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domingo, 29 de abril de 2012

Confira a 21ª edição da revista Semana Online.
- Na reportagem principal, um apanhado sobre as nossas "pequenas corrupções" diárias
- Uma entrevisra com Suely Almôas, diretora da DígithoBrasil, maior empresa do segmento de soluções em software do MS, que disponibiliza o Bônus, um software online de controle financeiro pessoal, premiado pela revista INFO com o título de “Melhor Software de Controle Financeiro, em 2006.
- É pos­sível viver sem papel hi­gi­ê­nico e la­gostas. E sem li­ber­dade? Confira o quinto artigo da série ESPECIAL CUBA
www.semanaonline.com.br

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Confira a edição da revista SEMANA ONLINE.
www.semanaonline.com.br
- Entrevista com o criador do Reclame Aqui, Mauricio Vargas
- Uma reportagem sobre a desvalorização da mulher brasileira no exterior
- O terceiro artigo do Especial Cuba
- E muito mais!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O insistente vírus da homofobia

“O presidente da Câmara Municipal de Campo Grande, vereador Paulo Siufi (PMDB) considerou estarrecedora a atitude do Ministério da Educação de distribuir um kit educativo contra a homofobia para todas as escolas do país a partir do ano que vem.

Assim começa o release publicado ontem no site da Câmara, repercutido nos veículos de comunicação do estado e entre os sul-mato-grossenses inseridos nas redes sociais.

Para Siufi, que tem sua base eleitoral na Igreja Católica, a distribuição do kit “irá estimular a sexualidade precoce em crianças e adolescentes”.

Não é a primeira vez que a Câmara Municipal arregimenta forças em favor do preconceito. Partiu de lá, por exemplo, a negação infundada da concessão do Título de Utilidade Pública para a Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul. (Leia mais sobre este assunto: “Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande” e “Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em Campo Grande”)

Como bem apontou o jornalista Airton Raes na edição de hoje do jornal O Estado de MS, o pronunciamento de Siufi está recheado de inverdades. O vereador alega que o material contém vídeos e imagens “inadmissíveis e inaceitáveis” e que será distribuído para crianças de sete a dez anos. Não é verdade.

O kit anti-homofobia do MEC tem base na declaração dos direitos humanos e será distribuído para alunos do segundo grau – com idade entre 15 e 17 anos.

Toda esta argumentação, no entanto, é apenas uma cortina de fumaça para esconder o que de fato está por detrás da preocupação do presidente da Câmara campo-grandense. O que preocupa Siufi, e os que como ele consideram que a homossexualidade é uma doença, uma anormalidade, é, exatamente, o esforço para que a sociedade enxergue a orientação sexual dos indivíduos como algo legítimo, como um direito que não pode ser alvo de discriminação.

Como é óbvio, o objetivo do MEC não é incentivar a homossexualidade ou a heterossexualidade, mas combater o preconceito. No entanto, nem sempre o óbvio prevalece aos olhos dos que se arvoram no direito de determinar o que é certo e errado, o que execrável ou não.

Em recente artigo intitulado “A ditadura da fé e da ausência de razão contra a orientação sexual”, disse que o preconceito é uma doença silenciosa. Ele se instala nas mentes, nas consciências e lá se agarra com unhas e dentes contaminando convicções. Em poucas questões este vírus tem se mostrado mais resistente que na questão da homossexualidade.

Preconceito sem base ou fundamento

Uma das formas pela qual esta doença da alma se manifesta é através da classificação da homossexualidade como algo “anormal”. Este é o caminho escolhido por uma miríade de pessoas que não consegue enxergar a diversidade como algo pertinente ao ser humano. Sua base argumentativa trafega pela religiosidade ou pelo que classificam como comportamento natural. Ambas as bases carecem de estrutura argumentativa coerente.

Argumentar que homossexuais são seres humanos desviados, odiados por Deus, negar a eles direitos civis básicos como o casamento e a partilha de bens tendo como argumento a fé é reforçar o comportamento totalitarista que ciclicamente acompanha as manifestações religiosas. É endossar a ditadura da fé.

Assim como a fé é base para o preconceito na questão da sexualidade, a noção do que é ou não “biologicamente normal” ou “socialmente aceitável” também serve de munição para quem não aceita a miríade de opções sexuais que são inerentes ao ser humano, para quem teme a diversidade. Foi com base nesta noção, que Hitler condenou a morte milhões de judeus, doentes mentais, ciganos, comunistas e homossexuais.

Classificar o comportamento homossexual como um desvio de conduta moral ou psicológico é, também, uma postura condenada pela ciência séria. Um caso recente, o da psicóloga Rozângela Alves Justino, que prometia “curar” homossexuais em sua clínica, é emblemático.

Ao comemorar – no último dia 22 de março - os dez anos da resolução que orientou os psicólogos brasileiros a adotarem posturas que contribuam para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual, o presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Humberto Cota Verona, disse que “a resolução proíbe o psicólogo de tratar a escolha homoafetiva como um problema de saúde e muito menos oferecer tratamento e cura para isso”. Para Verona, o papel dos psicólogos não é o de reprimir esta opção, mas de fazer com que os homossexuais enfrentem o preconceito. “A psicologia tem ajudado essas pessoas a encarar esse sofrimento, a aprender a lidar com esse enfrentamento social da sua escolha.”.

O psicólogo Claudecy de Souza lembra que, sob o ponto de vista legal, a homossexualidade também não é classificada como doença no Brasil. “Sendo assim, os psicólogos não devem colaborar com eventos e serviços que se proponham ao tratamento e cura de homossexuais, nem tentar encaminhá-los para outros tratamentos. Quando procurados por homossexuais ou seus responsáveis para tratamento, os psicólogos não devem recusar o atendimento, mas sim aproveitar o momento para esclarecer que não se trata de doença, muito menos de desordem mental, motivo pelo qual não podem propor métodos de cura.”.

Souza reafirma o entendimento da Psicologia moderna, segundo o qual a homossexualidade é um estado psíquico. “O indivíduo homossexual não faz opção por ser homossexual. Ele apenas é e não pode, ainda que queira, mudar isso. Ele pode sim, fazer uma opção no sentido de negar esse impulso e tentar viver como heterossexual. Mas isso tem um impacto negativo para o pleno desenvolvimento emocional do indivíduo. Trata-se de uma situação muito mais comum do que se imagina. O impulso sexual que um heterossexual tem por sua parceira é o mesmo que um homossexual tem por seu parceiro do mesmo sexo. O que muda é o objeto.”, explica.

Em dezembro de 1973, a Associação Psiquiátrica Americana (APA) aprovou a retirada da homossexualidade da lista de transtornos mentais, deixando de considerá-la uma doença. Em 1985, o Conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) retirou a homossexualidade da condição de desvio sexual. Nos anos 90, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), onde são identificados por códigos todos os distúrbios mentais - e que serve de orientador para classe médica, principalmente para os psiquiatras - também retirou a homossexualidade da condição de distúrbio mental. Em 1993, a Organização Mundial de Saúde (OMS) deixou de utilizar o termo "homossexualismo" (que da idéia de doença), adotando o termo homossexualidade. Em 22 de março de 1999 o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou nacionalmente uma resolução estabelecendo normas para que os psicólogos brasileiros contribuam, através de sua prática profissional, para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual.

Estratégia Preconceituosa

De fato, seja com base na fé ou no conceito de normalidade, o que se pretende ao questionar a homossexualidade é condená-la aos subterrâneos. Na melhor das hipóteses querem dizer que não importa se alguém opte pela condição homossexual, desde que isso não seja claro, desde que seja entre quatro paredes, às escondidas. É como se pregassem uma burca para os gays, de modo a que este comportamento, que lhes agride de forma tão impactante, não pudesse ser exercido de forma livre.

Recentemente publiquei no Amálgama o artigo “As três faces obscuras do regime de Mahmoud Ahmadinejad”, versando, entre outras coisas, sobre o preconceito exercido no Irã contra os gays. O texto recebeu mais de 100 comentários, alguns de fortíssimo caráter homofóbico. Há os fanáticos religiosos – como a turma da União de Blogueiros Evangélicos – que tem feito barulho contra o PLC 122/06, que torna crime a discriminação contra idosos, deficientes e homossexuais, e há também os que simplesmente não querem ter o desprazer de conviver com a igualdade de direitos na sexualidade. Ambos apelam para a falácia segundo a qual sua postura homofóbica não agride direitos básicos de milhares de pessoas. As vítimas são eles mesmos, os preconceituosos, obrigados a conviver com a homossexualidade.

