Cazuza - O Tempo não pára
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domingo, 29 de novembro de 2009
sábado, 28 de novembro de 2009
Poesia aos sábados
Estou de poucas palavras:
tramela.
A-penas
algumas vogais
escapam das celas.
Abertas,
elas gritam ao mundo
o que me cala:
queria um coração
à prova de balas.
Renata de Aragão Lopes, esta semana, no Poema Dia.
tramela.
A-penas
algumas vogais
escapam das celas.
Abertas,
elas gritam ao mundo
o que me cala:
queria um coração
à prova de balas.
Renata de Aragão Lopes, esta semana, no Poema Dia.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Coluna do Capssa: “Verão em Baden-Baden e o anti-semitismo em Dostoiévski”
Leonid Tsipkin, judeu, é o autor do livro “Verão em Baden-Baden”. Centrado na reconstituição dos dias de Dostoiévski na cidade, a obra é narrada com amor e ódio numa franca homenagem a este genial escritor russo.
Há três planos na narrativa: o “eu” que é o próprio Tsipkin viajando de trem até Petersburgo enquanto lê as memórias de Anna, esposa de Dostoiévski, reconstituindo os traumas e medos do grande escrito russo; o “ela”, que relembra sua relação com Dostoiévski, enquanto tenta justificar a si mesma seu amor pelo homem egoísta e exigente que ele é; e, por fim o “ele”, devorado pela epilepsia e pela dependência ao jogo, dividido entre a crença de seu enorme talento e o complexo de inferioridade que alimentava diante de outros escritores.
Mesmo com vários elogios ao livro, pessoalmente achei-o muito chato. Os mundos das três personagens se confundem num sistema de pontuação tão excêntrico que só poderia ter sido inventado por um russo: travessões separam diálogos, descrições, sonhos, uma verdadeira confusão. Confesso que não li o livro todo. É uma espécie de delírio.
Na segunda frase disse que era uma relação de amor e ódio, e de fato o é. Tsipkin, embora se diga admirador de Dostoiévski, no romance aponta apenas defeitos e, indignado, diz: “Parecia estranho ao ponto do implausível que Dostoiévski não tivesse pronunciado nem uma única palavra em defesa ou em justificativa de um povo perseguido ao longo de milhares de anos e, ele nem mesmo se referia aos judeus como um povo, mas como uma tribo”.
Susan Sontag que faz a introdução do livro em 15 páginas diz: “Contudo isso não impedira os judeus de amarem Dostoiévski. Amar Dostoiévski significa amar a literatura.” Sei...
A verdade: nem Leonid Tsipkin, nem Susan Sontag, nem todos os judeus se conformam(ram) que a grandiosidade de Dostoiévski não pertence(sse) à eles. O anti-semitismo em Dostoiévski, me parece, é um fato.
Joseph Frank, o maior biógrafo de Dostoievski (levou 20 anos para realizar a biografia – Dostoiévski em 05 volumes – EDUSP) diz: “Um aspecto desagradável e desconcertante em Dostoievski é seu anti-semitismo”.
Meu ponto de vista, entretanto, é que o anti-semitismo de Dostoiévski era parte de uma xenofobia e de um chauvinismo da Grande Rússia que fez com que fosse quase impossível para ele reconhecer quaisquer méritos ou virtudes em outros grupos. Mesmo assim, ele, evidentemente, constrangia–se e inquietava-se com o fato de ser considerado anti-semita e esforçou-se explicitamente para negar a acusação.
“Eu me disponho”, segue Joseph Frank, “a conceder o benefício da dúvida e a sentir que Dostoiévski estivesse mais em conflito com ele mesmo, sendo que vale anotar que o artigo ‘A questão Judaica’ termina com um apelo à fraternidade entre cristãos e judeus.”
Pois é... parodiando Susan Sontag, amar a literatura é amar Dostoiévski.
Luiz Carlos Capssa Lima
19/11/2009
Há três planos na narrativa: o “eu” que é o próprio Tsipkin viajando de trem até Petersburgo enquanto lê as memórias de Anna, esposa de Dostoiévski, reconstituindo os traumas e medos do grande escrito russo; o “ela”, que relembra sua relação com Dostoiévski, enquanto tenta justificar a si mesma seu amor pelo homem egoísta e exigente que ele é; e, por fim o “ele”, devorado pela epilepsia e pela dependência ao jogo, dividido entre a crença de seu enorme talento e o complexo de inferioridade que alimentava diante de outros escritores.
Mesmo com vários elogios ao livro, pessoalmente achei-o muito chato. Os mundos das três personagens se confundem num sistema de pontuação tão excêntrico que só poderia ter sido inventado por um russo: travessões separam diálogos, descrições, sonhos, uma verdadeira confusão. Confesso que não li o livro todo. É uma espécie de delírio.
Na segunda frase disse que era uma relação de amor e ódio, e de fato o é. Tsipkin, embora se diga admirador de Dostoiévski, no romance aponta apenas defeitos e, indignado, diz: “Parecia estranho ao ponto do implausível que Dostoiévski não tivesse pronunciado nem uma única palavra em defesa ou em justificativa de um povo perseguido ao longo de milhares de anos e, ele nem mesmo se referia aos judeus como um povo, mas como uma tribo”.
Susan Sontag que faz a introdução do livro em 15 páginas diz: “Contudo isso não impedira os judeus de amarem Dostoiévski. Amar Dostoiévski significa amar a literatura.” Sei...
A verdade: nem Leonid Tsipkin, nem Susan Sontag, nem todos os judeus se conformam(ram) que a grandiosidade de Dostoiévski não pertence(sse) à eles. O anti-semitismo em Dostoiévski, me parece, é um fato.
Joseph Frank, o maior biógrafo de Dostoievski (levou 20 anos para realizar a biografia – Dostoiévski em 05 volumes – EDUSP) diz: “Um aspecto desagradável e desconcertante em Dostoievski é seu anti-semitismo”.
Meu ponto de vista, entretanto, é que o anti-semitismo de Dostoiévski era parte de uma xenofobia e de um chauvinismo da Grande Rússia que fez com que fosse quase impossível para ele reconhecer quaisquer méritos ou virtudes em outros grupos. Mesmo assim, ele, evidentemente, constrangia–se e inquietava-se com o fato de ser considerado anti-semita e esforçou-se explicitamente para negar a acusação.
“Eu me disponho”, segue Joseph Frank, “a conceder o benefício da dúvida e a sentir que Dostoiévski estivesse mais em conflito com ele mesmo, sendo que vale anotar que o artigo ‘A questão Judaica’ termina com um apelo à fraternidade entre cristãos e judeus.”
Pois é... parodiando Susan Sontag, amar a literatura é amar Dostoiévski.
Luiz Carlos Capssa Lima
19/11/2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Para jornalista, condenar homofobia é coisa de viado...
O debate sobre homofobia no Twitter deu pano para manga e revelou posicionamentos para lá de interessantes. Publiquei hoje por aqui (e no Amálgama) o artigo “A ditadura da fé e da ausência de razão contra a orientação sexual” que colocou ainda mais lenha no fogo. Teve até gente me dando unfollow no microblog (@GeraldoMTomas) me acusando de cercear seu direito de ser preconceituoso...
Entre as manifestações, a mais interessante foi a do jornalista Antônio João Hugo Rodrigues (@AntonioJoao_AJ), dono do jornal Correio do Estado, para quem a sexualidade não é um bom tema a ser tratado no Twitter (veja aqui e aqui). Além disso, segundo ele, o fato de alguém levantar o tema e aprofundá-lo é motivo para “desconfiar de sua masculinidade”... no melhor estilo Carlos Maçaranduba (veja aqui).
Segundo sua linha de raciocínio, lutar contra a violência contra a mulher é papel exclusivo das mulheres, combater o anti-semitismo é tema para judeus e execrar o preconceito contra negros é obrigação dos negros. E ponto final...
E isso vindo do manda-chuva do maior jornal do estado...
Entre as manifestações, a mais interessante foi a do jornalista Antônio João Hugo Rodrigues (@AntonioJoao_AJ), dono do jornal Correio do Estado, para quem a sexualidade não é um bom tema a ser tratado no Twitter (veja aqui e aqui). Além disso, segundo ele, o fato de alguém levantar o tema e aprofundá-lo é motivo para “desconfiar de sua masculinidade”... no melhor estilo Carlos Maçaranduba (veja aqui).
Segundo sua linha de raciocínio, lutar contra a violência contra a mulher é papel exclusivo das mulheres, combater o anti-semitismo é tema para judeus e execrar o preconceito contra negros é obrigação dos negros. E ponto final...
E isso vindo do manda-chuva do maior jornal do estado...
A ditadura da fé e da ausência de razão contra a orientação sexual
O preconceito é uma doença silenciosa. Ele se instala nas mentes, nas consciências e lá se agarra com unhas e dentes contaminando convicções. Em poucas questões este vírus tem se mostrado mais resistente que na questão da homossexualidade. Assim como um vírus se manifesta em qualidades diversas, determinando os sintomas da doença, o preconceito de sexualidade também possui facetas diversas, todas elas malignas e fatais ao desenvolvimento de sociedades livres e fraternas.Uma das formas pela qual esta doença da alma se manifesta é através da classificação da homossexualidade como algo “anormal”. Este é o caminho escolhido por uma miríade de pessoas que não consegue enxergar a diversidade como algo pertinente ao ser humano. Sua base argumentativa trafega pela religiosidade ou pelo que classificam como comportamento natural. Ambas as bases carecem de estrutura argumentativa coerente.
Na religiosidade, parte-se do pressuposto de que existe uma verdade moral absoluta ligada ao comportamento sexual, sem a qual os seres humanos estariam desviados “do caminho”. Estas verdades estão baseadas na fé e não em conceitos científicos. Fé é um caminho pessoal. A minha, serve para mim. A sua, para você. Não cabe ao homem impor sua crença aos demais, visto que ele não detém a verdade absoluta, mas a sua própria verdade, embasada por sua própria fé.
O desprezo desta linha de raciocínio levou a humanidade a todo tipo de desumanidade. A noção de que uma determinada fé – e os conceitos que se julgam pertinentes a ela – deva prevalecer sobre a vontade dos homens causou, entre muitos outros desatinos, as cruzadas, a inquisição e a jihad islâmica.
Há uma diferença fundamental entre - fiel a minha própria fé - fazer a opção pessoal de não aceitar a homossexualidade e o extremo de tentar impor este conceito aos demais.
Argumentar que homossexuais são seres humanos desviados, odiados por Deus, negar a eles direitos civis básicos como o casamento e a partilha de bens tendo como argumento a fé é reforçar o comportamento totalitarista que ciclicamente acompanha as manifestações religiosas. É endossar a ditadura da fé.
Manifestações deste medievalismo não são raras. Embalada por leituras equivocadas dos livros sagrados, ou guiada cegamente por eles, muita gente tem trabalhado para colocar os homossexuais no que consideram ser seu devido lugar, ou seja, o porão, bem escondidos dos olhos da sociedade.
E aqui vou citar observações de duas pessoas que tem feito a diferença nesta Babel que é a internet, quando o assunto é a defesa dos direitos civis diante do assalto da fé: Daniel Lopes (Amálgama) e Lelec (A Terceira Margem do Sena). O que aconteceria se baseássemos nossas leis na Bíblia?
Além apedrejar pessoas até a morte por exercer sua homossexualidade, heresia, adultério, por trabalhar no sábado, adorar imagens, praticar feitiçaria e mais uma ampla variedade de crimes imaginários (Sam Harris, “Carta a uma Nação Cristã”, Cia das Letras, pág. 25), deveríamos, também, bater em nossos filhos com uma vara (Provérbios 13,24; 20,30; e 23, 13 e 14) sempre que eles saíssem da linha, matá-los (Êxodo 21, 15, Levítico 20, 9, Deuteronômio 21, 18-21, Marcos 7, 9-13, Mateus 15, 4-7) quando tivessem a pouca vergonha de nos responder com insolência, reunir escravos (Levítico 25, 44-46), mas não agredi-los tão severamente a ponto de ferir seus olhos ou seus dentes (Êxodo 21, 26-27). Teríamos que aceitar o Pai que lança doenças mortais (II Samuel 24:15), o Iaveh que escolhe e sustenta tiranos (Romanos 13:1), dar loas ao incentivador de genocídios (Deuteronômio 7: 1-5) e até louvar quem consente que duas ursas matem 42 crianças por chamarem de careca um de Seus profetas (II Reis 2: 23-25).
NATURAL OU NÃO?
Assim como a fé é base para o preconceito na questão da sexualidade, a noção do que é ou não “biologicamente normal” ou “socialmente aceitável” também serve de munição para quem não aceita a miríade de opções sexuais que são inerentes ao ser humano, para quem teme a diversidade. Foi com base nesta noção, que Hitler condenou a morte milhões de judeus, doentes mentais, ciganos, comunistas e homossexuais.
Nos últimos dias, no Twitter, me vi em um debate sobre este tema com @joaocampos_ms. Ele defendia o direito de opção sexual, mas condenava a sua exposição pública por meio de eventos como passeatas gays. Disse ele “No caso dos homossexuais, a rejeição baseia-se em ser natural ou não. Aceitação, idem. É natural ou não.”. Reforçando o conceito, @GeraldoMTomas disse o seguinte: “E acho também que, se não banirmos tais pudores (do debate), um dia ensinarão nas escolas que homosexualismo é correto” e arrematou “Claro...não estamos tratando de coisa natural, tipo cor, raça, beleza, nem de matéria religiosa...portanto.”
A primeira vista estas manifestações podem passar despercebidas. No entanto, são construídas sobre o que há de pior no pensamento da intolerância sexual. Classificar a orientação sexual como algo “anormal” é afrontar a ciência.
Esse tipo de argumento – de que o sexo com indivíduos do mesmo gênero não é natural –, muito usado no século 19, é recorrente até os dias de hoje e permeia o debate do tema em vários países. As observações científicas, no entanto, demonstram que o argumento não tem base, já que são vários os exemplos de animais que mantêm relações sexuais e até mesmo de parceria com indivíduos do mesmo gênero.
Os biólogos Nathan Bailey e Marlene Zuk, da Universidade da Califórnia em Riverside, publicaram no mês passado um estudo que é uma revisão de várias outras pesquisas sobre o tema. O trabalho, publicado no periódico Trends in Ecology and Evolution (Tendências em Ecologias e Evolução), reforça que o sexo homossexual é muito comum no mundo animal e é motivado por diferentes razões, como a falta de um parceiro do outro sexo, a necessidade de formar alianças, praticar e reforçar a hierarquia, por engano e até para criar um filhote. Ou seja, natural entre os animais, nada impede que o mesmo comportamento se repita entre nós, seres-humanos.
Da mesma forma, classificar o comportamento homossexual como um desvio de conduta moral ou psicológico é, também, uma postura condenada pela ciência séria. Um caso recente, o da psicóloga Rozângela Alves Justino, que prometia “curar” homossexuais em sua clínica, é emblemático.
Ao comemorar – no dia 22 de março - os dez anos da resolução que orientou os psicólogos brasileiros a adotarem posturas que contribuam para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual, o presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Humberto Cota Verona, disse que “a resolução proíbe o psicólogo de tratar a escolha homoafetiva como um problema de saúde e muito menos oferecer tratamento e cura para isso”. Para Verona, o papel dos psicólogos não é o de reprimir esta opção, mas de fazer com que os homossexuais enfrentem o preconceito. “A psicologia tem ajudado essas pessoas a encarar esse sofrimento, a aprender a lidar com esse enfrentamento social da sua escolha.”.
