Semana On

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O perigo da história única

Semana corridíssima. Não tive tempo de cuidar do blog. Mas, deixo uma dica que serve especialmente para os colegas jornalistas, mas que também é essencial para qualquer pessoa. Trata-se do seminário "O perigo da história única", proferido pela romancista nigeriana Chimamanda Adichie. Em pouco mais de 15 minutos, ela mostra como as nossas vidas e as nossas culturas são compostas por muitas histórias sobrepostas, e adverte que se ouvirmos apenas uma história sobre determinada pessoa ou país, arriscamos dar início a um desentendimento crítico que colocará em risco nosso entendimento sobre o outro. Vale a pena.

domingo, 24 de janeiro de 2010

sábado, 23 de janeiro de 2010

Poesia aos sábados

Que o desastre venha e arranque de mim o poema súbito
Que ele se imponha à minha vontade
Seja em sangue, ruína ou tormenta
E me arranhe a pele estagnada de fartura

Que venha o horror a me despertar deste sono sublime
Que ele se erga diante de mim
Sorrindo o riso dos loucos
E me arranque desta inércia de morte

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Para onde segue a paz: Giora Becher e a hipocrisia sem fim

O jornal Correio do Estado (MS) publicou na terça-feira (19) o artigo “Para onde segue a paz”, assinado pelo embaixador de Israel no Brasil, Giora Becher. Publicado originalmente no dia 2 de janeiro, no jornal O Globo, o artigo é uma peça de ficção de péssima qualidade. O diplomata israelense afirma que “o compromisso com a paz tem sido o objetivo central de todos os governos de Israel desde a criação de nosso Estado, em 1948”, prossegue assegurando que os dirigentes do país querem uma solução de dois estados para israelenses e palestinos, ressalta a “bondade” de Israel ao desocupar a Faixa de Gaza, sua “tolerância” por afrouxar o garrote nos postos de controle e na ampliação dos assentamentos na Cisjordânia, e finaliza ressaltando a “incompetência” dos palestinos para gerir seu próprio destino.

É um bom artigo, para quem fica na superfície do tema. No entanto, para os que conseguem ver as contradições históricas nas entrelinhas, trata-se de um insulto a inteligência.

Como o tema é espinhoso, e há a tendência (estratégica) de classificar como anti-semitas os que se atrevem a criticar as políticas expansionistas de Israel baseadas na ideologia torta do sionismo, digo o óbvio: Israel é uma nação soberana e sua existência deve ser assegurada e defendida, assim como deve ser assegurado e defendido o direito dos judeus professarem sua fé.

Dito isso, faço alguns comentários sobre os equívocos e “esquecimentos” no artigo de Giora Becher.

Em primeiro lugar, dizer que Israel tem compromisso com a paz é uma simples e grotesca mentira. Desde os primórdios da ocupação judaica na região a violência e a intimidação contra as populações árabes autóctones foram a regra. Mas, para enxergar claramente as lacunas simplistas do artigo de Becher é preciso compreender as origens do conflito árabe-israelense e as suas conseqüências modernas.

O Início

Os judeus migraram para o mundo árabe quando começaram a ser perseguidos de forma sistemática em toda a Europa, no final do século 19. “Então, judeus europeus tentaram achar uma solução para o problema. Uma minoria destes ativistas era sionista, ou seja, defensores da idéia segundo a qual o único lugar seguro para um judeu seria em um Estado Judeu”, explica o professor Rashid Khalidi, da School of International and Public Affairs, da Universidade de Columbia.

Este Estado, segundo os projetos dos judeus sionistas, seria implantado na Palestina. Ocorre que, diferentemente do que eles apregoavam, que Israel seria “uma terra sem povo para um povo sem terra”, a Palestina não estava desocupada.

A sociedade judaico-israelense dominante acredita, pois assim ela foi educada, que a Palestina estava desocupada quando os colonos judeus vieram para cá”, lembra o historiador israelense Ilan Pappé, da Universidade de Exeter.

Mas, como dissemos anteriormente – e isso vale ser repetido à exaustão - a Palestina não estava desocupada. Era uma terra povoada por árabes com alto grau de cultura e educação, com fazendas e mercados, vilas e cidades, com estradas, comércio e muita interação com o resto do mundo.

Quem pagou o preço pelos colonos? É verdade que se tratava de uma terra sem povo para um povo sem terra?”, questiona Phyllis Bennis, integrante do Institute for Policy Studies e membro do U.S. Campaign to End Israeli Occupation. A resposta é óbvia: o preço foi pago pelos palestinos.

Em 1878 havia quase meio milhão de árabes muçulmanos e cristãos na Palestina - 96,8% da população local. Entre 1882-1914, seguindo o sonho sionista, 65 mil judeus europeus chegaram à região em uma movimentação populacional que cresceu depois da 1º Guerra Mundial, quando a região estava sob o domínio britânico.

Quando os britânicos implementaram a Declaração Belfort, que prometia aos judeus uma nação na Palestina - indo contra as declarações anteriores de autodeterminação para os habitantes árabes da região - ajudaram os sionistas a estabelecerem a estrutura básica do estado israelense e, ao mesmo tempo, negaram esta autodeterminação aos árabes que já residiam ali. Ou seja, os palestinos observaram, impotentes, um poder europeu decidir sobre o destino de um território não europeu, ignorando sua presença e interesses.

Com o passar dos anos, paulatinamente, judeus de toda a Europa tomaram o rumo do Oriente Médio.

Em 1922, os árabes muçulmanos e cristãos na Palestina eram 757,182 (87,6% da população) e os judeus 11%. Na década de 20 a terra começou a mudar de mãos, dando início aos primeiros conflitos entre palestinos e judeus. Entre 1920 e 1931, outros 108.825 judeus chegaram à Palestina. Em 1931, árabes cristãos e muçulmanos eram 1.035,154 (81,6% da população), contra 17% de judeus.

Com a Segunda Guerra Mundial e o advento do nazismo a migração tomou impulso. Entre 1932 e 1936, mais 174 mil judeus chegaram à região, dobrando a população judaica e, entre 1937 e 1945, outros 119.800 judeus desembarcaram na Palestina.

Na tentativa de amenizar os crimes nazistas, a intenção de fazer da Palestina um estado judeu se fortaleceu e encontrou apoiadores entre os países aliados. “Só que os palestinos não eram nazistas, nada tinham a ver com o holocausto. Mas foram eles que pagaram o preço”, afirma Phyllis Bennis.

Em 1947, o conflito entre palestinos e judeus saiu do controle e a Inglaterra – que até então dominava a região – retirou-se do cenário, passando o problema para as Nações Unidas, que, sob pressão, propôs dividir o território da Palestina em dois estados, um árabe e um judeu. Aos árabes seria dado 43% da terra, apesar de representarem 2/3 da população e possuírem 92% do território. Aos judeus seria concedido 56% do território, apesar de serem 1/3 da população e possuírem menos de 8% da terra. “Os judeus não apenas ganharam a maior parte da terra, mas a maioria das terras férteis”, lembra Rashid Khalidi.

Os líderes sionistas, através da superioridade militar, começaram então a ocupar importantes cidades árabes na Palestina, iniciando um processo de sistemática expulsão forçada dos árabes muçulmanos e cristãos que ali residiam.

Eu estava entre as pessoas que conquistou a cidade de Acre. Estávamos andando pela cidade e entramos em um apartamento onde havia um par de sapatos de uma criança pequena, de cerca de dois anos de idade. Eles não tiveram tempo de pegar os sapatos e os deixaram lá. Eles deixaram tudo”, relembra Hava Keller, ex-soldado israelense e membro da Woman's Organization for Political Prisoners.

Neste período as pessoas foram simplesmente expulsas de suas casas, iniciando um movimento sem precedentes de refugiados na região. A população árabe começou a ser repelida em um processo de limpeza étnica e confrontos que geraram massacres como o da vila Deria Yassin, onde mais de 100 homens mulheres e crianças foram assassinados pelas forças israelenses. A partir daí o pânico se instaurou e 300 mil refugiados palestinos começaram a vagar pela região antes mesmo que qualquer plano pudesse ser traçado para atenuar o drama humano inerente à divisão daquela terra milenar em dois países.