Ora, este é um argumento rasteiro, beira a ignorância. Um casal gay que se beija em praça pública está exercendo um direito pessoal e irrevogável de exprimir sua sexualidade da mesma forma que a exprime um casal heterossexual. Se este beijo incomoda alguém, este alguém pode simplesmente ignorar o casal ou, se o choque for demasiado, afastar-se. O que não pode é exigir que o casal gay seja proibido de exercer sua liberdade da mesma forma que um casal hetero a exerceria. Não se pode legitimar a coerção física ou moral sobre a cidadania com base em conceitos de cunho religioso ou pessoal.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A comunidade LGBT e a mídia

Em 26 e 27 de janeiro, será realizada, em Curitiba, a conferência Encontro de Mídia LGBT. Durante dois dias serão discutidos os impasses e as perspectivas da mídia LGBT, os movimentos sociais, padrões de qualidade e a pauta sobre a questão na grande imprensa.

O evento faz parte das ações programadas para acontecer antes da conferência da America Latina e Caribe da Associação Internacional de Gays e Lésbicas (Ilga), que ocorre de 27 a 31de janeiro. Alguns dos palestrantes são o antropólogo e fundador do Grupo Gay da Bahia Luiz Mott, a fundadora da revista G Magazine, Ana Fadigas, e o escritor e ex-BBB, Jean Wyllys. Haverá ainda o lançamento do Guia de Mídia LGBT. Para mais informações e inscrições, clique aqui.

Falei sobre o tema (a mídia e a comunidade LGBT) algumas vezes neste blog. Os links abaixo levam a artigos e entrevistas publicados por aqui.

- Para jornalista, condenar homofobia é coisa de viado...
- Imprensa precisa ajustar o foco ao tratar da homossexualidade
- Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Leia mais sobre sexualidade no Escrevinhamentos

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Para jornalista, condenar homofobia é coisa de viado...

O debate sobre homofobia no Twitter deu pano para manga e revelou posicionamentos para lá de interessantes. Publiquei hoje por aqui (e no Amálgama) o artigo “A ditadura da fé e da ausência de razão contra a orientação sexual” que colocou ainda mais lenha no fogo. Teve até gente me dando unfollow no microblog (@GeraldoMTomas) me acusando de cercear seu direito de ser preconceituoso...

Entre as manifestações, a mais interessante foi a do jornalista Antônio João Hugo Rodrigues (@AntonioJoao_AJ), dono do jornal Correio do Estado, para quem a sexualidade não é um bom tema a ser tratado no Twitter (veja aqui e aqui). Além disso, segundo ele, o fato de alguém levantar o tema e aprofundá-lo é motivo para “desconfiar de sua masculinidade”... no melhor estilo Carlos Maçaranduba (veja aqui).

Segundo sua linha de raciocínio, lutar contra a violência contra a mulher é papel exclusivo das mulheres, combater o anti-semitismo é tema para judeus e execrar o preconceito contra negros é obrigação dos negros. E ponto final...

E isso vindo do manda-chuva do maior jornal do estado...

A ditadura da fé e da ausência de razão contra a orientação sexual

O preconceito é uma doença silenciosa. Ele se instala nas mentes, nas consciências e lá se agarra com unhas e dentes contaminando convicções. Em poucas questões este vírus tem se mostrado mais resistente que na questão da homossexualidade. Assim como um vírus se manifesta em qualidades diversas, determinando os sintomas da doença, o preconceito de sexualidade também possui facetas diversas, todas elas malignas e fatais ao desenvolvimento de sociedades livres e fraternas.

Uma das formas pela qual esta doença da alma se manifesta é através da classificação da homossexualidade como algo “anormal”. Este é o caminho escolhido por uma miríade de pessoas que não consegue enxergar a diversidade como algo pertinente ao ser humano. Sua base argumentativa trafega pela religiosidade ou pelo que classificam como comportamento natural. Ambas as bases carecem de estrutura argumentativa coerente.

Na religiosidade, parte-se do pressuposto de que existe uma verdade moral absoluta ligada ao comportamento sexual, sem a qual os seres humanos estariam desviados “do caminho”. Estas verdades estão baseadas na fé e não em conceitos científicos. Fé é um caminho pessoal. A minha, serve para mim. A sua, para você. Não cabe ao homem impor sua crença aos demais, visto que ele não detém a verdade absoluta, mas a sua própria verdade, embasada por sua própria fé.

O desprezo desta linha de raciocínio levou a humanidade a todo tipo de desumanidade. A noção de que uma determinada fé – e os conceitos que se julgam pertinentes a ela – deva prevalecer sobre a vontade dos homens causou, entre muitos outros desatinos, as cruzadas, a inquisição e a jihad islâmica.

Há uma diferença fundamental entre - fiel a minha própria fé - fazer a opção pessoal de não aceitar a homossexualidade e o extremo de tentar impor este conceito aos demais.

Argumentar que homossexuais são seres humanos desviados, odiados por Deus, negar a eles direitos civis básicos como o casamento e a partilha de bens tendo como argumento a fé é reforçar o comportamento totalitarista que ciclicamente acompanha as manifestações religiosas. É endossar a ditadura da fé.

Manifestações deste medievalismo não são raras. Embalada por leituras equivocadas dos livros sagrados, ou guiada cegamente por eles, muita gente tem trabalhado para colocar os homossexuais no que consideram ser seu devido lugar, ou seja, o porão, bem escondidos dos olhos da sociedade.

E aqui vou citar observações de duas pessoas que tem feito a diferença nesta Babel que é a internet, quando o assunto é a defesa dos direitos civis diante do assalto da fé: Daniel Lopes (Amálgama) e Lelec (A Terceira Margem do Sena). O que aconteceria se baseássemos nossas leis na Bíblia?

Além apedrejar pessoas até a morte por exercer sua homossexualidade, heresia, adultério, por trabalhar no sábado, adorar imagens, praticar feitiçaria e mais uma ampla variedade de crimes imaginários (Sam Harris, “Carta a uma Nação Cristã”, Cia das Letras, pág. 25), deveríamos, também, bater em nossos filhos com uma vara (Provérbios 13,24; 20,30; e 23, 13 e 14) sempre que eles saíssem da linha, matá-los (Êxodo 21, 15, Levítico 20, 9, Deuteronômio 21, 18-21, Marcos 7, 9-13, Mateus 15, 4-7) quando tivessem a pouca vergonha de nos responder com insolência, reunir escravos (Levítico 25, 44-46), mas não agredi-los tão severamente a ponto de ferir seus olhos ou seus dentes (Êxodo 21, 26-27). Teríamos que aceitar o Pai que lança doenças mortais (II Samuel 24:15), o Iaveh que escolhe e sustenta tiranos (Romanos 13:1), dar loas ao incentivador de genocídios (Deuteronômio 7: 1-5) e até louvar quem consente que duas ursas matem 42 crianças por chamarem de careca um de Seus profetas (II Reis 2: 23-25).

NATURAL OU NÃO?

Assim como a fé é base para o preconceito na questão da sexualidade, a noção do que é ou não “biologicamente normal” ou “socialmente aceitável” também serve de munição para quem não aceita a miríade de opções sexuais que são inerentes ao ser humano, para quem teme a diversidade. Foi com base nesta noção, que Hitler condenou a morte milhões de judeus, doentes mentais, ciganos, comunistas e homossexuais.

Nos últimos dias, no Twitter, me vi em um debate sobre este tema com @joaocampos_ms. Ele defendia o direito de opção sexual, mas condenava a sua exposição pública por meio de eventos como passeatas gays. Disse ele “No caso dos homossexuais, a rejeição baseia-se em ser natural ou não. Aceitação, idem. É natural ou não.”. Reforçando o conceito, @GeraldoMTomas disse o seguinte: “E acho também que, se não banirmos tais pudores (do debate), um dia ensinarão nas escolas que homosexualismo é correto” e arrematou “Claro...não estamos tratando de coisa natural, tipo cor, raça, beleza, nem de matéria religiosa...portanto.

A primeira vista estas manifestações podem passar despercebidas. No entanto, são construídas sobre o que há de pior no pensamento da intolerância sexual. Classificar a orientação sexual como algo “anormal” é afrontar a ciência.

Esse tipo de argumento – de que o sexo com indivíduos do mesmo gênero não é natural –, muito usado no século 19, é recorrente até os dias de hoje e permeia o debate do tema em vários países. As observações científicas, no entanto, demonstram que o argumento não tem base, já que são vários os exemplos de animais que mantêm relações sexuais e até mesmo de parceria com indivíduos do mesmo gênero.

