Semana On

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O show de horrores de Bogie

Por Uri Avnery
Publicado originalmente em Kaos en la Red


"Os judeus têm o direito de residir em qualquer lugar por todo o Eretz Israel". Se isso perturba os americanos, Moshe Ya’alon (ministro israelense) responde: "Não tenho medo dos americanos!"

O meu primeiro pensamento foi: Meu Deus, esse homem foi responsável pela vida dos nossos soldados!

O segundo pensamento foi: Qual é a grande surpresa? Sempre soubeste o tipo de pessoa que ele era! Afinal de contas, durante os seus anos como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, apoiou discretamente a criação de postos avançados “ilegais" de colônias por toda a Cisjordânia!

O terceiro pensamento: E essa pessoa é agora vice-primeiro-ministro e membro do “Sexteto” – os seis ministros que constituem o verdadeiro governo de Israel.

A ocasião para estes pensamentos assustadores foi a afirmação de que “Os judeus têm o direito de residir em qualquer lugar por todo o Eretz Israel”. E se isso perturba os americanos, Ya’alon tem uma resposta pronta: “Não tenho medo dos americanos!”, disse em uma reunião da Facção Liderança Judaica. “A Paz Agora é um vírus”, afirmou na reunião. E não só eles. “Todos os meios de comunicação social” são também um vírus. Eles influenciam o discurso público “de uma forma distorcida, de uma forma enganadora”. O vírus também inclui “a elite” em geral.

Além disso, os “políticos” são culpados. “De cada vez que os políticos trazem a pomba da paz, nós, o exército, temos que limpar depois”.

O seu resumo: “Os judeus têm o direito de residir em qualquer lugar por todo o Eretz Israel”. E se isso perturba os americanos, Ya’alon tem uma resposta pronta: “Não tenho medo dos americanos!

Tudo isto foi dito alguns dias depois de Ya’alon ter feito uma visita bem divulgada aos territórios ocupados, acompanhado pelo líder do Shas, Eli Yishai, e vários outros ministros da extrema-direita. Este grupo visitou os postos avançados das colônias, que há muito o governo israelense prometeu aos norte-americanos desmantelar, e manifestou total oposição à sua evacuação. Concluíram a sua visita em Homesh, a colônia da Cisjordânia evacuado por Ariel Sharon no decurso da “desocupação”. Ya’alon exigiu a recolonização do lugar.

Estes tons compõem uma melodia assustadora, uma melodia que todos conhecemos muito bem. É o hino do fascismo.

Primeiro: o termo “elite”. No jargão da extrema-direita israelense, isso inclui todos aqueles que odeiam: os intelectuais, as universidades, os políticos liberais, o Supremo Tribunal, os meios de comunicação.

O termo tem suas raízes no verbo latino “eligere”, escolher, o que significa o melhor, o seleto. Como este é um corpo indefinido, o termo pode ser aplicado a diferentes alvos. Quando os demagogos se dirigem às massas judaicas orientais, “a elite” claramente consiste nos que governam o país. Quando se dirigirem à comunidade religiosa, “a elite” consiste no secular, no ateu, que são estranhos à Tradição Judaica. Quando se dirigirem aos imigrantes russos, “a elite” consiste nos velhos israelenses já estabelecidos, os nativos, que obstruem o caminho dos novos imigrantes.

Quando alguém junta tudo isto, surge uma imagem de “eles” e “nós”. “Eles” – o punhado de arrogantes veteranos, que ocupam todas as posições-chave no estado, e “nós” – as pessoas simples, honestas, os patriotas, os guardiões da tradição, os discriminados, os oprimidos. Cada grupo fascista no mundo cultiva tal visão da “elite”. (Não importa que Ya’alon, como a maioria dos outros demagogos, pertença ele próprio à elite. Ele nasceu no país, um asquenaze de ascendência ucraniana. O seu nome original era Smilansky. Ainda é oficialmente membro de um kibutz “elitista” e pertence ao super-privilegiado corpo dos oficiais superiores.)