Então, em 15 de maio de 1948, estados árabes visinhos a Israel – que já não viam com bons olhos a criação de um Estado Judeu ao seu lado - intervieram enviando 68 mil soldados contra 90 mil soldados israelenses. Como conseqüência da derrota árabe que logo se consolidaria, o exército de Israel ocupou a maior parte do que seria o estado Palestino proposto pela ONU, dominando 78% da Palestina. A Cisjordânia ficou sob o controle da Jordânia e a Faixa de Gaza sob o domínio dos egípcios.

Este é o ponto de inflexão da moderna tragédia palestina. Depois do cessar fogo, 700 mil palestinos tornaram-se refugiados, vivendo em campos, isolados e sonhando em voltar para as suas casas, que agora estavam em território israelense.

Nos meses seguintes, no entanto, a maioria das vilas palestinas localizadas em Israel e nos territórios agora ocupados foi reduzida a pó e substituída por assentamentos judeus ou terras para agricultura. Das 500 vilas palestinas dentro de Israel em 1948, 400 foram destruídas, o que foi denunciado pela ONU como flagrante violação das leis internacionais. Israel passou a incorporar os territórios ocupados, expulsando seus habitantes e desrespeitando o direito internacional que rege a relação entre exércitos invasores e povos sob ocupação.

Os acontecimentos de 1948 foram definitivos para o Oriente Médio. Deste ponto em diante, a instabilidade reinou na região e levou à guerra de 1967, na qual Israel ocupou o restante da Palestina histórica, o que é conhecido hoje como Cisjordânia e Gaza. Mais 400 mil palestinos foram desalojados de suas vilas e cidades e metade dos refugiados de 1948 foi desalojada pela segunda vez em menos de 20 anos.

Para os palestinos, havia ficado claro que o mundo não iria defender sua causa. Eles viviam como cidadãos de 3º classe, em um estado que os havia excluído pela identidade, vivendo em territórios ocupados e no estrangeiro, onde continuaram como refugiados despossuídos.

A ONU emitiu diversas resoluções afirmando seus direitos, líderes árabes defenderam verbalmente sua causa, mas todos falharem em agir de forma concreta.

A pouca importância atribuída por Israel a ONU é histórica. O país não segue de forma alguma a lei internacional e é sempre bom lembrar que a ocupação sobre os territórios palestinos é ilegal. Trata-se de uma violação da 4ª Convenção de Genebra, segundo a qual a um exército de ocupação não é permitido construir assentamentos, estradas, expropriar terras, deportar pessoas, restringir sua liberdade de movimento, arrasar a economia do país ocupado ou colocar o seu povo na pobreza e no desemprego. Israel é o País que mais violou as resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Os Estados Unidos, por sua vez, usaram seu poder de veto mais de 40 vezes nas Nações Unidas para defender Israel quando este violou leis internacionais.

Revolta, pedras e tanques

Finalmente, em 1987, os palestinos reagiram em um levante chamado Intifada (a revolta das pedras), na qual grupos de palestinos – a maioria muito jovem – enfrentaram as forças israelenses a pedradas. Para conter as manifestações, o primeiro ministro de Israel, Isaac Rabin, adotou a estratégia batizada de “Quebrar Ossos”, na qual soldados israelenses quebravam braços e pernas de manifestantes palestinos presos – o que foi documentado diversas vezes por jornalistas ocidentais.

Durante a Primeira Intifada, entre dezembro de 1987 e dezembro de 1993, 1100 palestinos foram mortos – entre eles 256 crianças – assim como 114 israelenses – entre eles cinco crianças. Milhares de palestinos foram encarcerados. Desde 1967, mais de 400 mil foram presos por Israel - muitos sem acusação formal-, sofreram abusos físicos, tortura e estupros.

No final de 1993 os palestinos entraram em um processo de paz com Israel, que levou à assinatura do Tratado de Oslo, onde o líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, e o primeiro ministro israelense, Isaac Rabin, apertaram as mãos diante do presidente estadunidense Bill Clinton, no dia 13 de setembro do mesmo ano. Mas o que parecia um processo de paz era, na verdade, um engodo.

Há uma falsa idéia de que os tempos de Oslo foram tempos de paz”, explica a jornalista israelense Amira Hass. “Naquele período, enquanto supostamente estava em andamento um tratado de paz, a situação dos palestinos ficou ainda pior. Os deslocamentos entre os territórios ocupados tornaram-se ainda mais difíceis. A realidade é que esta foi uma nova forma de dominação dos israelenses sobre os palestinos”, complementa Phyllis Bennis.

Direitos econômicos e sociais são os direitos de se ter saúde, trabalho, educação, etc. Estas áreas pioraram para a maioria dos palestinos”, lembra Roger Normand, do Center for Economic and Social Rights. De acordo com Allegra Pacheco, advogada e ativista israelense pelos direitos humanos, “todos os indicadores econômicos palestinos caíram durante Oslo, durante os processos de paz”.

O professor Rashid Khalidi sustenta que os assentamentos judeus nas áreas ocupadas continuaram a se expandir mesmo durante as negociações, dobrando sua população de 200 para 400 mil pessoas.

Enquanto o controle israelense se expandia, a Autoridade Palestina caía nas armadilhas do poder. As dificuldades para transformar o território palestino, mesclado por assentamentos israelenses, em uma nação, eram imensas. Além disso, eles não tinham autoridade alguma de fato e virtualmente poder algum. Seu poder era legitimado por Israel e podia ser cancelado a qualquer momento.

O antropólogo Jeff Halper, membro do Comitê israelense contra a demolição de casas, afirma que os palestinos nas áreas ocupadas sempre estiveram totalmente alijados de meios de administrar a si mesmos: “Eles não ocupam nenhuma posição de destaque em sua própria comunidade. Não estão nos conselhos e muito menos nas administrações, seja na Cisjordânia ou em Gaza. As políticas são feitas para manter o controle israelense, é tudo muito cínico, para impedir os palestinos de crescerem e mantê-los isolados em bolsões. Assim, a maioria dos territórios ocupados está livre para a implantação de assentamentos israelenses”.

É muito conveniente acreditar que não há ocupação alguma. Quantos aspectos de sua vida são determinados por outras pessoas? Isso é ocupação. Nas últimas décadas Israel pôde determinar todos os aspectos da vida dos palestinos. E os palestinos ouviram Arafat dizer dez, 100 vezes que Ramallah estava livre, que Gaza estava livre. Como poderiam estar livres com um exército a sua volta? Os líderes palestinos falaram muito superficialmente sobre a situação, sobre a realidade e estavam escondendo os fatos da grande maioria da população e isso foi um desastre”, explica Amira Hass.

Rashid Khalidi reforça: “Estes abusos, esta violação da confiança da população estavam ocorrendo regularmente desde o início do processo de Oslo. Ao invés de terem uma verdadeira Autoridade, havia esta instituição corrompida, que cumpria tarefas determinadas por Israel, policiando os palestinos, evitando que eles continuassem resistindo à ocupação”.

Eles desperdiçaram muito dinheiro que a comunidade internacional doou para reconstruir as vilas e reverter a pobreza em que as massas palestinas viviam”, analisa o relator especial das Nações Unidas para a situação dos direitos humanos nos territórios ocupados por Israel, Richard Falk.

Enquanto a mídia contava ao mundo que um processo de paz estava em andamento, Israel continuava sua política de demolição de casas nos territórios ocupados. Desde 1967, cerca de 12 mil casas palestinas já haviam sido demolidas. Destas, 740 foram demolidas durante o processo de paz de Oslo, deixando claro que os palestinos jamais voltariam para suas terras.

Ex-embaixador dos Estados Unidos em Israel (1997/1999), Edward Walker aponta as discrepâncias de Oslo: “O que ocorria era uma demanda justa dos palestinos durante os processos de paz, enquanto os israelenses tomavam mais territórios por meio dos assentamentos, se instalando em lugares que estavam sob negociação”.

Segunda Intifada

Desesperados para por um fim na ocupação, os palestinos voltaram para a mesa de negociação em 2000, mas, novamente, os esforços pela paz não foram bem sucedidos.