Os biólogos Nathan Bailey e Marlene Zuk, da Universidade da Califórnia em Riverside, publicaram no mês passado um estudo que é uma revisão de várias outras pesquisas sobre o tema. O trabalho, publicado no periódico Trends in Ecology and Evolution (Tendências em Ecologias e Evolução), reforça que o sexo homossexual é muito comum no mundo animal e é motivado por diferentes razões, como a falta de um parceiro do outro sexo, a necessidade de formar alianças, praticar e reforçar a hierarquia, por engano e até para criar um filhote. Ou seja, natural entre os animais, nada impede que o mesmo comportamento se repita entre nós, seres-humanos.

Da mesma forma, classificar o comportamento homossexual como um desvio de conduta moral ou psicológico é, também, uma postura condenada pela ciência séria. Um caso recente, o da psicóloga Rozângela Alves Justino, que prometia “curar” homossexuais em sua clínica, é emblemático.

Ao comemorar – no dia 22 de março - os dez anos da resolução que orientou os psicólogos brasileiros a adotarem posturas que contribuam para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual, o presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Humberto Cota Verona, disse que “a resolução proíbe o psicólogo de tratar a escolha homoafetiva como um problema de saúde e muito menos oferecer tratamento e cura para isso”. Para Verona, o papel dos psicólogos não é o de reprimir esta opção, mas de fazer com que os homossexuais enfrentem o preconceito. “A psicologia tem ajudado essas pessoas a encarar esse sofrimento, a aprender a lidar com esse enfrentamento social da sua escolha.”.

O psicólogo Claudecy de Souza lembra que, sob o ponto de vista legal, a homossexualidade também não é classificada como doença no Brasil. “Sendo assim, os psicólogos não devem colaborar com eventos e serviços que se proponham ao tratamento e cura de homossexuais, nem tentar encaminhá-los para outros tratamentos. Quando procurados por homossexuais ou seus responsáveis para tratamento, os psicólogos não devem recusar o atendimento, mas sim aproveitar o momento para esclarecer que não se trata de doença, muito menos de desordem mental, motivo pelo qual não podem propor métodos de cura.”.

Souza reafirma o entendimento da Psicologia moderna, segundo o qual a homossexualidade é um estado psíquico. “O indivíduo homossexual não faz opção por ser homossexual. Ele apenas é e não pode, ainda que queira, mudar isso. Ele pode sim, fazer uma opção no sentido de negar esse impulso e tentar viver como heterossexual. Mas isso tem um impacto negativo para o pleno desenvolvimento emocional do indivíduo. Trata-se de uma situação muito mais comum do que se imagina. O impulso sexual que um heterossexual tem por sua parceira é o mesmo que um homossexual tem por seu parceiro do mesmo sexo. O que muda é o objeto.”, explica.

Em dezembro de 1973, a Associação Psiquiátrica Americana (APA) aprovou a retirada da homossexualidade da lista de transtornos mentais, deixando de considerá-la uma doença. Em 1985, o Conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) retirou a homossexualidade da condição de desvio sexual. Nos anos 90, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), onde são identificados por códigos todos os distúrbios mentais - e que serve de orientador para classe médica, principalmente para os psiquiatras - também retirou a homossexualidade da condição de distúrbio mental. Em 1993, a Organização Mundial de Saúde (OMS) deixou de utilizar o termo "homossexualismo" (que da idéia de doença), adotando o termo homossexualidade. Em 22 de março de 1999 o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou nacionalmente uma resolução estabelecendo normas para que os psicólogos brasileiros contribuam, através de sua prática profissional, para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual.

ESTRATÉGIA PRECONCEITUOSA

De fato, seja com base na fé ou no conceito de normalidade, o que se pretende ao questionar a homossexualidade é condená-la aos subterrâneos. Na melhor das hipóteses querem dizer que não importa se alguém opte pela condição homossexual, desde que isso não seja claro, desde que seja entre quatro paredes, às escondidas. É como se pregassem uma burca para os gays, de modo a que este comportamento, que lhes agride de forma tão impactante, não pudesse ser exercido de forma livre.

Recentemente publiquei no Amálgama o artigo “As três faces obscuras do regime de Mahmoud Ahmadinejad”, versando, entre outras coisas, sobre o preconceito exercido no Irã contra os gays. O texto recebeu mais de 100 comentários, alguns de fortíssimo caráter homofóbico. Há os fanáticos religiosos – como a turma da União de Blogueiros Evangélicos – que tem feito barulho contra o PLC 122/06, que torna crime a discriminação contra idosos, deficientes e homossexuais, e há também os que simplesmente não querem ter o desprazer de conviver com a igualdade de direitos na sexualidade. Ambos apelam para a falácia segundo a qual sua postura homofóbica não agride direitos básicos de milhares de pessoas. As vítimas são eles mesmos, os preconceituosos, obrigados a conviver com a homossexualidade.

Ora, este é um argumento rasteiro, beira a ignorância. Um casal gay que se beija em praça pública está exercendo um direito pessoal e irrevogável de exprimir sua sexualidade da mesma forma que a exprime um casal heterossexual. Se este beijo incomoda alguém, este alguém pode simplesmente ignorar o casal ou, se o choque for demasiado, afastar-se. O que não pode é exigir que o casal gay seja proibido de exercer sua liberdade da mesma forma que um casal hetero a exerceria. Não se pode legitimar a coerção física ou moral sobre a cidadania com base em conceitos de cunho religioso ou pessoal.

Leia mais sobre este tema:

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Fanatismo religioso não atrapalhou a marcha pela diversidade

Mais uma vez a homofobia mostrou a sua cara em Campo Grande, desta vez pelas mãos de gente quer impor suas verdades religiosas ao mundo. Durante a 8ª Parada da Diversidade, realizada hoje na cidade, os participantes foram surpreendidos por enormes pichações pregando a “salvação”. Na Avenida Afonso Pena destacava-se a seguinte frase: “O pecado não se ama. Jesus sim se ama”. No cruzamento com a 14 de julho, letras garrafais diziam: “Jesus Voltará”, e na 14 de julho, em frente ao ponto de ônibus da praça estava escrito: “Buscai o Senhor enquanto se pode achar”.

Apesar do obscurantismo, a passeata prosseguiu sem incidentes e reuniu cerca de 10 mil pessoas. Até os comerciantes locais, que segundo alguns vereadores campo-grandenses estariam insatisfeitos com a realização do evento em uma sexta-feira, apoiaram a manifestação. A decisão da juíza Katy Braun do Prado, titular da Vara da Infância, Juventude e Idoso da Comarca de Campo Grande, que proibiu a participação de menores no evento foi solenemente ignorada. Famílias inteiras compareceram à festa da diversidade.

Veja a cobertura do Campo Grande News:
18:10 - Parada Gay reúne 7 mil pessoas no centro de Campo Grande
17:11 - Além de adolescentes, crianças também estão na parada
16:36 - Adolescentes desafiam juíza e lotam Parada Gay no centro
14:30 - Agetran considera lamentável pichação de frase religiosa
10:00 - No dia da Parada Gay, religiosos pregam “salvação”

E do Midiamax:
19h00 - Igualdade: Público contraria ordem de juíza e leva filhos à Parada Gay; PM estima 5 mil pessoas
17h49 - Athayde participa da Parada Gay e dá o tom político ao evento
17h18 - Parada da Diversidade para o Centro da Capital
16h46 - Começa a Parada Gay, PM estima que 15 mil participam
16h42 - Crianças só podem ficar na praça, não vão à Parada, avisa PM
16h02 - Famílias ignoram Justiça e levam crianças à Parada
11h03 - Ruas em volta da praça amanhecem pichadas com frases contra a Parada da Diversidade

Leia mais sobre este tema:
- 8ª Parada da Diversidade Sexual acontece hoje em Campo Grande, apesar da Intolerância
- Imprensa precisa ajustar o foco ao tratar da homossexualidade
- Orientação sexual em MS
- Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay
- Eles eram mais livres
- Preconceito e cidadania
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado

8ª Parada da Diversidade Sexual acontece hoje em Campo Grande, apesar da intolerância

A 8ª Parada da Diversidade Sexual de Campo Grande, conhecida popularmente como Parada Gay, será realizada nesta sexta-feira, com programação ao longo de todo o dia, a partir das 8h, na Ary Coelho, com a entrega de preservativos e materiais didáticos, pedagógicos e preventivos. No ano passado a parada reuniu 30 mil pessoas.

Organizado pela Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS), o evento contará, ainda, com a 1ª Gincana da Diversidade, com a arrecadação de alimentos não-perecíveis, além de coleta de sangue para teste de HIV.

Às 15 horas, também na praça, começa a concentração para a marcha pela cidadania e pela diversidade com início previsto para uma hora depois. A passeata irá percorrer as ruas 14 de Julho, Marechal Rondon, 13 de Maio e Barão, terminando a Praça do Rádio Clube.

