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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"Os Irmãos Karamazov" - Fiódor Dostoiévski

“Eu sempre gostei de becos, de recantos desertos e escuros, atrás da praça – lá estão as aventuras, as surpresas, lá estão as pepitas no lodo.” - Mítia Karamázov em conversa com o irmão, Aliócha (Pág. 164)

Terminei ontem a leitura da "Os Irmãos Karamazov", de Fiódor Dostoiévski. Confesso que assimilar as 1000 páginas do romance (999 para ser exato) exigiu um mergulho profundo e apaixonado, uma imersão voluntária na alma russa do século 19, cujas histórias individuais são tão atuais, tão presentes em nosso cotidiano. Cobiça e desapego, ciúme e compaixão, ódio e amor, alegria e tristeza, fé e descrença, liberdade e escravidão. Não somos feitos disso tudo ainda hoje? Não somos todos almas karamazovianas?
Esperei bastante antes de me debruçar sobre a obra que, para muitos, está entre os mais importantes clássicos da literatura universal. Aguardei a aclamada tradução da Editora 34, feita por Paulo Bezerra diretamente do russo. As traduções anteriores, baseadas no francês, eram incompletas. A tradução de Bezerra baseia-se em uma edição crítica da obra de Dostoievski realizada por um time de filólogos russos nos anos 70 – buscava-se, então, corrigir os cortes realizados pelas censuras czarista e stalinista. É, de acordo com o posfácio do tradutor, "a única efetivamente integral em língua portuguesa".

Bezerra também buscou respeitar o estilo "às vezes meio tosco" do original. Dostoievski não era propriamente um cultor da palavra exata. "A coisa mais feia deste mundo é a realidade. Se um escritor deseja retratá-la com justiça, é preciso dominar uma forma literária que a copie - não é permitido dispensar a feiura”, disse certa vez. Seu estilo era duro, porque ele via cruamente a aspereza do universo à sua volta.
No entanto, poucos o superam na criação de personagens que vivem no extremo da condição humana – humilhados, atormentados, torturados pela própria personalidade mesquinha.

É o caso da família Karamázov. O pai, Fiódor, bêbado e bufão, conseguiu acumular alguma fortuna graças ao matrimônio com mulheres de melhor extração social. Teve três filhos: Dmitri (ou Mítia), Ivan e Alieksiêi (ou Aliócha. Negligente, abandonou-os à própria sorte para serem educados por criados.
Violento e lascivo, Dmitri saiu ao pai – e disputa com ele os favores de Grúchenka, jovem mulher de má fama. Aliócha é um místico. Vive em um mosteiro ortodoxo, onde segue as orientações do caridoso monge Zossima. Ivan é o mais filosófico e especulativo, um livre-pensador que parece ironizar todos os sistemas religiosos ou filosóficos: flerta com o ateísmo, mas discute teologia de igual para igual com Aliócha.

“Sabei que não há nada mais elevado, nem mais forte, nem mais saudável, nem doravante mais útil para a vida que uma boa lembrança, sobretudo aquela trazida ainda na infância, da casa paterna. Muitos vos falam de vossa educação, mas uma lembrança maravilhosa, sagrada, conservada desde a infância, pode ser a melhor educação. Se o homem traz consigo muitas destas lembranças para sua vida, está salvo pelo resto da existência.” - Aliócha palestrando para as crianças (Pág. 996)

É Ivan é a figura mais marcante da obra, apesar da miríade de personagens repletos de verdade e força. O capítulo mais conhecido e celebrado do romance, "O grande inquisidor", deve-se a ele. Trata-se de um poema (ou, antes, do enredo de um poema que ele deseja escrever, já que não está em versos), no qual Jesus retorna à Terra, em Sevilha, no século XVI, e acaba preso pela Inquisição espanhola.
“E o homem realmente inventou Deus. E os estranho, o surpreendente não seria o fato de Deus realmente existir; o que, porém, surpreende é que essa ideia – a ideia da necessidade de Deus – possa ter subido à cabeça de um animal tão selvagem e perverso como o homem...” - Ivan Karamázov (Pág. 323)

