Semana On

domingo, 31 de outubro de 2010

sábado, 30 de outubro de 2010

Poesia aos sábados

não guardes
as coisas ébrias
que, lúcidas,
espartilham-
me

são sombras
da belle èpoque
vozes outras
confundem-
te

Hercília Fernandes , esta semana, no Poema Dia.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"Meridiano de sangue" - Cormac McCarthy

“Viajava por regiões remotas demais para chegarem notícias e naqueles tempos incertos os homens ainda brindavam a ascensão de governantes já depostos e festejavam a coroação de reis mortos e sepultados.” Pág 299

“A liberdade das aves é um insulto para mim.” Pág 194

“A lei moral é uma invenção da humanidade com o propósito de desautorizar o forte diante do fraco.” Pág 241

A crítica tem comparado o apavorante – e belo – romance de Cormac McCarthy, “Meridiano de Sangue”, aos melhores trabalhos de Dante, Poe, de Sade, Melville, Faulkner, Flannery O´Connor e Willian Styron. Para Harold Bloom, trata-se de uma das grandes obras literárias do século 20, talvez a maior entre os escritores norte-americanos vivos. Os críticos falam sobre a magnificência da linguagem utilizada por McCarthy, a representação crua de um importante momento da história norte-americana, e sua visão sombria sobre a inevitabilidade do sofrimento e da violência. Cormac McCarthy vive do cadáver da civilização, já disseram.

De fato, um dos principais temas do autor é a violência, a natureza guerreira do homem. O próprio Bloom disse ter sido profundamente atingido por esta característica tão marcante do livro. Caryn James argumentou que a trama sanguinolenta era "um tapa na cara" dos leitores modernos. Terrence Morgan analisou o livro por outro ponto de vista. Para ele, a violência de “Meridiano de sangue”, inicialmente chocante, perde força gradativamente até deixar o leitor entediado (ou anestesiado?). De fato, a violência na obra de McCarthy não surge como fórmula pronta para iniciar ou dar fim a uma trama. Ela está lá tão somente, e se basta em si mesma, como um retrato da brutalidade humana, escondida sob os códigos de civilidade que nos mantém no cabresto.

Bloom descreve bem a força da obra em seu livro “Como e Por Que Ler”:

“A merecida notoriedade de ‘Moby Dick’ e ‘Enquanto Agonizo’ é levada adiante por ‘Meridiano de Sangue’, pois Cormac McCarthy é discípulo de Melville e Faulkner. Eu diria que nenhum romancista norte-americano vivo, nem mesmo Pynchon, oferece-nos um livro tão marcante e memorável quanto ‘Meridiano de Sangue’, por mais que eu goste de ‘Submundo’, de Don DeLillo, ‘Zuckerman Bound’, ‘Teatro de Sabbath’ e ‘Pastoral Americana’, de Philip Roth, e de ‘O Arco-Íris do Desejo’ (publicado no Brasil, como ‘Arco-Íris da Gravidade’) e ‘Mason & Dixon’, de Pynchon. Nem mesmo o próprio McCarthy, na recente Trilogia da Fronteira, que inicia com o esplêndido ‘Todos os Belos Cavalos’, consegue igualar ‘Meridiano de Sangue’, ponto culminante do Western, e que jamais será superado.”

Para escrever a obra, McCarthy realizou uma pesquisa considerável. Muitas passagens se baseiam em evidências históricas. Os relatos sobre a quadrilha Glanton - um grupo de caçadores de escalpos que massacrou índios e mexicanos na fronteira entre Estados Unidos e México no período entre1849 e 1850, por exemplo, baseiam-se nas passagens de Samuel Chamberlain em seu livro de memórias intitulado “My Confession: The Recollections of a Rogue”.

Três epígrafes abrem o livro, uma citando o escritor francês Paul Valéry, outra o cristão místico alemão Jacob Boehme e uma notícia do jornal Yuma Sun, de 1982, relatando a afirmação de uma equipe de arqueólogos segundo quem um crânio etíope de 300 mil anos apresentava sinais de ter sido escalpelado.

