Semana On

terça-feira, 24 de maio de 2011

Cidades da Planície - Cormac McCarthy

Os homens têm na cabeça uma imagem de como o mundo vai ser. De como eles vão ser nesse mundo. O mundo pode ser diferente de muitas maneiras para eles mas tem um mundo que nunca vai ser e esse é o mundo que eles sonham.
Pág. 158

“Cidades da Planície” é o último livro da Trilogia da Fronteira, do escritor norte-americano Cormac McCarthy. A obra finaliza a saga de John Grady Cole e Billy Parham, protagonistas dos dois primeiros livros, “Todos os belos cavalos” e “A Travessia”.

A história tem início em 1952. John e Billy trabalham juntos em um rancho de gado ao sul de Alamogordo, no Novo México, próximo as cidades mexicanas de El Passo e Ciudad Juarez, no estado de Chihuahua. A história gira em torno da vida dos vaqueiros em meio a um modo de vida prestes a desaparecer e é construída sobre o amor de Cole a uma jovem prostituta mexicana, Magdalena.  John Cole está determinado a se casar com ela, a levá-la para viverem juntos na fazenda de seu patrão.

"Passamos boa parte do livro torcendo muito pelo amor entre os dois", escreve o jornalista Matthew Shirts na orelha do livro, mas, como sempre em McCarthy, finais felizes não são algo a que o leitor possa aguardar como certeza. Novamente, a obra transpira solidão, uma sensação de abandono, de incerteza, como se algo ruim estivesse sempre prestes a cruzar o caminho dos personagens que a habitam.

Um cavalo tem dois lados e conforme a minha experiência a gente tem que lidar com um lado e deixar o outro pra lá.
Conheci gente que era a mesma coisa. Várias pessoas, na verdade.
Pág. 178

Alguns críticos dizem que A Trilogia da Fronteira é um amontoado de clichês, um pastiche arrogante dos faroestes italianos como sugeriu certa vez Diogo Mainardi, segundo quem McCarthy “está mais para anúncio de cigarro” do que para William Faulkner e Herman Melville, autores a quem Mccarthy é bastante comparado. Para Mainardi, o oeste de McCarthy “tem a autenticidade da terra de Marlboro”. 

Penso que – além dos litros de café degustados e das muitas tortillas com feijão consumidas pelos personagens - o que alguns apontam como clichê são, na verdade, as reminiscências da construção de um mito do oeste tal qual os norte-americanos pensam este “período geográfico” tão importante de sua história. Há na Trilogia, a construção de uma moral, de um modo de vida e até de uma filosofia vaqueira na qual os personagens estão imersos até a boca. Esta moral, modo de vida e filosofia esbarram em um novo Estados Unidos que os negam. Uma nova realidade que não comporta mais John Coles e Billy Parhams. Estas reminiscências são o apoio que os personagens da obra encontram para justificarem as próprias vidas. O resultado é a sensação de imprevisibilidade, de falta de rumo e de projeto de futuro que todos eles possuem.

Quem era o viajante?
Não sei.
Era você?
Acho que não. Mas também se não nos conhecemos no mundo mesmo despertos que dirá nos sonhos?
Pág. 316

O grande momento de “Cidades da planície” é o epílogo, no qual Parham, um velho errante beirando os 80 anos, dormindo sob imensos viadutos no Arizona, trava um diálogo com outro errante que alguns acreditam ser o próprio McCarthy. A conversa ocorre 50 anos depois dos acontecimentos do romance. Em um diálogo lírico, intrincado, o homem conta a Billy uma história sobre um sonho envolvendo sacrifícios pagãos no deserto do México. A conversa flutua entre a realidade e o mundo dos sonhos enquanto Billy Parham luta para compreender o sentido de tudo aquilo, ou o sentido de sua própria vida.

