Semana On

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Pão ou liberdade? Podemos escolher entre ambos?

Noventa e quatro por cento dos 68 freqüentadores do Escrevinhamentos que votaram na enquete que perguntava “você apoiaria um governo pouco democrático caso ele fosse bem sucedido na economia?” disseram que não. Mesmo que significasse avanço econômico e melhoria nas condições de vida da população estes 64 internautas não aceitariam passivamente um governo que agredisse as instituições democráticas e o estado de direito. Cinco leitores (06% dos participantes), no entanto, disseram que sim.

Trata-se de um debate interessante. Muita gente apoiaria, por exemplo, uma intervenção federal no Maranhão, onde a família Sarney “controla” boa parte da imprensa e das demais instituições. Ocorre que o estado de direito e a democracia não estão sendo agredidas por lá. As eleições ocorreram legalmente e as pessoas votaram em quem quiseram votar (é claro que há currais eleitorais, compra de votos, troca de interesses, mas isso pode e deve ser investigado e punido dentro das regras democráticas).

Me chama a atenção que muita gente que apoiaria uma intervenção no Maranhão brada contra a deposição do presidente de Honduras, Manuel Zelaya. Ora. Zelaya quer se transformar em um Chavez, em um Morales. Pode-se ser simpático a eles, mas não se pode negar que são populistas que manipulam a democracia para seus interesses.

Ainda assim, apesar de querer modificar a constituição para se perpetuar no poder, Zelaya foi eleito democraticamente. É inconcebível que se compactue com o golpe em Honduras. Mas, e quanto a Sarney e sua oligarquia maranhense? O bigodudo é um anacronismo político, mas não foi, também, eleito democraticamente (assim como sua filha foi empossada dentro das regras que regem a democracia)?

Ou democracia vale para uns e não para outros? O conceito de democracia é algo permutável? Que se adapta mediante a ideologia de quem está no poder e na oposição? Ou é um conceito sobre o qual não se aplica senãos?

No final do ano passado, o Latinobarómetro - pesquisa anual da Economist sobre o pensamento político dos cidadãos latino-americanos - concluiu que 57% dos brasileiros não se importariam em ter um governo não democrático desde que este resolvesse problemas econômicos.

Reflexo de um imobilismo ideológico? Na China, por exemplo, o totalitarismo é mascarado pelo crescimento econômico que pinçou milhões de pessoas da linha de pobreza. Da mesma forma, Chavez (Venezuela), Morales (Bolívia) e Duarte (Equador) representam um conceito novo de revolução de esquerda – baseada no populismo assistencialista - que tem na América Latina seu campo de provas: uma revolução constitucional que, posteriormente, adota medidas que restringem as liberdades individuais por meio de plebiscitos.

Sou um entusiasta dos plebiscitos (aqui e aqui), desde que os cidadãos tenham informações adequadas sobre o que estão votando e estejam livres das amarras populistas que os subjugam tanto quanto o chicote do capital. Ocorre que há situações em que a ignorância, o embrutecimento, o obscurantismo chegam a tal ponto que os que estão sob o tacão não conseguem mais olhar além da chibata, do pão e do circo. Nestes casos, os plebiscitos se transformam em cruéis armas de manipulação.

Pão ou liberdade? É possível escolher entre os dois?

5 comentários:

otelhado disse...

Reforço o que disse lá na enquete anterior: é preciso uma investigação urgente no MA, sim. Aquilo tem toda cara de ser um antro de corrupção e de irregularidades eleitorais.

E de qualquer modo, será que podemos falar realmente em Democracia quando já se sabe que há um domínio massacrante do Clã Sarney na mídia, poder público e até nos espaços públicos? Para mim aquilo é um feudo. De democrático não tem quase nada.

-Daniel

Hugo Albuquerque disse...

