Semana On

Mostrar mensagens com a etiqueta política. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta política. Mostrar todas as mensagens

domingo, 23 de dezembro de 2012

Marco Maia: o alcoviteiro

Marco Maia: o alcoviteiro
Ao cogitar acoitar deputados condenados presidente da Câmara expõe seu lado totalitário

O presidente da Câmara Federal, deputado Marco Maia (PT-RS), pirou de vez. Em um típico arroubo de quem enxerga no estado democrático de direito apenas uma janela de oportunidade para exercer interesses privados ou político-partidários, afirmou que não descartava a possibilidade de oferecer “abrigo” no prédio da Casa aos parlamentares condenados no mensalão, caso a prisão imediata deles fosse decretada pelo ministro Joaquim Barbosa.

Sim, ele poderia fazer isso, já que o pedido de prisão só poderia ser cumprido no prédio com autorização da Polícia Legislativa.

Marco Maia parece enxergar a coisa pública como esfera particular ao cogitar tamanho absurdo. Pior, em um jogo de palavras obsceno, tentou construir um argumento segundo o qual a possibilidade de a Câmara abrigar criminosos condenados pela mais alta corte de justiça do País seria um ato democrático. "Em regimes totalitários e autoritários, a primeira coisa que se faz é atacar o Parlamento”, disse, distorcendo a questão.

Nos pensamentos estapafúrdios, na mente confusa de integrantes de um setor da esquerda, ainda viceja a teoria de que os mensaleiros condenados foram vítimas de uma grande armação coordenada pela “mídia golpista”, pela CIA e pelo Tio Sam. Vivem em um mundo de ilusão no qual toda e qualquer ignomínia contra o erário público lhes é permitida diante do “bem maior” (suas contas bancárias, certamente), imaginam-se acima do bem e do mal. Não percebem que a aura de "santidade" que os envolvia e que emcobria seus muitos descalabros esmaeceu.

Dos três deputados condenados, apenas João Paulo Cunha deve ir para o regime fechado, já que foi condenado a 9 anos e 4 meses de prisão. Pedro Henry (PP), que foi sentenciado a 7 anos e 2 meses, e Valdemar da Costa Neto (PR-SP), condenado a 7 anos e 10 meses, devem cumprir a pena em regime semiaberto.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel – uma ilha de lucidez em meio à tormenta obscurantista que tenta tragar o Governo Dilma – pediu a prisão imediata dos três, e dos demais réus condenados no processo do mensalão, entre eles o de José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil e homem forte do primeiro governo Lula.

Enquanto este artigo era escrito, o ministro Joaquim Barbosa optava por negar o pedido de Gurgel. O assunto seria letra morta nesta página. No entanto, a simples cogitação por parte do presidente da Câmara Federal da possibilidade de patrolar a decisão do Supremo Tribunal Federal mostra até que ponto a banda podre da esquerda brasileira é capaz de ir para defender seus próprios interesses.

Não se enganem, estes que maculam a bandeira de um partido construído sobre as esperanças de uma nação, são capazes de incitar os mais humildes e desinformados a demonstrações de força em prol de seus mais sórdidos interesses privados, em apoio a um projeto político que de republicano tem bem pouco, ou quase nada.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Ridículos tiranos

Ridículos tiranos
Não se enganem, não há bons moços na política partidária. Ela se transformou em um lodaçal

Não há outro tema nesta semana que mereça mais figurar neste espaço do que a sordidez com que os 21 vereadores da Câmara Municipal de Campo Grande aprovaram, no apagar das luzes, na surdina, o aumento de seus próprios salários em 61,9%.

O presidente da Casa, vereador Paulo Siufi (PMDB) havia garantido aos cidadãos que foram à Câmara protestar contra este reajuste imoral que a votação seria divulgada previamente. Mentiu.

Incrível perceber que apesar de milhares de manifestações indignadas que pulularam pelo Facebook (apenas uma postagem da Semana Online – veja aqui – foi compartilhada quase 1700 vezes), nenhum vereador se dignou a dar uma resposta à população.

Estes, que usam as mídias sociais para fazer proselitismo de suas parcas ações parlamentares e de suas vastas papagaiadas assistencialistas, não se dignaram a escrever uma linha sequer como resposta aos eleitores. São estes os que têm a certeza absoluta de que o eleitor esquecerá este acinte em poucos dias.

Infelizmente eles têm razão. A imensa maioria das pessoas terá esquecido nas próximas semanas tudo o que ocorreu. Restará apenas uma vaga sensação de impotência, um tênue desgosto que se revelará sempre que a palavra política for proferida.

É deste esquecimento, desta inércia, que sobrevivem os políticos profissionais que se apossaram de nossas instâncias políticas. É dela, desta pasmaceira, desta quase tristeza cívica, que eles tiram o sustento para solapar a cada dia a nossa cidadania.

Não se enganem, não há bons moços na política partidária. No Brasil, ela se transformou em um lamaçal no qual chafurdam os imorais de caráter, no qual os bem intencionados desmoronam num piscar de olhos. Esqueçam os bons moços, esqueçam as promessas de oportunidade.

Enquanto a reforma política mofa nas gavetas e se transfigura em arremedos que vão sendo acordados entre os poderosos de modo a que tudo continue como é, vai surgindo um novo campo para a práxis política. Esta nova ágora é digital, anárquica, uma babel.

As redes sociais vão propiciar uma transformação no modo como o cidadão se relacionará com seus representantes. Não, esta revolução ainda não está acontecendo de fato. Estamos arranhando a superfície.

Mas chegará o dia em que a sociedade civil organizada irá aplicar, por meio da rede, ao menos em parte, a democracia direta que alguns trazem na ponta da língua mas que temem aplicar, temerosos por perder suas benesses. É inevitável.

Neste dia, iremos olhar para trás e ficaremos estupefatos com o passado, quando permitiamos que um grupo de cidadãos apontados por nós mesmos para representar-nos nas instâncias políticas se transformassem em ridículos tiranos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Eles merecem 66% de aumento?

Eles merecem 66% de aumento?

"Na fantasia em que vivem os vereadores, reajuste salarial deve ser decidido sem o aval do eleitor"

No mundo real, os trabalhadores tem todo o direito de reivindicar reajustes salariais. Para isso, organizam-se em sindicatos com o fim de fortalecer suas demandas frente às entidades patronais. Trazendo para o microcosmo das relações interpessoais, um aumento salarial é algo a ser negociado diretamente com o patrão, com base em argumentos vários, em especial a excelência do trabalho de quem pleiteia o aumento.

No mundo de fantasia em que vive o grosso dos vereadores de Campo Grande (MS), reajuste salarial é algo a ser definido de acordo com seu próprio interesse, em reuniões fechadas, sem o aval de quem por direito deveria ser tratado como patrão: o povo. Acontece que a contribuição que a maior parte deste pessoal dá à comunidade é rasteira. Eles não merecem aumento salarial. Recente reportagem da Semana Online mostrou isso claramente (veja aqui).

Entre janeiro de 2011 e maio 2012 a engrenagem que faz funcionar o legislativo municipal consumiu R$ 55.936 milhões. Em média, os vereadores campo-grandenses custam R$ 1.942.857,00 por ano aos cofres públicos, incluindo a ajuda de custo nas férias - de R$ 9.288,00 para cada vereador - por recesso. Seguindo a metodologia do site “Excelências.org”, que mapeia o custo individual por parlamentar, no período citado cada um dos 786.797 campo-grandenses gastou R$ 71,09 para custear o trabalho dos seus vereadores.

Toda vez que um vereador resolve homenagear fulano, dar o nome de uma rua a sicrano ou conceder uma honraria a beltrano, esta ação custa ao bolso do trabalhador campo-grandense uma pequena fortuna que, somada ao custo de manutenção dos nobres vereadores, acaba levantando dúvidas sobre se eles realmente valem o salário que recebem.

De janeiro de 2011 até o início de maio de 2012, os vereadores de Campo Grande fizeram o que de melhor fazem: apresentaram projetos que distribuíram 117 medalhas de mérito advocatício, títulos de visitante ilustre e de cidadão campo-grandense. Cada um destes mimos custou aos cofres públicos R$ 111.872,00.

Isso ocorre, pois, para estes vereadores, a população é mera coadjuvante. Um apêndice, um incômodo a ser tolerado nas parcas audiências públicas; claque a ser explorada nas muitas sessões solenes, homenagens e distribuições de medalhas que, como ninguém, eles sabem organizar e divulgar.

Por isso, quando a sociedade se organiza e levanta sua voz contra absurdos como o aumento salarial de 66% que os vereadores campo-grandenses pretendem votar em dezembro, nossos representantes se sentem acuados, atacam ao invés de ouvirem a voz das ruas.

Foi o que aconteceu no último dia 29, quando integrantes do grupo Movimento Voluntário foram tratados com desdém na Câmara. O movimento - formado por cidadãos indignados com o aumento proposto pelos vereadores a si próprios - representa uma imensa massa silenciosa que refuta este reajuste absurdo que, embora legal, é imoral.

domingo, 25 de novembro de 2012

Controle social da mídia?

Controle social da mídia?
"Este tipo de instância reguladora é incompatível com a liberdade de expressão"

A Constituição de 1988 deixou vários artigos sem regulamentação, muitos deles na área de comunicações. No Legislativo Federal, essa regulamentação vem sendo empurrada com a barriga durante as últimas décadas, seja por covardia de encarar um tema tão complexo, seja por falta de capacidade de abordá-lo e debate-lo, ou por simples descaso.

