Terminei
ontem a leitura da "Os Irmãos Karamazov", de Fiódor Dostoiévski.
Confesso que assimilar as 1000 páginas do romance (999 para ser exato) exigiu
um mergulho profundo e apaixonado, uma imersão voluntária na alma russa do
século 19, cujas histórias individuais são tão atuais, tão presentes em nosso cotidiano.
Cobiça e desapego, ciúme e compaixão, ódio e amor, alegria e tristeza, fé e
descrença, liberdade e escravidão. Não somos feitos disso tudo ainda hoje? Não
somos todos almas karamazovianas?
Esperei
bastante antes de me debruçar sobre a obra que, para muitos, está entre os mais
importantes clássicos da literatura universal. Aguardei a aclamada tradução da
Editora 34, feita por Paulo Bezerra diretamente do russo. As traduções
anteriores, baseadas no francês, eram incompletas. A tradução de Bezerra baseia-se
em uma edição crítica da obra de Dostoievski realizada por um time de filólogos
russos nos anos 70 – buscava-se, então, corrigir os cortes realizados pelas
censuras czarista e stalinista. É, de acordo com o posfácio do tradutor,
"a única efetivamente integral em língua portuguesa".
Bezerra
também buscou respeitar o estilo "às vezes meio tosco" do original.
Dostoievski não era propriamente um cultor da palavra exata. "A coisa mais
feia deste mundo é a realidade. Se um escritor deseja retratá-la com justiça, é
preciso dominar uma forma literária que a copie - não é permitido dispensar a
feiura”, disse certa vez. Seu estilo era duro, porque ele via cruamente a
aspereza do universo à sua volta.
No entanto,
poucos o superam na criação de personagens que vivem no extremo da condição
humana – humilhados, atormentados, torturados pela própria personalidade
mesquinha.
É o caso da
família Karamázov. O pai, Fiódor, bêbado e bufão, conseguiu acumular alguma
fortuna graças ao matrimônio com mulheres de melhor extração social. Teve três
filhos: Dmitri (ou Mítia), Ivan e Alieksiêi (ou Aliócha. Negligente,
abandonou-os à própria sorte para serem educados por criados.
Violento e
lascivo, Dmitri saiu ao pai – e disputa com ele os favores de Grúchenka, jovem
mulher de má fama. Aliócha é um místico. Vive em um mosteiro ortodoxo, onde
segue as orientações do caridoso monge Zossima. Ivan é o mais filosófico e
especulativo, um livre-pensador que parece ironizar todos os sistemas
religiosos ou filosóficos: flerta com o ateísmo, mas discute teologia de igual
para igual com Aliócha.
“Sabei que
não há nada mais elevado, nem mais forte, nem mais saudável, nem doravante mais
útil para a vida que uma boa lembrança, sobretudo aquela trazida ainda na
infância, da casa paterna. Muitos vos falam de vossa educação, mas uma
lembrança maravilhosa, sagrada, conservada desde a infância, pode ser a melhor
educação. Se o homem traz consigo muitas destas lembranças para sua vida, está
salvo pelo resto da existência.” - Aliócha palestrando para as crianças (Pág.
996)
É Ivan é a
figura mais marcante da obra, apesar da miríade de personagens repletos de
verdade e força. O capítulo mais conhecido e celebrado do romance, "O
grande inquisidor", deve-se a ele. Trata-se de um poema (ou, antes, do enredo
de um poema que ele deseja escrever, já que não está em versos), no qual Jesus
retorna à Terra, em Sevilha, no século XVI, e acaba preso pela Inquisição
espanhola.
“E o homem
realmente inventou Deus. E os estranho, o surpreendente não seria o fato de Deus
realmente existir; o que, porém, surpreende é que essa ideia – a ideia da
necessidade de Deus – possa ter subido à cabeça de um animal tão selvagem e
perverso como o homem...” - Ivan Karamázov (Pág. 323)
Quando
Fiódor, o patriarca dos Karamázov, é assassinado e Dmitri surge como o
principal suspeito, questões morais ganham uma premência incontornável, que
muito atormentarão Ivan, seus irmãos e a todos que nos cercam. É em torno desta
disputa que a trama se desenvolve, uma tempestade de virtudes e falhas de
caráter, um vendaval de humanidade no que ela tem de mais sublime e torpe.
“De fato, às
vezes se fala da crueldade ‘bestial’ do homem, mas isso é terrivelmente injusto
e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem,
tão artisticamente, tão esteticamente cruel. / Acho que se o diabo não existe
e, portanto, o homem o criou então o criou à sua imagem e semelhança.” - Ivan
Karamázov (Pág. 329 e 330)
Ler “Os
irmãos Karamázov” foi, também, um exercício de sensibilidade. A cada página me
lembrava de um querido amigo que nos deixou há algumas semanas, Luiz Capssa
Lima, o Cacho, apaixonado por literatura, especialmente a literatura russa, que
tanto me incentivou a experimentar a tradução de Paulo Bezerra.
Pensei muito
no amigo, especialmente nas últimas páginas e nos trechos finais em que Aliócha
conversa com as crianças no sepultamento de Iliúchetchka.
“E ainda que
venhamos a nos dedicar aos mais importantes assuntos, a conquistar honrarias,
ou a cair na maior desgraça – apesar de tudo nunca esqueçais como certa vez nos
sentimos bem aqui, todos comungando, unidos por aquele sentimento tão bom e
bonito, que durante aquele momento de nosso amor pelo infeliz menino nos fez,
talvez, melhores do que em realidade somos.” - (Pág. 996)
