“Preparem-se porque, a partir de agora, vou contar uma história de amor louca, insólita, humana, demasiadamente humana, imprevisível, improvável, mas bem real: a história da minha vida, que se mescla e se confunde com a da minha geração, do nosso país e de nosso tempo. Não se trata de uma simples narração de um passado longínquo, morto e enterrado, fruto de um devaneio nostálgico. É uma história cheia de vida, de intensidade e de revelações, que incide no presente e se projeta em direção ao futuro. Portanto, não se enganem: o melhor ainda está por vir, pois essa promessa eu fiz aos meus amigos, ao pé de suas lápides. E tenham a certeza absoluta de que a cumprirei à risca.”
E não é que João Luiz Woerdenbag Filho (o Lobão) faz exatamente o que prometeu?
Terminei há pouco sua autobiografia “50 anos a mil”. Não, não é bem escrito, há muitas repetições de fatos, em certos momentos a história perde a linearidade e a participação do Claudio Tognolli não acrescentou absolutamente nada à obra. Enquanto o biografado ia fundo nas próprias lembranças, Tognolli fazia a pesquisa factual: compilava notícias publicadas nos últimos 30 anos, recolhia os inúmeros processos judiciais que Lobão teve de responder, entrevistava outros personagens. Mas o conteúdo e apresentação da contribuição são fracos. Ainda assim o livro é muito, muito bom.
“50 anos a mil” é um brainstorm de fatos e histórias vividas por Lobão e pelos principais personagens da contracultura carioca (e nacional). Muita droga, muito sexo e muito roquenrol, mas também muita cultura, verve e disposição para dar um chute daqueles na bundamolice que insistia se acomodar em meio à produção cultural do país (e que prevaleceu, infelizmente, nos dias de hoje).
De fundador da Blitz como baterista, à sua reinvenção como artista que o levou a ganhar um Grammy em 2007 (melhor disco de rock com seu Acústico MTV), Lobão destrincha sua história sem pudores, vai fundo em suas próprias feridas e exorciza fantasmas adormecidos. Entre amores, prisões, drogas, incontáveis polêmicas envolvendo artistas como Herbert Vianna e Caetano Veloso, a histórica e breve passagem pelo Rock in Rio ll, seu envolvimento com o Comando Vermelho, o amor declarado pelos amigos Júlio Barroso e Cazuza, e seu embate com a indústria fonográfica que culminou na lei de numeração de discos, “50 anos a mil” narra através de uma prosa espontânea as diversas faces que compõem a personalidade do cara mais odiado e mais amado do rock nacional.
Me pergunto se o livro tem o mesmo peso para quem não viveu a adolescência ou o início da fase adulta no Rio de Janeiro, nos anos 80. Afinal, todas as mirabolantes histórias que Lobão nos apresenta nas quase 600 páginas do livro tem cheiro de Rio de Janeiro nos anos 80. Eu, por exemplo, tenho a nítida lembrança de um bate papo com colegas no antológico Colégio Peixoto (na Gávea) sobre a novidade musical do momento: o primeiro disco da Blitz em 1982. Dali para frente, a história da nossa geração mudou drasticamente com a explosão do rock Brasil. Lobão foi personagem central em todo este processo e o livro traz estes momentos únicos junto com a lembrança de uma juventude ainda amortecida com os resquícios da ditadura, mas totalmente a fim de reverter o mundo.
Lobão faz questão de dizer que o melhor ainda está por vir. E tem feito por onde. Em 2012 auto-produziu seu CD e DVD “Lino, Sexy & Brutal”, e lançou recentemente – com a mesma polêmica que lhe é peculiar - seu segundo livro “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”. Lobão disse: "O livro inteiro sou eu morrendo muitas vezes, de várias maneiras. E depois, sempre, me reinventando". Nada mais Lobão.
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Confira a seguir este trecho antológico no qual Lobão e Cazuza cheiram uma lagarta sobre o caixão do poeta e rocker Júlio Barroso:
“O Júlio era um homem-arquivo, um poço das mais variadas informações. Um ser de uma inteligência prodigiosa, de grande coragem e inspiração; um articulador.
Era um esteta, e perseguia obsessivamente a novidade, digerindo tudo que estava ao seu alcance, sem barreiras, sem dogmas. Fora a sua alegria... O Júlio era um grande poeta, uma criatura engraçadíssima, uma aventura ambulante, um sexista, um sátiro e, antes de qualquer coisa, um amigo raro.
