Semana On

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Corporativismo de branco

Um fato corriqueiro, que ocorre todos os dias Brasil afora, ganhou contornos inusitados na madrugada desta segunda-feira, em Dourados (MS). O médico José Pedro de Souza Schwab, 49, foi preso por omissão de socorro ao idoso Esperidião Ovando, 73. O paciente, proveniente do município de Tacuru, havia sido diagnosticado com um quadro de acidente cerebral hemorrágico e daria entrada no Hospital de Urgência e Trauma de Dourados após ter tido sua vaga solicitada na Central de Internação da Secretaria Estadual de Saúde.

O médico Wesley Giovany Pereira, que acompanhava o idoso, disse ter sido insultado por José Pedro, responsável pela chefia do Hospital, que avaliou que o paciente apresentava um quadro estável e não precisava ser internado. Revoltado, Pereira acionou a Polícia Militar que encaminhou o exaltado José Pedro para o 1° DP, onde prestou depoimento e foi liberado no início da madrugada de hoje.

O caso gerou desconforto generalizado em um Estado governado por um médico, cuja capital é administrada por um médico e que tem médicos espalhados por muitos pontos chave da administração pública. O secretário municipal de Saúde de Dourados, João Paulo Esteves (odontologista), o deputado federal Geraldo Resende (médico) e vários outros colegas de trabalho de José Pedro foram à delegacia protestar contra o ocorrido. Para completar, a Associação Médica de Dourados ameaçou interromper o atendimento no Hospital de Urgência e Trauma em protesto contra a ação da polícia.

Que belo exemplo. Mesmo que a ação da polícia tivesse sido equivocada quem pagaria por isso seria a população...

Este caso é um exemplo claro da sensação de impunidade que graça entre uma generosa fatia dos profissionais da medicina no Brasil. No País do corporativismo, olha-se o próprio interesse ao invés dos interesses públicos e entre a classe médica esta prática supera todos os níveis aceitáveis. O corporativismo médico no Brasil é um dos mais retrógrados e anti-sociais. Os médicos brasileiros jamais se dispuseram a discutir abertamente os descaminhos para os quais muitos colegas empurraram a profissão. Parceiros de Deus, arrogantes, sua infalibilidade não pode ser posta em questão.

Em 1976 o jornal O Pasquim já denunciava o que batizou à época como a Máfia de Branco no Brasil. De lá para cá pouco mudou. Médicos continuam protegendo médicos ainda que, para isso, prejudiquem a população.

Criaram uma fantasia segundo a qual os médicos são seres sacrificados, que trabalham como camelos mal remunerados em prol da população. Seria interessante checar os plantões nos postos de saúde, onde estes profissionais organizam escalas ilegais, ou a “sala da morte” da Santa Casa de Campo Grande, onde pacientes que deveriam estar em UTI´s são abandonados para morrer em silêncio.

Infelizmente a máscara da hipocrisia cabe bem na face de boa parte destes semi-deuses de branco.

Fica aqui a proposta do norte-americano Michael Moore ao presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, que muito bem se adaptaria ao Brasil: “Quem tente lucrar com a assistência de saúde será detido pelas forças da ordem. Ir ao médico quando alguém está doente deveria ser um dos direitos humanos. É a nossa vida que está em jogo, da mesma forma que se nossa casa tivesse sido incendiada ou se fossemos vitimas de um delito. Da mesma forma que a proteção oferecida a qualquer cidadão pelos bombeiros e pela policia é completamente grátis e universal, a assistência de saúde deveria ser proporcionada GRATUITAMENTE PARA TODO MUNDO.” “...não será permitido que uma empresa obtenha lucros às custas da doença alheia”.

6 comentários:

Capssa disse...