Israel ofereceu 95% da Cijordânia, mas foi repelido. A suposição é que tendo 95% da terra você tem 95% da soberania. É muito fácil comparar isso com uma prisão. Se você olhar a planta de uma prisão, parece que os prisioneiros dominam o lugar. Eles têm 95% da área: as áreas de convivência, pátio de exercício, refeitório, áreas de trabalho. Tudo que as autoridades têm é 5 %. É o controle”, compara Jeff Halper.

Nós não achávamos que eles iriam jogar fora esta chance, mas eles se desligaram, pois não havia nada a jogar fora. Pois há uma constante expropriação da terra, desmatamento, construção de estradas. Junto a isso há uma injusta divisão da água, deixando muitas famílias (palestinas) com apenas duas horas de água por semana no verão. Ao lado você tem um assentamento com piscinas e estufas. O que você espera que estas pessoas pensem?”, questiona o Rabbi Arik Ascherman, do grupo israelense Rabbis for Human Rights.

Esta sensação de exclusão explodiu em setembro de 2000, na segunda Intifada. “O que chamamos de segunda Intifada é essencialmente uma mobilização de resistência contra o sistema de opressão e ocupação. Israel, no início destas demonstrações, fez uso da força. Usou munição real contra manifestantes desarmados, causou muitas mortes e centenas de baixas nos primeiros dias”, afirma Falk.

Nos primeiros 10 dias as forças de segurança israelenses mataram 74 palestinos e feriram cerca de 3000. Muitas vítimas eram crianças. “Temos muitos casos documentados e evidências de que as forças israelenses dispararam contra grupos de crianças”, aponta Sharon Burke, diretora de advocacia da Anistia Internacional.

Os israelenses também sofreram com ataques suicidas, emboscadas a colonos e muitos foram mortos. “Quando houve um horrível ataque suicida na Praça da Paz, em Jerusalém, eu fui visitar algumas das crianças feridas no hospital e foi horrível. Foi horrível ver o que havia acontecida àquelas crianças”, desabafa a Rabbi Rebecca Lillian, da organização Jewish Alliance for Justice and Peace. “Você vê sangue, vê a agonia das famílias, é isso o que o mundo vê. Mas você não pode tirar isso do contexto geral, e o contexto é o da ocupação israelense, que pode não parecer brutal, mas é, sim, muito brutal e torna a vida das pessoas impossível”, afirma a jornalista Amira Hass.

Para Jeff Halper, “é preciso mudar a noção sobre Israel”. Segundo ele, “Israel gosta de vender a idéia de que é uma nação pacifica cercada por um mar de árabes hostis e que quer apenas a paz”. Na verdade, o país é a 5ª maior potência nuclear do planeta, possui entre 200 a 300 ogivas nucleares e é a única super-potência na região.

O uso da força excessiva contra a população civil pelo exército israelense é historicamente desproporcional e por isso as vítimas do confronto são, em sua maior parte, gente comum, desarmada e inofensiva.

Em agosto de 2005 Israel desmantelou os assentamentos e postos militares em Gaza, re-alocando os colonos em outras regiões. A mídia israelense se referiu a isso como um “sacrifício sem precedentes”, mas, na verdade, foi uma simples concordância de Israel em cumprir a lei internacional. A evacuação dos colonos de Gaza atingiu apenas 2% do total da população de colonos israelenses e a cada um deles foram prometidos 270 mil dólares para se re-alocarem. Um custo total de 2 bilhões dólares, uma despesa que Israel pediu aos EUA que pagassem.

A presença de Israel em Gaza ficou pouco visível, mas os israelenses mantiveram o controle sobre toda a fronteira, o litoral e o espaço aéreo, criando uma prisão virtual na qual 1,5 milhão de pessoas tentavam viver em meio a pobreza.

Assim que Israel se retirou de Gaza iniciou um processo de confisco de terras palestinas adicionais na Cijordânia e continuou a construção de um muro de separação entre os refugiados e os assentamentos israelenses localizados nas terras palestinas. Este muro tem o dobro da altura do Muro de Berlim e é quatro vezes mais longo que este. Ele atravessa vilas, separa trabalhadores de seu trabalho, separa civis da assistência médica e da educação, separa fazendeiros de suas terras e famílias de seus amados.

Você tem este enorme muro sendo construído bem no meio da Cisjordânia, como alguém pode acreditar que haverá um estado palestino ali? É um símbolo da opressão”, afirma o Rabbi Michael Lerner, da Tikkun Community.

A intenção de negar aos palestinos uma nação fica mais clara nas palavras do Major General Ya’ir Naveh, líder das forças de ocupação de Israel na Cijordânia: “Nós não temos intenção de deixar a Judéia e Samaria (Cisjordânia). Nós permaneceremos aqui, de uma maneira ou outra, por centenas e milhares de anos”. Hoje, há aproximadamente 450 mil colonos israelenses vivendo dentro da Cisjordânia e em Jerusalém Leste.

Diante de tudo isso, em janeiro de 2006, insatisfeitos com os rumos da “democracia” concedida pelos israelenses, exasperados com a sua inviabilização enquanto nação, com a manutenção dos assentamentos e a corrupção interna da Autoridade Palestina, os palestinos votaram pela saída da OLP do governo dando ao Hamas os assentos necessários para obter a maioria do parlamento.

Os israelenses não vêem que é assim que se cria o terrorismo? Não entendem que sendo tão opressivos para com a população civil, fazem com que ela se veja sem opção?”, questiona Kathy Kamphoefner, representante da Quaker International Affairs em Jerusalém.

Terrorismo e reação

O Hamas é uma organização extremista, baseada no fundamentalismo islâmico, que não reconhece o Estado de Israel. Dificilmente tal organização encontrará apoiadores entre a democracia ocidental ou entre os que defendem os direitos humanos. No entanto, a população palestina não pode ser responsabilizada nem punida por isso, muito menos sua reação à ocupação pode ser classificada como terrorismo.

O uso de homens-bomba, seja contra alvos militares ou populações civis, tem sido uma das principais críticas feitas contra os militantes do Hamas. Para Richard Falk, o uso deste tipo de estratagema retrata um ato de desespero: “É a arma dos fracos”, resume.

Peter Boukaert, diretor de emergências da Human Rights Watch, considera que há uma clara relação entre os abusos contra os direitos humanos cometidos por Israel na Cisjordânia e em Gaza e a resposta dos militantes palestinos a estes abusos na forma de ações extremistas.

Uma reportagem que examinou os antecedentes de 87 militantes palestinos suicidas concluiu que “homens-bomba frequentemente experimentaram traumas pessoais relacionados às forças israelenses, fazendo-os voluntários na seqüência da morte ou ferimento de um membro da família”.

A violência começou com a ocupação e a oposição é a resistência a esta ocupação. Esta violência é legítima em qualquer lugar do mundo. Posso discordar de alguns atos da resistência, acho algumas táticas estúpidas, mas não posso condenar a reação em si”, justifica Peretz Kidron, do grupo israelense pela paz Yesh Gvul.

Para Rashid Khalidi, os ataques a civis israelenses “são estúpidos, imorais e improdutivos para a causa palestina”. “Eles deveriam parar”, opina. No mesmo tom, o dr. Iyad Sarraj, diretor do Programa Comunitário de Saúde Mental da Faixa de Gaza, condena o uso do terrorismo e mesmo de qualquer tipo de violência: “Nós não deveríamos usar a violência, não importa como, pois isso destrói nossas intenções e a nossa posição, que tem um alto padrão moral. Nós somos as vitimas. E o mundo pode não entender que somos as vitimas”, afirmou.

O paralelo sul-africano

Um paralelo comum entre a situação dos palestinos nos territórios ocupados por Israel é com a situação dos negros na África do Sul durante o regime do apartheid. Para Richard Falk, a situação dos palestinos é ainda pior. “Trata-se de uma comparação desagradável e incômoda, mas tendo visitado a África do Sul naquele período, devo dizer que eles (os negros) estavam bem melhor quer os palestinos que vivem hoje em campos de refugiados”, afirma.

