Semana On

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Relativizando o relativismo. Ou: no dos outros é refresco

No dia 31 de agosto publiquei no Amálgama o artigo "Atire a primeira pedra quem apóia a burca". O tema, como o título deixa claro, trata de padrões culturais que, sob o manto da diversidade, estabelecem condições de exclusão para determinados setores da sociedade. O artigo gerou comentários interessantes, que mostram o quanto o tema da diversidade cultural precisa ser posto em discussão, assim como a existência ou não de valores morais absolutos.

Minha posição é de que sim, valores morais absolutos existem, e eles devem ser o limite para o relativismo cultural.

Para além das elocubrações filosóficas, o fato é que - cono disse a jornalista e escritora norueguesa Asne Seierstad: "A dor de uma mulher que apanha do marido não é menor só porque a cultura local aprova esse ato… Um tapa dói do mesmo jeito em uma mulher afegã, norueguesa ou brasileira.".

O leitor Leopoldo, que deixou um comentário lá no Amálgama, pergunta: "Devemos ser tolerantes com os intolerantes? Onde está o limite da tolerância? Quem é responsável por dizer qual é esse limite?".

Penso que os responsáveis por estabelecer estes limites somos nós mesmos. A omissão calcada em uma visão de mundo permissiva pode ser uma grande alavanca para comportamentos repressores.

"Em nome da convivência multicultural, do respeito às tradições de outrem, intelectuais do Ocidente hesitam em colocar em evidência a situação subjugada da mulher dentro do Islã. Eles têm receio de ofender, de suscitar cólera, e assim ajudam a perpetuar o sofrimento e a injustiça. Ora, aqui não cabem relativismos. Abuso e mutilação sexual são crimes, e ponto final", diz a ex-parlamentar holandesa de origem somali Ayaan Hirsi Ali. Ela conhe bem o tema. Aos cinco anos de idade teve o clitóris extirpado a tesoura em um ritual afro-muçulmano e vive sob ameaça de morte por parte de fundamentalistas.

Também comentando no Amálgama, Nina Hentzy diz que as relações de poder devem ser consideradas na análise do relativismo cultural: "Para quem tem o poder, é muito cômodo deixar as coisas como estão e combater violentamente quem discorda de suas ações e pensamentos.", afirma.

Eu concordo e citando o artigo, repito aqui:

"O fato é que, tomando o conceito do relativismo cultural podemos criar fórmulas que justifiquem todos os tipos de atrocidades. O infanticídio na Roma antiga, o escravagismo, o nazismo, a discriminação racial, o apartheid, o preconceito contra a homossexualidade. Todas estas manifestações contaram, em algum lugar no tempo e no espaço (e ainda hoje em alguns lugares), com apoio de “maiorias”. Ainda assim, foram combatidas, reformadas, colocadas em seu devido lugar no rol das falhas de caráter, de formação e de direcionamento político (algumas engatinham, neste objetivo).

Deveriam os que lutaram pelos direitos civis nos Estados Unidos terem aceitado passivamente sua condição de inferioridade visto que, para grande parte da população estadunidense da época, a segregação era algo moralmente correto? Deveriam os negros sul-africanos aceitar sua condição sob o apartheid? Devem os homossexuais residentes nos países que lhes imputam a pena de morte aceitar passivamente este “descalabro cultural”? Devem os que olham estas manifestações sob a ótica de outra cultura simplesmente validá-las como moralmente corretas?"

É como disse o Taiguara: "O respeito ao que nos é estranho é essencial mas ele é estúpido se tolera cerceamentos de direitos. Não há relativismo cultural que me conveça a aceitar subserviência, inferiorização, opressão."

6 comentários:

james penido disse...

Caro Brone,concordo com tudo,tudo mesmo que você escreveu.Abaixo essa frsa do relativismo cultural.Abração.

Daniel disse...

Barone,

Eu acredito no *bom* Relativismo, que é aquele que reconhece que toda e qualquer Moral e Ética são criadas pelos humanos. Elas não podem ser absolutas porque não há parâmetros externos de comparação; e daí se conclui que não há Moral e Ética mais certas do que outras.

O *mau* Relativismo é aquele que depois disso fica inerte e se recusa a levantar um dedo para criticar o jeito como outros povos conduzem seus assuntos. Porque se é verdade que não existem Moral e Ética absolutas, também é verdade que nós podemos, enquanto espécie, sentar e discutir o que nos agrada e o que nos repele para tentar chegar a um mínimo denominador comum.

Como você bem citou Asne Seierstad, um tapa dói igual no rosto de qualquer um.

Adriana Godoy disse...

Barone, fico com o Taigura, ele resume bem o que penso a respeito. Mais um texto seu que se prima pela qualidade. beijo.

Capssa disse...

Victor concordo em quase tudo à respeito de teu texto.Gostaria, apenas,de fazer uma análise reflexiva sobre o que Ayaan Hirsi Ali disse: tenho em minhas mãos seu livro intitulado "Infiel" em que na essencia, procura culpar o islamismo pela ablação de seu clitóris, existe um outro livro em que também uma africana, culpa o islamismo pelo estupro que sofreu ao defender o irmão (inocente).
Na verdade, tanto a ablação como o estupro sofridos por estas mulheres se deveu exclusivamente à costumes tribalistas do que propriamente ao islamismo.
Desafio quem quer que seja a achar e comprovar-me no alcorão alguma sura que preconize a ablação e o estupro, ao contrário a ablação não é nem prevista e o estupro é condenado.
OBS: Ver a tradução mais fidedigna do"Nobre Alcorão" realizada pelo Dr.Helmi Nasr que levou + de 10 anos para traduzi-lo para o portugues.
Atenciosamente
Capssa
Abraço

Luiz Felipe Vasques disse...

Quer queira, quer não, "tradição" não depende literalmente do escrito da religião - sempre há séculos de interpretação no meio.

Às vezes é um comportamento que se escora na religião para manter o status quo, comportamento este às vezes até anterior ao surgimento de uma religião.

O tratamento como objeto secundário da mulher vai longe, na história da Humanidade.

Barone disse...

Um debate muito bom sobre o realtivismo cultural está sendo travado no excelente Para ler sem olhar, em um ótimo artigo do Diego Viana. Veja o artigo.