Amigo Vitor
Muito interessante teu apaixonado artigo, no entanto gostaria de fazer algumas considerações:
O simples fato do médico Wesley ser o protagonista da denúncia contra seu colega José Pedro é um forte indício de que nem todos médicos são “farinha do mesmo saco”.
Médicos erram no Brasil e fora dele (nos EUA o maior índice de processos, depois do divórcio,é de erros médicos) e devem ser denunciados e punidos sim.
A própria classe médica prevê em seu Código de Ética Médica, capítulo III art 29 que é vedado ao médico praticar atos profissionais danosos ao paciente, que possam ser caracterizados como imperícia, imprudência, ou negligência, tendo como pena a cassação do exercício profissional (fato que não é incomum). Isto que dizer que em caso de negligência, diga-se omissão, o médico pode ser punido não só na justiça comum, mas também pelos próprios médicos, através de seus CRMs ( Conselhos Regional de Medicina) e CFM( Conselho Federal de Medicina). Fato curioso é que muitas vezes, o médico é punido através de seus Conselhos e inocentado na justiça comum. Desconheço qualquer outra atividade profissional que tenha tamanha severidade.
Existem maus médicos (não podemos generalizar) e bons médicos.
Médicos erram, advogados erram, engenheiros erram e jornalistas, inclusive, também erram.
Quanto á proposta de Michael Moore, a saúde deveria ser gratuitamente para todo mundo, concordo plenamente, no entanto sua aplicabilidade no Brasil, no atual momento, é totalmente impraticável.
Na Inglaterra mais de 90% da saúde é financiada pelo estado com recursos de impostos do contribuinte, 14% do PIB é aplicado em saúde pública, o salário de um médico é em torno de 13500 dólares mensais.
O Brasil investe 3,17% do PIB em saúde pública, o salário de um médico é em torno de 625 dólares mensais.
O Brasil ainda está longe, infelizmente, de ser um país modelo em termos de saúde.
Abraço

Barone disse...

Grande Caxo, bom te ver aqui.

Faço uma afirmação inicial para dirrimir dúvidas ou mal entendidos. Em nenhum momento disse que todos os médicos são corporativistas. Disse, isso sim, que uma boa parcela destes profissionais agem desta forma e contam com a impunidade, fruto do corporativismo.

Há bons e maus profissionais em todas as áreas. Na minha, em especial, os honrados e éticos não são maioria.

Faço alguns comentários às suas argumentações.

Você diz que a cassação do exercício profissional de médicos não é incomum. Confesso que não sou um profundo conhecedor das estatísticas que embasam esta afirmação ou a refutam. Mas cito o recente levantamento feito pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), segundo o qual o número de denúncias contra médicos saltou de 1.874 em 1998, para 4.498 em 2007. A média diária de denúncias passou de 5,1 para 12,3 em dez anos.

Sinal de que os Conselhos de Medicina estão cumprindo sua função? Não sei. Gostaria de ter acesso aos resultados destas investigações. Mas, diante do que chega a imprensa e do senso comum de quem convive com profissionais da saúde as condenações não são o forte dos CRM´s. Estas costumam acontecer em casos muito escabrosos, ou nos que chegam ao conhecimento da população através da mídia. O resto varre-se para debaixo dos carpetes, arrisco dizer.

Medicina (como Jornalismo), em minha opinião, é sacerdócio. Não se deve fazer para ganhar dinheiro ou acumular poder, mas para servir.

Sobre a comparação entre o sistema de saúde pública do Brasil e de outros países, tenho lido que o SUS é referência no que se refere a sua estrutura, mesmo diante de todas as dificuldades. Desconheço o sistema inglês, mas conheço o estadunidense, onde não há saúde pública e mais da metade da população fica à míngua diante de planos de saúde de péssima qualidade ou sem nenhum.

O salário dos médicos é outra questão interessante. Você diz que é de 625 dólares mensais. É pouco, assim como é pouco o salário recebido por todos os brasileiros, independente de sua profissão. Ocorre que no Brasil os médicos gozam de algumas vantagens. Conheço alguns que trabalham em 5 ou 6 lugares diferentes. Como isso é possível? Eu, por exemplo, consigo trabalhar, no máximo, em dois empregos de 6 a 8h de expediente cada. Será que os médicos (de forma geral) cosneguem fazer isso mediante os esquemas de plantão no qual o profissional que deveria estar trabalhando está, de fato, em casa ou em outro emprego?

O exemplo do que ocorre nos postos de saúde de Campo Grande exemplifica bem a questão. Simplesmente, médicos que deveriam estar ali, de plantão, não são encontrados pela população em todos os dias que constam de sua escala. Onde eles estão? Recentemente o Fórum dos Usuários de Saúde tentou emplacar controles mais rígidos sobre a presença de médicos nos postos. Foi barrada pelo corporativismo de branco (fortíssimo por aqui). Tentaram estabelecer que em todos os postos fosse afixada uma placa com os nomes dos profissionais de medicina ali lotados, seus horários de trabalho e telefones de contato. A proposta não saiu dos gabinetes...

Será que a proposta de Moore não é aplicável? Não há dinheiro? Não há profissionais? Acho que o que não há é vontade política, como ocorre em diversas outras questões do País. Mas, em especial, o que não há mesmo é mobilização popular para melhorar o que quer que seja.