Enquanto isso, a sociedade fica a mercê da desinformação. Quando falam em “regulação da mídia”, setores da sociedade têm colocado na mesma panela a necessidade indiscutível de um marco regulatório das comunicações e a funesta ameaça de interferência em conteúdos jornalísticos. Estes temas não são a mesma coisa. Pelo contrário, são muito diferentes.

Não se questiona em debates sérios a necessidade de combater a propriedade cruzada de meios de comunicação. Este combate é necessário e salutar para a democracia.

Nos EUA, por exemplo, uma empresa não pode ser proprietária de uma emissora de rádio ou TV e de um jornal na mesma cidade. Na França, é vedada a propriedade de mais do que duas empresas de TV com 4 milhões de telespectadores, ou de duas emissoras de rádio com audiência potencial acima de 30 milhões de ouvintes, ou ainda de jornais com mais de 20% de participação no mercado.

Estes mecanismos devem ser discutidos pela sociedade e implementados no Brasil. O problema é que, no rastro desta necessidade, mal intencionados têm tentado inserir no debate questões ideológicas como o malfadado “controle social da mídia”.

Esse tipo de instância reguladora é incompatível com a liberdade de expressão. Um conselho ou um órgão fiscalizador nos termos do que tem sido proposto por setores do Governo Federal e do PT implicará em interferência nos conteúdos jornalísticos, o que fere frontalmente o princípio da liberdade de expressão previsto na Constituição. O controle social já existe, nos termos da Constituição e de toda a legislação. Há o direito de resposta e a legislação sobre danos morais. E o Poder Judiciário para julgar questões relacionadas ao direito de resposta e à legislação sobre danos morais.

Um dos pilares da convivência democrática é o de que ninguém tem o direito de determinar aos outros o que é mais ou menos adequado para ser dito, para ser expresso. Numa democracia, todos são absolutamente livres para expressar aquilo que querem, sem nenhuma limitação prévia. Isso não significa impunidade, pois nos casos de mentira ou calúnia, sempre haverá a possibilidade da punição posterior. 

Um órgão regulador da mídia pode acarretar em censura porque agirá necessariamente de acordo com o que pensam os seus integrantes, com suas convicções e ideologia. Eles terão o poder de julgar que tal ou qual informação ou opinião é mais ou menos adequada. Para evitar esse dirigismo é que existe a plena liberdade de expressão, sem nenhum controle prévio, mas com eventuais penalidades posteriores.

Recado dado?

Recado dado?
"População rejeita vereador que legisla em causa própria e diz não ao aumento de 66% "

Vereadores não são remunerados em boa parte do mundo. Em algumas cidades, eles recebem apenas um auxílio financeiro simbólico. Em outras, no entanto, a atividade pode exigir dedicação exclusiva e remunerada. Umm vereador de Los Angeles, Estados Unidos, por exemplo, ganha em média R$ 24 mil por mês. Isso representa 116% a mais do que o salário de um vereador de São Paulo ou do Rio de Janeiro, que, hoje, recebe R$ 9 mil mensais.

Na Cidade do México, o cargo de vereador é honorário e não existe nenhum tipo de contribuição. Há cerca de 1,8 mil comitês de bairros, organizados em torno de nove vereadores nomeados para servir durante três anos. Enquanto um assalariado médio americano ganha R$ 3,9 mil por mês, um vereador nova-iorquino recebe R$ 16 mil, ou seja, 7 vezes mais. A Câmara é composta por 51 membros e o cargo não exige dedicação exclusiva.

Na capital da Suécia, Estocolmo, o salário de um vereador é apenas uma ajuda de custo, cerca de R$ 350. Se ele fizer parte de um comitê, pode subir para R$ 790. O valor representa apenas 10% da renda de um assalariado médio sueco, que ganha R$ 7,5 mil mensais. Em Paris o salário varia muito, porque depende do tamanho da área da cidade em que o vereador atua. Mesmo oscilando, o valor é próximo do salário médio de um francês, que ganha R$ 5 mil mensais.             

Enquanto o salário médio de um canadense é R$ 5,2 mil por mês, um vereador de Toronto, a maior cidade do país, ganha R$ 4,3 mil. A lei não determina uma carga horária a cumprir, mas a função exige dedicação exclusiva.

Em Campo Grande (MS), onde – como em todo o país – o cargo de vereador não exige dedicação exclusiva, os parlamentares pretendem conceder-se um módico aumento salarial até dezembro. Hoje, eles ganham R$ 9,2 mil por mês. Querem passar a ganhar R$ 15 mil. Um reajuste de 66%.

Trata-se de uma afronta, quando sabemos que este reajuste será nove vezes maior do que o anunciado para o trabalhador comum, que deve ter 7% de aumento em 2013, quando o salário mínimo passará a R$ 667,75.

É preciso muita "coragem" para buscar argumentos que justifiquem um reajuste tão escandaloso. Dizer que o salário de um vereador pode ser calculado em até 75% do salário de um deputado estadual e que, por isso, o reajuste seria legal é fazer uma brincadeira perigosa com a paciência da população.

O fato é que a população rejeita o vereador que legisla em causa própria. Em uma enquete (aqui) feita entre seus leitores no Facebook - entre o dias 28 de outubro e 1º de novembro - a revista Semana Online pode mensurar isso de forma clara. Dos 1.726 leitores que responderam à enquete neste período, 1.520 (88.1%) se disseram contra o aumento. Apenas 108 participantes (6.3%) concordam com o reajuste e 97 (5.7%) disseram não ter opinião formada. Recado dado?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Che Guevara: uma biografia - Jon Lee Anderson



O anjo e o demônio

“Ali, onde o amor desperta, morre o eu, déspota sombrio”

O ser humano é multifacetado e esta é a beleza da humanidade Não somos nem anjos e nem demônios, mas um amálgama de desejos, sonhos e ações. Ainda assim, tendemos a cair na armadilha do maniqueísmo. A forma como analisamos a vida e a morte do revolucionário argentino Ernesto “Che” Guevara é um exemplo disso.

Quarenta e cinco anos após sua execução na Bolívia, sua imagem ainda divide opiniões, apaixonadamente. Endeusado por setores da esquerda como exemplo da pureza socialista, de homem de bem. Execrado por setores da direita como um assassino sanguinário, personificação do mal. Ambas as leituras deixam de lado o ser humano Ernesto. Menino, adolescente, homem repleto de virtudes e de defeitos, desejos e esperanças.

A maioria das obras sobre sua vida é formada por hagiografias oficiais cubanas ou demonizações montadas por inimigos políticos. É fato que Che encarnou todo o horror proveniente da cegueira ideológica que justifica os atos mais monstruosos em nome de uma causa superior, de uma verdade absoluta. É fato, também, que abriu mão de tudo o que estimava para lutar e morrer em um campo de batalha estrangeiro tendo em mente a construção de um mundo melhor.

Fruto de um trabalho hercúleo do escritor Jon Lee Anderson, o livro “Che Guevara: uma biografia” – cuja edição revisada foi lançada recentemente e cuja leitura finalizei esta semana – aborda com maestria esta dicotomia em uma viagem fascinante pela vida e pensamento de Che.

O livro de Anderson nos leva a uma jornada que aponta os caminhos que concretizaram a formação de seu caráter e, posteriormente, a construção de sua base político-ideológica que desagua em uma série de acontecimentos que transformaram um jovem argentino de classe privilegiada em um revolucionário internacional, revelando, ainda, como, no choque entre a bigorna e o martelo, surgiu um homem apaixonado por uma ideia e disposto a matar e morrer por ela.

Confrontado pelas marcantes diferenças sociais com que se deparou em suas andanças pelas Américas do Sul e Central na década de 50, e pela constante e despótica ingerência norte-americana na região durante o início da Guerra Fria, Che alimentou pouco a pouco uma concepção de mundo na qual o enfrentamento entre as massas exploradas do continente e o imperialismo norte-americano seria inevitável. Posteriormente, esta concepção encontrou o respaldo teórico no marxismo e, em última instância, na luta armada.

Para Che, a política era um mecanismo para as mudanças sociais e eram elas, e não o poder em si, que o impeliam. Mas é exatamente na manipulação prática do poder, em uma opção ideológica focada no marxismo, que repousa o principal equivoco de Che (e dos demais movimentos revolucionários de esquerda que irromperam no entre as décadas de 60 e 70): a supressão do indivíduo e da individualidade pela força e pela coerção, a adoção da “fé socialista” em detrimento das mais básicas noções de humanidade. Em suas próprias palavras: “Não lhe posso dizer, nem aproximadamente, em que momento deixei o caminho da razão e adotei algo parecido com a fé, porque o caminho foi muito longo e com muitos passos para trás.”.

Este caminho, cujo início é marcado por “Nota al Margen”, texto escrito por Che em Buenos Aires retratando suas experiências na Guatemala, levou-o a uma encruzilhada que, alguns anos depois, culminou em sua morte.

“O futuro pertence ao povo e, pouco a pouco, ou de um só golpe, ele vai tomar o poder, aqui e no mundo inteiro. O ruim é que eles têm de se civilizar e isso não pode acontecer antes, mas só depois que tomarem o poder. Eles se tornarão civilizados somente aprendendo às custas de seus próprios erros, que serão graves, e que custarão muitas vidas inocentes. Ou talvez não, talvez não sejam inocentes, porque terão cometido o imenso crime contra natura, que significa sua falta de capacidade de se adaptar. Todos eles, todos os que não forem adaptáveis, você e eu, por exemplo, morrerão amaldiçoando o poder que nós, com enorme sacrifício, ajudamos a criar”.

O texto acima é a primeira expressão de Che da abstração do “eu” em prol do “nós”. Ocorre que não existe “nós” sem o “eu”.