Mais tarde, de volta a terra onde cresceu, Billy é acolhido por uma família.  Ali, dormindo em um barracão próximo a cozinha, “muito parecido com o local onde ele dormia quando criança”, ele sonha com o irmão, Boyd. Então, desperta de seu sono agitado para se deparar com Betty, a rancheira que o acolheu, ao seu lado. O último diálogo da obra dá vazão a muitas interpretações e tem sido alvo de muitos debates entre leitores e críticos. Para mim, é a redenção para solidão e o abandono que permeiam toda a obra.

“Ela lhe afagou a mão. Enodada, marcada pelo uso da corda, manchada do sol e dos anos. As veias feito cordas que as atava ao coração. Nela havia um mapa suficiente para orientar um homem. Nela a plenitude de sinais e assombros de Deus para criar uma paisagem. Criar o mundo. Ela se levantou para sair.
Betty, ele disse.
Sim.
Eu não sou o que a senhora pensa que eu sou. Eu não sou ninguém. Não sei por que me tolera.
Bem, senhor Parham, eu sei quem o senhor é. E eu sei por quê. Vê se dorme agora. Até amanhã.
Até amanhã dona.”
Pág. 341

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A Travessia - Cormac McCarthy

O senhor acredita que os cavalos entendem o que as pessoas falam?
Não tenho nem certeza se a maioria das pessoas entende.
Pág. 344

“Caminhou. Um vento frio soprava das montanhas. Aparava os taludes ocidentais do continente onde a neve estival jazia acima dos terrenos onde árvores não cresciam e atravessava as elevadas florestas de pinheiros e se infiltrava entre os troncos dos álamos e se precipitava sobre a planície desértica abaixo. Parara de chover durante a noite e ele caminhou pela estrada e chamou o cão. E chamou e chamou. De pé naquelas trevas inexplicáveis. Nas quais não havia rumor em parte alguma exceto o do vento. Pouco depois se sentou na estrada. Tirou o chapéu e o depositou no asfalto diante dele e curvou a cabeça e pôs o rosto entre as mãos e chorou. Ali ficou por um longo tempo e depois o sol bom e feito por Deus nasceu, uma vez mais, para todos sem distinção.”

A desesperança do último parágrafo de “A Travessia”, segundo livro da Trilogia da Fronteira, do escritor estadunidense Cormac McCarthy, cuja leitura finalizei esta semana é o perfeito epílogo para um livro que, ao narrar a peregrinação de um jovem vaqueiro americano pela fronteira entre Estados Unidos e México no eclodir da segunda guerra mundial, nos coloca diante de toda a miséria da condição humana, esmagada pela solidão.

O jovem Billy Parham, protagonista da obra, é colocado diante de todo este peso nas quatrocentas e poucas páginas da obra, onde é confrontado por encontros inesperados que mesclam poesia, violência e filosofia na convivência, perda e busca por seu irmão mais novo, Boyd. Apesar de todas as experiências de vida que lhe são impostas durante a longa trajetória, iniciada com um arroubo que o leva a cruzar a fronteira com o México para colocar em segurança uma loba apanhada em uma armadilha, Billy é incapaz de se livrar desta solidão que o aparta dos homens e cuja ameaça foi apresentada a ele em um dos muitos encontros que lhe são imputados pelo destino.

Disse ao rapaz que apesar de ser huérfano deveria parar com as perambulações e encontrar para si mesmo um lugar no mundo porque a perambulação se tornaria uma paixão e por essa paixão se apartaria dos homens e por fim de si mesmo. Disse que o mundo só poderia ser conhecido tal como existe no coração dos homens Pois embora parecesse um lugar que contivesse os homens era na realidade um lugar contido dentro deles e por esse motivo para conhecê-lo era preciso olhar para dentro de si e conhecer o coração e para isso era preciso viver com os homens e não simplesmente passar entre eles.
Págs. 131 e 132

Em “A Travessia”, assim como em “Todos os belos cavalos” – primeiro livro da trilogia - o México surge como metáfora para um mundo selvagem e corrupto que McCarthy contrapõe à própria corrupção dos homens. É nessa natureza que ele faz seus personagens buscarem os valores e os sentimentos mais dignos e é também no elogio dessa vida crua que ele procura uma literatura mais autêntica e original. O animal ganha dentro dessa perspectiva um peso simbólico fundamental. É ao se tornarem um pouco animais, também, que seus personagens conquistam uma existência mais verdadeira. A sabedoria e a violência do mundo selvagem e da luta pela sobrevivência surgem como alternativa contra a selvageria de uma civilização corrompida pela violência gratuita, a injustiça, a ganância e a maldade.

