Semana On

terça-feira, 10 de março de 2009

Frei Betto e o assistencialismo

Escritor e religioso dominicano, Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, foi coordenador da área de Mobilização Social do Programa Fome Zero entre os anos de 2003 e 2004, período no qual também atuou como assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – seu amigo pessoal - para a área social.

Ontem, em entrevista ao jornalista Roldão Arruda, do Estadão, Frei Betto reconheceu que o programa Bolsa-Família, que substituiu o Fome Zero, tem fins eleitoreiros.

Em meu livro Calendário do Poder, descrevo em detalhes como o Fome Zero foi descartado para dar lugar ao Bolsa-Família. E com a exclusão do Fome Zero da pauta do governo a sociedade civil foi junta, ou seja, optou-se pela parceria apenas com os entes públicos, o que resultou na desmobilização de milhares de comitês gestores eleitos democraticamente, com representantes da sociedade civil. A única explicação que encontro para isso é assegurar, via beneficiários, uma fonte de votos.”, afirmou.

Argüido sobre como definiria politicamente a troca do Fome Zero pelo Bolsa-Família, o religioso disse o seguinte: “Aqueles que, dentro do governo, operaram a morte do Fome Zero em troca do Bolsa-Família trocaram, a meu ver, um projeto de nação por um projeto de poder. Só falta o PT aceitar Michel Temer como vice da Dilma...”.

Em dezembro de 2002 e em setembro de 2003, Frei Betto esteve no Mato Grosso do Sul. Em ambas as oportunidades pude entrevistá-lo sobre o andamento do programa Fome Zero. Na primeira entrevista, perguntei sua opinião sobre as acusações de que os programas sociais do governo petista seriam excessivamente assistencialistas. Ele não concordou com a afirmação, mas fez uma crítica contundente a este tipo de prática.

O Estado não pode desenvolver políticas de assistencialismo, mas sim políticas educativas. O assistencialismo reforça a dependência ao poder público, cria vícios que são contrários ao que se pretende em um projeto social que tenha como objetivo transformar o beneficiado em um incluído e, portanto, em um sujeito político, até mesmo em um protagonista da produção de sua própria vida. O objetivo final destes projetos é que o beneficiado possa investir em uma qualificação que lhe gere uma renda no futuro, e que ele não dependa mais de qualquer tipo de donativo. Portanto, os projetos sociais não podem ser assistencialistas. Eles precisam ser voltados para a educação do cidadão, para a inclusão social. Queremos criar cidadãos que, em médio prazo, conquistem sua independência dos benefícios públicos e participem do processo político.”, afirmou na época, sem imaginar o quanto seus objetivos seriam desvirtuados e transformados em simples troca de comida por voto.

Pouco menos de um ano depois, nos estertores do Fome Zero, Frei Betto ainda mantinha esperança de que o programa pudesse manter suas características originais e apostava na mobilização popular como garantia de sua manutenção: “Sentimos a cada contato com essa gente que há um entusiasmo com o projeto. De modo que acho que não haverá risco de que o Fome Zero seja atrapalhado por falta de recursos. O fato é que é óbvio aos olhos de qualquer brasileiro que há fome no País e que precisamos encontrar as políticas mais eficazes para combatê-la.

Em novembro de 2006 o jornal Folha de São Paulo produziu um estudo sociológico para averigüar os motivos do voto em Lula e descobriu o que já se esperava: o Bolsa-Família foi um dos motivos mais fortes para o voto dos pobres.

O brasilianista e professor da Universidade de Oxford, Timothy Powers, fez estudos semelhantes sobre a eleição de 2006, baseado nos dados socioeconômicos, políticos e eleitorais dos Estados. Em sua opinião, o declínio da miséria entre 2003 e 2005 (fruto, em boa parte, do Bolsa Família) explica 64% da variação dos votos estaduais de Lula na época.

Recentemente, o senador Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE) - em entrevista à revista Veja – disse que “o Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo”.

1 comentário:

Adriana disse...

É uma faca de dois gumes. Já pensei muito no assunto e não cheguei a uma resposta satisfatória. Assistencialismo dá votos e a bolsa-família alimenta. É uma questão muito séria. Esse texto elucida um pouco mais, mas não me contempla totalmente. Ainda tenho minhas dúvidas. Beijo.