Semana On

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Lições do passado

Assisti na noite de ontem – pena enésima vez – ao filme Good night, and good luck (Boa noite e boa sorte). Como das outras vezes, me surpreendi chorando no final, durante a dramatização do discurso proferido pelo jornalista Edward R. Murrow na Radio and Television News Directors Association (Associação dos Diretores de Rádio e Telejornalismo), em Chicago, na noite de 15 de outubro de 1958.

O discurso (veja aqui em inglês e aqui em português), que ficou conhecido posteriormente como "Cabos e Luzes em uma Caixa", completou 50 anos, mas continua atual. Nele, Murrow expressava receio de que o rádio e a TV fossem usados de maneira danosa à sociedade e à cultura. Sua análise sobre a TV parece premonitória ao projetar os caminhos trilhados pela mídia eletrônica hoje.

Ao focar a briga comprada por Murrow em seu programa See It Now (da CBS), quando questionou os métodos do Senador Joseph Maccarthy - que em 1953 promovia uma campanha de perseguição e difamação contra supostos esquerdistas e comunistas - Good night, and good luck faz uma crítica incisiva e atual do Jornalismo.

São muitos os momentos memoráveis do filme dos quais podemos tirar lições para a profissão e, também, a partir dos quais poderíamos discuti-la. É especialmente interessante perceber que Murrow e sua equipe estavam dispostos a arriscar em prol de reportagens que pudessem somar na (como ele mesmo frisou em 1958) “decisiva batalha a ser travada contra a ignorância, a intolerância e a indiferença”.

Ao bancar uma reportagem deste porte (sempre mal recebida pela direção da CBS e pelos patrocinadores que queriam apenas entreter a audiência), sabiam que teriam que compensar a ousadia com dez outras “babas” comerciais - além de estarem arriscando seus empregos.

É exatamente esta posição que, creio, deve ser adotada na atualidade pelos jornalistas conscientes, aprisionados nas redações pautadas pelo poder econômico. O grande objetivo do jornalista, hoje, é driblar o patrão e emplacar uma boa reportagem em meio aos interesses que regem o noticiário. Quem não faz isso está, na verdade, fazendo assessoria de imprensa para o patrão e para o anunciante.

É fascinante perceber como algumas idéias permanecem vigorosas mesmo após muitos anos e como outras, apesar de novas, remetem ao obscurantismo. Good night, and good luck nos mostra isso se o assistirmos com olhos atentos e dispostos a pensar – especialmente nós, jornalistas brasileiros.

Não me estendo mais, recomendo o filme, não só a quem tem interesse em Jornalismo, mas também para os que têm interesse por questões como ética e coragem.

Para finalizar, trechos do discurso de Murrow – proferido, friso, há 50 anos - que considero mais importantes sob o ponto de vista do Jornalismo que fazemos hoje.

“Nossa história será o que fizermos dela. Se houver historiadores daqui a cinqüenta ou cem anos e tiverem sido preservados filmes de uma semana de nossas três redes, eles irão encontrar gravadas em preto e branco, ou cor, provas da decadência, escapismo e alienação das realidades do mundo em que vivemos.”

“Eu chamo sua atenção para a grade de programação de todas as emissoras no horário de 8 a 11 da noite, na Costa Leste. Vocês encontrarão apenas referências passageiras e espasmódicas ao fato de que esta nação está em perigo mortal. Há, é verdade, programas informativos ocasionais apresentados no gueto intelectual das tardes de domingo. Mas durante os períodos de pico diários, a televisão nos isola das realidades do mundo em que vivemos.”

“Se Hollywood ficasse sem índios, a programação ficaria completamente desorganizada. Então alguma alma corajosa com um orçamento modesto poderia ser capaz de fazer um documentário contando o que, de fato, nós fizemos – e continuamos a fazer – com os índios neste país. Mas isso seria desagradável. E nós temos que, a todo custo, proteger os sensíveis cidadãos de qualquer coisa que seja desagradável.”

“Até onde diz respeito ao rádio – o mais satisfatório e gratificante veículo –, o diagnóstico para suas dificuldades é algo simples. E obviamente eu me refiro apenas a notícias e informações. Para progredir, é preciso somente voltar atrás. Ao tempo em que comerciais cantantes não eram permitidos em boletins de notícias, quando não havia comercial em um segmento de 15 minutos de notícias, quando o rádio era algo imponente, alerta e ligeiro. Eu recentemente perguntei a um funcionário de emissora: "Por que estes apressados boletins de notícias de cinco minutos (incluindo três comerciais) nos fins de semana?" Ele respondeu: "Porque isso parece ser a única coisa que podemos vender".”

“Se as notícias de rádio são consideradas bens de consumo, apenas aceitas quando vendáveis, então eu não me importo como as chamam – mas digo que não são notícias.”

“Um dos problemas básicos do rádio e da televisão é que ambos os veículos cresceram como uma combinação incompatível de show business, publicidade e jornalismo.”

“Com poucas exceções notáveis, a mais alta administração das emissoras é treinada em publicidade, pesquisa, vendas e show business. Pela natureza da estrutura corporativa, ela também toma as decisões finais e cruciais sobre as notícias. Mas, com freqüência, ela não tem o tempo ou a competência para fazê-lo.”

“Às vezes há um conflito entre o interesse público e o interesse corporativo. Uma chamada telefônica ou uma carta de região particular de Washington é tratada mais seriamente do que uma manifestação de um telespectador irado, mas politicamente impotente.”

“Qual é, então, a resposta? Continuamos em nossos confortáveis ninhos, concluindo que a obrigação destes veículos é quitada quando eles cumprem a função de informar o público por um tempo mínimo? Ou acreditamos que a preservação da República é um trabalho de sete dias por semana, que requer mais atenção, melhores habilidades e mais perseverança do que jamais esperamos?”

