Semana On

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo - Mário Magalhães



Terminei de ler há pouco “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo”, do jornalista Mário Magalhães. Em suas 588 páginas a obra traça um panorama da política brasileira a partir dos primórdios do século 20, sob a ótica de determinados setores da esquerda. Marighella teve papel fundamental nesta trajetória, passando pelo aceno fascista do Estado Novo até os anos de chumbo da ditadura militar. 

Não é um livro tendencioso, defeito facilmente encontrado em obras que abarcam o conflito entre a esquerda, a direita e a miríade de posicionamentos intermediários que se acomodam em meio as duas visões de mundo. Magalhães constrói a volta do comunista baiano os fatos capitais que nortearam a esquerda brasileira e a política do país desde seu nascimento, em Salvador, em 5 de dezembro de 1911, até sua morte, em 4 de novembro de 1969, em uma tocaia da repressão na Alameda Casa Branca, uma rua próxima ao centro da cidade de São Paulo.

Entre os muitos momentos memoráveis da obra, um me emocionou especialmente, talvez por envolver minha profissão, o Jornalismo. Vivemos uma época na qual o cinismo tomou o lugar do idealismo e onde sacrifícios pessoais em prol de uma causa – seja ela qual for – são facilmente enredados no rol dos desajustes mentais. No entanto, há pessoas para quem uma ideia vale mais do que a própria vida. É o caso do jornalista Hermínio Sacchetta, ex-dirigente do PCB, que Marighella confrontara em São Paulo na década de 30, quando stalinistas e trotskistas se digladiavam mundo afora.

Em 1969, recém-entrado na casa dos sessenta, Sacchetta dirigia a redação do vespertino paulista Diário da Noite. Em sigilo editava Bandeira Vermelha, órgão do minúsculo Movimento Comunista Internacionalista, de orientação trotskista.

Em agosto de 1969 Sacchetta foi procurado por Joaquim Câmara Ferreira, ex-pecebista que, com Marighella, dividia o comando da Ação Libertadora Nacional (ALN), a organização que Marighella criou ao romper com Prestes e o PCB na busca por ação direta contra a ditadura. Câmara Ferreira, que na década de 30 havia sido escalado pelo PCB para assassinar Sacchetta (missão que ele abortou em nome da velha amizade e da decência), tinha uma proposta ao companheiro trotskista.
Sacchetta deveria furar o cerco da censura, publicando no Diário da Noite um comunicado que a ALN irradiaria em um golpe contra a Rádio Nacional, que não era pública como a xará carioca, mas pertencente às Organizações Globo.

O plano era ousado. Um grupo de guerrilheiros invadiria os transmissores da rádio em Piraporinha, Diadema, e transmitiria um comunicado contra a ditadura. O sinal da emissora alcançaria 600 quilômetros e atingiria um público que, no interior paulista, alcançava 80% dos aparelhos de rádio.

Sacchetta topou, mesmo sabendo que, na melhor das hipóteses, sobraria ao menos para ele.

A ação ocorreu no dia 15 de agosto, e foi um sucesso estrondoso.

Na redação do Diário da Noite, Sacchetta simulava cara de espanto diante da notícia. Ele mudou a segunda edição, imprimiu a íntegra da proclamação da ALN e determinou o aumento da tiragem. Ao se deparar logo após o meio-dia com o Diário da Noite nas bancas, antes que os leitores devorassem os exemplares e a polícia recolhesse os restantes, seu filho, o hoje historiador Vladimir Sacchetta lhe telefonou:


“Você ficou louco?”
 
Serenamente, o pai respondeu que aguardava os policiais para ser preso. Vladimir correu à casa e limpou as gavetas de Sacchettar. O jornalista amargou duas semanas em cana, foi demitido em seguida e penou cinco anos sem emprego, barrado em todos os jornais. Acertara na mosca: no calor da hora, pagou sozinho pela audácia de que jamais se arrependeu.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Palestinos - 65 anos sem pátria



Hoje, 15 de maio, se completam 65 anos da Nakba (Catástrofe), que é como os palestinos batizaram a expulsão de quase um milhão de árabes durante os conflitos internos que deram origem a Israel e ao despatriamento de centenas de milhares de famílias.

