Semana On

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Respondendo fogo com palavras

O movimento da poesia nacional palestina surgiu entre as décadas de 50 e 60 e representa um brado de esperança para os que vivem sob a ocupação de Israel ou no exílio. “A democracia israelense não suporta que os palestinos cantem”, disse uma vez o poeta Tawfic Zayyad. Apesar disso, a poesia é o mais popular gênero da literatura palestina, devido à forte tradição oral da sua cultura. Hoje, aqui, damos voz a estes poetas para calar um pouco o som da morte.

Não iremos embora

Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em vossas goelas
Como cacos de vidro
Imperturbáveis
E em vossos olhos
Como uma tempestade de fogo
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em lavar os pratos em vossas casas
Em encher os copos dos senhores
Em esfregar os ladrilhos das cozinhas pretas
Para arrancar
A comida dos nossos filhos
De vossas presas azuis
Aqui sobre vossos peitos persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus
Provocadores
Declamando poemas
Somos os guardiões da sombra
Das laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as idéias como o fermento da massa
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo
Quando tivermos sede
Espremeremos as pedras
E comeremos a terra
Quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
E não seremos avarentos com nosso sangue
Aqui
Temos um passado
E um presente
Aqui está o nosso futuro.

Tawfic Zayyad


Discurso no mercado do desemprego

Talvez perca — se desejares — minha subsistência
Talvez venda minhas roupas e meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como carregador... ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones minha juventude
Talvez me roubes a herança de meus antepassados
Móveis... utensílios e jarras
Talvez queimes meus poemas e meus livros
Talvez atires meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes de minha noite
Talvez me prives da ternura de minha mãe
Talvez falsifiques minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas ao meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol... de meu povo exilado
E para seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei

Samih Al-Qassim


Com os dentes

Com os dentes
Defenderei cada polegada da minha pátria
Com os dentes

E não quero nada em troca dela
Mesmo que me deixem pendurado
Nas minhas veias

Aqui permaneço
Escravo do meu amor...
à cerca da minha casa
Ao orvalho...e às géis flores do campo

Aqui continuo
E não poderão derrubar-me
Todas as minhas dores

Aqui permaneço
Com vocês
No meu coração

E com os dentes
Defenderei cada polegada da terra da pátria
Com os dentes

Tawfic Zayyad


Basta-me permanecer em seu regaço

Basta-me morrer em meu país
aí ser enterrada
dissolver-me e aí ser reduzida a nada
ressuscitar erva em sua terra
ressuscitar flor
que uma criança crescida em meu país arrancará
basta-me estar no regaço de minha pátria
estar perto dela como um punhado de poesia
um raminho de grama
uma flor

Fawda Tugan


Carteira de Identidade

Registre-me
Sou Árabe
O numero de minha identidade é cinqüenta mil
Tenho oito filhos
E o nono... Virá logo depois do verão
Vais te irritar por acaso?
Registre-me
Sou árabe
Trabalho com meus companheiros de luta
Em uma pedreira
Tenho oito filhos
Arranco das pedras
O pão, as roupas, os caderno
E não venho mendigar em tua porta
E não me dobro
Diante das lajes de teu umbral
Vais te irritar por acaso?
Registre-me
Sou Árabe
Meu nome é muito comum
E sou paciente
Em um país que ferve de cólera
Minhas raízes
Fixadas antes do nascimento dos tempos
Antes da eclosão dos séculos
Antes dos ciprestes e oliveiras
Antes do crescimento vegetal
Meu pai... da família do arado
E não dos senhores do nujub
E meu avô era camponês
Sem árvore genealógica
Minha casa
Uma cabana de guarda
De cenas e ramagens
Satisfeito com minha condição
Meu nome é muito comu
Registre-me
Sou árabe
Sou árabe
Cabelos... negros
Olhos... castanhos
Sinais particulares
Um kuffiah e uma faixa na cabeça
As palmas ásperas como rochas
Arranharam as mãos que estreitam
E amo acima de tudo.

Mahmoud Darwish

5 comentários:

BAR DO BARDO disse...

Talvez pela opção lírica e um tom melífluo para tema bastante "patriótico", causa-me mais comoção (embora seja trabalho traduzido) o poema de Fawda Tugan. Mas é interessante saber um pouco sobre esse tipo de texto, de um povo e lugar tão significativos para o mundo. Obrigado. - Henrique Pimenta

Adriana disse...

Esses poemas são o grito de um povo massacrado, mas que ainda acredita em sua pátria, em sua gente. Belos, belíssimos.

PS: As últimas notícias dessa guerra desigual me deixam muito triste e com medo de que tudo acabe e Israel vença. Quanta desumanidade, até quando??

Felipe da Costa Marques disse...

olá...
Ilustre poeta Barone!

"o ser patriota, termo que está fora de moda e ultramarino de passado!
Cadê a paixão? o amor? a amizade? e a educação? Sentimentos que aprendemos quando criança e já na infância perdemos a esperança de tê-los! Não adianta pedir pra nosso senhor do Bonfim, deuses e mercenários.. As linguagens das guerras são os jovens
que não chegam a fase adulta. Somos judeus, arabes ou favelados"

Adorei os poemas!!!

Barone disse...

Gosto muito dos poetas palestinos. Seus poemas dizem ao coração e ao punho.

mariagomes disse...

Mahmud Darwich (Palestina, n. 13 de março de 1941;f. 09.08.08))
TAMBÉM NÓS AMAMOS A VIDA



Também nós amamos a vida quando podemos
Dançamos entre dois mártires e no meio deles
erguemos um minarete de violetas ou uma
palmeira.

Também nós amamos a vida quando podemos.

Ao bicho– da - seda roubamos um fio para tecer o
nosso céu e estancar este êxodo.
Abrimos a porta do jardim para que o jasmim saia
para a rua como um dia bonito.

Também nós amamos a vida quando podemos.

Na morada que escolhemos, cultivamos plantas
vivazes e recolhemos os mortos.
Sopramos na flauta a cor da distância,
desenhamos um relincho no pó do caminho.
E escrevemos os nossos nomes, pedra a pedra. Tu,
ó raio, ilumina a nossa noite, ilumina-a um
pouco.

Também nós amamos a vida quando podemos.


MAHMUD DARWICH, palestiniano - , O Jardim Adormecido e outros poemas,
selecção e tradução de Albano Martins, Campo das Letras.

Trad. de Albano Martins

In PEQUENA ANTOLOGIA DA POESIA PALESTINIANA CONTEMPORÂNEA –ed.ASA, Porto,2004