A narrativa que se segue analisa a trajetória de um anti-herói adolescente, “o garoto", e suas brutais experiências como membro da gangue Glanton. O papel do antagonista é gradualmente preenchido pelo juiz Holden, ou simplesmente “o juiz”, um homem extremamente grande, imberbe, inteligente e cruel. É nestes dois personagens assombrosos e fascinantes que a trama se apóia.

“O juiz olhou-o através das grades, sacudiu a cabeça. O que une os homens, ele disse, não é a partilha do pão mas a partilha de inimigos.” Pág. 294

O garoto é o expectador privilegiado de um mundo em formação, do avanço inexorável do homem branco sobre um oeste a ser conquistado, seu domínio impiedoso sobre os “negros”, sejam eles índios ou mexicanos. O garoto é como uma folha levada pela correnteza de um rio, exposto a toda a turbulência que a vida pode ofertar em um mundo brutal, selvagem e, ao mesmo tempo, belo. O juiz, por sua vez, é um filósofo, um pensador, arqueólogo, explorador e, ao mesmo tempo, um psicopata sádico e violento que percebe a mundo sob as lentes da fatalidade, da conquista e da violência como fundamento da natureza humana.

Ainda em “Como e Por Que Ler”, Bloom diz que o juiz é “a figura mais assustadora de toda a literatura norte-americana”. Os diálogos propostos pelo autor, em especial os protagonizados pelo juiz, são fascinantes. Diz Bloom: “As três glórias do livro são o juiz, a paisagem e (é terrível ter de dizer isso) os massacres, esteticamente distanciados por McCarthy, por meios diversos e complexos. (...) Quando chego ao final do romance, creio que o juiz seja mesmo imortal”.

“Não faz diferença o que o homem pensa da guerra, disse o juiz. A guerra continua firme. Dá no mesmo perguntar aos homens o que eles acham da pedra. A guerra sempre esteve aqui. Antes que o homem existisse, a guerra esperava por ele. É a profissão definitiva à espera do profissional definitivo. É assim que foi e será. Dessa maneira e de nenhuma outra.” Págs 239 e 240

Assim como seus livros “A estrada” e “Onde os velhos não têm vez” (ambos já resenhados aqui no blog), “Meridiano de Sangue” também será adaptado para a telona. A adaptação e a direção são de Todd Field e a produção de Scott Rudin. O lançamento está previsto para o ano que vem, nos Estados Unidos.

Trecho

"Uma legião de horríveis, centenas em número, seminus ou em trajes clássicos ou bíblicos ou tirados de um armário num delírio, com peles de animais e atavios de seda e peças de uniforme ainda manchadas com o sangue dos antigos donos, capotes de dragões chacinados, túnicas de cavalaria com alamares e debruadas, um de cartola e um com um guarda-chuva e um de meias brancas e com um véu de noiva manchado de sangue e alguns com cocares de penas de garça ou capacetes de couro cru com chifres de touro ou de búfalo e com uma casaca vestida ao contrário e com o rosto nu e um com uma armadura de um conquistador espanhol, o peito e as espáduas completamente amassados por antigos golpes de massa ou sabre desferidos em outro país por homens cujos ossos eram pó e muitos com tranças entremeadas com cabelos de outros animais enquanto rastejavam pelo chão e as orelhas e rabos de seus cavalos enfeitadas com pedaços de panos coloridos e um cujo cavalo tinha toda a cabeça pintada de vermelho carmesim e todos os cavaleiros com pinturas espalhafatosas e grotescas no rosto como um regimento de palhaços montados, de matar de rir, todos berrando numa língua bárbara e cavalgando como uma horda saída de um inferno ainda mais terrível do que a terra de enxofre do juízo final cristão, guinchando e uivando e envoltos em fumaça como aqueles seres fantásticos de regiões além do justo conhecimentos onde o olho vagueia e o lábio resseca e baba.