O mundo não tem nome, disse. O nome dos cerros e das serras e dos desertos existem apenas nos mapas. Damos nomes a eles para não nos perdermos no caminho. No entanto porque já tínhamos nos perdido no caminho é que pusemos esses nomes. O mundo não pode se perder. Nós é que o perdemos. E porque esses nomes e essas coordenadas são nomeações nossas é que eles não podem nos salvar. Não podem encontrar de novo para nós o caminho.
Pág. 377

O encantamento de McCarthy e seus personagens por este mundo natural, para sempre perdido dentro de uma nova ordem social que surge, é apresentado por meio de uma prosa poética que muitas vezes flerta com o fantástico. De forma mais incisiva do que em “Todos os belos cavalos”, “A Travessia” nos traz o doloroso estoicismo de personagens sem guarida no mundo, que se movem contra uma paisagem indiferente ao seu sofrimento ou projetos pessoais, onde a morte parece a única disciplina capaz de unir a dura substância do mundo e a condição humana.

Ele olhou dentro dos olhos do garoto. O garoto dentro dos dele. Olhos tão negros que pareciam ser só pupila. Olhos nos quais o sol se punha. Nos quais a criança estava ao lado do sol. Ele não sabia que a gente podia ver a gente mesma nos olhos de uma outra pessoa nem ver dentro deles coisas assim como sóis. Ficou irmanado naqueles poços escuros com o cabelo muito descorado, muito fino e estranho, à mesmíssima criança.
Págs. 9 e 10

O Livro

Não tinha fé no poder dos homens de agirem sensatamente em benefício  de si mesmos.
Pág. 145

O livro é construído a partir de três incursões de Billy ao México. A primeira parte da obra, na qual o jovem submerge no mundo natural a partir de sua busca obsessiva por compreender o comportamento de uma loba que busca capturar, pode ser comparada a “O Urso” de Willian Faulkner ou a “Moby-Dick” de Herman Melville. Magistral a construção desta relação entre menino-homem e loba. Ao capturar o animal, Billy toma uma decisão que muda sua vida para sempre levando-o a uma jornada por montanhas primitivas e desertos inclementes. O motivo que o leva a assumir esta missão, deixando para trás a família, não é totalmente esclarecido. É um impulso, uma compulsão, uma resposta inconsciente ao chamado da natureza que o leva à frente sem medir conseqüências.

Ele segue seu caminho construindo uma relação de confiança com o animal e protegendo-o da selvageria humana até onde suas forças lhe permitem. Quando isso não é mais possível, Billy opta por libertar a loba do destino cruel que lhe é reservado nas mãos de homens embrutecidos. O momento em que Billy mata sua companheira de viagem, ferida em uma rinha de briga de cães, nos remete a uma busca pela dignidade, pela nobreza animal diante da selvageria do homem.

Billy, então, inicia uma viagem hipnótica pelas montanhas até as fronteiras do Novo México, onde o jovem cavaleiro nos é apresentado como um fantasma de si mesmo, meio enlouquecido pela dor e pela fome, em busca de terras conhecidas. Ele volta ao seu lar, apenas para descobrir que seus pais foram assassinados por ladrões de cavalo. Então, resgata o irmão mais novo, Boyd e parte novamente para o México em busca dos cavalos roubados.

