Sweet Home Chicago - Blues Brothers
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domingo, 28 de fevereiro de 2010
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Poesia aos sábados
E se não fosse por muito,
seria por pouco.
Sem voz,
falaria rouco.
Coagido,
bancaria o louco.
Por não se conter.
Pra que menos,
se poderia ser mais?
Por que não voar,
se o fazem pardais?
Se não há para sempre,
como crer no jamais?
Por não se contentar.
Renata de Aragão Lopes, esta semana, no Poema Dia.
seria por pouco.
Sem voz,
falaria rouco.
Coagido,
bancaria o louco.
Por não se conter.
Pra que menos,
se poderia ser mais?
Por que não voar,
se o fazem pardais?
Se não há para sempre,
como crer no jamais?
Por não se contentar.
Renata de Aragão Lopes, esta semana, no Poema Dia.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
"O contrário da morte: cenas da vida napolitana" - Roberto Saviano
“Pronunciar a palavra amor é embaraçoso. A língua se interrompe, como cansada de um trajeto percorrido muitas vezes e que já não pretende mais refazer. Como um som que conhece muito bem. Como as cantilenas proferidas sem reparar no seu significado. Ou como as orações imersas numa sacralidade que perde qualquer conteúdo e torna-se mero ritual.Há um momento, porém, em que uma palavra pronunciada e cuspida por muitas bocas, manipulada e abusada por muitas mãos incautas, torna-se imaculada. E ninguém sabe precisamente o motivo, não se pode percorrer o inverso do caminho para entender. Acontece, e basta.
Escutando Maria sussurrar aquele verso, pareceu-me, afinal, ter entendido tudo, como se ela me tivesse transmitido o mais precioso dos ensinamentos, aquele que eu tinha ido buscar longe, no fundo de baús de palavras, nos complexos questionamentos metafísicos, e que, no entanto, estava ali, simples e claro. Jogando os dados no tabuleiro dos pensamentos e aforismos, eu havia buscado respostas que não me satisfizeram, que nada me revelaram. E, agora, toda vez que me falta o conhecimento, que me falta a definição, toda vez que não percebo o sentido último, sei bem qual é a verdade do amor. A única que o peito ainda escuta e compreende: o contrário da morte.” (Págs. 63 e 64)
Assim o jornalista e escritor napolitano Roberto Saviano encerra seu segundo livro, “O contrário da morte: cenas da vida napolitana”, lançado no rastro do retumbante sucesso de “Gomorra” (2006), obra que vendeu quase dois milhões de exemplares em todo o mundo, inspirou uma peça de teatro homônima - que ganhou o prêmio das Olimpíadas de Teatro 2008 para Melhor Novo Escritor Italiano - e um filme que ganhou o Prémio do Júri no Festival de Cannes.
O conto que dá nome ao livro foi publicado originalmente no jornal Correio de la Sierra. Posteriormente, atendendo pedidos de seus editores, Saviano escreveu outra história, “O Anel”, e compilou ambas neste livro. “O contrário da morte” foi escrito com Saviano escondido, vigiado 24 horas por guarda-costas, proibido de circular naturalmente por sua cidade natal, sob pena de ser assassinado pela Camorra, a máfia italiana em que se infiltrou e que denunciou nas páginas de seu primeiro livro.
“Não nos compete decidir quanta esmola pedir ao azar, o que nos cabe e por que nos cabe.” (Pág. 20)
“O contrário da morte” reúne dois relatos que apresentam ao leitor a dura realidade do sul da Itália, região onde os jovens, para escapar da miséria e da falta de perspectivas, são lançados ao Exército ou a Camorra. Nestes dois contos, que não ocupam mais do que 77 páginas, o jornalista descreve as conseqüências desta falta de horizontes sobre a juventude e a submissão da população à violência que domina suas vidas.
A Itália de Saviano é, em certos aspectos, muito parecida com o Brasil. É inevitável uma relação entre o submundo comandado pela máfia, seus territórios mantidos a ferro e fogo, seu domínio sobre as vidas das pessoas e a realidade das favelas brasileiras, onde grupos armados, traficantes e milícias tomam posse do território fazendo com que os cidadãos vivam sob as suas leis. Da mesma forma, é clara a relação entre a situação destes jovens italianos e os das comunidades brasileiras que enxergam nestes grupos uma saída para a total ausência de futuro.
A desvalorização da vida humana, a estratégia do terror como arma de dominação é também um paralelo a ser traçado entre a massa de italianos do sul, expostos ao domínio da Camorra e a uma economia dilacerada, e os brasileiros que inflam os bolsões de pobreza de nossas grandes cidades e alimentam as estatísticas da violência gratuita.
“Quando morre um sexagenário, quando se morre de doença, o luto se restringe aos parentes mais próximos. Quando morre um jovem, ele deve ser de todos. Como um peso a ser compartilhado ou um infortúnio do qual não se pode escapar.” (Pág. 33)
Os dois contos
No primeiro conto, que dá nome ao livro, Saviano conta a história de Maria, uma jovem de 17 anos, cujo noivo, Enzo, alistou-se voluntariamente no exército para integrar as forças italianas no Afeganistão, com a esperança de conseguir o dinheiro necessário para o casamento. Enzo morre carbonizado dentro de um tanque, após a explosão de uma mina, adiando para sempre os planos de felicidade de Maria. Com este pano de fundo, Saviano expõem a falta de opções dos jovens italianos, que, expostos a subempregos, se submetem às forças armadas como alternativa à miséria.
O segundo conto do livro, “O Anel”, torna ainda mais próximo o drama de italianos e brasileiros que vivem sob a sombra da impunidade e dos poderes paralelos. O conto tem como ponto de partida o desconforto de Saviano ao receber em sua cidade uma amiga do norte e, mais tarde, sua revolta ao deparar-se com o preconceito em relação às jovens vítimas da violência, que, diante de uma visão hipócrita e estereotipada, têm, obrigatoriamente, que ter uma parcela de culpa para terem sido alvos da barbárie engendrada pela Camorra.
"O Anel" conta a história do pedreiro Vincenzo e do marceneiro Giuseppe, de uma reunião de amigos em um domingo, em numa praça de Nápoles, e da violência da Camorra que ceifa vidas como quem despreza um dejeto qualquer. Qualquer relação com o recente assassinato do jovem Alcides do Nascimento, no Recife, não é mera coincidência.
“A mãe de Giuseppe, desde então, passa os dias na rua. Sentada numa cadeira, perto do tal bar. A qualquer um com que cruza o olhar, ela pergunta: ‘Você aí, vai chamar o Giuseppe pra mim. Ele sempre chega tarde da noite... Amanhã tem que ir trabalhar.’ Todos respondem: ‘Já estou indo', e aí apertam o passo. A mulher observa até onde a miopia lhe permite, ou até que os vultos desaparecem dobrando a esquina, e, então, lentamente, se vira, baixa a cabeça e continua a esperar.” (pág. 91)
Para quem não conhece a história de Saviano, vale uma explicação.
Roberto Saviano nasceu em Nápoles, em 22 de setembro de 1979. Formou-se em Filosofia na Universidade de Nápoles Federico II e, como jornalista, colaborou com veículos como o L'Espresso, La Repubblica e outras revistas incluindo Nuovi Argomenti, Lo Straniero, Nazione Indiana, Sud, além de ter participado de várias antologias como Best Off. Il meglio delle riviste letterarie italiane (2005) e Napoli comincia a Scampia (2005).
Em 2006 lançou Gomorra, uma denúncia contundente do crime organizado na Itália. A partir daí, começou a receber ameaças de morte, o que obrigou as autoridades italianas a fornecer-lhe proteção policial 24 horas por dia. Desde 13 de outubro de 2006 ele vive na clandestinidade e tem de mudar continuamente os seus movimentos por razões de segurança.
A justiça italiana revelou planos contra a vida do escritor arquitetados pelo clan Casalesi, família ligada a Camorra, que teria escalado Giuseppe Setola para a missão. O ministro dos Assuntos do Interior, Giuliano Amato, designou que Saviano saísse de Nápoles e passasse a contar com um grupo de guarda-costas. No outono de 2008, Carmine Schiavone, primo do chefe do clan Casalesi, Francesco Schiavone – que se encontra preso – revelou às autoridades que o grupo planejava matar Saviano e sua escolta no Natal, nas proximidades da auto-estrada entre Roma e Nápoles, em um atentado à bomba. No mesmo período, o escritor anunciou que iria deixar a Itália para não ter que viver como um refém.