O evento continua às 18h com o show na Praça do Rádio Clube com drags de São Paulo, go-go boys, Michele e Banda, Unidos da Vila Cruzeiro e Banda Fascínio. O último evento será a festa oficial no Bistrot, na rua Pimenta Bueno, 127.

O governador André Puccinelli, que recentemente chamou o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, de viado e disse que, se caso o encontrasse, o estupraria em praça pública, está entre os convidados e patrocinadores.

Campo Grande tem um histórico de homofobia pouco honroso. No ano passado, a Câmara Municipal, inflamada pelas bancadas evangélica e católica, negou a concessão de um título de utilidade pública para a ATMS. Agora, a mesma histeria surge em ações que procuram “proteger” o cidadão.

A juíza da Vara da Infância, Juventude e Idoso, Katy Braun do Prado, por exemplo, proibiu a participação de crianças e adolescentes menores de 16 anos de idade na parada.

A Câmara Municipal, que poderia ter evoluído, volta a mostrar que permanece na idade das trevas. O presidente da Casa, Paulo Siufi (PMDB), criticou a realização do evento, afirmando que o mesmo vai prejudicar o comércio. Em aparte, o vereador Carlão (PSB) criticou o apoio da Fundação Municipal de Cultura, afirmando que o movimento “não vai agregar em nada” e que “pode virar baderna”. Paulo Pedra (PDT) e Flávio César (PT do B) afirmaram que são favoráveis a manifestações, mas que são contra a realização do evento em dias da semana. “Aqui nesta Casa nenhum vereador esta se posicionando de forma preconceituosa, mas está defendendo o interesse do comércio da cidade”, disse Flávio César.

Pois sim... Falta verdade interior para assumir que a preocupação tem fundamento no preconceito e na intolerância. Lamentável.


Leia mais sobre este tema:

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Gancia registra preconceito contra brasileiras

O artigo “Where are you from?”, da jornalista Bárbara Gancia, publicado hoje no jornal Folha de S.Paulo retoma uma questão que abordo com freqüência: a sina da mulher brasileira no exterior. A sexualização da imagem feminina da brasileira lá fora, aliada a prostituição, faz com que o fato de ser brasileira se transforme em um atestado de permissividade.

Bárbara esteve em Nova York e vivenciou a situação:

Mas, é claro, algumas coisas não mudam nunca. A pergunta fatídica ‘Where are you from?’ continua a gerar a mesma reação quando a resposta é ‘Brazil’ e a turista é do sexo feminino.

A conversa sempre começa respeitosa, mas bastou você dizer que é do Brasil para verificar uma mudança radical de tom. ‘Puxa, você é puta! Quem diria, não parece!’. A frase nunca é escancarada, mas a tapuia em viagem -mesmo cega e surda- será capaz de perceber o estupor nas entrelinhas.

Num táxi, paguei pato ouvindo considerações sobre os trajes reduzidos das brasileiras (note que minhas amigas e eu, todas freiras carmelitas, estávamos encapotadas até o cocuruto) e, noutro, o motorista resolveu apelar para a pegadinha.

Depois de tomar conhecimento da nossa nacionalidade, chutou: ‘Não gosto dos homens brasileiros’. Fez-se silêncio, e logo ele emendou com ar sacana: ‘Gosto das mulheres’.


Leia mais sobre o tema
- A Imagem da Mulher na Mídia - Como você vê esta relação?
- Turismo sexual, prostituição e a desconstrução da imagem feminina
- Solcat desrespeita mulher brasileira, mais uma vez
- Editora Solcat desrespeita mulheres brasileiras
- Toda brasileira é bunda?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Fotojornalismo

Participante da Parada Gay do Rio de Janeiro, realizada no sábado, usa o corpo para mandar seu recado. No evento, o governador Sérgio Cabral disse que "político que discrimina gays é atrasado e medieval". Foto do Terra.

domingo, 1 de novembro de 2009

A intolerância de Puccinelli

Honradez, integridade, boas maneiras, tolerância, autocontrole, civilidade, honestidade, contenção verbal, arrependimento e decoro foram analisados neste final de semana pela reportagem “Pequeno manual da civilidade”, da jornalista Juliana Linhares, na Veja. A matéria esmiúça “as pequenas vantagens de virtudes grandemente subestimadas” citando casos em que elas são esquecidas e dando voz à pensadores para que sejam analisadas e colocadas sob os holofotes do escrutínio do leitor. O governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, foi o exemplo pinçado pela revista para ilustrar o tópico “tolerância”. É o nosso “italiano”, sempre levando o nome do estado aos píncaros. Veja a seguir.

Desafio diário

Na hora da raiva, das bravas, qual é o primeiro xingamento que lhe vem à cabeça? Em geral, nesses momentos o ser humano não é criativo e invoca diferenças de comportamento sexual, de origem familiar ou de grupo étnico. Pois o treinamento da aceitação das diferenças deve começar exatamente por aí. De todas as virtudes do campo da civilidade, a TOLERÂNCIA é a que mais exige autoaprendizagem. Quem acha que nunca, jamais conseguirá cumprimentar um torcedor do time adversário pode começar com coisas mais simples, como não ter espasmos visíveis diante do abuso do gerúndio ou prometer a si mesmo ao sair de casa que pelo menos naquele dia não vai comparar nenhuma mulher à fêmea de uma famosa ave natalina. "Tolerância tem a ver com comportamentos diferentes daqueles que valorizamos e pelos quais temos repugnância. Exercê-la é importante não só para a convivência social como para a sanidade mental", diz Bolívar Lamounier.

O fato

Não é qualquer um que consegue fazer o país inteiro se solidarizar com um integrante do governo. Mas também não é qualquer um que usa o palavreado do governador de Mato Grosso do Sul, ANDRÉ PUCCINELLI, em relação ao ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc: "Ele é v... e fuma maconha. Se viesse aqui, eu ia correr atrás dele e estuprar em praça pública". Para piorar, veio depois o típico pedido falso de desculpas: "Se alguém se sentiu ofendido...". Desafio aos tolerantes urbanos: não achar que todo produtor rural é um brutamontes destruidor da natureza.

A análise

"O governador foi desmascarado em seus preconceitos mais bestiais. Em um momento em que se luta tanto contra discriminações, sejam elas de gênero, sejam sociais, o governador mostrou que não tem equilíbrio mental nem competência profissional para estar no cargo que ocupa", fulmina o cientista político Gaudêncio Torquato.

Atualização - 01/11/2009 às 20h30

O ministro Meio Ambiente, Carlos Minc, deu um recado ao governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB) - que disse em um programa de televisão que o câncer de mama em homens “deve ser consequência de passeatas gay” - durante a abertura da 14ª Parada do Orgulho Gay no Rio de Janeiro, hoje. Minc espetou: “Preconceito dá câncer, faz mal à saúde e pode matar. O que cura o preconceito e a doença é a solidariedade”. Sem se esquecer de Puccinelli, o minstro emendou dizendo que o governador tem uma "cabeça troglodita de quem pensa como se estivesse na época da Inquisição".

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A Imagem da Mulher na Mídia - Como você vê esta relação?

Acontece nesta quarta-feira (28), em Campo Grande (MS), a conferência livre "A Imagem da Mulher na Mídia - Como você vê esta relação?". Promovido pela Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para a Mulher, o evento tem como proposta discutir o reforço de estereótipos femininos nos veículos de comunicação.

O tema já foi discutido aqui no Escrevinhamentos, em especial a partir do artigo “Toda brasileira é bunda?”, publicado em dezembro do ano passado, e é sempre motivo para bons debates. É o que propõe a conferência já que, “com as conquistas no mercado de trabalho, política, dentro da família e na sociedade, as mulheres ainda enfrentam diariamente a luta contra idéias prontas e conceitos previamente estabelecidos sobre sua imagem no convívio social.”

Segundo Valéria Mont' Serrat, assessora técnica da Coordenadoria da Mulher, a principal iniciativa da conferência é combater o reforço de estereótipos femininos. "Queremos entender como a mulher se vê na mídia, como ela quer e como não quer ser retratada. E o diálogo entre as instituições de defesa dos direitos da mulher e os veículos de comunicação vem agregar o debate, permitindo que todos sejam ouvidos e que se chegue a um consenso sobre o tema".

A idéia de mulheres bonitas, com forte apelo sexual, ainda é veiculada em propagandas e vendida ao exterior como principal atrativo do Brasil. Submissão de mulheres, choque de valores e a construção de uma identificação feminina sólida e que seja condizente com a realidade tornam-se necessidades urgentes de toda a sociedade.