Vivemos no País do corporativismo. E ele não é só profissional. Se reflete, de forma ainda pior, nos imensos segmentos populacionais que se agarram a migalhas diariamente e, sem querer abrir mão delas, deixam o bolo sobre a mesa dos poderosos.

Para finalizar repito o que disse no início: há bons e maus profissionais em todas as áreas. Ocorre que quando se fala em saúde e doença, em vida e morte, as coisas tomam proporções mais urgentes.

Cacho, volte e vamos debater esta e outras questões.

Grande abraço.

Capssa disse...

Amigo Vitor
Bem sabes o valor que a mídia tem de influenciar a opinião pública, frases ou palavras como: “generosa fatia”, “boa parcela” e “parceiros de Deus, arrogantes, sua infalibilidade não pode ser pode ser posta em questão” são artifícios de linguagem que podem, mesmo sem intenção, determinar a postura do leitor comum, concluindo pela generalização da idéia.
Confesso que não saberia especificar em números estatísticos o percentual de médicos punidos pelos CRMs e CFM em relação ao numero de denúncias que citas, no entanto por mais ínfimo que seja o número de punições, ainda assim são punidos. Volto a afirmar que desconheço algum órgão de classe que imponha algum tipo de punição semelhante. Te pergunto, conheces algum engenheiro, advogado ou jornalista que tenha sido punido por seu órgão de classe? Não sei...
Quanto ao SUS ser referência em termos de estrutura, penso é só referência, na realidade temos diferenças discrepantes em relação a outros países. Para ti ter uma idéia, o Brasil destina 600 dólares/hab/ano para gastos em saúde; países como, Suécia, Noruega, Dinamarca, Alemanha, Finlândia, Islândia, Inglaterra e EUA destinam 3000 dólares/hab/ano. Deves pensar que só citei países do 1º mundo. A Costa Rica com um PIB de 17 bilhões de dólares contra o PIB brasileiro de 540 bilhões de dólares, investe muito mais que o Brasil em saúde pública, sem falar em Cuba que é do teu conhecimento.
O orçamento da União para a saúde em 2007 foi de 48 bilhões de reais, 5 bilhões e 700 milhões de reais à menos em que 2006. Sabemos, eu e tu, que Adib Jatene ministro da saúde no governo Fernando Henrique criou a CPMF com objetivo de criar recursos para a saúde, que efetivamente, sabe-se que estes recursos foram desviados paras outros fins. Adib Jatene ciente disso exonerou-se. Em 2007 foi extinta a CPMF que, se fosse empregada para a saúde, efetivamente, daria uma receita de 40 bilhões de reais a mais. Quer dizer este país, realmente não tem vontade política.
Em relação a salários, nunca ultrapassei a 03 empregos, sendo 02 divididos diutarnamente e 01 em regime de plantão de 12 horas noturno; se existem médicos que mantêm 05 ou 06 empregos, matematicamente impossível, devem ser denunciados e, por isso responderem por seus atos.
Falarmos em saúde e doença, morte e vida, não depende única e exclusivamente de médicos, mas sim, e também, de uma postura comprimissada de governos atentos à necessidades de seu povo.
Abraço

Barone disse...

Grande Cacho,

Perdão pela demora na resposta. A última semana foi de correria e não pude me dedicar ao blog.

É verdade, a mídia tem poder de influenciar a opinião pública. E é dever da mídia fazer isso apontando erros e, se possível, soluções. Falando especificamente do tema do nosso debate, em especial os termos com que me referi à parcela de médicos que colocam seus interesses na frente do interesse dos pacientes, volto a afirmar que são exatamente o que significam: “fatia”, “parcela” etc. Ou seja, parte, de forma alguma o todo.

Sobre o fato de as demais profissões não adotarem medidas punitivas contra seus membros, assim como fazem os Conselhos de Medicina, trata-se de um ponto positivo para a classe, um exemplo que deveria ser seguido. Ainda assim, isso não dirime totalmente os médicos das críticas que fiz. O fato de os Conselhos de Medicina receberem e investigarem denúncias não significa que culpados estejam sendo punidos. Veja este link da Folha Online (http://busca.folha.uol.com.br/search?q=%22den%FAncias+contra+m%E9dicos%22&site=online&src=redacao), você perceberá que os Conselhos se apressam em divulgar estudos sobre o aumento no número de denúncias, mas estes estudos nunca apresentam percentuais de condenações...