Em 20 de outubro de 2008, seis intelectuais e autores premiados com o Nobel (Orhan Pamuk, Dario Fo, Rita Levi Montalcini, Desmond Tutu, Günter Grass e Mikhail Gorbachev) publicaram um artigo no qual declararam seu apoio a Saviano em seu confronto com a Camorra, e declararam que a organização criminosa não é apenas um problema de segurança pública, mas também uma ameaça a democracia. Eles disseram, ainda, que o governo italiano deveria garantir a vida de Saviano e ajudá-lo a retomar sua vida com normalidade. Em apoio a carta, o jornal La Repubblica iniciou uma coleta de assinaturas em apoio ao autor.
Em 10 de dezembro de 2009, na presença do Prêmio Nobel Dario Fo, Saviano recebeu o título de Membro Honorário da Academy of Fine Arts of Brera e o Second Level Academic Diploma in Communication and Art Teaching Honoris Causa, o mais alto reconhecimento oferecido pela Brera Academy.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Poesia aos sábados
Abrindo a Porta
Assim...
Inesperado e certeiro.
O imponderável se derrama
sobre a noite e eu,
na improvável alegria
do amor,
me abstenho da vida,
da lida
e de tudo o que julgava vital.
Só poderia ser assim,
aviltante e febril,
ante à minha rotina vil,
que se repetia sem limite.
E o improvável palpite
de ter-se alguém
junto às manhãs,
se faz verdade.
E meu riso
outrora tão virtuoso,
se redescobre
agora viçoso,
nas auroras da alma.
E na calma de quem
enfim se permite,
transponho meu limite
e me descubro,
assim,
te amando.
A J Lobone, esta semana, no Poema Dia
Assim...
Inesperado e certeiro.
O imponderável se derrama
sobre a noite e eu,
na improvável alegria
do amor,
me abstenho da vida,
da lida
e de tudo o que julgava vital.
Só poderia ser assim,
aviltante e febril,
ante à minha rotina vil,
que se repetia sem limite.
E o improvável palpite
de ter-se alguém
junto às manhãs,
se faz verdade.
E meu riso
outrora tão virtuoso,
se redescobre
agora viçoso,
nas auroras da alma.
E na calma de quem
enfim se permite,
transponho meu limite
e me descubro,
assim,
te amando.
A J Lobone, esta semana, no Poema Dia
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Um poema
A palavra amor é um caminho
Tortuoso para línguas cansadas
É som que se conhece muito bem
Como o contrário da morte
O caminho da palavra amor
Termina nos olhos de quem escuta
É como letra cuspida por muitas bocas
Como sufocar em orgasmo
Por muitas vozes trafega a palavra amor
Transita entre dentes, alvos, opacos
E mergulha em saliva, entre o palato e a dor
Este poema foi inspirado no livro “O contrário da morte”, de Roberto Saviano
Tortuoso para línguas cansadas
É som que se conhece muito bem
Como o contrário da morte
O caminho da palavra amor
Termina nos olhos de quem escuta
É como letra cuspida por muitas bocas
Como sufocar em orgasmo
Por muitas vozes trafega a palavra amor
Transita entre dentes, alvos, opacos
E mergulha em saliva, entre o palato e a dor
Este poema foi inspirado no livro “O contrário da morte”, de Roberto Saviano
Carnaval dos velhos tempos
Se há alguns anos alguém me dissesse que em uma cidade incrustada no pantanal sul-mato-grossense, fronteiriça à Bolívia, acontece um Carnaval que mantém viva as tradições dos carnavais de antigamente – com direito aos cordões, corsos, blocos de palhaços e marinheiros, pastoras, pierrôs e colombinas - eu acharia tratar-se de uma brincadeira.Hoje, depois de dez anos vivendo em Mato Grosso do Sul, ainda me espanto ao verificar que este Carnaval dos velhos tempos acontece, de fato, a pouco mais de 400 km de Campo Grande. Todo
s os anos o estado é brindado com uma viagem no tempo, uma volta ao Rio de Janeiro das décadas de 20 a 40, uma renovação do verdadeiro Carnaval em plena Cidade Branca, Corumbá.Apesar do carioca pouco conhecer sobre Corumbá, os corumbaenses guardam muito do jeito de ser do carioca, fruto da influência da marinha e, também, dos tempos áureos, quando as ricas famílias corumbaenses enviavam seus filhos para estudar no Rio de Janeiro. Durante o Carnaval, estas semelhanças se intensificam, a ponto de mais de um cronista já ter dito que Corumbá é um grande subúrbio carioca.
Passei ne
ste ano meu terceiro Carnaval em Corumbá, um banho de vida para quem se acostumou à modorrenta programação carnavalesca campo-grandense – se é que existe Carnaval por aqui. domingo, 14 de fevereiro de 2010
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Poesia aos sábados
deita teus pés no chão dos palcos
faça arte, pinte o sete
faça parte, ria da própria sorte.
deita teus pés nas nuvens
agarre um pedaço da pele branca
encontre o suor de teus sonhos.
deita teus pés na vida
sê o impensável, o impossível
destranque a porta dos desejos.
deita teus pés no abraço dos rumos
mais que pedra sobre pedra
peito sobre peito...
(*) para os sonhos da amiga e para a amiga dos sonhos.
Cleber Camargo Rodrigues, esta semana, no Poema Dia
faça arte, pinte o sete
faça parte, ria da própria sorte.
deita teus pés nas nuvens
agarre um pedaço da pele branca
encontre o suor de teus sonhos.
deita teus pés na vida
sê o impensável, o impossível
destranque a porta dos desejos.
deita teus pés no abraço dos rumos
mais que pedra sobre pedra
peito sobre peito...
(*) para os sonhos da amiga e para a amiga dos sonhos.
Cleber Camargo Rodrigues, esta semana, no Poema Dia
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Candeia e o Partido Alto
Coisa linda, para ir entrando no ritmo do carnaval com conhecimento de causa. "Partido Alto", curta de Leon Hirszman
Resenhas para quem gosta de resenhas
Resenhas de minhas últimas leituras:
2010
- A menina que roubava livros – Markus Zusak
- O Tradutor – Daoud Hari
- Numa fria – Charles Bukowski
- Crônica de um amor louco – Charles Bukowski
2009
- O Caçador de Pipas – Khaled Hosseini
- Guerra e Paz – Leon Tolstoi
- Vidas Secas - Graciliano Ramos
- Adeus Robinson e outras peças curtas - Júlio Cortazar
- Leoa ou gazela – Flávia Perez
- As ruínas - Scott Smith
- O Chamado de Cthulhu e outros contos - H.P. Lovecraft
- 1808 - Laurentino Gomes
- Confissões de um assassino econômico - John Perkins
- O mundo sem nós - Alan Weisman
- Vigiar e Punir - Michel Foucault
- O Silmarillion - JRR Tolkien
- A grande guerra pela civilização: a conquista do Oriente Médio - Robert Fisk
- 29 Fragmentos - Alyne Costa
- Drácula - Bram Stoker
- Tarás Bulba - Nikolai Gógol
- O Caçador de Pipas – Khaled Hosseini
- Guerra e Paz – Leon Tolstoi
- Vidas Secas - Graciliano Ramos
- Adeus Robinson e outras peças curtas - Júlio Cortazar
- Leoa ou gazela – Flávia Perez
- As ruínas - Scott Smith
- O Chamado de Cthulhu e outros contos - H.P. Lovecraft
- 1808 - Laurentino Gomes
- Confissões de um assassino econômico - John Perkins
- O mundo sem nós - Alan Weisman
- Vigiar e Punir - Michel Foucault
- O Silmarillion - JRR Tolkien
- A grande guerra pela civilização: a conquista do Oriente Médio - Robert Fisk
- 29 Fragmentos - Alyne Costa
- Drácula - Bram Stoker
- Tarás Bulba - Nikolai Gógol
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
"A menina que roubava livros" - Markus Zusak
“Os seres humanos me assombram”. Assim o escritor australiano Markus Zusak finaliza seu livro “A menina que roubava livros”, colocando na boca da morte um sentimento que inunda meu pensamento. Como somos capazes de fazer o que fazemos? De momentos de sublime amor, de entrega e compaixão, a eternidades de rancor, cobiça, horror?O livro de Zusak transfere para a morte esta inquietação, este eterno questionamento sobre a condição humana, esta incompreensão do homem sobre si mesmo. “Fico impressionada com o que os seres humanos são capazes de fazer, mesmo quando há torrentes a lhes descer pelos rostos e eles avançam cambaleando, tossindo e procurando, e encontrando.”, afirma a colhedora de almas na página 466, para, mais à frente (pág. 478), confessar: “Tive vontade de lhe explicar que constantemente superestimo e subestimo a raça humana – que raras vezes simplesmente a estimo.”