Encontros e desencontros, violência e solidariedade os colocam frente a frente com alguns dos animais roubados e com uma jovem mexicana que junta seu destino ao deles. Mas a brutalidade prevalece e eles se transformam em fugitivos. Boyd é gravemente ferido e fica sob os cuidados de camponeses. Recuperado, parte com a jovem, deixando Billy para trás.

Billy, então, volta para os Estados Unidos onde tenta se alistar no exército. Por três vezes é recusado devido a uma falha cardíaca. Três anos se passam e Billy volta ao México em busca de seu irmão. Ele encontra apenas seu corpo, sepultado em um antigo cemitério, e as lendas que povoam o imaginário dos mais humildes, histórias que cantam as desventuras do jovem que luta contra a opressão dos fazendeiros mas acaba morto.

Levar o corpo de Boyd de volta para casa é a nova razão que Billy encontra para sua vida. E mesmo então não há caminho fácil para ele. Atacado por bandoleiros, roubado, perdendo um cavalo e tendo seu companheiro de viagens, o cavalo Niño, esfaqueado, ele insiste em cumprir a missão que impôs a si mesmo. Finalmente, já nos Estados Unidos, sepulta os restos do irmão ao lado da loba.

Este é o fio condutor de “A Travessia”, um resumo dos acontecimentos fantásticos que ocupam alguns anos da vida do vaqueiro Billy. Mas é o fim do livro, poucos anos depois, que nos dá o desenlace perfeito para a sensação de solidão que acompanha todas as páginas da obra.
 
Só, em uma casa abandonada onde se protege da chuva, Billy prepara-se para dormir sob palhas quando o dono do abrigo surge. Um cão velho, esquálido, deformado, que em realidade é um reflexo da alma de Billy. O jovem o escorraça das ruínas em uma convulsão de loucura, como se a própria presença do animal desvalido fosse para ele uma lembrança terrível de sua própria condição, da própria condição humana diante da inevitável solidão que nos esmigalha. Então, caindo em si, ele protagoniza o último parágrafo, que é o início desta breve resenha, concedendo a si próprio um momento de entrega e fraqueza, um momento de frágil humanidade.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Todos os belos cavalos - Cormac McCarthy


Ele o olhou, não sem bondade. Sorriu. As cicatrizes têm o estranho poder de nos lembrar de que nosso passado é real.
Pág. 125

Assim como o jazz pode ser apontado como arquétipo da música americana, o western é o gênero original da literatura do país. Para os norte-americanos, e também para nós, que crescemos com uma dieta de filmes de bangue-bangue, o tema evoca um tempo de bruta nobreza onde cada suspiro precede um confronto entre o “bem” e o “mal”. A realidade, é claro, é um pouco diferente, um ambiente existencial onde vida e morte compartilham estranhas danças ao pôr do sol. Esta realidade nos é apresentada com indescritível elegância em “Todos os belos cavalos”, o primeiro volume da Trilogia da Fronteira, do escritor Cormac McCarthy.

A paisagem é o sudoeste do Texas, fronteira com o México, entre as duas grandes guerras, um tempo de transição para as sociedades da América do Norte, quando cavalos e veículos motorizados compartilhavam as estradas e ranchos de gado e vaqueiros começavam a desaparecer lentamente do cenário rural. “Eu sempre tive interesse no sudoeste. Não há lugar no mundo onde não se tenha ouvido falar de indos e cowboys ou sobre o mito do Oeste”, afirma o autor.

Cavalgou com o sol acobreando-lhe o rosto e o vento rubro soprando do oeste a terra noturna e os passarinhos do deserto voaram chilreando entre as samambaias secas e cavalo e cavaleiro seguiam em frente e suas longas sombras passavam engatadas como a sombra de um único ser. Passavam e empalideciam na terra a escurecer, do mundo a vir.
Pág. 271

A obra acompanha John Grady Cole, um rapaz de 16 anos, apaixonado por cavalos e dono de uma empatia profunda por estes animais, que se vê diante de um conhecimento aterrador: a certeza de que o modo de vida que ele ama - cavalos e ranchos de gado – estava chegando ao fim.

