Semana On

sábado, 31 de agosto de 2013

Poema

Flor
Que eclode em teus
Lábios cada vez que exalas
Que nos teus olhos
Emudece todos os aromas
Que me envolve
E sufoca
Como um jardim oculto

Pétala
Que transpira em
Tua pele em suave toque
Que em tuas mãos
Embala todos meus sonhos
Que me envolve
E esmaga
Como um mar de seda

sábado, 10 de agosto de 2013

"Dirceu: a Biografia" - Otávio Cabral


Finalizei ontem a leitura de “Dirceu: a biografia”, de autoria do jornalista Otávio Cabral. O que me atraiu à leitura foi o tiroteio travado por petistas e tucanos após o lançamento do livro, em junho. Os primeiros capricharam na ridicularização da obra, apontada como um apanhado de imprecisões históricas, fruto de um “recorta e cola” de publicações jornalísticas e dossiês policialescos. Os últimos classificaram o livro como um relato desapaixonado e bem construído sobre a vida de um dos mais importantes personagens políticos do país que, por ambição política e pouco respeito às práticas republicanas acabou por cair em desgraça, levando consigo a aura de moralidade de seu partido. Eu prefiro ficar no meio, procurando um ponto de equilíbrio entre as opiniões de detratores e aliados do ex homem forte do Governo Lula – a quem tive a oportunidade de entrevistar há alguns anos (leia aqui - http://tinyurl.com/lz8vmhj).

É fato que o livro de Cabral carece de fontes (identificáveis, ao menos). O autor fala em 63 pessoas que teriam sido entrevistadas na fase de pesquisas, mas poucas são citadas nas notas de rodapé. Notas que chancelam determinadas informações apontam para “um assessor”, “um jornalista” ou “uma testemunha”. A jornalista Mônica Bergamo, por exemplo, desmentiu no Facebook um relato no qual se viu citada. “Otávio Cabral, da Veja, diz que entrevistou 63 pessoas. Não me entrevistou. E deu uma informação completamente errada citando meu nome”, afirmou.

Por si só estes fatos desabonam o livro de Cabral? Penso que não, mas é preciso discernimento para separar o que é fato histórico e o que é análise baseada em contextos que mereciam ao menos um embate de versões.

Durante a divulgação do livro, Cabral revelou que não conseguiu conversar pessoalmente com o ex-ministro, mas explicou que Dirceu também não impediu que a obra fosse realizada ou que pessoas próximas a ele dessem entrevistas com informações referentes à sua vida. "Ele não fez nada para impedir que alguém da proximidade dele falasse comigo. Ele não colocou nenhuma objeção", revelou o jornalista. O autor disse ainda que tentou ser o mais imparcial possível durante a realização da obra. "Tentei ser mais um narrador do que um comentarista".

O livro traz passagens prosaicas da vida de José Dirceu, desde o seu nascimento, em Passa Quatro (MG), até a condenação pelo STF no processo do Mensalão, passando por sua projeção durante o movimento estudantil na década de 60, a luta armada, a prisão, o exílio em Cuba, os anos de clandestinidade no Brasil até a abertura, a criação do PT e a conquista do poder. Tudo isso entremeado pelas incontáveis aventuras amorosas do Don Juan petista.

Dirceu foi personagem central nesta bola de neve política das últimas três décadas. Ajudou a fundar o PT, liderou o partido na oposição a Collor, Sarney e FHC, foi mentor da transformação de um agrupamento de tendências de esquerda em um partido pragmático para chegar ao poder, coordenou a vitória de Lula, comandou o expurgo da esquerda petista e as alianças com partidos conservadores e fisiológicos. Alianças que levaram ao Mensalão, que provocou sua queda do comando da Casa Civil e o processo que levou à sua condenação. 

Destaco como pontos relevantes do livro a relação conflituosa entre Dirceu e Lula e a sua disputa por poder no partido e no governo com outras cabeças coroadas do PT. A certeza de que foi abandonado à própria sorte pelo partido – especialmente por Lula - após a condenação pelo Supremo e o pragmatismo que o levou a ser um dos mais bem pagos lobistas do país também são pontos chave na trama traçada por Cabral para nos apresentar um José Dirceu que, ao contrário do que o autor insinua nas últimas linhas da obra, foi um dos responsáveis direitos pelo Brasil que conhecemos hoje, com todas as suas contradições e avanços.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Deixa ela entrar - John Ajvide Lindqvist



“Deixa ela entrar” (2004) é o primeiro livro do sueco John Ajvide Lindqvist. Trata-se de uma das mais perturbadoras ficções de terror dos últimos tempos. Grande parte de seu impacto se deve à originalidade com que Lindqvist aborda a seara do vampirismo. Vários elementos dessa literatura estão presentes – a começar pelo título, que faz referência à crendice de que vampiros só podem entrar em lugares para os quais são convidados –, porém ambientados no mais cru realismo.

No enredo, Oskar, um garoto de doze anos, vive com a mãe no subúrbio de Estocolmo, na década de 1980. Solitário e alvo de bullying na escola, passa o tempo lendo e colecionando notícias sobre serial killers e planejando se vingar de seus perseguidores. No entanto sua rotina é alterada quando uma garota de doze anos, Eli, se muda para o apartamento ao lado. Uma profunda identificação aproxima o menino a Eli, ao mesmo tempo em que a vizinhança passa a ser assolada por uma onda de mortes misteriosas.

Muito mais que sustos, o livro de Lindqvist desperta os horrores de quem tem de passar da infância para a maturidade em circunstâncias adversas e em um cenário opressivo. Com habilidade, o autor recorre a um registro naturalista, temperado de referências à cultura pop, para desenvolver uma história em que os medos são despertados tanto por elementos sobrenaturais quanto pela realidade concreta.

Pedofilia, prostituição, empalamentos e que tais se perfilam na narrativa das 500 páginas da obra, em um inquietante panorama que escapa da banalidade do terror barato por meio de uma bem construída paisagem que retrata a solidão de um grupo de personagens esmagados pela falta de expectativas econômicas, sociais e amorosas. E por um vampiro-criança...

Lindqvist nasceu em Blackeberg, subúrbio de Estocolmo, na Suécia, em 1968. Antes de se tornar autor de romances e contos de terror, trabalhou como roteirista de séries para a TV sueca, como mágico e comediante de stand-up. Seu segundo livro, “Mortos entre vivos” aborda outro fértil campo do terror moderno, os zumbis, mas de um ponto de vista totalmente original.

Quatro anos após seu lançamento nas livrarias, Deixe ela Entrar ganhou sua primeira adaptação cinematográfica. Dirigida pelo competente Tomas Alfredson (O espião que sabia demais), a produção sueca foi muito bem recebida pela crítica e ajudou Hollywood a dar sinal verde para sua versão para a história. Deixe-me Entrar, que contou com Chloë Grace Moretz (Kick-Ass) e Kodi Smit-McPhee (A Estrada) como protagonistas e com Matt Reeves (Cloverfield) responsável pela direção não se saiu muito bem nas bilheterias mas, assim como seu primo europeu, ganhou vários elogios dos especialistas.