Segundo: Os traidores. Existe um inimigo interno. Este não é menos perigoso do que o inimigo estrangeiro, na verdade, muito mais perigoso. Quando Ya’alon fala sobre a “Paz Agora”, ele abrange todo o campo da paz, a parte liberal e secular da sociedade. Essa é a Quinta Coluna, o cavalo de Tróia dentro dos muros. Eles têm de ser eliminados, antes que se possa lutar contra o inimigo estrangeiro.

Terceiro: Os “políticos”. Os demagogos são, evidentemente, eles próprios políticos, mas aqui excluem-se a si mesmos. Ya’alon pinta um retrato dos “políticos” que trazem uma nojenta pomba da paz, cujos excrementos o exército tem que limpar.

Os políticos velhacos, urdidores, covardes de um lado, o exército límpido, heróico, leal do outro – essa é uma imagem muito familiar. O exemplo mais conhecido era Alemanha corrente após a Primeira Guerra Mundial. A lenda da “facada nas costas” foi um trampolim para o poder para Adolf Hitler: o exército alemão enfrentava o inimigo e tinha a vitória à vista, quando “os políticos”, os judeus, os socialistas e os outros “criminosos de Novembro” enterraram uma faca nas costas dos heróicos combatentes.

A pomba da paz deixa suas fezes e os soldados são obrigados a limpar a sujeira da paz.

E também: “Todos os meios de comunicação”. Essa é uma das marcas do fascismo em Israel e por todo o mundo. Os meios de comunicação são sempre “de esquerda”, “anti-nacionalistas”, são os “meios de comunicação hostis”. Os jornalistas e emissores são uma liga secreta de detratores de Israel, que espalham mentiras e distorcem a realidade a fim de minar o moral nacional, difamar o exército, denegrir os nossos valores nacionais e dar conforto ao inimigo.

A realidade é, evidentemente, muito, muito diferente. Os meios de comunicação israelenses repetem servilmente a propaganda oficial em todas as questões nacionais e de segurança. São conformistas ao mais elevado grau e mobilizados de uma à outra ponta. Não há um único jornal de esquerda no país. A maioria dos correspondentes políticos repete como papagaios as declarações de “fontes oficiais”; quase todos os correspondentes de assuntos árabes são ex-agentes dos serviços de informação do exército; e quase todos os correspondentes militares servem como porta-vozes não-oficiais do exército. Nas páginas de notícias e nos programas de notícias, a terminologia de direita reina suprema. Mas porque em questões menos importantes os meios de comunicação criticam o governo, como têm o dever de fazer numa sociedade democrática, é fácil retratá-los como “de esquerda” e subversivos. O mesmo é verdade para a universidade.

E finalmente: O “vírus”. A descrição dos adversários políticos como agentes infecciosos ou parasitas nojentos é uma das características mais distintivas da extrema-direita. É suficiente lembrar o filme do Dr. Joseph Goebbels, O judeu eterno, no qual os judeus eram mostrados como ratos propagando doença.

Se juntarmos todas estas características – o ódio à “elite”, a glorificação do exército, o desprezo para com “os políticos”, a demonização do campo da paz, o incitamento contra os meios de comunicação – é a feia cara do fascismo que emerge. Aqui em Israel e por todo o mundo.

Não menos importantes são o contexto e a audiência.

Ya’alon falou numa reunião da “Facção Liderança Judaica”. Este é um grupo de ultra-ultra-direitistas, que entraram no Likud com o objetivo declarado de o conquistar a partir de dentro. É dirigido por Moshe Feiglin, por isso os seus seguidores são geralmente chamados “os Feiglins”.

Na véspera das últimas eleições, Binyamin Netanyahu fez um esforço final, utilizando meios legítimos e não tão legítimos, para remover Feiglin da lista de candidatos do Likud. Ele estava determinado em evitar que o Likud fosse apresentado como um partido de extrema-direita. O principal concorrente do Likud, o Kadima, definiu-se como um partido do centro ou da direita moderada e tentou a todo o custo empurrar Netanyahu para a direita. Netanyahu pensou que expulsando os Feiglins poderia neutralizar este ataque.

A questão é se este era o seu único objetivo. Se assim for, por que elevou ele Benny Begin, uma pessoa que personifica a extrema-direita, a um lugar de destaque na lista? E por que inscreveu e abraçou Moshe Ya’alon, que já era conhecido como uma pessoa com uma visão de extrema-direita? Esse abraço custou muito caro, uma vez que no final o Kadima, contra todas as expectativas, ganhou mais um lugar do que o Likud.

