Semana On

terça-feira, 30 de março de 2010

...

How does it feel?
How does it feel?
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone

segunda-feira, 29 de março de 2010

Poesia

Todos que ali viviam estão mortos
Mortos como os olhos do menino na esquina
Como a palavra não dita
O canto calado

Todos estão mortos em vidas ausentes
Como a menina sem voz, sem chama
Como pássaro sem céu
Engaiolado

Vagam aprisionados em corpos
Como se gente fossem
Mas não são

domingo, 28 de março de 2010

sábado, 27 de março de 2010

Poesia aos sábados

Desci ao porão
pra rever
monstros antigos
- mas fui em vão.

Descobri
que se tornaram
meus amigos
- logo, somem na escuridão.

De companhia,
restaram-me
vinhos
- a uns poucos degraus do chão.

Embriaguei-me
de apatia
aos golinhos
- subsolo da solidão.

Renata de Aragão Lopes, esta semana, no Poema Dia.

domingo, 21 de março de 2010

sábado, 20 de março de 2010

Poesia aos sábados

amores platônicos
quereres utópicos
tumores malígnos
viroses atípicas

testes tsunamis tremores
:
a Terra dando o troco
na base do olho por olho
- e humor negro mode on -

estamos em transe
entre o tatibitati
o terror atômico
o pandemônio

satélites sondam
a rotina das formigas
e há agentes no amálgama
da [podre] boca da noite

- daí a fuga
para não sei onde-

tocs vem
tiques vão
truques variam
conforme o chip
enxertado no chope do dia

poesia é choque
prosa é chilique

o mundo fica mudo
quando a mente
não dá tilti

veja
[mais próximo da lente que aumenta
o pé da letra]
:
há um psicotrópico ultravioleta
no menu de ofertas

rimas brancas
rosas negras
riso tatuado de cor pimenta

para a[r] dor de cabeça
líricas demãos
do velho verniz
que adoça ideias suicidas

psiu, ouça
:
todos os cachorros
são azuis

e plutão, coração
não é mais planeta

- disse uma voz -

Valéria Tarelho, esta semana, no Poema Dia

domingo, 14 de março de 2010

sábado, 13 de março de 2010

Poesia aos sábados

calminórias cintilantes

sem razão
meu coração fala
minha alma
permanece surda.

sem palavras
no breve azul do agora
escrever um poema, sem nome
um poema, senhora.

sem sombras
com toda calma que há
palavras pousam, suavemente
nas costas do papel em branco.

Cleber Camargo Rodrigues, esta semana, no Poema Dia.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Poema

Vazios de palavras
Meus lábios são garras
Que me aprisionam em mim

Secos de sentidos
Meus olhos são silos
Que me anoitecem a alma

Glauco

Sexta-feira triste. O assassinato do cartunista Glauco e de seu filho, ontem, em Osasco (SP), é o tipo de notícia que me faz manter a decisão de nunca mais voltar a viver em um grande centro. Horror, horror, horror... Para além das perdas humanas, que destroçam os familiares que ficam, resta também a perda para todos nós que nas últimas duas décadas apreciamos a arte inteligente de Glauco.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Olho de cão

Ando cansado do ser humano. Tão cansado que raramente me emociono com a condição humana a ponto de desmontar minha carapaça auto-protetora que ostento em meio ao desfile de hipocrisias do dia a dia. Há, no entanto, algo que me desconcerta, me desmorona, me faz criança de novo, me eriça os pelos do corpo e faz brotar a lágrima que guardo: a nobre resignação no olhar dos animais abandonados.

Hoje, caminhando as três quadras que separam minha casa de meu trabalho, deparei-me novamente com este olhar e com o que jamais deveria ter perdido: a capacidade de me emocionar, de simplesmente parar, observar e deixar a emoção fluir.

Um pastor alemão, maltratado, as ancas traseiras ensangüentadas, mas ainda exibindo uma bela pelagem de manto negro, vinha, incerto, pela calçada. Parei para observar sua passagem. Ele veio cambaleante, me olhando como quem pedisse um afago. Ao passar por mim, apertou o passo como se temesse um chute, um grito de desprezo.

