Semana On

segunda-feira, 2 de março de 2009

Para os Schvartzmans, Ghivelders e Azevedos proporção é coisa de esquerdista e terrorista

A grosso modo, define-se proporção como a igualdade entre duas razões. No caso dos conflitos humanos, no entanto, em especial no recente ataque israelense sobre a Faixa de Gaza, encontrar as razões que justifiquem a proporção do massacre perpetrado contra a população civil palestina é um desafio digno dos grandes matemáticos. Para lembrar aos mais esquecidos: cerca de 1300 palestinos (entre 40 e 50% crianças) morreram, assim como 13 israelenses. Uma proporção de 100 para um.

Salomão Schvartzman e Zevi Ghivelder tentaram desvendar o enigma em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, no dia 13 de janeiro. Segundo eles, não há critério para definir proporção em um conflito armado: “Há algum critério, alguma tabela, que a caracterize? Será que existe um consenso universal segundo o qual Israel teria o direito de matar ‘y’ palestinos se contasse ‘x’ mortos por foguetes?”, questionaram.

Da mesma forma, Reinaldo Azevedo molda argumentos como peças de lego para convencer a si mesmo - e aos incautos - que os palestinos merecem a chibata e que os israelenses estão em seu direito ao ocuparem territórios que desde 1946 a ONU pede que sejam devolvidos aos verdadeiros donos: os palestinos.

Azevedo, propositalmente, assim como os que cultivam urticária ao pensar na possibilidade de que os palestinos (os palestinos, não o Fatah, o Hamas ou o Hezbollah) possam constituir seu Estado, induz seu leitor a imaginar que todos os habitantes da Faixa de Gaza ou da Cisjordânia são terroristas-suicidas prontos a explodir ônibus ou pizzarias repletas de civis. Irresponsabilidade, para ser comedido.

Um dos principais argumentos de Azevedo, Schvartzman e Ghivelder para defender que não existe desproporcionalidade nos cíclicos massacres de civis palestinos é que, por terem eleito o Hamas (um grupo extremista islâmico) nas últimas eleições, os habitantes de Gaza não teriam crédito para negociar com Israel. Afinal, o Hamas prega a destruição de Israel. Quer dizer que, por terem transformado o partido de extrema-direita Israël Beiteinu – que propõe a expulsão dos árabes-israelenses de Israel – na terceira força política de Israel nas últimas eleições os israelenses também não devem ser dignos de crédito? Ora, se o problema são os extremistas, que tal Israel retirar os grileiros da Cisjordânia já que lá os palestinos são governados pelo moderado Fatah?

A verdade é os Schvartzmans, Ghivelders e Azevedos da vida não tem coragem de dizer, de fato, o que pensam a respeito da questão palestina. O que eles pensam é o seguinte: Israel deve continuar incrementando a invasão de terras na Cisjordânia por meio de “assentamentos” ilegais (sim, são ilegais, vide as resoluções 181 e 242 da ONU ou os termos do acordo de paz de 1993) até que os palestinos não tenham outra opção que migrar para a Jordânia, o Egito ou seja lá para onde for.

Mas voltemos a falar de proporção.

No último dia 17 o jornal Folha de S.Paulo publicou um editorial no qual classificava a ditadura militar no Brasil (1964-1985) de “ditabranda”. Em meio ao confronto de idéias que se seguiu ao editorial, a proporção dos crimes cometidos no Brasil pelo regime autoritário foi comparada ao número de vítimas de outras ditaduras para, digamos, abrandar o terror.

Foi o que fez Azevedo, novamente ele: “Os militares argentinos mataram 30 mil pessoas. Se o Brasil tivesse seguido aquele padrão, os mortos aqui teriam sido 150 mil! Fidel Castro, o maior assassino em massa do continente, responde por 100 mil vítimas. Na ditadura brasileira, morreram 424! Se fizermos as contas por 100 mil habitantes, Fidel é 2.700 vezes mais assassino do que o regime brasileiro.”, afirma.

Diga-se (para evitar o principal argumento de Azevedo e Cia, segundo o qual todos que o contrariam são esquerdistas ou terroristas): ditadura, seja de esquerda ou de direita, é algo a ser combatido, sejam as vítimas poucas centenas ou muitos milhares. Simplesmente não é aceitável que um governo seja imposto a uma população ou que suas liberdades básicas de expressão, de ir e vir etc sejam tolhidas.

Curioso que Azevedo, tão preocupado em desvincular o conceito de proporção do belicismo israelense, faz questão de levantar esta bola quando o tema é o terrorismo de Estado imposto pelos militares no Brasil nas décadas de 60 e 70.

Lei de talião

Talvez esta relação entre número de vítimas e crimes de guerra, entre pesos e medidas, tenha um pé fincado em um passado remoto, lá atrás, na Lei de talião, “aquela do olho por olho, dente por dente”. De origem babilônica, foi incorporada pelos hebreus e pode ser vista ainda hoje em relatos sobre o modo como o qual alguns israelenses observam o conflito com os palestinos.

O jornalista e escritor Robert Fisk, por exemplo, em algumas passagens de sua obra “A grande Guerra pela civilização - A conquista do Oriente Médio”, mostra sua incompreensão pelo modo com o qual pedras são respondidas com tiros em Gaza e na Cisjordânia. Uma passagem, especialmente interessante relata um encontro de Fisk com um judeu nova-iorquino em Tel Aviv. Em meio à conversa, o estadunidense diz que se lhe atiram uma pedra, responderá com um tiro. Fisk responde: “Se você me atira-se uma pedra eu não lhe daria um tiro”. Seu interlocutor responde: “Então você deve estar ficando louco”.

É a Lei de talião mantida viva na cultura hebraica, mantendo no campo da normalidade o uso de balas contra pedras e de tanques, mísseis e metralhadoras contra foguetes de fundo de quintal. Única potência nuclear no Oriente Médio, o que impedirá Israel de usar ogivas contra seus inimigos ou desafetos, já que, para Schvartzmans, Ghivelders e Azevedos, proporção é assunto para esquerdistas e terroristas?

1 comentário:

Thales B. D'Oliveira disse...

Interessante seu ponto de vista. Também concordo que uma vida não pode ser medida pelo vínculo político. Não creio que um ser humano possa ter em suas mãos a decisão pela vida de um próximo. Isso não é minimamente razoável. A questão, ao meu ver, torna-se saber o que fazer para retirar dos campos os belicistas em favor daquilo que o homem sabe fazer de mais belo: O discurso. E quando falo homem penso que apenas pode ser qualificado assim aquele que aceita a inteligência como parte indissociável à criatura. Afinal, se o ser humano não pode pensar, podemos acreditar que ele não passa a ser mais que uma pedra — e que apenas ocupa lugar no espaço.

Porém, outra questão que se levanta por aqui é: Qual o número real de mortes da ditadura no Brasil em relação às ditaduras da Argentina e de Cuba, que ainda hoje mata? Não quero dar razão à ninguém, apenas saber que números são reais. Como falei antes, não acredito que um homem possa ter o poder de decidir sobre a vida de uma pessoa. E ratificando o que você disse, "Ditaduras devem ser combatidas sempre!"