quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lincoln - Doris Kearns Goodwin



 “Considero que a ideia central desta luta é a necessidade que se abateu sobre nós de provar que o governo popular não é um absurdo. Precisamos resolver agora a questão de saber se, num governo livre, a minoria tem o direito de derrubar o governo sempre que desejar. Um fracasso serviria para provar a incapacidade do povo de se governar”.

O pensamento acima é de Abraham Lincoln, 16º presidente dos Estados Unidos, e diz respeito aos motivos que lançaram seu país em uma guerra civil que se estendeu de 1861 a 1865 ceifando a vida de 970 mil pessoas (3% da população do país à época). Apesar de contextualizado, o pensamento de Lincoln é tão atual, tão intrínseco a uma contemporaneidade na qual os valores democráticos são constantemente atacados e vilipendiados como se deles surgissem todos os males de nossa sociedade.

Ontem finalizei “Lincoln”, da vencedora do Pulitzer de História e romancista Doris Kearns Goodwin. Em um primeiro momento o livro passa a impressão de superficialidade, mas, conforme vamos avançando na leitura vemos descortinada a nossa frente uma das mais fascinantes personalidades do século 19. Resumir o pensamento e os feitos de Abraham Lincoln em 321 páginas pode ser considerado, por si só, um trabalho exaustivo.

O livro esmiúça a fase final da vida de Lincoln, a partir da campanha pela indicação do Partido Republicano para a disputa presidencial de 1861 em um país dividido pela questão escravagista e pelo conceito de União. Sua genialidade política, sua visão de estadista são abordadas especialmente na sua relação com os adversários - dentro do partido e no governo - cujas vaidades soube apaziguar, cujas deslealdades pode relevar e cujas personalidades conseguiu cativar.

Goodwin relata os bastidores políticos da época sem se esquecer de humanizar Lincoln diante de seus dramas pessoais, como a morte dos filhos, e inerentes ao peso de comandar uma guerra fratricida.

Talvez o retrato mais fiel desta personalidade hercúlea seja exposto nas páginas finais de Goodwin:

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Em 1908, numa área remota e afastada do Cáucaso do norte, Leon Tolstoi, o maior escritor da época, era o convidado de um chefe tribal “que morava nas montanhas, longe da vida civilizada”. Reunindo a família e os vizinhos, o chefe pediu a Tolstoi que contasse passagens da vida dos homens famosos da história. Durante horas, Tolstoi brindou o público atento com narrativas sobre Alexandre, César, Frederico, o Grande, e Napoleão. 

Quando ele se preparava para terminar, o chefe levantou-se e disse: “Mas você não nos contou nada sobre o maior general e governante do mundo. Queremos ouvir alguma coisa. Ele foi um herói. Falava com a voz do trovão, ria como o amanhecer, e seus feitos tinham a força das rochas. (...) Seu nome era Lincoln e a terra em que viveu chama-se América, uma terra tão distante que, se um rapaz saísse a pé para viajar até lá, ele já estaria velho quando lá chegasse. Fale-nos desse homem.”

“Olhei para eles”, recordou-se Tolstoi, “e vi seus rostos alvoroçados, enquanto seus olhos ardiam. Vi que aqueles toscos bárbaros realmente estavam interessados num homem cujo nome e cujos feitos já tinham se tornado lendários”. Ele lhes contou tudo o que sabia sobre Lincoln, sua “vida doméstica e sua juventude (...) seus hábitos, sua influência sobre o povo e sua força física”. Quando terminou, eles ficaram tão gratos pela história que o presentearam com “um maravilhoso cavalo árabe”.

Na manhã do dia seguinte, quando Tolstoi se preparava para partir, eles perguntaram se ele teria como conseguir para eles um retrato de Lincoln. Como acreditava que poderia encontrar um na casa de um amigo na cidadezinha próxima, Tolstoi pediu a um dos cavaleiros que o acompanhasse. “Consegui obter uma fotografia de bom tamanho com meu amigo”, recordou-se Tolstoi. Quando a entregou ao cavaleiro, ele percebeu que a mão do homem tremia ao aceitá-la. “Ele ficou alguns minutos olhando para ela em silêncio, como alguém que faz uma prece com reverência, os olhos marejados de lágrimas.”

Tolstoi fez então o seguinte comentário: “Este pequeno incidente prova como o nome de Lincoln é venerado pelo mundo afora e como sua personalidade se tornou lendária. Ora, por que Lincoln foi tão grande a ponto de suplantar todos os outros heróis nacionais? Na realidade, ele não foi um grande general, como Napoleão ou Washington; não foi um estadista hábil, como Gladstone ou Frederico, o Grande; mas sua supremacia se expressa totalmente em sua singular força moral e na grandeza de seu caráter. Washington foi um americano típico. Napoleão foi um francês típico. Mas Lincoln foi um humanitário, com a abrangência do mundo. Ele foi maior que seu país — maior que todos os Presidentes reunidos.”

“Ainda estamos próximos demais de sua grandeza”, concluiu Tolstoi. “Contudo, depois de mais alguns séculos, nossa posteridade há de considerá-lo maior do que nós o consideramos. Sua genialidade ainda está forte demais e poderosa demais para a compreensão comum, exatamente como o sol queima demais quando sua luz brilha direto sobre nós.”

“Diz-se que todo homem tem sua ambição particular”, escreveu Abraham Lincoln, aos 23 anos, em sua carta aberta ao povo do Condado de Sangamon durante sua primeira candidatura a um cargo eletivo, na legislatura estadual de Illinois. “Seja ou não verdade, posso dizer por mim mesmo que não tenho outra [ambição] tão forte quanto a de ser realmente estimado por meus próximos, tornando-me digno de sua estima. Até onde serei capaz de realizar essa ambição ainda está por se revelar.”

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