A morte é a narradora de uma história comovente, a história de uma menina, Lisa Meminger, em meio ao caos moral e social da Alemanha nazista. O tema não é novo, mas o autor construiu uma narrativa bastante original ao estabelecer um diálogo entre o leitor e a morte, entre a fantasia e a realidade crua.
Um aspecto importante do livro é o estabelecimento do contraditório na sociedade alemã sob o advento do nazismo. O autor não foge à regra ao atribuir a população alemã responsabilidade sobre os rumos que o país tomou a partir de 1938, mas aponta rupturas no impenetrável granito do nacional-socialismo. Estas rupturas são apresentadas por personagens que não conseguem fazer seu instinto de sobrevivência se sobrepujar a sua humanidade.
“Não se deixe enganar, a mulher tinha coração. Um coração maior do que as pessoas suporiam. Havia muita coisa armazenada nele, em quilômetros de prateleiras altas e ocultas." (Página 463)
É o caso de Hans e Rosa Hubermann, os pais adotivos de Lisa. Hans, veterano da Primeira Grande Guerra, é o elo entre a menina que roubava livros e Max Vandenburg, judeu, filho de um companheiro de armas de Hans a quem este prometera proteger sua família em caso de necessidade. Esta promessa teve de ser cumprida quando Max, fugindo dos nazistas, encontrou abrigo no porão de Hans e Rosa.
O mesmo Hans, que arrisca a sua vida – e a da sua família – ao abrigar um judeu em seu porão, cede à humanidade ao oferecer pão a outro judeu moribundo em sua marcha para o campo de concentração de Dachau. Sua esposa, Rosa, também esconde sob uma grossa carapaça mais humanidade do que aparenta. É ela quem cuida do judeu foragido como se fosse um membro da família, como um ser humano.
Da mesma forma, há muita humanidade em Alex Steiner, pai de Rudy, amigo de Lisa. É ele quem nega a ida do filho adolescente para o exército e acaba tomando seu lugar. Há muito amor em Rudy Steiner, que desafia o racismo ao comparar-se a Jesse Owens, o velocista negro norte-americano que encantou o mundo nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.
Outra fissura no monólito nazista está em Ilsa Hermann, mulher do prefeito de Molching e dona de uma imensa biblioteca na qual Lisa exercita seu amor pelas palavras e pela leitura, o fio condutor do romance.
O fato é que os alemães não são monstros desalmados no livro de Markus Zusak. Se podem ser condenados por sua passividade bovina sob o tacão de Hitler, não são caracterizados como uma massa homogênea guiada pela loucura nazista, o que por si só faz de "A menina que roubava livros” uma leitura interessante.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Um poema
Os seres humanos me assombram
E mesmo quando há estrelas queimando meus olhos
Sinto este segredo sentado em minha boca
Mesmo quando tento escapar das garras das palavras
Sinto-o acomodado sobre minha língua
Os seres humanos me apavoram
Este poema foi inspirado em trechos do livro " A menina que roubava livros"
E mesmo quando há estrelas queimando meus olhos
Sinto este segredo sentado em minha boca
Mesmo quando tento escapar das garras das palavras
Sinto-o acomodado sobre minha língua
Os seres humanos me apavoram
Este poema foi inspirado em trechos do livro " A menina que roubava livros"
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Israel se sente sob cerco. Como uma vítima. Um viralatas
Estupendo artigo do jornalista inglês Robert Fisk, publicado no The Independent, no último dia 2, relatando o que tratei aqui quarta-feira no artigo "Israel assume uso de fósforo branco em Gaza e inicia guerrilha de informação": a estratégia israelense de negar o inegável e seu pavor de ser deslegitimada perante a comunidade internacional.
-
Israel se sente sob cerco. Como uma vítima. Um viralatas
Por Robert Fisk (tradução: Caia Fittipaldi)
E prossegue a guerra de propaganda. Esqueçam que Israel invadiu o Líbano em 1982. Esqueçam os 15 mil libaneses e palestinos mortos. Esqueçam o massacre de Sabra e Shatila no mesmo ano, por milícias aliadas de Israel, enquanto os soldados israelenses assistiam ao massacre. Apague-se para sempre da história o massacre de Qana em 1996 – 106 libaneses mortos sob fogo israelense, mais da metade dos quais, crianças. Apaguem-se, claro, também, os 1.500 mortos por Israel na guerra do Líbano em 2006. E, sim, esqueçam, claro, os mais de 1.300 palestinos massacrados por Israel em Gaza, ano passado (e os 13 israelenses mortos pelo Hamás), como resposta aos foguetes que Hamás lançava contra Sderot. Israel – para quem acreditar no que a elite do setor de segurança da direita de Israel anda dizendo aqui em Herzliya – está sob ataque, o mais perigoso, ataque de violência jamais vista.
A Grã-Bretanha – e essa foi contada por ninguém menos que o embaixador de Israel em Londres! – é “um campo de batalha” no qual os inimigos de Israel tentam “des-legitimar” o Estado judeu aos 62 anos de existência.
Até o conhecido amigo de Israel, e grande juiz judeu, Richard Goldstone, já está reduzido, nas palavras de um dos mais destacados judeu-americanos apoiadores de Israel, Al Dershowitz, à condição de “traidor absoluto do povo judeu” e “homem mau, do mal” (frases que, claro, já foram manchetes nos jornais israelenses de ontem).
Israel sitiada. Esse o tema assustador, velho, incansavelmente repetido e irremediavelmente jamais compreendido da 10ª conferência anual de diplomatas, funcionários, militares cobertos de medalhas e galões e membros do governo israelense, ontem, em Herzliya.
Israel a excluída. Israel a vítima. Israel, a do exército mais perfeitíssimo, exemplo de moralidade a ser copiado por todos os exércitos do mundo... estaria sob sítio, porque há risco de seus generais serem acusados de prática de crimes de guerra, se puserem o pé na Europa.
Deus impeça que oficiais israelenses jamais sejam acusados por aquelas atrocidades! O Jerusalem Post publicou ontem foto da líder do partido Kadima, Tzipi Livni, olhando para um pôster polonês em que é mostrada como “procurada por crimes de guerra em Gaza”. Esqueçam que Livni nada fez, quando os israelenses fizeram chover bombas de fósforo sobre Gaza; e era ministra. Tudo, só, uma mesma campanha de perseguição a Israel, de uso deliberado de leis internacionais para des-legitimar o Estado de Israel – como sempre que Israel foi condenada. Assim seria, se fosse! Mas não é. A atual crise de identidade é, sim, uma tragédia para Israel – mas não pelas razões que o atual governo d e extrema direita tanto se esforça para disseminar para a opinião pública.
Lembro perfeitamente, depois da desastrada invasão israelense contra o Líbano, em 1982, que se organizou enorme conferência em Londres, para descobrir por que a “propaganda” israelense fracassara. O massacre de libaneses e o número crescente de baixas no exército de Israel? Esqueçam! O que interessava era entender o grande mistério: como podia ter acontecido de a propaganda israelense ter fracassado? Como podia ter acontecido de a imprensa antissemita ter conseguido publicar calúnias contra Israel? Foi conferência idêntica à que está reunida essa semana em Herzliya.
Hoje, se trata de fazer esquecer a Operação Chumbo Derretido contra Gaza e a selvageria e os muitos mortos. É necessário condenar o Relatório Goldstone e aquelas inadmissíveis mentiras – de que o exército dos bons israelenses teria cometido crimes de guerra contra terroristas do mal – e todos têm de convencer-se de que Israel só deseja a paz.
A verdade é mais simples. De fato, Israel cometeu uma série de terríveis erros diplomáticos. Não falo da humilhação imposta ao embaixador turco por Danny Ayalon, do ministério dos Negócios Exteriores – o qual também estava presente à conferência em Herzliya. Não falo tampouco do patético protesto apresentado por Ron Prossor, embaixador de Israel em Londres, segundo o qual haveria “uma cacofonia de vozes vindas de Israel”, em vez de uma única voz.
