quarta-feira, 30 de setembro de 2009
As ruínas - Scott Smith
Sempre que vou a São Paulo visito a livraria Cultura. É um de meus passeios prediletos e necessários. Coisas de quem vive no interior. Além de passear, compro. Desta vez trouxe “A história da Palestina”, de Ilan Pappé, “Pobre Nação”, de Robert Fisk, “O Chamado de Cthulhu e outros contos”, de HP Lovecratf e “As ruínas”, de Scott Smith. Os dois últimos se inserem no nicho mais mundano de minhas preferências literárias, o horror e o fantástico. Resenhei a coletânea de Lovrecraft estes dias e, semana passada, finalizei o livro de Smith.O sumário do livro resume a ópera:
“Quatro amigos decidem passar as férias nas praias de Cancun. O programa se torna um verdadeiro pesadelo quando o grupo decide unir-se a Mathias, um alemão que conhecem no hotel, em uma busca por seu irmão, que desapareceu misteriosamente ao tentar encontrar ruínas maias localizadas no coração da selva mexicana.
Ao seguir uma trilha na mata, os jovens acabam presos em uma clareira. Com estoques reduzidos de água e comida, e envoltos por um clima de tensão que cresce a cada momento, eles logo percebem que estão sendo observados por alguém... Um ser que conhece seus maiores medos e fraquezas, ávido por sangue e discórdia.
Com suas vidas em risco e cercados por um inimigo sem face, dotado de uma inteligência desafiadora, os jovens terão de tentar impedir que suas tão bem escondidas angústias venham à tona. Um romance sobre as inesperadas reações que as pessoas são capazes de assumir quando confrontadas com uma situação-limite e nossa fragilidade diante do poder da natureza.”
O pano de fundo do livro permitiria a construção de um enredo rico para quem aprecia o gênero. Jovens descompromissados e de personalidade complexa, um cenário exótico e misterioso, ruínas de uma civilização perdida, o choque cultural entre o primeiro e o terceiro mundo. Me senti envolvido pelo clima até o momento em que o autor revelou o que havia por detrás de sua trama: uma espécie de planta assassina e consciente retida às imediações de uma pirâmide maia.
Já li muitos contos fantásticos que tem no escatológico sua base estrutural. Há histórias sensacionais, como as assinadas por Stephen King, especialmente. O modelo não funcionou em “As ruínas”. Apesar do clima de terror e desespero, bem conduzido pelo autor – seis jovens presos na ruína, cercados por aldeões que os impedem de deixar o local como se fizessem uma oferenda à planta, privados de água e alimentos – o artifício de usar a vegetação como vilã não emplacou.
Fotojornalismo
Meu amigo e companheiro de trabalho David Majella inaugurou ontem seu blog. Fotógrafo de mão cheia, costuma registrar momentos únicos do cotidiano. Na foto acima, registrou a tocante fidelidade de um cão, guardando o corpo inerte de sua companheira recém atropelada em uma das avenidas de Campo Grande - MS.terça-feira, 29 de setembro de 2009
Blog de fotojornalismo
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
domingo, 27 de setembro de 2009
sábado, 26 de setembro de 2009
Poesia aos sábados
Fará mal quem te possuir
se não a chupar até o tutano dos ossos:
será equívoco, errôneo.
Pecará, quem te possuir,
se não a eletrificar com a língua quente,
experimentando teus temperos naturais:
deixá-la trêmula, quase com medo.
E errará duplamente se não a cozinhar bem,
mui bem cozida, antes de comê-la o cu.
(Só as Putas Acreditam em Príncipes Encantados.)
Rafael Nolli, esta semana, no Poema Dia
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Minhas impressões sobre o Seminário INFO – Twitter, orkut e Flickr
O diretor-geral do Google no Brasil, Alex Dias, foi o primeiro palestrante do dia. Abriu sua palestra - “Os 60 milhões de perfis no Orkut – oportunidades e desafios” - lembrando aos empresários que “se sua empresa não integra uma rede social, os consumidores já falam dela por lá”.
De acordo com dados apresentados por Alex, hoje mais de 1,6 bilhão de pessoas estão conectadas no planeta e 300 milhões ingressam na web a cada ano. Essa multidão gera 10 petabytes de informações diariamente, quantidade equivalente a oito vezes o conteúdo de todas as bibliotecas existentes nos Estados Unidos. No Brasil, o Orkut já conta com mais de 30 milhões de usuários, que permanecem no site durante uma média de 15 minutos diários. “Quase todo mundo está lá”, diz Dias. O número de internautas no país já está na casa dos 65 milhões.
“Ser social não é estar nas redes sociais, é reconhecer que a internet é social e poder responder a isso” - Alex Dias
Dias destacou que a internet é, por definição, um ambiente social, por isso, estar presente dentro desse ambiente é fundamental para estabelecer contato com o seu público alvo, sejam consumidores ou eleitores. No entanto, é preciso saber se posicionar neste novo universo: “Ser social não é estar nas redes sociais, é reconhecer que a internet é social e poder responder a isso”.
A internet, segundo o diretor-geral do Google Brasil, abriu um leque de opções para o consumidor falar o que pensa. “Você tem que ter uma estratégia social para responder a isso. A boa notícia é que ainda estamos no começo dessa onda.”
Em sua opinião, os blogs, por exemplo, já influenciam os padrões de consumo. Ele não soube precisar se o fenômeno do twitter vai minar a força dos blogs, mas ressaltou a força dos diários pessoais: “O blog, como conceito, dentro de um contexto social - não importante se é no formato duas linhas ou de texto estruturado compartilhando conhecimento e semântica - está aí para ficar. Não tem como negar”, disse.
“Tudo está migrando, em maior ou menor velocidade, para o online” - Alex Dias
Segundo Alex, quatro fatores têm guiado a evolução da web e precisam ser observados por quem quer entender o fenômeno das redes sociais. O primeiro deles é a mudança nas formas de distribuição de conteúdo. “Tudo está migrando, em maior ou menor velocidade, para o online.” Como exemplo, ele citou o porcentual de pessoas que assiste aos noticiários noturnos das redes americanas ABC, CBS e NBC: eram 30% em 1990, e hoje são 16%. Já o volume de uploads por hora no YouTube soma 20 horas por minuto.
O segundo fator mostra que o consumo de mídia se tornou pessoal. “As pessoas não só querem alguma interação como querem falar sobre a mídia”, disse. Houve também uma mudança na cadeia de produção de conteúdo, com a eliminação de uma série de intermediários entre o artista e o público. Em terceiro lugar está a integração. “A gente vai chegar a uma integração total em todos os meios, com a internet sendo o coração disso. Creio que isso vá ocorrer nos próximos anos.”
Para Dias, o quarto fator é o amadurecimento do uso da internet em dispositivos móveis. De acordo com uma pesquisa da China Mobile, 91% das pessoas mantêm seus celulares a menos de 1 metro de distância durante 24 horas por dia e 7 dias por semana. O porcentual de usuários da internet móvel já chega a 15%. E o consumo de dados explode sempre que as operadoras oferecem planos de acesso a preços competitivos.
“Desafio é aprender a organizar o conteúdo gerado pelos internautas para que ele possa servir de fomento às tomadas de decisão” – Fiamma Zarife
Para se destacar nas redes sociais, empresas e personalidades precisam ter objetivos claros e estar preparadas para lidar com a reação do público. Essa foi a conclusão de Fiamma Zarife, diretora de serviços de valor agregado da Claro durante o painel “Experiências exemplares de uso de rede social”. Ao seu lado, estavam Paula Bellizia, diretora de marketing e negócios da Microsoft, Roberto Agune, coordenador de inovação do Governo do Estado de São Paulo e Tiago Pinto, diretor de marketing da Nike. Débora Fortes, diretora de redação da Revista INFO, conduziu a discussão.
Para Fiamma se apropriar das ferramentas da web 2.0 é um ato de coragem: “A gestão da marca sai do cordão de isolamento do departamento de marketing e passa a ser gerida colaborativamente por muitos emissores”. O desafio nesse contexto, segundo ela, é aprender a organizar o conteúdo gerado pelos internautas para que ele possa servir de fomento às tomadas de decisão.
“Antes tínhamos planos de marketing bem estruturados, hoje a tendência é ter uma estratégia de marca muito forte”, diz Paula, da Microsoft Brasil, empresa que lançou na segunda-feira seu perfil no Twitter. Na visão dela, isso exige que a empresa tenha certeza dos pontos que pretende comunicar. “A internet é a mesma praça com um pacote exponencialmente maior para discutirmos assuntos relevantes”, afirma.
“Se você não está presente nas redes, outros farão isso por você” – Roberto Agune
Ainda novato nas redes sociais, o governo de São Paulo está aprendendo a se relacionar de uma maneira mais interativa com os cidadãos, diz Agune. “Se você não está presente, outros farão isso por você”, afirma.