A abertura da conferência será com o tema "A imagem da mulher na mídia - A visão de quem faz a notícia", com dois paineis (rádio e TV; impresso e internet). A seguir, serão debatidos temas autosugestionados, como "Qual o sexo da notícia?"; "Propaganda de cerveja sem mulher?", sobre o apelo sexual da publicidade; "Rir é mesmo o melhor remédio?", abordando os estereótipos nos programas femininos; e "Um tapinha não doi?", que engloba música, vulgarização da sexualidade feminina e banalização da violência contra a mulher.

A Conferência Livre "A Imagem da Mulher na Mídia" é voltada aos organismos de defesa dos direitos das mulheres e profissionais de comunicação. O evento acontece no dia 28, a partir das 13 horas, na Escola de Governo de Campo Grande, localizada na Avenida Ernesto Geisel, 4009.

Atuam como parceiras do evento Articulação de Mulheres de Mato Grosso do Sul/AMMS; União Brasileira de Mulheres/UBM; Coletivo de Mulheres Negras "Raimunda Luiza de Brito"; Coordenadoria da Juventude; Movimento de Estudos de Sexualidade, Cultura, Liberdade e Ativismo de Mato Grosso do Sul/MESCLA; ABGLT; Núcleo de Estudos de Gênero da UFMS/ NEG-UFMS; Marcha Mundial de Mulheres-MS/MMM-MS, entre outras.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Turismo sexual, prostituição e a desconstrução da imagem feminina

Em dezembro passado escrevi um artigo intitulado “Toda brasileira é bunda?", no qual questionava a exposição da sexualidade feminina como ferramenta de marketing focada no turismo. O texto foi provocado por algumas situações ocorridas no exterior e no Brasil onde a mulher brasileira acaba sendo estigmatizada como uma “mulher fácil”.

Casos como o da editora Solcat (veja aqui e aqui) - que dá dicas a gringos de como “se dar bem” com uma mulher no Brasil - e o relato de uma astrônoma brasileira radicada na Inglaterra (veja mais á frente) mostram claramente o tormento que pode se abater sobre as mulheres brasileiras expostas a um estereótipo descabido, aqui e lá fora.

O assunto foi alvo de uma enquête (finalizada ontem) aqui no Escrevinhamentos, sob o seguinte questionamento: “A sexualização da mulher brasileira na mídia e na publicidade prejudica sua imagem no exterior?”. Oitenta e seis por cento dos participantes (63) disseram que sim, outros 10 internautas (13%) disseram que não.

Apesar de o artigo que deu origem a este debate ter surgido a partir de uma crítica à mídia, a questão da prostituição também tem papel preponderante na desconstrução da imagem da mulher brasileira. Não tenho nenhum preconceito em relação às mulheres que optam por vender o corpo para viver. No entanto, esta opção não pode ser estendida às demais mulheres como se fosse um padrão da brasileira. Assim como temos que respeitar quem opta por este tipo de vivência, temos que respeitar as mulheres que não optam por ela.

O desabafo da astrônoma (publicado originalmente no blog LLL e do qual reproduzo um trecho em seguida) é um resumo triste do que está acontecendo neste momento com nossas esposas, mães, irmãs e amigas, mulheres englobadas em um estereótipo de permissividade para cuja construção elas não colaboraram.

Esse eh um desabafo meu para todas as mulheres que sujam e arrasam com a imagem da mulher brasileira que poderia ser tao glamourosa. Grito em meu nome e em nome de todas as outras mulheres que estao aqui no exterior batalhando seriamente por uma vida melhor, constituindo uma familia amorosa honesta e tentando ser feliz.
Apesar do glamour, muitas vezes tenho vergonha de dizer que sou brasileira. Principalmente quando estou sem o Edu do lado e na presenca de homens solteiros que nao me conhecem de fato. Ja passei por varias situacoes desagradaveis em minha vida e ja escutei varias piadinhas de mal gosto durante minhas viagens mundo afora, mas devo confessar que nada foi tao direto e agressivo quanto o ocorrido em Oxford. ... Obviamente que ao saberem que sou brasileira, e bombardeados que estao sendo por todas as noticias (as mais degradantes) de carnaval vinda do Brasil, alguns individuos despreziveis falaram, estimulados pelo alcool, o que todo mundo pensa mas nao tem coragem de dizer quando estao em seu estado normal de consciencia.
Tive que aguentar varias piadinhas cafajestes sobre mulher brasileria e o pior, todas vindo de pessoas com um nivel cultural alto e bem esclarecidas, ou seja, estava falando com gente teoricamente inteligente. Um babaca com uma risadinha sacana me perguntou se as mulheres andavam peladas no Brasil porque era muito quente. Um imbecil frances disse que seria bom ir participar de uma reuniao no Brasil para poder “catar” as mulheres, afinal, as mulheres no Brasil estao assim disponiveis como qualquer mercadoria barata e descartavel, bastando escolher. O outro concordou e imaginou e descreveu uma cena bizarra dele saindo do aeroporto e sendo agarrado por tres mulheres desesperadas querendo leva-lo para cama. Um teve a cara de pau de dizer que se fosse ia voltar com umas tres para casa.

Quem não conhece alguma mulher brasileira que tenha sido alvo de piadinhas do gênero no exterior? Quase a totalidade das mulheres brasileiras que viajam para a Europa e os Estados Unidos já foram vítimas deste tipo de humilhação.

Há quem não concorde com a influência negativa do turismo sexual e da prostituição sobre a imagem da mulher brasileira. Alex Castro, do LLL, por exemplo, tem uma posição bastante definida sobre o tema e já escreveu sobre ele algumas vezes. De suas avaliações, extraio os seguintes trechos como contraponto:

Claramente, nosso povo tem talento para o sexo e há grande demanda mundial pelos nossos serviços. Já ouvi diversos estrangeiros comentarem que não existe prostituta como a brasileira: ela é quente, gostosa, linda, sensual, calorosa, parece uma namoradinha, enquanto as européias são como frias máquinas, vapt-vupt, negócios são negócios, no relógia, nem tem graça, etc.
Ou seja, país do futebol: pode. Berçario de super-models: nosso orgulho nacional! Capital mundial da cirurgia plástica: só comprova a excelência da nossa medicina! Meca do turismo sexual: cruzes, que vergonha!, que problema!, vamos resolver essa 'questão'!
Mas a resposta à sua provocação é bastante óbvia: não, eu não gostaria que minha filha fosse prostituta, mas também não gostaria que fosse enfermeira, faxineira, engenheira, seringueira, advogada, pagodeira.

Trecho do artigo “A questão do turismo sexual

Ou seja, brasileiro ir pra Europa estudar filosofia: pode. Jogar pelada ou dar voltinhas na pista: herói nacional, Ayrton Senna do Brasilll-illll-illll!! Palestrar em Harvard: que orgulho temos do nosso ex-presidente estadista poliglota! Dar o cú: meu deus, estão sujando o nosso bom-nome, o que meus amigos espanhóis vão pensar de mim?!
Oras, se existe demanda e se fazemos bem, por que não dar o cú?

Trecho do artigo “A questão das prostitutas brasileiras no exterior

Como já deixei claro, não condeno de forma alguma quem vende o corpo como profissão. Disse e repito, acho que cada um tem o direito de fazer o que quiser da própria vida. No entanto, o fato de eu respeitar este direito não significa que eu acredite que ele é bom (para quem opta por ele e para os demais) ou correto. Da mesma forma, defendo a descriminalização das drogas - quem quiser usar que use - mas não considero que o consumo de muitos delas sejam uma escolha inteligente e que beneficie a alguém.

Sim, faço um paralelo entre prostituição e uso de drogas (aqui me refiro as drogas realmente impactantes como cocaína, crack, heroína etc). Tanto a droga quanto a prostituição destroem uma parcela do ser humano. A droga arrebenta aquele tino que nos leva a discernir entre o que é ou não passível de ser limitado em nosso convívio com o outro. Penso nisso sempre que me deparo com relatos de gente que agrediu parentes, que vendeu tudo para saciar o vício etc. A prostituição, por outro lado, banaliza o afeto, coloca no mesmo nível amor (seja com conotação sentimental ou sexual) e comércio, duas coisas incompatíveis.

Não concordo de forma alguma com o argumento de que a questão social é o motor de arranque da prostituição. Fosse assim estaríamos dizendo que não há opções, quando há. Quem escolhe sair do Brasil para se prostituir na Europa passa longe de ser um “excluído”. Trata-se de uma opção, que eu respeito, mas não compactuo. Sobre quem opta por se prostituir aqui no Brasil a questão é mais além. É claro que o fator social incentiva uma opção pela prostituição, mas não pode ser apontado como o fator preponderante para esta escolha.