“Quando a sociedade chega a certo estágio de desenvolvimento e é capaz de iniciar a dura luta de destruir o poder opressor, de destruir seu braço forte, o Exército, e de tomar o poder, então o homem recupera uma vez mais a antiga sensação de felicidade no trabalho, a felicidade de cumprir com um dever, de se sentir importante dentro do mecanismo social. Torna-se feliz por se sentir um dente na engrenagem, um dente que tem suas próprias características e é necessário, embora não indispensável, para o processo produtivo, um dente consciente, um dente que tem seu motor próprio, e que tenta conscientemente esforçar-se mais e mais a fim de levar a um feliz desfecho uma das premissas da construção do socialismo: a criação de uma quantidade suficiente de bens de consumo para toda a população.”

O hábito de Che de se referir ao povo, aos trabalhadores, como peças de maquinaria permite vislumbrar seu distanciamento emocional da realidade individual. Ele tinha a mentalidade friamente analítica do pesquisador médico e do jogador de xadrez. Os termos que empregava para os indivíduos eram redutores, enquanto o valor do trabalho no contexto social era idealizado, apresentado liricamente.

Em carta a mãe, disse: “A noção do ‘eu’ desapareceu inteiramente, para dar lugar a noção do ‘nós’. Era um ponto da moral comunista e, naturalmente, pode parecer um exagero doutrinário, porém realmente foi (e é) maravilhoso ser capaz de sentir a remoção do ‘eu’”.

“Che Guevara agora estava em guerra, tentando criar uma revolução. Fizera um salto consciente de fé e entrara em um domínio no qual se podiam tomar vidas por um ideal e os fins de fato justificavam os meios. As pessoas não eram mais apenas pessoas. Cada uma representava um lugar dentro de um esquema global das coisas e poderia ser vista, na maioria das vezes, como amiga ou inimiga”, reflete Anderson.

Che abraçara a revolução como a encarnação definitiva das lições da história e como o caminho correto para o futuro. Agora, convencido de que estava certo, olhava em volta com os olhos de um inquisidor em busca daqueles que poderiam pôr em perigo sua sobrevivência.

É exatamente este ponto da personalidade de Che, a capacidade abstrair-se do indivíduo, da micro-humanidade, em prol de uma visão macro do homem é que mais me fascina, de uma forma negativa, porém. Seu pai, geralmente tão míope em relação ao filho, escreveu: “Ernesto tinha brutalizado sua própria sensibilidade” para se tornar um revolucionário.

Alberto Granado – que percorreu a América Latina com Che em 1952 - recordou uma conversa em que assinalou o que, na sua opinião, era a diferença fundamental entre os dois. Che era capaz de olhar pela luneta de um fuzil para um soldado e puxar o gatilho, sabendo que, ao mata-lo, estava “salvando 30 mil futuras crianças de viver na fome”, enquanto ele, Granado, veria um homem com esposa e filhos.

Este afastamento da realidade – mesmo que em prol de um ilusório bem maior – é o grande símbolo dos totalitarismos de esquerda, a vala na qual todas as experiências do socialismo real atolaram e sucumbiram.

O trecho a seguir é um exemplo da frieza cortante do revolucionário.

-

Alguns dias depois, os irmãos testemunharam um exemplo da justiça sumária de Che. Enrique Acevedo relembrou essa ocasião de forma vívida: “De madrugada, trouxeram um homem grande, com uma farda verde, cabeça raspada como os militares, bigodes grandes: é [René] Cuervo, que anda causando encrencas na zona de San Pablo de Yao e de Veja la Yua. Cometeu abusos sob a bandeira do 26 de Julho (...). Che o recebe deitado na rede. O prisioneiro lhe estende a mão, mas não encontra resposta. O que dizem não chega aos nossos ouvidos, embora se perceba que o tom é duro. Parece ser um julgamento sumário. No final, [Che] o manda embora com um gesto de desprezo com a mão. Levam-no para uma ravina e o executam com um rifle de calibre 22, tendo que dar três tiros. [Finalmente] Che salta da rede e berra: Basta!

-

A banalização da vida também é marcada por este trecho do diário de Che no qual ele se admoesta por uma “fraqueza” durante os combates. “Houve um pequeno combate e recuamos com muita rapidez. A posição era ruim e eles nos cercavam, mas oferecemos uma pequena resistência. Pessoalmente, notei algo que nunca sentira antes: a necessidade de viver. Isso precisa ser corrigido na próxima oportunidade.”.

Ora, nada mais amedrontador. Um homem capaz de suprimir sua própria necessidade de viver, fatalmente ampliará esta exigência aos demais. Não seria incorreto imaginar que Fidel Castro usou esta faceta de Che para que o argentino fizesse o trabalho sujo enquanto Castro tratava de assegurar sua liderança frente aos muitos grupos políticos envolvidos na vitória da revolução sob a bandeira do Movimento 26 de Julho.

Para Anderson, Fidel precisava de Che para a indispensável tarefa de expurgo do antigo Exército, para consolidar a vitória aplicando a justiça revolucionária contra os traidores, os chivatos (informantes do regime) e os criminosos de guerra de Batista. Che se transformou no promotor supremo, aquele que tomava a decisão final sobre o destino dos homens. E, pela revolução, não se furtou desta incumbência.

Em Janeiro de 1960 o arquiteto Nicolás Quintana teve um encontro marcante com Che – já um prócere da revolução. “Ele me disse: ‘Olhe, as revoluções são feias, porém necessárias, e parte desse processo revolucionário é a injustiça a serviço da justiça futura’”, recordou Quintana. “Jamais conseguirei esquecer essa frase. Repliquei que isso era a Utopia de Thomas Moore. Disse que nós tínhamos ficado na merda por causa dessa história durante muito tempo, por acreditarmos que conseguiríamos alguma coisa, não agora, mas no futuro.

Che ficou olhando para mim por um tempo e falou: ‘Bem. Você não acredita no futuro da revolução.’ Eu lhe disse que não acreditava em nada que fosse baseado na injustiça."

Che então lhe perguntou: “Mesmo que a injustiça seja salutar?”

Ao que Quintana retrucou: “Não creio que, para os que morrem, você possa falar em injustiça salutar.”

A resposta de Che foi imediata: “Você tem que deixar Cuba. Tem três opções: vai embora de Cuba e não há problema nenhum comigo, ou trinta anos [na prisão] no futuro próximo, ou o pelotão de fuzilamento.”

É fascinante perceber que por detrás desta frieza havia também um homem amoroso, ainda que este amor estivesse profundamente contaminado pela ideologia.

Em sua carta de despedida aos cubanos ao embarcar secretamente a Bolívia, Che diz: “Deixem-me dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por fortes sentimentos de amor. É impossível pensar em um revolucionário autêntico sem essa característica. Este é, talvez, um dos maiores dramas de um líder: ele precisa combinar um espírito apaixonado com uma mente fria, e tomar decisões dolorosas sem mexer um músculo. Nossos revolucionários de vanguarda precisam idealizar seu amor pelo povo, pelas causas mais sagradas, e torna-lo uno e indivisível. Eles não podem se rebaixar, com pequenas doses de afeto diário, aos lugares onde os homens comuns põem seu amor em prática”.

Em Che, a nossa dicotomia humana está presente, à flor da pele, escancarada. Eles estão ali, visíveis, o anjo ao lado do demônio.

“O que o levou a resolver operar em nosso país?”, perguntou o Coronel Andrés Selich ao seu prisioneiro, Che Guevara, em La Higuera, na Bolívia, sete anos depois do encontro com Quintana.

“O senhor não vê o estado em que vivem os camponeses?”, perguntou Che. “São quase como selvagens, vivendo em um estado de pobreza que deprime o coração, tendo apenas um aposento no qual dormem e comem, sem roupas para vestir, abandonados como animais (...).”

É terrível observar uma de suas últimas fotos, na qual Che aparece como uma fera selvagem subjugada, o rosto magro voltado sombriamente para baixo, os cabelos compridos emaranhados, os braços amarrados na frente do corpo, ao lado do agente cubano-norte americano Félix Rodriguez, da CIA, logo após a execução de Willy (Simeón Cuba Sarabia).

Seus últimos momentos, narrados por Anderson, são de uma força emocional estupenda e nos fazem conjecturar se no fim ele pensou em si mesmo como um homem, um indivíduo real em meio à coletividade subjetiva.

-

Rodriguez levou Che de volta para dentro da escola e retomaram a conversa, mas foram interrompidos por mais disparos. Dessa vez o executado foi, ao que consta, Juan Pablo Chang, que fora capturado, ferido, e trazido com vida naquela manhã. A essa altura, os corpos de Aniceto e Pancho, que tinham sido abatidos na ravina, também estavam ali. “Che parou de falar”, recordou Rodriguez. “Não disse nada sobre os tiros, mas seu rosto espelhava tristeza e ele sacudiu a cabeça várias vezes, lentamente, de um lado para o outro. Talvez tenha sido nessa instante que se deu conta de que ele também estava condenado, embora eu não lhe tenha dito nada até pouco antes de uma da tarde”.

Rodriguez viu que não podia retardar mais e voltou para dentro da escola. Entrou na sala de Che e disse que estava triste, que fizera tudo que podia, mas as ordens tinham vindo do alto-comando boliviano. Ele não terminou a frase, mas Che entendeu. Seguindo Rodríguez, o rosto de Che ficou momentaneamente pálido, e ele disse: “É melhor assim (...). Eu nunca deveria ter sido capturado vivo”.