O governador de São Paulo José Serra, que já conta com 95 mil seguidores em seu perfil no Twitter, assinou até um decreto que libera o acesso a redes sociais dentro de repartições públicas. “A ideia é criar um espaço para o cidadão comunicar do ponto de vista dele como estão os resultados dos nossos serviços. É preciso estar inserido onde a população se relaciona”, diz e vai além: “Desde janeiro, 23 órgãos do governo de São Paulo criaram seus blogs. Trata-se de uma mudança cultural que surge com estas novas ferramentas, novas formas de falar com a população e ouvi-la.”.
Para Agune, a presença do governo das redes sociais é um caminho sem volta: “Ou o governo entra e usa estas linguagens ou se afasta da sociedade. Temos que usar estas ferramentas para nos aproximarmos do cidadão e para ouvi-lo. Isso é importante”.
“É fundamental criar espaços onde se possa ouvir o cidadão. A sugestão de um cidadão pode nos ajudar a melhorar nosso trabalho” – Roberto Agune
Tive a oportunidade de encaminhar uma pergunta aos componentes da mesa. Queria saber como eles encaravam o desafio de responder a críticas nas redes sociais. Pinto, da Nike disse que “quem entrar na rede para ter relevância, precisa se colocar para o debate” e que “se só tivermos elogios significa que não fomos profundos, que não tocamos nos pontos sensíveis ao usuário”. Finalizando, disse que “críticas fazem parte”.
Para Fianna, da Claro, nesse cenário as críticas são inevitáveis e a melhor maneira de lidar com elas é com respeito: “É preciso tentar reverter isso em benefício”, afirma, dizendo, ainda, que a empresa que representa é a que mais responde às mensagens postadas no site Reclame Aqui.
Agune, por sua vez, disse que cuidar das críticas é fundamental: “Há críticas interessantes, construtivas, e há quem extrapole.” Segundo o representante do governo paulista, os críticos trazem ferramentas, as informações necessárias para fazer ajustes em procedimentos de governo. “É fundamental criar espaços onde se possa ouvir o cidadão. A sugestão de um cidadão pode nos ajudar a melhorar nosso trabalho”.
“O Twitter é uma Ferramenta de Ouvir” - Marcelo Tas
O jornalista Marcelo Tas deu seqüência à programação do evento dizendo que a possibilidade de ouvir é o principal ponto a ser destacado no Twitter. Para ele, a ferramenta deve ser usada com este objetivo, com sinceridade e sem subestimar quem está do outro lado. “Após o CQC, eu chego em casa, uso a busca do Twitter e vejo tudo que as pessoas falaram de bom ou de ruim. Nunca na história da TV existiu uma ferramenta assim.”
Usando seu blog como fonte, o jornalista mostrou também como o brasileiro tem mudado sua forma de usar a internet. “No passado, 80% do meu acesso vinha diretamente de páginas do UOL. Hoje, 36% vem via Twitter e apenas 20% vem do UOL. Nós mudamos o caminho da informação também dentro da internet.”
Sobre como o governo poderá utilizar as ferramentas sociais, Tas disse que o potencial é extremamente grande para quem for criativo, mas fez ressalvas. “Na última semana, vi políticos comemorando a liberdade dada pelo Senado à internet nas próximas eleições. Eu agradeço, mas aviso que já somos livres há muito tempo na rede e essa liberdade ninguém irá tirar de nós.”
Tas disse ainda que o momento que a sociedade vive hoje é extraordinário por possibilitar que empresas e governos ouçam seus clientes e cidadãos: “O importante é que se ouça. É duto ouvir certas coisas, é uma prática quase espiritual. Mas é preciso segurar o tranco e quem estabelecer este diálogo pode crescer muito”.
“Twitter não é coisa de moleque” - Camila Menezes
Filha do técnico corintiano Mano Menezes, Camila Menezes idealizou e mantém o perfil do pai no Twitter. São mais de 900 mil seguidores que, por algum tempo, mantivera o técnico na liderança do Twitter Brasil no quesito número de seguidores – posto que perdeu recentemente para o apresentador Luciano Huck.
No perfil de Mano, são lançadas campanhas promocionais, com prêmios – só neste ano, foram feitas cinco. “Pelo perfil, já fizemos promoção para mandar vídeos de motivação para os jogadores e apoiamos campanhas sociais relacionadas ao futebol”, conta.
Camila organizou recentemente uma espécie de “sabatina” com o técnico corintiano, que recebeu perguntas dos usuários do Twitter. “Foi como uma coletiva de imprensa exclusiva”, explica. Foram recebidas mais de 50 mil perguntas por dia. “Como é inviável responder todo mundo, nós respondíamos de forma mais geral possível, para evitar frustrações.”
Declarações exclusivas do técnico também já foram divulgadas em primeira mão no Twitter de Mano Menezes, conta Camila. "Muitas pessoas perguntavam pelo Twitter sobre o Ronaldo, então, assim que o Mano decidiu escalá-lo para o jogo contra o Goiás, ele resolveu divulgar pelo Twitter." Geralmente, ela entra em acordo com a assessoria do clube para divulgar as informações. “Nos casos mais polêmicos, deixamos por conta deles. Se eu publicar todas as notícias pelo Twitter, vou comprar briga com o clube e com a imprensa”, diz.
Camila comentou também a resistência de alguns jornalistas e veículos de comunicação ao Twitter. Para ela que também é jornalista - a realidade e a utilidade da ferramenta estão quebrando barreiras: “Muitos jornalistas já aprenderam a usar o Twitter. Mas já assisti programas de TV onde apresentadores criticaram a ferramenta, disseram que é uma bobagem, uma resistência boba. Sabendo usar vai se dar bem”, resumiu.
“Empresas têm de experimentar redes sociais até encontrar a pepita de ouro” - Carlos Arthur Werner
O painel “A explosão das redes sociais” reuniu Osvaldo Barbosa de Oliveira, diretor-geral de serviços online da Microsoft Brasil, Marcelo Branco, diretor-geral da Campus Party Brasil, Carlos Arthur Werner, diretor da Samsung e Rodrigo Byrro, gerente de produtos da HTC América Latina. Eles relataram as experiências de suas empresas no relacionamento com o cliente via redes sociais.
Segundo Werner, a Samsung montou uma equipe especializada para atender os clientes que utilizam estas ferramentas para interagir com a empresa: “Esta equipe faz este relacionamento, respondendo a perguntas de maneira pró-ativa e reativa. É importante ouvir o que está sendo dito nestes canais e falar também”. Para o executivo, a pepita de ouro pode partir de uma sugestão dos próprios consumidores.
“Antes nós falávamos com um milhão de pessoas. Hoje, um milhão de pessoas falam com você num instante” – Rodrigo Byrro
Byrro considerou que as redes sociais são espaços nos quais as empresas terão, necessariamente, que se fazer presentes: “São uma fonte de relacionamento muito forte. Se você não está preparado para se relacionar, não entre. Antes nós falávamos com um milhão de pessoas. Hoje, um milhão de pessoas falam com você num instante. A forma como você se relaciona com isso é o que importa”.
Branco, da Campus Party, disse que pela primeira fez empresas e governos estão na mesma plataforma que seus usuários. “A comunicação de massa, hoje, está sendo intermediada pelas comunicações interpessoais”.
Nesse processo de mudanças na maneira de se relacionar com o cliente e internamente, as companhias precisam estar alinhadas à sua própria visão. “Não adianta tentar ser diferente do que realmente é”, afirma Oliveira, da Microsoft. “Ela precisa definir, para os clientes, que tipo de expectativa eles podem nutrir com relação à marca na rede social”.
Para Byrro, a proposta serve também para a lógica interna da organização. “Abrir esse canal de comunicação é fácil, mas se ela não estiver pronta, não tiver equipe suficiente e a mente não estiver preparada, não conseguirá gerenciar todas as informações”, diz.
Apesar da importância dada ao relacionamento com o público, a maioria das companhias ainda não consegue nem mesmo gerenciar todas as reclamações postadas por clientes em redes sociais. Na Samsung elas são encaminhadas para os serviços de call center. “Mas não temos condições de fazer isso massivamente”, afirma. “Precisamos intensificar a monitoração das redes para incorporar sugestões em futuros produtos”, diz Oliveira, da Microsoft.
“Redes sociais não são uma questão de tecnologia, mas de inteligência de mercado” - Alessandro Barbosa Lima
A complexidade das relações humanas faz empresas de monitoramento de usuários das redes sociais desconfiarem das ferramentas automáticas. Já tão populares quanto a própria internet, as redes sociais são fontes preciosas para obter informações sobre as opiniões de milhares de pessoas, que, para as empresas, são consumidores com enorme potencial de influenciar outros consumidores.