Um discurso de Nelson Mandela na ONU também pode ser visto como reforço para esta explicação dos motivos que levaram a deflagração da violência na Palestina, em especial a reação dos palestinos contra a ocupação israelense. “Nós fomos encarcerados porque era impossível ficar sentados e esperar enquanto a obscenidade do apartheid estava sendo imposta sobre o nosso povo”, disse o líder sul-africano.

Ocupação e colonização

Para Phyllis Bennis “o conceito de ocupação é de difícil entendimento para os ocidentais”. Ela explica: “ocupação é quando um exército estrangeiro ocupa sua terra e controla todos os aspectos da sua vida”.

Os palestinos estão sob ocupação e é por isso que há tanta violência. É o que ocorre com eles há décadas. Eles não são cidadãos, não têm direitos civis, nascem, crescem e morrem sob lei marcial”, afirma Allegra Pacheco.

No mesmo tom, Richard Falk destaca o caráter opressivo dos assentamentos israelenses frente aos palestinos: “Há cerca de 190 assentamentos israelenses espalhados na Cisjordânia. São colônias estratégicas construídas por Israel, conectadas por estradas, e que separam as comunidades palestinas uma das outras impedindo sua reintegração aos proprietários originais e confirmando a intenção expansionista israelense”.

O bispo católico da diocese Washington, Allen Bartlett Jr., reforça: “Os assentamentos israelenses são áreas palestinas, as melhores terras e recursos hídricos, que são selecionadas, destruídas e substituídas por uma nova cidade para abrigar os colonos judeus.”.

Os assentamentos são construídos próximos as melhores terras e recursos hídricos. São cercados por arame farpado e seus moradores recebem equipamento militar, sendo defendidos externamente pelo próprio exército israelense. “O seu principal propósito é manter o controle israelense sobre o território ocupado”, afirma Pacheco. Para Jeff Halper, “a finalidade é fazer com que os palestinos saiam do país”, e vai além: “Sei que este é um termo duro, mas trata-se de limpeza étnica”.

O governo e os militares israelenses não estão lidando com o povo palestino como iguais. Acho que este é o principal problema. Os israelenses não consideram os palestinos seus iguais”, opina Yael Stien, do grupo israelense de direitos humanos B'Tselem. “Penso que, moralmente e praticamente, a única forma de parar toda esta violência é tratar de sua causa primária, a ocupação”, sustenta Adam Keller, membro do Gush Shalom, grupo israelense que luta pela paz na região.

Para a Rabbi Rebecca Lillian, os israelenses não percebem a desigualdade entre os colonos e os palestinos nas regiões ocupadas: “No lado israelense, nos assentamentos, há comida, luz, água, gás, lazer, coleta de lixo, tudo o que seus vizinhos palestinos não têm por causa da ocupação militar”.

Lingüista e professor do Massachusetts Institute of Technology, Noam Chomsky relata a sensação do gueto vivida pelos palestinos: “Em Hebron, por exemplo, uma cidade árabe onde há alguns judeus, os colonizadores andam com fuzis como se fossem donos da cidade. Vão às vilas palestinas, queimam suas plantações, destroem suas casas, agridem os palestinos”. Kathleen Kamphoefner, afirma que é comum mulheres palestinas serem açoitadas pelos colonos nas ruas sem motivo aparente para a agressão, se é que há motivo para se açoitar uma mulher.

O governo não tenta conter os colonos. De todos os casos em que estes mataram palestinos os acusados acabaram recebendo anistia ou penas curtas. Em muitos casos o exército simplesmente acoberta os abusos. “Muitos palestinos se sentem reféns dos colonos”, resume Yael Stein. “A finalidade é tornar as coisas tão difíceis para os palestinos que qualquer um que queira um futuro para seus filhos, que queira viver bem, que queira viver uma vida normal será obrigado a sair”, afirma Jeff Halper.

Segundo Adam Keller, há dois tipos de colonos. Os ideológicos, que pensam que todo o território foi prometido por Deus aos judeus, e que cada lugar mencionado na Bíblia pertence a eles. Estes consideram que não têm apenas o direito, mas o dever de ocupar o território e acabar pela força com qualquer um que se oponha a isso. O outro tipo, que representa a maioria dos colonos, são israelenses comuns que vem para os assentamentos simplesmente por que o governo oferece moradia barata e vantagens financeiras, tais como a suspensão do pagamento dos empréstimos governamentais adquiridos para sua instalação nas terras aos que permanecerem na região por mais de dez anos.

Estratégia de Dominação

Israel estabeleceu postos de controle por toda a Cisjordânia fazendo com que os palestinos esperem horas para percorrerem distâncias curtas. Nem mesmo a liberdade de ir e vir é garantida a eles. O acesso ao trabalho, a hospitais, escolas ou qualquer estrutura que compõem a vida civil de milhões de pessoas é cerceado diariamente, violando um direito fundamental da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O maior problema são as pessoas que precisam de cuidados médicos. Há inúmeros casos documentados de pessoas que morreram nas barreiras tentando chegar a um hospital. “Registramos muitos casos de pessoas que morreram por não conseguirem ultrapassar as barreiras. O caso mais recente foi o de uma mulher grávida que estava trabalhando e não permitiram que ela fosse ao hospital. Ela é seu bebê morreram”, revela Sharon Burke.

A ativista expõe os riscos e situações vexatórias por que passam os palestinos que simplesmente tentam se locomover entre os territórios ocupados e os assentamentos israelenses: “Você tem jovens recrutas israelenses nestas fronteiras, que ficam ali sentados, vendo as pessoas passarem e com autoridade para prender qualquer um, por qualquer razão. Podem detê-lo por horas e constrangê-lo de todas as formas. Isso atinge violentamente a população civil e não os terroristas, atinge gente que não está envolvida em qualquer ataque a civis ou ao exército de Israel”, explica Burke.

Se pessoas que realmente precisam chegar a hospitais são barradas pelo exército, imaginem o que ocorre com gente comum que quer ir trabalhar, às compras, ou simplesmente visitar amigos”, exemplifica Yael Stien. Segundo ela, é em Gaza que as humilhações perpetradas aos palestinos ultrapassam todos os níveis: “Lá os bairros foram demolidos, centenas de pessoas não têm mais casa, pois moravam próximos dos assentamentos, próximos da fronteira. Claramente é uma violação dos direitos humanos”.

A estratégia israelense de dificultar a vida das pessoas fez com que às famílias palestinas tivessem que encarar uma queda substancial na sua renda, já que a maioria dos palestinos trabalha em Israel. De acordo com estimativas do Banco Mundial, o desemprego atinge 53% da população palestina e 75% dos palestinos vivem em estado de pobreza, com menos de dois dólares por dia.

O sistema educacional também é afetado em todos os níveis. As universidades palestinas estão sempre sujeitas a serem fechadas pelos israelenses por tempo indeterminado. Durante a primeira Intifada, por exemplo, a Birzeit University ficou fechada por cinco anos.

Durante este tempo, organizamos o que o exército israelense chama de ‘células ilegais de educação’. Estávamos ensinando em apartamentos, igrejas, mesquitas, jardins, carros e mantemos esta infra-estrutura para minimizarmos os danos e darmos continuidade a universidade”, revela o dr. Albert Aghazarian, da Birzeit. “Em lugares como os Estados Unidos, as pessoas não entendem o que passamos aqui, simplesmente porque essa experiência está além de sua vivência. O mais impressionante não é que existam casos de estudantes suicidas entre os palestinos, mas que alguns estudantes tentam seguir em frente em meio ao caos”, opina.

Campos de refugiados, mesmo sem conflitos militares, são lugares horríveis. A superlotação em Gaza, por exemplo, faz com que um cômodo seja dividido por 14 a 25 pessoas. Não há espaço para as crianças, apenas becos, não há árvores, apenas concreto. Muitos palestinos nasceram, cresceram e continuam a viver nos campos de refugiados por toda a Palestina ocupada. Em 1938 eles eram mais de 750 mil. Hoje chegam a quase 4,5 milhões.