Rodriguez perguntou se ele tinha alguma mensagem para sua família, e Che lhe pediu para “dizer a Fidel que ele logo verá uma revolução triunfante na América (...) E diga à minha mulher que se case de novo e tente ser feliz”.

Diante disso, Rodríguez contou, ele deu um passo à frente para abraçar Che. “Foi um momento tremendamente emocionante para mim. Não o odiava mais. Sua hora da verdade tinha chegado e ele estava se portando como homem. Estava encarando sua morte com coragem e elegância.”

Pouco depois Che foi fuzilado pelo sargento Mario Terán, era uma e dez da tarde do dia 9 de outubro de 1967. Ele tinha 39 anos.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Política, partidos e voto

A democracia costuma nos levar a crer que a política é uma atividade de massas. No entanto, o voto que cometemos a cada eleição não é um indicador confiável da participação efetiva na política, mas, isso sim, apenas o exercício de um dever, posto que é obrigatório. Enquanto isso, a maior parte da população brasileira não incorpora a política institucionalizada. Para ela, política é “coisa de político” e, a ela, cabe apenas o ato de votar.

A consequência é o crescente descrédito em relação à política e aos políticos. No fim das contas, o que o eleitor espera é apenas que os políticos não atrapalhem sua vida. A política passa desapercebida de suas vidas, quase como parte do mundo da ficção, mais uma telenovela em que há capítulos mais emocionantes e outros mais xoxos. No fundo, ele não se sente pertencente aquele mundo. Os políticos estão em outro nível de existência.

Classificado como alienado, analfabeto político, este eleitor se encaixa perfeitamente nas fatias do conservadorismo, são a delícia dos políticos profissionais, tão dependentes do voto desqualificado.

Mas espere aí... Há uma diferença entre ser apolítico e anti-político (contra os políticos e a política partidária). Não participar da política institucional não significa não fazer política: a negação é também uma ação política.

É fato que o ser humano age por interesse. Somos cãezinhos a espera de uma recompensa. É exatamente a expectativa deste afago que gira as engrenagens da política partidária. Até mesmo aqueles militantes idealistas esperam alcançar algo, mesmo que seja apenas o simples reconhecimento de que são timoneiros de uma nova sociedade. 

De origem latina, a palavra interesse significa “estar entre”, “no meio”, “participar”. Nada mais inerente a um partido político, organizações cuja essência é exatamente a construção de mecanismos que viabilizem a conquista de interesses, e de um lugar entre os que têm acesso a determinados bens simbólicos e materiais inacessíveis à maioria dos representados e governados.

O objetivo principal de um partido político é chegar ao poder, o que acaba significando a conquista do governo e de espaços dentro da máquina pública. É exatamente aí que a mula empaca. Neste momento ocorre uma inversão na qual são as instituições do Estado que acabam por conquistar os partidos. Projetos e propostas caem por terra e o objetivo primal se reduz simplesmente à garantia dos cargos conquistados e, em consequência, na construção de uma estrutura que transfira estes espaços a membros do mesmo grupo nos governos seguintes.

É exatamente por isso que todos os partidos soam iguais. Os discursos pré-eleitorais e as ações pós-eleições não são diferentes para PT, PMDB, PSDB, PP ou seja lá que sigla for. A única forma de quebrar este paradigma obsceno é entender que política não se limita a partido. Ela se faz diariamente, em cada decisão que tomamos.

Liberdade x Anonimato

Liberdade de expressão é o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos. É um conceito basilar nas democracias modernas nas quais a censura não tem respaldo moral.

Pilar fundamental de uma sociedade livre, a liberdade de expressão é base, também, para o anonimato. Alguns defendem que ele é vital para a liberdade de expressão. Afinal, em um mundo dominado pelo poder político e econômico, a sustentação de opiniões e de denúncias graves pode, fatalmente, condenar uma pessoa ao ostracismo profissional, ou a coisa pior, dependendo do alvo da denúncia e do nível de garantias civis vigentes.

Há, também, quem execre esta prática sob o argumento de que, ainda que a intenção seja proteger a liberdade de expressão, o anonimato é vedado pela nossa Constituição, com o objetivo de evitar os abusos que podem surgir através dele.

No cerne deste pensamento está a noção de que não se assegura a liberdade a quem não assume suas opiniões. Até porque o exercício desta liberdade implica determinados ônus como, por exemplo, responder por eventuais injúrias ou difamações, que não seriam assegurados pelo anonimato. Resumindo: você pode se manifestar, mas não pode se esconder.

Liberdade de expressão é o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos. É um conceito basilar nas democracias modernas nas quais a censura não tem respaldo moral.

Pilar fundamental de uma sociedade livre, a liberdade de expressão é base, também, para o anonimato. Alguns defendem que ele é vital para a liberdade de expressão. Afinal, em um mundo dominado pelo poder político e econômico, a sustentação de opiniões e de denúncias graves pode, fatalmente, condenar uma pessoa ao ostracismo profissional, ou a coisa pior, dependendo do alvo da denúncia e do nível de garantias civis vigentes.

Há, também, quem execre esta prática sob o argumento de que, ainda que a intenção seja proteger a liberdade de expressão, o anonimato é vedado pela nossa Constituição, com o objetivo de evitar os abusos que podem surgir através dele.

No cerne deste pensamento está a noção de que não se assegura a liberdade a quem não assume suas opiniões. Até porque o exercício desta liberdade implica determinados ônus como, por exemplo, responder por eventuais injúrias ou difamações, que não seriam assegurados pelo anonimato. Resumindo: você pode se manifestar, mas não pode se esconder.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O voto inútil

"Não vou desperdiçar meu voto...”. Confesso que toda vez que ouço esta frase infeliz sinto um arrepio percorrer minha espinha dorsal. Não há nada mais estúpido, mais ideologicamente incorreto, mais politicamente idiota do que condicionar seu voto a algum fim que não seja a simples representação da sua convicção política.

“Vou votar em fulano porque ele já está na frente das pesquisas e vai ganhar mesmo...”, ou “não vou votar em sicrano porque ele não tem chances de ganhar mesmo...”. Ora, eleição não é corrida de cavalos. O eleitor não vota com o objetivo de, no final, se vangloriar com os amigos como se o seu time de futebil tivesse ganho a final do campeonato: “Meu candidato ganhou, o seu não, lá, lá, lá, la, lá...”.

O voto é uma das muitas expressões da cidadania e, sendo ou não vencedor, àquele candidato que incorpora as convicções do eleitor terá construído sua representatividade de acordo com o número de votos que recebeu. É assim que funciona a democracia representativa.

Infelizmente, o analfabetismo político que impera no Brasil permite que a lógica capenga do chamado "voto útil" seja decisiva nas eleições. Este fenômeno pernicioso é parcialmente resultante do uso abusivo das pesquisas eleitorais.

O argumento para a sua utilização é justificado pela necessidade de nortear as campanhas políticas, dar um direcionamento as estratégias. Na prática, porém, a função é outra. As campanhas são utilizadas não apenas internamente pelos comitês eleitorais, mas também na mídia, como forma de persuadir o eleitorado. O cientista político chileno Xosé Rúas diz que o abuso dos institutos de pesquisa faz delas uma perigosa arma de informação, que exerce pressão sobre o eleitorado e desestabiliza os adversários. No Brasil não é diferente.

De forma geral, as pesquisas favorecem o candidato que aparece em primeiro lugar nas intenções de voto do eleitorado. Eventualmente, o segundo e até o terceiro colocados podem delas se beneficiar, quando a diferença para o primeiro for pequena ou quando demonstrarem ascensão. Saem inevitavelmente prejudicados os demais candidatos, àqueles que “não vão ganhar as eleições mesmo”.

A Constituição Federal garante que todo o poder emana do povo. Para o exercício desse poder, elegem-se os representantes, cuja escolha deve ser embasada não pela influência coletiva, mas pelos valores e princípios defendidos pelo candidato, por suas propostas e seu histórico.

Nada substitui a vontade do eleitor diante da urna, mas é inegável a influência que as pesquisas exercem na decisão de voto e nos espaços que os candidatos têm na mídia.

Para combater este mal, é preciso ter em mente que cada voto faz diferença no processo eleitoral.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O fim da inocência

Durante décadas o PT incorporou a imagem de um partido além de qualquer suspeita, um partido que tinha na ética, na boa condução da coisa pública, no compromisso com um jeito diferente de fazer política os seus maiores e mais importantes cacifes eleitorais. Os muitos escândalos a que governos petistas - especialmente o Governo Lula - se viram enredados nos últimos anos foram sempre escanteados por falta de provas ou contornados com bois de piranha sacrificados nos escalões mais baixos de modo a preservar a cúpula do partido.

Tudo isso caiu por terra nesta semana, com a condenação do deputado federal – e ex-candidato a prefeitura de Osasco (SP) – João Paulo Cunha no Supremo Tribunal Federal (STF) pelos crimes de corrupção e peculato (desvio de recursos públicos) no julgamento do Mensalão. Por 8 votos a 2, a maioria dos ministros do Supremo condenou João Paulo por ter recebido R$ 50 mil para beneficiar agência do empresário Marcos Valério em contrato com a Câmara na época em que presidia a Casa (2003-2004).

A condenação de João Paulo Cunha abre as portas para a confirmação do Mensalão como esquema de barganha política e deixa o ex-presidente Lula em uma saia justa como nunca antes na história deste país outro ex-presidente já esteve.

Afinal, faz apenas alguns dias que Lula repetiu ao jornal New York Times a ladainha que vem sustentando desde o início do caso: "Eu não acredito que houve mensalão". A justificativa do petista é de que ele, quando presidente, já tinha apoio suficiente do Congresso e não precisaria comprar adesões. Mais de trinta políticos, incluindo alguns dos seus principais assessores, como José Dirceu, estão implicados no escândalo que a cada dia se torna mais claro.