O psicólogo Claudecy de Souza lembra que, sob o ponto de vista legal, a homossexualidade também não é classificada como doença no Brasil. “Sendo assim, os psicólogos não devem colaborar com eventos e serviços que se proponham ao tratamento e cura de homossexuais, nem tentar encaminhá-los para outros tratamentos. Quando procurados por homossexuais ou seus responsáveis para tratamento, os psicólogos não devem recusar o atendimento, mas sim aproveitar o momento para esclarecer que não se trata de doença, muito menos de desordem mental, motivo pelo qual não podem propor métodos de cura.”.
Souza reafirma o entendimento da Psicologia moderna, segundo o qual a homossexualidade é um estado psíquico. “O indivíduo homossexual não faz opção por ser homossexual. Ele apenas é e não pode, ainda que queira, mudar isso. Ele pode sim, fazer uma opção no sentido de negar esse impulso e tentar viver como heterossexual. Mas isso tem um impacto negativo para o pleno desenvolvimento emocional do indivíduo. Trata-se de uma situação muito mais comum do que se imagina. O impulso sexual que um heterossexual tem por sua parceira é o mesmo que um homossexual tem por seu parceiro do mesmo sexo. O que muda é o objeto.”, explica.
Em dezembro de 1973, a Associação Psiquiátrica Americana (APA) aprovou a retirada da homossexualidade da lista de transtornos mentais, deixando de considerá-la uma doença. Em 1985, o Conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) retirou a homossexualidade da condição de desvio sexual. Nos anos 90, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), onde são identificados por códigos todos os distúrbios mentais - e que serve de orientador para classe médica, principalmente para os psiquiatras - também retirou a homossexualidade da condição de distúrbio mental. Em 1993, a Organização Mundial de Saúde (OMS) deixou de utilizar o termo "homossexualismo" (que da idéia de doença), adotando o termo homossexualidade. Em 22 de março de 1999 o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou nacionalmente uma resolução estabelecendo normas para que os psicólogos brasileiros contribuam, através de sua prática profissional, para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual.
ESTRATÉGIA PRECONCEITUOSA
De fato, seja com base na fé ou no conceito de normalidade, o que se pretende ao questionar a homossexualidade é condená-la aos subterrâneos. Na melhor das hipóteses querem dizer que não importa se alguém opte pela condição homossexual, desde que isso não seja claro, desde que seja entre quatro paredes, às escondidas. É como se pregassem uma burca para os gays, de modo a que este comportamento, que lhes agride de forma tão impactante, não pudesse ser exercido de forma livre.
Recentemente publiquei no Amálgama o artigo “As três faces obscuras do regime de Mahmoud Ahmadinejad”, versando, entre outras coisas, sobre o preconceito exercido no Irã contra os gays. O texto recebeu mais de 100 comentários, alguns de fortíssimo caráter homofóbico. Há os fanáticos religiosos – como a turma da União de Blogueiros Evangélicos – que tem feito barulho contra o PLC 122/06, que torna crime a discriminação contra idosos, deficientes e homossexuais, e há também os que simplesmente não querem ter o desprazer de conviver com a igualdade de direitos na sexualidade. Ambos apelam para a falácia segundo a qual sua postura homofóbica não agride direitos básicos de milhares de pessoas. As vítimas são eles mesmos, os preconceituosos, obrigados a conviver com a homossexualidade.
Ora, este é um argumento rasteiro, beira a ignorância. Um casal gay que se beija em praça pública está exercendo um direito pessoal e irrevogável de exprimir sua sexualidade da mesma forma que a exprime um casal heterossexual. Se este beijo incomoda alguém, este alguém pode simplesmente ignorar o casal ou, se o choque for demasiado, afastar-se. O que não pode é exigir que o casal gay seja proibido de exercer sua liberdade da mesma forma que um casal hetero a exerceria. Não se pode legitimar a coerção física ou moral sobre a cidadania com base em conceitos de cunho religioso ou pessoal.
Leia mais sobre este tema:
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Desacelerando
Desde junho de 2008 tenho postado diariamente no Escrevinhamentos. Vou desacelerar. Pretendo postar com menos freqüência e quebrar algumas rotinas que desenvolvi no blog. Espero que a qualidade do material se sobressaia sobre a quantidade.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
As três faces obscuras do regime de Mahmoud Ahmadinejad
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, chega ao Brasil nesta segunda-feira para uma visita oficial de um dia. Além de encontros com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os presidentes do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), Ahmadinejad virá acompanhado de 200 empresários. Mas não é o roteiro de Ahmadinejad que chama a atenção. O que tem eriçado a opinião pública são as políticas adotadas pelo presidente iraniano. Ahmadinejad executa homossexuais, frauda eleições, tortura opositores políticos, sustenta economicamente países falidos como Cuba e Nicarágua, para transformá-los em massa de manobra geopolítica. Ahmadinejad preside um país onde os direitos humanos não são respeitados, onde minorias religiosas e as mulheres são discriminadas.
De todas as questões que podem ser levantadas contra o regime de Ahmadinejad, entre elas o desenvolvimento de armas nucleares e a negação do holocausto judeu, três são irrefutáveis e odiosas: a perseguição aos homossexuais, a discriminação das mulheres e o cerceamento da liberdade de expressão e de pensamento.
Na entrevista concedida ao jornalista William Waack, quando indagado sobre suas declarações contra homossexuais, Ahmadinejad sorriu e disparou a seguinte insanidade: “Eu não espero que todas as pessoas do mundo concordem com minhas opiniões. As pessoas têm visões diferentes. Mas pensamos que homossexualidade é contra a natureza. Penso que se a homossexualidade se expandir a humanidade vai deixar de existir. É o caminho errado. É perverso. Todas as profecias divinas condenam esse caminho. Isso vai causar uma série de doenças físicas e sociais.”
Não foi a primeira vez que o presidente do Irã expôs de forma tão clara sua posição totalitarista. Em 2007, durante um evento na Universidade Columbia, em Nova York, ele já havia desafiado a lógica ao dizer que não existem homossexuais no Irã. “Nós não temos isto em nosso país. No Irã, nós não temos homossexuais como no seu país (os EUA).”
Em entrevista à BBC Brasil, pouco depois das declarações de Ahmadinejad em Columbia, o ativista Arsham Parsi, diretor executivo da IRQO (Iranian Queer Organization), uma organização iraniana que luta pelos direitos dos homossexuais, disse que os gays do Irã vivem sob constante ameaça não apenas da polícia e do governo, como também da sociedade: “A vida para um gay iraniano é muito dura, por falta de informação sobre o assunto e falta de segurança também. Ele tem que usar uma máscara 24 horas por dia. Você não pode ser jovem e gay no Irã.”
Vivendo atualmente no Canadá, Parsi fugiu do Irã em 2005 quando descobriu que a polícia pretendia prendê-lo por suas atividades em devesa dos homossexuais: “Comecei a organização no Irã através de uma rede de e-mails. Ela foi crescendo e em 2005 recebi ameaças por ser ativista. Eu trabalhava em casa, tinha meu telefone divulgado, e a polícia havia me rastreado. Quando descobri, deixei o Irã em dois dias, e nunca mais voltei.”
Segundo Parsi, de acordo com a sharia (conjunto de leis e regras de comportamento prescritas para os muçulmanos), os homossexuais podem ser perseguidos e condenados à morte por apedrejamento, forca, corte por espada ou sendo jogados do alto de um penhasco. Um juiz da corte islâmica decide como ele deve ser morto. “É impossível saber os números de execuções por homossexualidade, porque eles não são divulgados pelo Ministério da Justiça.”
A QUESTÃO FEMININA
A questão feminina no Irã é outro ponto importante quando analisamos o regime representando por Ahmadinejad. Poucas são as mulheres iranianas que ousam desafiar as leis impostas desde a Revolução Islâmica. Algumas, no entanto, levantaram sua voz, como Azar Nafisi. Professora de literatura inglesa na Universidade Johns Hopkins, em Washington, ela é autora do livro Lendo Lolita em Teerã, um retrato sensível e chocante da situação das mulheres no Irã no início do século 21, que relata a experiência de Nafisi e de sete alunas da época em que ela lecionava na Universidade de Teerã. Por dois anos elas desafiaram a repressão do regime em encontros semanais onde discutiam autores proibidos no país, como Henry James e Vladimir Nabokov.
Os relatos de Nasifi sobre as condições do Irã logo após a revolução são um retrato melhorado do que ocorreu em outros países nos quais o fundamentalismo islâmico assumiu o poder, como o Afeganistão, onde um grupelho transformou em lei uma versão tacanha da sharia.
"A idade mínima para o casamento passou de 18 para 9 anos. O apedrejamento até a morte se tornou o castigo para o adultério e a prostituição. Nos ônibus, adotou-se a segregação. Destinaram-se às mulheres a porta traseira e os assentos no fundo do veículo… Um vestígio de maquiagem, uma mecha de cabelo para fora do véu e eles vinham, implacáveis. Prendiam-nos, arremessavam-nos para dentro de carros, deixavam-nos em prisões imundas, chicoteavam-nos. Por fim, jogavam-nos nas ruas. A situação era pior para as solteiras. Muitas de minhas alunas tiveram de passar por coisa pior, como o teste de virgindade. Não havia nada mais humilhante e nojento do que aquilo, feito em qualquer lugar, sem nenhuma assepsia, a qualquer hora. Quantas jovens não foram presas e chicoteadas só porque, sem querer, cruzaram o olhar com o de um guarda?"
A situação iraniana hoje é menos sufocante, as mulheres podem se dar ao luxo de usar véus coloridos e batom – mas as leis discriminatórias continuam as mesmas. Uma mulher vale a metade de um homem em depoimentos no tribunal e em casos de indenização. Na divisão da herança, uma filha pode levar apenas metade da quantia recebida por seus irmãos. Uma menina pode ser forçada a se casar a partir dos 13 anos, e seu marido pode proibi-la de trabalhar fora de casa ou estudar quando quiser. Para viajar ao exterior, é necessária uma permissão por escrito do marido. Caso se divorciem, ele ganha a custódia dos filhos com mais de 7 anos. Elas são proibidas de ser magistradas e não ocupam o posto de ministra há três décadas.
REPRESSÃO
O ex-vice-presidente reformista do Irã, Mohammad Ali Abtahi, acusado de fomentar protestos de rua após a eleição presidencial de junho, foi solto ontem (domingo, 22) depois do pagamento de uma fiança de 700 mil dólares. Ele havia sido condenado a seis anos de prisão. O Judiciário do Irã disse na semana passada que cinco pessoas foram condenadas à pena de morte e 81 à permanência de até 15 anos na prisão devido aos protestos e atos violentos após as eleições.
Esta é uma faceta macabra do regime iraniano, a total ausência de liberdade de exprimir convicções. Teerã não tolera a diferença. Durante os protestos de junho, o Twitter foi uma importante ferramenta de interação e de manifestação política, sustentando os opositores de Mahmoud Ahmadinejad, driblando a censura e levando ao mundo imagens da repressão.
Incapaz de conter as manifestações em massa da oposição, o governo iraniano ampliou o cerco à veiculação dos protestos. A Guarda Revolucionária emitiu um alerta a blogueiros e usuários de outras ferramentas de mídia online exigindo que todo conteúdo que “crie tensão” fosse eliminado de suas páginas na Internet. O ambiente virtual foi o refúgio das centenas de milhares de opositores diante da expulsão dos jornalistas estrangeiros e do silêncio da mídia estatal sobre a crise política no país.
De todas as questões que podem ser levantadas contra o regime de Ahmadinejad, entre elas o desenvolvimento de armas nucleares e a negação do holocausto judeu, três são irrefutáveis e odiosas: a perseguição aos homossexuais, a discriminação das mulheres e o cerceamento da liberdade de expressão e de pensamento.
Na entrevista concedida ao jornalista William Waack, quando indagado sobre suas declarações contra homossexuais, Ahmadinejad sorriu e disparou a seguinte insanidade: “Eu não espero que todas as pessoas do mundo concordem com minhas opiniões. As pessoas têm visões diferentes. Mas pensamos que homossexualidade é contra a natureza. Penso que se a homossexualidade se expandir a humanidade vai deixar de existir. É o caminho errado. É perverso. Todas as profecias divinas condenam esse caminho. Isso vai causar uma série de doenças físicas e sociais.”Não foi a primeira vez que o presidente do Irã expôs de forma tão clara sua posição totalitarista. Em 2007, durante um evento na Universidade Columbia, em Nova York, ele já havia desafiado a lógica ao dizer que não existem homossexuais no Irã. “Nós não temos isto em nosso país. No Irã, nós não temos homossexuais como no seu país (os EUA).”
Em entrevista à BBC Brasil, pouco depois das declarações de Ahmadinejad em Columbia, o ativista Arsham Parsi, diretor executivo da IRQO (Iranian Queer Organization), uma organização iraniana que luta pelos direitos dos homossexuais, disse que os gays do Irã vivem sob constante ameaça não apenas da polícia e do governo, como também da sociedade: “A vida para um gay iraniano é muito dura, por falta de informação sobre o assunto e falta de segurança também. Ele tem que usar uma máscara 24 horas por dia. Você não pode ser jovem e gay no Irã.”
Vivendo atualmente no Canadá, Parsi fugiu do Irã em 2005 quando descobriu que a polícia pretendia prendê-lo por suas atividades em devesa dos homossexuais: “Comecei a organização no Irã através de uma rede de e-mails. Ela foi crescendo e em 2005 recebi ameaças por ser ativista. Eu trabalhava em casa, tinha meu telefone divulgado, e a polícia havia me rastreado. Quando descobri, deixei o Irã em dois dias, e nunca mais voltei.”
Segundo Parsi, de acordo com a sharia (conjunto de leis e regras de comportamento prescritas para os muçulmanos), os homossexuais podem ser perseguidos e condenados à morte por apedrejamento, forca, corte por espada ou sendo jogados do alto de um penhasco. Um juiz da corte islâmica decide como ele deve ser morto. “É impossível saber os números de execuções por homossexualidade, porque eles não são divulgados pelo Ministério da Justiça.”
A QUESTÃO FEMININA
A questão feminina no Irã é outro ponto importante quando analisamos o regime representando por Ahmadinejad. Poucas são as mulheres iranianas que ousam desafiar as leis impostas desde a Revolução Islâmica. Algumas, no entanto, levantaram sua voz, como Azar Nafisi. Professora de literatura inglesa na Universidade Johns Hopkins, em Washington, ela é autora do livro Lendo Lolita em Teerã, um retrato sensível e chocante da situação das mulheres no Irã no início do século 21, que relata a experiência de Nafisi e de sete alunas da época em que ela lecionava na Universidade de Teerã. Por dois anos elas desafiaram a repressão do regime em encontros semanais onde discutiam autores proibidos no país, como Henry James e Vladimir Nabokov.Os relatos de Nasifi sobre as condições do Irã logo após a revolução são um retrato melhorado do que ocorreu em outros países nos quais o fundamentalismo islâmico assumiu o poder, como o Afeganistão, onde um grupelho transformou em lei uma versão tacanha da sharia.
"A idade mínima para o casamento passou de 18 para 9 anos. O apedrejamento até a morte se tornou o castigo para o adultério e a prostituição. Nos ônibus, adotou-se a segregação. Destinaram-se às mulheres a porta traseira e os assentos no fundo do veículo… Um vestígio de maquiagem, uma mecha de cabelo para fora do véu e eles vinham, implacáveis. Prendiam-nos, arremessavam-nos para dentro de carros, deixavam-nos em prisões imundas, chicoteavam-nos. Por fim, jogavam-nos nas ruas. A situação era pior para as solteiras. Muitas de minhas alunas tiveram de passar por coisa pior, como o teste de virgindade. Não havia nada mais humilhante e nojento do que aquilo, feito em qualquer lugar, sem nenhuma assepsia, a qualquer hora. Quantas jovens não foram presas e chicoteadas só porque, sem querer, cruzaram o olhar com o de um guarda?"