Nada disso. O mais grave erro que Israel cometeu em anos recentes foi ter-se recusado a contribuir para as investigações propostas no Relatório Goldstone sobre o massacre de Gaza em 2008-09. “Boicote tolo”, como o chamou o diário Haaretz. Completo desastre, na avaliação da esquerda liberal israelense, que percebeu, acertadamente, que o boicote às investigações pôs Israel no mesmo nível do Hamás.
Passei horas assistindo à conferência em Herzliya – que terminará amanhã à noite, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fazendo-se de líder de torcida organizada –, e o Relatório Goldstone e o medo da “des-legitimação” percorria praticamente todas as discussões, como fio de costura.
Ontem, sentei-me ao lado de um estudante israelense de pós-graduação e vi-o balançar a cabeça, em desespero. “Eu e meus amigos estamos terrivelmente frustrados, ao ouvir nosso governo dizer o que dizem aí. O que podemos dizer? O que podemos fazer?” Foi comentário muito lúcido. Foi exatamente o que milhões de britânicos sentimos quando Tony Blair nos arrastou para a guerra, sob uma catarata de mentiras, em 2003.
Um dos momentos mais constrangedores em Herzliya aconteceu quando Lorna Fitzsimons, ex-deputada do partido Labour e hoje presidente do Bicom, think-tank britânico pró-Israel, disse que “a opinião pública não tem qualquer influência na política externa britânica. Política externa é tema para as elites.” A implicação? Negocie com a elite, e tudo dará sempre certo. “Nossos inimigos estão buscando cortes internacionais nas quais não temos voz”, disse ela.
Em certo sentido, aí está dito tudo. O que Israel busca é legitimidade internacional. E como Estado, Israel é legítima. Israel foi criada pela ONU. E, como disse Avi Shlaim, historiador israelense, a criação de Israel pode não ter sido justa – mas é legítima. Pois é. Só que, quando uma equipe de juízes internacionais convidou Israel a participar das investigações, Netanyahu pomposamente rejeitou o convite.
Nesse sentido, a guerra de Gaza expôs o que há de mais profundamente inconsistente e contraditório no atual corpo político que governa Israel. Desejam que o mundo reconheça a democracia israelense – por mais cheia de falhas que seja –, mas não dão ouvidos ao mundo quando o mundo pede contas a Israel sobre o que fez em Gaza. Israel quer ser um farol para as nações do mundo, mas impede que o mundo examine de perto o tal farol, que analise o combustível que mantém acesa a luz e que conheça de perto o mundo que o tal farol ilumina.
Goldstone, Goldstone, Goldstone. O nome do eminente juiz e jurista que tão valentemente buscou justiça para as vítimas assassinadas e violadas pelos sérvios na guerra da Bósnia – e cuja coragem, daquela vez, tanto inspirou o mundo, inclusive Israel – esteve na boca de todos os apologistas do atual governo de Israel, na conferência de Herzliya.
Tzipi Livni falou sobre ele. Yossi Gal, diretor geral do ministério de Negócios Exteriores de Israel, também falou. Referiu-se à “tentativa de usar o Relatório Goldstone para empurrar Israel até a margem da legitimidade”. Malcolm Hoenlein, da Conferência de Presidentes das Organizações Judeu-norte-americanas” também falou. Observou que o governo dos EUA havia sido “extraordinariamente sensível” – quer dizer: ignorou completamente – o Relatório Goldstone. E até o embaixador dos EUA em Israel, James Cunningham, cara-de-rato, sugeriu que o Relatório Goldstone poderia estar sendo usado como tentativa para des-legitimar Israel.
Que loucurada é essa? Depois do massacre em 1982 dos palestinos em Sabra e Shatila, o governo de Israel nomeou uma comissão governamental de inquérito. O relatório da Comissão Kahan não foi perfeito – mas que outra nação do Oriente Médio examinaria tão corajosamente os próprios pecados? O relatório denunciava diretamente a “responsabilidade pessoal” do ministro da Defesa, Ariel Sharon – que autorizou o ataque pelas milícias libanesas. Esse relatório não purgou todas as culpas de Israel, mas provou que aquela Israel era Estado respeitável, Estado, então, preparado para enfrentar aqueles crimes com seriedade, sem fugir das investigações.
Desgraçadamente para Israel, não há comissões Kahan para julgar a Israel de hoje. Nenhum tribunal para julgar Gaza. Apenas um tapinha na mão de uns poucos oficiais que usaram bombas de fósforo e acusação formal contra um soldado que roubou cartões de crédito.
Estive com o juiz Goldstone depois de ele ter sido designado para presidir o tribunal para crimes de guerra na ex-Yugoslávia em Haia. Homem palpavelmente decente, honesto; disse que o mundo acabou por cansar-se de admitir que governos pratiquem impunemente crimes de guerra. Falava, é claro, sobre Milosevic. Escreveu um livro sobre isso, que Israel elogiou calorosamente. Pois hoje o juiz Goldstone é o terremoto que ameaça a legitimidade de Israel.
Encontrei ontem à tarde em Telavive o coronel da reserva israelense Shaul Arieli, homem excepcionalmente sensível, no escritório de sua ONG, e discutimos a situação atual, em que militares e políticos israelenses estão ameaçados de serem presos, acusados de prática de crimes de guerra, no instante em que pisem em território britânico e em alguns outros países europeus.
“Essa questão nos preocupa muito mais hoje, do que há alguns anos” – disse-me ele. “Temos medo dessa tendência, depois da Operação Chumbo Derretido. Compromete a imagem de Israel em todo o mundo; não diz respeito exclusivamente aos militares e políticos. Se forem formalmente acusados em Israel, será como Israel declarar que não pode proteger seus soldados. O Relatório Goldstone afeta campos profundos.”
Tudo isso sugere que o verdadeiro terremoto que sacode Israel, o que realmente ameaça sua imagem, posição e legitimidade, o verdadeiro perigo, hoje, é uma nação chamada Israel.
-
Israel se sente sob cerco. Como uma vítima. Um viralatas
Por Robert Fisk (tradução: Caia Fittipaldi)
E prossegue a guerra de propaganda. Esqueçam que Israel invadiu o Líbano em 1982. Esqueçam os 15 mil libaneses e palestinos mortos. Esqueçam o massacre de Sabra e Shatila no mesmo ano, por milícias aliadas de Israel, enquanto os soldados israelenses assistiam ao massacre. Apague-se para sempre da história o massacre de Qana em 1996 – 106 libaneses mortos sob fogo israelense, mais da metade dos quais, crianças. Apaguem-se, claro, também, os 1.500 mortos por Israel na guerra do Líbano em 2006. E, sim, esqueçam, claro, os mais de 1.300 palestinos massacrados por Israel em Gaza, ano passado (e os 13 israelenses mortos pelo Hamás), como resposta aos foguetes que Hamás lançava contra Sderot. Israel – para quem acreditar no que a elite do setor de segurança da direita de Israel anda dizendo aqui em Herzliya – está sob ataque, o mais perigoso, ataque de violência jamais vista.
A Grã-Bretanha – e essa foi contada por ninguém menos que o embaixador de Israel em Londres! – é “um campo de batalha” no qual os inimigos de Israel tentam “des-legitimar” o Estado judeu aos 62 anos de existência.
Até o conhecido amigo de Israel, e grande juiz judeu, Richard Goldstone, já está reduzido, nas palavras de um dos mais destacados judeu-americanos apoiadores de Israel, Al Dershowitz, à condição de “traidor absoluto do povo judeu” e “homem mau, do mal” (frases que, claro, já foram manchetes nos jornais israelenses de ontem).
Israel sitiada. Esse o tema assustador, velho, incansavelmente repetido e irremediavelmente jamais compreendido da 10ª conferência anual de diplomatas, funcionários, militares cobertos de medalhas e galões e membros do governo israelense, ontem, em Herzliya.
Israel a excluída. Israel a vítima. Israel, a do exército mais perfeitíssimo, exemplo de moralidade a ser copiado por todos os exércitos do mundo... estaria sob sítio, porque há risco de seus generais serem acusados de prática de crimes de guerra, se puserem o pé na Europa.