Mas Netanyahu, um político nato, tinha mais do que um objetivo em mente. Ele tinha medo que Feiglin pudesse, um dia, ameaçar a manutenção da sua liderança do Likud. Para evitar esta possibilidade, ele negou a Feiglin um assento no Knesset.

E eis que chega Ya’alon, o protegido mimado de Netanyahu, e junta-se precisamente a Feiglin. Como diz o ditado hebraico, a andorinha foi visitar o corvo. Mas não está bem claro quem é a andorinha e quem é o corvo. Está Feiglin a usar Ya’alon - ou é Ya’alon que pretende usar Feiglin, a fim de se posicionar como o líder de um grande campo da extrema-direita?

É preciso também prestar atenção à declaração de Ya’alon de que “eu não tenho medo dos americanos”. Os americanos exigem o congelamento das colônias? Para o inferno com eles! Quem eles pensam que são? Como, esses goyim estão nos dando ordens? Barack Obama quer nos dizer onde podemos estabelecer-nos e onde não podemos?

Essa é outra característica do fascismo israelense emergente: a disponibilidade para encetar um confronto aberto com os Estados Unidos e, especialmente, com o presidente Obama.

Já está em pleno andamento uma campanha israelense contra “Barack Saddam Hussein”, o Novo Hitler. A direita americana e a direita israelense facilmente encontram uma linguagem comum. Uma mulher israelense nos EUA está coordenando o esforço para provar que Obama não nasceu nos EUA, que o seu pai nunca foi um cidadão dos EUA, e que deve, portanto, ser expulso da Casa Branca.

Tudo isto roça a loucura. Israel está dependente dos EUA para praticamente tudo: assistência econômica, armamento, cooperação nos serviços de informação, apoio diplomático, como o de veto no Conselho de Segurança. Netanyahu está tentando evitar um confronto, usando todos os truques para enganar e desviar as atenções. E eis que chega Ya’alon & Cia. e apelam a uma revolta aberta contra os EUA!

Há método nesta loucura. O sistema educacional israelense glorifica os zelotes, que há cerca de 1940 anos atrás declararam guerra ao Império Romano. Os zelotes tornaram-se os líderes da comunidade judaica na Palestina e iniciaram uma revolta que não tinha nenhuma chance de sucesso. Os rebeldes foram derrotados, Jerusalém foi destruída, o Templo foi queimado até às fundações.

O show de horrores de Bogie tem ramificações mais amplas.

Apresenta uma imagem de um grupo de extremistas loucos desafiando o moderado e responsável Netanyahu. Netanyahu acena a Obama e ao seu povo: Socorro! Se me pressionarem sobre o congelamento das colônias e o desmantelamento dos postos avançados, será o meu fim! O meu governo cairá, e terão de lidar com os malucos!

Isto seria mais convincente, se Netanyahu tivesse usado a sua prerrogativa legal e demitido Ya’alon do governo, ainda que isso represente um risco político. Em vez disso, “Bibi” convocou “Bogie”, como um diretor que chama um menino e lhe ordena que escreva uma centena de vezes “Eu vou ser um bom menino”. Assim, Ya’alon permanece vice-primeiro-ministro, Ministro Encarregado dos Assuntos Estratégicos e membro do sexteto de ministros governantes (os outros são Avigdor Lieberman, Benny Begin, Eli Yishai, Dan Meridor e o próprio Binyamin Netanyahu).

Sendo assim, Netanyahu não pode fugir à responsabilidade por tudo o que Ya’alon faça e diga.

2 comentários:

diario da Fafi disse...

Olha, essa reportagem é de assustar, e o depoimento muito corajoso, pois vivemos num mundo em que criticar abertamente os politicos judeus, ou o modode viver e pensr judaicos é ser fatalmante crucificado como anti semita ou pós nazista.

Um abraço.

Barone disse...

Exato... esta é uma estratégia terrível dos sionistas. Criticar o sionismo e o domínio sionista sobre os palestinos não é o mesmo que condenar ou criticar o judaísmo, da mesma forma que condenar e criticar o nazismo não é o mesmo que condenar e criticar os alemães.