Os métodos de análise desse comportamento foram o tema do painel “Monitoramento das mídias sociais”, mediado por Sandra Carvalho, reunindo Cassio Dreyfuss, vice-presidente da Gartner, Martha Gabriel, CIO da New Media Developers, Alessandro Barbosa Lima, CEO da e.Life e Phillippe Jorge, CEO da européia NetBooster-Agency.
O tom da discussão foi em torno dos desafios e resultados gerados pelo acompanhamento de marcas e empresas nas redes sociais. A dificuldade em analisar e interpretar corretamente a grande quantidade de informações foi apontado como um dos maiores obstáculos.
"Há problemas como a superexposição de status. Uma pessoa pode amar uma marca e odiar especificamente um produto. Como é possível analisar isso? Não é só o número de cliques ou apenas um texto. É muito mais complexo. Estamos em uma fase muito embrionária de análise. Usamos varias fontes, mas entendemos apenas como uma indicação. Sempre com um pé atrás. Cada rede social tem suas próprias características”, afirmou Dreyfuss.
Entre os caminhos apontados para superar os ruídos de comunicação, está a analise individual de cada consumidor, de seus hábitos e de seus contatos. “É preciso analisar todo o ecossistema. Às vezes um texto pode ser lido por dez pessoas, que são seguidas por dez mil. É necessário medir, analisar e agir. Com a analise combinada de cookies e behavioral target já é possível até prever o sucesso ou o fracasso de uma ação”, afirmou Martha Gabriel.
A participação das empresas nas redes sociais já não se limita apenas ao ato de analisar e responder eventuais críticas. Muitas companhias apelam para o seeding, termo em inglês que significa semear. Mais uma solução digital que pode trazer oportunidades e problemas.
"É preciso ser transparente, entre quem monitora e faz 'seeding'. O consumidor em busca de recomendação já percebe quando se depara de textos muito bem escritos. Hoje vimos um texto de um cara que disse que comeu pão com uma determinada marca de margarina e por isso seu dia foi mais feliz. Está claro que isso não é natural”, disse Lima.
"O essencial para a empresa é falar a verdade , mesmo em uma situação de crise. Uma mentira descoberta pelo usuário pode gerar um problema muito maior”, afirmou Phillippe Jorge. “Uma mentira pode se transformar em um problema muito grave. Falem sempre a verdade”, disse Dreyffus.
Apesar disso, as opiniões se dividem em casos de comunicação de crise. Martha Gabriel defende que, seja qual for o problema gerado a partir da participação do cliente em redes sociais a empresa “deve dar a cara a tapa”. No entanto, se a crise é gerada por boataria sem fundamento, o melhor é “recolher a aguardar”.
Lima, por sua vez, é incisivo: aconselha a não entrar em divididas nas redes sociais.
“A partir do momento em que começa a colocar conteúdo, você vai gerar um relacionamento. Os consumidores vão lá. E não adianta dar respostas evasivas” – Roberto Aloureiro
Na mesa “As empresas no Twitter”, mediada por Renata Leal, editora da revista INFO, os participantes destacaram que é preciso estar disposto a ter uma relação aberta e transparente com os consumidores. Integraram o painel Sérgio Gordilho, sócio e vice-presidente de criação da agência África, Roberto Aloureiro, gerente de redes sociais da Tecnisa e Márcio Orlandi, gerente de internet da Natura.
Para Gordilho, nem todas as empresas devem criar perfil no Twitter. As características de algumas delas inviabilizam o uso da ferramenta. Os bancos, por exemplo, estariam entre elas. “Existe uma legislação muito severa para eles”, disse. Além de não poderem distribuir conteúdo, tudo o que for escrito precisaria ser feito com extremo cuidado. Qualquer dupla interpretação seria fatal. “O Twitter tem que estar na natureza do negócio”, afirmou. “Existem vários casos de fracasso.”
De acordo com Aloureiro, é melhor ficar calado do que dizer besteira. Segundo ele, à medida em que você está presente na rede, deve haver disposição para dialogar com os consumidores, mesmo quando eles fazem críticas ou reclamações. “A partir do momento em que começa a colocar conteúdo, você vai gerar um relacionamento. Os consumidores vão lá. E não adianta dar respostas evasivas”, disse. “Errar, todo mundo erra. A empresa tem que estar disposta a atender o cliente.”
Opinião semelhante tem Orlandi: “Tem que genuinamente querer entrar em uma conversa. Se o ponto for única e exclusivamente medo, perca o medo. Você consegue crescer essa rede e vê como ela se comporta.” Com 100 seguidores, segundo ele, já é possível ter um indicativo de como agem os consumidores e de como será possível lidar com eles.
"Se alguém reclama de sua marca, ele a ama. Mas se ele a ignora, a coisa fica ruim" – Maurício Vargas
Na mesa “Os direitos do consumidor na web”, que reuniu Maurício Vargas, diretor do site Reclame Aqui, Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Pro Teste e o presidente da Associação Brasileira dos Usuários de Acesso Rápido (Abusar), Horácio Belfort o debate concentrou-se na distância cada vez menor entre os clientes e empresas.
Mesmo conhecendo as novas ferramentas e monitorando as redes sociais, muitas marcas ainda precisam aprender a analisar as críticas e reclamações, e manter uma posição cada vez mais honesta. "Se alguém reclama de sua marca, ele a ama. Mas se ele a ignora, a coisa fica ruim", disse Vargas, cujo site conta com cerca de 2 milhões de usuários cadastrados.
Para Dolci, a velocidade de mudança dos consumidores não é acompanhada pela maioria das empresas, que ainda mostram certa resistência. "Ao mesmo tempo em que as empresas estão mais conscientes, o consumidor está cada vez mais exigente. É necessário entender isso." Segundo ela, as companhias perdem oportunidades quando optam por não qualificar seu atendimento.
Belfort, por sua vez, disse que a entidade busca orientar seus usuários. "Eles precisam conhecer mais seus direitos básicos na internet, como saber, por exemplo, sua taxa de upload, algo que é normalmente escondido." Para ele, empresas como a Telefônica se omitem das discussões em redes sociais por temer o resultado de um possível debate. O medo das empresas parece ser a principal barreira entre elas e seus consumidores.
Ao optar por deletar comentários, ignorar críticas e deixar o consumidor à mercê dos call centers, elas deixam para trás boas oportunidades, afirma Maria Inês. "O canal de reclamações de um site é uma rica fonte para mudar estratégias. Elas devem ficar atentas, saber a hora de interferir e interagir com o consumidor." O desafio das empresas, segundo Vargas, é o processo de absorver as críticas. "Não basta monitorar: é necessário analisar cada caso e agir."
“É fácil conseguir seguidores. Mas a rede social é ferramenta qualitativa, é importante saber quem são seus seguidores e a capacidade que eles têm de retuitar” - Walter Longo
O último painel do evento, “Os Supertuiteiros”, reuniu Walter Longo, vice-presidente da agência Young & Rubican, Carlos Cardoso, escritor e blogueiro do Meio Bit, e Cesar Paz, diretor-presidente AG2.
“O Twitter é importante para mandar gente para outras redes. Uma vez que o Marcelo Tas deu um retweet do meu post do blog que gerou 9 mil usuários únicos em menos de uma hora. Um retweet meu gera cerca de mil usuários únicos”, diz Cardoso, que tem um perfil com quase 14 mil seguidores.
Para Paz, o Twitter é um “hub de distribuição de conteúdo”. Porém, nem sempre é interessante para as empresas mergulhar no Twitter. Paz afirma que já recomendou a alguns clientes a não tuitar. “Não adianta fazer tecnologia pela tecnologia”, diz. Longo concorda: “O Twitter é uma ferramenta de reputação da empresa, não deve ser vista como simplesmente uma ferramenta de propaganda, da forma antiga, analógica.”
Para Longo, que têm quase 14 mil seguidores, o Twitter não é uma ferramenta passageira. “Twitter é um broadcasting pessoal, por isso as pessoas estão fascinadas. Ele é um fenômeno que pode ser comparado ao iPhone, um meio ambiente onde nascem aplicativos”, diz. Cardoso acha que o Twitter não se trata só de um hype e que muitas pessoas estão fazendo bom uso da ferramenta. “Como o (governador da Califórnia) Schwarzenegger, que postou no Twitter uma foto do avião em que ele estava”, conta. A aeronave fez um pouso de emergência em Los Angeles, nos Estados Unidos.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Com o canudo na mão
A turma que costuma acessar o Escrevinhamentos conhece, também, minha posição sobre a exigência do diploma para o exercício da profissão no Brasil. Ela continua a mesma. Continuo considerando a exigência (que permanece “derrubada”, embora haja quem queira ressuscitar o defunto) um anacronismo, uma excrescência corporativista que em nada garante a qualidade do jornalismo cometido neste país.