A cúpula do PT e o governo da presidente Dilma Rousseff temem o "efeito dominó" da condenação de João Paulo Cunha. A preocupação é que, se for por terra o argumento do caixa 2 petista para alimentar campanhas políticas de aliados, ministros do STF passem a condenar todos os homens do ex-presidente Lula, entre eles José Dirceu.

Braço direito de Lula na Casa Civil, entre 2003 e 2005, Dirceu foi apontado pela Procuradoria-Geral da República como "chefe de organização criminosa" instalada no governo àquela época. Amigo do então presidente, João Paulo comandava a Câmara dos Deputados, José Genoino dirigia o PT e Delúbio Soares cuidava do cofre petista. Uma eventual punição para o grupo de Lula - e principalmente para Dirceu, considerado "réu símbolo" do processo - representaria a condenação moral do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Apesar dos pesares, não seria honesto demonizar o PT ou Lula. O partido e o ex-presidente não são piores do que os demais partidos e próceres de nossa política. Nada disso. Eles são apenas iguais.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Nosso voto

Nosso voto
A democracia não se re­sume ao voto, ela exige muito mais para gerar bons re­sul­tados

Começou. Desde a última sexta-feira, 6, candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador estão livres para colocar suas campanhas nas ruas. Haverá muitos sorrisos, muitas palavras simpáticas, muito tapinha nas costas. Todos faceiros e saltitantes em busca do tão disputado voto.

Na internet, onde pululam assessores passando por candidatos, esta tempestade de bom mocismo será violenta. Todos querem deixar transparesser seu compromisso com a população, com o diálogo, com ideias. No campo virtual, a campanha será especialmente interessante. Por detrás de retratos sorridentes e imagens bem trabalhadas, escondido sob frases de efeito, promessas solenes e posicionamentos incisivos em prol do bem comum, acoitados pela pele de ovelha da àgora digital se esconderão alguns lobos. Famintos.

Não é a primeira vez que a internet se transformará em palanque eleitoral no Brasil. Nas últimas eleições isso já havia ocorrido. Neste ano, no entanto, o éter virtual será muito mais importante. O fenômeno das mídias sociais está mais fincado no dia a dia das pessoas que se acostumaram a interagir (ou tentar) com seus representantes e “lideranças”. O fato é que seja nas ruas ou na frente do computador, cada voto será disputado a tapa.

Por mais imperfeita que seja, a democracia tem se mostrado, de longe, o melhor sistema político que fomos capazes de criar. Por meio do voto, cada cidadão tem o direito de elevar sua voz e seu posicionamento aos mais altos níveis da coisa pública. Apesar disso, temos o costume de maltratá-la. Em grotões interioranos - como o Mato Grosso do Sul - ainda se troca voto por dinheiro, cesta básica e até por uns segundos de simpatia. Um aperto de mão, um sorriso automático, duas ou três palavrinhas são o suficiente para convencer os mais humildes (financeira ou intelectualmente) de que aquele candidato é "gente como a gente".

Tenhamos cuidado. É preciso mais que isso para que alguém mereça nosso voto. Muito mais.

A democracia tem valor por si só, mas os avanços que ela possibilita não ocorrem com o simples apertar de um botão no dia das eleições. É preciso mais, muito mais. Hoje, nossa voz está ampliada graças ao meio digital. Podemos fazer nossas reivindicações ecoarem de forma mais rápida e mais ampla. Mas até as mais justas e coerentes reivindicações se tornam obsoletas se imaginarmos que o bem maior da democracia é o voto. Não é.

Façamos assim. Durante esta campanha tenhamos sempre em mente que o bem maior da democracia é a possibilidade de gerir os nossos destinos. Para isso, é preciso que compreendamos que política não se faz apenas nos enclaves e porões partidários, mas diariamente, em cada pequeno momento da nossa vida.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Meu amigo Nilo Corrêa me perguntou o que eu pensava sobre o envolvimento da revista Veja com o crime organizado.

Acho que vou começar citando o mestre Alberto Dines, para quem “fontes corruptas são inevitavelmente corruptoras”. Ou seja, cabe ao jornalista fugir das teias corruptoras de uma fonte que seja uma aranha gorda, como é o caso do Carlinhos Cachoeira.

Não existe Jornalismo sem fonte. A fonte não precisa ser “honesta”, mas a informação que ela repassa precisa ser checada para que a mensagem final seja a verdade. Não acho que as reportagens publicadas pela Veja com base nas informações obtidas por meio do Cachoeira sejam falsas. Aliás, nenhum detrator da revista disse isso até agora.

Novamente reitero que em minha modesta opinião, não interessa se a fonte é honesta ou não. O que interessa e se a informação procede.

O que se deve questionar é se a relação entre fonte e jornalista (entre Cachoeira e a Veja) inverteu o controle da informação. O controle deve ser do jornalista e não da fonte: ou seja, as informações eram procedentes? O diretor de redação da revista, Eurípedes Alcântara, disse em artigo que sim. Afirmou: “Ter um corrupto como informante não nos corrompe”. Concordo com esta premissa.

A Veja pecou – com má intenção política creio – na tentativa de elevar o Demóstenes Torres a um nível de excelência ética. Isso ficou óbvio e mostra uma estratégia política desastrada – a mesma que a Carta Capital adotou ao publicar uma capa comparando Roberto Civita a Rupert Murdoch. Há um abismo entre este fato e o questionamento das denúncias feitas pela revista. Como já disse, ninguém em sã consciência fez isso.

Finalizo citando Dines novamente. Diz ele que “a submissão (da imprensa) a partidos, governos e religiões é uma forma disfarçada de embolsar propinas e aceitar suborno”. Concordo e isso vale para todos.

domingo, 29 de abril de 2012

Debate interessante surgido no Facebook a partir da divulgação do 5º artigo da série Especial Cuba, na revista Semana Online.

-

Roberto Bueno - Liberdade e Democracia são conceitos maleáveis no capitalismo. Virou moda se incomodar com a "péssima" qualidade de vida e privação de "direitos" dos cubanos como pretexto para crítica ao comunismo. Se Liberdade significa aceitar a imposição de embargo econômico contra uma população inteira, desrespeitando a soberania não apenas deste mas também dos demais países que se submetem, dentre os quais o nosso se inclui, para a manutenção dos "direitos" de exploração de uma pequena casta detentora do capital...eu repudio a liberdade. Dentre as liberdades do povo cubano deveria estar a de ser um país com um modelo político-econômico diverso.

Victor Luiz Barone Junior - Olá Roberto Bueno, penso que o conceito de liberdade é muito claro e universal. Mas, não entro aqui em um debate político ou ideológico. Comento apenas o conceito de liberdade. Das liberdades que faltam ao povo cubano - como o direito de ir e vir - a mais importante é o direito de pensar diferente. Infelizmente nos prendemos ao romantismo de uma Cuba que não existe. A Cuba que eu vi é um país de pessoas inteligentes, mas politicamente desengajadas; curiosas, mas ignorantes a respeito do que ocorre no mundo a sua volta; alegres, mas condenadas a viver em uma redoma de vidro. O fato é que estas pessoas sofrerão muito quando o mundo que elas conhecem ruir de vez.

Roberto Bueno - Vitor, uma outra perspectiva seria supor que este "mundo a sua volta" também está ruindo, quando nosso modelo político-econômico for capaz de garantir os tais direitos individuais apregoados de maneira melhor, esta conversa começará a fazer sentido. Não falo apenas do direito de ir e vir, que já daria pano pra manga, falo de direitos muito mais básicos, moradia, alimentação, acesso a educação, saúde (medicamentos) acesso à justiça, segurança, itens bem básicos mesmo, quando e se desenvolvermos um modelo melhor em atender de forma justa e igualitária a base da pirâmide de Maslow, as necessidades primeiras, quem sabe adquiramos o "direito" de cutucar as demais feridas abertas. Romântico e utópico é supor que possuímos qualquer alternativa a ser ofertada.Talvez devêssemos ser mais curiosos e atentos ao que se passa naquele "velho mundo", nos despir dessa nossa frágil sabedoria de alguém que pensa ter qualquer coisa a ensinar e tentarmos aprender algo, por mais simples e básica que seja a lição. Falar de Cuba, sobretudo pra apontar mazelas é ,a priori, estabelecer um diálogo ideológico e político, é inevitável (a menos que sejamos autoritários e não é o seu caso).

José Alves Coelho - Discutir o conceito de liberdade sem fazer o debate político e/ou ideológico me parece uma missão impossível...Neste momento milhões de irmãos nordestinos estão sob a ameaça de morrer de fome e de sede por causa da seca...Eles tem liberdade de partirem para morar em uma favela em qualquer cidade brasileira...Será que liberdade é isso?

Victor Luiz Barone Junior - Roberto Bueno, a conversa faz sentido, e muito. O problema deste debate é que a esquerda tem uma dificuldade tremenda de aceitar seus erros. Uma crítica - por mais singela que ela seja, o apontar de um erro, de um problema, são vistos como posicionamentos à direita. Penso que o modelo liberal e o capitalismo têm lacunas horrendas. Não compactuo, por exemplo, com a valorização do “ter” sobre “ser”, do produto sobre o indivíduo. Estes sistemas não garantem moradia, alimentação, educação ou saúde para todos. No entanto, o homem não vive apenas da ração básica – como a que é ofertada aos cubanos. É preciso mais, e quem conhece as origens fundamentais do humanismo e, em consequência, do pensamento de esquerda, sabe disso. É preciso garantir o espaço para que o indivíduo se transforme em coletividade. Isso só é possível com liberdade (objetivo final de nós todos não é?). Concordo que precisamos nos despir de algumas coisas, em especial do maniqueísmo que transforma o debate ideológico em uma gritaria de convicções inalteráveis.