Toda sorte de distorções e mitos já foram circulados sobre o que aconteceu na Palestina entre o final de 1947 e o começo de 1949. Na mitologia oficial israelense, no senso comum, no jornalismo mais venal ou preguiçoso, nas Wikipédias e até mesmo em livros embalados como se fossem de pesquisa historiográfica séria, essas distorções foram sedimentando uma coleção de narrativas que recorrem a falsificações não raro contraditórias entre si:

1) que o povo palestino como tal não existia;
2) que ele existia, mas que saiu voluntariamente de suas terras em 1948;
3) que não saiu voluntariamente, mas que tampouco foi vítima do sionismo, pois abandonou suas aldeias atendendo a ordens radiofônicas dos próprios árabes;
4) no ramo da pseudo-historiografia, paga para mentir, já apareceram até livros sobre como os palestinos não eram tão antigos assim na região, já que eles teriam chegado também em imigração recente.

Essas diferentes versões da mitologia oficial vão se sucedendo ou se combinando, a gosto do freguês, formando uma geleia geral de enganação empacotada.

A história é facilmente esquecida. E, por ser facilmente esquecida, é facilmente manipulada. Para quem se interessa pelo tema (e não tem preguiça de ler) segue uma pequena contribuição (pinçada de um trabalho mais extenso do estudioso Idelber Alevar) para que a história seja preservada e, em consequência, para que a verdade não se perca.

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Em 29 de novembro de 1947, quando a ONU adotou a resolução de partição da Palestina, os árabes representavam dois terços da população da região. Eles eram aproximadamente 90% no início do Mandato Britânico, em 1922. A partição proposta pelo Comitê Especial das Nações Unidas para a Palestina (UNSCOP, pela sigla em inglês) concedia ao terço judeu nada menos que 56% do território, deixando aos dois terços árabes somente 44% da terra. Por pressões do Vaticano e das nações católicas, a resolução da partição reservava à cidade de Jerusalém (de população de 200 mil pessoas, divididas mais ou menos igualmente entre árabes e judeus) a condição de área internacionalmente governada.

A divisão demográfica dos dois países era bizarra: no estado árabe, deveriam viver 818.000 palestinos, hospedando 10.000 judeus. No estado judeu, viveriam 438.000 palestinos entre 499.000 judeus. Esse estado detinha a esmagadora maioria das terras férteis e, das 1.200 aldeias palestinas, aproximadamente 400 estavam incluídas em seu interior, sob soberania sionista. Elaborada pelo UNSCOP, cujos membros não sabiam muito sobre a Palestina, a partição se transformaria na Resolução 181 da ONU. Não é de se estranhar que a liderança palestina do momento a rejeitasse. Com o boicote palestino ao UNSCOP, com certeza um erro político grave, a liderança sionista, de ampla superioridade bélica, se viu livre para dominar também o jogo diplomático.

A amarga ironia da história, quando a vemos do ponto de vista árabe, é que se os palestinos tivessem aceitado a partição, a liderança sionista com certeza a teria rejeitado. Basta examinar as comunicações entre Ben-Gurion e a hierarquia sionista para ver como a rejeição árabe ao plano de partição permitiu ao sionismo aceitá-lo publicamente e ao mesmo tempo trabalhar contra ele. Logo depois da adoção da Resolução 181, Ben-Gurion afirmava ao círculo da liderança sionista que a rejeição árabe ao plano significava que “não há fronteiras territoriais para o futuro estado judeu” e que as fronteiras “serão determinadas pela força e não pela resolução de partição”. Respondendo a um líder sionista e ministro do exterior (Moshe Sharett) acerca das possibilidades de defender o seu território, Ben-Gurion afirmava: “seremos capazes não só de nos defendermos, mas de infligir golpes letais aos sírios em seu próprio país—e tomar a Palestina como um todo”.

