Semana On

sábado, 28 de janeiro de 2017

Os Miseráveis - Victor Hugo



Ora, para nós, na história, onde a bondade é pérola rara, quem foi bom quase supera quem foi grande.

Em junho do ano passado ganhei de uma amiga a edição da Martin Claret de um dos grandes clássicos da literatura mundial, Os Miseráveis, de Victor Hugo. Antes mesmo da leitura, a obra impressiona por sua extensão. São mais de 1500 páginas de papel especial, capa dura com ilustração em baixo-relevo metálico e reserva de verniz, além de duas fitas para marcador de página com as cores da bandeira francesa. Coisa fina.

Fina como a prosa que Hugo desenvolve (e Regina Célia de Oliveira traduz) para contar uma história medonha, cujo cerne é o embrutecimento do homem pelas mãos do próprio homem e, especialmente para mim, a ideia de que há além das leis e dos tribunais, um direito superior que se impõe sobre todos os outros, que é o direito que cada um tem de viver com dignidade e de se insurgir contra o poder quando isso lhe é tirado.
 
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“Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século - a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância - não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis.
(Hauterville-House, 1862)
Prefácio do autor”
 
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Os Miseráveis foi publicado originalmente em 3 de abril de 1862, quando o autor já tinha 60 anos de idade e era uma celebridade internacional. A história se passa na França do século XIX, especificamente no período de tempo interposto entre duas grandes batalhas: a Batalha de Waterloo (1815) e os motins de junho de 1832 com as célebres barricadas de Paris.

É neste cenário muito especial da história nacional francesa que se desenrola a história de vida de Jean Valjean, um forçado condenado a viver como pária mesmo após ter cumprido sua pena – qualquer semelhança com o que ocorre hoje com as massas carcerárias no Brasil não é mera consciência. De fato, a vida nos presídios franceses do século XIX não difere muito do que ocorre hoje nos presídios brasileiros: fábricas de bandidos e monstros, de homens e mulheres abandonados à própria sorte sob lei do mais forte.

O personagem Jean Valjean foi inspirado no homem Pierre Maurin, parisiense que em 1801 teve prisão decretada por roubar um pão. Assim como Maurin, Valjean – desesperado pelo desemprego, pelo frio, e pela responsabilidade de criar seis irmãos após a morte da mãe – tenta roubar um pão e acaba preso e condenado a cinco anos, que acrescidos de diversas fugas, tornam-se dezenove. Aos poucos ele vai percebendo que sua pena, mediante o crime que cometeu, não se comparava à dívida que a própria sociedade tinha para com ele diante das atrocidades a que foi exposto por tão pouco. O embrutecimento e a desconfiança com o mundo o transformam em um homem sem a consciência da própria cidadania, dignidade e humanidade. “Jean Valjean entrou para as galés soluçante e trêmulo; saiu de lá impassível. Entrou desesperado, saiu sombrio”.

Este ódio por tudo e todos, único sentimento que Valjean conhece, é interrompido bruscamente quando o destino o coloca na casa de Don Myriel, bispo de Digne. O religioso o abrigara e alimentara uma noite, mas, na madrugada, Jean Valjean rouba-lhe a prataria e foge. Porém é pego pelos policiais e levado de volta à casa do bispo. Myriel, ao contrário do esperado, diz aos policiais que lhe dera os talheres, e lhe pergunta por que não levara os castiçais também. Tamanha bondade vinda de um ser humano faz Jean Valjean repensar sua posição em relação aos homens e à sociedade. “Não se esqueça, jamais se esqueça de que me prometeu empregar este dinheiro para tornar-se um homem de bem”, diz o bispo ao forçado.

O que ocorre daí em diante, pelos próximos quinze anos da vida de Valjean, nos é contado por Victor Hugo através de muitas peripécias, fugas, momentos de desespero e de sombria alegria. A proteção que ele oferece à desgraça de Fantine; a adoção de sua filha, Cosette; o aparecimento de Marius; o amor entre os dois jovens; a maldade obtusa personificada por Thenardier; e muitas outras histórias paralelas dão espaço, ainda, para diversas digressões que podem agradar um leitor e desagradar a outro. Particularmente gostei muito da descrição detalhada da Batalha de Waterloo e das Barricadas de Paris, o nascimento do homem e do pensamento socialista e da gênese e vida das crianças abandonas nas ruas de Paris. Mas, passei menos entusiasticamente pelas suas divagações sobre a gíria de rua dos franceses, a vida das mulheres nos conventos do século XIX e a história dos esgotos de Paris.

Mas é na figura de Javert, “aquele selvagem a serviço da civilização”, o inspetor de polícia que persegue Valjean pelos anos afora, que a obra traz o seu maior significado para mim. A figura de Javert pode ser vista hoje, ainda, alquebrada, fragmentada, mas muito presente, no surgimento de um pensamento de direita que sustenta os rigores da lei sem levar em conta o lamaçal social que cria bandidos e degenera homens.

Metódico e racionalista ao extremo, Javert é um homem cego pela lei e pela ordem e dedica a sua vida a combater o crime e a perseguir aqueles que o sentido lato da legislação define como criminosos. Por ver o mundo a preto e branco e não dar quaisquer mostras de compaixão genuína ao longo da história, define-se assim como o principal antagonista de Jean Valjean, o ex-condenado às galés que modifica a vida de muitos dos que encontra com os seus atos de humanidade e sacrifício.
Até que um dia a bondade de Valjean alcança o próprio Javert. Confrontado pela humanidade onde antes tinha a certeza da degeneração, o inspetor se descobre em um impasse moral que o leva a morte.
 
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“Via diante de si dois caminhos, ambos retos, mas via dois; e isso o apavorava, a ele, que nunca em sua vida conhecera senão uma única linha reta. E, angústia pungente, esses dois caminhos eram opostos. Qualquer uma dessas linhas retas excluía a outra... existe no mundo outra coisa além de tribunais, de sentenças executórias, de polícia e autoridade? Javert estava transtornado... a generosidade de Jean Valjean para com ele, Javert, o oprimia... sua suprema angústia era o desaparecimento da certeza.
Assim, a penalidade, a coisa julgada, a força devida à legislação, as sentenças das cortes soberanas, a magistratura, o governo, a prevenção e a repressão, a sabedoria oficial, a infalibilidade legal, o princípio da autoridade, todos os dogmas em que se baseiam a segurança política e civil, a soberania, a justiça, a lógica que deriva do código, o absoluto social, a verdade pública, tudo isso não passava de destroços, amontoados, caos.”

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O choque entre a honestidade do pária e a desumanidade do senhor é o grande mote de Os Miseráveis, e é nesta relação, muito mais do que nas histórias de amor – paterno e carnal – que o enredo desenvolve, que sua atemporalidade surge com toda a sua potência.

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