Com tudo isso passando pela cabeça, naquele velório, suor e lágrimas se fundiam. O silêncio se desfazia com o cantar dos passarinhos, que despertavam com o dia a me causar calafrios. Na sala, o caixão fechado invocava toda uma angústia da incapacidade em não poder dar o último abraço, o último beijo. Daí pensei: “Cazuza, pensa bem: tá todo mundo dormindo, a gente tá aqui sozinho, com ele... Vamos sublimar a paradinha. Vamo esticar duas carreironas em cima do caixão? Pelo menos essa kartirinha da Ordem dos Músicos vai servir pra alguma coisa. A gente não pode se negar a fazer isso, né?” Eu fungava, apalpando freneticamente os bolsos
“Vai ser nossa última homenagem... Não tem ninguém olhando... Vamo nessa, rapá!”
“Lobãothinho”, Cazuza de vez em quando me chamava assim, ciciando, “tá bom, vamos nessa. Mas será que não vão pegar a gente com o canudo no nariz?”
“Claro que não, bobo. Tá todo mundo cansadão, dormindo pelos cantos. E se alguém nos flagrar, vai pensar que tá tendo um visual causado pela estafa e pelo sofrimento. Além do mais, isso aqui é uma licença poética!” Depois de algum tempo tremelicando, consegui tirar a tampa de Minalba do bolso, cheia de cocaína, despejar no verso da kartira azul e pousá la em cima do caixão. Estiquei diligentemente duas enormes lagartas que reluziam a brilhar naquela insólita superfície — que naquele instante, em todo o seu conjunto, mais parecia uma instalação de arte contemporânea —, e passei o canudo de caneta Bic pro Cazuza: “Vai nessa, meu irmão. Pensa que é pro Júlio.” Ele me deu uma risada meio amarga, meio úmida, deu uma cafungada forte e, sem perder o fôlego, me passou o canudo secando a narina no antebraço, dizendo baixinho: “A gente é muito louco! A gente é maluco...” Pausa. Mais uma risadinha canalha e emenda: “Mas também, o que nos resta?!” Respirei um pouco pra pegar um ar depois do catranco e, me dirigindo a um Júlio que, nesse exato momento, parecia descer das nuvens, todo de branco, como sempre gostava de se trajar, a nos abençoar, escancarando um sorriso de quem está pronto para gritar para seus irmãozinhos — “Aleluia, rapeizy!” —, contrito, lhe prometi: “Meu amigo, você vai sempre estar com a gente, você vai sempre estar vivendo dentro da gente, pode crer!”
Recebemos um fluxo de energia poderoso. Um momento ritual. A partir de então, a minha vida se resumiria em antes e depois daquele instante. A morte do Júlio Barroso foi um marco: existia o antes e o depois daquela perda. Não só para mim, mas para toda a história.
E olhando pro Cazuza, inflado de amor, arrematei: “E tem outra, rapá, não vão derrubar a gente assim tão mole, não! Vamos em frente, mesmo porque a morte do Júlio não vai ser em vão. A nossa vida não pode ser em vão, e, se nada pode deter uma pessoa feliz, nada poderá nos deter, pois a nossa história vai ser cada vez mais... cada vez mais...” Chorava copiosamente. Diante daquele vazio, gaguejando mentalmente, tentando pinçar na cabeça o que poderia ser “cada vez mais”, arrematei: “INTENSA!!!!” E não satisfeito, prossegui: “e cada vez mais... DIVERTIDA!!!!” E concluí: “A nossa onda de amor não há quem corte!!” Chacoalhando de emoção, abracei com toda a força o caixão.
Talvez tenha sido ali, naquele momento surreal, que nasceu não só uma vontade, mas um compromisso tácito entre meus amigos de que, uma vez sobrevivendo, eu deveria contar toda a história. Uma saga à procura de um lugar a que se pertencer… Eu precisava, através de um juramento, me motivar o bastante para não ver nossos sonhos serem sepultados com meus amigos.”
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Também vale checar este teaser do livro
http://youtu.be/eFKj_PT7bIk
quarta-feira, 24 de julho de 2013
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Getúlio: 1882-1930. Dos anos de formação à conquista do poder – Lira Neto
Quando assumiu a presidência em 1º de janeiro de 1995,
Fernando Henrique Cardoso referiu-se ao legado do Getulismo como algo que “atravanca
o presente e retarda o avanço da sociedade brasileira”. Seu sucessor, Luiz
Inácio Lula da Silva, no caminho inverso, franqueou a Getúlio Vargas a
inscrição no Livro dos Heróis da Pátria, que se encontra no Panteão da
Liberdade e da Democracia, em Brasília.