Dito isso, aviso que estou oficialmente diplomado. Ontem retirei meu canudo na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), finalizando uma cantilena pessoal que se arrastava por duas décadas. Portanto, agora, falo com "conhecimnento de causa".
Agradeço aos colegas pelo carinho com que me receberam na sala de aula, aos professores e funcionários da universidade. Apesar de minha posição sobre o tema, sempre fui respeitado por todos eles, assim como demonstrei a eles o meu respeito.
Para continuar na trilha, indico abaixo alguns artigos sobre o tema (de minha autoria e da autoria de outros), publicados aqui durante este ano.
- Gay Talese: "Um diploma não torna você um jornalista"
- Diploma e Jornalismo: visões inglesas e argentinas
- Ainda, o diploma
- Diploma: algumas leituras sobre o tema
- Caiu a exigência do diploma: viva o Jornalismo
- Na semana em que pedi a colação de grau o STF pode derrubar o diploma
- Ainda o diploma para jornalistas
- Sobre o diploma para jornalistas
- Diploma: lucidez em meio ao obscurantismo
- A desqualificação como argumento
- Mantido ou não o diploma, algo muda no nosso Jornalismo?
- Com ou sem diploma?
- Priscila, Greenpeace e o canudo
Fotojornalismo

Manifestante é atingido por uma bala de borracha disparada pela polícia, durante protesto perto da embaixada brasileira em Tegucigalpa, Honduras, onde o presidente deposta Manuel Zelaya se refugiou. Em discurso na ONU, o presidente Lula pediu a saída imediata dos golpistas. Foto de José Cabezzas, da France Press.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Quando é que Puccinelli fala sério?
A fanfarronice veio a público e gerou um tremendo mal estar, repercutindo nacionalmente. Minc respondeu definindo Puccinelli como "um truculento ambiental que quer destruir o Pantanal com a plantação de cana-de-açúcar”, e completou: “Essa declaração revela o seu caráter". O pedido de desculpas que se seguiu, foi patético, e põe em dúvida a veracidade de tudo quanto diz o governador daqui para adiante.
A nota do Governo do Estado afirma que as declarações de Puccinelli foram mal interpretadas como ofensivas. "[...] Lamenta a conotação de ofensa a elas atribuídas, pois foram feitas em ambiente diverso, e, antecipando-se a qualquer outra conotação, esclarece que as criticas restringem-se ao ambiente do debate técnico e político dos assuntos que dizem respeito aos interesses de Mato Grosso do Sul e ao Ministério do Meio Ambiente". Argumenta, ainda, que a declaração foi dada em tom de brincadeira. "[...] O governador André Puccinelli fez referências, em tom de brincadeira, a outras críticas recebidas pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. As referências do governador foram entendidas pelos presentes no contexto de brincadeira, sem caráter de ofensa pessoal ao ministro", diz a nota.
Ora, como saber se André Puccinelli fala sério ou apenas graceja? Sua história está recheada de momentos de agressão verbal. Eram apenas brincadeiras?
No dia 21 de novembro de 2007, por exemplo, quando, em entrevista à Rede Brasil de Televisão e à Agência Brasil, o governador disse que o aumento do tempo de planejamento de aulas para 1/3 da carga horária de trabalho do professor seria "vadiagem". Ele apenas gracejava?
Durante a desastrosa entrevista, Puccinelli sugeriu que os professores deveriam usar a internet para preparar aulas de forma mais rápida: "Há 30 anos quando não tinha internet, não tinha Google [site de buscas], não tinha tanta modernidade, os professores planejavam e tinham que pesquisar em livros. Hoje você entra no Google e o professor de Geografia passa a aula com maior tranqüilidade", disse, deixando claro que para ele um professor pode entrar na internet, copiar uma aula, e apresentá-la aos seus alunos. Ele estava brincando?
Truculência
Em novembro de 2007, Puccinelli foi alvo de uma representação no Ministério Público Estadual (MPE) apresentada pelo presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (Fetems), Jaime Teixeira, por ter determinado que a PM-2 (serviço reservado de inteligência da Polícia Militar) espionasse uma assembléia de professores em Campo Grande.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Grande mídia de MS ignora falta de transparência da AL, do TCE e do MPE
O jornal O Estado de Mato Grosso do Sul foi o único veículo da “grande imprensa” a publicar o material na sexta-feira, 18, abrindo a página 5A com reportagem assinada pelo jornalista Humberto Marques. O maior jornal de MS, o Correio do Estado, o jornal Folha do Povo, assim como os dois maiores portais de notícias sul-mato-grossenses, o Midiamax e o Campo Grande News calaram.No sábado, 19, o portal MS Notícias reproduziu na íntegra uma notícia publicada pelo jornal Folha de S.Paulo na sexta, 18, sobre tema similar, esquecendo de citar o principal, o relatório da Transparência Brasil, contextualizando o material para a realidade do Estado. Finalmente, na segunda-feira, 21, a Folha do Povo manchetou o mesmo material da Folha de S.Paulo.

Apenas o jornal O Estado continuou no tema. Com suíte de Humberto Marques, dedicou o abre da página 3A de sábado ao assunto, repercutindo o gancho central da notícia – a sonegação de informação por parte da Assembléia, do Tribunal de Contas e do Ministério Público – com o presidente da Associação Sul-mato-grossense do Ministério Público, Humberto Lapa Ferri, para quem “a divulgação de informações referentes ao custeio de instituições públicas é um direito do cidadão, e deve ser seguida pelos órgãos responsáveis por tais gastos”.
Para refrescar a memória
A Transparência Brasil concluiu que os integrantes da grande maioria das Assembléias Legislativas brasileiras não são submetidos a qualquer tipo de controle demonstrável quanto à forma como gastam os recursos que têm à disposição.
Para analisar o controle sobre os gastos do legislativo estadual em todo o País, a ONG enviou aos Ministérios Públicos, aos Tribunais de Contas e às Casas legislativas das 27 unidades federativas brasileiras um ofício com indagações a respeito dos salários e benefícios diretos e indiretos recebidos pelos deputados estaduais. No ofício, solicitava-se que os dados fossem discriminados segundo diversas categorias. No caso das Assembléias (mas não dos TCEs e dos MPs) foi feito um segundo contato, vinte dias após o envio dos ofícios. Como resultado do exercício, obtiveram-se informações (completas ou incompletas) de apenas 8 das 27 Casas.
A Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul e o Tribunal de Contas do Estado simplesmente não responderam aos ofícios. Já o Ministério Público Estadual afirmou absurdamente ter havido “equívoco” por parte da Transparência Brasil “quanto ao destinatário” do ofício e argumentou que os dados solicitados são “sigilosos”, mas sugeriu que se solicitasse a informação à própria Assembléia, cujo site não disponibiliza qualquer informação sobre salários, verba indenizatória ou qualquer outra despesa incorrida pelos deputados estaduais.
Cobertura fraca
A rasa cobertura da imprensa sul-mato-grossense sobre pauta tão cheia de possibilidades e de significados pode sugerir três situações: 1) os jornalistas que compõem as redações destes veículos estão desligados do que ocorre à sua volta; 2) estão impregnados pelo câncer da autocensura – que como disse o jornalista Carlos Castilho, recentemente, no artigo “Auto-regulação, autocensura e autonomia”, limita a nossa capacidade de pensar e anula a diversidade na troca de informações, uniformiza conteúdos a pretexto de preservar interesses e conveniências e, ao fazer isso, agride o jornalismo porque priva o público de dados, fatos e processos necessários para a formação de opiniões e tomada de decisões, ou 3) o editorial de nossos jornais e portais está agrilhoado pelos interesses do patrão.
Se a última hipótese for a correta, menos mal. É como eu disse ano passado no artigo “Quarenta anos após AI-5, ainda a censura”: em meio à censura econômica, “a questão que se coloca aos que querem debater de fato o futuro da profissão se resume em como podemos fazer frente, nós, simples mortais, às exigências do poder midiático enclausurado nas mãos do patrão, mantendo, ao mesmo tempo, padrões éticos que nos permitam desenvolver um trabalho digno e enquadrado no que se define como missão do jornalismo: a busca exaustiva da verdade, com independência e fidelidade ao leitor.”.
Hoje não, amanhã, acho...