A situação iraniana hoje é menos sufocante, as mulheres podem se dar ao luxo de usar véus coloridos e batom – mas as leis discriminatórias continuam as mesmas. Uma mulher vale a metade de um homem em depoimentos no tribunal e em casos de indenização. Na divisão da herança, uma filha pode levar apenas metade da quantia recebida por seus irmãos. Uma menina pode ser forçada a se casar a partir dos 13 anos, e seu marido pode proibi-la de trabalhar fora de casa ou estudar quando quiser. Para viajar ao exterior, é necessária uma permissão por escrito do marido. Caso se divorciem, ele ganha a custódia dos filhos com mais de 7 anos. Elas são proibidas de ser magistradas e não ocupam o posto de ministra há três décadas.
REPRESSÃO
O ex-vice-presidente reformista do Irã, Mohammad Ali Abtahi, acusado de fomentar protestos de rua após a eleição presidencial de junho, foi solto ontem (domingo, 22) depois do pagamento de uma fiança de 700 mil dólares. Ele havia sido condenado a seis anos de prisão. O Judiciário do Irã disse na semana passada que cinco pessoas foram condenadas à pena de morte e 81 à permanência de até 15 anos na prisão devido aos protestos e atos violentos após as eleições.Esta é uma faceta macabra do regime iraniano, a total ausência de liberdade de exprimir convicções. Teerã não tolera a diferença. Durante os protestos de junho, o Twitter foi uma importante ferramenta de interação e de manifestação política, sustentando os opositores de Mahmoud Ahmadinejad, driblando a censura e levando ao mundo imagens da repressão.
Incapaz de conter as manifestações em massa da oposição, o governo iraniano ampliou o cerco à veiculação dos protestos. A Guarda Revolucionária emitiu um alerta a blogueiros e usuários de outras ferramentas de mídia online exigindo que todo conteúdo que “crie tensão” fosse eliminado de suas páginas na Internet. O ambiente virtual foi o refúgio das centenas de milhares de opositores diante da expulsão dos jornalistas estrangeiros e do silêncio da mídia estatal sobre a crise política no país.
Leia mais sobre este tema:
domingo, 22 de novembro de 2009
sábado, 21 de novembro de 2009
Poesia aos sábados
para L.Rafael Nolli, que me ajudou a aparar as arestas do poema.
Só sou sincero no momento do orgasmo.
Para todo o resto na vida há as mentiras.
No jorro de um branco híbrido
Lançamos ao mundo ralas tentativas
De ilustrar divindade.
O sêmen é a alma em estado líquido.
Tive sede de verdades.
Degustei-as antes de engoli-las,
Gota após gota,
Saboreando em minha curiosa língua
Litros e mais litros
Temperados por minha cínica saliva
Tendo os dentes como represas…
A minha busca é fina.
Já percebo a sutileza do que finda
E busco sua perpetuação.
Um aceno de mão, um gesto,
Um giro de tronco,
Um arquear de pernas,
Um dar de ombros,
São movimentos efêmeros,
Como peixe escrevendo na água.
Uma vez feitos
Perdem sua força de intenção,
Esgotam-se no espaço.
Por isso os guardo para mim.
Porque são mais poderosos quando não existem.
Minha busca é neutralizar o supérfluo,
É conter energia avulsa, potencializando-a.
Por isso me sinto tão bem aqui dentro,
É todo o chão que preciso.
A atrofia do corpo dilata a mente.
Fortalece as utopias.
De quase tudo me livrei.
Do verbo ainda não,
Esse movimento invisível
Igual vôo de pássaro riscando horizonte.
Ainda não o sublimei.
Ainda escrevo palavras fantasmagóricas:
Cheias de som, mas sem corpo algum.
Quem sabe quando morrer
Ou então
Quando não forem meus dentes mais represas
Nem minha língua abrigo de cinismo
Nem minha saliva o motivo da minha embriaguez
Quem sabe
(talvez) Eu me cale?
O paraíso foi antes.
Tiago Tenório, esta semana, no Poema Dia
Só sou sincero no momento do orgasmo.
Para todo o resto na vida há as mentiras.
No jorro de um branco híbrido
Lançamos ao mundo ralas tentativas
De ilustrar divindade.
O sêmen é a alma em estado líquido.
Tive sede de verdades.
Degustei-as antes de engoli-las,
Gota após gota,
Saboreando em minha curiosa língua
Litros e mais litros
Temperados por minha cínica saliva
Tendo os dentes como represas…
A minha busca é fina.
Já percebo a sutileza do que finda
E busco sua perpetuação.
Um aceno de mão, um gesto,
Um giro de tronco,
Um arquear de pernas,
Um dar de ombros,
São movimentos efêmeros,
Como peixe escrevendo na água.
Uma vez feitos
Perdem sua força de intenção,
Esgotam-se no espaço.
Por isso os guardo para mim.
Porque são mais poderosos quando não existem.
Minha busca é neutralizar o supérfluo,
É conter energia avulsa, potencializando-a.
Por isso me sinto tão bem aqui dentro,
É todo o chão que preciso.
A atrofia do corpo dilata a mente.
Fortalece as utopias.
De quase tudo me livrei.
Do verbo ainda não,
Esse movimento invisível
Igual vôo de pássaro riscando horizonte.
Ainda não o sublimei.
Ainda escrevo palavras fantasmagóricas:
Cheias de som, mas sem corpo algum.
Quem sabe quando morrer
Ou então
Quando não forem meus dentes mais represas
Nem minha língua abrigo de cinismo
Nem minha saliva o motivo da minha embriaguez
Quem sabe
(talvez) Eu me cale?
O paraíso foi antes.
Tiago Tenório, esta semana, no Poema Dia
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Poema de fé
Em minha mão direita trago uma pedra
na esquerda um afago
que estendo como sinal de fé.
Meu punho cerrado estendo aos santos vivos,
imaculados.
Aqui deste lado ostento uma reza
do outro um abraço
que ofereço a quem quiser.
Minha boca sedenta ofereço aos mortos vivos,
crucificados.
na esquerda um afago
que estendo como sinal de fé.
Meu punho cerrado estendo aos santos vivos,
imaculados.
Aqui deste lado ostento uma reza
do outro um abraço
que ofereço a quem quiser.
Minha boca sedenta ofereço aos mortos vivos,
crucificados.
Fanatismo religioso não atrapalhou a marcha pela diversidade
Mais uma vez a homofobia mostrou a sua cara em Campo Grande, desta vez pelas mãos de gente quer impor suas verdades religiosas ao mundo. Durante a 8ª Parada da Diversidade, realizada hoje na cidade, os participantes foram surpreendidos por enormes pichações pregando a “salvação”. Na Avenida Afonso Pena destacava-se a seguinte frase: “O pecado não se ama. Jesus sim se ama”. No cruzamento com a 14 de julho, letras garrafais diziam: “Jesus Voltará”, e na 14 de julho, em frente ao ponto de ônibus da praça estava escrito: “Buscai o Senhor enquanto se pode achar”.
Apesar do obscurantismo, a passeata prosseguiu sem incidentes e reuniu cerca de 10 mil pessoas. Até os comerciantes locais, que segundo alguns vereadores campo-grandenses estariam insatisfeitos com a realização do evento em uma sexta-feira, apoiaram a manifestação. A decisão da juíza Katy Braun do Prado, titular da Vara da Infância, Juventude e Idoso da Comarca de Campo Grande, que proibiu a participação de menores no evento foi solenemente ignorada. Famílias inteiras compareceram à festa da diversidade.
Veja a cobertura do Campo Grande News:
18:10 - Parada Gay reúne 7 mil pessoas no centro de Campo Grande
17:11 - Além de adolescentes, crianças também estão na parada
16:36 - Adolescentes desafiam juíza e lotam Parada Gay no centro
14:30 - Agetran considera lamentável pichação de frase religiosa
10:00 - No dia da Parada Gay, religiosos pregam “salvação”
E do Midiamax:
19h00 - Igualdade: Público contraria ordem de juíza e leva filhos à Parada Gay; PM estima 5 mil pessoas
17h49 - Athayde participa da Parada Gay e dá o tom político ao evento
17h18 - Parada da Diversidade para o Centro da Capital
16h46 - Começa a Parada Gay, PM estima que 15 mil participam
16h42 - Crianças só podem ficar na praça, não vão à Parada, avisa PM
16h02 - Famílias ignoram Justiça e levam crianças à Parada
11h03 - Ruas em volta da praça amanhecem pichadas com frases contra a Parada da Diversidade
Leia mais sobre este tema:
- 8ª Parada da Diversidade Sexual acontece hoje em Campo Grande, apesar da Intolerância
- Imprensa precisa ajustar o foco ao tratar da homossexualidade
- Orientação sexual em MS
- Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay
- Eles eram mais livres
- Preconceito e cidadania
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado
Apesar do obscurantismo, a passeata prosseguiu sem incidentes e reuniu cerca de 10 mil pessoas. Até os comerciantes locais, que segundo alguns vereadores campo-grandenses estariam insatisfeitos com a realização do evento em uma sexta-feira, apoiaram a manifestação. A decisão da juíza Katy Braun do Prado, titular da Vara da Infância, Juventude e Idoso da Comarca de Campo Grande, que proibiu a participação de menores no evento foi solenemente ignorada. Famílias inteiras compareceram à festa da diversidade.Veja a cobertura do Campo Grande News:
18:10 - Parada Gay reúne 7 mil pessoas no centro de Campo Grande
17:11 - Além de adolescentes, crianças também estão na parada
16:36 - Adolescentes desafiam juíza e lotam Parada Gay no centro
14:30 - Agetran considera lamentável pichação de frase religiosa
10:00 - No dia da Parada Gay, religiosos pregam “salvação”
E do Midiamax:
19h00 - Igualdade: Público contraria ordem de juíza e leva filhos à Parada Gay; PM estima 5 mil pessoas
17h49 - Athayde participa da Parada Gay e dá o tom político ao evento
17h18 - Parada da Diversidade para o Centro da Capital
16h46 - Começa a Parada Gay, PM estima que 15 mil participam
16h42 - Crianças só podem ficar na praça, não vão à Parada, avisa PM
16h02 - Famílias ignoram Justiça e levam crianças à Parada
11h03 - Ruas em volta da praça amanhecem pichadas com frases contra a Parada da Diversidade
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- Imprensa precisa ajustar o foco ao tratar da homossexualidade
- Orientação sexual em MS
- Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay
- Eles eram mais livres
- Preconceito e cidadania
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado
8ª Parada da Diversidade Sexual acontece hoje em Campo Grande, apesar da intolerância
A 8ª Parada da Diversidade Sexual de Campo Grande, conhecida popularmente como Parada Gay, será realizada nesta sexta-feira, com programação ao longo de todo o dia, a partir das 8h, na Ary Coelho, com a entrega de preservativos e materiais didáticos, pedagógicos e preventivos. No ano passado a parada reuniu 30 mil pessoas.
Organizado pela Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS), o evento contará, ainda, com a 1ª Gincana da Diversidade, com a arrecadação de alimentos não-perecíveis, além de coleta de sangue para teste de HIV.
Às 15 horas, também na praça, começa a concentração para a marcha pela cidadania e pela diversidade com início previsto para uma hora depois. A passeata irá percorrer as ruas 14 de Julho, Marechal Rondon, 13 de Maio e Barão, terminando a Praça do Rádio Clube.
O evento continua às 18h com o show na Praça do Rádio Clube com drags de São Paulo, go-go boys, Michele e Banda, Unidos da Vila Cruzeiro e Banda Fascínio. O último evento será a festa oficial no Bistrot, na rua Pimenta Bueno, 127.
O governador André Puccinelli, que recentemente chamou o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, de viado e disse que, se caso o encontrasse, o estupraria em praça pública, está entre os convidados e patrocinadores.
Campo Grande tem um histórico de homofobia pouco honroso. No ano passado, a Câmara Municipal, inflamada pelas bancadas evangélica e católica, negou a concessão de um título de utilidade pública para a ATMS. Agora, a mesma histeria surge em ações que procuram “proteger” o cidadão.
A juíza da Vara da Infância, Juventude e Idoso, Katy Braun do Prado, por exemplo, proibiu a participação de crianças e adolescentes menores de 16 anos de idade na parada.
A Câmara Municipal, que poderia ter evoluído, volta a mostrar que permanece na idade das trevas. O presidente da Casa, Paulo Siufi (PMDB), criticou a realização do evento, afirmando que o mesmo vai prejudicar o comércio. Em aparte, o vereador Carlão (PSB) criticou o apoio da Fundação Municipal de Cultura, afirmando que o movimento “não vai agregar em nada” e que “pode virar baderna”. Paulo Pedra (PDT) e Flávio César (PT do B) afirmaram que são favoráveis a manifestações, mas que são contra a realização do evento em dias da semana. “Aqui nesta Casa nenhum vereador esta se posicionando de forma preconceituosa, mas está defendendo o interesse do comércio da cidade”, disse Flávio César.
Pois sim... Falta verdade interior para assumir que a preocupação tem fundamento no preconceito e na intolerância. Lamentável.
Organizado pela Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS), o evento contará, ainda, com a 1ª Gincana da Diversidade, com a arrecadação de alimentos não-perecíveis, além de coleta de sangue para teste de HIV.
Às 15 horas, também na praça, começa a concentração para a marcha pela cidadania e pela diversidade com início previsto para uma hora depois. A passeata irá percorrer as ruas 14 de Julho, Marechal Rondon, 13 de Maio e Barão, terminando a Praça do Rádio Clube.
O evento continua às 18h com o show na Praça do Rádio Clube com drags de São Paulo, go-go boys, Michele e Banda, Unidos da Vila Cruzeiro e Banda Fascínio. O último evento será a festa oficial no Bistrot, na rua Pimenta Bueno, 127.
O governador André Puccinelli, que recentemente chamou o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, de viado e disse que, se caso o encontrasse, o estupraria em praça pública, está entre os convidados e patrocinadores.
Campo Grande tem um histórico de homofobia pouco honroso. No ano passado, a Câmara Municipal, inflamada pelas bancadas evangélica e católica, negou a concessão de um título de utilidade pública para a ATMS. Agora, a mesma histeria surge em ações que procuram “proteger” o cidadão.
A juíza da Vara da Infância, Juventude e Idoso, Katy Braun do Prado, por exemplo, proibiu a participação de crianças e adolescentes menores de 16 anos de idade na parada.
A Câmara Municipal, que poderia ter evoluído, volta a mostrar que permanece na idade das trevas. O presidente da Casa, Paulo Siufi (PMDB), criticou a realização do evento, afirmando que o mesmo vai prejudicar o comércio. Em aparte, o vereador Carlão (PSB) criticou o apoio da Fundação Municipal de Cultura, afirmando que o movimento “não vai agregar em nada” e que “pode virar baderna”. Paulo Pedra (PDT) e Flávio César (PT do B) afirmaram que são favoráveis a manifestações, mas que são contra a realização do evento em dias da semana. “Aqui nesta Casa nenhum vereador esta se posicionando de forma preconceituosa, mas está defendendo o interesse do comércio da cidade”, disse Flávio César.
Pois sim... Falta verdade interior para assumir que a preocupação tem fundamento no preconceito e na intolerância. Lamentável.
