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quarta-feira, 24 de julho de 2013

50 anos a mil - Lobão

“Preparem-se porque, a partir de agora, vou contar uma história de amor louca, insólita, humana, demasiadamente humana, imprevisível, improvável, mas bem real: a história da minha vida, que se mescla e se confunde com a da minha geração, do nosso país e de nosso tempo. Não se trata de uma simples narração de um passado longínquo, morto e enterrado, fruto de um devaneio nostálgico. É uma história cheia de vida, de intensidade e de revelações, que incide no presente e se projeta em direção ao futuro. Portanto, não se enganem: o melhor ainda está por vir, pois essa promessa eu fiz aos meus amigos, ao pé de suas lápides. E tenham a certeza absoluta de que a cumprirei à risca.”

E não é que João Luiz Woerdenbag Filho (o Lobão) faz exatamente o que prometeu?

Terminei há pouco sua autobiografia “50 anos a mil”. Não, não é bem escrito, há muitas repetições de fatos, em certos momentos a história perde a linearidade e a participação do Claudio Tognolli não acrescentou absolutamente nada à obra. Enquanto o biografado ia fundo nas próprias lembranças, Tognolli fazia a pesquisa factual: compilava notícias publicadas nos últimos 30 anos, recolhia os inúmeros processos judiciais que Lobão teve de responder, entrevistava outros personagens. Mas o conteúdo e apresentação da contribuição são fracos.  Ainda assim o livro é muito, muito bom.

“50 anos a mil” é um brainstorm de fatos e histórias vividas por Lobão e pelos principais personagens da contracultura carioca (e nacional). Muita droga, muito sexo e muito roquenrol, mas também muita cultura, verve e disposição para dar um chute daqueles na bundamolice que insistia se acomodar em meio à produção cultural do país (e que prevaleceu, infelizmente, nos dias de hoje).

De fundador da Blitz como baterista, à sua reinvenção como artista que o levou a ganhar um Grammy em 2007 (melhor disco de rock com seu Acústico MTV), Lobão destrincha sua história sem pudores, vai fundo em suas próprias feridas e exorciza fantasmas adormecidos. Entre amores, prisões, drogas, incontáveis polêmicas envolvendo artistas como Herbert Vianna e Caetano Veloso, a histórica e breve passagem pelo Rock in Rio ll, seu envolvimento com o Comando Vermelho, o amor declarado pelos amigos Júlio Barroso e Cazuza, e seu embate com a indústria fonográfica que culminou na lei de numeração de discos, “50 anos a mil” narra através de uma prosa espontânea as diversas faces que compõem a personalidade do cara mais odiado e mais amado do rock nacional.

Me pergunto se o livro tem o mesmo peso para quem não viveu a adolescência ou o início da fase adulta no Rio de Janeiro, nos anos 80. Afinal, todas as mirabolantes histórias que Lobão nos apresenta nas quase 600 páginas do livro tem cheiro de Rio de Janeiro nos anos 80. Eu, por exemplo, tenho a nítida lembrança de um bate papo com colegas no antológico Colégio Peixoto (na Gávea) sobre a novidade musical do momento: o primeiro disco da Blitz em 1982. Dali para frente, a história da nossa geração mudou drasticamente com a explosão do rock Brasil. Lobão foi personagem central em todo este processo e o livro traz estes momentos únicos junto com a lembrança de uma juventude ainda amortecida com os resquícios da ditadura, mas totalmente a fim de reverter o mundo.

Lobão faz questão de dizer que o melhor ainda está por vir. E tem feito por onde. Em 2012 auto-produziu seu CD e DVD “Lino, Sexy & Brutal”, e lançou recentemente – com a mesma polêmica que lhe é peculiar - seu segundo livro “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”.  Lobão disse: "O livro inteiro sou eu morrendo muitas vezes, de várias maneiras. E depois, sempre, me reinventando". Nada mais Lobão.