Essas comunicações, disponíveis para consulta nos próprios arquivos israelenses, demonstram claramente que a liderança sionista viu o plano de partição como uma conquista tática, que colocava em definitivo sobre a mesa a legitimidade de um estado judeu na Palestina e estabelecia um trampolim para conquistas posteriores. Essas conquistas, é certo, foram facilitadas pelo perplexo boicote palestino ao Comitê da ONU. Reitere-se, então, que as citações de Ben-Gurion acima são parte de uma ampla documentação que prova que a liderança sionista jogou um jogo duplo e não se comprometeu com a partição como fórmula definitiva. Isso jamais é mencionado pelos apologistas da ocupação de Israel que repetem a consigna de que “os judeus aceitaram a partição de 1947 e os árabes a rejeitaram” como justificativa dos crimes cometidos por Israel em 2010, e bem além dos limites dessa partição.

Antes de descrever a expulsão dos palestinos de suas terras, mais um elemento do xadrez político legado pelo Mandato Britânico deve ser explicado: o acordo sionista-jordaniano que deixa os palestinos sem o apoio do principal exército árabe na Guerra de 1948 e à mercê do superior poder bélico sionista. Aliada dos ingleses na Primeira Guerra Mundial, a família real Hashemita havia recebido os reinos da Jordânia e do Iraque como recompensa por seus serviços. O que passou a ser conhecido como Transjordânia “era um pouco mais que um principado desértico e árido ao leste do Rio Jordão, cheio de tribos beduínas e aldeias circassianas”. As férteis terras da Palestina situadas a oeste do Rio Jordão, no que hoje é conhecido como Cisjordânia (ou seja, o grosso do território do que é, legalmente, a Palestina atual), passaram a ser objeto da cobiça da família real Hashemita. Havia poucos judeus ali, e entre 1946 e 1947 a realeza jordaniana e a liderança sionista chegaram um acordo: os jordanianos não interfeririam na guerra árabe-israelense que se avizinhava—promessa que os jordanianos cumpriram—e a região da Cisjordânia seria anexada pelo reino dos Hashemitas, sem interferência sionista—promessa que os israelenses quebraram em 1967, ao ocupar o território e mantê-lo sob seu controle, picotagem policial e colonização armada até hoje. Também ali se instalaria um paradigma repetido incontáveis vezes desde 1948. Acuados pelo poder superior dos sionistas, as elites árabes vizinhas rifavam os palestinos, deixando-os entregues à própria sorte num jogo no qual não tinham nenhuma chance. É mais um elemento da tragédia do Oriente Médio.

Revisando os diários de Ben-Gurion e os arquivos israelenses posteriores à partição, o historiador Ilan Pappe encontra certa surpresa e júbilo entre a liderança sionista com o caráter limitado da reação palestina ao recorte de suas terras. Seguindo-se à Resolução 181, os palestinos se limitam a convocar uma greve geral de três dias, durante a qual a repressão inglesa foi duríssima. As revoltas árabes que aconteceram entre 1936 e 1939 deram também à organização paramilitar judia Hagana sua primeira experiência na execução das táticas militares aprendidas com a Grã-Bretanha. A destruição da liderança política palestina seria decisiva para o rumo posterior dos acontecimentos. O quadro que precede a guerra de 1948 é de intenso armamento sionista, coincidindo com um momento de particular fragilidade da liderança palestina, destroçada pela repressão britânica à revolta de 1936-39. No jogo diplomático, começa a pesar a consciência culpada da Europa, em choque com as dimensões gigantescas do Holocausto judeu, recém perpetrado. Quebrar as promessas feitas aos árabes era preço relativamente pequeno para expiar, às custas de outrem, a culpa européia pelo judeocídio. No xadrez político da região, o acordo sionista-jordaniano neutralizava o principal exército árabe. Em pânico com os constantes ataques dos grupos paramilitares judeus (Hagana, Irgun e Stern), a população autóctona, já em 1947, começa a perceber o poderio sionista como uma força imbatível. Estava aberto o caminho para a limpeza étnica da Palestina.