Leia mais sobre este tema:
- Imprensa precisa ajustar o foco ao tratar da homossexualidade
- Orientação sexual em MS
- Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay
- Eles eram mais livres
- Preconceito e cidadania
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado
- Orientação sexual em MS
- Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay
- Eles eram mais livres
- Preconceito e cidadania
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
A banalidade da violência no trânsito
A morte do menino Rogério Mendonça, de apenas 2 anos, baleado ontem durante uma briga de trânsito no centro de Campo Grande (MS), traz à tona uma questão que atormenta a sociedade: a violência gratuita. Rogério foi morto pelo jornalista Agnaldo Ferreira Gonçalves, de 60 anos, que disparou 5 vezes contra a camionete onde estava o menino, e também pelo próprio tio, Aldemir Pedra Neto, 22, que, ao usar seu veículo de forma irresponsável (não pela primeira vez) e agredir Gonçalves a chutes e socos, desencadeou uma seqüência de acontecimentos que levou a morte do único inocente nesta história: o pequeno Rogério.
Apesar do horror, este tipo de tragédia ocorre frequentemente nas ruas e estradas do país. Todos os anos, dezenas de milhares de pessoas são mortas a tiros no Brasil. Somos, segundo a Unesco, um dos países em que mais se mata com arma de fogo no mundo. O Brasil responde, aproximadamente, por 3% da população mundial, mas ao mesmo tempo responde por 8% das mortes por arma de fogo no mundo.
Ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa, entre todas as mortes por armas de fogo, apenas 5% são o resultado de latrocínio (roubo seguido de morte). A maioria destes homicídios é cometida por desentendimentos banais que desencadeiam agressões no trânsito, boates, bares, torcidas de futebol ou mesmo em casa. Qualquer um pode perder a cabeça e, com uma arma ao alcance da mão, se transformar em um assassino.
Números do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro, por exemplo, mostram que foram registrados de janeiro a maio deste ano 1.015 casos de homicídio culposo nas ruas do estado. Houve ainda, no mesmo período, 16.534 casos de lesão corporal. Os números impressionam e não se referem apenas a acidentes entre veículos, mas também ao resultado de agressões entre motoristas, muitas vezes armados. Em São Paulo, o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), o 190, registra 20 brigas por dia entre motoristas de trânsito. É dessa maneira violenta que eles reagem à fechadas, colisões, buzinadas, palavrões e gestos ofensivos.
Segundo o presidente da Associação Brasileira de Motoristas (ABM), Antônio Carlos da Costa, a experiência mostra que, na maioria das vezes, esses poucos segundos de fúria, causados pelo estresse ao volante, podem levar o motorista a se tornar um criminoso. “O motorista das grandes cidades do país se sente acuado, amedrontado, assim que ele se posiciona em frente ao volante. Por causa disso, muitas vezes, motivos banais ganham uma proporção absurda e terminam aumentando as estatísticas da violência no país” analisa.
Pesquisa realizada pelo Instituto Gallup em 23 países, há seis anos (o Brasil não foi incluído) aponta que 66% dos americanos e 48% dos europeus já se envolveram em incidentes relacionados à direção agressiva. De acordo com um levantamento da Associação Brasileira de Monitoramento e Controle Eletrônico de Trânsito (Abramcet), divulgado em recente reportagem da Veja, os engarrafamentos são a fonte número 1 de irritação para 61% dos 1.500 motoristas de oito capitais brasileiras. A mesma reportagem cita um estudo recente do psicólogo americano Jerry Deffenbacher, da Universidade do Colorado, segundo o qual, quem está irritado se envolve duas vezes mais em situações de risco e comete até quatro vezes mais agressões ao volante de um carro.
No entanto, nada justifica a violência gratuita, e ela se reflete em uma rápida pesquisa no Google.
Em fevereiro, Jefferson Leite, 23, foi assassinado no Paraná após uma leve batida em um carro. Em abril, Edson Luiz Lopo, 41, foi baleado em Campo Grande (MS) após ter encostado seu Monza em um Gol ao estacionar o veículo. No mesmo mês, também no Paraná, Marcio José Marçal levou dois tiros na perna e Lucília Santos Marçal foi atingida nas nádegas após intervirem em uma briga de trânsito. Em junho, em Curitiba, um motorista de caminhão e sua família envolveram-se em um confronto contra um motorista exaltado armado com uma caneta (e se fosse uma pistola?). Em agosto, dois motoristas perderam a cabeça na Mooca e protagonizaram uma cena que por pouco não terminou em tragédia. No último dia 8, também em Curitiba, Adilson dos Santos, 28, levou dois tiros após discutir com um homem que estava em um Gol. O autor dos disparos fugiu, mas voltou minutos depois e deu mais dois tiros na cabeça vítima.
Casos como estes são apenas a ponta do iceberg. Diariamente pessoas são agredidas no trânsito mundo afora. Casos como a covarde agressão de três homens contra um casal (a mulher grávida de sete meses), em 2007, a explosão de fúria de uma mulher em um engarrafamento mostram o ponto em que chegamos. A imensa maioria dos casos poderia ser evitada apenas com bom senso e respeito ao próximo.
Apesar do horror, este tipo de tragédia ocorre frequentemente nas ruas e estradas do país. Todos os anos, dezenas de milhares de pessoas são mortas a tiros no Brasil. Somos, segundo a Unesco, um dos países em que mais se mata com arma de fogo no mundo. O Brasil responde, aproximadamente, por 3% da população mundial, mas ao mesmo tempo responde por 8% das mortes por arma de fogo no mundo.
Ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa, entre todas as mortes por armas de fogo, apenas 5% são o resultado de latrocínio (roubo seguido de morte). A maioria destes homicídios é cometida por desentendimentos banais que desencadeiam agressões no trânsito, boates, bares, torcidas de futebol ou mesmo em casa. Qualquer um pode perder a cabeça e, com uma arma ao alcance da mão, se transformar em um assassino.
Números do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro, por exemplo, mostram que foram registrados de janeiro a maio deste ano 1.015 casos de homicídio culposo nas ruas do estado. Houve ainda, no mesmo período, 16.534 casos de lesão corporal. Os números impressionam e não se referem apenas a acidentes entre veículos, mas também ao resultado de agressões entre motoristas, muitas vezes armados. Em São Paulo, o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), o 190, registra 20 brigas por dia entre motoristas de trânsito. É dessa maneira violenta que eles reagem à fechadas, colisões, buzinadas, palavrões e gestos ofensivos.
Segundo o presidente da Associação Brasileira de Motoristas (ABM), Antônio Carlos da Costa, a experiência mostra que, na maioria das vezes, esses poucos segundos de fúria, causados pelo estresse ao volante, podem levar o motorista a se tornar um criminoso. “O motorista das grandes cidades do país se sente acuado, amedrontado, assim que ele se posiciona em frente ao volante. Por causa disso, muitas vezes, motivos banais ganham uma proporção absurda e terminam aumentando as estatísticas da violência no país” analisa.
Pesquisa realizada pelo Instituto Gallup em 23 países, há seis anos (o Brasil não foi incluído) aponta que 66% dos americanos e 48% dos europeus já se envolveram em incidentes relacionados à direção agressiva. De acordo com um levantamento da Associação Brasileira de Monitoramento e Controle Eletrônico de Trânsito (Abramcet), divulgado em recente reportagem da Veja, os engarrafamentos são a fonte número 1 de irritação para 61% dos 1.500 motoristas de oito capitais brasileiras. A mesma reportagem cita um estudo recente do psicólogo americano Jerry Deffenbacher, da Universidade do Colorado, segundo o qual, quem está irritado se envolve duas vezes mais em situações de risco e comete até quatro vezes mais agressões ao volante de um carro.
No entanto, nada justifica a violência gratuita, e ela se reflete em uma rápida pesquisa no Google.
Em fevereiro, Jefferson Leite, 23, foi assassinado no Paraná após uma leve batida em um carro. Em abril, Edson Luiz Lopo, 41, foi baleado em Campo Grande (MS) após ter encostado seu Monza em um Gol ao estacionar o veículo. No mesmo mês, também no Paraná, Marcio José Marçal levou dois tiros na perna e Lucília Santos Marçal foi atingida nas nádegas após intervirem em uma briga de trânsito. Em junho, em Curitiba, um motorista de caminhão e sua família envolveram-se em um confronto contra um motorista exaltado armado com uma caneta (e se fosse uma pistola?). Em agosto, dois motoristas perderam a cabeça na Mooca e protagonizaram uma cena que por pouco não terminou em tragédia. No último dia 8, também em Curitiba, Adilson dos Santos, 28, levou dois tiros após discutir com um homem que estava em um Gol. O autor dos disparos fugiu, mas voltou minutos depois e deu mais dois tiros na cabeça vítima.
Casos como estes são apenas a ponta do iceberg. Diariamente pessoas são agredidas no trânsito mundo afora. Casos como a covarde agressão de três homens contra um casal (a mulher grávida de sete meses), em 2007, a explosão de fúria de uma mulher em um engarrafamento mostram o ponto em que chegamos. A imensa maioria dos casos poderia ser evitada apenas com bom senso e respeito ao próximo.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
"Para calar um blogueiro, é preciso eliminá-lo ou intimidá-lo"
Quem vê a cubana Yoani Sánchez, blogueira conhecida por driblar a censura, automaticamente se contrai só de pensar no sofrimento a que seu corpo frágil, de apenas 49 quilos, foi submetido enquanto era surrada por três brutamontes dentro de um carro. Na tarde da sexta-feira 6, Yoani estava a caminho de uma quase impossível manifestação de protesto em Havana quando foi atacada por agentes da polícia política. Sofreu ameaças e espancamentos antes de ser jogada na calçada de um bairro longínquo. Yoani escreve há dois anos sobre as dificuldades de viver na ilha no blog Generación Y e é autora do livro De Cuba, com Carinho (Contexto). Vive sob vigilância, mas nunca havia sido fisicamente atacada. Aqui, ela descreve o ocorrido e, com a habitual coragem, manda um recado ao "general" Raúl Castro. De muletas, sequela do espancamento que a imobilizou em casa, pediu a uma amiga que levasse o relato em um pen drive até um ponto de acesso à internet para enviá-lo por e-mail.
"Não era uma sexta-feira qualquer. As comemorações do vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim se aproximavam e um grupo de jovens artistas cubanos planejava uma passeata contra a violência naquele dia. A tarde era cinza em uma cidade onde quase sempre brilha um sol inclemente, que nos faz caminhar colados às paredes para nos beneficiarmos da sombra. Estavam comigo Claudia Cadelo e Orlando Luís Pardo, dois autores de blogs que recebem milhares de visitas a cada semana. Enquanto andávamos, contei a eles sobre uma desconhecida que, dias antes, havia se aproximado e me perguntado: "Você não tem medo?", em referência, claro, ao fato de que digo livremente minhas opiniões em um país onde o governo detém o monopólio da verdade. Meus amigos sorriram quando narrei a eles a resposta que dei à transeunte angustiada: "Meu maior temor é ter de viver com medo". Não imaginava que em poucos minutos eu viveria o terror de um sequestro e enxergaria o rosto da impunidade policial em sua forma mais dura.
Eu caminhava pela Avenida dos Presidentes, em Havana, com a intenção de participar da demonstração pacifista convocada pelos jovens. À altura da Rua 29, a uns 300 metros de onde estavam os manifestantes, um carro da marca Geely, de fabricação chinesa, cor preta e placa amarela, de uso privado, parou diante de nós. Três homens em trajes civis nos mandaram entrar no automóvel. Não se identificaram nem mostraram um mandado de prisão. Eu me recusei a obedecer. Disse que, como não tinham ordem judicial, seria um sequestro. Depois de uma breve discussão, um deles chamou alguém pelo celular, pedindo orientações. Imediatamente, os três começaram a nos tratar com violência para que entrássemos no carro. Enquanto nos empurravam, os homens do automóvel negro usaram o celular outra vez e uma viatura da polícia se aproximou. Pensei que os policiais nos salvariam. Pedi ajuda a eles, explicando que estávamos sendo atacados por supostos sequestradores. Os homens que estavam à paisana então deram ordens aos policiais para levar Claudia Cadelo e outra amiga que estava conosco. Eles obedeceram e ignoraram o pedido de ajuda que eu e Orlando fazíamos. As pessoas que observavam a cena foram impedidas de prestar ajuda, com uma frase que resumia todo o pano de fundo ideológico da cena: "Não se metam. Eles são contrarrevolucionários". Fazendo uso de toda a força física e de um evidente conhecimento de artes marciais para nos dominar, obrigaram-nos a entrar no carro. Comigo empregaram especial violência, enfiando-me de cabeça para baixo e me mantendo imobilizada com um joelho sobre o peito.
Dentro do veículo e durante cerca vinte minutos, os sequestradores nos espancararam sem parar. Frases de mau presságio saíam da boca daqueles três profissionais da intimidação: "Yoani, isso é o seu fim", "Você não vai mais fazer palhaçadas", ou "Acabou a brincadeira". Achei que não sairia viva. Tentei escapar pela porta, mas não havia maçaneta para acionar. A certa altura, o carro parou. Eu já tinha perdido a noção do tempo. Do lado de fora, caía a noite. Finalmente, ambos fomos jogados em plena via pública, longe do lugar onde se realizava a passeata contra a violência.
Por causa dos golpes desferidos por esses profissionais da repressão, estou com a face esquerda inflamada. Tenho contusões na cabeça, nas pernas, nos glúteos e nos braços, além de uma forte dor na coluna, que me obriga a caminhar com muletas. Na noite de 7 de novembro, um sábado, fiz uma consulta médica, mas não quiseram redigir um exame de corpo de delito sobre os maus-tratos físicos. A médica teve de me atender na presença de um funcionário que estava ali apenas para me vigiar. Uma radiografia mostrou que não havia traumas internos, apesar dos sinais exteriores das pancadas. Recebi apenas algumas recomendações para minha recuperação.
Eu já me sinto fisicamente melhor e desde sexta-feira tenho uma ideia constante. As autoridades cubanas acabam de compreender que, para silenciar uma blogueira, não podem usar os mesmos métodos com os quais conseguiram calar tantos jornalistas. Ninguém pode despedir os impertinentes da web nem lhes prometer umas semanas na Praia de Varadero ou presenteá-los com um Lada. Muito menos podem ser cooptados com uma viagem para o Leste Europeu. Para calar um blogueiro, é preciso eliminá-lo ou intimidá-lo. Essa equação já começou a ser entendida pelo estado, pelo partido e pelo general."
"Não era uma sexta-feira qualquer. As comemorações do vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim se aproximavam e um grupo de jovens artistas cubanos planejava uma passeata contra a violência naquele dia. A tarde era cinza em uma cidade onde quase sempre brilha um sol inclemente, que nos faz caminhar colados às paredes para nos beneficiarmos da sombra. Estavam comigo Claudia Cadelo e Orlando Luís Pardo, dois autores de blogs que recebem milhares de visitas a cada semana. Enquanto andávamos, contei a eles sobre uma desconhecida que, dias antes, havia se aproximado e me perguntado: "Você não tem medo?", em referência, claro, ao fato de que digo livremente minhas opiniões em um país onde o governo detém o monopólio da verdade. Meus amigos sorriram quando narrei a eles a resposta que dei à transeunte angustiada: "Meu maior temor é ter de viver com medo". Não imaginava que em poucos minutos eu viveria o terror de um sequestro e enxergaria o rosto da impunidade policial em sua forma mais dura.
