Semana On

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Entrevista: professor Pasquale e o Jornalismo

O professor Pasquale Cipro Neto esteve ontem (19) em Campo Grande proferindo palestra sobre as novas regras na Gramática da Língua Portuguesa. De forma geral, foi crítico quanto às mudanças que visam unificar o registro do idioma nos oito países que o utilizam: Brasil, Moçambique, Cabo Verde, Angola, Guine-Bissau, Portugal, Timor Leste e São Tome e Príncipe.

Pasquale Neto tem um forte envolvimento com o Jornalismo. É consultor de língua portuguesa do Departamento de Jornalismo da Rede Globo, em São Paulo, desde 1996, e colunista dos jornais Folha de S. Paulo e Diário do Grande ABC, entre outros. Também assinou o anexo gramatical do Manual de Redação da Folha, onde trabalha há dezoito anos no Programa de Qualidade e na Editoria de Treinamento.

Após a palestra – realizada na Câmara Municipal – tive a oportunidade de conversar rapidamente com ele sobre a qualidade do uso da língua portuguesa no Jornalismo tupiniquim. Veja a seguir.

O senhor tem um envolvimento forte com o jornalismo, convive com profissionais da área diariamente. Diante disso, como os jornalistas estão tratando a língua portuguesa?
Com altos e baixos. A coisa depende muito do veículo e, dentro dos próprios veículos, também existem altos e baixos. O jornalista tem uma particularidade que não pode ser desprezada nesta análise, que é o tempo. O jornal é feito de agora para daqui a pouco e isso complica muito a vida do jornalista, que precisa redigir depressa, sob pressão, e isso condiciona, tem que ser levado em conta. De modo geral, diria que há altos e baixos, existem textos bons e textos ruins, muito pobres e textos bem feitos, redondos.

Mas, de forma geral, focando o uso da língua portuguesa pelos que começam agora na profissão, que análise pode ser feita?
A coisa está mais para baixo do que para cima. Existe uma pobreza muito grande, não só de expressividade como também de conhecimento. O pessoal não lê. Jornalista que não lê é como médico que não põe a mão no paciente, como dentista que tem medo do barulho da broca.

Há um debate posto sobre a necessidade de alterar o currículo do ensino do Jornalismo no Brasil. O senhor considera que um foco mais pesado sobre a leitura, sobre a literatura, poderia melhorar a qualidade do texto jornalístico no país?
Poderia ajudar sim. A leitura dos clássicos, mas não só da literatura, pois o jornalista pode e deve ler outras coisas, deve ser informado sobre tudo. Tudo isso ajuda. Só que a gente vê hoje um mundo de faz de conta. Ta bom, vai... Vamos exigir a leitura, aí o sujeito vem com um resumo que ele pegou da internet. É preciso que haja uma cobrança efetiva disso e não um faz de conta. Se não houver uma cobrança efetiva, uma avaliação, fica tudo naquele esquema: eu finjo que faço, você finge que acredita e pronto.

Dentro destas modificações que vão ocorrer na língua portuguesa a partir do ano que vem, qual influirá mais no dia a dia do jornalista?
O uso do hífen talvez. Mas acho que isso é o de menos. Estas mudanças não vão influir em nada com a estrutura do texto, com a clareza dele, ou seja, não vai mudar nada. Quem sabe escrever continuará escrevendo bem.

Hoje, há profissionais que se fiam muito no corretor ortográfico do Word. O que o senhor pensa disso?
Desliguem o corretor. Com as mudanças que serão implementadas ele se tornará pouco confiável.

Em sua palestra o senhor disse que seu aprendizado da língua portuguesa, seu aprendizado profissional, se deu de forma mais concreta no dia a dia, na prática e não na universidade. O senhor acha que esta afirmação se aplica ao Jornalismo?
Acho. Do jeito que a coisa está, acho. Poderia não ser assim, mas do jeito que a coisa está, é assim que funciona. Vejo isso na minha prática diária.

6 comentários:

Lucas disse...

Uma coisa que seria interessante saber é se esses problemas são só dos jornalistas ou se é uma coisa geral, que afeta também os jornalistas.

Por exemplo, os recém-formados de jornalismo estão do mesmo jeito, pior ou igual ao de outros cursos das Sociais Aplicadas?

E qual é a diferença entre os Estados, cidades e instituições? Pouca? Ou faz muita diferença?

Ah, acho que o problema é que eu queria ter ido lá, mas só fiquei sabendo depois dele ter dado a palestra. Queria saber o que ela acha do miguchês, ele falou?

Cristiane disse...

Ótima entrevista, parabéns.
Assunto pertinente que permeia e muito minha área de trabalho.
Fico contente por ler em seu blog tal entrevista.

Luiz Roberto Lins Almeida disse...

por que eu não fico sabendo dessas coisas?

Adriana disse...

Barone, o Pasquale não deixa de ser uma referência forte no que diz respeito à nossa língua. Boa entrevista. Abraço.

Barone disse...

Lucas é verdade. Uma análise mais aprofundada seria muito interessante. De qualquer forma, no que se refere às profissões, o jornalista usa o idioma como ferramenta de trabalho. Acho, então, que quando problemas surgem, ficam mais visíveis entre nós do que entre outros profissionais. Sobre o miguchês, ele disse que não é uma preocupação. Que é algo que se limita a Internet.

Cris, o plenário estava lotado de estudantes de Letras. Adriana, o Pasquale é mesmo uma referência. No Jornalismo também, pois atua em vários veículos de comunicação dando consultoria e vende de perto como os profissionais da área estão tratando o idioma.

Luiz, também sou super desligado. Fiquei sabendo pois o evento ocorreu em meu ambiente de trabalho.

Alice Salles disse...

Mas foi uma idéia pouco feliz de fazer todos esses países bem diferentes entre si terem o MESMO português e as mesmas regras. Isso é caso de estupro cultural! Ótima entrevista, Victor, parabéns!