A preparação da expulsão

Como se sabe agora, a liderança militar sionista ficou surpresa com o caráter limitado dos protestos palestinos que se seguiram ao decreto da partição, em novembro de 1947. Afinal de contas, seu território havia sido rachado com uma comunidade minoritária de colonos, que receberam não só um naco de 56% do território, desproporcional à sua representação na população, mas um naco que continha pelo menos 400 aldeias palestinas, nas quais 800.000 palestinos deviam seguir vivendo sob soberania imposta e recém chegada. Ao longo dos dias que se seguem à partição, o comando sionista se reúne para encontrar formas de ataque possíveis, ante a ausência de pretextos. Os arquivos estudados por Ilan Pappe, das reuniões a liderança judaica na Palestina, dão amplo testemunho do planejamento da limpeza étnica. Os fazendeiros dos Kibbutzim transformavam suas cooperativas em postos militares, enquanto nas aldeias palestinas a vida seguia seu curso, no qual a “normalidade era a regra e a agitação a exceção”, segundo os informes do próprio Palti Sela, membro de uma unidade de inteligência sionista. Ao longo do mês de dezembro de 1947, anterior à guerra propriamente dita, as aldeias palestinas sofrem uma campanha de terror e intimidação das organizações paramilitares judias que representam o primeiro capítulo da limpeza étnica da Palestina.

A linguagem da ameaça foi prática comum naquele momento, como mostra o exemplo citado por Ilan Pappe, de panfletos lançados às aldeias sírias e libanesas na fronteira palestina: “Se a guerra for levada até você, ela causará expulsão massiva de aldeões, com suas mulheres e crianças … haverá matança sem piedade, sem compaixão”. Lembremos que nesse momento o sionismo já possui um mapa completo das aldeias palestinas, incluindo-se informação sobre água, possíveis defesas e indivíduos vinculados à resistência árabe durante os protestos de 1936-39. Esse mapeamento seria chave na destruição das centenas de aldeias palestinas e na expulsão de centenas de milhares de habitantes autóctonos da região No mês de dezembro se disseminam as ações que a Hagana chamava de “reconhecimento violento” (hassiyur ha-alim): invadir uma aldeia à noite, instaurar toque de queda, atirar em qualquer um que ouse sair de casa, permanecer durante algumas horas e ir embora. A aldeia de Deir Ayyub foi uma das vítimas de dezembro de 1947. Com aproximadamente 500 habitantes, ela acabava de comemorar a abertura de uma escola. Foi invadida por tropas judaicas que passaram a atirar indiscriminadamente nas casas. Deir Ayyub ainda seria atacada três vezes antes de ser destruída em sua totalidade em abril de 1948 (p.56). No nordeste da Galileia, na aldeia de Khisas, algumas centenas de muçulmanos coexistiam pacificamente há tempos com uma centena de cristãos. Até que no dia 18 de dezembro de 1947, tropas judaicas a invadiram e passaram a explodir casas durante a noite, provocando a morte de quinze aldeões, pelo menos cinco crianças. Ações como estas proliferaram ao longo de dezembro de 1947, e não costumam ser mencionadas pelos que justificam as atrocidades de Israel com o argumento de que “os palestinos iniciaram a guerra” em janeiro de 1948.

As ações de expulsão da população anteriores à declaração formal de guerra em janeiro de 1948 não se limitaram às aldeias pequenas. Na cidade de Haifa, principal porto da Palestina, 75 mil palestinos “foram submetidos a uma campanha de terror instigada conjuntamente pelo Irgun e pela Hagana. Como haviam chegado em décadas recentes, os colonos judaicos construíram suas casas no alto das montanhas. Viviam topograficamente acima dos bairros árabes e podiam disparar e lançar morteiros contra elas. Começaram a fazê-lo com frequência a partir do começo de dezembro. Usaram também outros métodos de intimidação: as tropas judaicas rolavam barris cheios de explosivos, e enormes bolas de aço, na direção das áreas residenciais árabes, lançavam óleo misturado com combustível nas estradas, que aí incendiavam. Os residentes palestinos, aterrorizados, corriam para fora de suas casas para tentar apagar o fogo, e aí passavam a ser alvo de rajadas de metralhadora”. A descrição documentada do que aconteceu em Haifa em dezembro de 1947 é importante porque a cidade é, com frequência, mencionada como exemplo de que as lideranças judaicas insistiram para que os palestinos ficassem e eles saíram “voluntariamente”.

