Semana On

Mostrar mensagens com a etiqueta palestina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta palestina. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Palestinos - 65 anos sem pátria



Hoje, 15 de maio, se completam 65 anos da Nakba (Catástrofe), que é como os palestinos batizaram a expulsão de quase um milhão de árabes durante os conflitos internos que deram origem a Israel e ao despatriamento de centenas de milhares de famílias.

Toda sorte de distorções e mitos já foram circulados sobre o que aconteceu na Palestina entre o final de 1947 e o começo de 1949. Na mitologia oficial israelense, no senso comum, no jornalismo mais venal ou preguiçoso, nas Wikipédias e até mesmo em livros embalados como se fossem de pesquisa historiográfica séria, essas distorções foram sedimentando uma coleção de narrativas que recorrem a falsificações não raro contraditórias entre si:

1) que o povo palestino como tal não existia;
2) que ele existia, mas que saiu voluntariamente de suas terras em 1948;
3) que não saiu voluntariamente, mas que tampouco foi vítima do sionismo, pois abandonou suas aldeias atendendo a ordens radiofônicas dos próprios árabes;
4) no ramo da pseudo-historiografia, paga para mentir, já apareceram até livros sobre como os palestinos não eram tão antigos assim na região, já que eles teriam chegado também em imigração recente.

Essas diferentes versões da mitologia oficial vão se sucedendo ou se combinando, a gosto do freguês, formando uma geleia geral de enganação empacotada.

A história é facilmente esquecida. E, por ser facilmente esquecida, é facilmente manipulada. Para quem se interessa pelo tema (e não tem preguiça de ler) segue uma pequena contribuição (pinçada de um trabalho mais extenso do estudioso Idelber Alevar) para que a história seja preservada e, em consequência, para que a verdade não se perca.

-

Em 29 de novembro de 1947, quando a ONU adotou a resolução de partição da Palestina, os árabes representavam dois terços da população da região. Eles eram aproximadamente 90% no início do Mandato Britânico, em 1922. A partição proposta pelo Comitê Especial das Nações Unidas para a Palestina (UNSCOP, pela sigla em inglês) concedia ao terço judeu nada menos que 56% do território, deixando aos dois terços árabes somente 44% da terra. Por pressões do Vaticano e das nações católicas, a resolução da partição reservava à cidade de Jerusalém (de população de 200 mil pessoas, divididas mais ou menos igualmente entre árabes e judeus) a condição de área internacionalmente governada.

A divisão demográfica dos dois países era bizarra: no estado árabe, deveriam viver 818.000 palestinos, hospedando 10.000 judeus. No estado judeu, viveriam 438.000 palestinos entre 499.000 judeus. Esse estado detinha a esmagadora maioria das terras férteis e, das 1.200 aldeias palestinas, aproximadamente 400 estavam incluídas em seu interior, sob soberania sionista. Elaborada pelo UNSCOP, cujos membros não sabiam muito sobre a Palestina, a partição se transformaria na Resolução 181 da ONU. Não é de se estranhar que a liderança palestina do momento a rejeitasse. Com o boicote palestino ao UNSCOP, com certeza um erro político grave, a liderança sionista, de ampla superioridade bélica, se viu livre para dominar também o jogo diplomático.

A amarga ironia da história, quando a vemos do ponto de vista árabe, é que se os palestinos tivessem aceitado a partição, a liderança sionista com certeza a teria rejeitado. Basta examinar as comunicações entre Ben-Gurion e a hierarquia sionista para ver como a rejeição árabe ao plano de partição permitiu ao sionismo aceitá-lo publicamente e ao mesmo tempo trabalhar contra ele. Logo depois da adoção da Resolução 181, Ben-Gurion afirmava ao círculo da liderança sionista que a rejeição árabe ao plano significava que “não há fronteiras territoriais para o futuro estado judeu” e que as fronteiras “serão determinadas pela força e não pela resolução de partição”. Respondendo a um líder sionista e ministro do exterior (Moshe Sharett) acerca das possibilidades de defender o seu território, Ben-Gurion afirmava: “seremos capazes não só de nos defendermos, mas de infligir golpes letais aos sírios em seu próprio país—e tomar a Palestina como um todo”.

Essas comunicações, disponíveis para consulta nos próprios arquivos israelenses, demonstram claramente que a liderança sionista viu o plano de partição como uma conquista tática, que colocava em definitivo sobre a mesa a legitimidade de um estado judeu na Palestina e estabelecia um trampolim para conquistas posteriores. Essas conquistas, é certo, foram facilitadas pelo perplexo boicote palestino ao Comitê da ONU. Reitere-se, então, que as citações de Ben-Gurion acima são parte de uma ampla documentação que prova que a liderança sionista jogou um jogo duplo e não se comprometeu com a partição como fórmula definitiva. Isso jamais é mencionado pelos apologistas da ocupação de Israel que repetem a consigna de que “os judeus aceitaram a partição de 1947 e os árabes a rejeitaram” como justificativa dos crimes cometidos por Israel em 2010, e bem além dos limites dessa partição.

Antes de descrever a expulsão dos palestinos de suas terras, mais um elemento do xadrez político legado pelo Mandato Britânico deve ser explicado: o acordo sionista-jordaniano que deixa os palestinos sem o apoio do principal exército árabe na Guerra de 1948 e à mercê do superior poder bélico sionista. Aliada dos ingleses na Primeira Guerra Mundial, a família real Hashemita havia recebido os reinos da Jordânia e do Iraque como recompensa por seus serviços. O que passou a ser conhecido como Transjordânia “era um pouco mais que um principado desértico e árido ao leste do Rio Jordão, cheio de tribos beduínas e aldeias circassianas”. As férteis terras da Palestina situadas a oeste do Rio Jordão, no que hoje é conhecido como Cisjordânia (ou seja, o grosso do território do que é, legalmente, a Palestina atual), passaram a ser objeto da cobiça da família real Hashemita. Havia poucos judeus ali, e entre 1946 e 1947 a realeza jordaniana e a liderança sionista chegaram um acordo: os jordanianos não interfeririam na guerra árabe-israelense que se avizinhava—promessa que os jordanianos cumpriram—e a região da Cisjordânia seria anexada pelo reino dos Hashemitas, sem interferência sionista—promessa que os israelenses quebraram em 1967, ao ocupar o território e mantê-lo sob seu controle, picotagem policial e colonização armada até hoje. Também ali se instalaria um paradigma repetido incontáveis vezes desde 1948. Acuados pelo poder superior dos sionistas, as elites árabes vizinhas rifavam os palestinos, deixando-os entregues à própria sorte num jogo no qual não tinham nenhuma chance. É mais um elemento da tragédia do Oriente Médio.

Revisando os diários de Ben-Gurion e os arquivos israelenses posteriores à partição, o historiador Ilan Pappe encontra certa surpresa e júbilo entre a liderança sionista com o caráter limitado da reação palestina ao recorte de suas terras. Seguindo-se à Resolução 181, os palestinos se limitam a convocar uma greve geral de três dias, durante a qual a repressão inglesa foi duríssima. As revoltas árabes que aconteceram entre 1936 e 1939 deram também à organização paramilitar judia Hagana sua primeira experiência na execução das táticas militares aprendidas com a Grã-Bretanha. A destruição da liderança política palestina seria decisiva para o rumo posterior dos acontecimentos. O quadro que precede a guerra de 1948 é de intenso armamento sionista, coincidindo com um momento de particular fragilidade da liderança palestina, destroçada pela repressão britânica à revolta de 1936-39. No jogo diplomático, começa a pesar a consciência culpada da Europa, em choque com as dimensões gigantescas do Holocausto judeu, recém perpetrado. Quebrar as promessas feitas aos árabes era preço relativamente pequeno para expiar, às custas de outrem, a culpa européia pelo judeocídio. No xadrez político da região, o acordo sionista-jordaniano neutralizava o principal exército árabe. Em pânico com os constantes ataques dos grupos paramilitares judeus (Hagana, Irgun e Stern), a população autóctona, já em 1947, começa a perceber o poderio sionista como uma força imbatível. Estava aberto o caminho para a limpeza étnica da Palestina.

A preparação da expulsão

Como se sabe agora, a liderança militar sionista ficou surpresa com o caráter limitado dos protestos palestinos que se seguiram ao decreto da partição, em novembro de 1947. Afinal de contas, seu território havia sido rachado com uma comunidade minoritária de colonos, que receberam não só um naco de 56% do território, desproporcional à sua representação na população, mas um naco que continha pelo menos 400 aldeias palestinas, nas quais 800.000 palestinos deviam seguir vivendo sob soberania imposta e recém chegada. Ao longo dos dias que se seguem à partição, o comando sionista se reúne para encontrar formas de ataque possíveis, ante a ausência de pretextos. Os arquivos estudados por Ilan Pappe, das reuniões a liderança judaica na Palestina, dão amplo testemunho do planejamento da limpeza étnica. Os fazendeiros dos Kibbutzim transformavam suas cooperativas em postos militares, enquanto nas aldeias palestinas a vida seguia seu curso, no qual a “normalidade era a regra e a agitação a exceção”, segundo os informes do próprio Palti Sela, membro de uma unidade de inteligência sionista. Ao longo do mês de dezembro de 1947, anterior à guerra propriamente dita, as aldeias palestinas sofrem uma campanha de terror e intimidação das organizações paramilitares judias que representam o primeiro capítulo da limpeza étnica da Palestina.

