Leonid Tsipkin, judeu, é o autor do livro “Verão em Baden-Baden”. Centrado na reconstituição dos dias de Dostoiévski na cidade, a obra é narrada com amor e ódio numa franca homenagem a este genial escritor russo.
Há três planos na narrativa: o “eu” que é o próprio Tsipkin viajando de trem até Petersburgo enquanto lê as memórias de Anna, esposa de Dostoiévski, reconstituindo os traumas e medos do grande escrito russo; o “ela”, que relembra sua relação com Dostoiévski, enquanto tenta justificar a si mesma seu amor pelo homem egoísta e exigente que ele é; e, por fim o “ele”, devorado pela epilepsia e pela dependência ao jogo, dividido entre a crença de seu enorme talento e o complexo de inferioridade que alimentava diante de outros escritores.
Mesmo com vários elogios ao livro, pessoalmente achei-o muito chato. Os mundos das três personagens se confundem num sistema de pontuação tão excêntrico que só poderia ter sido inventado por um russo: travessões separam diálogos, descrições, sonhos, uma verdadeira confusão. Confesso que não li o livro todo. É uma espécie de delírio.
Na segunda frase disse que era uma relação de amor e ódio, e de fato o é. Tsipkin, embora se diga admirador de Dostoiévski, no romance aponta apenas defeitos e, indignado, diz: “Parecia estranho ao ponto do implausível que Dostoiévski não tivesse pronunciado nem uma única palavra em defesa ou em justificativa de um povo perseguido ao longo de milhares de anos e, ele nem mesmo se referia aos judeus como um povo, mas como uma tribo”.
Susan Sontag que faz a introdução do livro em 15 páginas diz: “Contudo isso não impedira os judeus de amarem Dostoiévski. Amar Dostoiévski significa amar a literatura.” Sei...
A verdade: nem Leonid Tsipkin, nem Susan Sontag, nem todos os judeus se conformam(ram) que a grandiosidade de Dostoiévski não pertence(sse) à eles. O anti-semitismo em Dostoiévski, me parece, é um fato.
Joseph Frank, o maior biógrafo de Dostoievski (levou 20 anos para realizar a biografia – Dostoiévski em 05 volumes – EDUSP) diz: “Um aspecto desagradável e desconcertante em Dostoievski é seu anti-semitismo”.
Meu ponto de vista, entretanto, é que o anti-semitismo de Dostoiévski era parte de uma xenofobia e de um chauvinismo da Grande Rússia que fez com que fosse quase impossível para ele reconhecer quaisquer méritos ou virtudes em outros grupos. Mesmo assim, ele, evidentemente, constrangia–se e inquietava-se com o fato de ser considerado anti-semita e esforçou-se explicitamente para negar a acusação.
“Eu me disponho”, segue Joseph Frank, “a conceder o benefício da dúvida e a sentir que Dostoiévski estivesse mais em conflito com ele mesmo, sendo que vale anotar que o artigo ‘A questão Judaica’ termina com um apelo à fraternidade entre cristãos e judeus.”
Pois é... parodiando Susan Sontag, amar a literatura é amar Dostoiévski.
Luiz Carlos Capssa Lima
19/11/2009
Há três planos na narrativa: o “eu” que é o próprio Tsipkin viajando de trem até Petersburgo enquanto lê as memórias de Anna, esposa de Dostoiévski, reconstituindo os traumas e medos do grande escrito russo; o “ela”, que relembra sua relação com Dostoiévski, enquanto tenta justificar a si mesma seu amor pelo homem egoísta e exigente que ele é; e, por fim o “ele”, devorado pela epilepsia e pela dependência ao jogo, dividido entre a crença de seu enorme talento e o complexo de inferioridade que alimentava diante de outros escritores.
Mesmo com vários elogios ao livro, pessoalmente achei-o muito chato. Os mundos das três personagens se confundem num sistema de pontuação tão excêntrico que só poderia ter sido inventado por um russo: travessões separam diálogos, descrições, sonhos, uma verdadeira confusão. Confesso que não li o livro todo. É uma espécie de delírio.
Na segunda frase disse que era uma relação de amor e ódio, e de fato o é. Tsipkin, embora se diga admirador de Dostoiévski, no romance aponta apenas defeitos e, indignado, diz: “Parecia estranho ao ponto do implausível que Dostoiévski não tivesse pronunciado nem uma única palavra em defesa ou em justificativa de um povo perseguido ao longo de milhares de anos e, ele nem mesmo se referia aos judeus como um povo, mas como uma tribo”.
Susan Sontag que faz a introdução do livro em 15 páginas diz: “Contudo isso não impedira os judeus de amarem Dostoiévski. Amar Dostoiévski significa amar a literatura.” Sei...
A verdade: nem Leonid Tsipkin, nem Susan Sontag, nem todos os judeus se conformam(ram) que a grandiosidade de Dostoiévski não pertence(sse) à eles. O anti-semitismo em Dostoiévski, me parece, é um fato.
Joseph Frank, o maior biógrafo de Dostoievski (levou 20 anos para realizar a biografia – Dostoiévski em 05 volumes – EDUSP) diz: “Um aspecto desagradável e desconcertante em Dostoievski é seu anti-semitismo”.
Meu ponto de vista, entretanto, é que o anti-semitismo de Dostoiévski era parte de uma xenofobia e de um chauvinismo da Grande Rússia que fez com que fosse quase impossível para ele reconhecer quaisquer méritos ou virtudes em outros grupos. Mesmo assim, ele, evidentemente, constrangia–se e inquietava-se com o fato de ser considerado anti-semita e esforçou-se explicitamente para negar a acusação.
“Eu me disponho”, segue Joseph Frank, “a conceder o benefício da dúvida e a sentir que Dostoiévski estivesse mais em conflito com ele mesmo, sendo que vale anotar que o artigo ‘A questão Judaica’ termina com um apelo à fraternidade entre cristãos e judeus.”
Pois é... parodiando Susan Sontag, amar a literatura é amar Dostoiévski.
Luiz Carlos Capssa Lima
19/11/2009