O regimento agora conseguira parar e os primeiros tiros estavam sendo desfechados e a fumaça cinzenta dos rifles rolava em meio à poeira ao mesmo tempo que os lanceiros abriam brechas em suas fileiras. O cavalo do garoto desabou embaixo dele com um suspiro longo e profundo Ele já tinha atirado com seu rifle e agora estava sentado no chão e atrapalhado com sua cartucheira. Um homem perto dele estava sentado com uma flecha pendendo do pescoço. Estava levemente curvado, como se estivesse rezando. O garoto ia puxar a ponta ensangüentada mas então viu outra flecha cravada no seu peito e o homem estava morto. Havia cavalos caídos por todo lado e homens arrastando-se e ele viu um homem sentado carregando seu rifle enquanto sangue escorria de suas orelhas e viu homens com seus revólveres abertos tentando ajustar seus cilindros mal municiados e viu homens de joelhos pendendo e abraçando suas sombras no chão e viu homens transpassados por lanças e agarrados pelos cabelos e escalpelados de pé e viu os cavalos dos guerreiros pisarem em cima dos caídos e um pônei pequeno de focinho branco com um olhar sombrio avançou para ele e tentou mordê-lo como um cachorro e foi embora. Entre os feridos alguns pareciam idiotas e inconscientes e alguns estavam pálidos atrás das máscaras de poeira e alguns tinham se borrado ou cambaleado até as lanças dos selvagens. Agora movendo-se numa fila turbulenta os cavalos impetuosos com olhos esbranquiçados e dentes afiados e cavaleiros nus com feixes de flechas presos entre os dentes e seus escudos cintilando na poeira e indo para o extremo das fileiras destroçadas entre o assobio de flautas de ossos e pendurados de lado em suas montarias com um calcanhar pendendo das correias ressecadas e seus pequenos arcos flectidos sob os pescoços esticados dos pôneis até terem cercado o regimento e cortado suas fileiras em dois e então voltando como vultos ridículos, alguns com figuras assustadoras pintadas no peito, cavalgando entre os saxões a pé e espetando-os e batendo neles de cima de suas montarias com facas e galopando ao redor sobre o solo com um trote cambaio peculiar como criaturas impelidas por estranhas formas de locomoção e arrancando as roupas dos mortos e pegando-os pelos cabelos e passando suas lâminas pelo crânio tanto dos vivos como dos mortos e erguendo no ar os escalpos ensangüentados e cortando e retalhando corpos nus, arrancando membros, cabeças, abrindo os torsos dos brancos estranhos e exibindo punhados de vísceras, órgãos genitais, alguns dos selvagens tão empapados com sangue que deviam ter rolado nele como cães e alguns atiravam-se sobre os agonizantes e os sodomizavam gritando alto para seus companheiros. E agora os cavalos dos mortos surgiram pisoteando da fumaça e da poeira e com os arreios balançando e crinas desgrenhadas e olhos embranquecidos pelo medo como os olhos dos cegos e alguns estavam cheios de flechas e alguns atravessados por lanças e tropeçando e vomitando sangue enquanto andavam pela terra assassina e trotavam de novo fora do alcance da vista. Poeira grudava-se nas cabeças molhadas e nuas dos escalpelados que com a orla de cabelos abaixo das feridas e tonsurados até o osso agora jaziam como macacos mutilados na poeira assentada pelo sangue e por todo lado os agonizantes gemiam e diziam coisas desconexas e cavalos estavam caídos guinchando." Págs. 57 e 58

domingo, 24 de outubro de 2010

sábado, 23 de outubro de 2010

Poesia aos sábados

não existe poema juvenil que não namore a extinção
fazem hora extra para não virar prosa
pintam aquarelas em preto e branco
os sombreados mais ladinos escapam

como possível adjutório
abrem a última das cartas marítimas
esta traz a regularidade dos ciclones
o domicílio dos monstros
e as fobias dos quinze anos

como transformar minhas mãos sozinhas
sem bolsos
nas mãos de Paracelso?
em quantas partes se divide a alegria?