A linguagem da ameaça foi prática comum naquele momento, como mostra o exemplo citado por Ilan Pappe, de panfletos lançados às aldeias sírias e libanesas na fronteira palestina: “Se a guerra for levada até você, ela causará expulsão massiva de aldeões, com suas mulheres e crianças … haverá matança sem piedade, sem compaixão”. Lembremos que nesse momento o sionismo já possui um mapa completo das aldeias palestinas, incluindo-se informação sobre água, possíveis defesas e indivíduos vinculados à resistência árabe durante os protestos de 1936-39. Esse mapeamento seria chave na destruição das centenas de aldeias palestinas e na expulsão de centenas de milhares de habitantes autóctonos da região No mês de dezembro se disseminam as ações que a Hagana chamava de “reconhecimento violento” (hassiyur ha-alim): invadir uma aldeia à noite, instaurar toque de queda, atirar em qualquer um que ouse sair de casa, permanecer durante algumas horas e ir embora. A aldeia de Deir Ayyub foi uma das vítimas de dezembro de 1947. Com aproximadamente 500 habitantes, ela acabava de comemorar a abertura de uma escola. Foi invadida por tropas judaicas que passaram a atirar indiscriminadamente nas casas. Deir Ayyub ainda seria atacada três vezes antes de ser destruída em sua totalidade em abril de 1948 (p.56). No nordeste da Galileia, na aldeia de Khisas, algumas centenas de muçulmanos coexistiam pacificamente há tempos com uma centena de cristãos. Até que no dia 18 de dezembro de 1947, tropas judaicas a invadiram e passaram a explodir casas durante a noite, provocando a morte de quinze aldeões, pelo menos cinco crianças. Ações como estas proliferaram ao longo de dezembro de 1947, e não costumam ser mencionadas pelos que justificam as atrocidades de Israel com o argumento de que “os palestinos iniciaram a guerra” em janeiro de 1948.

As ações de expulsão da população anteriores à declaração formal de guerra em janeiro de 1948 não se limitaram às aldeias pequenas. Na cidade de Haifa, principal porto da Palestina, 75 mil palestinos “foram submetidos a uma campanha de terror instigada conjuntamente pelo Irgun e pela Hagana. Como haviam chegado em décadas recentes, os colonos judaicos construíram suas casas no alto das montanhas. Viviam topograficamente acima dos bairros árabes e podiam disparar e lançar morteiros contra elas. Começaram a fazê-lo com frequência a partir do começo de dezembro. Usaram também outros métodos de intimidação: as tropas judaicas rolavam barris cheios de explosivos, e enormes bolas de aço, na direção das áreas residenciais árabes, lançavam óleo misturado com combustível nas estradas, que aí incendiavam. Os residentes palestinos, aterrorizados, corriam para fora de suas casas para tentar apagar o fogo, e aí passavam a ser alvo de rajadas de metralhadora”. A descrição documentada do que aconteceu em Haifa em dezembro de 1947 é importante porque a cidade é, com frequência, mencionada como exemplo de que as lideranças judaicas insistiram para que os palestinos ficassem e eles saíram “voluntariamente”.

Epílogo e promessa

Não está contada aqui, evidentemente, nada da história do Nakba propriamente dito. Para se entender a monstruosidade a que foi submetida o povo palestino, há que se conhecer os quatro planos de limpeza étnica da Palestina elaborados pela liderança sionista desde antes da II Guerra Mundial. O Plano A, também conhecido como “Plano Elimelech”, toma seu nome do líder do comandante da Hagana que, em 1937,  já elaborara, a pedido de Ben-Gurion, um projeto de limpeza étnica a ser executado no momento em que os ingleses abandonassem a Palestina. O Plano B foi escrito em 1946 e ambos depois se fundiram no Plano C, que previa: a) assassinatos seletivos da liderança política palestina; b) destruição da infraestrutura de transporte palestina; c) sabotagem específica às fontes de sustento da população nativa, como os moinhos; d) ataques escalonados às aldeias; e) bombardeios de ônibus, cafés, locais de reunião. O fundamental desse plano é mantido no projeto que é efetivamente executado, o Plano D (Dalet), anterior à guerra de 1948, e que previa a sistemática expulsão do povo palestino de suas terras.

O Plano Dalet já é consenso entre a liderança sionista em Dezembro de 1947, antes da oficialização da guerra. Ao cabo do processo de limpeza étnica, espantosamente curto e brutal, mais da metade da população palestina nativa (pelo menos 750.000 pessoas) foi expulsa, 531 aldeias foram destruídas e onze bairros urbanos foram esvaziados de sua população, um crime contra a humanidade de enormes proporções, ainda hoje negado e envolvido em falsificação. Hoje, os refugiados e seus descendentes vivem esparramados por, em números aproximados, Jordânia (2 milhões), Líbano (430.000), Síria (480.000), além de 800.000  que são parte da população palestina que mora sob ocupação militar israelense na Cisjordânia (2,3 milhões) e outro 1,1 milhão que vive sob bloqueio (e frequente bombardeio) militar israelense em Gaza. Outros 1,2 milhão de palestinos vivem como cidadãos de segunda classe em Israel. O melhor guia do Nakba é o livro de Ilan Pappé, The Ethnic Cleansing of Palestine, infelizmente ainda inédito em português.

domingo, 25 de novembro de 2012

Holocausto Palestino

Holocausto Palestino
"Novamente, a negação de Israel a um Estado Palestino leva a região a uma explosão de ódio"

Mais uma vez o medo prevalece na tênue fronteira que divide israelenses e palestinos. A fórmula é sempre a mesma. O Exército israelense iniciou os bombardeios à Gaza no dia 14 atacando vários alvos e matando o comandante militar do Hamas, Ahmed Jabari, 52. Ele foi atingido por um míssil enquanto circulava de carro. O ataque foi seguido por dezenas de outros, contra “instalações militares”, “depósitos de armas” e “plataformas de lançamento de foguetes”. Outros 15 palestinos morreram durante a operação batizada de "Pilar de Defesa", entre eles seis crianças...

Na manhã seguinte, o Hamas lançou um foguete que matou três israelenses a norte de Gaza. Horas depois, pelo menos um foguete foi lançado com direção à capital Tel Aviv, fazendo soarem os alarmes antiaéreos pela primeira vez desde a Guerra do Golfo, em 1991. Houve pânico, e a TV israelense exibiu imagens de pessoas jogadas no chão, no centro de Tel Aviv, enquanto as sirenes soavam.  Informações preliminares da polícia israelense dão conta de que o projétil caiu no mar. Não houve vítimas.

Este cenário de horror é o resultado direto da política de intransigência israelense, que nos últimos 40 anos têm transformado os palestinos em estrangeiros em sua própria terra. Esta política, que tem base na construção de assentamentos - que a ONU já classificou como ilegais – e na negação da identidade palestina, cria, do outro lado, o terreno ideal para o florescimento do radicalismo islâmico, tão pernicioso quando o sionismo.

A solução para este conflito não virá enquanto Israel não abrir mão do sonho sionista de estabelecer Eretez Israel, a grande Israel bíblica. A única saída possível está na convivência entre israelenses e palestinos a partir do estabelecimento de um Estado Palestino autônomo e independente e do estabelecimento de fronteiras  entre estas duas nações soberanas. Ninguém em sã consciência condenaria Israel pela violação de suas fronteiras legais. Ninguém em sã consciência pode deixar de condenar o país diante da política de esfacelamento econômico e cultural que promove contra a populações de Gaza e  da Cisjordância.

Enquanto o bom senso não prevalece, o mundo, mais uma vez, assiste de sua confortável poltrona o pavoroso espetáculo da guerra. Os números traduzem o holocausto palestino. Dá última vez que o exército israelense cruzou a “fronteira”, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, deixou para trás mais de 1.300 palestinos mortos e 5.000 feridos na faixa de Gaza. Segundo o Centro Palestino para Direitos Humanos - e muitas outras instituições internacionais sólidas e confiáveis - metade destas vítimas era civil. Morreram também 13 israelenses, sendo três civis.

Estamos, agora, às portas de um novo massacre? Diante de um novo cessar-fogo? De novas declarações unilaterais? De novos apelos contra o "terrorismo islâmico"? Depois que os mortos forem enterrados e esquecidos ouviremos dos próceres do Ocidente novas exortações à paz? O ciclo se repetirá com a eterna cantilena dos vitoriosos, com o constante lamento dos derrotados?

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O que ocorre em Gaza é genocídio?