Epílogo e promessa

Não está contada aqui, evidentemente, nada da história do Nakba propriamente dito. Para se entender a monstruosidade a que foi submetida o povo palestino, há que se conhecer os quatro planos de limpeza étnica da Palestina elaborados pela liderança sionista desde antes da II Guerra Mundial. O Plano A, também conhecido como “Plano Elimelech”, toma seu nome do líder do comandante da Hagana que, em 1937,  já elaborara, a pedido de Ben-Gurion, um projeto de limpeza étnica a ser executado no momento em que os ingleses abandonassem a Palestina. O Plano B foi escrito em 1946 e ambos depois se fundiram no Plano C, que previa: a) assassinatos seletivos da liderança política palestina; b) destruição da infraestrutura de transporte palestina; c) sabotagem específica às fontes de sustento da população nativa, como os moinhos; d) ataques escalonados às aldeias; e) bombardeios de ônibus, cafés, locais de reunião. O fundamental desse plano é mantido no projeto que é efetivamente executado, o Plano D (Dalet), anterior à guerra de 1948, e que previa a sistemática expulsão do povo palestino de suas terras.

O Plano Dalet já é consenso entre a liderança sionista em Dezembro de 1947, antes da oficialização da guerra. Ao cabo do processo de limpeza étnica, espantosamente curto e brutal, mais da metade da população palestina nativa (pelo menos 750.000 pessoas) foi expulsa, 531 aldeias foram destruídas e onze bairros urbanos foram esvaziados de sua população, um crime contra a humanidade de enormes proporções, ainda hoje negado e envolvido em falsificação. Hoje, os refugiados e seus descendentes vivem esparramados por, em números aproximados, Jordânia (2 milhões), Líbano (430.000), Síria (480.000), além de 800.000  que são parte da população palestina que mora sob ocupação militar israelense na Cisjordânia (2,3 milhões) e outro 1,1 milhão que vive sob bloqueio (e frequente bombardeio) militar israelense em Gaza. Outros 1,2 milhão de palestinos vivem como cidadãos de segunda classe em Israel. O melhor guia do Nakba é o livro de Ilan Pappé, The Ethnic Cleansing of Palestine, infelizmente ainda inédito em português.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lincoln - Doris Kearns Goodwin



 “Considero que a ideia central desta luta é a necessidade que se abateu sobre nós de provar que o governo popular não é um absurdo. Precisamos resolver agora a questão de saber se, num governo livre, a minoria tem o direito de derrubar o governo sempre que desejar. Um fracasso serviria para provar a incapacidade do povo de se governar”.

O pensamento acima é de Abraham Lincoln, 16º presidente dos Estados Unidos, e diz respeito aos motivos que lançaram seu país em uma guerra civil que se estendeu de 1861 a 1865 ceifando a vida de 970 mil pessoas (3% da população do país à época). Apesar de contextualizado, o pensamento de Lincoln é tão atual, tão intrínseco a uma contemporaneidade na qual os valores democráticos são constantemente atacados e vilipendiados como se deles surgissem todos os males de nossa sociedade.

Ontem finalizei “Lincoln”, da vencedora do Pulitzer de História e romancista Doris Kearns Goodwin. Em um primeiro momento o livro passa a impressão de superficialidade, mas, conforme vamos avançando na leitura vemos descortinada a nossa frente uma das mais fascinantes personalidades do século 19. Resumir o pensamento e os feitos de Abraham Lincoln em 321 páginas pode ser considerado, por si só, um trabalho exaustivo.

O livro esmiúça a fase final da vida de Lincoln, a partir da campanha pela indicação do Partido Republicano para a disputa presidencial de 1861 em um país dividido pela questão escravagista e pelo conceito de União. Sua genialidade política, sua visão de estadista são abordadas especialmente na sua relação com os adversários - dentro do partido e no governo - cujas vaidades soube apaziguar, cujas deslealdades pode relevar e cujas personalidades conseguiu cativar.