Falk relata sua experiência na região: “Uma coisa que nos foi dita em Gaza por um psicólogo palestino muito respeitado e que havia acabado de concluir um estudo com mil crianças palestinas, é que muitas destas crianças não têm mais vontade de viver. Elas estão desumanizadas, afetadas por verem seus pais serem surrados por soldados israelenses. Esta condição psicológica é uma das dimensões deste conflito que não são completamente entendidas”.

Isso tudo ocorre como uma punição coletiva sobre o povo palestino, uma vingança contra a ação dos extremistas e, principalmente, como estratégia para tornar insuportável a vida nos territórios ocupados. “É como viver em uma prisão gigantesca”, afirma Falk. O resultado final, objetivo claro de Israel, é ocupar toda a região, não dando aos palestinos outro destino qualquer que o de deixar suas terras ancestrais.

Investigações

Os resultados desta cegueira política e da omissão do ocidente estão refletidos no massacre de inocentes promovido no ano passado na Faixa Gaza. Após 23 dias de bombardeios quase ininterruptos, a operação israelense iniciada no dia 27 de dezembro de 2008, cujo objetivo – segundo Israel – era destruir a estrutura militar do Hamas, deixou cerca de 1400 palestinos mortos (960 civis – boa parte crianças e adolescentes, 239 policiais e 235 militantes) e 6 mil feridos. Treze israelenses – segundo informações de hospitais locais e de ONGs israelenses, palestinas e internacionais - também morreram.

Posteriormente, o Conselho de Direitos Humanos da ONU, reunido em Genebra, aprovou o Relatório Goldstone. Dos 47 países que formam o Conselho, 25 apoiaram a resolução (entre eles o Brasil), seis a rejeitaram e 11 se abstiveram.

O documento, assinado pelo ex-promotor do tribunal internacional de crimes de guerra, o juiz sul-africano Richard Goldstone – e por 14 juristas – concluiu que, sob o pretexto de retaliar o grupo islâmico Hamas na faixa de Gaza pelo lançamento de foguetes contra o território israelense, Israel fez uso desproporcional da força e violou o direito humanitário internacional. De origem judaica, Goldstone disse ao jornal New York Times ter aceitado a missão da ONU por acreditar profundamente “na obediência à lei e às leis de guerra e no princípio de que, em um conflito armado, os civis devem ser protegidos ao máximo.

Dentro destas premissas, as investigações mostraram que os numerosos ataques letais contra civis ou contra alvos civis foram intencionais e que alguns tinham o propósito de disseminar o terror no seio da população civil, sem qualquer objetivo militar. O relatório diz também que as forças israelenses cometeram graves violações à Quarta Convenção de Genebra, nomeadamente homicídio intencional, tortura e tratamento desumano, “causando intencionalmente grande sofrimento ou danos graves ao corpo ou à saúde, além da destruição de bens, não justificada por necessidades militares e executada de forma ilegal e arbitrária”.

Da mesma forma, o relatório de Goldstone aponta que grupos armados palestinos também violaram o princípio da distinção, lançando foguetes e morteiros deliberadamente contra a população civil israelense. Tais ataques também foram apontados como crimes de guerra, passíveis de constituir crimes contra a humanidade.

Contrariando alegações do exército israelense, a comissão não encontrou evidências de que os grupos armados palestinos tenham conduzido civis a áreas sob ataque ou que tenham forçado civis a permanecer nas proximidades, nem que instalações hospitalares tenham sido usadas como escudo pelo governo de-facto do Hamas ou por grupos armados palestinos, ou que ambulâncias tenham sido usadas para transportar combatentes, ou ainda que grupos armados palestinos tenham realizado atividades de combate dentro de hospitais ou que instalações da ONU tenham sido usadas como escudos.

Finalmente, o relatório recomendou que o Conselho de Direitos Humanos da ONU exijisse que os dois lados investigassem suas atuações, sob a ameaça de transferir o caso ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Tanto Israel quanto o Hamas rejeitaram as acusações.

Nada de novo

Os fatos apurados por Goldstone não são nenhuma novidade. Diversos grupos de direitos humanos divulgaram relatórios criticando os dois lados por crimes de guerra. O jornal israelense Haaretz, por exemplo, publicou reportagens com soldados que participaram da ofensiva e que descreveram assassinato de civis inocentes (também aqui, aqui e aqui), a existência de um bilhete que ordenava ataques a equipes médicas e a campanha dos rabinos do Exército para transformar a operação em uma “guerra santa”.

A grande novidade, de fato, está na postura dos 25 países que apoiaram a resolução. Em meio aos interesses que colocam em segundo plano os crimes de guerra cometidos por países que contam com vasto apoio ocidental devido a interesses políticos/econômicos – como Israel – a decisão honrou, mesmo que simbolicamente – a memória dos civis mortos, torturados, alijados de seus direitos mais básicos.

Ao adotar a prática de esconder esqueletos no armário em prol de uma pretensa “manutenção dos processos de paz”, a ONU legitima o terrorismo de estado, a tortura, o assassinato de civis. Esta tem sido a prática da Organização nas últimas décadas e, por isso, a entidade tem perdido sua legitimidade diante de quem a ela apela como último recurso.

O que não pode ser negado é que a ofensiva israelense sobre Gaza repousa em uma estratégia que se estende por décadas: forçar a população da maior prisão ao ar livre do mundo ao desespero para, num segundo momento, usar suas reações como pretexto para mais um massacre. Um massacre premeditado, e que começou a ser preparado seis meses antes com vistas às eleições que ocorreram em fevereiro de 2009. Como definiu Idelber Avelar em um artigo que expôs de forma clara as verdadeiras intenções de Israel sobre os territórios palestinos ocupados, “no estado sionista, assim como nos EUA, bombardeios às terras árabes rendem votos fáceis”.

Finalizando

Talvez a melhor forma de finalizar este texto seja citando o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que em artigo publicado originalmente no site Brecha e reproduzido no RS Urgente (tradução de Katarina Peixoto), pergunta: “Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não conseguiu bombardear impunemente ao País Basco para acabar com o ETA, nem o governo britânico pôde arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência manda chuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?

Leia mais sobre este tema no Escrevinhamentos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A comunidade LGBT e a mídia

Em 26 e 27 de janeiro, será realizada, em Curitiba, a conferência Encontro de Mídia LGBT. Durante dois dias serão discutidos os impasses e as perspectivas da mídia LGBT, os movimentos sociais, padrões de qualidade e a pauta sobre a questão na grande imprensa.

O evento faz parte das ações programadas para acontecer antes da conferência da America Latina e Caribe da Associação Internacional de Gays e Lésbicas (Ilga), que ocorre de 27 a 31de janeiro. Alguns dos palestrantes são o antropólogo e fundador do Grupo Gay da Bahia Luiz Mott, a fundadora da revista G Magazine, Ana Fadigas, e o escritor e ex-BBB, Jean Wyllys. Haverá ainda o lançamento do Guia de Mídia LGBT. Para mais informações e inscrições, clique aqui.

Falei sobre o tema (a mídia e a comunidade LGBT) algumas vezes neste blog. Os links abaixo levam a artigos e entrevistas publicados por aqui.

- Para jornalista, condenar homofobia é coisa de viado...
- Imprensa precisa ajustar o foco ao tratar da homossexualidade
- Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Leia mais sobre sexualidade no Escrevinhamentos

domingo, 17 de janeiro de 2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

Poesia aos sábados

Morandos derretidos

Morangos no prato
Assim na língua sorvia
Vida carmim na pele fruta
Creme perfumado embevecia
Toda poesia que ia
Na moça que esperaria
Leite gozo alva espuma
No sorriso extasia
Mais um doce dia derretia
Se não estivesse abandonada
Na branca louça fria
Um borrão vermelho
entre folhas
Quem sabe carnuda
Encarnada
Boca d'água vermelha
quem sabe
um louco, desesperado
beijo

Cíntia Thomé, esta semana, no Poema Dia.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

"O Tradutor" - Daoud Hari

Cartum, 12 jan 2009 (EFE) - O Partido do Congresso Nacional (PCN) sudanês apresentou nesta terça-feira oficialmente seu líder, o presidente Omar al-Bashir, como candidato às eleições presidenciais e legislativas, previstas para o próximo mês de abril.
A Comissão Eleitoral sudanesa informou hoje em comunicado que vários dirigentes do PCN apresentaram os papéis da candidatura de al-Bashir depois que abriu hoje o prazo para fazê-lo.
Ontem, al-Bashir anunciou a renúncia como comandante supremo das Forças Armadas, que ocupava desde 1989.
Segundo a lei eleitoral de 2007, nenhum candidato às eleições parlamentares ou presidenciais pode ocupar um cargo militar. Por isso, a atitude de al-Bashir era necessária para que ele pudesse concorrer ao pleito.
Al-Bashir, de carreira militar e nascido em 1944, ocupou a chefia do Exército após o golpe de estado que liderou em 30 de junho de 1989 contra o então presidente Sadek al-Mahdi.
Em 4 de março do ano passado, o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra ele por crimes de guerra e crimes contra a humanidade na região sudanesa de Darfur, onde morreram mais de 300 mil pessoas desde fevereiro de 2003.