Para começar, o que é genocídio? O termo foi criado por Raphael Lemkin, um judeu de origem polonesa, em 1944, a partir da junção da raiz grega génos (família, tribo ou raça) e - caedere (Latim - matar). Após o assassinato em massa de judeus, ciganos, testemunhas de jeová, comunistas, homossexuais e prisioneiros de guerra eslavos pelos nazistas, Lemkin iniciou uma campanha pela criação de leis internacionais que definissem e punissem o genocídio. Esta pretensão tornou-se realidade em 1951, com a Convenção para a prevenção e a repressão do crime de genocídio, da qual o Brasil é signatário.

A Convenção define por genocídio os seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso:

a) Assassinato de membros do grupo;
b) Atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo;
c) Submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial;
d) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;
e) Transferência forçada das crianças do grupo para outro grupo.

No meu entender, a política de bombardeio contínuo dos centros urbanos palestinos e de isolamento desta população em guetos é um “atentado grave à integridade física e mental” dos seus habitantes, portanto, deve ser classificado como genocídio.

O acadêmico e escritor palestino-libanês Saree Makdisi afirma que uma geração inteira de palestinos cresce com deficiências físicas e nutricionais geradas por falta de alimentos e alterações emocionais, por viver no cárcere virtual criado pelo bloqueio israelense, que se estende desde junho de 2007.

Em meio à violência, as crianças palestinas são as principais vítimas. Cerca de 50% dos 1,5 milhão de palestinos em Gaza têm até 15 anos de idade. O número de mortos nos conflitos sazonais que assolam a região é sempre recheado por um contingente expressivo de crianças e adolescentes.

Um estudo da Queen"s University revelou que 90% das crianças em Gaza já foram vítimas do uso de gás lacrimogêneo, presenciaram cenas de violência em suas casas ou testemunharam tiroteios e explosões. O estudo demonstra, também, que o risco de desordem emocional em uma criança ferida nessa região se multiplica por quatro. Do mesmo modo, aquelas que presenciaram uma morte têm o risco de estresse pós-traumático multiplicado por 13. “É como se as crianças palestinas de alguma maneira não merecessem as proteções garantidas pela Convenção de Genebra e o Direito Humanitário”, conclui o estudo.

Levantamento feito pelo Gaza Community Mental Health Programme, realizado após a segunda Intifada, em 2000, indica que 70% das crianças palestinas na região não conseguem se concentrar, 96% têm medo do escuro, 35% se isolam e 45% sofrem altos níveis de ansiedade e estresse.

Da mesma forma, o bloqueio israelense construído por meio do isolamento das comunidades palestinas em Gaza e na Cisjordânia aprofundou de forma avassaladora às dificuldades econômicas, sociais e sanitárias da população, configurando-se em “submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial”.

O drama se traduz nos indicadores da região: mais de 80% dos 1,5 milhão de habitantes do território são pobres, e metade da população ativa não tem renda fixa. Dois terços dos cerca de 110 mil empregos que existiam no comércio desapareceram nos últimos anos. Com o colapso do sistema de esgoto, os dejetos acabam despejados no mar, tornando insalubres as praias mediterrâneas e aniquilando a fonte de lazer preferida da juventude local. Só há eletricidade durante metade do dia no território, que se assemelha em tamanho e população ao município de Guarulhos (SP) - na prática, duas das áreas mais densamente povoadas no mundo, com mais de 4.000 habitantes/km2.

Estas políticas de esmagamento da população palestina vêm sendo perpetradas há anos e registradas em detalhes por observadores de todo o planeta. No artigo “Genocide in Gaza” (2006), Ilan Pappe – escritor, conferencista sênior no Departamento de Ciência Política da Universidade de Haifa e Presidente do Instituto Touma para Estudos Palestinos em Haifa – esmiúça em detalhes os métodos do terror estatal israelense:

A estratégia anterior em Gaza foi colocar os palestinos lá como se fosse um gueto, mas isso não está funcionando. A comunidade posta no gueto continua a expressar sua vontade de viver através do lançamento de mísseis primitivos para dentro de Israel. Isolar em guetos ou quarentena comunidades indesejadas, mesmo se elas forem consideradas subumanas ou perigosas, nunca funcionou na história como solução. Os judeus sabem melhor que ninguém por sua própria história. O próximo estágio contra tais comunidades no passado foram ainda mais horrendos e bárbaros. É difícil dizer o que guarda o futuro para a população de Gaza, confinada em um gueto, posta em quarentena, indesejada e demonizada. Será uma repetição de exemplos históricos funestos ou ainda é possível um destino melhor?

Fausto Wolff, no artigo “Protejam as crianças”, coloca o dedo na ferida ao denunciar que tanto Israel quanto os Estados Unidos têm violado constantemente a Convenção de Genebra, cujos artigos 55 e 56 tratam da proteção que os invasores devem prover para a população civil do país invadido: acomodações, comida, bebida, assistência ambulatória e hospitalar.

O artigo 56 enfatiza a obrigação do poder invasor de, em cooperação com as autoridades locais, providenciar rigorosos padrões higiênicos e fiscalizar bens perecíveis para evitar a propagação de epidemias, adotando medidas de profilaxia. E a todos os médicos e enfermeiras do país ocupado deve ser dada a liberdade de cumprir seus deveres.

Um trecho do artigo “Israel vive paradoxo aos 60 anos”, de Daniela Kresch, é esclarecedor no que se refere a transformação de Israel em um país que trai as suas origens ao reproduzir sobre seus vizinhos os horrores que estão na origem de sua criação: “Para o cientista político Shlomo Zener, os traumas e temores nacionais não podem justificar a severidade no modo como são tratados os palestinos. Para ele, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza corrompeu o espírito libertário dos primeiros israelenses, que lutaram para criar um Estado moderno, sem perseguições, que servisse de modelo ético depois do extermínio de 6 milhões de judeus na Segunda Guerra.”.

Psicanalista e professor da Universidade Estadual de Maringá (PR), Raymundo de Lima traça, no artigo “É ‘barbárie’, ‘genocídio’, ‘holocausto’, ou ‘massacre’?”, um perfil bem reconhecível dos que tentam racionalizar a prática do genocídio. Segundo ele, o genocida tende a utilizar mecanismos de defesa psíquica como a racionalização e a intelectualização para justificar o seu ato como de “legítima defesa”, proteção contra o “intruso”. Qualquer similaridade com os argumentos usados por Israel em sua política belicista contra os palestinos não é mera coincidência.

Diz ele: “...ou seja, o outro é sempre visto como ‘perigoso’, ‘inferior’, ‘estrangeiro’, ‘infiel’, ‘selvagem’, ‘coisa’ ou ‘objeto, enfim, o ‘outro’, o ‘diferente’ é sempre considerado um problema para a existência do genocida; como é marcado na sua singularidade, o ‘outro’ não é visto como ser humano total, não é ‘humanizado’ em sua condição de ser existente.”.

Em seu artigo, Lima sustenta, ainda, que o crime de genocídio do Estado ou de qualquer ato de barbárie de grupos extremistas, embora pareçam ser irracionais, na verdade são cometidos em nome de alguma causa “justa”. Ele explica: “O ato monstruoso sempre recorre a uma moral tosca cuja razão cínica satisfaz aos irmãozinhos que compartilham com a mesma crença, que acreditam nas sombras dogmáticas projetadas por um psiquismo esclerosado. Muitas vezes quem pratica o grande massacre se coloca como vítima...”.

Encerro citando o trecho final de “Genocide in Gaza”, no qual Pappe analisa de forma cáustica (e premonitória) os caminhos e descaminhos do holocausto palestino e as alternativas que restam para conter o autoritarismo com que os israelenses conduzem a questão.

Ainda não há outra forma de parar Israel exceto boicote, desinvestimento (NT: retirada de investimentos, participação em sociedades etc.) e sanções. Todos nós deveríamos apoiar tais medidas clara, aberta e incondicionalmente, não importando o que os gurus de nosso mundo nos digam sobre a eficiência ou razão de ser de tais ações. A ONU não interviria em Gaza como faz na África; os ganhadores do prêmio Nobel não se interessarão em defendê-la, como fazem por causas no Sudeste Asiático. O número de pessoas mortas não é estonteante se comparado com outras calamidades, e não é uma história nova - é perigosamente velha e complicada. O único ponto suave dessa máquina de matar são suas linhas de oxigênio com a civilização 'ocidental' e a opinião pública. Ainda é possível perfurá-las e, pelo menos, tornar mais difícil para os israelenses implementar sua estratégia futura de eliminação do povo palestino, ou pela limpeza deles na Cisjordânia, ou pelo genocídio na Faixa de Gaza.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Israel não respeita direitos do povo palestino

Artigo de Arlene Clemesha* e Bernadette Siqueira Abrão** publicado hoje no jornal Folha de S.Paulo.

Em artigo nesta Folha ("Direitos humanos em mãos erradas", "Tendências/Debates", 10/10), o embaixador israelense queixou-se do Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU, em que relatórios têm sido aprovados, denunciando graves violações de direitos humanos por parte do governo israelense nos territórios palestinos ocupados da Cisjordânia e da faixa de Gaza.

De fato, apenas nos primeiros seis meses de 2010, foram registradas na Cisjordânia a demolição de 223 edifícios e a expulsão de 338 palestinos de suas casas.