Confesso que não tenho conhecimento aprofundado do sistema de saúde pública adotados em outros países para me aprofundar no debate neste momento. Conheço um pouco do sistema estadunidense, que me parece mercantilista ao extremo. Vou buscar informações para opinar com mais embasamento.

Quanto aos recursos para a saúde – e seu destino real – concordo com você. Estamos engatinhando ainda. No entanto, isso nada tem a ver com a estrutura do SUS, mas sim com a desonestidade e falta de compromisso de nossos governantes. Até porque o SUS foi uma construção coletiva de profissionais de saúde e não te governantes.

Sobre a questão dos empregos. Pelo pouco que te conheço pude perceber que você é ético. Assim como o são muitos médicos. Mas esta é a regra? Você colocaria a mão no fogo pela maioria de seus colegas?

Grande abraço!

OBS: Você conhece o site? (http://br.gojaba.com/) Eles atingiram um milhão de livros usados para venda. Muito interessante.

Anderson Benicasa disse...

Caro Victor..

Pior que o corporativismo neste país, é a ignorância e arrogância dos que falam sem conhecimento de causa... e irresponsavelmente, como você.

Sua opinião.. ah!!.. dios mio!!

Poderia escrever um livro, mas vou me restringir a dissecar somente um ideia que percebi saltar do seu texto..

Você chama de corporativismo, a classe médica se rebelar contra a prisão ilegal de um médico no exercicio do seu trabalho? Você como jornalista deveria ser o primeiro a protestar contra. Afinal, a censura nos tempos ditadoriais prendia e torturava sua classe, em virtude de seus trabalhos (artigos jornalisticos).. Assim, vale a comparação.. O médico foi preso por diagnosticar um paciente como estável!! Como pode isso?? Médico formado não pode aplicar seu conhecimento? Quem deveria atender no PS seria a Policia Civil,então, certo? Afinal, a ultima palavra em diagnóstico é dela, pelo visto...

Se o paciente foi avaliação e diagnosticado e dado a conduta, não pode ser dito que houve OMISSÃO DE SOCORRO.

Em caso de não haver concordancia do diagnostico, existem outros meios de resolver a questão. Prisão não é uma delas..

Terminando, vc protege um estado policial ditadorial...

Legal né??

Barone disse...

Caro Anderson,

Acho que você não prestou atenção ao texto e ao que, na verdade, estou criticando. Mas, como disse Veríssimo certa vez, “quando o leitor não entende o que um jornalista escreveu, a culpa é sempre do jornalista”. Peço desculpas então e, novamente, tento explicar.

Vamos aos fatos. O paciente chegou ao hospital acompanhado por um médico que, previamente, havia solicitado o leito. Chegando ao hospital, outro médico atesta que não há necessidade de internação. O médico que acompanha o paciente se rebela e chama a polícia por considerar que a internação seria vital para a saúde do paciente. O médico que negou a internação usa de “ignorância e arrogância” e acaba indo em cana, provavelmente sob a ação “ignorante e arrogante” da polícia.

Não entro no mérito de quem estava com a razão. O fato é que se dois médicos tem diagnósticos diferentes o paciente não pode ser descartado como banana podre. Mais ainda, a saúde do paciente tem que estar acima de tudo. Em nenhum momento ouvi de algum médico ou de associação classista ligada à profissão uma mensagem de solidariedade ou preocupação para com aquele senhor.

Ao contrário do que você disse o médico não foi preso por diagnosticar um paciente como estável, mas sim por omissão de socorro, que é crime previsto no código penal.

Sobre sua afirmação de que “em caso de não haver concordância do diagnóstico, existem outros meios de resolver a questão.”, acho muito bonito para quem está olhando de fora. Para quem está sofrendo nos corredores dos hospitais soa um tanto fora da realidade.

Sobre a reação da classe médica, vejamos: sem se aprofundarem no caso, a primeira reação dos doutores de plantão foi condenar a atitude do médico que chamou a polícia. Mais tarde, disseram que iriam cruzar os braços em protesto. Ora, a primeira reação foi típica de um corporativismo burro. Sequer procuraram saber o que havia ocorrido. Em seguida, ameaçaram prejudicar a população (parando o atendimento). Se isso não é corporativismo, então... Se não entendeu, explico a seguir:

“Corporativismo é ação em que prevalece a defesa dos interesses ou privilégios de um setor organizado da sociedade, em detrimento do interesse público”.