Semana On

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Liberdade e responsabilidade: uma breve e desimportante reflexão sobre o Jornalismo

A liberdade e a responsabilidade na imprensa devem caminhar lado a lado. Somente com liberdade a imprensa pode cumprir seu papel fiscalizador dentro de uma democracia. Somente com responsabilidade a imprensa pode cumprir este mesmo papel sem agredir direitos alheios. A liberdade se apóia sobre a responsabilidade e a última justifica a primeira. Sem uma ou outra o jornalismo fica manco, incompleto.

Nós, jornalistas, nos habituamos a exigir liberdade e este é um hábito benéfico ao apontar para uma compreensão dos profissionais da área sobre o papel do jornalismo. É muito bom, também, quando não só jornalistas, mas pessoas oriundas das mais variadas áreas de atividade se manifestam quando a liberdade de imprensa é ameaçada, como parece ter ocorrido recentemente com o site de notícias MidiamaxNews (veja aqui as explicações do dono do site sobre o caso), de Mato Grosso do Sul.

Assim como estamos sempre prontos a gritar, escrever e teclar por liberdade, nos esquecemos, muitas vezes, nós jornalistas, da responsabilidade para com a notícia. Não gostamos nem um pouco que nos digam isso, mas é a verdade. A verdade: tão subjetivo conceito, alvo constante de nossa labuta diária.

Não há verdade menos importante ou mais importante, assim como responsabilidade não pode ser mensurada de acordo com o objeto sobre o qual se aplica. Ou se fala a verdade ou não. Ou se é responsável ou não.

Faço esta reflexão diante de um fato ocorrido comigo hoje. Acompanhei pelo Twitter as muitas manifestações de apoio ao MidiamaxNews. Solidarizei-me com o veículo, com os profissionais que lá atuam, com seu proprietário, segundo quem o site foi alvo do ataque de hackers.

Como muitos outros, fui ao MidiamaxNews ler as novidades quanto o site voltou ao ar. Entre as muitas notícias deparei-me com uma inverdade publicada na coluna Bastidores. Uma nota intitulada “Craque Metido”, que reproduzo a seguir:

“O atacante Denilson, ex-Palmeiras, ex-seleção brasileira, recebeu R$ 11 mil para vir em Campo Grande para inaugurar a Cidade da Copa, nos altos da Afonso Pena, ponto de concentração dos torcedores em dias dos jogos do Brasil. Ele ficou uns 15 minutos no evento, afastado da imprensa, dos fãs, enfim, longe da “galera”. Ninguém conseguiu ao menos um autógrafo do craque, que foi logo alegando compromissos.”

Em meio à fome na África, aos conflitos sangrentos no Oriente Médio, a situação precária dos indígenas brasileiros ou a política indigente de nossos políticos, a simpatia ou antipatia de um ex-craque de futebol pode parecer assunto de pouca importância. É verdade. Não se trata de um tema central. No entanto, jornalista que sou, tenho ainda a urticária da verdade e da responsabilidade entranhada na epiderme.

Diante disso, não pude deixar de identificar que a nota, como disse anteriormente, era inverídica. Afinal, eu estava lá, com o sol batendo no cocuruto no momento em que o Denilson adentrou a Cidade da Copa até o instante em que ele de lá saiu. Testemunha ocular da história, deparei-me com uma incongruência entre a informação e o fato. É que o ex-craque, durante todo o tempo que esteve no circo armado pela Prefeitura de Campo Grande para o primeiro jogo do Brasil na Copa, atendeu à todos com presteza. Deu autógrafos adoidado, concedeu entrevistas a torto e a direita. Sempre com um sorriso estampado no rosto. O fato, então, não batia de forma alguma com a notícia publicada no site.

Em um primeiro momento, cogitei fazer um comentário no Twitter apontando este desacerto. Mas pensei: “ora, é assunto de pouca importância. A quem interessa se o Denilson foi ou não foi simpático, se deu ou não entrevistas. Embora ele tenha sido simpático com todos e tenha concedido entrevistas a tantos quanto assim solicitaram. Embora o que havia sido publicado fosse uma inverdade”. Pensei, também: “ora, hoje atuo na assessoria de imprensa da Prefeitura. Se eu tocar no assunto, já já aparece um espírito de porco dizendo que estou falando em causa própria”. Desisti, então.

Mas continuei com aquela coceirinha, incomodando. É que sou jornalista, sabe? As joças da verdade e da responsabilidade me perseguem.

Então, para me livrar do incômodo, liguei para uma querida amiga que atua lá no Mídia. Comentei minha inquietação, mas como resposta ouvi o seguinte: “Não fomos só nós que dissemos isso...”. É aquela velha história: uma mentira dita muitas vezes pode se transformar em verdade. Não era importante, em um primeiro momento, se o que dizia a nota “Craque Metido” fosse ou não verdade. O que importava é que a verdade ou a mentira dita ali não havia sido proferida em solidão, apenas pelo Mídia.

Como a amiga me é muito querida e a loucura da redação se fazia ouvir nos bastidores da ligação, preferi não estender a conversa – embora adorasse fazê-lo em uma mesa de bar se ela topar.

Assim, mais uma vez, tentei deixar de lado o desimportante comportamento de Denilson.

Não por muito tempo. Coceira desgraçada.

Peguei o telefone e liguei para o proprietário do site. Minha idéia era dizer a ele que uma inverdade havia sido publicada no seu veículo de comunicação, com a certeza de que, assim como para mim, para ele a liberdade de imprensa é tão importante quanto a responsabilidade sobre a notícia.

Assim como ouvi ao fundo a loucura da redação ao conversar com minha amiga, identifiquei no tom de voz de meu interlocutor e no atropelo com que fui atendido, a mesma loucura, a roda viva do mundo da comunicação online, onde não há tempo para detalhes, em especial os pouco importantes.

Então, antes mesmo que eu pudesse dizer o motivo de minha ligação, ouvi a seguinte pergunta (em um tom de quem está louquinho para desligar): “É importante o que você tem a me dizer agora? Estou bastante ocupado”.

Lembrei-me, então, do que era importante para mim, como jornalista – verdade, responsabilidade e liberdade (a mesma que o Midia, justamente, defende)-, mas calei-me diante da pressa, torcendo do fundo do meu coração para que o que eu tinha a dizer a ele fosse, sim, algo importante.

1 comentário:

Gui disse...

O que eu posso dizer? Comportamento sintomático. Acontece nas melhores (e piores) redações. É que autocrítica ainda não foi contemplada nos currículos dos cursos de jornalismo, então...