Quinhentas e cinco barreiras violam o direito de ir e vir, impedindo o acesso da população a escolas, a locais de trabalho e a hospitais, para procedimentos vitais como diálise, cirurgias do coração e cuidado neonatal intensivo.

Seguindo a lógica de anexar o máximo de terras com o mínimo de palestinos, o trajeto tortuoso do muro enclausurou Belém e Qalqilia, expulsou 50 mil palestinos de Jerusalém Oriental e anexou 10% das terras mais férteis da Cisjordânia. As colônias israelenses, também ilegais, expandem-se a todo vapor sobre territórios palestinos.

A justificativa de Israel para a violação de direitos humanos -zelar pela "segurança" de seus cidadãos- não se sustenta, sendo tais atos a própria origem da revolta palestina.

Os "mísseis" citados pelo artigo do embaixador são armas de fabricação caseira, usadas em desespero por um povo sem Estado, que sofre a mais longa ocupação militar da história moderna, submetido a bombardeios, a incursões militares, a assassinatos dirigidos e a toques de recolher.

O artigo também cita um prisioneiro militar israelense, omitindo o fato de que Israel tem em seus presídios mais de 6.000 civis palestinos (incluindo crianças), a maioria deles sem acusação formal, processo judicial ou direito de defesa.

Alega-se que Israel estaria sendo alvo de injustiças por parte do CDH em consequência do relatório do juiz Richard Goldstone sobre os crimes de guerra cometidos durante o bombardeio que massacrou 1.397 pessoas em Gaza (incluindo 320 crianças e 109 mulheres).

Assim, deturpa-se o caráter heroico da flotilha de ativistas humanitários do mundo todo, incluindo israelenses e uma mulher sobrevivente do Holocausto, que arriscaram suas vidas para quebrar o bloqueio ilegal a Gaza.

O objetivo da flotilha era chamar a atenção do mundo para o problema? Sim. Era e continuará sendo uma provocação? Apenas se considerarmos o termo um desafio aberto, para que a humanidade impeça a continuidade do cerco a Gaza, onde 80% da população sofre de má nutrição crônica, as crianças apresentam estresse e distúrbios psicológicos causados pelos ataques, pelo sofrimento e pelas constantes bombas sonoras lançadas por Israel sobre a pequena faixa costeira.

O mesmo governo israelense que se queixa do CDH emitiu, no dia 10/ 10, um projeto de lei que, se aprovado, exigirá de todo não judeu de Israel um juramento de "lealdade ao caráter judeu do Estado".

Cerca de 20% da população, de origem palestina cristã, muçulmana ou outra, terá de aceitar o caráter judeu do Estado de Israel ou emigrar, aumentando o número de refugiados, que ultrapassa 9 milhões. As consequências disso, para a Palestina e para o mundo, não valem um debate no Conselho de Direitos Humanos da ONU?

* Arlene Clemesha é professora de história árabe na USP e diretora do Centro de Estudos Árabes da mesma universidade, é representante da sociedade civil do Brasil no Comitê da ONU pelos Direitos do Povo Palestino.

** Bernadette Siqueira Abrão é jornalista, formada em filosofia pela USP, é pesquisadora da questão palestina, ativista de direitos humanos e autora, entre outros livros, de "História da Filosofia" editora Moderna).

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Obama, o advogado de Israel

Em seu encontro de segunda-feira com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o presidente Barack Obama desdenhou conselho de alguém que tem enorme experiência em negociações entre palestinos, israelenses e norte-americanos.

Em artigo publicado na terça-feira pelo "Los Angeles Times", Aaron David Miller sugeriu o seguinte: "Advogue pelo acordo [de paz], não apenas por um lado ou o outro".

David Miller foi conselheiro de secretários de Estado, tanto republicanos como democratas, em negociações entre árabes e israelenses. Nessa condição, tomou parte na célebre reunião de Camp David, 10 anos atrás, entre os presidentes Bill Clinton e Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense da época Ehud Barak, atualmente ministro da Defesa.

Hoje, no Centro Internacional Woodrow Wilson, David Miller cita Henry Kissinger, um dos mais badalados secretários de Estado norte-americanos, que dizia que, demasiado frequentemente, os Estados Unidos funcionaram como advogado de Israel, em vez de compreender que o seu cliente era o acordo e que deveriam advogar para ambos os lados. Bingo.

Ao receber Netanyahu, Obama esquivou-se completamente do tema que é o maior impedimento, no momento, para as negociações de paz entre palestinos e israelenses: a construção --ilegal-- de residências para colonos judeus em territórios palestinos.

Não por acaso, a Betselem, respeitada instituição israelense (atenção, israelense, não palestina) divulgava no mesmo dia do encontro Obama-Netanyahu a informação de que os assentamentos judaicos controlam 42% da Cisjordânia ocupada, embora a área construída represente apenas 1% do total.

Acontece que as fronteiras municipais dos assentamentos são dez vezes maiores que a área habitada. De acordo com a Betselem, a população de colonos quase triplicou desde 1993, de 110 mil para 301,2 mil.

A organização acusa o governo israelense de descumprir o compromisso assumido com o governo dos EUA do ex-presidente George W. Bush, em 2003, de congelar todas as construções.

Obama tampouco mencionou, pelo menos em público, três dos quatro pontos que definirão qualquer acordo de paz entre israelenses e palestinos, a saber: Jerusalém, cuja parte oriental os palestinos reivindicam como sua capital; fronteiras e refugiados. Citou apenas aquele que interessa especificamente a Israel, aliás com toda a razão: segurança, ou seja, o direito que tem o Estado judeu de existir em segurança.

Como Israel é a potência ocupante, todo o dossiê do acordo de paz depende de iniciativas de seu governo. Mas tudo o que Netanyahu se comprometeu a fazer foi, eventualmente, transferir a responsabilidade por mais áreas da Cisjordânia às forças de segurança palestinas. Nada que vá ao cerne da questão.

Enquanto escamoteava os pontos que Israel deveria atender, se quer mesmo a paz, Obama aceitava fazer cobranças aos palestinos sobre o que o jargão israelense chama de "incitamento". Netanyahu quer que a Autoridade Palestina - a única que se dispõe a negociar a paz, já que o Hamas, que governa Gaza, quer é aniquilar Israel - "prepare seu povo para a paz, nas escolas, nos livros-texto e assim por diante".

É uma alusão à suposta ou real pregação do ódio em livros escolares e, por extensão, nas escolas palestinas. Obama comprou a tese, ao dizer que "é muito importante que os palestinos não busquem desculpas para o incitamento e não se engajem em linguagem provocativa".

Dificilmente, haveria demonstração mais contundente de advocacia de um lado só, exatamente o contrário do que sugere o experiente Aaron David Miller, que é judeu, como o nome indica, mas não é dogmático.

Publicado quarta-feira por Clóvis Rossi na Folha Online. Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Israel - um Estado terrorista

"A colonização sionista deve ser completada e cumprida, mesmo que contra a vontade da população nativa. É importante falar hebreu, mas, mais importante, é ser capaz de fuzilar.“

Vladimir Jabotinsky, 1939.

O ataque a frota pacifista, onde foram assassinados pelo menos 15 ativistas, é mais uma prova do que sempre Israel foi: um estado terrorista, fora da lei. Esteve sempre acima da lei. Israel faz e desfaz do direito internacional sem sequer merecer uma ação de julgamento da Corte Internacional pelos crimes de guerra e massacres cometidos.

O fato da ação terrorista de Israel ter acontecido em águas internacionais não representa fato inédito, pois o Mossad já cometeu centenas de ações ilegais e terroristas em várias partes do mundo, fora da jurisdição do que se pode chamar de “fronteiras” de Israel.

Também vários pacifistas palestinos e de outras nacionalidades foram assassinados nos territórios palestinos ocupados em ocasiões de manifestações pacíficas de solidariedade e protesto contra as políticas sionistas de ocupação, racismo e opressão que Israel impõe ao povo palestino.

O que temos de novo nesse ato de terror contra a frota pacifista é o fato desta reunir mais de 800 pessoas de diversas nacionalidades, com apoio institucional e bandeiras desfraldadas de países que não estão em estado de armistício com Israel. Quando o sangue é palestino é mais do que normal, é comum, não chama mais tanta atenção assim. E quando chama atenção e acontecem os protestos nas ruas e nos fóruns internacionais, as conseqüências políticas são desprezíveis e acabam servindo para amenizar e aliviar o peso da consciência das potencias ocidentais, culpadas pela criação da tragédia palestina.

Israel alega legitima defesa dizendo que os soldados foram agredidos ao invadir o navio. E quem convidou Israel a invadir com tanta cortesia e fineza um navio que se encontrava em águas internacionais? Quer dizer que a raposa faz um grande favor e presta um enorme serviço humanitário quando invade o galinheiro? Realmente nada mais indigno e nojento que as farsas e mentiras dos governantes israelenses e seus lacaios de plantão. Israel já ultrapassou a tempo a fase da insanidade. Talvez agora, com esse ataque, os líderes mundiais comecem a levar mais a sério o perigo que Israel representa para a paz mundial.