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Participo hoje, em SP, do seminário Info: Twitter, Orkut e Flickr
O Chamado de Cthulhu e outros contos - H.P. Lovecraft
“Sou um sujeito assim – um cético materialista com gostos clássicos e tradicionais; afeito ao passado e a suas relíquias e tradições, convicto de que a única busca de sentido digna de um homem neste universo caótico é a busca dos prazeres requintados e inteligentes que se obtêm mediante uma vívida existência mental e imaginativa”. Este é Howard Philips Lovecraft, ou H.P. Lovecraft, autor cuja coletânea de contos “O Chamado de Cthulhu e outros contos” (Editora Hedra) acabo de degustar neste domingo, em sampa. Trata-se de um maravilhoso mergulho nas profundezas da mente de um dos autores fantásticos mais originais da literatura estadunidense.Nascido em 20 de agosto de 1890, em Providence, Rhode Island, Lovecraft foi uma criança precoce. Aos dois anos já recitava poesia, aos três, aprendeu a ler, aos cinco, teve contato com as Fábulas dos Irmãos Grimm e com as Mil e uma Noites. Entre seis e sete anos de idade, aventurou-se em seu primeiro conto.
O valor literário da obra de H.P. Lovecraft não foi reconhecido durante sua vida. Após sua morte, em março de 1937, seus correspondentes (Lovecraft deixou uma vasta correspondência) August Derleth e Donald Wandrei, movidos pelo desejo de perpetuar a obra o amigo, ofereceram seus contos a vários editores. Acabaram fundando, eles mesmos, a editora Arkhan House, com o intuito de publicar as obras do autor. Mas, o reconhecimento definitivo só veio a partir da década de 60, com a publicação do primeiro volume de sua correspondência em Selected Letters 1 (Archan House, 1965). Em 2005, a coleção Library of America publicou Tales, um volume inteiramente dedicado a Lovecraft, alçando-o definitivamente ao panteão dos maiores representantes do fantástico e do terror.
“O Chamado de Cthulhu e outros contos” oferece um passeio pela produção literária de Lovecraft tendo início em 1917, com o conto Dagon, passando pela década de 20 e 30 com histórias que nos arrebatam do sofá, fazendo com que nossa mente percorra o universo, as profundezas da terra e, em meio a isso, imaginemos o que há entre estas duas dimensões. Contos como “Ar frio” (1926), “A música de Erich Zann” (1922), “O modelo de Pickman” (1926), “O assombro nas trevas” (?) e “O chamado de Cthulhu” (1926) são exemplos do que se convencionou chamar – referindo-se a obra de Lovecraft - de horror ancestral ou horror cósmico.
“O mundo e todos os seus habitantes parecem-me imensuravelmente insignificantes, de modo que sempre anseio por insinuar simetrias mais vastas e mais sutis do que aquelas relativas à humanidade”.
Os contos combinam a antiga tradição do horror com pinceladas de ficção científica e avanços da ciência, resultando em um tratamento literário e filosófico dos preceitos científicos de então. “A emoção mais antiga e mais forte do homem é o medo, e o medo mais antigo e mais forte é o medo do desconhecido”.
Inspirado por autores que construíram uma reputação sobre a literatura fantástica como Edgard Alan Poe, Villiers de L´Isle Adam, Willian Beckford, Ambrose Bierce, S.T. Coleridge, Nathaniel Hawthorne, Wasghington Irving, Henry James, Guy de Maupassant e R.L Stevenson, Lovecraft é um personagem tão interessante quanto os que ele criou para habitar suas histórias. “Meu gosto por coisas estranhas começou muito cedo, pois sempre tive uma imaginação absolutamente descontrolada”, afirma em carta a R. Michael (em 20 de julho de 1929), cujo encerramento nos dá pistas de sua mente fulgurante e imaginativa: “Mas o ocidente fulgura com o sol que parte, e acima das copas ancestrais a alongada foice prateada da jovem lua perturba. Preciso ir para casa...”.
domingo, 20 de setembro de 2009
sábado, 19 de setembro de 2009
Poesia aos sábados
Descobri-me caminhando em pedras lisas,
com os pés cobertos por uma fina lâmina de água,
agarrado à grama das margens,
os joelhos levemente dobrados,
as palmas das mãos esfoladas.
Preocupado somente em manter-me de pé,
deixando de admirar toda a paisagem à minha volta.
Diego Rodrigues, esta semana, no Poema Dia
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Folha de S.Paulo reforça denúncias sobre blindagem de Assembléias
Segundo a reportagem do jornal paulista, enquanto em São Paulo o custo da Assembléia Legislativa para cada habitante fica em R$ 14 por ano, no Mato Grosso do Sul (cujo legislativo estadual ocupa a sétima posição entre os mais onerosos do país), este custo é de R$ 56 por habitante.
Ontem, aqui no Escrevinhamentos, falei deste tema no post “AL, TCE e MPE sonegam informações para a Transparência Brasil”. Vale a pena checar.
Coluna do Capssa - "Darfur: um genocídio silencioso"
Os britânicos retomam o Sudão em 1898 e, no ano seguinte, a nação é submetida ao domínio egípcio-britânico. Obtém autonomia em 1953 e independência em 1956. Mas a independência real do Sudão não se fez assim tão facilmente. Nos vários conflitos internos que se seguiram, estabeleceu-se uma república autoritária que desde 1989 oprime a população. Todo o poder sudanês continua nas mãos do tirano Omar Hasan Ahmed al-Bashir.
O Sudão está dividido em 25 estados, entre os quais Darfur do norte, do sul, oriental e ocidental. 49% da população do país é composta de árabes sudaneses e o restante de africanos não árabes.
Bashir decretou, déspota que é, que toda população se convertesse ao islamismo, como se ele tivesse o poder de determinar a fé de cada indivíduo, de impor a religião adotada pela população não árabe do Sudão. Diante disto, 75% da população se tornou islâmica. Além disso, obrigou parte da população a trabalhar na indústria do petróleo, forçando milhares de sudaneses que trabalhavam no pastoreio a deixar sua tradicional atividade.
A partir de 2003, o déspota iniciou em seu país o maior genocídio, desde o que se abateu sobre os judeus na 2ª Grande Guerra. Matou e torturou mais de 400.000 pessoas entre homens, mulheres e crianças, forçando mais de 2 milhões de seres humanos a se transformarem em refugiados.
Li recentemente o livro “O Tradutor”, de Daoud Hari, um homem que teve a coragem de mostrar aos jornalistas de todo mundo - mesmo arriscando a própria pele - o que se passa em Darfur. Daoud Hari descreve em seu livro uma série de barbaridades cometidas pelo regime contra a população civil, presenciadas pelo autor. Dois destes relatos são particularmente perturbadores
Daoud nos descreve uma cena em que de longe via uma família descansando sob a sombra de uma árvore. Ao se aproximar, descobriu que duas crianças estavam mortas. A mãe, com o lenço envolto em um galho da árvore, enforcada, também morta. O bebê que trazia no colo morreria nos braços de Daoud.
Noutra situação, o autor nos conta a loucura de um pai, que torturado, suspenso de pernas para o ar, vê sua filha ser transfixada por uma baioneta e dançar dependurada, como uma bailarina em dor.
Como alguém pode fazer uma coisa dessas em pleno século XXI? Pergunta Daoud Hari.
Hoje, o genocídio no oeste do Sudão está quase terminado. Há um problema, porém: o genocídio está chegando ao fim porque não restam negros para matar ou submeter à limpeza étnica.
OBS: O subtítulo Genocídio Silencioso tem 02 razões:
1º O mundo faz questão de manter-se surdo sobre o tema.
2º Daoud Hari faz questão de fazer silêncio sobre sua participação no conflito, no entanto nos diz: “Em meio à poeira e ao silêncio, as mulheres, as meninas, os jumentos, os camelos, olham fixos para o oeste”.
Luiz Carlos Capssa Lima
14/09/09
Fotojornalismo
Recebi esta foto ontem de uma amiga. Resume o que milhares de palavras não poderiam dizer. O chavão, me perdoem, foi a forma como consegui explicar a carga de significados que esta imagem carrega. Foto de Damir Sagolj, da Reuters.quinta-feira, 17 de setembro de 2009
AL, TCE e MPE sonegam informações para a Transparência Brasil
Para analisar o controle sobre os gastos do legislativo estadual em todo o País, a Transparência Brasil enviou aos Ministérios Públicos, aos Tribunais de Contas e às Casas legislativas das 27 unidades federativas brasileiras (entre elas Mato Grosso do Sul) um ofício com indagações a respeito dos salários e benefícios diretos e indiretos recebidos pelos deputados estaduais. No ofício, solicitava-se que os dados fossem discriminados segundo diversas categorias. No caso das Assembléias (mas não dos TCEs e dos MPs) foi feito um segundo contato, vinte dias após o envio dos ofícios. Como resultado do exercício, obtiveram-se informações (completas ou incompletas) de apenas 8 das 27 Casas.
A Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul e o Tribunal de Contas do Estado simplesmente não responderam aos ofícios. Já o Ministério Público Estadual afirmou absurdamente ter havido “equívoco” por parte da Transparência Brasil “quanto ao destinatário” do ofício e argumentou que os dados solicitados são “sigilosos”, mas sugeriu que se solicitasse a informação à própria Assembléia, cujo site não disponibiliza qualquer informação sobre salários, verba indenizatória ou qualquer outra despesa incorrida pelos deputados estaduais.
