Nosso novo, velho jornalismo...
Relendo o primeiro volume do “Teorias do Jornalismo”, do Nelson
Traquina, me deparei com duas passagens curiosas sob o ponto de vista do
jornalismo que se pratica hoje no Brasil, especialmente nos grotões
onde os poucos leitores e anunciantes são disputados no tapa por jornais
com tiragem indigente e emissoras de TV e rádio onde a notícia é mera
coadjuvante na programação.
A
primeira passagem é uma reflexão sobre “The image of the Journalists in
France, Germany, and England, 1845-1848”, de Leonor O’Boyle, segundo a
qual a nova classe média inglesa no século 19 formou um público que
queria notícias políticas e econômicas, de modo que foi possível a um
jornal diário atrair leitores e anunciantes suficientes para se
auto-sustentarem, sem qualquer dependência de subsídios políticos.
Na segunda passagem, Traquina cita estudos segundo os quais havia, na
França do século 19, pouca publicidade paga e escasso público leitor.
Como consequência, os jornais franceses não conseguiam se transformar em
negócio lucrativos e auto-suficientes. “Permaneciam dependentes
financeiramente dos vários partidos políticos, e assim altamente
politizados e partidários”, afirma o acadêmico português.
Ora,
substituindo a geografia de ambas as citações pelo Mato Grosso do Sul da
atualidade chego a conclusão de que ainda praticamos um jornalismo ao
etilo do século 19.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Humanos de índole torta
Humanos de índole torta
"O que fazer com um cidadão que dispara uma arma de fogo no rosto de uma mulher grávida?"
O corpo da secretária Daniela Oliveira, de 25 anos, que morreu após ser baleada durante uma tentativa de assalto, foi enterrado ontem (11) em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. Daniela, que estava grávida de nove meses, foi atingida por um disparo de arma de fogo no rosto logo após descer de um Ford Fiesta na frente do condomínio em que morava. Ela foi abordada por dois criminosos em uma moto, que atiraram nela e fugiram sem levar nada.
Seis minutos após a entrada de Daniela no Hospital do Campo Limpo, os médicos decidiram pela realização da cesariana, para salvar o bebê. A criança, chamada Gabriela, nasceu com 2,2 quilos e saudável. A família decidiu doar os órgãos de Daniela.
Assunto encerrado.
Daniela Oliveira em breve sairá dos noticiários, se transformará em apenas uma fração dos índices que medem a violência desenfreada que assola o país.
Recente relatório sobre o Peso Mundial da Violência Armada aponta que, entre os anos de 2004 e 2007, os doze maiores conflitos armados, provocados por disputas territoriais, guerras civis e movimentos libertários, em diferentes partes do mundo, mataram 169.574 pessoas. No mesmo período, 192.804 pessoas foram assassinadas no Brasil.
Entre 1992 e 2009, de acordo com o IBGE, a taxa de homicídios no Brasil cresceu 41%, com a média de assassinatos saltando de 19,2 para 27,1 mortes em cada cem mil habitantes. Nos últimos trinta anos, houve aumento de 83,1% na taxa de homicídios no Brasil.
Em 2010 ocorreram quase 50 mil assassinatos no Brasil, ao ritmo de 137 homicídios por dia, número superior ao de “um massacre do Carandiru por dia”, como assevera o pesquisador Julio Jacobo Waisefisz, do Instituto Sangari.
Estes números assustadores têm causas diversas, em especial a desigualdade social, o absurdo desequilíbrio na distribuição de renda, a educação de qualidade indigente oferecida aos jovens, o naufrágio da cidadania diante da cultura de consumo desenfreado entre outras mazelas de cunho social.
Podemos atribuir uma parcela de responsabilidade sobre a escalada da violência a todos estes tristes aspectos da sociedade brasileira. Há um, no entanto, que costuma ficar de fora das análises, dos programas de governo, dos discursos políticos: a maldade.
Nossa cultura de classe média culpada, propensa a paternalismos e ao acalanto do mito do bom selvagem, tende a “passar a mão na cabeça” do criminoso, a exigir direitos humanos para humanos de índole torta, deformada.
Ao iniciar este artigo, apenas uma questão se colocava em minha mente, insistente... O que fazer com um cidadão que dispara uma arma de fogo contra o rosto de uma mulher grávida?
"O que fazer com um cidadão que dispara uma arma de fogo no rosto de uma mulher grávida?"
O corpo da secretária Daniela Oliveira, de 25 anos, que morreu após ser baleada durante uma tentativa de assalto, foi enterrado ontem (11) em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. Daniela, que estava grávida de nove meses, foi atingida por um disparo de arma de fogo no rosto logo após descer de um Ford Fiesta na frente do condomínio em que morava. Ela foi abordada por dois criminosos em uma moto, que atiraram nela e fugiram sem levar nada.
Seis minutos após a entrada de Daniela no Hospital do Campo Limpo, os médicos decidiram pela realização da cesariana, para salvar o bebê. A criança, chamada Gabriela, nasceu com 2,2 quilos e saudável. A família decidiu doar os órgãos de Daniela.
Assunto encerrado.
Daniela Oliveira em breve sairá dos noticiários, se transformará em apenas uma fração dos índices que medem a violência desenfreada que assola o país.
Recente relatório sobre o Peso Mundial da Violência Armada aponta que, entre os anos de 2004 e 2007, os doze maiores conflitos armados, provocados por disputas territoriais, guerras civis e movimentos libertários, em diferentes partes do mundo, mataram 169.574 pessoas. No mesmo período, 192.804 pessoas foram assassinadas no Brasil.
Entre 1992 e 2009, de acordo com o IBGE, a taxa de homicídios no Brasil cresceu 41%, com a média de assassinatos saltando de 19,2 para 27,1 mortes em cada cem mil habitantes. Nos últimos trinta anos, houve aumento de 83,1% na taxa de homicídios no Brasil.
Em 2010 ocorreram quase 50 mil assassinatos no Brasil, ao ritmo de 137 homicídios por dia, número superior ao de “um massacre do Carandiru por dia”, como assevera o pesquisador Julio Jacobo Waisefisz, do Instituto Sangari.
Estes números assustadores têm causas diversas, em especial a desigualdade social, o absurdo desequilíbrio na distribuição de renda, a educação de qualidade indigente oferecida aos jovens, o naufrágio da cidadania diante da cultura de consumo desenfreado entre outras mazelas de cunho social.
Podemos atribuir uma parcela de responsabilidade sobre a escalada da violência a todos estes tristes aspectos da sociedade brasileira. Há um, no entanto, que costuma ficar de fora das análises, dos programas de governo, dos discursos políticos: a maldade.
Nossa cultura de classe média culpada, propensa a paternalismos e ao acalanto do mito do bom selvagem, tende a “passar a mão na cabeça” do criminoso, a exigir direitos humanos para humanos de índole torta, deformada.
Ao iniciar este artigo, apenas uma questão se colocava em minha mente, insistente... O que fazer com um cidadão que dispara uma arma de fogo contra o rosto de uma mulher grávida?
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