Eu caminhava pela Avenida dos Presidentes, em Havana, com a intenção de participar da demonstração pacifista convocada pelos jovens. À altura da Rua 29, a uns 300 metros de onde estavam os manifestantes, um carro da marca Geely, de fabricação chinesa, cor preta e placa amarela, de uso privado, parou diante de nós. Três homens em trajes civis nos mandaram entrar no automóvel. Não se identificaram nem mostraram um mandado de prisão. Eu me recusei a obedecer. Disse que, como não tinham ordem judicial, seria um sequestro. Depois de uma breve discussão, um deles chamou alguém pelo celular, pedindo orientações. Imediatamente, os três começaram a nos tratar com violência para que entrássemos no carro. Enquanto nos empurravam, os homens do automóvel negro usaram o celular outra vez e uma viatura da polícia se aproximou. Pensei que os policiais nos salvariam. Pedi ajuda a eles, explicando que estávamos sendo atacados por supostos sequestradores. Os homens que estavam à paisana então deram ordens aos policiais para levar Claudia Cadelo e outra amiga que estava conosco. Eles obedeceram e ignoraram o pedido de ajuda que eu e Orlando fazíamos. As pessoas que observavam a cena foram impedidas de prestar ajuda, com uma frase que resumia todo o pano de fundo ideológico da cena: "Não se metam. Eles são contrarrevolucionários". Fazendo uso de toda a força física e de um evidente conhecimento de artes marciais para nos dominar, obrigaram-nos a entrar no carro. Comigo empregaram especial violência, enfiando-me de cabeça para baixo e me mantendo imobilizada com um joelho sobre o peito.
Dentro do veículo e durante cerca vinte minutos, os sequestradores nos espancararam sem parar. Frases de mau presságio saíam da boca daqueles três profissionais da intimidação: "Yoani, isso é o seu fim", "Você não vai mais fazer palhaçadas", ou "Acabou a brincadeira". Achei que não sairia viva. Tentei escapar pela porta, mas não havia maçaneta para acionar. A certa altura, o carro parou. Eu já tinha perdido a noção do tempo. Do lado de fora, caía a noite. Finalmente, ambos fomos jogados em plena via pública, longe do lugar onde se realizava a passeata contra a violência.
Por causa dos golpes desferidos por esses profissionais da repressão, estou com a face esquerda inflamada. Tenho contusões na cabeça, nas pernas, nos glúteos e nos braços, além de uma forte dor na coluna, que me obriga a caminhar com muletas. Na noite de 7 de novembro, um sábado, fiz uma consulta médica, mas não quiseram redigir um exame de corpo de delito sobre os maus-tratos físicos. A médica teve de me atender na presença de um funcionário que estava ali apenas para me vigiar. Uma radiografia mostrou que não havia traumas internos, apesar dos sinais exteriores das pancadas. Recebi apenas algumas recomendações para minha recuperação.
Eu já me sinto fisicamente melhor e desde sexta-feira tenho uma ideia constante. As autoridades cubanas acabam de compreender que, para silenciar uma blogueira, não podem usar os mesmos métodos com os quais conseguiram calar tantos jornalistas. Ninguém pode despedir os impertinentes da web nem lhes prometer umas semanas na Praia de Varadero ou presenteá-los com um Lada. Muito menos podem ser cooptados com uma viagem para o Leste Europeu. Para calar um blogueiro, é preciso eliminá-lo ou intimidá-lo. Essa equação já começou a ser entendida pelo estado, pelo partido e pelo general."
O texto acima foi publicado originalmente na revista Veja.
Leia mais sobre este tema aqui:
Fotojornalismo
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Não tem jeito...
Não tem jeito. Chegar no poder é mudar a ordem de valores, seja qual for o partido. Segundo os políticos, quase tudo é justificável na política e somos nós que não entendemos como as coisas funcionam lá. Aprovar desvios e favorecimentos justifica-se para não perder o apoio da maioria. Votar pelo arquivamento de casos que incluem réus confessos, justifica-se pelo fato de ser do mesmo partido.
Onde está aquele PT que não tolerava falcatruas, favorecimentos e desvios de verba pública? Onde está aquele PSDB que recentemente discursou na tribuna do senado contra Sarney em nome da lisura? Onde está aquele PMDB de Ulysses e das diretas? Enfim… onde está o PDT dos discursos inflamados de Brizola, o PCdoB que luta contra as elites privilegiadas? E o que são os políticos hoje? Nao fazem parte de uma elite privilegiada em meio a milhões de miseráveis? Um POLITBURO tupiniquim?
Então, já que na política justifica-se quase tudo, vamos ser compreensivos e tentar entender. Mas você, político, que estiver lendo também tentará nos entender como eleitor, combinado? Considere isto como um teste e o percentual que atingir na somatória do “SIM” será proporcional ao caráter. Isto valerá também para você, eleitor. O fato de ter havido escândalos em outros governos não justifica os do governo atual. A intenção não é a de descobrir quem foi menos desonesto, concorda?
A relação abaixo encontra-se na UOL e foi levantado por Fernando Rodrigues em seu Blog. Para saber detalhes é só clicar no link do ítem correspondente. A pergunta é simples: Você acha que existem justificativas para os 102 escândalos abaixo?
01. Verba indenizatória secreta na Câmara e no Senado
02. Castelogate, o deputado Edmar Moreira e sua segurança privada
03. Agaciel Maia, diretor-geral do Senado, e sua mansão
04. Horas extras nas férias para funcionários da Câmara e do Senado
05. Chico Alencar (PSOL-RJ) contrata correligionário
06. Diretor do Senado usava apartamento funcional para família
07. Sarney utiliza seguranças do Senado no Maranhão
08. Empresas terceiras abrigam parentes de diretores e funcionários do Senado
09. Tião Viana empresta celular à filha em viagem ao México
10. Diretores no Senado: eram 181
11. Assessora de Roseana Sarney também era diretora
12. Renan emprega sogra de assessor, filho, fantasmas e aliado em AL
13. Filha de FHC trabalha de casa para senador
14. Diretora de comunicação do Senado em campanha
15. Deputado Alberto Fraga (DEM-DF) contrata empregada doméstica
16. Deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP) contrata empregada doméstica
17. Deputado José Paulo Tóffano (PV-SP) contrata empregada doméstica
18. Tasso Jereissati (PSDB-CE) e os loucos por jatinhos
19. Gráfica do Senado imprime material de campanha
20. Funcionários do sen. Adelmir Santana prestam serviço a vice-governador
21. Ministro Hélio Costa usa serviço de secretária paga por Wellington Salgado
22. Terceirização irregular no Senado
23. Dep. Fábio Faria pagou viagens para Carnatal e incluiu Adriane Galisteu
24. Ministros-deputados usam passagens da Câmara
25. Deputados fazem viagens internacionais pagas pela Câmara
26. Câmara e Senado perdoam todos delitos da farra aérea e fingem cortar gastos
27. Viúva do senador Jefferson Péres recebe sobra de passagens em dinheiro
28. Min. do Supremo Tribunal Federal entram na cota de passagens da Câmara
29. Senador Gerson Camata (PMDB-ES) acusado de uso de caixa dois
30. Delegado Protógenes Queiroz voou com passagens do PSOL
31. Membros Cons. de Ética usam passagens e ajudam financiadores de campanhas
32. Fernando Gabeira deu passagens para família ir ao exterior e contratou mulher
33. Michel Temer, pres. da Câmara, usou passagens para “familiares e terceiros”
34. Ministro do TCU Augusto Nardes (ex-dep.) voa na cota do dep. Otávio Germano
35. Câmara pagou 42 passagens para ex-diretor do Senado João Carlos Zoghbi e família
36.Senado paga motorista de ministro Hélio Costa (Comunicações) em BH
37. Ciro Gomes (PSB-CE) reage à reportagem sobre passagens com xingamentos
38. Gabinetes da Câmara negociam bilhetes de deputados com agências
39. Senadores têm seguro saúde vitalício para a família
40. Sen. Mozarildo Cavalcanti usou assessor do Senado para compras particulares
41. Ex-diretor de RH do Senado João Carlos Zoghbi usava empresas de fachada
42. Deputado Eugênio Rabelo (PP-CE) usa cota aérea com time de futebol
43. Deputados “clonam” prestação de contas
44. Dep. Geraldo Resende pagou com verba inden. advogado que atuou em sua defesa
45. 117 ex-deputados tiveram passagens aéreas pagas pela Câmara
46. Sen. Magno Malta (PR-ES) passou quatro dias em Dubai com dinheiro do Senado
47. Sen. Alvaro Dias, Geraldo Mesquita, Paulo Paim e O. Dias usaram cota voos exterior
48. Senador Renan Calheiros (PMDB-AL) cedeu passagens a primo e a 2 assessores
49. Senador Eduardo Suplicy (PT-SP) deu passagem para namorada ir ao exterior
50. Senadores vivos ‘ganham’ ruas e avenidas em reduto eleitoral
51. Funcionário preso do Senado recebeu salário por 5 anos
52. Senado pagou 291 passagens para ex-senadores e até para dois senadores já mortos
53. Câmara paga piloto de avião de ministro Geddel Vieira Lima (PMDB, Integração)
54. Câmara paga 8 voos para investigado pela PF, colaborador de Fernando Sarney
55. STF abre processo contra deputado acusado de atentado violento ao pudor
56. Auxílio-moradia utilizado por dep. e sen. que não precisariampara comprar apto – Clique
57. Efraim Morais (DEM-PB): 52 funcionários fantasmas e carro oficial para uso particular
58. Servidor do PMDB no Senado que ganha R$ 15 mil mensais dá expediente em loja de móveis
59. Funcionário envolvido em operação da PF é indicado para comissão no Senado
60. José Sarney tem amigos, aliados e parentes contratados pelo Senado
61. Senado usa mais de mil atos secretos para criar cargos e aumentar benefícios
62. Senado indeniza empresa suspeita de irregularidade com R$700 mil
63. Deputados ignoram regras da Câmara para pagar alimentação
64. 350 funcionários do Senado têm salário maior que o de ministros do STF
65. Valdir Raupp (PMDB-RO) aprova concessão de rádio que tem como sócio seu assessor
66. Arthur Virgílio (PSDB-AM) mantém fantasma em seu gabinete
67. Neto de Sarney opera no Senado crédito consignado, que é alvo da PF
68. Fernando Collor usa verba indenizatória para vigiar Casa da Dinda e comprar quentinhas
69. Nova diretora de RH do Senado entrou no emprego em trem da alegria
70. Sarney oculta da Justiça casa de R$ 4 milhões e a usa para reunião com lobistas
71. Senado tem contas secretas
72. Ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) emprega mulher na Câmara
73. Senado ignora decisão do STF e mantém nepotismo
74. Fundação Sarney é suspeita de desviar verba de estatal
75. Sarney é acusado de ter conta bancária no exterior
76. Senadores inflam gabinetes com afilhados políticos
77. Fabricante de caças pagou viagem de deputados a Paris
78.Trem da alegria secreto efetivou 82 servidores do Senado sem concurso
79. Comissões do Senado empregam fantasmas
80. Senado usou quase R$ 1 milhão de verba de fundo sem licitação
81. Paulo Roberto e Eugênio Rabelo (PP-CE) são acusados de reter salários de assessores
82. Roseana Sarney (PMDB-MA) pagou secretária com verba indenizatória
83. Rosalba Ciarlini (DEM-RN) usou cota de passagens aéreas para turismo
84. Álvaro Dias (PSDB-PR) não declarou R$ 6 milhões à Justiça Eleitoral
85. Sérgio Guerra (PSDB-PE) bancou viagem de filha à Nova York com dinheiro do Senado
86. Senador Roberto Cavalcanti dá emprego a filha do secretário da Receita
87. Empreiteira pagou dois imóveis para família Sarney em SP
88.Senado gastou R$ 25 mil em acordo que ficou só no papel
89.Tião Viana (PT-AC) ocultou casa de R$ 600 mil da Justiça Eleitoral
90. Senado ignora sobrepreço em obra de prédio
91. Papaléo Paes quis contratar mulher de Agaciel Maia para trabalhar em seu gabinete
92. Câmara perdoa 85% das faltas dos deputados
93. Senado gastou R$ 70 mil em curso de Ideli Salvatti (PT-SC) em 3 países
94. Ministro do PR usa emendas de orçamento para atrair deputados ao seu partido
95. Marco Maciel tinha funcionário presidiário recebendo salário
96. 98 servidores do Senado fizeram cursos no exterior em 2007 e 2008
97. Dos 3.413 funcionários efetivos do Senado, só 300 não recebem complem. salarial
98. José Sarney (PMDB-AP) e Michel Temer (PMDB-SP) mantém supersalários
99. Senado custeia despesas da Polícia Militar do Distrito Federal
100. Sem resultados, Parlasul gasta R$ 580 mil do Congresso Nacional em diárias
101. 828 servidores ignoram censo interno do Senado
102.Câmara cede imóvel funcional a Gastão Vieira, secret. de Roseana Sarney no MA
Onde está aquele PT que não tolerava falcatruas, favorecimentos e desvios de verba pública? Onde está aquele PSDB que recentemente discursou na tribuna do senado contra Sarney em nome da lisura? Onde está aquele PMDB de Ulysses e das diretas? Enfim… onde está o PDT dos discursos inflamados de Brizola, o PCdoB que luta contra as elites privilegiadas? E o que são os políticos hoje? Nao fazem parte de uma elite privilegiada em meio a milhões de miseráveis? Um POLITBURO tupiniquim?
Então, já que na política justifica-se quase tudo, vamos ser compreensivos e tentar entender. Mas você, político, que estiver lendo também tentará nos entender como eleitor, combinado? Considere isto como um teste e o percentual que atingir na somatória do “SIM” será proporcional ao caráter. Isto valerá também para você, eleitor. O fato de ter havido escândalos em outros governos não justifica os do governo atual. A intenção não é a de descobrir quem foi menos desonesto, concorda?
A relação abaixo encontra-se na UOL e foi levantado por Fernando Rodrigues em seu Blog. Para saber detalhes é só clicar no link do ítem correspondente. A pergunta é simples: Você acha que existem justificativas para os 102 escândalos abaixo?