As fontes que alimentam o terrorismo de Israel são: sua origem sionista, a ajuda externa dos EUA, seu poder militar e a impunidade.

SIONISMO

O Sionismo é uma ideologia racista, já que um dos seus lemas, um mito propagado aos quatro ventos, “Palestina, uma terra sem povo para um povo sem terra” equivale ao que temos lido, falado e visto ao longo de sua fundação em 1898: a limpeza étnica da Palestina, a eliminação de todas as condições que objetivem a implantação do Estado da Palestina soberano e independente e a desqualificação de todas as manifestações históricas e culturais da essência nacional árabe, muçulmana e cristã do povo palestino.

Desde a sua origem o sionismo se articula com as grandes potencias para obter apoio no seu projeto de colonizar a Palestina, substituindo os habitantes nativos, os palestinos, por uma população de maioria judaica, nem que para isso se cometam massacres, expulsões, destruição de vilas e aldeias (foram destruídas mais de 430 durante o período da guerra de 1948). Hoje, o maior numero de refugiados, reconhecido pela ONU, são de palestinos, com aproximadamente 5 milhões espalhados pelo mundo, sem ter o direito ao retorno as suas terras e lares na Palestina.

Um movimento pela paz em Israel procura ampliar forças para se contrapor as correntes políticas sionistas que sustentam o regime fascista de Israel, mas atualmente esse movimento não reúne apoio suficiente para alterar a correlação de poder.

AJUDA EXTERNA

A ajuda externa norte americana para Israel, coordenada pelo lobby sionista nos EUA, de mais de quatro bilhões de dólares anuais em dinheiro e armas, é resultado da aliança estratégica entre os dois países estabelecida pelos interesses mútuos no contexto da guerra fria, que teve como objetivos principais impedir que a União Soviética tivesse influencia real na região e o controle das fontes, refino e comercialização do petróleo.

O debate nos Estados Unidos sobre se ainda vale a pena pagar tanto a Israel para que cidadãos e soldados americanos morram no Iraque, no Afeganistão e em toda a região, está acontecendo em várias instancias governamentais e não governamentais. Não só pela vida dos seus filhos, mas também pela falta de racionalidade em continuar sendo um império utilizando-se da força bruta, enquanto a China se estabelece mundialmente por meios mais competentes e indolores! “Porque tirar do meu bolso (impostos) para pagar Israel se tenho que mandar meu filho para a guerra lá no oriente médio, para, no fim das contas, acabar protegendo Israel”: simples e poderoso argumento de uma mãe, e que começa a permear as instancias governamentais norte americanas.

O PODER MILITAR

O governo é o exército e o exército é o governo: essa é, de fato e de direito, a democracia israelense. Democracia é fazer de Gaza o maior campo de concentração a céu aberto do mundo, democracia é cercar a Cisjordânia com o muro do apartheid, da vergonha. O presidente Lula em sua recente visita a Palestina declarou: “um muro dentro de Israel, são 750 quilômetros passando por ruas, cercando. Não é uma coisa nobre para o século XXI. Eu me senti dentro de uma eclusa, eu me senti dentro de uma eclusa, tanto para ir para a Palestina quanto para voltar. Você para num local, fecha as portas, você desce do carro, entra num outro carro, e aí você atravessa. Ou seja, é como se nós não estivéssemos vivendo num mundo civilizado, no século XXI! Onde está o grande aprendizado que esses homens que dirigem o mundo aprenderam na universidade? Será que essas pessoas não percebem que o ser humano não pode, não foi feito para involuir, mas sim para evoluir?”

Quando os EUA e outras potencias aliadas questionam o projeto de enriquecimento de urânio para fins de geração de energia elétrica e outros fins pacíficos que o Irã desenvolve, Israel se mantém calada, silencio quase absoluto sobre o tema, se não fossem as evidencias que o mundo já tem sobre o arsenal nuclear israelense. Para justificar a invasão do Iraque a CIA “fabricou” um relatório mostrando provas da existência de armas de destruição em massa. Aguardemos então que os Estados Unidos invadam Israel!

Seria importante os Estados Unidos, França e Inglaterra reverem suas políticas em relação a Israel ao invés de criticarem o acordo nuclear que o Presidente Lula promoveu entre Brasil, Irã e Turquia, demonstrando que quando as intenções das partes são baseadas no mutuo respeito entre as partes, no reconhecimento de suas aspirações legais e legítimas e na soberania dos países envolvidos, o diálogo se presta a alcançar resultados que as potencias não alcançaram até o momento por razoes óbvias: não querem negociar, dialogar, querem impor e dominar.

IMPUNIDADE

O estado israelense é um estado sionista, racista, militar e antidemocrático, protegido e financiado pelas potencias ocidentais, tendo como aliado principal os Estados Unidos da América.

Seria demasiado repugnante aceitar que um país por ser aliado do Império não lhe cabem as imposições e restrições do direito internacional. Essa seria a lógica de um sistema unipolar e a ONU, teoricamente, não foi criada para gerir esse tipo de sistema. Ou se muda a ONU para torná-la oficialmente e inteiramente submissa ao império ou o império deixa de ser império, submetendo-se, como país soberano, às regras e leis que regem a existência e a convivência multipolar e civilizada das nações, sob o comando da ONU.

A Assembléia Geral e o Conselho de Segurança da ONU, desde a votação da partilha da Palestina em 1948 até os dias de hoje, votaram tantas outras centenas de resoluções sobre a questão palestina, direitos nacionais do povo palestino ao retorno e autodeterminação, ilegalidade das ocupações israelenses e tantos outros temas relativos ao conflito árabe palestino israelense. Israel cumpriu apenas uma resolução: aquela que a aceitou como membro da ONU! E o Estado da Palestina aguarda até hoje para que possa ser cumprida igual resolução.

O Holocausto dos Judeus não dá permissão para Israel se colocar acima da ordem e da lei. As vitimas de ontem não tem o direito, nem bíblico, nem de costume, nem de qualquer interpretação jurídica do direito internacional, de se considerarem herdeiros eternos de uma compaixão ocidental que os cegam de suas obrigações perante os palestinos e a humanidade. Não é justo, nem moral, nem ético e muito menos humano que os palestinos paguem em sangue, suor e lágrimas, pelo fato de terem nascido na palestina ou de pais palestinos. Os palestinos lutam pelo seu direito, um direito universal e aceito por todos: liberdade e cidadania.

SOLIDARIEDADE

Para fortalecer e ampliar a solidariedade com o povo palestino pelo seus direitos nacionais inalienáveis ao retorno a sua terra e ao estabelecimento de um estado Palestino livre e soberano, tem-se que atuar nessas frentes que são a base do terrorismo de Israel:

- Esclarecer o que é o sionismo e combater seus conceitos racistas, colonialistas e antidemocráticos.

- Ajuda externa - Fomentar ações de solidariedade, tratados comercias, científicos e comerciais, projetos culturais, educacionais e socias com os palestinos a fim de fortalecer suas instituições e sua resistência contra a ocupação. Monitorar e denunciar os Tratados de Livre Comercio de países ou Blocos que pretendam ser firmados com Israel. Produtos israelenses fabricados, montados ou provindos dos territórios ocupados são ilegais e devem ser proibidos.

- Poder militar – Denunciar o projeto nuclear israelense. Pressionar governos para que busquem acordos, tratados e resoluções para tornar o Oriente Médio e região livre de qualquer arma de destruição em massa. Apoiar todos os movimentos em Israel que recusam o serviço militar israelense. Monitorar e denunciar toda a compra de equipamentos militares e armas israelenses por parte de qualquer governo. Monitorar e denunciar empresas israelenses no Brasil que usam uma fachada sócio-juridica brasileira para fabricar partes e componentes de armamentos militares. O lema “A paz mundial depende de alcançarmos a paz no Oriente Médio” nunca foi tão forte e atual como nos dias de hoje.0

- Impunidade – Denunciar os massacres, crimes, assassinatos cometidos por Israel nas cortes internacionais, debates, fóruns, etç. Criar Júris Populares para simular julgamentos dos crimes de guerra de Israel.

HOMENAGEM

Em 15 de maio ultimo, comemorou-se 62 anos da criação do estado de Israel e 62 anos da Nakba – a tragédia palestina, que continua, diariamente, a tirar vidas e mais vidas . Demorou muito menos para o mundo, através das sanções econômicas , boicotes e pressões políticas, apressar o fim do regime do apartheid na África do Sul, regime racista e segregacionista, ex-aliado de Israel.

Que esta data fatídica e trágica de 31 de maio de 2010, no mês da Nakba palestina, essa data do ataque terrorista israelense contra a frota pacifista, seja lembrado anualmente dentro das comemorações da Nakba.

Presto minha mais profunda e comovida homenagem a cada homem e mulher que estava nos navios da frota, a cada um que tombou vitima do terror israelense, homens e mulheres que deram suas vidas pelos mais dignos e nobres valores da existência humana: a solidariedade para que outros seres humanos sejam livres. Deram suas vidas por uma Palestina livre. Deram suas vidas para que o mundo possa ter uma paz justa e duradoura. Minhas condolências a todos os familiares, amigos e companheiros dessas valiosas e corajosas pessoas que não tombaram em vão, porque essa página da liberdade, escrita a sangue, ficará marcada num lugar de honra no memorial de libertação e independência nacional do povo palestino e de todos os povos que lutam por sua liberdade.