Vale lembrar, como frisa a Transparência Brasil em seu estudo, que a Constituição brasileira determina que entre as funções do Tribunal de Contas da União (TCU) está a de “julgar as contas dos administradores e demais responsáveis por dinheiros, bens e valores públicos da administração direta e indireta”; “realizar inspeções e auditorias por in iciativa própria; e “apurar denúncias apresentadas por qualquer cidadão, partido político, associação ou sindicato sobre irregularidade ou ilegalidade na aplicação de recursos federais” (Art. 71). A Carta assinala ainda que tais diretivas aplicam-se aos Tribunais de Contas dos estados e do Distrito Federal (Art. 75).
Na esfera estadual, contudo, tristemente incluíndo aí o Mato Grosso do Sul, não há notícia de atuação dos Tribunais de Contas junto aos respectivos parlamentos no sentido de apurar como os deputados estaduais se apropriam dos recursos públicos. O parecer continua mostrando que esta postura de descaso se estende aos Ministérios Públicos estaduais.
"O quadro de descontrole é agravado pela ínfima divulgação de informações por parte das Assembleias Legislativas e pelo desconhecimento do público brasileiro a respeito do que se passa nessas Casas. As informações a respeito da atuação das Assembleias Legislativas e de seus integrantes são muito inferiores ao material disponível sobre o Congresso Nacional.", afirma o documento.
Entrei em contato com as assessorias de imprensa da Assembléia Legislativa e do Tribunal de Contas e estou no aguardo de uma resposta. O telefone divulgado no site do Ministério Público estadual trinou insistentemente sem que ninguém o atendesse.
17:06: A Assessoria de Imprensa do Tribunal de Contas entrou em contato comigo e prometeu checar se o órgão recebeu o ofício da Transparência Brasil e, se recebeu, por que motivo não respondeu.
Participo, na 2ª, em SP, do seminário Info: Twitter, Orkut e Flickr
Fotojornalismo
A Câmara dos Deputados da Argentina aprovou na madrugada desta quinta-feira, por 146 votos a favor, três contra e três abstenções, o polêmico projeto de lei de Comunicação Audiovisual da presidente Cristina Kirchner, que agora será examinado no Senado. Depois de mais de 13 horas de debate, o governo conseguiu aprovar a lei com o apoio dos aliados de centroesquerda, em uma votação sem a presença de 104 deputados da oposição. Trata-se de um atentado contra a liberdade de imprensa, nos mesmos moldes que querem impor os “caudilhos” Hugo Chavez, Rafael Correa e Evo Morales. Foto de Alejandro Belverde.quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Comissão da ONU acusa Israel e Hamas de crimes de guerra
O documento condena o exército israelense e, também, o Hamas - por disparar foguetes contra a população civil israelense. Sim, o Hamas deve ser condenado por atacar a população civil. Ocorre que a desproporção dos ataques perpetrados pelo exército israelense e pelo Hamas é tamanha que não se pode colocar no mesmo patamar que a violência e o terror impostos aos palestinos por um exército profissional, dotado de armamento sofisticado e letal.
Segundo o texto, a operação contra Gaza foi planejada para atingir toda a população em vez de ter como foco os militantes do Hamas. Afirma ainda que declarações de militares israelenses de que o uso desproporcional da força, os ataques à população civil (veja aqui, aqui e aqui) e a destruição de propriedades poderiam ser meios legítimos de atingir objetivos políticos e militares devem ser denunciadas.
Ataques a fábricas de alimentos, sistemas de água e residências comprovam o objetivo de punir os palestinos, segundo o relatório, que cita ainda ataques a uma mesquita em horário de culto e tiros em pessoas que deixavam suas casas com bandeiras brancas nas mãos. O relatório conclui que a privação de acesso a subsistência, emprego e água pode levar a corte a entender que houve crime de perseguição, um crime contra a humanidade. A operação militar resultou na morte de cerca de 1.400 palestinos.
A conclusão da ONU não é novidade, reafirma as denúncias que têm sido feitas desde o início da ação militar promovida por Israel em janeiro: de que os palestinos foram vítimas de ataques indiscriminados que objetivaram espalhar o terror sobre a população civil de modo a "colocá-la em seu devido lugar".
A estratégia é conhecida: forçar a população da maior prisão ao ar livre do mundo ao desespero para, num segundo momento, usar suas reações como pretexto para mais um massacre. Um massacre premeditado, e que começou a ser preparado seis meses antes com vistas às eleições que ocorreram em fevereiro. Como definiu Idelber Avelar em um artigo que expõem de forma clara as verdadeiras intenções de Israel sobre os territórios palestinos ocupados, “no estado sionista, assim como nos EUA, bombardeios às terras árabes rendem votos fáceis.”.
Genocídio
Em janeiro passado, como resultado de um debate com leitores do blog, escrevi um artigo intitulado “O que ocorre em Gaza é genocídio?”. Perguntava, a princípio, comod definir genocídio? O termo foi criado por Raphael Lemkin, um judeu de origem polonesa, em 1944, a partir da junção da raiz grega génos (família, tribo ou raça) e - caedere (Latim - matar). Após o assassinato em massa de judeus, ciganos, testemunhas de jeová, comunistas, homossexuais e prisioneiros de guerra eslavos pelos nazistas, Lemkin iniciou uma campanha pela criação de leis internacionais que definissem e punissem o genocídio. Esta pretensão tornou-se realidade em 1951, com a Convenção para a prevenção e a repressão do crime de genocídio, da qual o Brasil é signatário.
A Convenção define por genocídio os seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso:
a) Assassinato de membros do grupo; b) Atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo; c) Submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial; d) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; e) Transferência forçada das crianças do grupo para outro grupo.
No meu entender, a política de bombardeio contínuo dos centros urbanos palestinos e de isolamento desta população em guetos é um “atentado grave à integridade física e mental” dos seus habitantes, portanto, deve ser classificado como genocídio.
O acadêmico e escritor palestino-libanês Saree Makdisi afirma que uma geração inteira de palestinos cresce com deficiências físicas e nutricionais geradas por falta de alimentos e alterações emocionais, por viver no cárcere virtual criado pelo bloqueio israelense, que se estende desde junho de 2007.
Em meio à violência, as crianças palestinas são as principais vítimas. Cerca de 50% dos 1,5 milhão de palestinos em Gaza têm até 15 anos de idade. O número de mortos no conflito que se estende desde o fim de dezembro ultrapassa os 700, entre as quais 220 crianças.
Um estudo da Queen"s University revelou que 90% das crianças em Gaza já foram vítimas do uso de gás lacrimogêneo, presenciaram cenas de violência em suas casas ou testemunharam tiroteios e explosões. O estudo demonstra, também, que o risco de desordem emocional em uma criança ferida nessa região se multiplica por quatro. Do mesmo modo, aquelas que presenciaram uma morte têm o risco de estresse pós-traumático multiplicado por 13. “É como se as crianças palestinas de alguma maneira não merecessem as proteções garantidas pela Convenção de Genebra e o Direito Humanitário”, conclui o estudo.
Levantamento feito pelo Gaza Community Mental Health Programme, realizado após a segunda Intifada, em 2000, indica que 70% das crianças palestinas na região não conseguem se concentrar, 96% têm medo do escuro, 35% se isolam e 45% sofrem altos níveis de ansiedade e estresse. Da mesma forma, o bloqueio israelense que se estende há quase dois anos, iniciado quando o grupo islâmico Hamas tomou o controle da área, aprofundou de forma avassaladora às dificuldades econômicas, sociais e sanitárias da população palestina, configurando-se em “submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial”.
É o que retrata reportagem publicada no jornal Folha de S.Paulo, citando o chefe da ONU para assuntos humanitários, John Holmes, segundo quem em março do ano passado, dez meses antes do início dos ataques, a situação do território palestino já era grave. Após percorrer a região, ele relatou "uma miséria que priva os moradores das mais elementares condições de dignidade.".
A reportagem faz um levantamento sombrio das condições de vida na Faixa: “O drama se traduz nos indicadores da região: mais de 80% dos 1,5 milhão de habitantes do território são pobres, e metade da população ativa não tem renda fixa. Dois terços dos cerca de 110 mil empregos que existiam no comércio desapareceram nos últimos anos. O bloqueio de 2007 acirrou a crise. Das 3.900 empresas locais de três anos atrás, sobraram menos de 200... Com o colapso do sistema de esgoto, os dejetos acabam despejados no mar, tornando insalubres as praias mediterrâneas e aniquilando a fonte de lazer preferida da juventude local. Só há eletricidade durante metade do dia no território, que se assemelha em tamanho e população ao município de Guarulhos (SP) - na prática, duas das áreas mais densamente povoadas no mundo, com mais de 4.000 habitantes/km2.”