01. Verba indenizatória secreta na Câmara e no Senado
02. Castelogate, o deputado Edmar Moreira e sua segurança privada
03. Agaciel Maia, diretor-geral do Senado, e sua mansão
04. Horas extras nas férias para funcionários da Câmara e do Senado
05. Chico Alencar (PSOL-RJ) contrata correligionário
06. Diretor do Senado usava apartamento funcional para família
07. Sarney utiliza seguranças do Senado no Maranhão
08. Empresas terceiras abrigam parentes de diretores e funcionários do Senado
09. Tião Viana empresta celular à filha em viagem ao México
10. Diretores no Senado: eram 181
11. Assessora de Roseana Sarney também era diretora
12. Renan emprega sogra de assessor, filho, fantasmas e aliado em AL
13. Filha de FHC trabalha de casa para senador
14. Diretora de comunicação do Senado em campanha
15. Deputado Alberto Fraga (DEM-DF) contrata empregada doméstica
16. Deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP) contrata empregada doméstica
17. Deputado José Paulo Tóffano (PV-SP) contrata empregada doméstica
18. Tasso Jereissati (PSDB-CE) e os loucos por jatinhos
19. Gráfica do Senado imprime material de campanha
20. Funcionários do sen. Adelmir Santana prestam serviço a vice-governador
21. Ministro Hélio Costa usa serviço de secretária paga por Wellington Salgado
22. Terceirização irregular no Senado
23. Dep. Fábio Faria pagou viagens para Carnatal e incluiu Adriane Galisteu
24. Ministros-deputados usam passagens da Câmara
25. Deputados fazem viagens internacionais pagas pela Câmara
26. Câmara e Senado perdoam todos delitos da farra aérea e fingem cortar gastos
27. Viúva do senador Jefferson Péres recebe sobra de passagens em dinheiro
28. Min. do Supremo Tribunal Federal entram na cota de passagens da Câmara
29. Senador Gerson Camata (PMDB-ES) acusado de uso de caixa dois
30. Delegado Protógenes Queiroz voou com passagens do PSOL
31. Membros Cons. de Ética usam passagens e ajudam financiadores de campanhas
32. Fernando Gabeira deu passagens para família ir ao exterior e contratou mulher
33. Michel Temer, pres. da Câmara, usou passagens para “familiares e terceiros”
34. Ministro do TCU Augusto Nardes (ex-dep.) voa na cota do dep. Otávio Germano
35. Câmara pagou 42 passagens para ex-diretor do Senado João Carlos Zoghbi e família
36.Senado paga motorista de ministro Hélio Costa (Comunicações) em BH
37. Ciro Gomes (PSB-CE) reage à reportagem sobre passagens com xingamentos
38. Gabinetes da Câmara negociam bilhetes de deputados com agências
39. Senadores têm seguro saúde vitalício para a família
40. Sen. Mozarildo Cavalcanti usou assessor do Senado para compras particulares
41. Ex-diretor de RH do Senado João Carlos Zoghbi usava empresas de fachada
42. Deputado Eugênio Rabelo (PP-CE) usa cota aérea com time de futebol
43. Deputados “clonam” prestação de contas
44. Dep. Geraldo Resende pagou com verba inden. advogado que atuou em sua defesa
45. 117 ex-deputados tiveram passagens aéreas pagas pela Câmara
46. Sen. Magno Malta (PR-ES) passou quatro dias em Dubai com dinheiro do Senado
47. Sen. Alvaro Dias, Geraldo Mesquita, Paulo Paim e O. Dias usaram cota voos exterior
48. Senador Renan Calheiros (PMDB-AL) cedeu passagens a primo e a 2 assessores
49. Senador Eduardo Suplicy (PT-SP) deu passagem para namorada ir ao exterior
50. Senadores vivos ‘ganham’ ruas e avenidas em reduto eleitoral
51. Funcionário preso do Senado recebeu salário por 5 anos
52. Senado pagou 291 passagens para ex-senadores e até para dois senadores já mortos
53. Câmara paga piloto de avião de ministro Geddel Vieira Lima (PMDB, Integração)
54. Câmara paga 8 voos para investigado pela PF, colaborador de Fernando Sarney
55. STF abre processo contra deputado acusado de atentado violento ao pudor
56. Auxílio-moradia utilizado por dep. e sen. que não precisariampara comprar apto – Clique
57. Efraim Morais (DEM-PB): 52 funcionários fantasmas e carro oficial para uso particular
58. Servidor do PMDB no Senado que ganha R$ 15 mil mensais dá expediente em loja de móveis
59. Funcionário envolvido em operação da PF é indicado para comissão no Senado
60. José Sarney tem amigos, aliados e parentes contratados pelo Senado
61. Senado usa mais de mil atos secretos para criar cargos e aumentar benefícios
62. Senado indeniza empresa suspeita de irregularidade com R$700 mil
63. Deputados ignoram regras da Câmara para pagar alimentação
64. 350 funcionários do Senado têm salário maior que o de ministros do STF
65. Valdir Raupp (PMDB-RO) aprova concessão de rádio que tem como sócio seu assessor
66. Arthur Virgílio (PSDB-AM) mantém fantasma em seu gabinete
67. Neto de Sarney opera no Senado crédito consignado, que é alvo da PF
68. Fernando Collor usa verba indenizatória para vigiar Casa da Dinda e comprar quentinhas
69. Nova diretora de RH do Senado entrou no emprego em trem da alegria
70. Sarney oculta da Justiça casa de R$ 4 milhões e a usa para reunião com lobistas
71. Senado tem contas secretas
72. Ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) emprega mulher na Câmara
73. Senado ignora decisão do STF e mantém nepotismo
74. Fundação Sarney é suspeita de desviar verba de estatal
75. Sarney é acusado de ter conta bancária no exterior
76. Senadores inflam gabinetes com afilhados políticos
77. Fabricante de caças pagou viagem de deputados a Paris
78.Trem da alegria secreto efetivou 82 servidores do Senado sem concurso
79. Comissões do Senado empregam fantasmas
80. Senado usou quase R$ 1 milhão de verba de fundo sem licitação
81. Paulo Roberto e Eugênio Rabelo (PP-CE) são acusados de reter salários de assessores
82. Roseana Sarney (PMDB-MA) pagou secretária com verba indenizatória
83. Rosalba Ciarlini (DEM-RN) usou cota de passagens aéreas para turismo
84. Álvaro Dias (PSDB-PR) não declarou R$ 6 milhões à Justiça Eleitoral
85. Sérgio Guerra (PSDB-PE) bancou viagem de filha à Nova York com dinheiro do Senado
86. Senador Roberto Cavalcanti dá emprego a filha do secretário da Receita
87. Empreiteira pagou dois imóveis para família Sarney em SP
88.Senado gastou R$ 25 mil em acordo que ficou só no papel
89.Tião Viana (PT-AC) ocultou casa de R$ 600 mil da Justiça Eleitoral
90. Senado ignora sobrepreço em obra de prédio
91. Papaléo Paes quis contratar mulher de Agaciel Maia para trabalhar em seu gabinete
92. Câmara perdoa 85% das faltas dos deputados
93. Senado gastou R$ 70 mil em curso de Ideli Salvatti (PT-SC) em 3 países
94. Ministro do PR usa emendas de orçamento para atrair deputados ao seu partido
95. Marco Maciel tinha funcionário presidiário recebendo salário
96. 98 servidores do Senado fizeram cursos no exterior em 2007 e 2008
97. Dos 3.413 funcionários efetivos do Senado, só 300 não recebem complem. salarial
98. José Sarney (PMDB-AP) e Michel Temer (PMDB-SP) mantém supersalários
99. Senado custeia despesas da Polícia Militar do Distrito Federal
100. Sem resultados, Parlasul gasta R$ 580 mil do Congresso Nacional em diárias
101. 828 servidores ignoram censo interno do Senado
102.Câmara cede imóvel funcional a Gastão Vieira, secret. de Roseana Sarney no MA
O texto acima foi pinçado do blog "Os Pensadores Falam"
Fotojornalismo
Duas celas do Departamento de Polícia Judiciária (DPJ) de Vila Velha, na Região Metropolitana de Vitória (ES), tiveram de ser temporariamente interditadas nesta terça-feira. Elas estavam cheias de fezes, sujeira e muito lixo. Parte do entulho e da terra retirados do local eram parte de um túnel de quase 8m de extensão aberto pelos presos, e descoberto em uma das celas ontem por policiais. Foto de Eliane Gorritti/Terra.segunda-feira, 16 de novembro de 2009
domingo, 15 de novembro de 2009
sábado, 14 de novembro de 2009
Poesia aos sábados
Ventos de novembro
trazem cheiro de pão novo
e café servido às pressas
na padaria chique da esquina
onde coroados comentam
falcatruas da vez entre nacos
de massa e manteiga.
Ventos de novembro
sopram mornos
na tarde modorrenta
levando para longe
o que me restava de fé.
Ventos de novembro
elevam teu perfume
às minhas narinas inflamadas
me impregnando com teu cheiro
inundando minha boca d´água
maquiando o fedor reinante.
trazem cheiro de pão novo
e café servido às pressas
na padaria chique da esquina
onde coroados comentam
falcatruas da vez entre nacos
de massa e manteiga.
Ventos de novembro
sopram mornos
na tarde modorrenta
levando para longe
o que me restava de fé.
Ventos de novembro
elevam teu perfume
às minhas narinas inflamadas
me impregnando com teu cheiro
inundando minha boca d´água
maquiando o fedor reinante.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Gancia registra preconceito contra brasileiras
O artigo “Where are you from?”, da jornalista Bárbara Gancia, publicado hoje no jornal Folha de S.Paulo retoma uma questão que abordo com freqüência: a sina da mulher brasileira no exterior. A sexualização da imagem feminina da brasileira lá fora, aliada a prostituição, faz com que o fato de ser brasileira se transforme em um atestado de permissividade.
Bárbara esteve em Nova York e vivenciou a situação:
“Mas, é claro, algumas coisas não mudam nunca. A pergunta fatídica ‘Where are you from?’ continua a gerar a mesma reação quando a resposta é ‘Brazil’ e a turista é do sexo feminino.
A conversa sempre começa respeitosa, mas bastou você dizer que é do Brasil para verificar uma mudança radical de tom. ‘Puxa, você é puta! Quem diria, não parece!’. A frase nunca é escancarada, mas a tapuia em viagem -mesmo cega e surda- será capaz de perceber o estupor nas entrelinhas.
Num táxi, paguei pato ouvindo considerações sobre os trajes reduzidos das brasileiras (note que minhas amigas e eu, todas freiras carmelitas, estávamos encapotadas até o cocuruto) e, noutro, o motorista resolveu apelar para a pegadinha.
Depois de tomar conhecimento da nossa nacionalidade, chutou: ‘Não gosto dos homens brasileiros’. Fez-se silêncio, e logo ele emendou com ar sacana: ‘Gosto das mulheres’.”
Leia mais sobre o tema
- A Imagem da Mulher na Mídia - Como você vê esta relação?
- Turismo sexual, prostituição e a desconstrução da imagem feminina
- Solcat desrespeita mulher brasileira, mais uma vez
- Editora Solcat desrespeita mulheres brasileiras
- Toda brasileira é bunda?
Bárbara esteve em Nova York e vivenciou a situação:
“Mas, é claro, algumas coisas não mudam nunca. A pergunta fatídica ‘Where are you from?’ continua a gerar a mesma reação quando a resposta é ‘Brazil’ e a turista é do sexo feminino.
A conversa sempre começa respeitosa, mas bastou você dizer que é do Brasil para verificar uma mudança radical de tom. ‘Puxa, você é puta! Quem diria, não parece!’. A frase nunca é escancarada, mas a tapuia em viagem -mesmo cega e surda- será capaz de perceber o estupor nas entrelinhas.
Num táxi, paguei pato ouvindo considerações sobre os trajes reduzidos das brasileiras (note que minhas amigas e eu, todas freiras carmelitas, estávamos encapotadas até o cocuruto) e, noutro, o motorista resolveu apelar para a pegadinha.
Depois de tomar conhecimento da nossa nacionalidade, chutou: ‘Não gosto dos homens brasileiros’. Fez-se silêncio, e logo ele emendou com ar sacana: ‘Gosto das mulheres’.”
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Fotojornalismo
Nadadora encara as águas geladas de um lago localizado em um parque chinês em Shenyang. Foto da Reuters. A China foi alvo hoje de denúncias escabrosas segundo as quais cidadãos do interior que vão a capital denunciar abusos de administradores locais são sequestrados e encarcerados sem julgamento ao voltarem para suas casas. Como a China é "parceirona" econômica do Ocidente, abusos contra os direitos humanos são devidamente varridos para debaixo do tapete.quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Yoani Sánchez é sequestrada e agredida em Cuba
A brutalidade do totalitarismo cubano, que alguns ignóbes (de esquerda e de direita) teimam em classificar de socialismo, mostrou sua face mais uma vez. A vítima, a blogueira Yoni Sánchez, foi sequestrada, covardemente agredida e intimidada durante um protesto pela paz.
Políticos no Twitter: sabemos o que eles querem... mas o que queremos deles?
No primeiro semestre de 2009, milhões de pessoas descobriram o Twitter. A ferramenta já ultrapassou o 45 milhões de usuários, com um crescimento de 1.460% apenas no último ano. Inevitável que o espaço fosse invadido pelos políticos. Com a aproximação de 2010 e das eleições, eles chegaram e, como todos os demais, estão aprendendo a utilizar as redes sociais.
Pai da criança, Biz Stone disse recentemente que esta simbiose é muito natural: “Os políticos precisam estar conectados com seus eleitores. Como o Twitter permite a conexão direta, é natural que tenha se tornado uma ferramenta presente nas campanhas políticas. Não há nada de errado nisso. Quanto mais pessoas compartilharem informações, melhor para todos.”, afirmou.
Falei sobre o tema em detalhes no artigo “Política em 140 caracteres” (publicado também no Observatório da Imprensa e no twitterportugal). “Vereadores, deputados estaduais e federais, senadores e governadores aderiram ao microblog, ao lado de uma miríade de pré-candidatos às eleições de 2010. A maioria ainda não entendeu a vocação e o potencial das mídias sociais, mas os que compreenderem os seus meandros poderão obter vantagens ao estreitarem de forma transparente as suas relações com a população.”
O fato é que eles vieram para ficar. Usarão as mídias sociais para divulgar suas plataformas, compromissos e idéias. Os mais antenados darão um passo além, procurarão interagir com os demais usuários, incorporar sugestões, responder críticas, navegar pela plataforma entendendo que, como disse o jornalista e blogueiro Marcelo Tas, “o Twitter é uma ferramenta de ouvir”. Nós sabemos o que eles querem, nosso voto, mas afinal, o que os usuários do Twitter querem dos políticos?
Para tentar desvendar esta questão, realizei entre 10 de outubro e 10 de novembro, uma pesquisa no blog. Perguntei "Seguir um político no Twitter é válido se ele... ". Dei cinco opções de respostas que, em minha opinião, resumiam os principais motivos que poderiam ser elencados, possibilitando que os participantes pudessem escolher mais de uma resposta. Cem internautas participaram da enquête e o resultado foi o seguinte:
"Seguir um político no Twitter é válido se ele... "
- Se posicionar sobre assuntos polêmicos – 68 votos, 66%
- Prestar contas de suas atividades políticas – 60 votos, 58%
- Consultar a opinião dos tuiteiros – 46 votos, 44%
- Responder a todas as críticas – 44 votos, 42%
- Falar de sua vida particular – 6 votos, 5%
As duas opções mais votadas deixam crer que o tuiteiro espera que o político use o Twitter para esclarecer sua opinião a respeito de assuntos dos quais, normalmente, se esquiva e para tornar pública sua atuação parlamentar. A consulta popular através da ferramenta também recebeu boa votação, insinuando que o usuário quer ter voz ativa, quer dar o ser recado a respeito de assuntos que dizem respeito ao seu dia a dia, fortalecendo a idéia de que a internet possa, um dia, se transformar em uma ágora virtual com toques de democracia direta (para aprofundar o conceito leia o artigo “O ciberespaço e as possibilidades de democracia participativa”).
O que menos o tuiteiro quer de um homem público, segundo a pesquisa, é que ele utilize a ferramenta para falar de sua vida particular. Postagens como “Vou almoçar com fulano”, ou “Estou saindo para me reunir com beltano” não estão no rol das informações que os usuários do Twitter querem ver no perfil de seus representantes.
Apesar das críticas que permeiam a rede a respeito do uso político das redes sociais, a presença de vereadores, deputados, senadores, secretários, prefeitos e governadores nestes ambientes é uma oportunidade única de o eleitor interagir com eles verticalmente, sem intermediários. Mesmo os que se utilizam de assessorias para atualizar seus perfis, estão na linha de tiro, deram a cara a tapa ao se colocarem no ambiente virtual. Cabe a nós, “simples usuários”, utilizarmos estes espaços como ferramenta de cobrança e de chamada de nossos representantes as suas responsabilidades.
Pai da criança, Biz Stone disse recentemente que esta simbiose é muito natural: “Os políticos precisam estar conectados com seus eleitores. Como o Twitter permite a conexão direta, é natural que tenha se tornado uma ferramenta presente nas campanhas políticas. Não há nada de errado nisso. Quanto mais pessoas compartilharem informações, melhor para todos.”, afirmou.
Falei sobre o tema em detalhes no artigo “Política em 140 caracteres” (publicado também no Observatório da Imprensa e no twitterportugal). “Vereadores, deputados estaduais e federais, senadores e governadores aderiram ao microblog, ao lado de uma miríade de pré-candidatos às eleições de 2010. A maioria ainda não entendeu a vocação e o potencial das mídias sociais, mas os que compreenderem os seus meandros poderão obter vantagens ao estreitarem de forma transparente as suas relações com a população.”