Deus impeça que oficiais israelenses jamais sejam acusados por aquelas atrocidades! O Jerusalem Post publicou ontem foto da líder do partido Kadima, Tzipi Livni, olhando para um pôster polonês em que é mostrada como “procurada por crimes de guerra em Gaza”. Esqueçam que Livni nada fez, quando os israelenses fizeram chover bombas de fósforo sobre Gaza; e era ministra. Tudo, só, uma mesma campanha de perseguição a Israel, de uso deliberado de leis internacionais para des-legitimar o Estado de Israel – como sempre que Israel foi condenada. Assim seria, se fosse! Mas não é. A atual crise de identidade é, sim, uma tragédia para Israel – mas não pelas razões que o atual governo d e extrema direita tanto se esforça para disseminar para a opinião pública.
Lembro perfeitamente, depois da desastrada invasão israelense contra o Líbano, em 1982, que se organizou enorme conferência em Londres, para descobrir por que a “propaganda” israelense fracassara. O massacre de libaneses e o número crescente de baixas no exército de Israel? Esqueçam! O que interessava era entender o grande mistério: como podia ter acontecido de a propaganda israelense ter fracassado? Como podia ter acontecido de a imprensa antissemita ter conseguido publicar calúnias contra Israel? Foi conferência idêntica à que está reunida essa semana em Herzliya.
Hoje, se trata de fazer esquecer a Operação Chumbo Derretido contra Gaza e a selvageria e os muitos mortos. É necessário condenar o Relatório Goldstone e aquelas inadmissíveis mentiras – de que o exército dos bons israelenses teria cometido crimes de guerra contra terroristas do mal – e todos têm de convencer-se de que Israel só deseja a paz.
A verdade é mais simples. De fato, Israel cometeu uma série de terríveis erros diplomáticos. Não falo da humilhação imposta ao embaixador turco por Danny Ayalon, do ministério dos Negócios Exteriores – o qual também estava presente à conferência em Herzliya. Não falo tampouco do patético protesto apresentado por Ron Prossor, embaixador de Israel em Londres, segundo o qual haveria “uma cacofonia de vozes vindas de Israel”, em vez de uma única voz.
Nada disso. O mais grave erro que Israel cometeu em anos recentes foi ter-se recusado a contribuir para as investigações propostas no Relatório Goldstone sobre o massacre de Gaza em 2008-09. “Boicote tolo”, como o chamou o diário Haaretz. Completo desastre, na avaliação da esquerda liberal israelense, que percebeu, acertadamente, que o boicote às investigações pôs Israel no mesmo nível do Hamás.
Passei horas assistindo à conferência em Herzliya – que terminará amanhã à noite, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fazendo-se de líder de torcida organizada –, e o Relatório Goldstone e o medo da “des-legitimação” percorria praticamente todas as discussões, como fio de costura.
Ontem, sentei-me ao lado de um estudante israelense de pós-graduação e vi-o balançar a cabeça, em desespero. “Eu e meus amigos estamos terrivelmente frustrados, ao ouvir nosso governo dizer o que dizem aí. O que podemos dizer? O que podemos fazer?” Foi comentário muito lúcido. Foi exatamente o que milhões de britânicos sentimos quando Tony Blair nos arrastou para a guerra, sob uma catarata de mentiras, em 2003.
Um dos momentos mais constrangedores em Herzliya aconteceu quando Lorna Fitzsimons, ex-deputada do partido Labour e hoje presidente do Bicom, think-tank britânico pró-Israel, disse que “a opinião pública não tem qualquer influência na política externa britânica. Política externa é tema para as elites.” A implicação? Negocie com a elite, e tudo dará sempre certo. “Nossos inimigos estão buscando cortes internacionais nas quais não temos voz”, disse ela.
Em certo sentido, aí está dito tudo. O que Israel busca é legitimidade internacional. E como Estado, Israel é legítima. Israel foi criada pela ONU. E, como disse Avi Shlaim, historiador israelense, a criação de Israel pode não ter sido justa – mas é legítima. Pois é. Só que, quando uma equipe de juízes internacionais convidou Israel a participar das investigações, Netanyahu pomposamente rejeitou o convite.
Nesse sentido, a guerra de Gaza expôs o que há de mais profundamente inconsistente e contraditório no atual corpo político que governa Israel. Desejam que o mundo reconheça a democracia israelense – por mais cheia de falhas que seja –, mas não dão ouvidos ao mundo quando o mundo pede contas a Israel sobre o que fez em Gaza. Israel quer ser um farol para as nações do mundo, mas impede que o mundo examine de perto o tal farol, que analise o combustível que mantém acesa a luz e que conheça de perto o mundo que o tal farol ilumina.
Goldstone, Goldstone, Goldstone. O nome do eminente juiz e jurista que tão valentemente buscou justiça para as vítimas assassinadas e violadas pelos sérvios na guerra da Bósnia – e cuja coragem, daquela vez, tanto inspirou o mundo, inclusive Israel – esteve na boca de todos os apologistas do atual governo de Israel, na conferência de Herzliya.
Tzipi Livni falou sobre ele. Yossi Gal, diretor geral do ministério de Negócios Exteriores de Israel, também falou. Referiu-se à “tentativa de usar o Relatório Goldstone para empurrar Israel até a margem da legitimidade”. Malcolm Hoenlein, da Conferência de Presidentes das Organizações Judeu-norte-americanas” também falou. Observou que o governo dos EUA havia sido “extraordinariamente sensível” – quer dizer: ignorou completamente – o Relatório Goldstone. E até o embaixador dos EUA em Israel, James Cunningham, cara-de-rato, sugeriu que o Relatório Goldstone poderia estar sendo usado como tentativa para des-legitimar Israel.
Que loucurada é essa? Depois do massacre em 1982 dos palestinos em Sabra e Shatila, o governo de Israel nomeou uma comissão governamental de inquérito. O relatório da Comissão Kahan não foi perfeito – mas que outra nação do Oriente Médio examinaria tão corajosamente os próprios pecados? O relatório denunciava diretamente a “responsabilidade pessoal” do ministro da Defesa, Ariel Sharon – que autorizou o ataque pelas milícias libanesas. Esse relatório não purgou todas as culpas de Israel, mas provou que aquela Israel era Estado respeitável, Estado, então, preparado para enfrentar aqueles crimes com seriedade, sem fugir das investigações.
Desgraçadamente para Israel, não há comissões Kahan para julgar a Israel de hoje. Nenhum tribunal para julgar Gaza. Apenas um tapinha na mão de uns poucos oficiais que usaram bombas de fósforo e acusação formal contra um soldado que roubou cartões de crédito.
Estive com o juiz Goldstone depois de ele ter sido designado para presidir o tribunal para crimes de guerra na ex-Yugoslávia em Haia. Homem palpavelmente decente, honesto; disse que o mundo acabou por cansar-se de admitir que governos pratiquem impunemente crimes de guerra. Falava, é claro, sobre Milosevic. Escreveu um livro sobre isso, que Israel elogiou calorosamente. Pois hoje o juiz Goldstone é o terremoto que ameaça a legitimidade de Israel.
Encontrei ontem à tarde em Telavive o coronel da reserva israelense Shaul Arieli, homem excepcionalmente sensível, no escritório de sua ONG, e discutimos a situação atual, em que militares e políticos israelenses estão ameaçados de serem presos, acusados de prática de crimes de guerra, no instante em que pisem em território britânico e em alguns outros países europeus.
“Essa questão nos preocupa muito mais hoje, do que há alguns anos” – disse-me ele. “Temos medo dessa tendência, depois da Operação Chumbo Derretido. Compromete a imagem de Israel em todo o mundo; não diz respeito exclusivamente aos militares e políticos. Se forem formalmente acusados em Israel, será como Israel declarar que não pode proteger seus soldados. O Relatório Goldstone afeta campos profundos.”
Tudo isso sugere que o verdadeiro terremoto que sacode Israel, o que realmente ameaça sua imagem, posição e legitimidade, o verdadeiro perigo, hoje, é uma nação chamada Israel.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Poesia aos sábados
AVISO
se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo,
des-frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.
Sylvia Beirute, esta semana, no Poema Dia
se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo,
des-frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.
Sylvia Beirute, esta semana, no Poema Dia
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
A laicidae e o livre arbítrio
Meu amigo Luiz Felipe (do blog O Mal Humorado) fez hoje uma interessante reflexão sobre a zona de atrito entre a necessidade de estabelecer critérios laicos para o Estado e, ao mesmo tempo, garantir as liberdades individuais que se estendam à religiosidade. O gancho foi a suspensão do visto de um muçulmano pelo governo francês, porque ele impunha a burka à esposa. Para os franceses, a imposição fere dois dos princípios da República: igualdade entre os sexos e o laicismo.