Victor Luiz Barone Junior - José Alves Coelho, está muito claro para mim, após tantos papos pelo Face, que nosso conceito de liberdade é muito diverso. Você aceita a liberdade agrilhoada, desde que ela venha acompanhada pelas garantias básicas de alimentação, saúde, educação e moradia (como ocorre em Cuba, aos trancos e barrancos). Estas garantias por si só, são, para você, liberdade. Eu não separo a liberdade do pão. Para mim, ambos devem ser partes do sonho socialista. A separação destes dois ingredientes – a liberdade e o pão - desemboca em totalitarismos. A história mostra isso. A não ser que você seja daqueles que imaginem que os horrores do stalinismo e do maoísmo são invenção da Veja e do “PIG”. Aí, meu velho, não dá nem para conversar.

Roberto Bueno - ‎"Devem" e "fazem" parte dos projetos socialistas, é só no discurso liberal que existe esta justificativa que se apropria e distorce o princípio da Liberdade e o usa como muleta para subtração do pão. Até agora não falávamos em violência, fechemos então nossos olhos para a nossas muitas formas de violências históricas e correntes e vamos continuar nos autoproclamando uma forma de sociedade mais justa, mais garantidora de direitos (materiais e espirituais), ou então embasemos nossos debates em velhas máximas da guerra fria, ocultemos em nossas "opiniões" que a miséria cubana e suas medidas de proteção tem origem no vergonhoso embargo econômico imposto pela ditadura "liberal" e suas constantes pressões, vamos ficar nesse papinho viciado pelos paradigmas de culpar a própria vítima pelo seu sofrimento. É de paradigmas que se trata este debate, a mulher negra nascida na favela discorda desta opinião otimista em relação à dádiva que é pertencer uma democracia rica e liberal. Esqueçamos que somos das grandes economias do mundo a mais injusta socialmente e isto desde que éramos colônia, vamos que vamos, de fingimento em fingimento viveremos dos velhos discursos. Nenhuma opressão é maior que a do capital, nenhuma ditadura a esta se compara. Por outro lado, embora desconfie desta sua visão de mundo, lhe parabenizo por se importar com o povo cubano, também acho que merecem um tratamento melhor, mais liberdades e melhores condições materiais de vida, e merecem tudo isto dentro de um sistema igualitário, sem classes e sem dominação cultural. Abraços. 

José Alves Coelho - Não meu caro Victor Luiz Barone Junior, o meu conceito de liberdade não é assim tão diferente do seu não, mas também não é esse conceito que você me atribui...Apenas acho que o homem que corre o risco de morrer de fome não é um homem livre, na plenitude do que entendo ser a liberdade...E esse risco é real aqui no meu Ceará querido e em muitos lugares deste nosso imenso e injusto país...A propósito dos horrores do stalinismo, do maoismo, do capitalismo e de outros tantos "ismos", eu não acho que seja invenção da imprensa, embora esteja convencido de que boa parte da imprensa brasileira (exclusive você e a Semana Online) teria orgasmos editoriais se pudesse patrocinar horrores semelhantes...Para finalizar: tenha certeza de que, a depender deste seu amigo, sempre dará pra conversar...Grande abraço.  

Victor Luiz Barone Junior - Roberto Bueno, “É só no discurso liberal que existe esta justificativa que se apropria e distorce o princípio da Liberdade” – Você poderia definir este princípio?
Em nenhum momento disse que nossa sociedade é mais ou menos justa. Temos mazelas terríveis. Por exemplo, não vi em Cuba os bandos de crianças miseráveis que seguem os turistas pedindo esmola – como ocorre em nossas cidades, ou a miséria institucionalizada. Pontos positivos. Isso não é justificativa para o destroçamento das liberdades individuais. Entre a ditadura do capital e a que esmaga o pensamento, fico com nenhuma.
Sobre o embargo. Não há a menor dúvida: trata-se de uma agressão ao povo cubano. Um absurdo que não tem justificativa e que atrapalha muito o desenvolvimento do país. Mas... nem de longe o embargo é a única causa do atraso econômico cubano. Muito mais grave é a estagnação civil. O cubano não tem incentivo para crescer, para se desenvolver (mesmo com a abertura de um ano para cá, as mudanças são tímidas). Cerca de 40% da população vive do que os parentes mandam de Miami e simplesmente NÃO TRABALHA. Um percentual considerável vive “à la funcionário público brasileiro” (sem querer generalizar, pois há gente muito séria nesta área): trabalham 5 horas por dia e vão para casa tentar viver com seus 20 e poucos dólares por mês. O que mata a economia Cubana é ausência de incentivos para o empreendedorismo, política que vicejou por 50 anos às custas da União Soviética.
Sobre “a mulher negra brasileira”... Caro... Ilusão. Adoraria ver uma favelada carioca sendo impedida pelo Estado de protestar contra uma investida mais dura da polícia... ou limitada a comprar 10 ovos e 400gr de frango por mês. Lhe garanto que ela rapidamente voltaria ao Brasil.
Os artigos que tenho escrito sobre uma breve experiência de uma semana em Cuba nascem apenas do carinho que tenho pela história cubana e pelo seu povo, tão parecido com o brasileiro. Portanto, não posso deixar de finalizar contrariando o que, para mim, é o maior engano de todos: o mito de que em Cuba não há classes sociais. 8 em 10 cubanos não saberia optar entre o choro e as graça diante desta afirmação.

Victor Luiz Barone Junior - José Alves Coelho, concordamos nisso: “o homem que corre o risco de morrer de fome não é um homem livre”. Não concordamos na mesma premissa quando ela se refere à liberdade, pois, da mesma forma, o homem que é privado de sua consciência e de seu livre arbítrio também não é um homem livre. Ficamos então em um impasse. Entre uma opção e outra, prefiro espetar dedo na ferida das duas. Um abraço.

Roberto Bueno -Um princípio não pode ser "definido" pois dele emana as demais definições daquilo que lhe é subordinado, no entanto pode ser sondado, especulado, nesta prática consiste a filosofia. Longe de supor possuir uma "definição" de Liberdade por temporária que seja, posso ao menos distinguir dois níveis distintos de aplicação deste termo: Um sentido abstrato, idealizado, de Liberdade, a ser perseguida ainda que de maneira irresponsável e imprevisível (irracional) e assumindo seus riscos, este sentido de liberdade é o defendido pelo Liberalismo e pelas doutrinas religiosas ocidentais, porém é ilusório e resume-se sempre numa única foram: a Liberdade de escolha, uma vez que tudo o que existe e que se encontra objetivado é pré-determinado (o poder de determinar é o mecanismo de submissão criado pelo capital). Esta noção abstrata, deturpada, distorcida, cria uma "sensação" de liberdade, ela é ilusória, é uma moeda de alienação da vontade e da consciência (prova disso é a certeza da escolha implícita no seu exemplo da negra carioca, não significa que ela estaria fazendo uma escolha consciente, livre, e sim, pré-determinada por esta ilusão de "poder arriscar". O outro sentido seria a noção concreta (objetivada) de liberdade, onde, considerando que o valor de todas as coisas emana do trabalho, a produção desses valores devendo ser determinada pela coletividade: Liberdade de participação, sem atravessadores, patrões, mediadores culturais (comunicação, religião, aparelhos ideológicos), capital, determinando a produção material e espiritual da vida. Liberdade responsável, racional, previsível, objetiva e científica, inclusiva, que pressupõe a vida em sociedade,considera a coletividade como uma realidade e não a submete/sacrifica aos caprichos individuais e a mesquinhes dos interesses de uma mínima parte da sociedade. Esta noção concreta de Liberdade, real, plausível, existente, factível, presente e não futura, permeia o pensamento Comunista e o inspira e não a idealizada, abstrata e inalcançável Liberdade prometida na primeira noção. Os dois níveis de entendimento se sobrepõem e contaminam, matizam-se mutuamente, mas são antagônicos e, de certo modo, excludentes entre si. Paradigmas, amigo. Paradigmas determinariam a escolha da carioca,uma escolha em absoluto livre. Cuba libre! Abraços.

Victor Luiz Barone Junior - Roberto Bueno, No frigir dos ovos, toda filosofia esbarra em um rochedo escarpado: a realidade prática. O marxismo não é ciência, muito menos sua construção filosófica e sociológica é verdade absoluta. Em nenhum aspecto isso poder ser apontado de forma mais clara do que no debate sobre a liberdade. A liberdade de pensamento, de escolha individual sobre aspectos que dizem respeito à própria existência não são valores subjetivos que possam ser colocados em uma balança filosófica, para serem definidos como válidos ou não. A vida prática, real, é muito mais complexa que fórmulas sociais. Na prática, o que ocorre é que um grupo de “iluminados”, de burocratas privilegiados impõem à coletividade valores que são deles, e não desta coletividade, dado que a coletividade é formada por indivíduos. Indivíduos são seres humanos, com pensamentos, desejos e anseios diversos. Não são números ou fórmulas matemáticas a serem encaixadas de acordo com vontades, convicções ou crenças. Portanto, a tentativa de enquadrar o conceito de liberdade com base no marxismo resulta apenas em cerceamento das liberdades individuais em prol de uma falsa ideia de liberdade coletiva. 