“Apesar de esmagadora superioridade militar de Israel, possuímos algo até maior: a força de justiça.”
Yasser Arafat- NY Times – 1/3/2002

Emir Mourad
Ativista da solidariedade ao povo palestino

Participe da campanha da Jewish Voice for Peace para romper o cerco à Gaza


Quando tive conhecimento do ataque israelense contra a Flotilha de Gaza, ás 2h30 do dia 31 de maio, me senti enjoado. Imediatamente entrei em contato com uma amiga querida em Jerusalém, uma das mais comprometidas ativistas que eu conheço. Através do oceano eu pude ouvir por sua voz que ela estava em lágrimas. “O pior de tudo”, ela disse, “é que nada vai mudar”.

“Não”, eu respondi, “Não podemos acreditar nisso. As coisas têm que mudar”.

“Então”, ela disse, “isso terá de partir de você, os estrangeiros.

Ela está certa. Cabe a nós, os estrangeiros, tanto aqui nos Estados Unidos quanto no resto do mundo, tomar a iniciativa.

É por isso que eu peço que você envie um a mensagem ao presidente Obama, se você vive fora dos Estados Unidos, e para Obama e o Congresso norte-americano se você mora nos Estados Unidos, pedindo a imediata libertação dos ativistas pelos direitos humanos, pelo fim do cerco à Gaza, por uma investigação imparcial sobre o ataque a Flotilha e pela suspensão da ajuda norte-americana até que Israel se curve às leis internacionais.

Nós ainda não sabemos ao certo o que ocorreu com a frota que carregava cerca de 700 ativistas dos direitos humanos provenientes de todo o mundo e cerca de 10 toneladas de ajuda humanitária à Gaza – Israel tem mantido os ativistas sob um total bloqueio midiático enquanto espalha sua inverossímil versão dos eventos. O que sabemos até agora é que comandos israelenses abordaram os navios em águas internacionais e mataram pelo menos dez ativistas e feriram outras dezenas.

Israel insiste em que seus bem treinados comandos foram forçados a usar força letal contra os ativistas, criando uma nova definição de legítima defesa. Em um dos primeiros relatos, um membro do parlamento israelense e um câmera da Al Jazeera que estavam a bordo dos navios descreveram uma cena de caos, com civis acenando bandeiras brancas e os comandos usando armas de choque, balas de borracha e gás lacrimogêneo. Seja o que for que tenha ocorrido quando os comandos armados abordaram os navios, o assassinato de civis por parte do exército israelense é inaceitável.

Ainda não sabemos os nomes daqueles que foram mortos ou feridos, e de onde eles são. Não sabemos também o paradeiro e o estado de saúde dos mais de 400 ativistas que encontram-se detidos em Israel.

Estas mortes, e o ataque aos navios, atingiram a todos nós ao redor do mundo. Ali havia pessoas de 40 países, incluindo israelenses e palestinos. Israel enviou comandos armados sobre civis, em águas internacionais, em um ato flagrantemente ilegal com o intuito de justificar os cerca de três anos de cerco ilegal a Gaza – um cerco que tem deixado 1,5 milhão de pessoas – homens, mulheres e crianças – vivendo como prisioneiras, com dietas racionadas, privados de coisas simples como batatas chips, instrumentos musicais e brinquedos. A Flotilha não pretendia apenas sanar esta carência. O objetivo era assegurar os direitos dos palestinos às suas rotas marítimas, terrestres e aéreas, sua ligação com o resto do mundo e reafirmar a necessidade do fim do bloqueio.

Eu sei que há um momento na vida em que você simplesmente precisa fincar pé em uma decisão. Você não pode se sentar em silêncio e observar a destruição da vida, tacitamente apoiada por governos mundo afora, e simplesmente não fazer nada.

A Flotilha estava ocupada por pessoas como você e eu, que finalmente decidiram que era hora de arriscar suas vidas e tomar posição para quebrar os muros desta prisão. E nós agradecemos a elas.

Agora, como cidadãos do mundo, nós devemos isso ao povo da Palestina e aos israelenses que querem viver em paz, às bravas pessoas da Flotilha. Devemos criar um movimento para fazer Israel aceitar as leis internacionais e os padrões mais simples de decência humana – especialmente porque nosso governo falhou neste intento.

A resposta do governo dos Estados Unidos tem sido totalmente inadequada, com uma declaração morna de “lamento pela perda de vidas”, sem estabelecer qualquer crítica pelo fiasco, sem adotar quaisquer sanções pelos atos de Israel. Por favor, junte-se a mim na tentativa de dizer ao presidente Obama e ao Congresso que basta, basta.

Os impostos norte-americanos financiam a ocupação israelense e, ao lado do suporte diplomático, faz parecer que qualquer ato israelense, não importa o quão tolo, será apoiado pelo poder norte-americano.

É hora de dar um fim a esta situação.

Temos que continuar construindo um movimento global pela justiça, em todos os níveis. As pessoas precisam superar as ações inefetivas de seus governos e usar a pressão econômica (por meio de boicotes) para fazer o governo de Israel se curvar às leis internacionais.

É hora dos Estados Unidos, como aliado de Israel e nação mais poderosa do mundo, parar com o suporte incondicional ao governo israelense. Fazendo isso protegeremos israelenses e palestinos, cidadãos americanos e de todo o mundo.

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR UMA MENSAGEM AO PRESIDENTE BARACK OBAMA E AO CONGRESSO AMERICANO PEDINDO O IMEDIATO FIM DO BLOQUEIO À GAZA, UMA INVESTIGAÇÃO INTERNACIONAL E IMPARCIAL SOBRE A TRÁGICA MORTE DE CIVIS EM UMA MISSÃO HUMANITÁRIA E A SUSPENSÃO DA AJUDA MILITAR A ISRAEL ATÉ QUE SEJA ASSEGURADO QUE ESTA AJUDA NÃO SEJA USADA PARA COMETER ABUSOS.

Rebecca Vilkomerson,
Executive Director,
Jewish Voice for Peace

terça-feira, 1 de junho de 2010

Líderes do Ocidente são covardes demais para ajudar a salvar vidas

Por Robert Fisk
Tradução de Victor Barone

É fato que pessoas comuns, ativistas, chame-as como quiser, são, agora, os que tomam as decisões para mudar as coisas.

Como Israel não percebeu isso? Será que a Guerra de Gaza em 2008-09 (1.300 mortos), a Guerra do Líbano em 2006 (1.006 mortos), todas as outras guerras e, agora, a matança de ontem significará que o mundo não aceitará mais a lei de Israel?

Não prenda seu fôlego.

Só o que você precisa é ler a fraca declaração emitida pela Casa Branca – que a administração Obama está “trabalhando para entender as circunstâncias que cercam a tragédia”. Nem uma simples palavra de condenação. É isso. Nove mortos. Apenas outra estatística a ser adicionada na sanha do Oriente Médio.

Mas não é do que se trata.

Em 1948, nossos políticos – americanos e britânicos – estabeleceram uma ponte aérea em Berlin. Uma população faminta (nossos inimigos há apenas três anos) estava cercada por um exército brutal, o russo, que havia erigido uma cerca a volta da cidade. A ponte aérea berlinense foi um dos grandes momentos da Guerra Fria. Nossos soldados e pilotos se arriscaram e deram suas vidas por estes alemães famintos.

Incrível não é? Nestes dias, nossos políticos tomavam decisões; nossos líderes tomavam decisões de salvar vidas. Attlee e Truman sabiam que Berlin era importante não só em termos políticos, mas morais e humanos.

E hoje? São as pessoas – pessoas normais, europeus, americanos, sobreviventes do Holocausto – por Deus, sobreviventes do nazismo – que tomam a decisão de ir a Gaza, pois seus políticos e seus homens de Estado falharam em tomá-la.

Onde estão nossos políticos de antigamente? Bem, temos o ridículo Ban Ki-moon, a patética declaração da Casa Branca e a expressão do querido Sr. Blair de “profundo lamento e choque pela trágica perda de vidas”. Onde está o Sr. Cameron? Onde está o Sr. Clegg?

De volta a 1948, eles teriam ignorado os palestinos, é claro. Trata-se, no final das contas, de uma terrível ironia que a ponta aérea de Berlin tenha coincidido com a destruição da Palestina Árabe. Mas é um fato que as pessoas comuns, ativistas, chame-as como quiser, são quem agora tomam as decisões para mudar as coisas. Nossos políticos são muito frouxos, muito covardes para tomar decisões que salvam vidas. Por quê? Por que nós não ouvimos palavras corajosas do Sr. Cameron e de Clegg ontem?

Pois, é fato que se os europeus (sim, os turcos são europeus, não são?) tivessem sido abatidos pelo exército de qualquer outra nação do Oriente Médio (o exército israelense representa uma nação do Oriente Médio não é?) teria havido ondas de ultraje.