O fato é que eles vieram para ficar. Usarão as mídias sociais para divulgar suas plataformas, compromissos e idéias. Os mais antenados darão um passo além, procurarão interagir com os demais usuários, incorporar sugestões, responder críticas, navegar pela plataforma entendendo que, como disse o jornalista e blogueiro Marcelo Tas, “o Twitter é uma ferramenta de ouvir”. Nós sabemos o que eles querem, nosso voto, mas afinal, o que os usuários do Twitter querem dos políticos?
Para tentar desvendar esta questão, realizei entre 10 de outubro e 10 de novembro, uma pesquisa no blog. Perguntei "Seguir um político no Twitter é válido se ele... ". Dei cinco opções de respostas que, em minha opinião, resumiam os principais motivos que poderiam ser elencados, possibilitando que os participantes pudessem escolher mais de uma resposta. Cem internautas participaram da enquête e o resultado foi o seguinte:
"Seguir um político no Twitter é válido se ele... "
- Se posicionar sobre assuntos polêmicos – 68 votos, 66%
- Prestar contas de suas atividades políticas – 60 votos, 58%
- Consultar a opinião dos tuiteiros – 46 votos, 44%
- Responder a todas as críticas – 44 votos, 42%
- Falar de sua vida particular – 6 votos, 5%
As duas opções mais votadas deixam crer que o tuiteiro espera que o político use o Twitter para esclarecer sua opinião a respeito de assuntos dos quais, normalmente, se esquiva e para tornar pública sua atuação parlamentar. A consulta popular através da ferramenta também recebeu boa votação, insinuando que o usuário quer ter voz ativa, quer dar o ser recado a respeito de assuntos que dizem respeito ao seu dia a dia, fortalecendo a idéia de que a internet possa, um dia, se transformar em uma ágora virtual com toques de democracia direta (para aprofundar o conceito leia o artigo “O ciberespaço e as possibilidades de democracia participativa”).
O que menos o tuiteiro quer de um homem público, segundo a pesquisa, é que ele utilize a ferramenta para falar de sua vida particular. Postagens como “Vou almoçar com fulano”, ou “Estou saindo para me reunir com beltano” não estão no rol das informações que os usuários do Twitter querem ver no perfil de seus representantes.
Apesar das críticas que permeiam a rede a respeito do uso político das redes sociais, a presença de vereadores, deputados, senadores, secretários, prefeitos e governadores nestes ambientes é uma oportunidade única de o eleitor interagir com eles verticalmente, sem intermediários. Mesmo os que se utilizam de assessorias para atualizar seus perfis, estão na linha de tiro, deram a cara a tapa ao se colocarem no ambiente virtual. Cabe a nós, “simples usuários”, utilizarmos estes espaços como ferramenta de cobrança e de chamada de nossos representantes as suas responsabilidades.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Vinte anos depois de Berlim, outros muros ainda nos envergonham
“Terrível! Esta fronteira de pedra ergue-se… ofende
os que desejam ir para onde lhes aprouver
não para um túmulo de massa
um povo de pensadores.”
Volker Braun, 1965
Nesta segunda-feira, dia 9 de novembro, precisamente às 23h, completa-se 20 anos que um dos maiores símbolos do totalitarismo veio abaixo como um castelo de cartas soprado por uma criança. O Muro de Berlim, conseqüência direta da ilusão de que o socialismo possa ser imposto de cima para baixo, durou 28 anos (do dia 13 de agosto de 1961 ao dia 9 de novembro de 1989), custou a vida de centenas de pessoas e condenou a uma divisão forçada quatro milhões de seres humanos que, até então, dividiam uma identidade. Na prática, uma cidade que até então funcionava como um único organismo urbano foi cortada ao meio com o bloqueio de 81 pontos de cruzamento e 193 ruas, separando famílias, amigos e casais, afastando trabalhadores dos seus empregos, estudantes de suas escolas.
O propósito do Muro - acabar com o êxodo dos alemães do lado oriental para o ocidental - foi justificado como uma medida adotada para acabar com o contrabando de divisas e a atividade dos espiões ocidentais. Na verdade, assim como hoje ocorre em Cuba, o regime totalitário obrigava todo um povo a viver sob sua leitura distorcida do socialismo, um socialismo que vivia (e anda vive na ilha de Fidel e Raul) sua grande controvérsia: construir uma sociedade igualitária em detrimento de todas as liberdades individuais.
Desde os primeiros momentos daquela manhã de agosto, a máquina de moer almas trabalhou incessantemente. Sua mais cruel engrenagem, a burocracia. Para atravessar a cidade, o cidadão era obrigado a passar por 18 operações de controle alfandegário, incluindo a revista das malas e bagagem, da carteira de dinheiro, do carro, além de se submeter a um estudo minucioso do passaporte – tudo isso sob a mira de policiais armados. A imensa maioria dos alemães orientais, no entanto, não reuniam credenciais suficientes nem mesmo para passar por esta maratona. Simplesmente foram condenados a viver isolados do mundo.
Vinte anos se passaram dando um fim a esta insanidade. No entanto, estas mesmas cenas, nas quais a burocracia é usada como arma de domínio sobre todo um povo, onde direitos básicos – como o de ir e vir - se perdem no burburinho obtuso da intolerância, continuam ocorrendo neste momento, diante dos nossos olhos, sem que tomemos uma atitude concreta para detê-las.
Estas cenas acontecem agora mesmo, enquanto você lê este artigo, nas fronteiras da Cisjordânia, onde um muro tão vergonhoso quanto o que dividiu Berlim por quase três décadas condena palestinos ao ostracismo e judeus ao isolamento moral; continuam acontecendo na divisa entre os Estados Unidos e o México, onde um muro fronteiriço construído sob o argumento de impedir a entrada de imigrantes ilegais separa, na verdade, o primeiro e o terceiro mundos; continuam acontecendo em Cuba, onde um muro natural formado pelo oceano isola milhões da realidade. São muros ideológicos, como o Muro de Berlim.
Um muro no deserto
O Muro da Cisjordânia começou a ser construída em 2002, durante o governo do primeiro ministro israelense Ariel Sharon com o objetivo de evitar que terroristas suicidas palestinos entrassem em Israel. Desde o início a iniciativa suscitou críticas da comunidade internacional, que considerou o muro como um símbolo de segregação.
Uma pequena parte do Muro (cerca 20%) coincide com a antiga Linha Verde e os 80% restantes situam-se em território palestino onde adentra até 22 km em alguns lugares, para incluir as densamente povoadas colônias ilegais de Israel, tais como Ariel, Gush Etzion, Emmanuel, Karnei Shomron, Guiv'at Ze'ev, Oranit e Maale Adumim.
O Tribunal Internacional de Justiça de Haia declarou o Muro ilegal em 2004. A ONU, por sua vez, classificou-o como uma tentativa – também ilegal - de anexar território palestino, violando o direito internacional a pretexto de razões de segurança. Ativistas de direitos humanos, incluindo organizações israelenses como a Machsom Watch (ou Checkpoint Watch), sustentam que a construção viola as fronteiras demarcadas pela ONU, com a apropriação indevida de territórios por Israel, e que os controles militares minam o desenvolvimento econômico do povo palestino, além de limitar a chegada de ajuda humanitária.
“Você tem este enorme muro sendo construído bem no meio da Cisjordânia, como alguém pode acreditar que haverá um estado palestino ali? É um símbolo da opressão”, afirma o Rabbi Michael Lerner, da Tikkun Community.
Desde que a área localizada entre o Muro e a Linha Verde foi declarada restrita pelos militares israelenses para dar lugar ao labirinto de concreto, os palestinos que ali vivem ou que necessitam chegar às comunidades ali localizadas foram obrigados a portar vistos emitidos pelos israelenses.
Quinze comunidades palestinas reunindo cerca de 50 mil palestinos foram enclausuradas nestas áreas. Foram fisicamente separadas do resto da Cisjordânia e sua população obrigada a obter autorizações israelenses para continuar vivendo em suas casas e em suas terras.
Em 2006, um levantamento feito pela ONU analisou 57 comunidades palestinas impactadas pelo Muro e encontrou ali 94 cidadãos palestinos – a maioria mulheres e crianças - que nunca receberam o “visto”. Como resultado, estas pessoas vivem literalmente presas entre a Cisjordânia e Israel, apavoradas demais para arriscarem deixar o local e serem flagradas pelos soldados israelenses.
Os relatos que confirmam esta realidade recheada de violência e preconceito são vastos, alguns podem ser vistos no site da organização israelense B’Tselem, que se dedica a documentar violações dos direitos humanos nos territórios ocupados. Em março, por exemplo, Halimeh 'Abd Rabbo Muhammad a-Shawamreh, uma palestina de 56 anos, mãe de oito crianças e residente em uma fazenda em Deir al-'Asal al-Foqa, no distrito de Hebron, teve seu braço quebrado por um guarda do Muro, localizado a 50 metros da porta de sua casa.
“Meu marido tem um defeito de nascença em sua perna esquerda e não pode trabalhar. Meu filho mais velho, Muhammad, 28, vive e trabalha em Ramallah. Meu filho Hussein, 22, foi ferido em 2004, enquanto estava pastoreando, por fragmentos de uma granada que o exército disparou durante um treinamento. Ele perdeu seu olho direito, e desde então vem sendo tratado no Sheikh Jarrach Hospital, em Jerusalém. Meu filho Fadi, 25, sofre de uma doença que ainda não foi diagnosticada. Ele vomita o tempo todo e não pode trabalhar. Nadi, 14, é epilética. Sou o esteio da família e faço o necessário para arranjar algum dinheiro”, explica Halimeh.
Em 11 de março, às 22h, ela tentava capturar o burro que lhe serve de instrumento de trabalho e que havia se soltado e corrido rumo ao Muro quando foi abordada pela Polícia de Fronteira. “Dois policiais saltaram de uma Toyota verde. Um deles pegou o cabresto do burro e o outro tentou arrancar a corda de minhas mãos e disse que eu deveria deixá-lo ir e que se o quisesse de volta deveria ir a Beersheva e pagar 1,000 shekels. Eu disse a ele que não tinha dinheiro e precisava do animal para trabalhar. Então, o policial que segurava o burro agarrou meu braço esquerdo enquanto o outro me golpeou no ombro com o rifle quebrando meu braço”, relatou Halimeh, que acabou sendo algemada - a despeito da fratura - e agredida até que os guardas resolveram liberá-la (Veja o relato completo aqui). Tudo isso ocorreu em território palestino, praticamente no quintal de Halimeh. Os invasores eram os soldados israelenses.
Além do isolamento humano e econômico, o Muro viabilizou o controle israelense da quase totalidade do Aqüífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. O controle dos recursos hídricos na região é outra forma de domínio imposta pelos israelenses sobre os palestinos. Segundo Noam Chomsky, “o Muro já abarcou algumas das terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o controle de Israel sobre recursos hídricos críticos, dos quais Israel e seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem”.
Durante sua recente viagem à Terra Santa, em maio, o Papa Bento XVI visitou a Cisjordânia. Em discurso pronunciado em uma escola, disse que o Muro pode ser derrubado, desde que Israel e os palestinos derrubem os muros em torno dos seus corações. "Embora muros possam ser construídos facilmente, todos sabemos que eles não duram para sempre. Eles podem ser derrubados. Primeiro, porém, é necessário remover os muros que construímos em torno dos nossos corações. Meu desejo mais sincero a vocês, o povo palestino, é que isso aconteça em breve. Dos dois lados do muro, é preciso grande coragem para que o medo e a desconfiança possam ser superados e para que seja possível resistir ao desejo de retaliar por perdas e feridas", afirmou o pontífice.
Para ir de Jerusalém a Belém, um trajeto de poucos quilômetros, o comboio do papa precisou atravessar portões de aço no meio da seqüência de muros de concreto, bloqueios (checkpoinsts) e torres de vigilância. Apenas uma rápida mostra do que os palestinos vivem diariamente.
Em 23 de fevereiro de 2004, Chomsky escreveu um artigo para o New York Times resumindo em poucas palavras as verdadeiras intenções por detrás do Muro da Cisjordânia. Disse ele: “Poucos questionariam o direito israelense de proteger seus cidadãos contra ataques terroristas ou mesmo de erguer um muro de segurança, se esse fosse um meio apropriado. Também é claro onde tal muro seria erguido se a segurança constituísse a preocupação orientadora: dentro de Israel, no interior da fronteira internacionalmente reconhecida, a Linha Verde estabelecida depois da guerra de 1948-49. O muro poderia então ser tão proibitivo quanto as autoridade quisessem: patrulhado pelo exército nos dois lados, pesadamente minado, impenetrável. Um tal muro maximizaria a segurança – e não haveria protesto internacional ou violação das leis internacionais.”
Outro deserto, outro muro
Cerca de 5,6 mil pessoas já morreram tentando cruzar a fronteira do México com os Estados Unidos desde que o presidente Bill Clinton impulsionou o programa de segurança na fronteira em 1994. Cerca de 500 mortes ocorreram este ano, apesar das promessas de Barack Obama em estimular reformas na imigração. No entanto, estes são números estimados. Muita gente simplesmente desaparece no deserto. Morrem de sede, perdidos, são assassinados pelos “coiotes” ou por fazendeiros estadunidenses que tomam para si o patrulhamento da região.
Nos primeiros cinco meses deste ano, 160 mexicanos morreram tentando a travessia, em conflitos com fazendeiros, de sede ou desnutrição ao cruzar zonas desérticas, ou afogados ao tentar cruzar o Rio Grande, que separa o Texas do México. Na falta de guardas de fronteira e irritados com os imigrantes ilegais, fazendeiros da região, assumiram o policiamento. Neste ano três mexicanos que tentavam entrar no país pelo Arizona foram mortos por patrulhas civis e outros sete ficaram feridos.
O muro fronteiriço Estados Unidos–México, hoje com cerca de 965 km, inclui barreiras de contenção, iluminação de alta intensidade, detectores antipessoais de movimento, sensores eletrônicos e equipamentos de visão noturna, bem como vigilância permanente com veículos e helicópteros. Além de separar geograficamente a fronteira San Diego-Tijuana, o Muro é ideológico, impede a integração dos "subdesenvolvidos" com os “desenvolvidos”.
Recentemente, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton afirmou que o Muro "não resolve o problema" do fluxo ilegal de pessoas, drogas e armas entre os dois países. Em 94, ao comentar a decisão de Clinton, o presidente mexicano, Felipe Calderón, já antecipava esta conclusão. "O muro não vai resolver nenhum problema. A humanidade cometeu um tremendo erro ao construir o muro de Berlim, e creio que hoje em dia os Estados Unidos estão cometendo um grave erro ao construir esta barreira na nossa fronteira comum".
Um muro de água
Enquanto escrevo estas linhas nesta quente noite de sexta-feira, dia 6 de novembro, acontece em São Paulo o debate “Liberdade de Expressão em Cuba”. Presentes, o senador Eduardo Suplicy, o jornalista Eugênio Bucci e o historiador e professor Jaime Pinsky (mediador). A terceira convidada, no entanto, foi impedida de participar do encontro. Trata-se de Yoani Sánchez, autora do livro “De Cuba, com carinho”, publicado pela editora Contexto, e de um dos blogs mais lidos do mundo, o Generación Y.
Yoani foi convidada a vir ao Brasil para o lançamento de sua obra, mas foi impedida de deixar o país pelas autoridades cubanas. Esbarrou, mais uma vez, nas muralhas ideológicas que mantém Cuba nas trevas. Não é a primeira vez que isso ocorre. A blogueira já teve negados diversos pedidos para sair de Cuba para receber prêmios e participar de palestras.