Goodwin relata os bastidores políticos da época sem se esquecer de humanizar Lincoln diante de seus dramas pessoais, como a morte dos filhos, e inerentes ao peso de comandar uma guerra fratricida.

Talvez o retrato mais fiel desta personalidade hercúlea seja exposto nas páginas finais de Goodwin:

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Em 1908, numa área remota e afastada do Cáucaso do norte, Leon Tolstoi, o maior escritor da época, era o convidado de um chefe tribal “que morava nas montanhas, longe da vida civilizada”. Reunindo a família e os vizinhos, o chefe pediu a Tolstoi que contasse passagens da vida dos homens famosos da história. Durante horas, Tolstoi brindou o público atento com narrativas sobre Alexandre, César, Frederico, o Grande, e Napoleão. 

Quando ele se preparava para terminar, o chefe levantou-se e disse: “Mas você não nos contou nada sobre o maior general e governante do mundo. Queremos ouvir alguma coisa. Ele foi um herói. Falava com a voz do trovão, ria como o amanhecer, e seus feitos tinham a força das rochas. (...) Seu nome era Lincoln e a terra em que viveu chama-se América, uma terra tão distante que, se um rapaz saísse a pé para viajar até lá, ele já estaria velho quando lá chegasse. Fale-nos desse homem.”

“Olhei para eles”, recordou-se Tolstoi, “e vi seus rostos alvoroçados, enquanto seus olhos ardiam. Vi que aqueles toscos bárbaros realmente estavam interessados num homem cujo nome e cujos feitos já tinham se tornado lendários”. Ele lhes contou tudo o que sabia sobre Lincoln, sua “vida doméstica e sua juventude (...) seus hábitos, sua influência sobre o povo e sua força física”. Quando terminou, eles ficaram tão gratos pela história que o presentearam com “um maravilhoso cavalo árabe”.

Na manhã do dia seguinte, quando Tolstoi se preparava para partir, eles perguntaram se ele teria como conseguir para eles um retrato de Lincoln. Como acreditava que poderia encontrar um na casa de um amigo na cidadezinha próxima, Tolstoi pediu a um dos cavaleiros que o acompanhasse. “Consegui obter uma fotografia de bom tamanho com meu amigo”, recordou-se Tolstoi. Quando a entregou ao cavaleiro, ele percebeu que a mão do homem tremia ao aceitá-la. “Ele ficou alguns minutos olhando para ela em silêncio, como alguém que faz uma prece com reverência, os olhos marejados de lágrimas.”

Tolstoi fez então o seguinte comentário: “Este pequeno incidente prova como o nome de Lincoln é venerado pelo mundo afora e como sua personalidade se tornou lendária. Ora, por que Lincoln foi tão grande a ponto de suplantar todos os outros heróis nacionais? Na realidade, ele não foi um grande general, como Napoleão ou Washington; não foi um estadista hábil, como Gladstone ou Frederico, o Grande; mas sua supremacia se expressa totalmente em sua singular força moral e na grandeza de seu caráter. Washington foi um americano típico. Napoleão foi um francês típico. Mas Lincoln foi um humanitário, com a abrangência do mundo. Ele foi maior que seu país — maior que todos os Presidentes reunidos.”

“Ainda estamos próximos demais de sua grandeza”, concluiu Tolstoi. “Contudo, depois de mais alguns séculos, nossa posteridade há de considerá-lo maior do que nós o consideramos. Sua genialidade ainda está forte demais e poderosa demais para a compreensão comum, exatamente como o sol queima demais quando sua luz brilha direto sobre nós.”

“Diz-se que todo homem tem sua ambição particular”, escreveu Abraham Lincoln, aos 23 anos, em sua carta aberta ao povo do Condado de Sangamon durante sua primeira candidatura a um cargo eletivo, na legislatura estadual de Illinois. “Seja ou não verdade, posso dizer por mim mesmo que não tenho outra [ambição] tão forte quanto a de ser realmente estimado por meus próximos, tornando-me digno de sua estima. Até onde serei capaz de realizar essa ambição ainda está por se revelar.”