E o que isso tudo diz sobre Israel? A Turquia não é um aliado de Israel? É isso que os turcos devem esperar de Israel? Agora, o único aliado de Israel no mundo islâmico diz que houve um massacre – e Israel parece não se importar.

Mas Israel não se importou, também, quando Londres e Canberra expulsaram seus diplomatas após passaportes britânicos e australianos terem sido forjados e entregues aos assassinos do comandante do Hamas Mahmoud al-Mabhouh. Não se importaram em anunciar novos assentamentos judeus no território ocupado de Jerusalém Oriental enquanto Joe Biden, vice-presidente de seu aliado, os Estados Unidos, encontrava-se na cidade. Por que Israel deveria se importar agora?

Como nós chegamos a este ponto? Talvez devido ao fato de termos crescido vendo os israelenses matando árabes, talvez porque os israelenses tenham crescido acostumados a matar árabes. Agora eles matam turcos. Ou europeus. Alguma coisa mudou no Oriente Médio nestas últimas 24 horas – e os israelenses (dada sua extraordinariamente estúpida resposta política ao massacre) parecem não ter compreendido o que ocorreu. O mundo está cansado destes ultrajes. Apenas os políticos estão silenciosos.

Tempestades diplomáticas

* Relatório Goldstone, novembro de 2009
Israel lançou a Operação Chumbo Derretido em Dezembro de 2008 com a intenção declarada de interromper o lançamento de foguetes de Gaza contra Israel. Mais de 1.400 palestinos e 13 israelenses foram mortos nas três semanas do conflito. O jurista sul-africano Richard Goldstone declarou que tanto Israel quanto o movimento Hamas, que controla a Faixa de Gaza, eram culpados de crimes de guerra, mas focou sua crítica com mais força sobre Israel. Israel recusou-se a cooperar com Goldstone e descreveu seu relatório como distorcido e tendencioso.

* O assassinato de al-Mabhouh, janeiro-maio de 2010
Britânicos e australianos expulsaram diplomatas israelenses após concluírem que Israel forjou passaportes dos respectivos países usados pelos assassinos do comandante do Hamas em Dubai. Israel não negou nem confirmou sua participação no assassinato de Mahmoud al-Mabhouh em seu quarto de hotel, em janeiro. Os britânicos declararam que a utilização do passaporte foi “intolerável”. A Austrália disse que este não era o comportamento de “uma nação com a qual nós temos tão próximo, amigável e colaborativo relacionamento”.

* Assentamentos, março de 2010
Israel anunciou, durante a visita do vice-presidente norte-americano, Joe Biden, a intenção de construir 1.600 casas para judeus em uma área na Cisjordânia anexada por Israel. O anuncio suscitou uma crítica incomum por parte dos Estados Unidos. Washington disse que o fato prejudicou os esforços de retomar os processos de paz no Oriente Médio. A secretaria de Estado Hillary Clinton disse que o projeto era um insulto. Netanyahu respondeu dizendo ter sido surpreendido por burocratas e pediu desculpas a Biden. O encontro de hoje com Barack Obama na Casa Branca, cancelado pelo Sr. Netanyahu para que ele pudesse voltar para casa e lidar com a crise da flotilha, parece ser outra crise entre os dois aliados.

* Segredo nuclear, maio de 2010-06-01

Israel não assume possuir o único arsenal nuclear do Oriente Médio, tem sido confrontado com repetidas convocações para assinar o tratado global de não proliferação de armas nucleares (NPT). Os signatários do tratado lançaram nesta semana uma conferência em 2012 para discutir o banimento das armas de destruição em massa em todo o Oriente Médio. A declaração foi adotada por todos os 189 membros do NPT, incluindo os Estados Unidos. Isso obriga Israel a assinar o pacto e colocar suas instalações nucleares sobre a vigilância das Nações Unidas

Mais textos de Robert Fisk

Assassinato de dez deteriorará ainda mais imagem de Israel

Por Gustavo Chacra

Israel assassinou dez pessoas de uma frota que levava ajuda humanitária para Gaza. A ação ocorreu quando os militares israelenses tentavam obstruir os barcos que seguiam para a costa do território palestino. Segundo o governo de Israel, os comandos teriam sido vítimas de linchamento por parte dos membros da denominada “frota da paz” que utilizavam “barras de ferro e facas”, segundo o Haaretz. Neste caso, onde supostamente haveria risco de os soldados morrerem, o Exército autoriza os disparos.

De acordo com os primeiros relatos, não houve uso de armas de fogo por parte dos ativistas, aparentemente. Mas não tenho condições de saber quem diz a verdade ou se as informações são corretas. Apenas sei que pelo menos dez pessoas morreram, assassinadas pelos militares israelenses.

Israel teria condições de usar armas de efeito moral, e não letais. Há como evitar ataques de faca sem matar uma pessoa. Além disso, os israelenses haviam invadido uma embarcação e os tripulantes normalmente tendem a resistir em qualquer lugar do mundo. De qualquer maneira, eu não estava no barco, não sei como estava o cenário e até que ponto era questão de vida ou morte para os israelenses. Pode ser que sim, poder ser que não. Apenas o tempo, a análise das imagens e uma investigação independente poderá nos dizer.

Claramente, o episódio não precisava ter chegado ao ponto da confrontação. Conforme afirmou o jornal israelense Haaretz, o Exército de Israel poderia ter chegado a um acordo antes para apenas verificar a carga em alto mar e deixado eles passarem, e não obrigá-los a desembarcar na costa israelense. Seria uma iniciativa pró-paz e, certamente, a frota, que levava um Nobel da Paz, parlamentares europeus e um sobrevivente do Holocausto, não carregava mísseis para o Hamas. Sem falar que não são apenas armamentos que os israelenses banem de Gaza, mas também alguns alimentos banais.

O vice-ministro das Relações Exteriores de Israel, Danny Ayalon, diz que membros da Al Qaeda estavam no barco. Neste caso, não consigo acreditar. A Al Qaeda nunca se envolveu com a questão palestina (nunca realizou um atentado em Israel), é inimiga do Hamas, odiada pelos palestinos e, acima de tudo, a Turquia, integrante da OTAN e radicalmente contra o terrorismo islâmico, não permitiria a entrada de membros da rede de Bin Laden no barco.

Independentemente do que tenha ocorrido, a imagem de Israel já se deteriorou ainda mais em países da Europa e de todo o mundo, onde o governo israelense aos poucos começa a ser tratado como pária. A alta comissária da União Européia para Assuntos Internacionais pediu o fim imediato do bloqueio a Gaza. Dois integrantes da ONU dizem que a operação israelense foi realizada em águas internacionais – não sei se é verdade. A França e a Alemanha se disseram “chocadas” e os EUA lamentaram as mortes. Outros países convocaram embaixadores israelenses para prestar esclarecimento.

Jornais de São Paulo a Nova York, de Paris a Beirute, dão manchete para “Israel mata ativistas” nas suas edições na internet. É isso que os israelenses querem? A imagem de assassinos?

A frota era uma tática de propaganda de organizações pró-Palestina. Eles pretendiam mostrar ao mundo como funciona o bloqueio israelense. Em vez de lançar foguetes, como o Hamas, optaram por um ato de resistência pacífica – caso realmente não tenham usado armas, mas seria impensável um grupo de civis querer lutar contra os bem treinados soldados israelenses.

Não imaginavam, certamente, que Israel se superaria e mataria dez pessoas. No fim, os israelenses multiplicaram a importância do episódio. Na cabeça de muitos ao redor do mundo, Israel passou a ser “o mau” do conflito com os palestinos. Os ataques de foguetes realizados por organizacões palestinas são ignorados, mesmo porque, na Guerra de Gaza, o Hamas matou menos israelenses – por sua incapacidade, que fique claro – do que Israel ontem no ataque à frota da “paz”.

Segundo reportagem de capa da revista New York Review of Books, uma das mais prestigiadas dos EUA, as ações de Israel (sem incluir a de ontem, claro) estão levando à apatia dos jovens judeus liberais americanos, que não se identificam mais com os israelenses. Pesquisa do Comitê Judaico Americano indica que apenas 16% dos judeus adultos não-ortodoxos dos EUA se sentem “muito próximos” a Israel. O número cresce para 79% entre os ortodoxos. Entre os jovens, diz o texto, a diferença é ainda maior.

“Os governos israelenses vêm e vão, mas a coalizão de Netanyahu é produto de uma tendência de longo prazo na sociedade de Israel – uma população ultra-ortodoxa que cresce dramaticamente, um movimento de colonos crescente e envolvido na burocracia e no Exército de Israel e uma comunidade de imigrantes russa que é anti-árabe”, escreveu o professor Peter Beinart na revista, lida pela elite judaica de Nova York. E os jovens judeus liberais de Nova York não têm nada a ver com o Avgdor Lieberman. Esta figura radical, na chancelaria israelense, não representa a comunidade judaica americana, sempre defensora da democracia e da liberdade e, atualmente, eleitora de Barack Obama.

Uma pena que a Israel idealista, do kibutz, ficou para trás. Hoje a imagem de Israel é dos assentamentos e do Exército. O marco teria sido a Guerra de 1967.