Falei sobre este tema, ano passado, no artigo “Atire a primeira pedra quem apóia a burca”, onde meu foco principal foi diversidade cultural como justificativa para a manutenção de hábitos opressivos.
No artigo "Véu islâmico, laicidade e liberdade religiosa", Paulo Gustavo Guedes Fontes - mestre em direito público pela Universidade de Toulouse (França) e procurador da República em Sergipe – esmiúça esta questão (indico a leitura).
Fontes defende a laicidade do Estado, mas, também a liberdade religiosa, condenando ações que possam restringi-la. Referindo-se as recentes decisões do governo francês de coibir o uso da burca no país, ele aponta a necessidade de critérios em decisões do gênero.
"Contudo, tais medidas podem, sim, ferir gravemente a liberdade de crença e de religião. É compreensível que se proíba o uso de signos religiosos pelos representantes do Estado, como juízes, policiais ou mesmo professores de escolas públicas. Mas que tal proibição atinja o próprio cidadão na sua vida privada, isso constitui uma deturpação do princípio da laicidade.
Não se pode entender a laicidade do Estado sem referência à liberdade religiosa. É a outra face da moeda. Por que razão o Estado deve ser laico? Porque, representando todos os cidadãos, não poderia abraçar uma opção religiosa sem alienar dessa representação os cidadãos de outra crença ou mesmo os que não professem religião alguma. Assim, a liberdade de religião, aliada a uma nova concepção do Estado e da igualdade, está na origem da laicidade.
De qualquer forma, é aos agentes e funcionários do Estado que o princípio da laicidade se dirige, vedando que expressem, no exercício da função pública, suas preferências religiosas. Os edifícios públicos, da mesma maneira, deveriam manifestar essa neutralidade diante da religião.
A laicidade é exigida sempre do Estado, nunca do cidadão, do particular, para o qual vale a liberdade de professar qualquer crença ou religião. A menina que vai à escola francesa não representa o Estado. É para que os cidadãos possam usar crucifixos, véus ou quaisquer signos religiosos que o Estado se laicizou, que se tornou neutro diante da opção religiosa."
Falando especificamente do uso da burca por estudantes francesas de fé islâmica, Fontes aponta os limites do Estado: "Vedar à jovem o uso do véu islâmico, mesmo na escola pública, é violentar sua liberdade religiosa, mormente pela importância que essa questão tem para as mulheres muçulmanas. Vedar o seu uso no território de um país é medida que remete às guerras de religião. O que tem sido professado na França é uma deturpação da laicidade, o laicismo, versão militante daquela. Ele perde de vista a liberdade religiosa e quer impor à população uma forma de secularização."
Acho que estas ponderações são fortes e têm fundamento. Além disso, é preciso estabelecer critérios baseados no livre arbítrio. Se uma jovem opta por usar a burca em sua casa ou em espaços públicos ela deve ser respeitada. Da mesma forma, deve ser respeitada a opção de uma jovem católica que opte por passar a vida enclausurada em um hábito. O que não se pode admitir, penso eu, é que estes padrões sejam impostos às pessoas por grupos religiosos.
Falei sobre este tema, ano passado, no artigo “Atire a primeira pedra quem apóia a burca”, onde meu foco principal foi diversidade cultural como justificativa para a manutenção de hábitos opressivos.
No artigo "Véu islâmico, laicidade e liberdade religiosa", Paulo Gustavo Guedes Fontes - mestre em direito público pela Universidade de Toulouse (França) e procurador da República em Sergipe – esmiúça esta questão (indico a leitura).
Fontes defende a laicidade do Estado, mas, também a liberdade religiosa, condenando ações que possam restringi-la. Referindo-se as recentes decisões do governo francês de coibir o uso da burca no país, ele aponta a necessidade de critérios em decisões do gênero.
"Contudo, tais medidas podem, sim, ferir gravemente a liberdade de crença e de religião. É compreensível que se proíba o uso de signos religiosos pelos representantes do Estado, como juízes, policiais ou mesmo professores de escolas públicas. Mas que tal proibição atinja o próprio cidadão na sua vida privada, isso constitui uma deturpação do princípio da laicidade.
Não se pode entender a laicidade do Estado sem referência à liberdade religiosa. É a outra face da moeda. Por que razão o Estado deve ser laico? Porque, representando todos os cidadãos, não poderia abraçar uma opção religiosa sem alienar dessa representação os cidadãos de outra crença ou mesmo os que não professem religião alguma. Assim, a liberdade de religião, aliada a uma nova concepção do Estado e da igualdade, está na origem da laicidade.
De qualquer forma, é aos agentes e funcionários do Estado que o princípio da laicidade se dirige, vedando que expressem, no exercício da função pública, suas preferências religiosas. Os edifícios públicos, da mesma maneira, deveriam manifestar essa neutralidade diante da religião.
A laicidade é exigida sempre do Estado, nunca do cidadão, do particular, para o qual vale a liberdade de professar qualquer crença ou religião. A menina que vai à escola francesa não representa o Estado. É para que os cidadãos possam usar crucifixos, véus ou quaisquer signos religiosos que o Estado se laicizou, que se tornou neutro diante da opção religiosa."
Falando especificamente do uso da burca por estudantes francesas de fé islâmica, Fontes aponta os limites do Estado: "Vedar à jovem o uso do véu islâmico, mesmo na escola pública, é violentar sua liberdade religiosa, mormente pela importância que essa questão tem para as mulheres muçulmanas. Vedar o seu uso no território de um país é medida que remete às guerras de religião. O que tem sido professado na França é uma deturpação da laicidade, o laicismo, versão militante daquela. Ele perde de vista a liberdade religiosa e quer impor à população uma forma de secularização."
Acho que estas ponderações são fortes e têm fundamento. Além disso, é preciso estabelecer critérios baseados no livre arbítrio. Se uma jovem opta por usar a burca em sua casa ou em espaços públicos ela deve ser respeitada. Da mesma forma, deve ser respeitada a opção de uma jovem católica que opte por passar a vida enclausurada em um hábito. O que não se pode admitir, penso eu, é que estes padrões sejam impostos às pessoas por grupos religiosos.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Israel assume uso de fósforo branco em Gaza e inicia guerrilha de informação
“Ela estava brincando com seu telefone celular e então, de repente, um foguete veio por cima dela e a queimou. Um pedaço de estilhaço grudou no rosto dela e a queimou até o osso. E daqui até aqui todo seu estômago foi queimado. Não havia mais nada nela. Ela não chorou em nenhum momento, nem uma lágrima caiu dos seus olhos. Ela nem gritou. Eles a trouxeram para o hospital, mas ela morreu. Estávamos sentados em um círculo quando a bomba veio e nos atingiu. Meu avô foi partido ao meio. A bomba de fósforo começou a cair sobre a casa. Um pedaço acertou minha irmã e a matou. Meu primo estava sentado na porta. Uma bomba o atingiu nos olhos e o queimou também.”
O relato acima é de Ayman al Najar, 13 anos. Ele perdeu a irmã, o avô e um primo em um bombardeio com fósforo branco no dia 14 de janeiro de 2009, em Khoza'a, sudoeste de Gaza.
O relato acima é de Ayman al Najar, 13 anos. Ele perdeu a irmã, o avô e um primo em um bombardeio com fósforo branco no dia 14 de janeiro de 2009, em Khoza'a, sudoeste de Gaza.
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O Exército israelense submeteu dois oficiais a punição disciplinar por terem autorizado a utilização de fósforo branco no bombardeio ao bairro de Tel El Hawa, no dia 15 de janeiro de 2009, durante a ofensiva contra o Hamas na qual morreram 13 israelenses e 1400 palestinos (960 civis – boa parte crianças e adolescentes, 239 policiais e 235 militantes) e que deixou outras 6 mil pessoas feridas. Segundo o documento enviado à ONU pelo Exército israelense, um general de brigada e um comandante de divisão sofreram “punição disciplinar” por terem "arriscado vidas humanas".
Apesar de ONGs de defesa dos direitos humanos exigirem que Israel nomeie uma comissão independente para investigar os atos do Exército e não considerarem suficientes as investigações internas, esta foi a primeira vez que Israel admitiu a utilização de fósforo branco sobre alvos civis na Faixa de Gaza. Mas, não se iluda o leitor, este não é um ponto de inflexão na política de Israel para com os territórios palestinos ocupados, não é um mea culpa pelas atrocidades contra a população civil. Trata-se apenas, como aponta o jornalista Alastair Macdonald, da Reuters, de uma nova política para fazer frente ao enorme desgaste sobre a imagem do país após o Conselho de Direitos Humanos da ONU ter aprovado o Relatório Goldstone.