José Alves Coelho - FIM DO IMPASSE - Meu caro Victor Luiz Barone Junior: quero me render mais uma vez à riqueza e à b eleza do debate sadio das idéias, pois acabei de concluir que entre nós dois não há impasse algum acerca do conceito de liberdade...Você concorda comigo ao afirmar que o homem que corre o risco de morrer de fome não é livre...Eu concordo com você que o homem privado da sua consciência também não é livre...O lamentável é que, segundo nós dois, a liberdade não existe...O bom é que, pelo menos nós dois, temos condições de lutar por ela...Um grande abraço e um bom feriado.  

Roberto Bueno -Também admito que em muitos pontos, nossa concepção de liberdade e de sua materialização neste rochedo escarpado que é a vida prática não é tão diferente. A diferença é que você, Victor, embora até diga o contrário, reluta em aceitar sua própria realidade,e perceber que estes argumentos se aplicam com muito mais exatidão à nossa forma de organização social "democrática" capitalista. É a tal história do macaco que enrola o rabo e vai mexer no do outro. Tudo o que você diz é perfeito, pra economia capitalista. Descer o sarrafo no socialismo é mole e já há bastante treino e frases prontas pra isso mas permanece a pergunta: Somos uma alternativa? O que tenho visto são só ideais liberais impraticáveis muito bem orquestrados em benefício de um grupito de favorecidos, esta é a realidade. Este papo não é sobre Cuba e seu oprimido povo e sim, sobre alternativas sociais viáveis, é muito mais sobre justiça que sobre liberdades. Vocês defendem a liberdade com garras afiadas e depois admitem ser só um ideal intangível, propagandeia argumentos messianicos dos Moisés modernos que solidários desejam "libertar" o cativo povo cubano de seus tiranos opressores, para lhes dar em troca...? Eu respondo: mão-de-obra barata, semi-analfabeta, sem acesso a nada de qualidade, pagadores de impostos votantes e pacificados, sujeitos a morrer em cada esquina por bala perdida ou de dor de barriga, à mercê da sorte. Somos uma porcaria de organização social, um engodo, povo oprimido, explorado por oportunistas, culturalmente vazio, sem voz e sem vez. Se da tua poltrona confortável vivemos numa linda epopeia de prosperidade, liberdade e justiça, lamento te contradizer mas isto não é filosofia nem teoria, é realidade, concreta e diária, brasileira. Falsa é esta propaganda libertária, não há nenhuma mentira de perna mais curta. Continuem exercendo plenamente seu direito de lutar por liberdade, esta asa de cera que nos permite Ícaros voar cada vez mais alto.Eu de meu lado continuarei dizendo bobagens filosóficas e me agarrando a bandeiras ideológicas ultrapassadas, defendendo utopias irracionais e olhando saudoso para as tais ruínas comunistas. Sou comunista e continuarei a sê-lo, seria ainda que fosse o único mas não acontece, o mundo muda lentamente, governos socialistas tem se multiplicado pelo mundo, sobretudo nas Américas. Velho e ruinoso, para mim, é o estado do pensamento liberal e sua empáfia acostumada de donos da situação. Solidariedade ao revolucionário povo cubano, somos contra seus opressores, seus únicos e verdadeiros opressores, ao povo brasileiro oprimido desejo igualmente justiça, igualdade, prosperidade, ética e responsabilidade. Pra mim deu este post, abraços e sucesso aí com a revista.

Victor Luiz Barone Junior Roberto Bueno,
me perdoe se eu o irritei. Não foi minha intenção. Minha intenção - sempre que entro em debates como estes – é apenas uma: não me deixar levar pela ilusão das verdades absolutas. Dito isso, devo contrariá-lo mais um pouco. Na sua diatribe você faz crer – ou imagina de fato – que nós estamos em trincheiras muita separadas. Você a esquerda, eu a direita. Para seu espanto afirmo que eu estou muito a mais a esquerda que você, caro... No entanto minha esquerda é a libertária, enquanto a sua é a autoritária. Neste aspecto, sim, divergimos como a água do vinho.
Há, no seu discurso, a velha armadilha que, na filosofia, chama-se de “falácia do falso dilema”. Ela surge quando, no discurso falado ou escrito, alguém insiste ou insinua que duas opções são mutuamente excludentes. Trata-se de um recurso muito utilizado no jogo político, quando se tenta cooptar a população a fazer uma escolha entre A ou B, ainda que A e B não sejam as únicas opções reais. Na verdade uma coisa não exclui a outra. O fato, por exemplo, de eu criticar a ausência de liberdade em Cuba não significa que eu seja um defensor do capitalismo ou do liberalismo.
A estrutura do falso dilema é simples: Ou A ou B. Se não A, logo B. O senso comum aceita esta estrutura com bastante facilidade, embora ela seja totalmente falsa.
Vamos a alguns exemplos reais muito simples:
“Os paulistas são palmeirenses ou corintianos. João não é palmeirense. Logo, João é corintiano”. Errado, pois existem paulistas santistas, flamenguistas, paulistas que não gostam de futebol e não torcem para time algum etc.
“Ou mantemos armar nucleares, ou seremos atacados”. Errado, não ter armas nucleares não implica necessariamente em ser atacado.
“Se criticamos a ausência de liberdade em Cuba defendemos o capitalismo e o liberalismo”. Errado, defender a liberdade de expressão, o direito de ir e vir etc não significa defender o capitalismo ou o liberalismo.
É quase uma lei da natureza: sempre que alguém critica o totalitarismo cubano, surge alguém questionando por que não se fala da pobreza no Brasil, ou das injustiças do sistema de saúde norte-americano, ou da falência das democracias liberais da Europa, ou (insira aqui a causa de sua preferência).
Ou liberdade de expressão ou socialismo. Alessandra escolheu a liberdade de expressão, logo não escolheu o socialismo. Totalmente falso. O fato de uma pessoa se mobilizar por liberdade de expressão, pelo direito de ir e vir etc, não significa que ela não seja socialista ou que seja capitalista. Qualquer tentativa de insistir nisso é maldosa e não tem lógica nenhuma.
Mais um detalhe. Em nenhum momento “desci o sarrafo no socialismo”. Desço o sarrafo, isso sim, nos totalitarismos, sejam eles de direita, de esquerda ou de matiz religiosa.
Finalmente, perdoe se desfaço suas mais deliciosas ilusões. É que povo cubano não precisa de nossa “solidariedade revolucionária”, ele precisa é de espaço para se desenvolver. E este espaço virá, é inevitável.
Confira a 21ª edição da revista Semana Online.
- Na reportagem principal, um apanhado sobre as nossas "pequenas corrupções" diárias
- Uma entrevisra com Suely Almôas, diretora da DígithoBrasil, maior empresa do segmento de soluções em software do MS, que disponibiliza o Bônus, um software online de controle financeiro pessoal, premiado pela revista INFO com o título de “Melhor Software de Controle Financeiro, em 2006.
- É pos­sível viver sem papel hi­gi­ê­nico e la­gostas. E sem li­ber­dade? Confira o quinto artigo da série ESPECIAL CUBA
www.semanaonline.com.br

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Napoleão: uma biografia política – Steven Englund


Quem não é capaz de relembrar o passado está condenado a repeti-lo.
George Santayana

Terminei recentemente um livro instigante: “Napoleão: uma biografia política”, do historiador americano, radicado na França, Steven Englund. A obra, como sugere o título, faz um apanhado político do período napoleônico, desde os primórdios da infância de Napoleão Bonaparte na Córsega até sua morte na ilha de Santa Helena.

Além do conteúdo intrínseco, um aprofundamento das condições políticas que permitiram que um jovem da baixa nobreza corsa se transformasse em um dos maiores líderes político-militares de todos os tempos, o livro aponta similaridades intrigantes na relação de poder entre Napoleão, o legislativo e a imprensa e esta mesma relação - entre o executivo, o legislativo e a imprensa - no Brasil da atualidade.

O primeiro-cônsul, no entanto, concebia o governo como um trabalho de administração, em contraste com o qual os encargos dos deputados eram leves: rever o orçamento, receber petições do “povo”, e ratificar pro forma os projetos de lei enviados pelo Executivo. Parecia esperar que se entediassem um pouco e se sentissem subutilizados, quase incentivando-os a isso. Disputas e discussões tinham um papel, mas isso nas sessões a portas fechadas do Conselho de Estado – não nos recintos públicos do Tribunato e do Corpo Legislativo, onde a crítica poderia dar munição a jornais e facções, ambições e interesses. Esta, na visão de Bonaparte, era a maneira anglo-saxã, não a francesa.
A grande maioria dos tribunos e legisladores concordava com esse ponto de vista, ou pelo menos o admitia. Outros, porém – entre os quais alguns dos mais brilhantes (p.ex., Benjamim Constant) -, tentava contestá-lo. A retórica crítica destes era recebida pelo primeiro cônsul com fúria, choque e gestos de retaliação (Bonaparte irritava-se menos com legisladores que faziam crítica serenamente, evitando discursos altissonantes). Para se defender, a oposição legislativa limitava-se a tratar de trivialidades ou de questões de princípio, conseguindo por vezes fazer as duas coisas ao mesmo tempo: por exemplo, ao discutir o uso da palavra “súditos”, em vez de “cidadãos”, num artigo de um tratado com a Rússia. Os legisladores eram capazes de fazer grandes estardalhaços em torno de um projeto irrelevante sobre arquivos, e de não dizer uma palavra de protesto ante o retorno da escravidão colonial ou a anexação da Renânia.
Pág. 236 e 237

A passagem acima poderia se referir tranquilamente à relação que muitos legislativos municipais mantém com prefeitos, ou que muitos deputados estaduais e federais aceitam como padrão de relacionamento com governadores e com o executivo federal nos dias de hoje. Tratar de trivialidades é, como se sabe, o principal ofício de vereadores dentro do falido sistema representativo que nos é oferecido hoje. Nome de ruas, homenagens vazias e projetos autorizativos são, hoje, tão ou menos importantes que a substituição da palavra cidadão por súdito em um documento obscuro do século 19. Da mesma forma, nas esferas superiores do legislativo, o papel dos deputados é muito mais de um apêndice do executivo do que, propriamente o de legisladores.