Ao invés de olharmos a prostituição e pensarmos “ok, temos que ganhar dinheiro, vamos então incentivar nossas mães, irmãs, filhas e mulheres a fazer fila nos aeroportos para caçar gringos”, seria mais produtivo cobrar dos governantes o que eles deveriam fazer para que o País crescesse e gerasse mais empregos.

Sim, acho péssimo que o Brasil seja visto como paraíso para o turismo sexual, sim, acho péssima a opção pela prostituição.

O turismo sexual é uma praga que deve ser combatida com rigor e execrada pela sociedade. Faz com que a mulher se transforme em uma mercadoria (barata), cria profundos obstáculos para o entendimento e a vivência do afeto, cria a falsa imagem de que tudo é permissível na busca pelo sustento e, pior, cria um modelo a ser seguido por crianças e adolescentes.

O fato de a prostituição ser legal e liberada no Brasil não a exime de crítica e nem significa que seja algo bom. Na verdade o fato de ser legal ou liberado pouco importa. Não me atenho ao que é permitido pela sociedade, ou ao que o Estado julga melhor para quem quer que seja. Mas sim de respeito para consigo mesmo.

Voltando ao ponto principal do artigo e da enquête - o reflexo da prostituição e do uso da imagem da mulher com fins turísticos sobre a forma como a mulher brasileira é vista no exterior - os casos de brasileiras que passaram por constrangimentos são muitos. De forma alguma considero o sentimento destas mulheres como o reflexo de um moralismo pequeno-burguês ou retrógrado. Trata-se de uma reação legítima de quem não quer ser tratada como objeto de consumo, de quem quer ser respeitada pelo que é e não pelo que carrega no meio das pernas.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Fervor casto

Acabo de ler um texto maravilhoso de Leonardo Cruz sobre a hipocrisia por detrás do fanatismo e do golpismo religioso. O artigo, "Fervor casto" foi publicado dia 23 no blog do Lelec, A terceira margem do Sena, cujo acompanhamento recomendo a todos que buscam boa leitura na blogosfera.

Preconceito de opção sexual se reflete nas salas de aula

Um estudo da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) feito com 18,5 mil alunos, pais, professores, diretores e funcionários de 501 unidades de ensino de todo o país, aponta que 87% da comunidade escolar têm algum preconceito contra homossexuais, mostrando que a homofobia está fortemente presente nas escolas do país, afetando diretamente o desempenho dos alunos.

O preconceito contra os homossexuais nas escolas – mais forte em relação aos travestis e transexuais - foi corroborado recentemente por uma pesquisa feita pela socióloga e especialista em educação e violência, Miriam Abromovay. O estudo coordenado por ela e divulgado este ano indica que nas escolas públicas do Distrito Federal 44% dos estudantes do sexo masculino afirmaram que não gostariam de estudar com homossexuais. Entre as meninas, o índice é de 14%. A socióloga acredita que o problema não ocorre apenas no DF, mas se repete em todo o país.

Em entrevista à Agência Brasil, a coordenadora-geral de Direitos Humanos do Ministério da Educação (MEC), Rosiléa Wille, considera que o problema está na dificuldade das escolas em aceitar diferenças. “Você tem que estar dentro de um padrão de normalidade e, quando o aluno foge disso, não é bem-compreendido naquele espaço.”. O problema, no entanto, também é causado pelo despreparo dos profissionais da área, que misturam ao ensino e ao trato com os alunos seus valores pessoais – como a religião.

O debate incipiente sobre diversidade sexual nas escolas atinge também os materiais didáticos. Segundo pesquisa da doutora em psicologia Tatiana Lionço, da Universidade de Brasília (UnB), os livros usados em sala de aula pelos alunos da rede pública ignoram a temática da homossexualidade. Seu estudo, financiado pelo Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde e pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), analisou 67 das 99 obras mais distribuídas pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) - responsável por fornecer os materiais a todos os estudantes da educação básica da rede pública. “Falta diversidade”, opina.

Fora das escolas

Em maio, outra pesquisa apontou que um em cada quatro brasileiros tem preconceito contra homossexuais e assume sua rejeição às identidades que compõem esta população. A pesquisa “Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil: intolerância e respeito às diferenças sexuais”, realizada pela Fundação Perseu Abramo em pareceria com a Fundação Rosa Luxemburgo Stiftung, foi realizado entre os dias 7 e 22 de junho de 2008 em 150 municípios brasileiros e apontou que o grau de aversão ou intolerância aos transexuais atingia 24% dos entrevistados, travestis (22%), lésbicas (20%), gays (19%) e pessoas com Aids (9%).

A pesquisa centrou-se, então, no tema do preconceito contra LGBTs, a partir de conhecidas afirmações preconceituosas, formuladas para medir o grau de concordância ou discordância dos entrevistados:

84% concordaram que “Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel e tenham filhos

58% concordaram que “A homossexualidade é um pecado contra as leis de Deus

38% concordaram que “Casais de gays ou de lésbicas não deveriam criar filhos

29% concordaram que “Quase sempre os homossexuais são promíscuos

29% concordaram que “A homossexualidade é uma doença que precisa ser tratada

26% concordaram que “A homossexualidade é safadeza e falta de caráter

23% concordaram que a “Mulher que vira lésbica é porque não conheceu um homem de verdade

21% concordaram que “Os gays são os principais culpados pelo fato da Aids estar se espalhando pelo mundo” (neste último, embora 21% das pessoas entrevistadas tenham concordado plenamente, outros 12% concordaram em parte, o que alcança um índice de concordância de 33%. Há também um aumento em relação às outras perguntas se levado em conta os que afirmaram “concordar em parte”).

terça-feira, 21 de julho de 2009

Solcat desrespeita mulher brasileira, mais uma vez

Mais uma vez a Editora Solcat Ltda colabora para reproduzir no exterior uma imagem estereotipada da mulher brasileira, desta vez com a ajuda da justiça. A Justiça Federal negou pedido da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur) para tirar de circulação a revista Rio For Partiers (Rio para festeiros). O “guia turístico” se refere às brasileiras como "máquinas de sexo" e "popozudas" e classifica os bailes de carnaval como "atividades de semi-orgia".

A publicação diz ainda que as brasileiras podem ser classificadas em quatro tipos: "Britney Spears", "Popozuda", "Hippie/Raver" e "Balzac". As primeiras seriam as "filhinhas de papai", avessas a cantadas. As segundas, as "máquinas de sexo", com as quais, de acordo com a revista, "ir ao motel é sempre uma boa possibilidade". As "Hippies/Ravers" são definidas como garotas "difíceis de beijar", mas "fáceis de ir para a balada", enquanto as "Balzac" como as que, tratadas "como uma dama", retribuirá o companheiro tratando-o "como um rei, talvez não hoje à noite, mas amanhã com certeza".

A Embratur afirmou no pedido que a publicação usou de má fé o símbolo Marca Brasil, de promoção do turismo, e disse que o guia promove a exploração do turismo sexual, ao classificar as mulheres, além de violar a Política Nacional de Turismo. O juiz José Luis Castro Rodriguez, no entanto, negou o pedido, afirmando ainda que classificar as mulheres não afronta os "princípios norteadores da Política Nacional de Turismo ou violação à dignidade da pessoa humana" e não promove o turismo sexual.

Talvez o nobre juiz mude de idéia no dia que sua mãe, esposa ou filha for abordada por um turista com os adjetivos sugeridos pela Solcat.

Esta não é a primeira vez que a Solcat reduz a mulher brasileira a uma caricatura sexualizada. Já havia feito o mesmo em janeiro, em uma edição na qual recomenda que o turista não “tente pegar sua brasileira na praia", principalmente no fim de semana, além de aconselhá-lo a não tentar a abordagem na rua: “Tente derretê-la com uma aproximação suave. Tente começar a beijar o mais rápido possível”. Outra recomendação: o turista não deve insistir para ir a casa dela, e sim sugerir um passeio por onde estão os melhores motéis.

A Solcat segue uma tradição pouco honrosa da indústria do turismo brasileira que ainda responde pelas estratégias equivocadas das décadas de 70 e 80, quando o material oficial do turismo brasileiro – cartazes, folders, filmes publicitários e até a participação em congressos mundiais – passou a explorar a imagem da mulher, sempre em trajes sumários, expondo sua sensualidade inerente como um produto a ser consumido.

Falei a fundo sobre este tema no artigo “Toda brasileira é bunda?”.

Leiamais:
- Editora Solcat desrespeita mulheres brasileiras
- Toda brasileira é bunda?

