Semana On

quarta-feira, 25 de março de 2009

Crianças palestinas cantam para sobreviventes do Holocausto


Publicado originalmente hoje no jornal israelense Haaretz (Tradução: Victor Barone)

Os jovens palestinos de um campo de refugiados da Cisjordânia empertigam-se diante da platéia formada por sobreviventes do Holocausto, parecendo desafiadores, como quaisquer adolescentes. Então, começam a cantar.

O coro afina canções de paz, trazendo sorrisos surpresos ao público. O evento tem outra surpresa, no entanto: a maioria dos sobreviventes do Holocausto presentes não sabem que os jovens a que assistem são palestinos da Cisjordânia, uma visão rara em Israel nestes dias. Os jovens, por sua vez, não têm idéia de que se apresentam para pessoas que passaram pelo genocídio nazista – ou mesmo do que se trata o Holocausto.

“Sinto simpatia por eles”, diz Ali Zeid, um tecladista de 18 anos, que diz estar chocado pelo que ouviu sobre o Holocausto. “Somente pessoas que passam por sofrimento entendem o sofrimento de outras pessoas”, diz Zeid, cujos avós eram refugiados palestinos forçados a abandonar a cidade de Haifa durante a guerra que 1948.

Os 13 músicos, com idade entre 11 e 18 anos, fazem parte do grupo Strings of Freedom, uma modesta orquestra formada por jovens do campo de refugiados de Jenin, no noroeste da Cisjordânia, cenário de sangrentos confrontos em 2002.

O evento foi organizado pelo Holocaust Survivors Center, como parte do Good Deeds Day, e ressaltou a distância entre palestinos e israelenses.

Muitos dos jovens palestinos nunca haviam visto um civil israelense – apenas soldados armados, em uniformes militares, guarnecendo os pontos de checagem, conduzindo grupos de busca a palestinos procurados ou durante operações do exército israelense.

"Eles não se parecem conosco", disse Ahed Salameh, 12, que vestia um cachecol preto com fios prateados.

Muitos dos idosos israelenses vestiam calças e camisetas, as mulheres, usando batom, vestiam roupas esporte.

"Pessoas velhas são diferentes de onde nós viemos", diz Salameh.

Ela se disse chocada ao ouvir sobre o genocídio nazista contra os judeus. Ignorância, ou mesmo negação sobre o Holocausto é comum na sociedade palestina.

Amnon Beeri, do Abraham Fund, que apóia a coexistência entre judeus e árabes, disse que a maioria dos residentes da região não sabe nada uns dos outros.

O maestro Wafa Younis, 50, tentou explicar aos jovens quem eram aqueles idosos, mas o caos no ônibus impediu que o escutassem.

O público disse pensar que as crianças árabes fossem procedentes de uma vila vizinha – não de um campo de refugiados onde 23 soldados israelenses foram mortos ao lado de 53 militantes e civis palestinos, durante os dias do confronto de abril de 2002.

Cerca de 30 idosos reuniram-se no salão no qual os meninos e meninas chegaram 30 minutos depois, atrasados por uma parada em um posto de checagem do exército de Israel fora da cidade, conforme eles mesmos explicaram.

Algumas das jovens vestiam véus muçulmanos – mas também óculos de sol e roupas escolares.

Quando o apresentador anunciou em hebreu que os jovens eram provenientes do campo de refugiados de Jenin, houve murmúrios e engasgos na platéia. "Jenin?", uma mulher perguntou de boca aberta devido a surpresa.

Younis, da vila árabe de Ara, em Israel, explicou em hebreu fluente que os jovens iriam cantar pela paz e de pronto o público explodiu em aplausos.

"Inshallah," disse Sarah Glickman, 68, usando o termo árabe para boa vontade.

O encontro teve início com uma canção árabe, "Nós cantamos pela paz”, seguida por duas peças de violinos e tambores árabes, bem como uma música improvisada em Hebraico por duas pessoas na platéia.

Glickman, cuja família mudou-se para o recém criado estado judeu em 1949, após fugir para a Sibéria para escapar dos nazistas, disse não ter ilusões de que o encontro pudesse fazer as crianças entenderem o Holocausto, mas disse que o fato poderia fazer uma pequena diferença.

"Eles pensam que somos estrangeiros porque viemos de longe", disse Glickman. "Eu concordo: é a terá deles também. Mas não havia outra opção para nós após o Holocausto.”

Mais tarde ela batia o pé no ritmo enquanto os adolescentes faziam soar um cativante tambor árabe. Após o evento, alguns dos israelenses idosos conversaram com os estudantes e registraram o momento em fotografias.

O encontro não foi totalmente isento de política. Younis dedicou uma canção a um soldado israelense prisioneiro de militantes palestinos na Faixa de Gaza – e também criticou a ocupação israelense na Cisjordânia.

Mas, disse que o principal objetivo a orquestra, formada há sete anos para ajudar crianças palestinas a se recuperarem dos traumas da guerra, é a de reunir as pessoas.

“Estou aqui para levantar espíritos", disse Younis. “Estes são pobres idosos".

1 comentário:

Flávia Muniz disse...

Que história.
Lembrou aquele documentário:
"Promessas de um Novo Mundo"


bj