Barone,

Vamos lá, Pão ou Liberdade? Primeiro é preciso dimensionar as coisas: O Pão enquanto símbolo das necessidades básicas do homem, por óbvio, é fundamental, ninguém tem como viver sem ele a mesmo que alguém descubra a fórmula para os homens fazerem fotossíntese. Do outro lado temos a Liberdade, aquilo que todos dizem querer, mas poucos ousam definir. O que seria a Liberdade? Ela é a condição que nos permite exercer o nosso poder, de acordo com nossa vontade segundo as possibilidades lógicas. Não há sistema que exista sem Liberdade ou com ela em sua totalidade. Veja só, há quem identifique os regimes totalitários com a falta de Liberdade, enquanto, na verdade, o totalitarismo só existe porque alguém ou determinado grupo goza de liberdade total para poder oprimir os seus semelhantes. A Liberdade é inerente ao homem e não é medida em si mesma; sua medida é a Ética, a conduta ideal para garantir a harmonia entre os homens e, em um segundo momento, o Direito que por meio de normas bilaterais, heterônomas e atributivas busca moldar a Liberdade individual dos homens e dos grupos dentro de um mesmo espaço comum para que a convivência possa ser possível. Em outras palavras, Pão ou Liberdade trata-se de uma dicotomia falsa, posto que homem não vive sem Pão, nem pode fabrica-lo sem que existam normas que adeqúem as liberdades para que sua produção possa ocorrer.

Pedro Ayres disse...

Pelo visto, é um falso dilema e uma deformação ideológica a respeito do lema Pão, Terra e Liberdade, que agitou a esquerda por muitos e muitos anos. Já no caso do José Manuel Zelaya, de acordo com os fatos verdadeiramente comprovados, dizer que ele queria ter o seu mandato continuado, além de uma grosseira calúnia, é uma típica análise política do Achismo, esta teoria que domina grande parte dos intelectuais brasileiros. Quanto ao Sir Ney, o problema do Senado é um problema específico do Legislativo e dos "probos" senadores.

Barone disse...

Daniel,
concordo com você. Será que podemos falar Democracia quando sabemos do domínio de Sarney sobre a mídia, poder público e até nos espaços públicos? Podemos substituir o nome “Sarney” por Chavez e tantos outros Brasil e mundo afora. Ainda assim, foram eleitos democraticamente. Sem encontrarmos irregularidades, podemos pleitear a derrubada deste pessoal como ocorreu em Honduras?

Hugo,
partamos do exemplo cubano. Em Cuba, na busca por uma equalização da distribuição dos recursos (não entro aqui no surgimento e desenvolvimento da casta dirigente e seus prepostos, me atenho apenas ao “povo”, propriamente dito), na tentativa de suprir o cidadão de abrigo, educação, alimento e saúde (o pão, que trato acima, as condições necessárias para viver), sacrificou-se a liberdade. E aí, definimos liberdade dentro dos valores ocidentais, sobre os quais nossa civilização está calcada: em especial a liberdade de expressão, de pensamento e o direito de ir e vir. Por outro lado, observemos o Brasil. Temos aqui (se comparados a outros países) liberdades individuais garantidas em bons níveis. O brasileiro pode sair do país quando bem entender, pode expor sua opinião livremente, pode se reunir em grupos políticos e filosóficos. No entanto, o acesso da imensa maioria da população sobre a riqueza produzida é ínfimo. Qual a medida deste equilíbrio?

Caro Ayres,
quem são os detentores dos “fatos verdadeiramente comprovados”? O golpe em Honduras é lamentável e deve ser combatido, mas dizer que Zelaya não manipulava a miséria para se perpetuar no poder beira a má fé. É típico da esquerda autoritária, para quem todos os meios são permissíveis em busca dos fins.

otelhado disse...

Barone,

"Sem encontrarmos irregularidades, podemos pleitear a derrubada deste pessoal como ocorreu em Honduras?"

Derrubar, pela força, não. Claro que não. Mas dou minha cara a tapas se a ocupação do Clã Sarney nos espaços públicos do MA não estiver cheia de irregularidades. E aí, sim, que essa gente seja toda apeada do Poder pela força da lei.

-Daniel