-

A reportagem acima é mais um triste capítulo do drama humanitário que se abate sobre Darfur. Bem provavelmente o amigo leitor jamais ouviu falar neste lugar. Não é de se espantar. Darfur é uma região afastada da realidade do Ocidente, escondida no oeste do Sudão e, como tal, merece pouco espaço na nossa mídia. No entanto, é exatamente ali que vem ocorrendo o mais recente caso de genocídio da história moderna. Desde 2003, quando o governo sudanês – comandado pelo general Omar al-Bashir - armou milícias de origem árabe para combater os povos não-árabes da área, cerca de 400 mil homens, mulheres e crianças foram massacrados e outros dois milhões e meio de seres humanos se tornaram refugiados.

Tendas verdes esfarrapadas e pedaços de plástico branco rasgados também presos a estacas servem de paredes e cobertura. No aclive da estrada, essa tênue fileira de trapos retorcidos se transforma numa imensa cidade de desesperados, como se toda a miséria e toda a tristeza do mundo tivessem se concentrado naquele lugar.

Três de cada dez mulheres nos campos de refugiados do Darfur são estupradas diariamente. Elas partem no lombo de jumentos por quilômetros, em busca de água e de lenha. Os homens não as acompanham, porque seriam mortos pelas milícias. Elas sabem o que vai acontecer, mas sua escolha é ser estuprada ou morrer de sede. A violência tornou-se tão corriqueira que a tradição de casar virgem está sendo abolida, pois as meninas começam a ser violentadas na mais tenra infância.

Este é o contexto do livro "O Tradutor”, de Daoud Hari, para quem o verdadeiro motivo do conflito é o petróleo e o urânio que se espalham pelo subsolo da região. Desde 2006 ele vive em Baltimore (EUA), onde se refugiou depois de uma mobilização internacional que reuniu de ídolos pop como Bono ao ex-presidente americano Jimmy Carter.

Daoud Hari fora preso pela ditadura sudanesa quando trabalhava como intérprete para Paul Salopek, da revista National Geographic, jornalista duas vezes premiado com o Pulitzer. Daoud, Paul e o motorista foram torturados por mais de um mês pelo exército sudanês e só saíram vivos por força da campanha internacional por sua libertação. Se voltar para o Sudão, Daoud poderá ser morto, assim como são mortos diariamente outros que não tiveram a sorte de aliar seu destino ao destino de algum figurão ocidental.

A história do sudanês que dedicou sua vida, seus contatos e suas palavras a ajudar jornalistas estrangeiros a denunciar o massacre de seu povo é contada em “O Tradutor”, livro que se transformou em roteiro de cinema pelas mãos de Jeffrey Caine, de "O jardineiro fiel" (2005).

“O Tradutor” é um documento sobre a insensibilidade, sobre o horror a que seres humanos se propõem a submeter outros seres humanos. Este horror se desfia nas páginas da obra, em passagens dantescas, situações que dificilmente podem ser apagadas da mente e que, certamente, acompanham suas testemunhas para o resto da vida.

Um dos janjaweeds começou a me matar de forma dolorosa. Minha filha não agüentou ver aquilo calada e correu em minha direção, gritando ‘Abba, abba’ (papai, na língua zaghawa). O homem que tinha me amarrado à árvore viu minha filha correndo em minha direção. Então baixou o rifle e enfiou-lhe a baioneta, empurrando a arma fundo, varando o ventre da menina. Mesmo assim, ela ainda conseguiu gritar ‘Abba, abba’. Ele então levantou a arma, ainda enfiada na barriga da minha filha, o sangue derramando sobre ele. Em seguida, começou a dançar com ela suspensa no ar e gritou para os companheiros: ‘Olhem só como estou bravo’. Os outros responderam em coro: ‘Você bravo, bravo, bravo’, enquanto matavam outras pessoas. Minha filha olhou para mim, demonstrando estar sentindo uma dor imensa, os bracinhos estendidos em minha direção. Ela ainda tentou dizer ‘Abba’, mas não conseguiu. Demorou muito para morrer, o sangue tão vivo, de um vermelho intenso, escorrendo sobre aquele... o que ele era? Um homem? A encarnação do mal? Ele estava pintado de vermelho, coberto com o sangue da minha filhinha. O que ele era?”

Bem perto da fronteira do Chade, passamos por uma árvore onde uma mulher e seus filhos estavam mortos. O terceiro morreu em nossos braços”, conta Daoud. A mulher tinha 30 anos. Fora capturada e presa com seus filhos quando sua aldeia foi destruída. Foi estuprada muitas e muitas vezes. Depois, foi largada para morrer no meio do deserto com seus quatro filhos pequenos. Dessa forma, os soldados economizariam munição. Sem suportar ver os filhos passar fome até a morte, embaixo do sol, a mulher enforcou-se com seu xale.

Outra cena presenciada por Daoud lembra a canção “Strange fruit”, de Abel Meeropol, tornada famosa na voz de Billie Holiday – que descreve como os corpos de negros linchados e enforcados em Indiana (USA) pareciam “frutas estranhas” penduradas nas árvores. Percorrendo uma região atacada pelas milícias patrocinadas pelo Sudão o autor deparou-se com os corpos de homens que haviam subido nas árvores, numa última tentativa de defesa de suas terras e famílias. Foram baleados e mortos. Quando Daoud e a equipe da BBC guiada por ele alcançaram o lugarejo, estavam mortos havia três dias. Braços, pernas e cabeças começaram a cair das árvores, esborrachando-se no chão. Em seguida, depararam com 81 corpos de homens e meninos mutilados. Parte da equipe da BBC, em choque, teve de voltar ao Chade para receber cuidados médicos.

Há uma parte morta na minha vida. Mas tenho de continuar denunciando que tudo continua piorando em Darfur. Isso é mais importante que meus sentimentos. O que está morto na minha vida é o modo como cresci, o modo como minha comunidade vivia, as montanhas, as árvores, os vales, os camelos, as cabras, as crianças brincando. Nada disso existe mais. Tudo foi destruído, e a maioria das pessoas com quem eu cresci está morta. São pesadelos que ficam no meu coração durante três ou quatro dias. É muito assustador o que eu vi lá. Como isso aconteceu? Como transformar isso em palavras?”, pergunta Daoud, que em junho passado esteve no Brasil para contar sua história no Antídoto – Seminário internacional de ações culturais em zonas de conflito, promovido pelo Itaú Cultural.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

"Crônica de um amor louco" e "Numa Fria" - Charles Bukowski

Poucos são aqueles que como ele, vivenciaram e permaneceram com naturalidade na sarjeta, fazendo dela sua fonte de inspiração. Bukowski fez de todo aquele inferno imundo e fedido, o seu paraíso”, já disseram sobre Henry Charles Bukowski (1920-1994). Boa definição para o maldito entre os malditos da literatura.

Quem nunca se aventurou pelo lirismo alcoólico e semi-putrefato do "velho safado" deve tomar alguns cuidados. Antes de se arriscar por seus romances, contos ou poemas é recomendável que se deixe de lado todas as artimanhas que te socam garganta abaixo nas máquinas de espremer culhões da vida enquadrada.