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Em 2009, ignóbeis como a psicóloga Rozângela e o deputado-pastor Fonseca continuam apostando no obscurantismo

É uma doença. E uma doença que estão querendo implantar em toda sociedade. Há um grupo com finalidades políticas e econômicas que quer estabelecer a liberação sexual, inclusive o abuso sexual contra criança. Esse é o movimento que me persegue e que tem feito alianças com conselhos de psicologia para implantar a ditadura gay.”.

A análise medievalesca foi feita pela psicóloga Rozângela Alves Justino (na foto acima, exercendo seu preconceito) em entrevista ao jornalista Vinícius Queiroz Galvão, da Folha de São Paulo (aqui para assinantes da Folha). Rozângela é evangélica e participa do Movimento Pela Sexualidade Sadia (Moses), grupo ligado a igrejas evangélicas, que pretende “recuperar homossexuais” através da “palavra de Deus”. Em seu consultório, no Rio de Janeiro, ela oferece uma “cura” para os "doentes"... “Tudo que faço fora do consultório é permeado pelo religioso. Sinto-me direcionada por Deus para ajudar as pessoas que estão homossexuais”, afirma.

Rozângela arrisca ter o registro profissional cassado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), que há dez anos proíbe que a homossexualidade seja tratada como doença e recrimina a indicação de qualquer tipo de “tratamento” ou “cura”. O julgamento acontece no próximo dia 31, a pedido de associações gays endossada por 71 psicólogos de diferentes conselhos regionais.

Em 2004, reportagem da revista Época trouxe uma entrevista com o professor de inglês Sergio Viula, um dos fundadores do Moses. Viula chegou a ser pastor da Igreja Batista, casou-se e teve dois filhos, mas pouco depois assumiu sua homossexualidade. Segundo o ex-militante evangélico, o discurso do Moses é homofóbico e cruel: “Vendem uma solução, enchendo as pessoas de culpa. Ouvia relatos de sofrimento e tentava arrumar razões para a homossexualidade, sempre ligadas à desestruturação familiar ou a traumas. Era um absurdo. O discurso do Moses é homofóbico e cruel: ‘Jesus te ama, nós também, mas você precisa deixar de ser gay’. O homossexual continua sentindo desejo, mas com um pé no prazer e o outro na dor, com sentimento de culpa, medo, auto-rejeição. Criávamos uma paranóia na cabeça deles.”.

É este o pano de fundo do “tratamento” oferecido por Rozângela Alves Justino, que afirma ter “atendido e curado centenas de pacientes gays" em 21 anos de profissão; para quem a homossexualidade “é fruto de abusos sexuais ocorridos na infância”; que se sente “direcionada por Deus para ajudar as pessoas que estão homossexuais”.

Não é a primeira vez (e nem será a última) que pessoas ou grupos ligados à fé evangélica ou católica tentam atribuir à homossexualidade um caráter de doença. Em 2004, o deputado estadual e pastor evangélico carioca Édino Fonseca (então no PSC, hoje no PR) propôs que verbas públicas fossem usadas no “tratamento” de pessoas que "voluntariamente optarem por deixar a homossexualidade". No caso de menores, os pais poderiam escolher se a criança ou o adolescente deveria passar pelo “tratamento”. A excrescência foi rejeitada por 30 votos a 6.

Para Édino, a homossexualidade é um distúrbio psicológico. "Eu respeito o cidadão. Se ele quer ser gay, problema dele, vai acertar contas com Deus. Agora, aqueles que queiram ajuda para virar heterossexuais têm que ter tratamento psicológico garantido pelo Estado. Botaram na cabeça dele que ele é gay, o problema é psicológico, o governo tem que ajudar!", diz.

Ao comemorar – no dia 22 de março - os dez anos da resolução que orientou os psicólogos brasileiros a adotarem posturas que contribuam para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual, o presidente do CFP, Humberto Cota Verona, disse que “a resolução proíbe o psicólogo de tratar a escolha homoafetiva como um problema de saúde e muito menos oferecer tratamento e cura para isso”. Para Verona, o papel dos psicólogos não é o de reprimir esta opção, mas de fazer com que os homossexuais enfrentem o preconceito. “A psicologia tem ajudado essas pessoas a encarar esse sofrimento, a aprender a lidar com esse enfrentamento social da sua escolha.”.

O psicólogo Claudecy de Souza lembra que, sob o ponto de vista legal, a homossexualidade também não é classificada como doença no Brasil. “Sendo assim, os psicólogos não devem colaborar com eventos e serviços que se proponham ao tratamento e cura de homossexuais, nem tentar encaminhá-los para outros tratamentos. Quando procurados por homossexuais ou seus responsáveis para tratamento, os psicólogos não devem recusar o atendimento, mas sim aproveitar o momento para esclarecer que não se trata de doença, muito menos de desordem mental, motivo pelo qual não podem propor métodos de cura.”.

Souza reafirma o entendimento da Psicologia moderna, segundo o qual a homossexualidade é um estado psíquico. “O indivíduo homossexual não faz opção por ser homossexual. Ele apenas é e não pode, ainda que queira, mudar isso. Ele pode sim, fazer uma opção no sentido de negar esse impulso e tentar viver como heterossexual. Mas isso tem um impacto negativo para o pleno desenvolvimento emocional do indivíduo. Trata-se de uma situação muito mais comum do que se imagina. O impulso sexual que um heterossexual tem por sua parceira é o mesmo que um homossexual tem por seu parceiro do mesmo sexo. O que muda é o objeto.”, explica.

Em dezembro de 1973, a Associação Psiquiátrica Americana (APA) aprovou a retirada da homossexualidade da lista de transtornos mentais, deixando de considerá-la uma doença. Em 1985, o Conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) retirou a homossexualidade da condição de desvio sexual. Nos anos 90, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), onde são identificados por códigos todos os distúrbios mentais - e que serve de orientador para classe médica, principalmente para os psiquiatras - também retirou a homossexualidade da condição de distúrbio mental. Em 1993, a Organização Mundial de Saúde (OMS) deixou de utilizar o termo "homossexualismo" (que da idéia de doença), adotando o termo homossexualidade. Em 22 de março de 1999 o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou nacionalmente uma resolução estabelecendo normas para que os psicólogos brasileiros contribuam, através de sua prática profissional, para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual. Em 2009, ignóbeis como a psicóloga Rozângela Alves Justino e o deputado-pastor Édino Fonseca continuam apostando no obscurantismo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Imprensa precisa ajustar o foco ao tratar da homossexualidade

Amanhã - sábado, 27 - acontece em Campo Grande (MS) a abertura do V Encontro Regional das Travestis e Transexuais da Região Centro-Oeste. Parte do Programa Nacional de DST e Aids (PN), o evento vai tratar de assistência social, emprego, trabalho e previdência social. Vem em boa hora, já que Campo Grande foi marcada no ano passado por um lamentável episódio de intolerância em plena Câmara Municipal, quando, devido à atuação da bancada católica e evangélica da Casa, foi negada à Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS) a concessão do título municipal de utilidade pública.

O brasileiro cultiva o germe da intolerância. Por mais que rejeitemos o rótulo, ele está estampado em nossa sociedade e é visto com mais clareza em pesquisas, como a que foi encomendada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (do MEC), segundo a qual 99,9% dos entrevistados têm algum tipo de preconceito e mais de 90% gostariam de manter algum nível de distanciamento social dos portadores de necessidades especiais, homossexuais, pobres e negros. Em maio, outra pesquisa apontou que um em cada quatro brasileiros tem preconceito contra pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneras (LGBT) e assume sua rejeição às identidades que compõem esta população.

São números alarmantes, que podem ser inflados com uma postura dúbia sobre o tema por parte da mídia – como apontou a jornalista Ligia Martins Almeida no artigo “A mídia e o preconceito contra os homossexuais”. No episódio que envolveu a ATMS e o legislativo municipal campo-grandense, a abordagem da imprensa foi morna, não esmiuçou o tema sob o ponto de vista da homofobia – mesmo diante do fato de a Câmara ter negado a concessão do título sem base ou argumento técnico que corroborasse a decisão.

O jornalista Irineu Ramos, que desde 2003 estuda a sexualidade e o gênero na mídia, desenvolveu em sua tese de mestrado uma análise do telejornalismo na cobertura da 11ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em 2007. Ele concluiu que das 48 reportagens sobre o evento, mais de 30 usavam abordagens pouco apropriadas sobre os homossexuais. Em entrevista ao site A Capa, ele fez a seguinte análise sobre a Parada Gay deste ano: “Como nos anos anteriores a mídia se prendeu em questões concretas, como o aumento nas vendas no comércio, lotação de hotéis, violência e nada mais. Há uma dificuldade significativa da grande imprensa em abordar as questões subjetivas das sexualidades. A grande imprensa reproduz um discurso heterocentrado e não deixa nenhum espaço para as diferenças de gênero.”.