Era desejo de Bonaparte – na verdade, ele ansiava por isso – manter com os deputados parlamentares relações como as que mantivera com os savants no Instituto. Volta e meia sugeria: “Em vez de perorar da tribuna, por que não vem falar pessoalmente comigo? Poderíamos conversar em família.”
Pág. 236

Críticas o indignavam e não estava acostumado a derrotas; aqueles discursos, a seu ver, o faziam parecer ridículo. Os agentes secretos de sua polícia lhe relatavam cada detalhe inútil do que os deputados diziam no Parlamento ou nos salões de elite que eles freqüentavam, e Bonaparte levava tudo em conta.
Pág. 237

Mais uma vez as passagens supracitadas podem ser relacionadas ao nosso cotidiano político. Manter o contraditório entre quatro paredes, suprimir a voz discordante. Não é este o objetivo perseguido hoje por quem detém o poder? Da mesma forma, é comum – olhem para os lados agora mesmo – identificarmos nos círculos de poder contemporâneos o pavor da crítica e a rede de bajuladores que se incumbe de denunciá-la às cabeças coroadas. As coisas mudaram pouco nos últimos 200 anos.

A IMPRENSA E O REI

“O que conta não é a verdade, é o que o povo pensa que é verdade.”
Pág. 349

A relação de Napoleão Bonaparte com a imprensa também pode ser comparada ao que muitos de nossos dirigentes da atualidade gostariam de impor (e que alguns de fato impõem mediante a força do poder econômico que detém a esfera política).

Para Napoleão, a “história perfeita” era aquela não “passível de interpretação”, ou seja, a que narrasse a crônica de le politique (formação do Estado) sem cair ela própria em la politique (contestação).
Pág. 338

Nada disso impedia que o consenso social dominante continuasse a endossar dois pontos de vista do imperador: o de que “nem toda notícia desagradável sobre o governo devia ser publicada” e a de que os jornais tinham o dever de divulgar as idéias do governo – tudo o mais era política.
Pág. 344
                                      
Ora, ambas as reflexões anteriores poderiam ser atribuídas a homens públicos que nos rodeiam. A noção de que a informação deve ser subserviente ao poder permeia a nossa práxis política. Esta visão deturpada do papel da imprensa é, parte por culpa da própria imprensa, o que predomina entre nossos dirigentes.

“É claro que a publicação de qualquer obra contrária ao governo seria sustada.” E cá estamos de novo: para ele, os escritores deveriam, naturalmente, usar sua arte, influência e liberdade para apoiar o Estado; se não o fizessem, estariam agindo contra o interesse público.
Pág. 345

O imperador era um relações-públicas nato. Ansioso por expor sua versão de todas as coisas, não tinha nenhum escrúpulo quanto à exatidão, só sofreguidão por se pronunciar o mais rápido possível. “Não estamos aqui para discutir a opinião pública”, disse ao Conselho de Estado, “estamos aqui para controlá-la.”
Pág. 348

Num grau único entre os políticos de sua época, talvez qualquer época, Napoleão cultivou mitos acerca de seu Estado e de si mesmo em todos os setores. De fato, se entendermos “propaganda”, num sentido lato, como “o conjunto dos métodos utilizados pelo poder no intuito de obter resultados ideológicos e psicológicos”, a motivação e o alcance de Napoleão na manipulação da opinião pública foram ilimitados...
Pág. 348

Dentro das devidas proporções, o fenômeno Lula não se enquadra aos comentários anteriores pinçados do livro de Englund? O desconforto diante da crítica, a visão torta segundo a qual crítica e fiscalização por parte da imprensa é, inexoravelmente, fruto da sanha política de uma oposição inconformada com a ascensão de um operário ao poder (construção dos mitos à La Bonaparte). Incrível perceber como este líder de massas (Bonaparte) antecedeu os estadistas modernos na manipulação da imagem e no desprezo pela verdade.

Mas o imperador dos franceses também sentiu na própria pele as mazelas de uma imprensa pouco comprometida com o papel que, hoje, lhe atribuímos. A imprensa inglesa teve papel fundamental no azedamento das relações entre Inglaterra e França ao difamar Bonaparte de forma insistente, colaborando para que este mantivesse os jornais franceses sob controle restrito.

Para os franceses, o tratado só teve um verdadeiro inconveniente, mas esse foi gigantesco e pessoal: os ataques da imprensa britânica ao primeiro-cônsul e à sua família que o acompanharam. Os jornalistas que produziam esta propaganda deram prova de extremo talento e perversidade; demonizavam Bonaparte (“o ogro corso, semi-africano, semi-europeu, mulato mediterrâneo”, o “macaquinho de um metro e trinta”, “um pastiche de todos os palhaços da revolução” etc), contavam mentiras intermináveis sobre seu passado, difamavam Josefina e insinuavam que a irmã dela mantinha relações sexuais com Napoleão. Havia relativamente pouco tempo que a opinião pública se tornara um fator de peso na política internacional e essa campanha da imprensa teve importante papel no envenenamento das relações entre os dois países.
Pág. 286

“Será que a liberdade de imprensa vai tão longe”, escreveu Bonaparte em Le Moniteur (8 de agosto de 1802), “a ponto de ser permitido a um jornal dizer de uma nação amiga, recém-reconciliada com a Inglaterra, coisas que não ousaria dizer a um governo com que estivesse em guerra?”
Pág. 286

O TIRANO DA LIBERDADE

Outro aspecto fascinante na obra de Englund é a dicotomia política apresentada por Bonaparte. Se por um lado virou ao avesso os ditames da Revolução Francesa, trazendo de volta a monarquia em detrimento dos valores republicanos sob o pretexto de dar um fim ao terror, por outro lado, onde quer que a influência francesa tivesse se estendido durante seu longo governo, o legado napoleônico esteve ligado a valores progressistas. Foi sempre absolvido pelos revolucionários que viriam e renegado pelos tiranos (entre eles os fascistas espanhóis, italianos e alemães).

Como a história é escrita pelos vencedores, o papel de tirano imposto a Bonaparte (em especial pelos ingleses) talvez fosse mais secundário que de protagonista. Seria ele mais tirano que os monarcas ingleses que construíram um império sobre colônias esmagadas; ou que os prussianos e austríacos com sua aristocracia montada em privilégios feudais; ou que os espanhóis com sua sociedade dominada pelo fanatismo católico?

“Se para ser livre bastasse desejar a liberdade, todos seriam livres. Mas a história mostra que poucos recebem os benefícios da liberdade porque poucos têm a energia, a coragem ou a virtude que ela requer.”
Napoleão em Santa Helena, Pág. 19

Foi por isso que os homens do Brumário – homens partidários da autoridade, mas não do despotismo, e profundamente imbuídos da noção de que “sem poder não se realizam ideais” – continuaram, com poucas exceções, a bordo da nave consular após 1802. Nem sempre felizes, e com crescentes dúvidas e premonições, mas a bordo. Só ao cabo de algum tempo alguns deles compreenderiam que, “com poder, ideais raramente sobrevivem”.
Pág. 247

Talvez uma explicação mais racional para a evolução de Napoleão Bonaparte de líder para tirano seja a reflexão que se segue:

No fundo, escreveu Napoleão, “o espírito natural do homem é o desejo de dominar”. A visão hobbesiana é inequívoca: “O homem na natureza não conhece outra lei senão o interesse próprio: preservar-se, destruir os inimigos, esses eram seus deveres diários”. A conseqüência de uma visão tão sombria é que o Estado (palavra que Napoleão escreve com inicial maiúscula, à maneira Francesa) deve ser forte.
Pág. 43

O RASKÓLNIKOV CORSO

Embriagado pelo orgulho, o personagem Raskólnikov, protagonista de “Crime e Castigo”, obra chave de Dostoievski (que já foi resenhada aqui), arquiteta um assassinato sob a teoria de que aos que ele classifica como homens extraordinários, tudo é permitido, visto que seus atos têm como objetivo o bem maior ou o simples “direito” de cometer o que sua vontade exigir. Aos homens ordinários, a turba, o populacho, restaria observar como rebanho os arroubos de genialidade destes homens superiores, que guiam seus atos não por uma ética que a todos submete, mas por outra, feita sob medida para cada um mediante sua genialidade.

“Os homens ordinários devem viver na obediência e não têm o direito de transgredir a lei, uma vez que são ordinários. Os indivíduos extraordinários, por sua vez, têm o direito de cometer todos os crimes e de violar todas as leis pela única razão de serem extraordinários.”
Livro I Pág. 346 (Crime e Castigo)

Ora, o pensamento de Bonaparte flerta com os demônios de Raskólnikov. Nos seus últimos momentos em Santa Helena, aprisionado em si mesmo, o grande herói dos franceses, o carrasco dos Bourbon, o libertador de povos assim tentou justificar seus atos diante da história:

Em suma, grandes homens não deveriam ser julgados pelas regras comuns de moralidade: o herói como gerador de progresso merece latitude, tem o direito de agir segundo seu próprio entendimento e sua própria noção de liberdade. Só deveria ser condenado se agisse de maneira flagrantemente incorreta.
Pág. 495