"...Agora, escuta aqui, você gosta de fazer serão? Ah, claro que sim, chefe! Eu gostaria de trabalhar 7 dias por semana, se possível. E de ter 2 empregos se pudesse."
(O Espremedor de Culhões)

Se você torceu para o Silas detonar os hereges em “O Código da Vinci”, treme de raiva ao ouvir o sambão da TFP (letrinha aqui) do Língua de Trapo ou vibra emocionado com as elucubrações filosóficas de Olavo de Carvalho e Cia., a obra de Bukowski poderá lhe chocar.

- Ficou paranóico? – pergunta.
- Claro. Qual é o cara lúcido que não fica?
(Uma xota branca- Pág 309)

Iconoclasta, porra louca, bebum inveterado, tarado sem regulamentos. Ele é isso tudo e também o genial escritor que conseguiu traduzir para a literatura o submundo estadunidense, em especial o da cidade onde sempre viveu (Los Angeles). Buk é uma espécie de Camus ressaqueado e sem paciência para explicar o que pensa do mundo e da vida.

Nas primeiras semanas do ano li duas de suas coletâneas de contos: “Crônica de um amor louco” e “Numa fria”. São 54 contos (27 em cada livro) repletos de ironia, sarcasmo e sujeira, além de uma crítica mordaz à sociedade.

Tudo, tudo, produzindo um efeito de delicadeza, de falta de dor, de preocupações, de vida enfim.
(O dia em que se conversou sobre James Thurber - Pág. 189)

“Crônica de um amor louco” é o primeiro dos dois volumes da obra "Ereções, ejaculações e exibicionismos", uma viagem pelo seu universo infernal e onírico. Seus personagens desvalidos, seus quartos imundos em hotéis baratos, seus bares esfumaçados anunciam o sonho americano reduzido a trapos. As histórias brotam de suas entranhas, do seu estômago ulcerado e são jogadas no papel entre espasmos de delirium tremens.

O livro leva o título do filme que o italiano Marco Ferreri realizou baseado nos textos de Bukowski e cuja linha mestra é exatamente o primeiro conto da obra, “A mulher mais linda da cidade”.

“Numa Fria”, por sua vez, foi publicado nos EUA pela Black Sparrow Press em 1983 sob o título de Hot Water Music e só chegou ao Brasil dez anos depois pela L&PM. Assim como a "Crônica", traz o que há de melhor no autor: histórias curtas, ácidas, cruas.

Em ambas as obras Bukowski nos apresenta seu alterego, Henry Chinaski, protagonista de cinco de seus livros, assim como de inúmero contos e poemas. Grande parte das histórias vividas por ele são baseadas nas experiências do próprio Bukowski, sendo, portanto, um personagem autobiográfico. Chinaski é um anti-herói por excelência: alcoólatra, misantrópico, vagabundo e mulherengo.

O personagem foi retratado por Mickey Rourke no filme Barfly, que o próprio Bukowski roteirizou. Também foi interpretado por Matt Dillon no filme Factotum, produzido em 2005.

Entre a doideira típica de sua obra alguns momentos interessantes de reflexão. Um deles, sobre o jornalismo, no conto “Nascimento, vida e morte de um órgão da imprensa alternativa”, traz as seguintes passagens:

- A poesia diz tudo no menor espaço de tempo; a prosa demora muito pra dizer quase nada.
(Nascimento, vida e morte de um órgão da imprensa alternativa - Pág. 148)

- Segundo TUDO indica o senhor é o autor destas colunas – Notas de um velho safado.
- Sou.
- O que tem dizer sobre estes artigos?
- Nada.
- Chama isso de literatura?
- É o máximo que posso fazer.
- Pois eu sustento dois filhos que atualmente estão estudando jornalismo em ótimas
faculdades, e ESPERO...
Bateu de leve nas folhas, que para ele fediam à merda, com os dedos cheios de anéis daquelas mãos que não conheciam fábricas nem prisões e continuou:
- Espero que nunca venham a escrever como o SENHOR!
- Pode ficar sossegado – garanti.
(Nascimento, vida e morte de um órgão da imprensa alternativa - Págs. 153 e 154)

O sacana do jornal cresceu, ou pelo menos parecia, e mudou para outro endereço em Melrose. Mas nunca gostei de levar lá os artigos, porque todo mundo era tão cheio de frescura, mas de frescura mesmo, um bando de metidos a besta, e sem o menor motivo, ainda por cima. As coisas não mudam. A evolução do homem sempre foi muito lenta. Eram que nem os idiotas que tive que enfrentar quando entrei pela primeira vez na redação do jornal da Faculdade Municipal de Los Angeles em 1939 ou 1940 – todos aqueles bobalhões cheios de nove horas, com viseira de jornalista na cabeça, a redigir os artigos mais sem graça e burros que se possa imaginar. Se dando tais ares de importância que não tinham nem a decência de demonstrar que estavam vendo a gente ali, nas barbas deles. Pessoal que trabalha em jornal sempre foi a escória do ramo; qualquer faxineiro que recolhe modess usado numa latrina tem mais dignidade – evidentemente.
(Nascimento, vida e morte de um órgão da imprensa alternativa - Pág. 159)

Mas Bukowski não é apenas o condutor de uma tour pelo inferno pessoal emoldurado pelos bares e becos de LA. Ele também é lírico. Seus contos terminam bruscamente, deixando-nos, quando não uma sensação de estupefação, uma vontade de chutar o pau da barraca a lá Chinaski. E se procurarmos bem, lá no fundo, há até romantismo escondido sobre as cascas de ferida.

- O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz a gente se sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.
(Braçadas para o meio do nada - Pág. 69)

Descemos no Internacional de Los Angeles. Ann, eu te amo. Espero que meu carro pegue. Espero que a pia não esteja entupida. Estou feliz por não ter comido uma fanzoca. Estou feliz por não ser muito bom em me meter na cama com estranhas. Estou feliz por ser um idiota. Estou feliz por não saber nada. Estou feliz por não ter sido assassinado. Quando olho para as minhas mãos e elas ainda estão nos pulsos, penso comigo mesmo: sou um cara de sorte.”
(Entra, sai e acaba - Pág. 133)

Eu ainda tinha uma mulher, uma mulher com quem eu me importava. Uma mágica destas não é para ser levada na brincadeira.
(Entra, sai e acaba - Pág. 133)

Ah... o velho Buk...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Novo desafio profissional

Assumi ontem um novo desafio profissional à frente da Superintendência de Comunicação Social da Prefeitura Municipal de Campo Grande, onde já atuava há um ano como chefe de reportagem. Aos colegas jornalistas: estou 24h no ar para afinar o contato entre o executivo e os veículos de comunicação.

Algumas notícias sobre:
No Campo Grande News
No Midiamax

domingo, 10 de janeiro de 2010

sábado, 9 de janeiro de 2010

Poesia aos sábados

AÇÚCAR-MATÉRIA

já ter acontecido:
à falta de um vício, ser-me proposto um exemplo
de não exemplo,
o projecto de ser uma mulher de açúcar,
e reverberar a personagem no meu rosto.
e nos anti-corpos da pré-exibição
ver um piazzolla, um piazzolla também de açúcar
e uma composição instantânea, o tango
de uma escalada em condição de cristal.

sim, já ter acontecido, já ter acontecido muitas vezes:
sermos feitos de açúcar, porque
assim que a dança começa, piazzolla,
sempre os corpos desabam.

Sylvia Beirute, esta semana, no Poema Dia.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Entre os melhores do OI e do Amálgama

Escrevi bastante em 2009. Alguns artigos e entrevistas foram destacados em ambientes virtuais que freqüento com assiduidade. Tive oito artigos e quatro entrevistas apontados entre os melhores do ano no Observatório da Imprensa e dois artigos entre os mais lidos do blog coletivo Amálgama (cuja equipe passei a integrar no ano passado). Links a seguir.

