomsky.

Três coisas que você pode fazer por Ezra Nawi:

1. Cartas de protesto
Escreva uma carta ou email para a embaixada israelense e envie uma cópia para o seguinte endereço eletrônico: support.ezra@gmail.com

2. Divulgação
Divulgue o site http://www.blogger.com/www.supportezra.net, postando-o no facebook, orkut, twitter, blogs e outros lugares do gênero e peça aos amigos para escreverem cartas para o Support Ezra Facebook Group

3. Donativos
Considere fazer uma doação para pagar os custos legais e para custear as atividades de Ezra Nawi em prol dos direitos humanos. Aqui

Leia mais sobre este tema:
- Ezra Nawi enfrenta os sionistas pela união entre judeus e palestinos
- Ezra Nawi e o totalitarismo israelense

Fotojornalismo

Bonecos feitos por manifestantes favoráveis ao presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, representam o presidente interino do país, Roberto Micheletti (à direita), e o general Romeo Vásquez Velásquez, comandante do Estado-Maior do Exército, nesta quinta-feira.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Mídias Sociais no MS

O Sebrae-MS sedia entre os dias 20 e 21 de agosto o primeiro evento sobre as Mídias Sociais realizado no Mato do Grosso do Sul. O objetivo é reforçar um debate que já está posto nos grandes centros: a utilização das mídias sociais em favor dos micro e pequenos empreendimentos.

Hoje, ferramentas como blog, twitter e newsletter têm contribuído para a comunicação de empresas, associações, entidades e políticos, aproximando-os da população por meio de plataformas de comunicação e de interação que já não podem mais ser deixadas de lado por quem quer estar integrado com o mundo.

Gente interessante vai participar do evento com palestras e workshops (Confira quem vai palestrar na imagem ao lado). Estarei lá.

Fotojornalismo

Palestina aproveita o mar da praia de Bat Yam, próxima à Tel Aviv, em Israel. Moradores da cidade de Tulkarem, localizada em território palestino, tiveram permissão do exército israelense para entrar no país por um dia e ir à praia pela primeira vez. Foto da AFP.