poemas da puberdade vestem xadrez
e sai do tabuleiro
uma longa fila de bispos esquecidos
como se seduzidos se perdessem
línguas seladas como se cartas fossem
como se mortos estivessem

e o silêncio dos bispos me ensina
com quantas partes
se faz uma verdadeira alegria

Audemir Leuzinger, estes dias, no Poema Dia

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

"Onde os velhos não têm vez" - Cormac McCarthy

Dizem que os olhos são a janela da alma. Não sei para onde aquelas janelas davam e acho que preferia nem saber.” Pág. 7

Desesperança é o sentimento que me dominou ao finalizar ontem o romance “Onde os velhos não têm vez”, do escritor norte-americano Cormac McCarthy. Por detrás da trama, dos diálogos maravilhosos, dos personagens vivos, o que ficou gravado em minha mente foi a ácida crítica aos tempos modernos, a exposição da flagrante incompatibilidade entre as últimas três gerações no que se refere ao sentido da vida, aos códigos éticos e a postura diante do mundo. “Onde os velhos não têm vez” é um livro de desesperanças, um desfile da brutalidade humana, da desvalorização da vida e da estupefação que elas nos causam.

“... e eu fico sempre voltando a eles (os velhos). Eles olham para mim e há sempre uma pergunta. Anos atrás eu não me lembro que fosse assim. Não me lembro que fosse assim quando eu era xerife lá pelos anos cinquenta. Você os vê e eles não parecem nem mesmo confusos. Parecem simplesmente loucos. Isso me incomoda. É como se eles acordassem e não soubessem como chegaram onde estão. Bem, num certo sentido não sabem.” Pág 248

A trama se passa na fronteirta entre o Texas e o México, nos anos 80, e tem início quando Llwelyn Moss, um veterano do Vietnã, se depara em pleno deserto – onde caçava antílopes – com camionetes abandonadas, adornadas por corpos crivados de balas, um carregamento de heroína e mais de dois milhões de dólares. Moss decide ficar com o dinheiro e passa a ser perseguido por traficantes mexicanos e por Anton Chigurh, um assassino profissional, psicopata, frio e metódico. A história é costurada pelos comentários e pensamentos de um terceiro personagem chave, o xerife Bell, que segue o rastro de sangue deixado na busca pelo dinheiro e pela droga enquanto tenta entender o grau de violência a que está exposto e do qual precisa proteger sua comunidade.

Os diálogos secos, hipnotizantes, duros, são deliciosos para quem quer boa literatura. Geralmente o autor desdenha de longas frases pontuadas. Suas construções são curtas, têm poucas vírgulas e vêm acompanhadas pelo bíblico “e” que serve como sólida argamassa para a construção do texto.

Não é a tôa que MacCarthy tem sido apontado por alguns como o maior escritor americano da atualidade. Na verdade, há uma forte polêmica a respeito da literatura de McCarthy. Há quem ressalte a violência impressa em seus romances (“Onde os velhos não têm vez” começa com um xerife sendo estrangulado por um prisioneiro) e quem os considere excessivamente masculinos.

O que não é possível é ficar indiferente a personagens como Chigurh, com sua lealdade implacável à morte, uma espécie de demônio que se apropriou da onisciência divina, como no trecho em que conversa com Carla Jean, mulher de Moss: "Quando cheguei na sua vida a sua vida tinha acabado. Teve um começo, um meio e um fim. Este é o fim." (Pág. 212).

O autor

Cormac McCarthy nasceu em Rhode Island em 20 de julho de 1933. Na juventude serviu à Força Aérea dos Estados Unidos durante quatro anos e estudou Artes na Universidade do Tennessee. É vencedor do National Book Award, do National Book Critics Circle Award e do Pulitzer 2007.