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Confira a seguir este trecho antológico no qual Lobão e Cazuza cheiram uma lagarta sobre o caixão do poeta e rocker Júlio Barroso:

“O Júlio era um homem-arquivo, um poço das mais variadas informações. Um ser de uma inteligência prodigiosa, de grande coragem e inspiração; um articulador.
Era um esteta, e perseguia obsessivamente a novidade, digerindo tudo que estava ao seu alcance, sem barreiras, sem dogmas. Fora a sua alegria... O Júlio era um grande poeta, uma criatura engraçadíssima, uma aventura ambulante, um sexista, um sátiro e, antes de qualquer coisa, um amigo raro.
Com tudo isso passando pela cabeça, naquele velório, suor e lágrimas se fundiam. O silêncio se desfazia com o cantar dos passarinhos, que despertavam com o dia a me causar calafrios. Na sala, o caixão fechado invocava toda uma angústia da incapacidade em não poder dar o último abraço, o último beijo. Daí pensei: “Cazuza, pensa bem: tá todo mundo dormindo, a gente tá aqui sozinho, com ele... Vamos sublimar a paradinha. Vamo esticar duas carreironas em cima do caixão? Pelo menos essa kartirinha da Ordem dos Músicos vai servir pra alguma coisa. A gente não pode se negar a fazer isso, né?” Eu fungava, apalpando freneticamente os bolsos
“Vai ser nossa última homenagem... Não tem ninguém olhando... Vamo nessa, rapá!”
“Lobãothinho”, Cazuza de vez em quando me chamava assim, ciciando, “tá bom, vamos nessa. Mas será que não vão pegar a gente com o canudo no nariz?”
“Claro que não, bobo. Tá todo mundo cansadão, dormindo pelos cantos. E se alguém nos flagrar, vai pensar que tá tendo um visual causado pela estafa e pelo sofrimento. Além do mais, isso aqui é uma licença poética!” Depois de algum tempo tremelicando, consegui tirar a tampa de Minalba do bolso, cheia de cocaína, despejar no verso da kartira azul e pousá la em cima do caixão. Estiquei diligentemente duas enormes lagartas que reluziam a brilhar naquela insólita superfície — que naquele instante, em todo o seu conjunto, mais parecia uma instalação de arte contemporânea —, e passei o canudo de caneta Bic pro Cazuza: “Vai nessa, meu irmão. Pensa que é pro Júlio.” Ele me deu uma risada meio amarga, meio úmida, deu uma cafungada forte e, sem perder o fôlego, me passou o canudo secando a narina no antebraço, dizendo baixinho: “A gente é muito louco! A gente é maluco...” Pausa. Mais uma risadinha canalha e emenda: “Mas também, o que nos resta?!” Respirei um pouco pra pegar um ar depois do catranco e, me dirigindo a um Júlio que, nesse exato momento, parecia descer das nuvens, todo de branco, como sempre gostava de se trajar, a nos abençoar, escancarando um sorriso de quem está pronto para gritar para seus irmãozinhos — “Aleluia, rapeizy!” —, contrito, lhe prometi: “Meu amigo, você vai sempre estar com a gente, você vai sempre estar vivendo dentro da gente, pode crer!”
Recebemos um fluxo de energia poderoso. Um momento ritual. A partir de então, a minha vida se resumiria em antes e depois daquele instante. A morte do Júlio Barroso foi um marco: existia o antes e o depois daquela perda. Não só para mim, mas para toda a história.
E olhando pro Cazuza, inflado de amor, arrematei: “E tem outra, rapá, não vão derrubar a gente assim tão mole, não! Vamos em frente, mesmo porque a morte do Júlio não vai ser em vão. A nossa vida não pode ser em vão, e, se nada pode deter uma pessoa feliz, nada poderá nos deter, pois a nossa história vai ser cada vez mais... cada vez mais...” Chorava copiosamente. Diante daquele vazio, gaguejando mentalmente, tentando pinçar na cabeça o que poderia ser “cada vez mais”, arrematei: “INTENSA!!!!” E não satisfeito, prossegui: “e cada vez mais... DIVERTIDA!!!!” E concluí: “A nossa onda de amor não há quem corte!!” Chacoalhando de emoção, abracei com toda a força o caixão.
Talvez tenha sido ali, naquele momento surreal, que nasceu não só uma vontade, mas um compromisso tácito entre meus amigos de que, uma vez sobrevivendo, eu deveria contar toda a história. Uma saga à procura de um lugar a que se pertencer… Eu precisava, através de um juramento, me motivar o bastante para não ver nossos sonhos serem sepultados com meus amigos.”

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Também vale checar este teaser do livro
http://youtu.be/eFKj_PT7bIk

1 comentário:

Rafael Belo disse...

Tenho o livro caro Barone e concordo contigo. É muito bom, com erros e acréscimos desnecessários, mas bom. E este trecho inicial fez eu devorar rapidamente o livro no ano passado. Todo o panorama da nossa música e o quanto ainda é renegado o Lobão.