O documento, assinado pelo ex-promotor do tribunal internacional de crimes de guerra, o juiz sul-africano Richard Goldstone – e por 14 juristas – concluiu que, sob o pretexto de retaliar o Hamas pelo lançamento de foguetes contra o seu território, Israel fez uso desproporcional da força e violou o direito humanitário internacional. As investigações mostraram que os numerosos ataques letais contra civis ou contra alvos civis foram intencionais e que alguns tinham o propósito de disseminar o terror no seio da população civil, sem qualquer objetivo militar.
O relatório disse também que as forças israelenses cometeram graves violações à Quarta Convenção de Genebra, como homicídio intencional, tortura e tratamento desumano, “causando intencionalmente grande sofrimento ou danos graves ao corpo ou à saúde, além da destruição de bens, não justificada por necessidades militares e executada de forma ilegal e arbitrária”.
Negativas
Vale lembrar que antes do envio do documento à ONU, a versão do Exército israelense era de que o fósforo branco teria sido utilizado apenas para "dificultar a visibilidade das tropas pelo inimigo" e não diretamente contra civis.
Quando as primeiras denúncias sobre o uso do armamento atingiram o exército israelense, gente do naipe de Reinaldo Azevedo saiu em defesa de Israel com tiradas como a que segue.
“Todas, rigorosamente todas as ditas ‘atrocidades’ cometidas por Israel têm origem no, como direi?, Departamento de Propaganda do Hamas: do grande número de crianças e civis mortos ao uso de bombas de fragmentação e fósforo branco para atacar pessoas. Este segundo caso, então, pode dar pano para manga. A tal substância não é considerada arma química. É empregada para iluminar alvos noturnos e criar cortina de fumaça para ação da infantaria. Israel nega que tenha feito qualquer coisa fora das leis internacionais. ”
Reinaldo tinha razão... O fósforo branco não é considerado uma arma química e seu uso primário pretende iluminar alvos noturnos (embora haja opções melhores para isso) e criar cortinas de fumaça para a ação da infantaria (apesar deste ter sido o menor problema da infantaria israelense em Gaza). Ocorre que – e aí Azevedo perde a razão, para variar - armas de fósforo são proibidas pelo protocolo III da Convenção da ONU sobre armas convencionais. Este tipo de armamento, independente do objetivo de sua utilização, é considerado arma incendiária e não pode ser usado pelos signatários da convenção, da qual (convenientemente) Israel não é signatário.
O fósforo branco
Ao entrar em contato com a pele, o fósforo branco causa extensas, dolorosas e profundas queimaduras (de segundo e terceiro graus) que não atingem somente a pele, mas também os ossos e os órgãos internos. A substância continua a queimar (a não ser em ambiente privado de oxigênio) até que seja completamente consumida, de forma que as pessoas atingidas, ainda que mergulhem na água, continuarão a queimar ao emergirem para respirar. Uma exposição prolongada, sob qualquer forma, pode ser fatal (veja aqui algumas fotos e vídeos chocantes sobre o poder de destruição do fósforo branco sobre o corpo humana). Segundo a GlobalSecurity.org, as “queimaduras por fósforo carregam um maior risco de mortalidade do que outras formas de queimaduras devido à absorção de fósforo pelo organismo, através da área queimada, resultando em danos ao fígado, coração, rins e, em alguns casos, falência múltipla de órgãos" (veja mais aqui).
A Human Rights Watch é uma organização não-governamental, independente que se dedica há 30 anos à defesa e à proteção dos direitos humanos. Marc Garlasco é o seu analista militar sênior. Veja nesta entrevista o que ele fala sobre o fósforo branco e seu uso pelos israelenses em Gaza.
É público que a densidade populacional na Faixa de Gaza está entre as maiores do mundo. A Faixa inteira compreende não mais de 376 Km quadrados (40 Km de comprimento e cerca de 6 Km a 12 Km de largura). Em Mato Grosso do Sul há fazendas que ultrapassam em muito esta área. Nesse pedaço mínimo de terra se apinham mais de um milhão e meio de pessoas, uma população cuja taxa de crescimento é a mais alta do mundo, cerca de 4,5 % ao ano. A cada 17 ou 20 anos a população de Gaza dobra. Em 2020, por exemplo, sua densidade populacional irá alcançar algo em torno de 6.650 pessoas por quilômetro quadrado.
Foi sobre este formigueiro humano que o Exército israelense lançou bombas recheadas de fósforo branco em janeiro de 2009,
Guerra de informação
Devido a esta e outras violações é que o Relatório Goldstone recomendou que o Conselho de Direitos Humanos da ONU exigisse que o Exército israelense (e também o Hamas) investigasse suas atuações, sob a ameaça de transferir o caso ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Foi sob esta pressão que Israel anunciou a branda punição aos dois oficiais.
Na conferência "Vencendo a Batalha da Narrativa", realizada nesta semana, membros do governo israelense deixaram claro que o país pretende realizar uma ofensiva na guerra de propaganda contra os palestinos e seus apoiadores. Querem evitar que o país se transforme em uma espécie de África do Sul nos tempos do apartheid, um país pária.
Em dezembro, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já havia citado o que classificou como "efeito Goldstone" - processos em tribunais internacionais que poderiam neutralizar a superioridade militar israelense. O medo é que os governos europeus limitem seu apoio a Israel se a opinião pública nesses países se inclinar ainda mais contra as políticas do país para com os palestinos.
Entre as propostas está um significativo aumento dos gastos nas embaixadas, promover a diplomacia "de base" em redes sociais da Internet ou mesmo "relançar a marca" de Israel totalmente.
Trata-se de um equívoco, mas não de um equívoco inesperado. A estratégia segue apenas o que a política israelense para os territórios ocupados sempre preconizou: empurrar a questão com a barriga, aumentar a presença israelense na Cisjordânia, isolar os palestinos na Faixa de Gaza e manter o apoio ocidental. Em nenhum momento debateu-se o mais importante: condições que possibilitem uma paz verdadeira e duradoura. Em nenhum momento houve preocupação com os excessos cometidos pelo Exército israelense sob ordens do Governo daquele país.
Apesar dos pesares há entre os israelenses quem defenda ações propositivas ao invés de maquiagem publicitária. A solução não é uma campanha de relações públicas, mas sim a paz com os palestinos.
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Algumas fotos, publicadas em janeiro de 2009 pelo Prof. Idelber Avelar em seu blog, mostram claramente o terror da população em meio a um ataque de fósforo branco. em Gaza As fotos foram enviadas por um professor da Universidade Islâmica de Gaza, Ameen Hammad, via Prof. Ricardo Berbara, do Rio de Janeiro.
Os links abaixo levam a reportagens sobre o uso do fósforo branco em Gaza.
http://www.youtube.com/watch?v=ZbxTK1ZC-hw
http://www.youtube.com/watch?v=qfsHeXGVPVw
http://www.youtube.com/watch?v=LhylsQ_pLVg
Apesar de ONGs de defesa dos direitos humanos exigirem que Israel nomeie uma comissão independente para investigar os atos do Exército e não considerarem suficientes as investigações internas, esta foi a primeira vez que Israel admitiu a utilização de fósforo branco sobre alvos civis na Faixa de Gaza. Mas, não se iluda o leitor, este não é um ponto de inflexão na política de Israel para com os territórios palestinos ocupados, não é um mea culpa pelas atrocidades contra a população civil. Trata-se apenas, como aponta o jornalista Alastair Macdonald, da Reuters, de uma nova política para fazer frente ao enorme desgaste sobre a imagem do país após o Conselho de Direitos Humanos da ONU ter aprovado o Relatório Goldstone.
O documento, assinado pelo ex-promotor do tribunal internacional de crimes de guerra, o juiz sul-africano Richard Goldstone – e por 14 juristas – concluiu que, sob o pretexto de retaliar o Hamas pelo lançamento de foguetes contra o seu território, Israel fez uso desproporcional da força e violou o direito humanitário internacional. As investigações mostraram que os numerosos ataques letais contra civis ou contra alvos civis foram intencionais e que alguns tinham o propósito de disseminar o terror no seio da população civil, sem qualquer objetivo militar.