Em 40 anos de carreira literária, produziu nove romances, entre eles “Todos os Belos Cavalos”, “A Travessia” e “Cidade das Planícies”, que o autor batizou de Trilogia da Fronteira, “Meridiano de sangue” e “A Estrada”. “Onde os Velhos Não Têm Vez”, lançado nos Estados Unidos em 2005, foi adaptado para o cinema pelos irmãos Coen, em 2007. Receberam o Oscar de melhor filme, em 2008.

Trecho

“Onde os Velhos Não Têm Vez” possui diálogos singulares. No trecho abaixo – um dos mais fabulosos que li recentemente - Chigurh conversa com o dono de uma lojinha de conveniência num posto de beira de estrada. A tensão proposta, a incerteza com o porvir são quase palpáveis e dão uma mostra saborosa do que pode ser encontrado no romance.

Tem tido chuva lá no lugar de onde você vem? O proprietário disse.

E qual seria esse lugar?

Vi que você é de Dallas.

Chigurh pegou o troco sobre o balcão. E por acaso é da sua conta o lugar de onde eu venho, meu amigo?

Eu não quis dizer nada com isso.

Você não quis dizer nada com isso.

Só estava passando o tempo.

Acho que isso passa por um substituto das boas maneiras na sua visão pobre e sulista das coisas.

Bem meu senhor, eu pedi desculpas. Se o senhor não quer aceitar as minhas desculpas não sei o que mais posso fazer.

Quanto custa isto aqui?

Perdão?

Eu perguntei quanto custa isto aqui.

Sessenta e nove centavos.

Chigurh estendeu um dólar sobre o balcão. O homem abriu a caixa registradora e empilhou o troco diante dele do modo como um carteador de cassino coloca as fichas. Chigurh não tinha tirado os olhos dele. O homem desviou o olhar. Tossiu. Chigurh abriu o pacote plástico de castanhas-de-caju com os dentes e despejou um terço do pacote na palma da mão e começou a comer.

Mais alguma coisa? o homem disse.

Não sei. Será?

Tem algo errado?

Com o quê?

Com alguma coisa.

É isso o que você está me perguntando? Se tem algo errado com alguma coisa?

O homem se virou e colocou o punho fechado sobre a boca e tossiu outra vez. Olhou para Chigurh e ele desviou o olhar. Olhou pela janela para a frente da loja. As bombas de gasolina e o carro parado lá. Chigurh comeu mais um punhadinho de castanhas-de-caju.

Mais alguma coisa?

Você já me perguntou isso.

Bem é que eu preciso fechar.

Fechar.

Sim senhor.

A que horas você fecha?

Agora. Fechamos agora.

Agora não é um horário. A que horas você fecha?

Normalmente ao escurecer. Quando escurece.

Chigurh ficou ali mastigando devagar. Você não sabe o que está dizendo, não é mesmo?

Perdão?

Eu disse você não sabe o que está dizendo não é mesmo.

Estou dizendo que é hora de fechar. Isso é o que eu estou dizendo.

A que horas você vai para a cama.

Perdão?

Você é meio surdo, não? Eu disse a que horas você vai para a cama.

Bem. Eu diria que por volta das nove e meia. Mais ou menos por volta das nove e meia.

Chigurh despejou mais castanhas na palma da mão.

Eu poderia voltar a essa hora, ele disse.

Nós vamos estar fechados.

É verdade.

Bem por que então o senhor ia voltar? Vamos estar fechados.

Você já disse isso.

Bem vamos mesmo.

Você mora naquela casa atrás da loja?

Moro sim.

Morou ali a vida toda?

O proprietário levou um tempo para responder. Essa era a casa do pai da minha mulher, ele disse. Originalmente.

Você se casou só para poder ficar com a casa.

Nós moramos em Temple Texas durante vários anos. Criamos uma família ali. Em Temple. Viemos para cá há uns quatro anos.

Você se casou só para poder ficar com a casa.

Se é o que o senhor acha.

Não é assim que eu acho. É assim que é.

Bem agora eu preciso fechar.

Chigurh despejou o restante das castanhas na palma da mão e amassou o pacote de plástico e colocou em cima do balcão. Estava de pé de forma estranhamente ereta, mastigando.