E eu fiquei ali, parado, inundado por aquele olhar, sentindo apenas um vazio, uma lágrima que assustou as pessoas que por mim cruzavam seus destinos rasos. Queria poder colher todos estes nobres olhares que vagam por nossas esquinas vazias de sentidos, recolhê-los e guardá-los com cuidado, mantê-los longe da nossa pequenez humana.

segunda-feira, 8 de março de 2010

"Memórias à beira de um estopim" - Rafael Nolli

Eu caço belas palavras com as quais lapido feios poemas.
(Pág. 50)

Li neste final de semana a poesia de Rafael Nolli, poeta de Araxá (MG), autor de versos incendiários, inconformados, sujos e, ao mesmo tempo, dono de um lirismo raro. O livro “Memórias à beira de um estopim” (Editora JAR), lançado em 2005, traz toda a sua verve, sua ácida crítica social mesclada a momentos de doçura contemplativa.

Desde as primeiras páginas, onde brinca com o leitor ao apresentar um prefácio escrito pela persona Luther Blisset, e por todas as 107 páginas do livro, Nolli nos oferece a sua prosa-poética, seus poemas repletos de referências pessoais, frases rascantes, cruas, vibrantes.

Vinte anos fardados ditaram meu fardo. O leite que mamei na teta mecânica do mundo
(Pág. 23)

A poesia de Nolli traz o germe da utopia. Em seus poemas-manifesto, olha com olhos novos velhos sonhos que aguardam germinar a mente dos homens. O poeta engajado usa sua arte como arma, suas palavras são fuzis, suas letras munição que não economiza.

Sonha (o poeta)
Em noites clareadas por relâmpagos,
Entre jogos de guerra e lutas de amor,
O sonho que seu vizinho iria sonhar se às seis horas não
O escravizasse
(Pág. 24)

A preocupação social, o inconformismo com a pasmaceira reinante, a angústia que domina os que olham a loucura de frente e a reconhecem, também estão implícitas nos seus poemas tortos, na sua prosa rasgada.

Nas prateleiras frias,
As comidas presas em cárceres metálicos,
Sacos plásticos e códigos de barra
Vão sonhando com estômagos com fome
E despensas vazias
(Pág. 79)

Nolli conversa com sua poesia, estabelece uma relação, um entendimento, uma análise que abarca até mesmo sua gênese poética. Está ali, em seus versos, a estupefação diante do criar, do surgimento da palavra poetizada.

O poema de amanhã descansa em meu peito
(Pág. 81)

O homem que fugiu de casa ontem passou pelo meu verso numa correria desatada...
(Pág. 33)

E em meio a toda volúpia revolucionária que domina a poesia do autor, há, ainda, um lirismo maravilhoso, uma sensibilidade que aflora em momentos inesperados, um olhar amoroso por entre o lixo e os cacos com que emoldura sua poesia.

A única inocência que existe está nos olhos de Joana; a única treva que persiste são as trevas dos cabelos negros de Fernanda.
(Pág. 39)

Trata-se, enfim, de um belo poeta. Não um produto pronto a ser descoberto, mas um poeta de combate, cuja obra deve ser garimpada aos poucos, nos espaços virtuais e pequenas tiragens que nos oferece a massificação da informação e da arte na atualidade.

Nolli é um poeta jovem, nasceu em 1980, meteu-se no movimento estudantil mineiro, arriscou-se como batera de bandas de rock’n’roll, organizou movimentos literários nas gerais. E entre tantas atividades rabisca seus delírios poéticos que já renderam peças de teatro (“O devorador de morangos”, 2000), romances (“Stella”, 2001), contos (“Realidade catatônica”, 2002) e ensaios (“Verdade Provisória”, 2004). “Memórias” é a segunda investida de Nolli na poesia. Anteriormente havia publicado “Vol. 4”, em 2003. Ele também participa da comunidade Poema Dia, onde brinda os leitores com sua poesia todo dia 24.

sábado, 6 de março de 2010

Poesia aos sábados

olha as tuas mãos a escrever poemas
a dizer o instante
a consumir o fogo que se expande.

olha as tuas mãos a chorar nas minhas.

olha! são searas são vinhas que tangem a beleza
e a embebedam de sinais.

Maria Gomes, esta semana, no Poema Dia.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Poema

Estou te olhando
Com a sinceridade
Da língua tocada.

Não me beijas
Sequer com os
Dedos.

Belíssimo poema de Athayde Nery, que acabo de ler no Arauto.