Para ele, “a grande imprensa não se permite ir um pouco mais a fundo nas questões envolvendo a homossexualidade”.

Referindo-se as duas ocorrências de violência durante o evento neste ano, Irineu afirmou que a imprensa insiste em navegar por águas rasas quando aborda temas relacionados aos homossexuais: “A grande imprensa poderia pegar o gancho da bomba e explorar a questão da homofobia, com se forma isso no indivíduo, o que está por trás desta agressão, a conseqüência disso nas pessoas vítimas de homofobia etc. Mas não, restringiu tudo a uma questão policial.”. A mesma relação pode ser feita com a reação da imprensa sul-mato-grossense frente a flagrante homofobia patrocinada pela Câmara Municipal de Campo Grande contra a ATMS.

O jornalista carioca André Fischer, dono da marca Mix Brasil, vê melhoras nesta relação entre mídia e o universo LGBT, mas considera que há ainda um longo caminho a ser trilhado. Em janeiro, em entrevista ao Escrevinhamentos, citou a abordagem sobre o tema nas novelas: “É lá que esta discussão aparece de forma mais clara. Talvez, o melhor exemplo do tratamento dado pela mídia à questão esteja no tabu do beijo gay na tevê. A Globo é uma emissora comercial que é simpática aos gays, sempre retrata personagens gays em novelas de maneira positiva, mas tem um receio de ir além disso.”.

No último dia 12, durante um evento que reuniu profissionais de imprensa em São Paulo, a abordagem da homossexualidade nas redações foi um dos temas discutidos. Apesar de a maioria dos integrantes da mesa ter garantido que não há preconceito nas redações em relação ao enfoque de temas que envolvem o mundo LGBT, Ivan Martins - editor executivo da revista Época – afirmou: "Dizer que não há preconceito na redação é mentira. Existe uma pressão por parte de quem edita a revista para que abordemos pautas mais 'normais'. A grande imprensa ainda não sabe lidar com o tema".

Totalitarismo?

Esta postura negligente da mídia em relação ao preconceito de gênero e de opção sexual não é novidade, como aponta Victor Barroco no artigo “Mídia brasileira ignorou rebelião de Stonewall”, e surgiu novamente no dia 1º de junho, quando os jornais A Tarde, O Globo, Estado de S. Paulo e Gazeta do Povo publicaram o artigo Totalitarismo e Intolerância, do jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco, que ataca as políticas públicas para o combate à homofobia no Brasil.

Di Franco critica medidas que integram o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), documento firmado por representantes de 18 ministérios do governo Lula, entre elas a inclusão nos livros didáticos de temáticas relacionadas a famílias compostas por lésbicas, gays, travestis e transexuais; a recomendação da implantação de cursos de capacitação para evitar a homofobia nas escolas e pesquisas sobre comportamento de professores e alunos em relação ao tema.

Sustenta Di Franco: “os governos, num espasmo de totalitarismo, querem impor à sociedade um modo único de pensar, de ver e de sentir. Uma coisa é o combate à discriminação, urgente e necessário. Outra, totalmente diferente, é o proselitismo de uma opção de vida. Não cabe ao governo, com manuais, cartilhas e material didático, formatar a cabeça dos brasileiros.”. Segundo ele, “tal estratégia tem nome: totalitarismo”, e vai além: “O governo deve impedir os abusos da homofobia, mas não pode impor um modelo de família que não bate com as raízes culturais do Brasil e sequer está em sintonia com o sentir da imensa maioria da população.”.

É verdade, o governo não pode impor um modelo de família. No entanto, dizer que é isso o que ocorre a partir das diretrizes propostas pelo Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT seria um contra-senso caso a afirmação viesse como simples opinião em um artigo. Mas é apavorante vindo de uma pessoa que – como aponta Leandro Colling no artigo “Opus Dei ataca homossexuais e os jornais dizem amém“ – “presta ou prestou assessoria a vários jornais brasileiros, inclusive para aqueles que publicaram seu texto claramente homofóbico”.

Colling lembra, ainda, que – segundo a revista Época – Di Franco já treinou mais de 200 editores brasileiros. “Talvez por isso não devamos estranhar a qualidade de nossos periódicos na atualidade”, espeta, e lembra: “Também fico a imaginar o que esse professor de ética está ensinando aos seus alunos. Seria ele mais ético se assinasse seus textos como representante da Opus Dei no Brasil.”.

Ora, um membro ativo da Opus Dei criticando a imposição de modelos de família é, no mínimo, muito estranho.

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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um em cada quatro brasileiros tem preconceito contra pessoas LGBT

Um em cada quatro brasileiros tem preconceito contra pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneras (LGBT) e assume sua rejeição às identidades que compõem esta população, revelou a pesquisa “Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil: intolerância e respeito às diferenças sexuais”, realizada pela Fundação Perseu Abramo em pareceria com a Fundação Rosa Luxemburgo Stiftung, e apresentada pelo sociólogo da USP Gustavo Venturi, no Rio de Janeiro, no último dia 15, durante lançamento da pesquisa na Academia de Polícia do Rio de Janeiro (ACADEPOL).

O estudo foi realizado entre os dias 7 e 22 de junho de 2008 em 150 municípios brasileiros. Foram feitas 2014 entrevistas domiciliares, com aplicação de questionários estruturados, somando 92 perguntas. A primeira delas buscou medir o grau de aversão ou intolerância a diversos grupos sociais, como gente que não acredita em Deus (42%), usuários de drogas (41%), garotos de programa (26%), transexuais (24%), travestis (22%), fanáticos religiosos (22%), ex-presidiários (21%), gente muito rica (20%), lésbicas (20%), gays (19%), pessoas com Aids (9%), judeus (11%), muçulmanos (10%) e índios (2%), entre outros.

A partir daí a pesquisa centrou-se no tema do preconceito contra LGBTs, a partir de conhecidas afirmações preconceituosas, formuladas para medir o grau de concordância ou discordância dos entrevistados:

84% concordaram que “Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel e tenham filhos

58% concordaram que “A homossexualidade é um pecado contra as leis de Deus

38% concordaram que “Casais de gays ou de lésbicas não deveriam criar filhos

29% concordaram que “Quase sempre os homossexuais são promíscuos

29% concordaram que “A homossexualidade é uma doença que precisa ser tratada

26% concordaram que “A homossexualidade é safadeza e falta de caráter

23% concordaram que a “Mulher que vira lésbica é porque não conheceu um homem de verdade

21% concordaram que “Os gays são os principais culpados pelo fato da Aids estar se espalhando pelo mundo” (neste último, embora 21% das pessoas entrevistadas tenham concordado plenamente, outros 12% concordaram em parte, o que alcança um índice de concordância de 33%. Há também um aumento em relação às outras perguntas se levado em conta os que afirmaram “concordar em parte”).

A pesquisa mediu ainda o grau de tolerância para a convivência com gays e lésbicas nas relações de trabalho e vizinhança, nas relações pessoais, com médicos e com professores.

Ao medir o grau de tolerância entre os pais, 72% afirmaram que não gostariam de ter um filho gay, mas procurariam aceitar, enquanto 7% afirmaram que o expulsariam de casa.

O estudo enfocou ainda o preconceito assumido versus o chamado preconceito velado. Embora entre 69% e 72% das pessoas entrevistadas tenham afirmado não ter preconceito contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, 26% admitiram preconceito contra o primeiro grupo, 27% contra o segundo e o terceiro e 29% contra os dois últimos.

Ao medir o índice de homofobia por sexo (um para cada 3 homens e uma para cada 5 mulheres), o estudo dá conta de que os homens são mais homofóbicos do que as mulheres.

Entre os LGBTs, foi perguntado como estes se sentem em relação a sua identidade sexual: 65% afirmaram se sentir à vontade, 26% orgulhosos. Perguntados se alguma vez já sofreram discriminação, 22% afirmaram já terem sido discriminados pelos pais, 27% na escola, 31% na família, 24% por amigos, 11% por policiais na rua, 9% por policiais na delegacia e 7% por professores.

Para o antropólogo Sergio Carrara (IMS/CLAM), a pesquisa pode ser lida como uma espécie de termômetro de como as cosias estão acontecendo no Brasil atual. “Os dados revelam a presença forte da homofobia, mas também revela uma sociedade mais tolerante. Podemos olhar esses dados com um pouco mais de otimismo”, analisou.

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