O senhor parece ter uma porção de perguntas, o proprietário disse. Para alguém que não quer dizer de onde veio.

Qual foi o máximo que você já perdeu jogando cara ou coroa?

Perdão?

Eu disse qual foi o máximo que você já perdeu jogando cara ou coroa.

Cara ou coroa?

Cara ou coroa.

Não sei. As pessoas normalmente não fazem apostas com cara ou coroa. Habitualmente é mais só para resolver alguma coisa.

Qual a maior coisa que você já viu ser resolvida?

Não sei.

Chigurh pegou uma moeda de vinte e cinco centavos no bolso e jogou-a para cima fazendo com que ela rodopiasse em meio ao brilho azulado das luzes fluorescentes lá no alto.Apanhou-a e prendeu-a de encontro à parte de trás de seu antebraço logo acima da atadura ensangüentada.

Escolha, ele disse.

Escolher?

Sim.

Por quê?

Só escolha.

Bem eu preciso saber o que é que nós estamos decidindo aqui.

Isso iria mudar alguma coisa?

O homem olhou para os olhos de Chigurh pela primeira vez. Azuis como lápis-lazúli. Ao mesmo tempo brilhantes e totalmente opacos. Como pedras molhadas. Você precisa escolher, Chigurh disse. Não posso escolher por você. Não seria justo. Não seria nem mesmo correto. Só escolha.

Eu não apostei nada.

Apostou sim. Está apostando a vida inteira. Você apenas não sabia. Sabe qual a data que está na moeda?

Não.

É 1958. Ela viajou durante vinte e dois anos para chegar aqui. E agora está aqui. E eu estou aqui. E estou com a mão sobre ela. E vai ser cara ou coroa. E você tem que dizer. Escolha.

Não sei o que posso ganhar.

À luz azulada o rosto do homem estava coberto por uma camada fina de suor. Ele lambeu o lábio superior.

Você pode ganhar tudo, Chigurh disse. Tudo.

Isso não está fazendo sentido, senhor.

Escolha.

Cara então.

Chigurh destampou a moeda. Virou o braço ligeiramente para que o homem visse. Muito bem, ele disse.

Pegou a moeda do pulso e entregou-a.

O que é que eu faço com isso?

Pegue. É a sua moeda de sorte.

Não preciso dela.

Precisa sim. Pegue.

O homem pegou a moeda. Tenho que fechar agora, ele disse.

Não coloque no bolso.

Perdão?

Não coloque no bolso.

Onde o senhor quer que eu coloque?

Não coloque no bolso. Você não vai saber qual é.

Está bem.

Tudo pode ser um instrumento, Chigurh disse. Pequenas coisas. Coisas que você nem mesmo notaria. Passam de mão em mão. As pessoas não prestam atenção. E então um dia faz-se o acerto de contas. E depois disso nada mais é igual. Bem, você diz. É só uma moeda. Por exemplo. Nada de especial nisso. Do que ela poderia ser um instrumento? Você entende o problema. Separar o ato da coisa. Como se as partes de um certo momento na história pudessem ser trocadas com partes de outro momento. Como seria possível? Bem, é só uma moeda. Sim. É verdade. É mesmo?

Chigurh fechou a mão em concha e puxou o troco de cima do balcão para a palma da mão e colocou o troco no bolso e se virou e saiu pela porta. O proprietário observou-o ir. Observou-o entrar no carro. O carro começou a funcionar e saiu do pátio de cascalho para a estrada na direção sul. Os faróis não foram acesos. Ele colocou a moeda sobre o balcão e olhou para ela. Colocou as duas mãos sobre o balcão e ficou de pé ali inclinado com a cabeça baixa.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

"Travessuras da menina má" - Mario Vargas Llosa

Doçura e sordidez. Talvez estas duas palavras definam bem o livro “Travessuras da Menina Má”, do escritor peruano Mario Vargas Llosa, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2010. Trata-se do mais recente romance publicado pelo autor (2006), uma obra de ficção com traços autobiográficos focada em uma rocambolesca história de amor, paixão, mentiras e traições que tem como pano de fundo algumas das grandes transformações sociais e políticas ocorridas na Europa e na América Latina entre os anos 50 e 80.