Após a morte do avô e a venda da fazenda de sua família, desestruturada com a separação dos pais, ele e seu melhor amigo, Lacey Rawlins, cavalgam para o México em busca de nada mais do que a promessa de um longo período sobre seus cavalos e sob as estrelas. Em sua jornada eles encontram o jovem e enigmático Jimmy Blevins, que se torna o pivô dos acontecimentos que colocarão Cole a Rawlins em uma série de eventos doces e violentos em uma terra sem leis.

Ah, eles disseram. Qué Bueno. E depois disso e por muito tempo ele teve motivo para evocar a lembrança daqueles sorrisos e refletir sobre a boa vontade que os causara pois tinha o poder de proteger e conferir honra e fortalecer a vontade e também de curar homens e levá-los à segurança muito depois de exauridos os outros recursos.
Pág. 199

O tema principal de “Todos os belos cavalos” é o conflito - entre homens e mulheres, liberdade e autoridade, riqueza e pobreza, pais e filhos, natureza e o homem – descrito com uma voz poética, mas rude, que é característica de McCarthy. Apesar da violência – outra característica da sua obra – em “Todos os belos cavalos” ser subida e imprevisível, ela nunca é gratuita. Serve como um contrapeso para o avassalador romance entre a filha de um fazendeiro mexicano, Alejandra, e Cole. Uma história de amor que o leitor espera ser bem-sucedida, mas que desde o início é fadada ao fracasso.

Não olhou para trás mas podia vê-la nas janelas do Edifício Federal do outro lado da rua ali parada e continuava parada quando ele chegou à esquina e saiu do vidro para sempre.
Pág. 28

Talvez o mais significativo na obra seja o fato de McCarthy ter conseguido construir uma história tão forte e ao mesmo tempo poética sem cair nas armadilhas do lugar comum.

McCarthy já foi resenhado aqui em outras oportunidades. Sua obra é marcada por uma intensa observação da natureza, um tipo de realismo mórbido. Seus personagens são sempre desgarrados, destituídos, criminosos, ou tudo isso de uma vez. Desabrigados ou vivendo sobre o teto que a providência lhes provê, eles se arrastam pelos bosques do Tenessee ou cavalgam pelas imensidões secas dos desertos. A morte surge abrupta sob céu aberto como um talho na garganta ou um tiro na cara. Em McCarthy, o abismo está sempre a um passo de distância.

Os nomes das entidades que nos reprimem mudam com o tempo. A convenção e a autoridade são substituídas pela doença. Mas minha atitude para com elas não mudou. Não mudou.
Pág. 125

O estilo de McCarthy's deve muito a Faulkner – no seu vocabulário recôndito, sua pontuação e retórica portentosa, no uso do dialeto e em um senso muito concreto do mundo a sua volta. “A verdade crua é que livros são feitos de livros. A vida de um romance depende dos romances que já foram escritos”, afirma, deixando claro que para construir uma obra de peso é preciso sentir sobre si a tonelagem maciça da boa literatura.

O AUTOR

Cormac McCarthy nasceu em Rhode Island em 20 de julho de 1933. Na juventude serviu à Força Aérea dos Estados Unidos durante quatro anos e estudou Artes na Universidade do Tennessee. É vencedor do National Book Award, do National Book Critics Circle Award e do Pulitzer 2007.

Em 40 anos de carreira literária, produziu nove romances, entre eles “Todos os Belos Cavalos”, “A Travessia” e “Cidade das Planícies”, que o autor batizou de Trilogia da Fronteira, “Meridiano de sangue” e “A Estrada”. “Onde os Velhos Não Têm Vez”, lançado nos Estados Unidos em 2005, foi adaptado para o cinema pelos irmãos Coen, em 2007. Receberam o Oscar de melhor filme, em 2008. “Todos os belos cavalos” também recebeu uma adaptação para a telona em 2000 (direção de Billy Bob Thornton).