Estas políticas de esmagamento da população palestina vêm sendo perpetradas há anos e registradas em detalhes por observadores de todo o planeta. No artigo “Genocide in Gaza” (2006), Ilan Pappe – escritor, conferencista sênior no Departamento de Ciência Política da Universidade de Haifa e Presidente do Instituto Touma para Estudos Palestinos em Haifa –esmiúça em detalhes os métodos do terror estatal israelense:
“A estratégia anterior em Gaza foi colocar os palestinos lá como se fosse um gueto, mas isso não está funcionando. A comunidade posta no gueto continua a expressar sua vontade de viver através do lançamento de mísseis primitivos para dentro de Israel. Isolar em guetos ou quarentena comunidades indesejadas, mesmo se elas forem consideradas subumanas ou perigosas, nunca funcionou na história como solução. Os judeus sabem melhor que ninguém por sua própria história. O próximo estágio contra tais comunidades no passado foram ainda mais horrendos e bárbaros. É difícil dizer o que guarda o futuro para a população de Gaza, confinada em um gueto, posta em quarentena, indesejada e demonizada. Será uma repetição de exemplos históricos funestos ou ainda é possível um destino melhor?”
Fausto Wolff, no artigo “Protejam as crianças”, coloca o dedo na ferida ao denunciar que tanto Israel quanto os Estados Unidos têm violado constantemente a Convenção de Genebra, cujos artigos 55 e 56 tratam da proteção que os invasores devem prover para a população civil do país invadido: acomodações, comida, bebida, assistência ambulatória e hospitalar.
“O artigo 56 enfatiza a obrigação do poder invasor de, em cooperação com as autoridades locais, providenciar rigorosos padrões higiênicos e fiscalizar bens perecíveis para evitar a propagação de epidemias, adotando medidas de profilaxia. E a todos os médicos e enfermeiras do país ocupado deve ser dada a liberdade de cumprir seus deveres.”
Um trecho do artigo “Israel vive paradoxo aos 60 anos”, de Daniela Kresch, é esclarecedor no que se refere a transformação de Israel em um país que trai as suas origens ao reproduzir sobre seus vizinhos os horrores que estão na origem de sua criação: “Para o cientista político Shlomo Zener, os traumas e temores nacionais não podem justificar a severidade no modo como são tratados os palestinos. Para ele, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza corrompeu o espírito libertário dos primeiros israelenses, que lutaram para criar um Estado moderno, sem perseguições, que servisse de modelo ético depois do extermínio de 6 milhões de judeus na Segunda Guerra.”.
Psicanalista e professor da Universidade Estadual de Maringá (PR), Raymundo de Lima traça, no artigo “É ‘barbárie’, ‘genocídio’, ‘holocausto’, ou ‘massacre’?”, um perfil bem reconhecível dos que tentam racionalizar a prática do genocídio. Segundo ele, o genocida tende a utilizar mecanismos de defesa psíquica como a racionalização e a intelectualização para justificar o seu ato como de “legítima defesa”, proteção contra o “intruso”. Qualquer similaridade com os argumentos usados por Israel em sua política belicista contra os palestinos não é mera coincidência.
Diz ele: “...ou seja, o outro é sempre visto como ‘perigoso’, ‘inferior’, ‘estrangeiro’, ‘infiel’, ‘selvagem’, ‘coisa’ ou ‘objeto’, enfim, o ‘outro’, o ‘diferente’ é sempre considerado um problema para a existência do genocida; como é marcado na sua singularidade, o ‘outro’ não é visto como ser humano total, não é ‘humanizado’ em sua condição de ser existente.”.
Em seu artigo, Lima sustenta, ainda, que o crime de genocídio do Estado ou de qualquer ato de barbárie de grupos extremistas, embora pareçam ser irracionais, na verdade são cometidos em nome de alguma causa “justa”. Ele explica: “O ato monstruoso sempre recorre a uma moral tosca cuja razão cínica satisfaz aos irmãozinhos que compartilham com a mesma crença, que acreditam nas sombras dogmáticas projetadas por um psiquismo esclerosado. Muitas vezes quem pratica o grande massacre se coloca como vítima...”.
Vale também citar o trecho final de “Genocide in Gaza”, no qual Pappe analisa de forma cáustica (e premonitória) os caminhos e descaminhos do holocausto palestino e as alternativas que restam para conter o autoritarismo com que os israelenses conduzem a questão.
“Ainda não há outra forma de parar Israel exceto boicote, desinvestimento (NT: retirada de investimentos, participação em sociedades etc.) e sanções. Todos nós deveríamos apoiar tais medidas clara, aberta e incondicionalmente, não importando o que os gurus de nosso mundo nos digam sobre a eficiência ou razão de ser de tais ações. A ONU não interviria em Gaza como faz na África; os ganhadores do prêmio Nobel não se interessarão em defendê-la, como fazem por causas no Sudeste Asiático. O número de pessoas mortas não é estonteante se comparado com outras calamidades, e não é uma história nova - é perigosamente velha e complicada. O único ponto suave dessa máquina de matar são suas linhas de oxigênio com a civilização 'ocidental' e a opinião pública. Ainda é possível perfurá-las e, pelo menos, tornar mais difícil para os israelenses implementar sua estratégia futura de eliminação do povo palestino, ou pela limpeza deles na Cisjordânia, ou pelo genocídio na Faixa de Gaza.”
Investigações
Em entrevista em Nova York, o líder da comissão responsável pelo relatório da ONU, o juiz sul-africano Richard Goldstone, disse estar otimista quanto à possibilidade de que as recomendações do documento sejam seguidas. A comissão recomenda que o Conselho de Segurança da ONU conceda um prazo de seis meses para que Israel faça uma investigação de possíveis crimes cometidos pelos militares e para que as autoridades palestinas façam o mesmo em relação a ações praticadas por grupos armados.
As investigações dos dois lados devem ser acompanhadas por uma comissão de especialistas em direitos humanos. Caso as partes não realizem a investigação, o relatório afirma que o assunto deve ser levado para o Tribunal Penal Internacional, onde são julgados crimes de guerra e contra a humanidade -Israel, porém, não é signatário do tratado constitutivo do tribunal, o que limitaria a efetividade de suas decisões.
Segundo Goldstone, Israel não cooperou com o relatório e as investigações já conduzidas pelo país não são válidas. "A investigação israelense tem sido conduzida em separado por militares com base nas informações dos seus próprios soldados. É preciso falar com as vítimas e ter transparência." Goldstone disse que, como judeu, ficou "desapontado" com a atuação do país.
O relatório afirma que não há mais espaço para a impunidade. Os representantes da comissão designada para apurar os fatos foram surpreendidos com declarações por parte de vítimas de que, cada vez que um relatório é publicado e nada acontece posteriormente, isso "fortalece Israel e sua convicção de ser intocável".
Da mesma forma, o relatório afirma que os militantes do Hamas cometeram crimes de guerra e possivelmente crimes contra a humanidade ao lançar mísseis contra Israel, sem preocupação de distinguir alvos civis e militares. Os ataques deixaram quatro mortos. "Isso causou terror na população civil israelense, como mostrado pelas altas taxas de traumas psicológicos em comunidades afetadas. Os ataques também levaram a uma erosão das vidas social, cultural e econômica nas comunidades localizadas no sul de Israel.", afirma Goldstone.
Leia mais sobre este tema
- O que ocorre em Gaza é genocídio?
O mundo ideal dos políticos
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Véu islâmico, laicidade e liberdade religiosa
Fontes defende a laicidade do Estado, mas, também a liberdade religiosa, condenando ações que possam restringi-la. Referindo-se a recentes decisões do governo francês de coibir o uso da burca no país, ele aponta a necessidade de critérios em decisões do gênero.
"Contudo, tais medidas podem, sim, ferir gravemente a liberdade de crença e de religião. É compreensível que se proíba o uso de signos religiosos pelos representantes do Estado, como juízes, policiais ou mesmo professores de escolas públicas. Mas que tal proibição atinja o próprio cidadão na sua vida privada, isso constitui uma deturpação do princípio da laicidade.
Não se pode entender a laicidade do Estado sem referência à liberdade religiosa. É a outra face da moeda. Por que razão o Estado deve ser laico? Porque, representando todos os cidadãos, não poderia abraçar uma opção religiosa sem alienar dessa representação os cidadãos de outra crença ou mesmo os que não professem religião alguma. Assim, a liberdade de religião, aliada a uma nova concepção do Estado e da igualdade, está na origem da laicidade.
De qualquer forma, é aos agentes e funcionários do Estado que o princípio da laicidade se dirige, vedando que expressem, no exercício da função pública, suas preferências religiosas. Os edifícios públicos, da mesma maneira, deveriam manifestar essa neutralidade diante da religião.