A história gira em torno da paixão muito pouco convencional que nutre Ricardo Somocurcio - um peruano cuja grande ambição é viver em Paris – pela Menina Má, que ele conheceu na infância, no Peru, e que reencontrou em diversas oportunidades mundo afora, como na Paris revolucionária dos anos 60, na Londres lisérgica e hippie dos anos 70, na Tóquio dos prazeres permitidos dos anos 80 e na Madri em transição política dos anos 90.

Menina Má é uma personagem maravilhosa. Camaleoa, mulher de mil faces, misteriosa, filha da pobreza latino-americana, herdeira da ambição desmedida e do pragmatismo mais sincero que se possa imaginar, ela surge primeiro como Lily, uma adolescente de Miraflores, bairro aristocrático de Lima, no início dos anos 50. Depois Arlete, a guerrilheira do Sendero Luminoso, no início dos anos 60, em passagem por Paris, rumo a Cuba. Anos depois torna a assombrar a vida de Ricardo como Mma Arnoux, mulher de um diplomata francês, em plena cidade luz. O tempo passa e a “peruanita” ressurge como Lady Richardson, esposa amorosa de um bilionário inglês, na Londres dos anos 70 para, então, incorporar Kurico, escrava sexual de um mafioso-voyuer em Tókio. Por último sua verdadeira identidade, Otila, o cerne de sua procura infindável pela felicidade/segurança/riqueza.

“Travessuras da menina má”, além de uma história de amor incondicional é também uma aquarela delicada sobre as transformações sociais e convulsões político-econômicas da Europa e da América Latina nas últimas décadas. Não é político em seu cerne, como muitas obras de Llosa, mas pincela o pano de fundo com a questão, seja sob o prisma apolítico e impessoal de Ricardo, pelo fervor revolucionário do amigo Rául ou pelas análises ácidas da política peruana emitidas pelo tio, em Lima.

De fato, Ricardo e Otila, os protagonistas, não são os proprietários únicos da narrativa. O autor constrói um panorama riquíssimo a volta das personagens coadjuvantes que acompanham com ritmo próprio a sinfonia de amor e ódio que se eleva dos encontros e desencontros do improvável casal. Llosa dá vida própria a estas personagens de uma forma muito convincente, talvez por conterem muito da sua vivência particular.

O próprio autor confirmou o peso autobiográfico do romance em entrevista à Folha de São Paulo. “Sim, é um livro sobre as cidades e as épocas em que nelas vivi. Uso a memória, mas também o sentimento de nostalgia que carrego com relação a isso. Já a história de amor entre Somocurcio e a Menina Má é totalmente inventada. Ainda que, para escrever sobre uma relação, sempre usemos algo de nossa experiência.

Nobel

Vargas Llosa foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2010. Ele é autor de best-sellers como "Pantaleão e as Visitadoras", "A Festa do Bode" e "A Casa Verde", e foi o vencedor do Prêmio Cervantes, o mais importante da literatura em língua espanhola, em 1994. É o primeiro escritor latino-americano a ganhar o Nobel de Literatura desde o mexicano Octavio Paz, em 1990. Sua obra já foi traduzida em mais de 20 línguas.

Llosa recebeu o prêmio "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual".