Bom, disse Pérez. Geralmente eu posso avaliar a inteligência de um homem pelo quanto ele me acha estúpido.
Pág. 176

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O emblema vermelho da coragem - Stephen Crane

Era espantoso que a natureza seguisse tranquilamente em seu dourado processo em meio a tanta maldade.
Pág. 85

Apesar de Stephen Crane ter nascido após a Guerra Civil Americana e não ter tido nenhuma experiência de combate, sua novela, “O emblema vermelho da coragem” é apontada como um dos relatos de guerra mais verdadeiros e crus de que se tem notícia na literatura. Apesar de ele mesmo ter dito que “não se pode dizer nada... a menos que você tenha vivido aquilo”, seu romance é impregnado de um realismo que leva o leitor para dentro da cabeça do recruta Henry Fleming, seu protagonista.

Crane começou a escrever a obra em 1893, inspirado em relatos da guerra, em voga na época. Para compor a novela, ele também entrevistou veteranos do 124º Regimento Voluntário de Infantaria de Nova Iorque, conhecido como os Orange Blossoms. Inicialmente publicada de forma resumida em jornais, em dezembro de 1894, a novela foi publicada na íntegra em outubro de 1895. Uma versão mais longa, baseada nos manuscritos originais de Crane, foi publicada em 1982. Os especialistas na Guerra Civil Americana acreditam que o cenário escolhido pelo autor para descrever a experiência de Fleming foi a batalha de Chancellorsville.

Tentando explicar sua habilidade para escrever sobre a guerra de forma tão realista, Crane afirmou: “É claro que eu nunca estive em uma batalha, mas acredito que adquiri o senso do conflito nos campos de futebol americano; ou esta familiariedade com o combate é um instinto hereditário,e eu escrevi intuitivamente, já que os Cranes foram uma família de guerreiros no passado”.

De fato, a obra parece ter sido retirada da mente de quem testemunhou o calor do combate em primeira pessoa. Desde as primeiras páginas, quando o jovem romântico alista-se como voluntário no exército da União, contrariando os conselhos de sua mãe, em uma busca cega por glória e reconhecimento, Crane nos convida a um passeio pela psique de um jovem atordoado pela necessidade de “ser alguém” por meio e uma hipotética glória dos combates. Uma glória que cai por terra no seu batismo de fogo, quando a delicadeza da humanidade, o pavor diante da morte, prevalece.

Nos olhos do jovem apareceu uma expressão que se pode ver nas órbitas de um cavalo de perna quebrada.
Pág. 88

A desumanização dos soldados, sua transformação em meras peças em um imenso tabuleiro, é uma marca de “O emblema vermelho da coragem”, onde o exército e a guerra são coerentemente descritos com metáforas animais – como “duas serpentes rastejando para fora da gruta da noite”, o “animal vermelho”, “um enxame feroaz de criaturas escorregadias”, “o monstro verde e escarlate” – e o soldado individual não passa de uma engrenagem impessoal na máquina da guerra.

Esta proximidade entre ficção literária e a realidade dos campos de batalha faz com que a obra de Crane seja freqüentemente comparada a “Derrocada” de Zola e a “Guerra e paz” de Tolstói. No entanto, em “O emblema vermelho da coragem”, a guerra e as sensações que ela produz são protagonistas, não detalhes em um contexto maior.

A morte que enfia uma faca nas costas é muito mais aterrorizante do que a morte que pica entre os olhos. Pensando no assunto mais tarde, ele concluiria que é melhor enxergar o que nos aterroriza do que apenas ouvi-lo à distância.
Pág. 90

Não era recomendável encurralar homens em becos sem saída; nessas horas, qualquer um pode criar garras e dentes.
Pág. 158

Apesar de a guerra, o fragor do combate ser o ponto chave da obra, é na luta interna de Fleming entre a covardia e a bravura que reside o fio condutor da novela. Com maestria, Crane nos coloca diante de um jovem, recém saído da adolescência, lançado em meio a carnificina de uma guerra onde, pela primeira vez, a indústria serviu aos caprichos da mortandade com inovações tecnológicas que transformariam para sempre os campos de batalha. O pavor da morte andava lado a lado com o medo da ignomínia da covardia.