A laicidade é exigida sempre do Estado, nunca do cidadão, do particular, para o qual vale a liberdade de professar qualquer crença ou religião. A menina que vai à escola francesa não representa o Estado. É para que os cidadãos possam usar crucifixos, véus ou quaisquer signos religiosos que o Estado se laicizou, que se tornou neutro diante da opção religiosa."
Falando especificamente do uso da burca por estudantes francesas de fé islâmica, Fontes aponta os limites do Estado: "Vedar à jovem o uso do véu islâmico, mesmo na escola pública, é violentar sua liberdade religiosa, mormente pela importância que essa questão tem para as mulheres muçulmanas. Vedar o seu uso no território de um país é medida que remete às guerras de religião. O que tem sido professado na França é uma deturpação da laicidade, o laicismo, versão militante daquela. Ele perde de vista a liberdade religiosa e quer impor à população uma forma de secularização."
Escrevi recentemente sobre este tema nos artigos e comentários abaixo:
- Relativizando o relativismo. Ou: no dos outros é refresco
- Atire a primeira pedra quem apóia a burca
'Mídia passou a ser inimiga das instituições representativas', diz Sarney
"A tecnologia, hoje, levou os instrumentos de comunicação a tal nível que, a grande discussão que se trava é justamente esta: quem representa o povo? Diz a mídia: somos nós, e dizemos nós representantes do povo: somos nós. É dessa contradição que existe hoje, um contra o outro, que, de certo modo, a mídia passou a ser uma inimiga das instituições representativas", analisou Sarney.
Provavelmente o faraó maranhense projeta em seus sonhos de sociedade ideal um país sem imprensa livre, onde os desmandos, a malandragem e a roubalheira possam ocorrer sem que ninguém as aponte. Até quando a população vai se curvar para estes entulhos políticos?
Senado retoma votação de projeto da reforma eleitoral - assista AO VIVO
Restrições à internet e realização de eleições diretas em caso de cassação são analisadas
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Obama para inglês ver
Neste caso, no entanto, adquire caráter simbólico, já que representa a primeira renovação durante o mandato de Obama, que em seus primeiros meses no poder eliminou as restrições de viagens e envio de remessas dos americanos a seus familiares na ilha. Com esta determinação, Obama mantém a política de seus antecessores sobre o embargo à ilha.
A lei, que proíbe que empresas americanas possam manter relações comerciais com países hostis, data originalmente de 1917, mas entrou em vigor somente em 1963, depois da Revolução Cubana e da chegada de Fidel Castro ao poder. Desde então, o embargo foi reforçado e ampliado através de outras leis, como a Helms-Burton, de 1996.
Trata-se da reafirmação da hipocrisia estadunidense que, "em nome dos direitos humanos", isola Cuba do mundo mas mantém as portas abertas para regimes tão ou mais totalitários quanto o de Castro, como a China ou a Arábia Saudita. Mais uma mostra de que a "mudança" proposta por Obama foi apenas para inglês ver. Ainda assim, é de se compreender. Um presidente que tem que enfrentar manifestações públicas contra a criação de um sistema público de saúde, não tem mesmo muito espaço para manobras humanistas.
Leia mais sobre este tema:
- Hotel em ruínas mostra fosso entre discursos de Obama e Israel
- Obama e o biocombustível II
- Maquiavel, Obama e os assentamentos que não encolhem
- Obama joga para a torcida
- Obama fala sério ou endurecimento com Israel é para "palestino ver"?
- Obama e o etanol
- Obama e o biocombustível
Para pesquisador, iniciativa de fiscalizar a internet é "caricata"
A iniciativa de congressistas para regulamentar o uso da internet em período eleitoral "chega a ser caricata", na avaliação de Camilo Aggio, pesquisador da UFBA (Universidade Federal da Bahia). Com pesquisa sobre o uso da internet na política de países como EUA e Japão, Aggio diz que não é possível fiscalizar conteúdos políticos na internet como pretendem os legisladores. Mas ele avalia que a lei discutida no Congresso amplia a possibilidade de uso da rede, comparada à lei aplicada nas últimas eleições municipais. (ITALO NOGUEIRA)
FOLHA - Qual a sua avaliação do projeto discutido no Congresso?
CAMILO AGGIO - O que mais me preocupa é a expansão do uso de ferramentas de compartilhamento de conteúdo, mídias sociais, para que candidatos possam ter contato com o eleitor. Estão tentando adaptar, depois da pressão popular. Nas eleições passadas, políticos podiam estruturar campanhas apenas em websites. Isso sufocava ferramentas valiosas para fortalecer princípios democráticos. [O presidente dos EUA, Barack] Obama utilizou largamente essas ferramentas. Agora há essa possibilidade.
FOLHA - O projeto melhora o uso da internet na campanha?
AGGIO - Ao criar canais para os candidatos debaterem ou exporem com mais detalhe seus projetos, é um ganho democrático extremo. Principalmente se for pensar na campanha de candidatos de partidos pequenos, com menos recursos.
FOLHA - É possível fiscalizar a campanha na internet?
AGGIO - A ideia de fazer uma lei sobre internet é tida como caduca e restritiva. Não se sabe como vai fiscalizar, com tantos sites de compartilhamento de conteúdo, de relacionamento.
Chega a ser caricato que algum representante do Legislativo pense em fiscalizar. Usar seis, sete funcionários do gabinete para ver o que alguém falou ou deixou de falar. O princípio da internet é a liberdade.
FOLHA - Por que os políticos sentem necessidade de lei sobre isso?
AGGIO - É uma questão de preservação. Só acho que é caricato aplicar isso à internet como um todo porque é impossível.
Quantos blogs são mantidos por brasileiros? Não há sistema possível para fiscalizar todos os blogs pessoais.
FOLHA - Há o risco de campanha negativa?
AGGIO - Se pegar toda a literatura de campanhas online desde 1996, há mais conteúdo de autopromoção do que referência a outro candidato.
FOLHA - Como é a lei em outros países?
AGGIO - Nos EUA e na Inglaterra, é livre para partidos e candidatos. Cingapura e Japão têm mais restrições, mas tinham em todos os meios de comunicação na campanha, foi transferido para a internet. Ainda assim, a web no Japão permitiu que políticos de partidos menores entrassem em contato com eleitores e divulgassem inclusive sua existência.
Eleição, internet e borboletas
Publicado hoje no jornal Folha de S.Paulo
Eleição é sempre uma grande oportunidade de reafirmar a democracia. E as regras eleitorais são o primeiro passo para garantir que os processos democráticos sejam transparentes, precisos, confiáveis, informados e coerentes com a vontade popular. Alterá-las deveria significar, sempre, torná-las mais modernas, inteligentes e aptas a realizar o objetivo de chegar a uma sociedade democrática avançada, regida por regras universais e avessa ao patrimonialismo.
O Congresso brasileiro está hoje às voltas com a apressada análise -em consequência dos prazos constitucionais- de uma reforma na legislação eleitoral que poderá valer já em 2010. O texto básico foi aprovado, mas o Senado terá que votar nesta semana as emendas para depois remetê-lo de volta à Câmara dos Deputados, que o enviará à sanção do presidente Lula. Tudo até o dia 3 de outubro.
São muitos os pontos polêmicos. Além de não exigir divulgação dos nomes de todos os doadores e valores doados, a reforma, até agora, mantém a “doação oculta”, em que recursos vão para os partidos, que os repassam a candidatos sem a necessária identificação do vínculo entre doador e beneficiário.
Ainda é possível aprovar a emenda do senador Aloizio Mercadante que garante internet totalmente livre, antes, durante e depois das eleições. Nada de amarras, de tentativas de tolher a revolução na comunicação que a internet representa, com ampla liberdade e espaço para a conscientização, a mobilização e a pressão da sociedade.
Restringir a internet, como se fosse só mais um canal de comunicação nas relações entre mídia e sistema político, é desconsiderar que ela é estruturalmente diferente. É a maior ferramenta daquilo que o sociólogo espanhol Manuel Castells chamou de sociedade em rede, tornada possível pela expansão das tecnologias de informação.
Essa estrutura de redes tem sido decisiva para potencializar ações coletivas, que podem ganhar maior espaço nas eleições, interferindo diretamente na qualidade das escolhas políticas, por meio de iniciativas autônomas da sociedade.
Na internet, o fazer político é multicêntrico, não há senhores. Nela, a expansão política se dá no sentido oposto ao de um modelo autoritário ou dirigido, pois fica longe de controles, monopólios e centralização.
Uma reforma política democrática não pode, sob nenhum pretexto, tentar tolher essa livre manifestação. Insistir nisso é retrocesso grave -além de ser, provavelmente, tarefa impossível. Como tentar capturar num único puçá uma revoada de milhões de borboletas.