"Não pensava que sequer estava entre os candidatos. Pensava que era uma brincadeira. Tenho vontade de ir caminhar porque estou meio perplexo. Acredito que é um reconhecimento à literatura latino-americana e à literatura em língua espanhola, e isto sim deve alegrar a todos", disse após receber a notícia.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O ser humano

"O ser humano": curtíssima do campo-grandense Danilo Custódio, que está em Curitiba insistindo no seu sonho de fazer cinema.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"Uma vida" - Guy de Maupassant

Minha primeira experiência literária com Guy de Maupassant foi por meio do conto “O Horla”. Mestre da literatura fantástica, o autor traz na obra (editada em 1887) o germe que infectaria outros mestres do gênero como Lovecraft. No entanto, tive a oportunidade de ler esta semana uma obra totalmente diferente do fantástico proposto pelo escritor francês e através do qual foi mundialmente reconhecido. Trata-se de “Uma vida”, um pequeno romance sobre uma jovem normanda chamada Jeanne, seus sonhos de felicidade, suas desilusões e o entendimento, tardio, de que a vida é muito mais do que nossas projeções de realização pessoal.

É interessante citar que esta variedade de temas é um dos aspectos mais marcantes da obra de Maupassant. Na multiplicidade literária proposta pelo autor, há textos que passeiam pelo cômico ao dramático, do pitoresco ao trágico. Muitos registram o cotidiano, como ocorre em “Uma vida”, onde o autor mergulha na vida rural normanda, abordando a vida de uma família da baixa nobreza, sua avareza, inocência e seu relacionamento com os camponeses.

O fato é que poucos escritores conseguiram abordar com tanta naturalidade a existência humana na sociedade francesa em seus mais complexos matizes, retratando burgueses, operários, prostitutas, boêmios, intelectuais, membros do clero e funcionários com verdade e profundidade.

O enredo de “Uma vida” é simplista sob uma primeira análise: depois de muito tempo vivendo em um convento, a jovem Jeanne retorna ao lar. Durante algum tempo se vê feliz ao lado dos pais e conhece o visconde Julien de Lamare por quem se apaixona. Logo depois do casamento, Julien manifesta sua verdadeira personalidade baseada na indiferença, na avareza e na infidelidade. O jovem trai Jeanne com sua irmã de leite e criada, Rosalie, que, no final da trama, é quem cuida da protagonista guiando-a pelos revezes que a vida lhe propôs. Apesar da simplicidade de folhetim, a história de Jeanne é repleta de situações psicológicas baseadas em relatos da sociedade provinciana francesa do século 19, a relação entre a nobreza, a burguesia, os camponeses e o clero.

“Uma vida” não foge ao estilo adotado por Maupassant de oferecer ao leitor um desfecho inesperado, impactante. Já disseram a seu respeito tratar-se de um escritor “profundo na aparente superficialidade porque reconhece o vazio da vida de suas personagens, que buscam o prazer, mas que encontram apenas a destruição fatal”. Uma excelente definição para o sentimento que permanece após a leitura de “Uma vida”.

O autor

Um dos maiores contistas de todos os tempos, Guy de Maupassant teve uma infância e uma juventude aparentemente felizes no campo francês, em companhia da mãe, uma mulher culta, depressiva, que fora abandonada por um marido infiel. Na década de 1870, dirigiu-se a Paris, onde se notabilizou como contista e travou relações com os grandes escritores realistas e naturalistas da época: Zola, Flaubert e o russo Turgueniev.

Entre 1875 e 1885, produziu a maior parte de seus romances e contos. Escreveu pelo menos 300 histórias curtas, entre as quais obtiveram reconhecimento mundial “Bola de sebo”, “O colar”, “Uma aventura parisiense”, “Mademoiselle Fifi” e “Miss Harriett”, entre outras. De forma muito rápida, conquistou o coração do público francês e o de outros países. Talvez tenha sido, nos últimos anos do século XIX, o escritor mais lido no mundo.

A riqueza e a fama bateram à sua porta, e ele teve uma profusão de casos amorosos. No entanto, a partir de 1884 a sífilis manifestou-se em seu organismo, ocasionando-lhe uma doença nervosa que evoluiu para alucinações. Algumas dessas sensações estranhas e opressivas foram registradas em contos tão célebres quanto assustadores, como “O Horla” e “É ele”. Em 1882, após terríveis sofrimentos, tentou o suicídio. Hospitalizado, morreu no ano seguinte, em estado de semi-demência, com apenas 43 anos de idade.