Era uma carreira cega e desesperada do bando de homens azuis de roupa enlameada e rota, sobre o gramado verde e sob um céu de safira na direção de uma cerca vagamente esboçada na fumaça, atrás da qual pipocavam fervorosamente os rifles inimigos.
Pág. 197

Fleming, antes de ser um herói aos olhos do leitor  é uma figura patética, uma sombra de todos nós, um arquétipo humano em busca de justificativas para a própria covardia e, posteriormente, um espelho das reações humanas quando a própria humanidade é reduzida a nada e a morte transforma-se em uma solução prática de modo que o temor dela se reduz diante da exaustão e da compreensão de nossa inutilidade enquanto protagonistas de nossas próprias vidas.

Lembrou-se do modo como alguns tinham corrido da batalha. Recordando suas expressões contorcidas de terror, sentiu desprezo. Era evidente que se tinham portado de modo muito mais espaventado e frenético do que o absolutamente necessário. Eram frágeis mortais. Quanto a ele, soubera fugir com dignidade e descrição.
Pág. 148

A luta de Fleming, sua covardia, a preocupação quanto a imagem que os outros teriam dele, transforma-se em um xadrez mental, um jogo de gato e rato no qual, inicialmente falsa, a sua bravura acaba por ser despertada em meio as engrenagens de uma máquina impessoal e terrível sobre a qual estava equilibrado.

Dentro dele, à medida que avançava, foi nascendo um amor, um afeto desesperado pela bandeira que seguia ao seu lado. A bandeira, uma criação de rara beleza, era invulnerável, uma deusa radiante que, num gesto imperioso, curvava seu corpo sobre o dele. Uma mulher vermelha e branca, cheia de ódio e amor, a chamá-lo com a voz de suas esperanças. Nenhum mal podia ser feito a ela, e isso levava o jovem a lhe atribuir um grande poder. Mantinha-se por perto, como se ela fosse capaz de salvar vidas. Em pensamento, implorou-lhe que o fizesse.
Pág. 175

Imortalizado no cinema por John Huston em “A glória de um covarde”, “O emblema vermelho da coragem” é um clássico do modernismo norte-americano. Uma obra que, passados 116 anos de sua primeira publicação, pode ser lida hoje com os olhos da contemporaneidade.

O autor

Jornalista e escritor naturalista americano nascido em Newark, Nova Jersey, Stephen Crane deixou uma obra literária de tal qualidade que foi considerado um dos principais escritores dos Estados Unidos no século XIX e o impulsionador do naturalismo que caracterizaria grande parte da narrativa daquele país no século seguinte. Filho de um pastor metodista, formou-se na Universidade de Siracusa, onde escreveu o rascunho de seu primeiro romance: “Maggie: A Girl of the Streets” (1893).

Posteriormente mudou-se para Nova York, onde se dedicou ao jornalismo e publicou contos. Escreveu sua obra mais conhecida, “The Red Badge of Courage” (1895), um romance ambientado na guerra de secessão, transformada em filme por John Huston (1951). Cobriu como jornalista a guerra greco-turca (1897) e, um ano depois, a guerra hispano-americana. Nessa época publicou uma de suas mais célebres coleções de contos, “The Open Boat, and Other Tales of Adventure” (1898). 