O relatório disse também que as forças israelenses cometeram graves violações à Quarta Convenção de Genebra, como homicídio intencional, tortura e tratamento desumano, “causando intencionalmente grande sofrimento ou danos graves ao corpo ou à saúde, além da destruição de bens, não justificada por necessidades militares e executada de forma ilegal e arbitrária”.
Negativas
Vale lembrar que antes do envio do documento à ONU, a versão do Exército israelense era de que o fósforo branco teria sido utilizado apenas para "dificultar a visibilidade das tropas pelo inimigo" e não diretamente contra civis.
Quando as primeiras denúncias sobre o uso do armamento atingiram o exército israelense, gente do naipe de Reinaldo Azevedo saiu em defesa de Israel com tiradas como a que segue.
“Todas, rigorosamente todas as ditas ‘atrocidades’ cometidas por Israel têm origem no, como direi?, Departamento de Propaganda do Hamas: do grande número de crianças e civis mortos ao uso de bombas de fragmentação e fósforo branco para atacar pessoas. Este segundo caso, então, pode dar pano para manga. A tal substância não é considerada arma química. É empregada para iluminar alvos noturnos e criar cortina de fumaça para ação da infantaria. Israel nega que tenha feito qualquer coisa fora das leis internacionais. ”
Reinaldo tinha razão... O fósforo branco não é considerado uma arma química e seu uso primário pretende iluminar alvos noturnos (embora haja opções melhores para isso) e criar cortinas de fumaça para a ação da infantaria (apesar deste ter sido o menor problema da infantaria israelense em Gaza). Ocorre que – e aí Azevedo perde a razão, para variar - armas de fósforo são proibidas pelo protocolo III da Convenção da ONU sobre armas convencionais. Este tipo de armamento, independente do objetivo de sua utilização, é considerado arma incendiária e não pode ser usado pelos signatários da convenção, da qual (convenientemente) Israel não é signatário.
O fósforo branco
Ao entrar em contato com a pele, o fósforo branco causa extensas, dolorosas e profundas queimaduras (de segundo e terceiro graus) que não atingem somente a pele, mas também os ossos e os órgãos internos. A substância continua a queimar (a não ser em ambiente privado de oxigênio) até que seja completamente consumida, de forma que as pessoas atingidas, ainda que mergulhem na água, continuarão a queimar ao emergirem para respirar. Uma exposição prolongada, sob qualquer forma, pode ser fatal (veja aqui algumas fotos e vídeos chocantes sobre o poder de destruição do fósforo branco sobre o corpo humana). Segundo a GlobalSecurity.org, as “queimaduras por fósforo carregam um maior risco de mortalidade do que outras formas de queimaduras devido à absorção de fósforo pelo organismo, através da área queimada, resultando em danos ao fígado, coração, rins e, em alguns casos, falência múltipla de órgãos" (veja mais aqui).
A Human Rights Watch é uma organização não-governamental, independente que se dedica há 30 anos à defesa e à proteção dos direitos humanos. Marc Garlasco é o seu analista militar sênior. Veja nesta entrevista o que ele fala sobre o fósforo branco e seu uso pelos israelenses em Gaza.
É público que a densidade populacional na Faixa de Gaza está entre as maiores do mundo. A Faixa inteira compreende não mais de 376 Km quadrados (40 Km de comprimento e cerca de 6 Km a 12 Km de largura). Em Mato Grosso do Sul há fazendas que ultrapassam em muito esta área. Nesse pedaço mínimo de terra se apinham mais de um milhão e meio de pessoas, uma população cuja taxa de crescimento é a mais alta do mundo, cerca de 4,5 % ao ano. A cada 17 ou 20 anos a população de Gaza dobra. Em 2020, por exemplo, sua densidade populacional irá alcançar algo em torno de 6.650 pessoas por quilômetro quadrado.
Foi sobre este formigueiro humano que o Exército israelense lançou bombas recheadas de fósforo branco em janeiro de 2009,
Guerra de informação
Devido a esta e outras violações é que o Relatório Goldstone recomendou que o Conselho de Direitos Humanos da ONU exigisse que o Exército israelense (e também o Hamas) investigasse suas atuações, sob a ameaça de transferir o caso ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Foi sob esta pressão que Israel anunciou a branda punição aos dois oficiais.
Na conferência "Vencendo a Batalha da Narrativa", realizada nesta semana, membros do governo israelense deixaram claro que o país pretende realizar uma ofensiva na guerra de propaganda contra os palestinos e seus apoiadores. Querem evitar que o país se transforme em uma espécie de África do Sul nos tempos do apartheid, um país pária.
Em dezembro, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já havia citado o que classificou como "efeito Goldstone" - processos em tribunais internacionais que poderiam neutralizar a superioridade militar israelense. O medo é que os governos europeus limitem seu apoio a Israel se a opinião pública nesses países se inclinar ainda mais contra as políticas do país para com os palestinos.
Entre as propostas está um significativo aumento dos gastos nas embaixadas, promover a diplomacia "de base" em redes sociais da Internet ou mesmo "relançar a marca" de Israel totalmente.
Trata-se de um equívoco, mas não de um equívoco inesperado. A estratégia segue apenas o que a política israelense para os territórios ocupados sempre preconizou: empurrar a questão com a barriga, aumentar a presença israelense na Cisjordânia, isolar os palestinos na Faixa de Gaza e manter o apoio ocidental. Em nenhum momento debateu-se o mais importante: condições que possibilitem uma paz verdadeira e duradoura. Em nenhum momento houve preocupação com os excessos cometidos pelo Exército israelense sob ordens do Governo daquele país.
Apesar dos pesares há entre os israelenses quem defenda ações propositivas ao invés de maquiagem publicitária. A solução não é uma campanha de relações públicas, mas sim a paz com os palestinos.
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Algumas fotos, publicadas em janeiro de 2009 pelo Prof. Idelber Avelar em seu blog, mostram claramente o terror da população em meio a um ataque de fósforo branco. em Gaza As fotos foram enviadas por um professor da Universidade Islâmica de Gaza, Ameen Hammad, via Prof. Ricardo Berbara, do Rio de Janeiro.
Os links abaixo levam a reportagens sobre o uso do fósforo branco em Gaza.
http://www.youtube.com/watch?v=ZbxTK1ZC-hw
http://www.youtube.com/watch?v=qfsHeXGVPVw
http://www.youtube.com/watch?v=LhylsQ_pLVg
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Um poema e uma música
UM POEMA
A Casa
Dos homens que a ergueram
não restam sequer testemunhas:
um pó de memória que seca a garganta.
De como retiraram o barro das distâncias
e o emularam em célula não restou a sujeira
nas roupas ou o câncer que os consumiu.
De como em fornos cozinharam os miolos
e o caldo das montanhas, nada sobrou:
talvez uma ficha em arquivo de manicômio
ou uma cratera que junte água salobra.
De como chegavam a seus lares –
felizes por ainda terem os dentes na boca –
nada se sabe. Se há quem o recorde,
não há de dizer algo que valha.
De como suportavam as horas
– tendo um copo de lágrima e
um cão para lamber as feridas das mãos
– coisa alguma se relata:
ninguém anotou nada em lugar nenhum.
Por certo, os filhos dos que a ergueram
virão derrubá-la.
Disso, todos são testemunhas.
Rafael Nolli, esta semana, no Poema Dia
UMA MÚSICA
Bem melhor que você - Bezerra da Silva
Ouça no volúme máximo!
A Casa
Dos homens que a ergueram
não restam sequer testemunhas:
um pó de memória que seca a garganta.
De como retiraram o barro das distâncias
e o emularam em célula não restou a sujeira
nas roupas ou o câncer que os consumiu.
De como em fornos cozinharam os miolos
e o caldo das montanhas, nada sobrou:
talvez uma ficha em arquivo de manicômio
ou uma cratera que junte água salobra.
De como chegavam a seus lares –
felizes por ainda terem os dentes na boca –
nada se sabe. Se há quem o recorde,
não há de dizer algo que valha.
De como suportavam as horas
– tendo um copo de lágrima e
um cão para lamber as feridas das mãos
– coisa alguma se relata:
ninguém anotou nada em lugar nenhum.
Por certo, os filhos dos que a ergueram
virão derrubá-la.
Disso, todos são testemunhas.
Rafael Nolli, esta semana, no Poema Dia
UMA MÚSICA
Bem melhor que você - Bezerra da Silva
Ouça no volúme máximo!
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