Quando Fiódor, o patriarca dos Karamázov, é assassinado e Dmitri surge como o principal suspeito, questões morais ganham uma premência incontornável, que muito atormentarão Ivan, seus irmãos e a todos que nos cercam. É em torno desta disputa que a trama se desenvolve, uma tempestade de virtudes e falhas de caráter, um vendaval de humanidade no que ela tem de mais sublime e torpe.
“De fato, às vezes se fala da crueldade ‘bestial’ do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente, tão esteticamente cruel. / Acho que se o diabo não existe e, portanto, o homem o criou então o criou à sua imagem e semelhança.” - Ivan Karamázov (Pág. 329 e 330)

Ler “Os irmãos Karamázov” foi, também, um exercício de sensibilidade. A cada página me lembrava de um querido amigo que nos deixou há algumas semanas, Luiz Capssa Lima, o Cacho, apaixonado por literatura, especialmente a literatura russa, que tanto me incentivou a experimentar a tradução de Paulo Bezerra.
Pensei muito no amigo, especialmente nas últimas páginas e nos trechos finais em que Aliócha conversa com as crianças no sepultamento de Iliúchetchka.

“E ainda que venhamos a nos dedicar aos mais importantes assuntos, a conquistar honrarias, ou a cair na maior desgraça – apesar de tudo nunca esqueçais como certa vez nos sentimos bem aqui, todos comungando, unidos por aquele sentimento tão bom e bonito, que durante aquele momento de nosso amor pelo infeliz menino nos fez, talvez, melhores do que em realidade somos.” - (Pág. 996)

3 comentários:

João Carlos disse...

Victor, bom dia!

Acabei de Os Irmãos Karamázov hoje de manhã. Na verdade, foi minha segunda leitura. A primeira foi muito "rápida" e acabei perdendo alguns detalhes importantes de toda a trama, me perdendo algumas vezes na intensa "troca de nomes" que os personagens sofrem durante a trama.

Esta segunda foi feita com mais esmero. Digeri cada personagem de uma forma que fez eu concordar com o fato que "todos somos Karamázov". Chorei...

Sou fã de Dostoiévski e de sua habilidade em tumultuar nossas almas com suas profundas questões psicológicas e morais.

Muito boa resenha! com o tempo, vou "cavocar" mais seu blog, o qual também gostei muito!

Abraço!

João Carlos

André Quirino disse...

Considerado por alguns “o Dostoiévski francês”, Georges Bernanos figura entre os grandes escritores cristãos do século XX. Sua obra tem sido publicada no Brasil pela É Realizações Editora, e agora sua passagem pelo país é narrada ao público local. O estudo de Sébastien Lapaque “Sob o Sol do Exílio: Georges Bernanos no Brasil (1938-1945)” acaba de ser publicado, trazendo à luz a visita de Bernanos a várias cidade do Rio de Janeiro e Minas Gerais, sua estadia no sítio Cruz das Almas, sua revolta contra a mediocridade dos intelectuais e a ascensão do totalitarismo, sua amizade com pensadores brasileiros e a visita que Stefan Zweig lhe fez à véspera de se suicidar.

Matérias na Folha de S. Paulo a propósito do lançamento do livro: http://goo.gl/O8iFve e http://goo.gl/ymS4lL
Para ler algumas páginas de “Sob o Sol do Exílio”: http://goo.gl/6hAEOM

Confira também:
Diálogos das Carmelitas: http://goo.gl/Yy3ir3
Joana, Relapsa e Santa: http://goo.gl/CAzTTk
Um Sonho Ruim: http://goo.gl/Kd091z
Diário de um Pároco de Aldeia: http://goo.gl/ISErLc
Sob o Sol de Satã: http://goo.gl/qo18Uu
Nova História de Mouchette: http://goo.gl/BjXsgm

ANDRÉ GOMES QUIRINO
mkt1@erealizacoes.com.br
(11) 5572-5363 (r. 230)

Fênix_K! disse...

Esse livro é um absurdo. Obra prima. Sorri e chorei lendo ele.

poesiaincidente.blogspot.com