Após voltar de Cuba, viajou para a Inglaterra, onde conheceu escritores como Joseph Conrad e H. G. Wells. A saudade de seu país ficou refletida em “Whilomville Stories” (1900). Empobrecido foi internado no sanatório de Badenweiler, na Alemanha, onde morreu prematuramente de tuberculose, complicada por malária, em 1900.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Capote e outras histórias – Nikolai Gógol

"Todos nós saímos de O Capote de Gógol", disse, certa vez, Dostoiévski referindo-se a influência do autor sobre sua geração de escritores russos. De fato, Gógol, que já teve resenhada aqui a obra Tarás Bulba, é fascinante.  Presente de meu amigo Cacho (que também alimentou minha bagagem literária com Bulba), li estes dias “O Capote e outras histórias”, coletânea da editora34 (organizada e traduzida diretamente do russo por Paulo Bezerra), reunindo, além do conto homônimo ao título, “Diário de um louco”, “O nariz”, “Noite de Natal” e “Viy”.

Diferentemente de Tarás Bulba, onde Gógol narra, com um toque épico, as aventuras e desventuras de um coronel cossaco nos idos do século 18, os cinco contos de “O Capote e outras histórias” navegam pelo fantástico.

Em “O Capote”, Akáki Akákievith, um funcionário de terceiro escalão das burocráticas repartições públicas kzaristas do século XIX se vê às voltas com a necessidade premente de adquirir um novo capote para protegê-lo do frio. Figura ridícula aos olhos dos colegas, triste aos olhos do leitor, Akáki passa por poucas e boas para adquirir seu novo casaco, vive breves momentos de glória com ele, acaba roubado, morre e ressurge como um fantasma a perseguir os bem aventurados proprietários de capotes luxuosos. Excelente conto.

Em “Diário de um louco”, novamente Gógol nos coloca frente a frente com um humilde burocrata que, apaixonado pela filha do chefe, enlouquece gradualmente diante dos olhos do leitor enquanto escreve em um diário suas reminiscências. Novamente, brilhante.

“O nariz” é uma história fantástica que tem início quando o barbeiro Ivan Yakóvlievitch encontra um nariz dentro de um pastel... O que já poderia ser um fato inusitado, vai as raias da fantasia quando o conto começa a narrar a saga do vaidoso assessor de colegiado (um entre a miríade de cargos da burocracia russa) Kovaliov em busca de seu nariz. Incrível a imaginação de Gógol e as peripécias por ele criadas. Tão fantástica é a histórias, que assim o autor a finaliza: “Digam o que quiserem, mas histórias semelhantes acontecem pelo mundo; raramente mas acontecem”.

Em “Noite de Natal”, Gógol continua na mesma linha fantástica narrando a história do ferreiro de uma pequena aldeia e sua paixão por uma linda e coquete jovem apaixonada pela própria beleza. Simples, se não fossem os toques surrealistas envolvendo bruxas, acontecimentos bizarros e o próprio diabo. O conto é repleto de momentos baseados na mitologia e crendice ucraniana.

Finalmente, em “Viy”, Gógol nos leva a uma surpreendente viagem pelo misticismo. “Viy é uma criação colossal da imaginação popular. É o nome que os ucranianos dão ao rei dos gnomos, cujas pálpebras chegam ao chão. Toda essa história é lenda popular. Por não querer submetê-la a qualquer modificação, narro-a quase com a mesma simplicidade com que a ouvi contar.”, diz o autor. O conto – um prato cheio para uma adaptação ao cinema – relata a apavorante história de um seminarista que se vê diante de uma missão épica contra o além.

O autor

Nikolai Vassílievitch Gógol nasce em 1809, na província de Poltava, atual Ucrânia. Em 1829 muda-se para São Petersburgo e logo publica Serões numa granja perto de Dikanka, reunião de contos inspirados no folclore de sua terra natal. Em 1835 publica mais duas coletâneas: Arabescos e Mírgorod, nesta última incluída a novela Tarás Bulba. No ano seguinte estreia O inspetor geral, sua peça teatral de maior sucesso. Em 1842, após viajar pela Europa, publica a primeira parte do romance Almas mortas. Nesse mesmo ano publica a novela O capote, que exerceria enorme influência sobre diversos escritores russos. Após um período de graves crises existenciais, destrói o manuscrito da segunda parte de Almas mortas, adoece gravemente e, sofrendo constantes delírios, falece em março de 1852.