Pode-se atribuir muitas coisas a Getúlio Vargas, mas a pecha
de democrata não lhe assenta bem. Adepto de primeira hora do positivismo de
Auguste Comte, que norteou a política gaúcha desde fins do século 19 até o
início do século seguinte, e que tinha em Júlio de Castilhos e Borges de
Medeiros seus interpretes máximos no sul do país, Vargas foi sempre um
entusiasta de governos fortes, oposições quietas, legislativos submissos e imprensa
acabrestada.
Na década de 20, travou contato com o pensamento do
sociólogo fluminense Francisco José de Oliveira Viana, que seria o maior
ideólogo do Estado Novo, e que, em sua obra “Populações Meridionais do Brasil”
propunha a construção de um Estado forte, centralizado, um “governo poderoso,
dominador, unitário, incontrastável”, capaz de consolidar o conceito de
nacionalidade brasileira e de fustigar o poderio dos caudilhos regionais. Este
governo, segundo Viana, dependeria de estadistas de temperamento frio e
calculista, “reacionários audazes”, com coragem bastante para se contrapor, de modo ostensivo, às ideias
liberais. Uma luva para as rechonchudas mãos de Vargas?
Uma identificação com o fascismo de Mussolini – e seu direito
corporativo que tutelava as relações de capital e trabalho ao Estado, fechando
jornais, controlando sindicatos e entidades patronais - foi uma consequência
óbvia, externada abertamente por Getúlio em diversas oportunidades registradas
pela história.
Mas, diante do confronto entre uma aristocracia
politicamente falida e um saco de gatos formado por liberais, outros
aristocratas e tenentistas autoritários dificilmente se preveria que Getúlio
Vargas pudesse, em detrimento de outras forças políticas e dos militares,
ascender da Revolução de 30 com poderes ditatoriais.
Talvez nenhum momento defina mais o político Getúlio – e as
características que permitiram a ele alçar-se entre os demais - do que um
trecho de uma conversa sua com o filho mais velho, Lutero: “Vencer não é
esmagar ou abater pela força todos os obstáculos que encontramos – vencer é
adaptar-se. Adaptar-se não é o conformismo, o servilismo ou a humilhação;
adaptar-se quer dizer tomar a coloração do ambiente para melhor lutar”.
Sua chegada à presidência, como desfecho da Revolução de 30,
foi fruto desta estratégia camaleônica, e também de uma série de circunstâncias
históricas combinadas e habilmente conduzidas por um tremendo senso de oportunidade
e um inacreditável talento para conjugar a dissimulação, o estratagema e a
prudência.
Como consequência, os brasileiros seriam submetidos a um
período de quinze anos ininterruptos sob o comando de um só homem. Neste
intervalo, Getúlio ajudaria a construir mudanças essenciais na economia, na
sociedade e na política nacional. Tais transformações agiriam também sobre a
trajetória do próprio Getúlio, expondo suas contradições e ambivalências.
De 1930 a 1945, as intolerâncias, violências e perseguições
do regime getulista deixariam marcas traumáticas da vida do país. Mas, esse
mesmo intervalo de tempo também serviria para arrancar o Brasil de uma condição
essencialmente agrária, transformando-o em uma nação com aspirações urbanas e
industriais que não eram alvo da revolução.
O arcabouço desta fase efervescente do Brasil é tecido
magistralmente no livro “Getúlio: 1882-1930. Dos anos de formação à conquista
do poder”, primeiro volume da trilogia que o jornalista e escritor Lira Neto
publicou pela Companhia das Letras e cuja leitura terminei há pouco.
O autor, que já teve o talento reconhecido em outras
biografias premiadas, faz um apanhado detalhado da trajetória de Vargas, oferecendo
uma visão de fundo jornalístico a uma personalidade chave da história
brasileira cuja vida já foi alvo de hagiografias e de desconstruções literárias
patrocinadas por desafetos ideológicos.
A obra de Lira Neto prevê três volumes organizados de forma cronológica. O primeiro tomo abrange o percurso de Vargas desde o nascimento – e seus antecedentes familiares – até a chegada ao poder, em 1930, estendendo-se ligeiramente, no prólogo, aos primeiros meses de 1931. O segundo (que já está nas livrarias) versa sobre os quinze anos subsequentes, até 1945, cobrindo o primeiro período da chamada Era Vargas, destacando-se aí a ditadura do Estado Novo. O terceiro e último volume bordará o “exílio” de Getúlio em São Borja após sua derrubada pelos militares e a volta à presidência pelo voto popular, chegando ao trágico desfecho de agosto de 1954.
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