“Essa inclinação infantil à traquinagem me permitiu suportar as negativas da viagem, o círculo radiativo em que tentam me envolver, os insultos, as campanhas de difamação, o controle da polícia política e até a neurose de possíveis microfones na minha casa. Tenho tratado de celebrar inclusive o que me tiraram, como a possibilidade de viajar, assistir as cerimônias de diversos prêmios, acessar Geração Y das redes cubanas, contatar com muitos amigos, entrar em eventos culturais no meu próprio país e presenciar o lançamento dos meus livros.
Precisamente hoje estou ébria de satisfação porque uma compilação dos meus textos, intitulada ‘De Cuba, com carinho’, será apresentada esta tarde no Brasil. Atenta às três horas de diferença que me separam do Rio de Janeiro, vou festejar as cinco da tarde a bela edição dos meus posts em português. Meus dentes serão vistos a vários metros de distância, não só porque os tenho grandes e separados, senão pela gargalhada permanente que levarei pendurada na cara. Uma risada corrosiva não compreendida pelos rostos carrancudos dos que me impediram de chegar até lá; punhalada de regozijo que corta e atravessa os que não sabem lidar com a inesperada alegria do cativo.”
O trecho acima é de um post publicado no Generacion Y em 29 de outubro, dia em que “De Cuba, com carinho” foi lançado no Rio de Janeiro. Me faz crer que nenhum tipo de muro, seja ele físico ou psicológico, pode conter o espírito humano ou restringir totalmente o nosso impulso pela liberdade de pensar, questionar e ser.
os que desejam ir para onde lhes aprouver
não para um túmulo de massa
um povo de pensadores.”
Volker Braun, 1965
Nesta segunda-feira, dia 9 de novembro, precisamente às 23h, completa-se 20 anos que um dos maiores símbolos do totalitarismo veio abaixo como um castelo de cartas soprado por uma criança. O Muro de Berlim, conseqüência direta da ilusão de que o socialismo possa ser imposto de cima para baixo, durou 28 anos (do dia 13 de agosto de 1961 ao dia 9 de novembro de 1989), custou a vida de centenas de pessoas e condenou a uma divisão forçada quatro milhões de seres humanos que, até então, dividiam uma identidade. Na prática, uma cidade que até então funcionava como um único organismo urbano foi cortada ao meio com o bloqueio de 81 pontos de cruzamento e 193 ruas, separando famílias, amigos e casais, afastando trabalhadores dos seus empregos, estudantes de suas escolas.O propósito do Muro - acabar com o êxodo dos alemães do lado oriental para o ocidental - foi justificado como uma medida adotada para acabar com o contrabando de divisas e a atividade dos espiões ocidentais. Na verdade, assim como hoje ocorre em Cuba, o regime totalitário obrigava todo um povo a viver sob sua leitura distorcida do socialismo, um socialismo que vivia (e anda vive na ilha de Fidel e Raul) sua grande controvérsia: construir uma sociedade igualitária em detrimento de todas as liberdades individuais.
Desde os primeiros momentos daquela manhã de agosto, a máquina de moer almas trabalhou incessantemente. Sua mais cruel engrenagem, a burocracia. Para atravessar a cidade, o cidadão era obrigado a passar por 18 operações de controle alfandegário, incluindo a revista das malas e bagagem, da carteira de dinheiro, do carro, além de se submeter a um estudo minucioso do passaporte – tudo isso sob a mira de policiais armados. A imensa maioria dos alemães orientais, no entanto, não reuniam credenciais suficientes nem mesmo para passar por esta maratona. Simplesmente foram condenados a viver isolados do mundo.
Vinte anos se passaram dando um fim a esta insanidade. No entanto, estas mesmas cenas, nas quais a burocracia é usada como arma de domínio sobre todo um povo, onde direitos básicos – como o de ir e vir - se perdem no burburinho obtuso da intolerância, continuam ocorrendo neste momento, diante dos nossos olhos, sem que tomemos uma atitude concreta para detê-las.
Estas cenas acontecem agora mesmo, enquanto você lê este artigo, nas fronteiras da Cisjordânia, onde um muro tão vergonhoso quanto o que dividiu Berlim por quase três décadas condena palestinos ao ostracismo e judeus ao isolamento moral; continuam acontecendo na divisa entre os Estados Unidos e o México, onde um muro fronteiriço construído sob o argumento de impedir a entrada de imigrantes ilegais separa, na verdade, o primeiro e o terceiro mundos; continuam acontecendo em Cuba, onde um muro natural formado pelo oceano isola milhões da realidade. São muros ideológicos, como o Muro de Berlim.
Um muro no deserto
O Muro da Cisjordânia começou a ser construída em 2002, durante o governo do primeiro ministro israelense Ariel Sharon com o objetivo de evitar que terroristas suicidas palestinos entrassem em Israel. Desde o início a iniciativa suscitou críticas da comunidade internacional, que considerou o muro como um símbolo de segregação.Uma pequena parte do Muro (cerca 20%) coincide com a antiga Linha Verde e os 80% restantes situam-se em território palestino onde adentra até 22 km em alguns lugares, para incluir as densamente povoadas colônias ilegais de Israel, tais como Ariel, Gush Etzion, Emmanuel, Karnei Shomron, Guiv'at Ze'ev, Oranit e Maale Adumim.
O Tribunal Internacional de Justiça de Haia declarou o Muro ilegal em 2004. A ONU, por sua vez, classificou-o como uma tentativa – também ilegal - de anexar território palestino, violando o direito internacional a pretexto de razões de segurança. Ativistas de direitos humanos, incluindo organizações israelenses como a Machsom Watch (ou Checkpoint Watch), sustentam que a construção viola as fronteiras demarcadas pela ONU, com a apropriação indevida de territórios por Israel, e que os controles militares minam o desenvolvimento econômico do povo palestino, além de limitar a chegada de ajuda humanitária.
“Você tem este enorme muro sendo construído bem no meio da Cisjordânia, como alguém pode acreditar que haverá um estado palestino ali? É um símbolo da opressão”, afirma o Rabbi Michael Lerner, da Tikkun Community.
Desde que a área localizada entre o Muro e a Linha Verde foi declarada restrita pelos militares israelenses para dar lugar ao labirinto de concreto, os palestinos que ali vivem ou que necessitam chegar às comunidades ali localizadas foram obrigados a portar vistos emitidos pelos israelenses.
Quinze comunidades palestinas reunindo cerca de 50 mil palestinos foram enclausuradas nestas áreas. Foram fisicamente separadas do resto da Cisjordânia e sua população obrigada a obter autorizações israelenses para continuar vivendo em suas casas e em suas terras.
Em 2006, um levantamento feito pela ONU analisou 57 comunidades palestinas impactadas pelo Muro e encontrou ali 94 cidadãos palestinos – a maioria mulheres e crianças - que nunca receberam o “visto”. Como resultado, estas pessoas vivem literalmente presas entre a Cisjordânia e Israel, apavoradas demais para arriscarem deixar o local e serem flagradas pelos soldados israelenses.
Os relatos que confirmam esta realidade recheada de violência e preconceito são vastos, alguns podem ser vistos no site da organização israelense B’Tselem, que se dedica a documentar violações dos direitos humanos nos territórios ocupados. Em março, por exemplo, Halimeh 'Abd Rabbo Muhammad a-Shawamreh, uma palestina de 56 anos, mãe de oito crianças e residente em uma fazenda em Deir al-'Asal al-Foqa, no distrito de Hebron, teve seu braço quebrado por um guarda do Muro, localizado a 50 metros da porta de sua casa.
“Meu marido tem um defeito de nascença em sua perna esquerda e não pode trabalhar. Meu filho mais velho, Muhammad, 28, vive e trabalha em Ramallah. Meu filho Hussein, 22, foi ferido em 2004, enquanto estava pastoreando, por fragmentos de uma granada que o exército disparou durante um treinamento. Ele perdeu seu olho direito, e desde então vem sendo tratado no Sheikh Jarrach Hospital, em Jerusalém. Meu filho Fadi, 25, sofre de uma doença que ainda não foi diagnosticada. Ele vomita o tempo todo e não pode trabalhar. Nadi, 14, é epilética. Sou o esteio da família e faço o necessário para arranjar algum dinheiro”, explica Halimeh.
Em 11 de março, às 22h, ela tentava capturar o burro que lhe serve de instrumento de trabalho e que havia se soltado e corrido rumo ao Muro quando foi abordada pela Polícia de Fronteira. “Dois policiais saltaram de uma Toyota verde. Um deles pegou o cabresto do burro e o outro tentou arrancar a corda de minhas mãos e disse que eu deveria deixá-lo ir e que se o quisesse de volta deveria ir a Beersheva e pagar 1,000 shekels. Eu disse a ele que não tinha dinheiro e precisava do animal para trabalhar. Então, o policial que segurava o burro agarrou meu braço esquerdo enquanto o outro me golpeou no ombro com o rifle quebrando meu braço”, relatou Halimeh, que acabou sendo algemada - a despeito da fratura - e agredida até que os guardas resolveram liberá-la (Veja o relato completo aqui). Tudo isso ocorreu em território palestino, praticamente no quintal de Halimeh. Os invasores eram os soldados israelenses.
Além do isolamento humano e econômico, o Muro viabilizou o controle israelense da quase totalidade do Aqüífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. O controle dos recursos hídricos na região é outra forma de domínio imposta pelos israelenses sobre os palestinos. Segundo Noam Chomsky, “o Muro já abarcou algumas das terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o controle de Israel sobre recursos hídricos críticos, dos quais Israel e seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem”.
Durante sua recente viagem à Terra Santa, em maio, o Papa Bento XVI visitou a Cisjordânia. Em discurso pronunciado em uma escola, disse que o Muro pode ser derrubado, desde que Israel e os palestinos derrubem os muros em torno dos seus corações. "Embora muros possam ser construídos facilmente, todos sabemos que eles não duram para sempre. Eles podem ser derrubados. Primeiro, porém, é necessário remover os muros que construímos em torno dos nossos corações. Meu desejo mais sincero a vocês, o povo palestino, é que isso aconteça em breve. Dos dois lados do muro, é preciso grande coragem para que o medo e a desconfiança possam ser superados e para que seja possível resistir ao desejo de retaliar por perdas e feridas", afirmou o pontífice.
Para ir de Jerusalém a Belém, um trajeto de poucos quilômetros, o comboio do papa precisou atravessar portões de aço no meio da seqüência de muros de concreto, bloqueios (checkpoinsts) e torres de vigilância. Apenas uma rápida mostra do que os palestinos vivem diariamente.
Em 23 de fevereiro de 2004, Chomsky escreveu um artigo para o New York Times resumindo em poucas palavras as verdadeiras intenções por detrás do Muro da Cisjordânia. Disse ele: “Poucos questionariam o direito israelense de proteger seus cidadãos contra ataques terroristas ou mesmo de erguer um muro de segurança, se esse fosse um meio apropriado. Também é claro onde tal muro seria erguido se a segurança constituísse a preocupação orientadora: dentro de Israel, no interior da fronteira internacionalmente reconhecida, a Linha Verde estabelecida depois da guerra de 1948-49. O muro poderia então ser tão proibitivo quanto as autoridade quisessem: patrulhado pelo exército nos dois lados, pesadamente minado, impenetrável. Um tal muro maximizaria a segurança – e não haveria protesto internacional ou violação das leis internacionais.”
Outro deserto, outro muro
Cerca de 5,6 mil pessoas já morreram tentando cruzar a fronteira do México com os Estados Unidos desde que o presidente Bill Clinton impulsionou o programa de segurança na fronteira em 1994. Cerca de 500 mortes ocorreram este ano, apesar das promessas de Barack Obama em estimular reformas na imigração. No entanto, estes são números estimados. Muita gente simplesmente desaparece no deserto. Morrem de sede, perdidos, são assassinados pelos “coiotes” ou por fazendeiros estadunidenses que tomam para si o patrulhamento da região.Nos primeiros cinco meses deste ano, 160 mexicanos morreram tentando a travessia, em conflitos com fazendeiros, de sede ou desnutrição ao cruzar zonas desérticas, ou afogados ao tentar cruzar o Rio Grande, que separa o Texas do México. Na falta de guardas de fronteira e irritados com os imigrantes ilegais, fazendeiros da região, assumiram o policiamento. Neste ano três mexicanos que tentavam entrar no país pelo Arizona foram mortos por patrulhas civis e outros sete ficaram feridos.
O muro fronteiriço Estados Unidos–México, hoje com cerca de 965 km, inclui barreiras de contenção, iluminação de alta intensidade, detectores antipessoais de movimento, sensores eletrônicos e equipamentos de visão noturna, bem como vigilância permanente com veículos e helicópteros. Além de separar geograficamente a fronteira San Diego-Tijuana, o Muro é ideológico, impede a integração dos "subdesenvolvidos" com os “desenvolvidos”.
Recentemente, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton afirmou que o Muro "não resolve o problema" do fluxo ilegal de pessoas, drogas e armas entre os dois países. Em 94, ao comentar a decisão de Clinton, o presidente mexicano, Felipe Calderón, já antecipava esta conclusão. "O muro não vai resolver nenhum problema. A humanidade cometeu um tremendo erro ao construir o muro de Berlim, e creio que hoje em dia os Estados Unidos estão cometendo um grave erro ao construir esta barreira na nossa fronteira comum".
Um muro de água
Enquanto escrevo estas linhas nesta quente noite de sexta-feira, dia 6 de novembro, acontece em São Paulo o debate “Liberdade de Expressão em Cuba”. Presentes, o senador Eduardo Suplicy, o jornalista Eugênio Bucci e o historiador e professor Jaime Pinsky (mediador). A terceira convidada, no entanto, foi impedida de participar do encontro. Trata-se de Yoani Sánchez, autora do livro “De Cuba, com carinho”, publicado pela editora Contexto, e de um dos blogs mais lidos do mundo, o Generación Y.Yoani foi convidada a vir ao Brasil para o lançamento de sua obra, mas foi impedida de deixar o país pelas autoridades cubanas. Esbarrou, mais uma vez, nas muralhas ideológicas que mantém Cuba nas trevas. Não é a primeira vez que isso ocorre. A blogueira já teve negados diversos pedidos para sair de Cuba para receber prêmios e participar de palestras.
“Essa inclinação infantil à traquinagem me permitiu suportar as negativas da viagem, o círculo radiativo em que tentam me envolver, os insultos, as campanhas de difamação, o controle da polícia política e até a neurose de possíveis microfones na minha casa. Tenho tratado de celebrar inclusive o que me tiraram, como a possibilidade de viajar, assistir as cerimônias de diversos prêmios, acessar Geração Y das redes cubanas, contatar com muitos amigos, entrar em eventos culturais no meu próprio país e presenciar o lançamento dos meus livros.
Precisamente hoje estou ébria de satisfação porque uma compilação dos meus textos, intitulada ‘De Cuba, com carinho’, será apresentada esta tarde no Brasil. Atenta às três horas de diferença que me separam do Rio de Janeiro, vou festejar as cinco da tarde a bela edição dos meus posts em português. Meus dentes serão vistos a vários metros de distância, não só porque os tenho grandes e separados, senão pela gargalhada permanente que levarei pendurada na cara. Uma risada corrosiva não compreendida pelos rostos carrancudos dos que me impediram de chegar até lá; punhalada de regozijo que corta e atravessa os que não sabem lidar com a inesperada alegria do cativo.”
O trecho acima é de um post publicado no Generacion Y em 29 de outubro, dia em que “De Cuba, com carinho” foi lançado no Rio de Janeiro. Me faz crer que nenhum tipo de muro, seja ele físico ou psicológico, pode conter o espírito humano ou restringir totalmente o nosso impulso pela liberdade de pensar, questionar e ser.
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