Artigos e entrevistas entre os melhores do Observatório da Imprensa em 2009

Artigos:
- Verbas oficiais e a mídia alternativa
- Política em 140 caracteres
- Mídia, blogs, cidadãos jornalistas e notícias
- Vantagens e desvantagens de cada possibilidade
- Novos rumos para o ensino do Jornalismo
- Priscila, a Greenpeace e o canudo
- Assessoria de imprensa é uma coisa, jornalismo é outra
- O jornalismo precisa se reinventar

Entrevistas:
- ANDRÉ FISCHER - A mídia e a comunidade gay
- JOSÉ DIRCEU - "É preciso garantir o direito de resposta e de imagem"
- IDELBER AVELAR - As novas mídias e o jornalismo
- EDNEY SOUZA - Mídias sociais e jornalismo

Dois artigos de minha autoria estão entre os 30 posts mais lidos de 2009 do Amálgama.

- 3º As três faces obscuras do regime de Mahmoud Ahmadinejad (também destacado como o quarto post mais comentado do ano no blog)
- 11º Vinte anos depois de Berlim, outros muros ainda nos envergonham

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O caçador de pipas - Khaled Hosseini

- Não tem problema – retruquei. E virando-me para meu sogro: - Sabe, general, o que acontece é que meu pai dormiu com a mulher do empregado dele. Ela lhe deu um filho chamado Hassan. Hassan está morto. Aquele menino, dormindo ali no sofá, é filho dele. Meu sobrinho. É isso que o senhor vai dizer às pessoas que perguntarem.
Todos ficaram me olhando.
- E tem mais uma coisa, general sahib – prossegui. – Nunca mais se refira a ele como um ‘menino hazara’ na minha frente. Ele tem nome, e esse nome é Sohrab.
” (Pág. 355).

Esta passagem de “O caçador de pipas”, romance de Khaled Hosseini que ganhou versão cinematográfica em 2007, é um bom ponto de partida para abordar a obra do ponto de vista do preconceito. Para quem nunca ouviu falar, hazara é a denominação para um povo de origem mongol que se espalhou especialmente pelo Afeganistão, Paquistão e Irã.

Vítimas de perseguição religiosa (os hazaras são sunitas mergulhados em sociedades majoritariamente xiitas) os hazaras foram, também, estigmatizados por sua origem étnica e considerados “casta inferior” por muitos séculos. Hoje, após as mudanças políticas na região, o garrote afrouxou e os hazaras começam a ocupar espaço político e social.

“O caçador de pipas” traz o assunto à tona. A história tem como pano de fundo uma série de acontecimentos políticos tumultuosos, que começa com a queda da monarquia do Afeganistão decorrente da invasão soviética (24 de dezembro de 1979), embarca na massa de refugiados afegãos que inundaram o Paquistão e os EUA e relembra a implantação do regime fundamentalista pelo Talibã com todos os horrores que se seguiram.

'Pois diga-lhe que ele está redondamente enganado. A guerra não nega a decência. Pelo contrário, exige isso, muito mais que os tempos de paz.'” (Pág. 120)

Em primeiro plano esta a relação entre Baba, seu filho legítimo Amir (que narra a história) e o menino hazara Hassan (filho ilegítimo do velho afegão), que serve de elo condutor para uma narrativa na qual a questão do preconceito pode e deve ser analisada.

Sob este aspecto, “O caçador de pipas” é muito mais que uma análise da paternidade e da amizade tendo como protagonistas dois pequenos amigos, um que enfrentaria o conflito interno de sua omissão e outro que permaneceria fiel e íntegro à amizade. Por isso, ao ler o trecho com que iniciei esta resenha, imediatamente fui remetido a uma situação que vivi recentemente na casa de uma grande amiga. Seu irmão, homossexual, introduziu o companheiro no seio familiar. O pai e a mãe fingem que não sabem o que ocorre à sua volta. Embora tratem o rapaz com carinho, guardam um preconceito velado: um considera o fato do filho ser homossexual um “karma”, a outra age como se o rapaz fosse um “amigo próximo” do filho.

Quis fugir de onde estava, fugir da realidade, subir feito uma nuvem e sair voando por aí afora, me fundir com essa noite úmida de verão e desaparecer bem longe daqui, além das colinas.” (Pág. 340)

Debatemos a situação e, resumindo a ópera, nos colocamos em posições divergentes quanto à situação. Eu – embora estivesse na tranqüilidade de quem analisa a situação de longe – considerei importante que, aos poucos, a relação fosse colocada abertamente para os pais, mesmo que isso levasse a algum tipo de conflito. Minha amiga, no contraponto, defendeu a tese de que o confronto não levaria a nada, que “não convenceria seus pais, já velhos, de algo que consideram errado devido a sua formação”.

‘É duro dizer isso’, acrescentou ele dando de ombros. ‘Mas é melhor uma verdade que dói que uma mentira que conforta.’” (Pág. 63)

Não pude deixar de relembrar esta conversa entre amigos ao ler a obra de Khaled Hosseini, pois é exatamente nesta passividade em relação ao preconceito que repousa parte da trama.

Penso que a passividade, a fuga do contraditório, embora pareça ser uma opção pela tranqüilidade, pelo bom convívio, é, na verdade, uma bomba relógio que um dia explodirá.

Foi há muito tempo, mas descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar.” (Pág. 09)

“O caçador de pipas” é, também, uma história de lealdade, de sinceridade e bondade ressaltadas pela traição, pela mentira e pela maldade geradas pelo egoísmo, pela tendência que temos em fechar os olhos para situações desconfortáveis com o objetivo de pouparmo-nos, de evitarmos o confronto quando ele, muitas vezes, é a única saída para uma paz verdadeira.

Mas espero que pense bem nisso: um homem que não tem consciência, que não tem bondade, não sofre.” (Pág. 297)

Também permeia a obra o atrito entre o ocidente e o oriente, em especial nos trechos que se referem à vida de Baba e Amir nos EUA. O confronto cultural é gigantesco. Embora o livro se atenha timidamente as impressões dos refugiados afegãos a partir de alguns momentos de seu dia a dia, é palpável o nevoeiro que se interpõe entre estes dois mundos.

Edward Said disse, em “Orientalismo”, que o Ocidente criou uma visão deturpada do Oriente como o “outro”, o antípoda, numa estratégia de diferenciação que perpetua os estereótipos colonialistas. Khaled Hosseini concorda e destaca este estigma, mais especificamente da visão ocidental sobre o mundo árabe como uma massa homogênea ao invés de uma cultura rica e diversificada. “Estamos tratando de mais de um bilhão de pessoas que falam línguas diferentes e de uma região com grande diversidade étnica e cultural. Quando vejo, por exemplo, o Afeganistão retratado nos noticiários e programas de televisão, fico escandalizado com os inúmeros equívocos de interpretação do universo cultural afegão”, afirmou o escritor em 2007, em entrevista à Antonio Gonçalves Filho.

Esta sensação é presente no romance quando o analisamos sob o ponto de vista dos recentes acontecimentos no Oriente Médio. A Cabul retratada por Baba, a capital afegã da infância de Amir e Hassan em nada se parece com o campo de batalha entre forças ocidentais e o Talibã que, em última análise, colocou em confronto dois mundos muito diferentes.

Senti uma onda de tristeza. Estar de volta a Cabul era como ir ao encontro de um velho amigo que tínhamos esquecido, e ver que a vida não tinha sido boa para com ele; que tinha se tornado um indigente, um sem-teto.” (Pág. 248)

No fim das contas, o livro aborda uma questão muito simples e, ao mesmo tempo, complexa ao extremo: como lidar com a sinceridade. O ponto de partida da obra é exatamente esta dificuldade.

E esse é o problema das pessoas que são sinceras: acham que todo mundo também é.” (Pág. 61)

domingo, 3 de janeiro de 2010

Música aos domingos

Stand By Me - Playing For Change - Song Around the World
Ouça no volume máximo!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Poesia aos sábados

que venham rosas descer pela chaminé
e outros sinais avancem em direcção ao sonho.
que o mar vagueie terno pela terra,
sem cadáveres,
pernoite nas palavras,
saliente em hélice o hálito do amor.
e uma lua cresça no teu corpo
na serenidade das coisas que te acordam
como uma flor
na verdade que outros sois inventam.

Poesia de Maria Gomes, esta semana, no Poema Dia.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010