Lembro que Israel retirou seus assentamentos de Gaza, mas mantém o controle aérea e marítimo. Também, com a ajuda do governo de Hosni Mubarack, do Egito, isola Gaza pela via terrestre.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Terrorismo de Estado israelense mata pelo menos 10 ativistas da paz



Que tipo de exército ataca um comboio navegando em águas internacionais, carregado com 10 mil toneladas de ajuda humanitária e composto por ativistas dos direitos humanos?

Um exército que atua sob as regras do terrorismo de estado?

O selvagem ataque das forças armadas israelenses, ocorrido às 4h no horário local (22h de Brasília), em águas internacionais , contra a “Frota da Liberdade” - um comboio formado por seis navios que levavam 750 ativistas e 10 mil toneladas de carga humanitária para a Faixa de Gaza – resultou na morte de 10 a 20 pessoas, ferimentos em outras dezenas e a prisão das demais centenas.

Os ativistas tentavam furar o bloqueio ilegal que Israel mantém sob a costa de Gaza e, apesar das bandeiras brancas e do conteúdo público de sua carga humanitária, foram vítimas de um ato terrorista perpetrado pelo governo israelense.

O comboio não carregava armas, não era composto por “terroristas”, não se dirigia sem autorização para um porto israelense e nem estava em suas águas territoriais. O comboio carregava remédios, cadeiras de roda, casas pré-fabricadas e purificadores de água, era composto por ativistas dos direitos humanos provenientes de todo o mundo e pela tripulação dos navios, dirigia-se para Gaza (região que não está, legalmente, sob a égide israelense) e estava em águas internacionais.

Repito: o comboio foi vítima de um ato de terrorismo perpetrado pelo governo israelense.

"Somente um governo insano, que perdeu totalmente a conexão com a realidade, pode fazer algo como isso – considerar navios carregados de ajuda humanitária e de ativistas pela paz vindos de todo o mundo como inimigos e mandar contra eles uma força militar poderosa, em águas internacionais, para atacá-los e matá-los. Ninguém irá acreditar nas mentiras e desculpas que os porta-vozes do governo e das forças armadas irão trazer”, disse hoje o jornalista israelense Uri Avnery.

Thomas Sommer-Houdeville (não se sabe se ele está entre os assassinados nesta manhã), coordenador da Campanha internacional para a proteção do povo palestino (CCIPP), escreveu ontem, em tom premonitório, de um dos navios da Frota da Liberdade a caminho de Gaza: “Temos medo que eles apreendam a nossa carga e toda a ajuda médica, os materiais de construção, as casas pré-fabricadas, os kits escolares, e que eles os destruam. Toda esta solidariedade pacientemente acumulada em tantos países durante mais de um ano. Todos estes esforços e esta onda de amor e de esperança enviados por pessoas normais, humildes cidadãos da Grécia, Suécia, Turquia, Irlanda, França, Itália, Argélia, Malásia. Tudo isto tomado como um troféu por um Estado que age como um vulgar pirata das ilhas. Quem não teria um certo sentimento de responsabilidade e de medo de não ser capaz de cumprir a nossa missão e de entregar as nossas mercadorias à população encarcerada de Gaza?”

Thomas sabia do que é capaz um governo que, sob os olhos vendados do Ocidente, age como senhor inconteste de outros povos.


Pobres israelenses, pobres judeus cuja imagem internacional está sendo destruída paulatinamente por uma parcela irresponsável de sua gente, uma parcela que mesclou o proto-fascismo sionista com a fé judaica para criar uma política odiosa de domínio e opressão.

A seguir, algumas manifestações públicas sobre o atentado:

Greta Berlin, Porta voz do Movito Gaza Livre: “É terrível que eles tenham vindo a bordo dos navios e atacado civis. Nós somos civis. Como o exército israelense pôde ter atacado civis desta forma? Será que eles imaginam que, já que atacam os palestinos indiscriminadamente podem atacar qualquer um?” (BBC)

Navi Pillay, Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos: "Estou chocado com as notícias de que a ajuda humanitária foi interceptada com violência nesta manhã, notícias que dão conta de mortos e feridos nos navios do comboio que se aproximava da costa de Gaza. O bloqueio (à Gaza) fere os direitos humanos diariamente... A situação atual é que a população (palestina) não tem o mínimo necessário para levar uma vida normal e digna” (Press TV)

Amr Moussa, Secretário Geral da Liga Árabe: “A Liga Árabe conden a veementemente este ato de terrorismo” (BBC)

Ismail Haniyeh, Primeiro Ministro da Palestina, eleito democraticamente: "O governo da Palestina honra os esforços do comboio em quebrar o cerco. Consideramos todos os mortos como mártires palestinos, mártires do cerco de Gaza" (Press TV)

Ayman Mohyeldin, repórter da Al Jazeera em Jerusalém: "Todas as imagens transmitidas pelos ativistas à bordo (dos navios) mostraram claramente que eles eram civis e de natureza pacífica, com suprimentos médicos à bordo. Por isso, causou surpresa na comunidade internacional a notícia de que eles tenham perpetrado algum tipo de confronto (com as forças israelenses)" (Aljazeera)

Mark Regev, Porta voz do Primeiro Ministro israelense: “Apesar de nosso corpo naval ter sido instruído em ter o máximo cuidado, ele foi atacado. Foram atacados com facas, barras de ferro e fogo. Infelizmente tivemos dez soldados feridos, um deles de forma muito grava, por estes ativistas, e isso é condenável” (BBC)

Filippo Grandi, membro das Nações Unidas: “Estamos chocados pelas notícias sobre mortos e feridos entre as pessoas nos barcos que carregavam suprimentos para Gaza, aparentemente em águas internacionais. Condenamos a violência e clamamos para que ela cesse. A situação está em andamento e estamos esperando a confirmação sobre o que ocorreu. Desejamos deixar claro que esta tragédia poderia ter sido totalmente evitada se Israel tivesse ouvido os apelos da comunidade internacional para encerrar o contra-produtivo e inaceitável bloqueio a Gaza” (BBC)

Ramzy Baroud, jornalista e escritor americano-palestino: “O que Israel fez esta noite é bárbaro. Trata-se de um pavoroso crime contra a humanidade e ninguém com consciência e humanidade pode corroborar o ataque de um exército sofisticado contra ativistas da paz provenientes de todo o mundo carregando ajuda humanitária para uma nação sob cerco. No entanto, o assassinato destes ativistas, ferimentos e aprisionamento dos demais membros do comboio, vai cimentar de vez a ligação entres a Palestina e as forças internacionais pela paz e justiça. Desde esta noite este conflito não se dá mais entre Israel e Palestina, mas entre um estado criminoso e a humanidade” (PalestineChronicle.com)

Uri Avnery, jornalista israelense: “Nesta noite, um crime foi perpetrado no meio do oceano, por ordem do governo de Israel e do comando do exército israelense. Um ataque armado contra navios humanitários e disparos mortais contra ativistas pela paz e direitos humanos é uma coisa louca que apenas um governo que cruzou todas as linhas vermelhas pode fazer” (Gush Shalom)

Mahmoud Abbas, presidente palestino eleito: "O que Israel cometeu à bordo da Frota da Liberdade foi um massacre" (Wafa news agency)

Catherine Ashton, gabinete de Política Extena dos Estados Unidos: o gabinete "expressa suas profundas tristeza com as notícias de merda de vidas e violência e estende sua simpatia às famílias dos mortos e feridos. Como a União Européia, requer uma completa investigação sobre as circunstâncias do ocorrido... Pedimos uma imediata e incondicional abertura do fluxo de ajuda humanitária, bens de consumo e pessoas de e para Gaza" (Associated Press)

Daniel Ayalon, deputado israelense: “A armada de ódio e violência em apoio a organização terrorista Hamas foi uma premeditada e ultrajante provocação. Os organizadores são conhecidos por seu apoio a jihad, al-Qaeda w Hamas. Eles tem um histórico de contrabando de armas e terror mortal” (BBC)

Sami Abu Zuhri, porta voz do Hamas: “Nós no Hamas consideramos o ataque israelense contra a Frota da Liberdade um grande crime uma tremenda violação das leis internacionais. Apesar da grande perda sofrida pelas pessoas que se uniram à frota, nós consideramos que sua mensagem foi entregue. Obrigado a estes heróis de outros países que mostraram sua solidariedade a Gaza, o certo israelense é agora um tema internacional e consideramos que os invasores, por seus crimes são os que estão sob certo agora” (BBC)

Bernard Kouchner, Ministro das Relações Exteriores da França: “Estou profundamente chocado pelas trágicas conseqüências da operação militar israelense contra a Frota da Liberdade. Nada pode justificar o uso de violência deste porte, que nós condenamos. As ciscunstãncias deste drama precisam ser trazidas à luz e desejamos que uma investigação completa seja realizada sem mais demora” (BBC)

Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU: "Estou chocado pelas informações de que há mortos e feridos nos barcos que levavam ajuda a Gaza. "Condeno estas violências. É vital que se realize uma investigação completa" (AFP).