“Eu fico assustado com o desequilíbrio, com a constante luta para atingir a maior audiência possível a qualquer preço; pela falta de um estudo contínuo do estado da nação. Heywood Broun disse certa vez: "Nenhum organismo político é saudável até que comece a coçar". Eu gostaria que a televisão produzisse algumas pílulas de coceira no lugar desta efusão sem fim de tranqüilizantes. Isso pode ser feito. Talvez não seja, mas pode.”

“O patrocinador de um programa de televisão de uma hora não compra meramente os seis minutos devotados à mensagem comercial. Ele está determinando, dentro de limites amplos, a soma total do impacto da hora inteira. Se ele sempre, invariavelmente, tenta alcançar a maior audiência possível, então este processo de alienação, de fuga da realidade, continuará a ser pesadamente financiado, e seu apologista continuará a fazer discursos cativantes sobre dar ao público o que ele quer, ou "deixar o público decidir". Eu me recuso a acreditar que os presidentes e chefes dos conselhos destas grandes corporações queiram que sua imagem corporativa consista exclusivamente em uma voz solene em uma câmara ecoante, ou em uma menina bonita abrindo a porta da geladeira, ou em um cavalo que fala.”

“Por que cada uma das 20 ou 30 grandes corporações que dominam o rádio e a televisão não decide abrir mão de um ou dois de seus programas regulares anualmente, entregar o tempo para as emissoras e dizer verdadeiramente: "Isso é um pequeno dízimo, apenas um pouquinho de nosso lucro. Nesta noite específica não iremos tentar vender cigarros ou automóveis; isso é meramente um gesto para indicar nossa crença na importância das idéias". As redes deveriam, e eu acho que poderiam, pagar pelo custo de produção do programa. O anunciante, o patrocinador, teria seu nome creditado mas não teria nada a ver com o conteúdo do programa. Isso mancharia a imagem corporativa? Teriam os acionistas objeções? Eu acho que não.”

“Apenas de vez em quando deixem-nos exaltar a importância das idéias e informações. Deixem-nos sonhar ao ponto de dizer que em uma determinada noite de domingo o horário normalmente ocupado por Ed Sullivan seja entregue a uma pesquisa sobre o estado da educação americana, e uma semana ou duas depois o horário normalmente usado por Steve Allen seja dedicado a um estudo aprofundado sobre a política americana no Oriente Médio. Seria a imagem corporativa dos seus respectivos patrocinadores danificada? Reclamariam em sua ira os acionistas? Aconteceria algo além do que alguns milhões de pessoas sendo esclarecidas em temas que podem determinar o futuro desta nação, e conseqüentemente o futuro das corporações? Este método também criaria uma competição real entre as emissoras, que tentariam sobrepujar as outras com uma agradável apresentação das informações. Também forneceria uma saída para os jovens hábeis, e alguns até dedicados, interessados em fazer algo mais do que criar métodos de alienar enquanto vendem.”

“Atualmente, somos abastados, gordos, confortáveis e complacentes. Desenvolvemos uma alergia a informações desagradáveis ou perturbadoras. Nossos meios de comunicação de massa refletem isso. Mas, ao menos que levantemos nossos excessos de gordura e reconheçamos que a televisão, em grande parte, é usada para distrair, iludir, divertir e alienar, ela e aqueles que a financiam, aqueles que a assistem e aqueles que trabalham nela verão uma imagem completamente diferente apenas quando for tarde demais.”
“Eu não defendo que devamos transformar a televisão em um muro de lamentações de 27 polegadas, onde intelectuais constantemente se queixam sobre o estado de nossa cultura e nossa defesa. Eu gostaria apenas de vê-la refletindo ocasionalmente as duras e inflexíveis realidades do mundo em que vivemos.”

“Para aqueles que dizem que as pessoas não assistiriam, não se interessariam, pois são muito complacentes, indiferentes e alienadas, posso apenas responder: há, na opinião deste repórter, consideráveis provas contrárias a esta argumentação. Mesmo que estejam certos, o que têm a perder? Porque se estiverem certos, e este instrumento for bom apenas para entreter, divertir e alienar, então a televisão já está vacilante e nós veremos em breve que toda esta luta estará perdida. Este veículo pode ensinar, iluminar; sim, pode até inspirar. Mas só pode fazê-lo se os seres humanos estiverem determinados a usá-lo para estes fins. De outro modo, são meramente cabos e luzes em uma caixa. Há uma grande e talvez decisiva batalha a ser travada contra a ignorância, a intolerância e a indiferença. Esta arma, a televisão, poderia ser útil.”

5 comentários:

Maria-sem-vergonha disse...

Esse filme é maravilhoso...também chorei...

Alice Salles disse...

Ah Victor, esse filme nao e so atual como mostra o quanto nao mudamos nada, pelo contrario, deixamos mais e mais dessa manipulacao tomar conta da midia....
Eu tambem choro, como um bebe, toda vez que assisto e me pego perdendo as esperancas...

Adriana disse...

Quando assisti a esse filme, me lembro de que me impressionou bastante a forma sensível e honesta como é abordada essa questão sobre o papel da imprensa, sua influência , suas limitações e o avesso de todo esse processo. Seu texto está exímio e a reprodução do discurso de Murray nos deixa inquietos e reflexivos.
Parabéns.

Maurício Tuffani disse...

Oi Victor, foi transmissão de pensamento. Eu disse pra mim mesmo que precisava escrevr algo a respeito. Hoje, almoçando com dois amigos, pus o filme na conversa. Parabéns pelo post. Abraço.

Barone disse...

É, é realmente emocionante. Obrigado pela participação de vocês.