Semana On

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Na semana em que pedi a colação de grau o STF pode derrubar o diploma

Na mesma semana em que solicitei minha colação de grau em Jornalismo pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB-MS) - fechando um périplo pessoal que teve início em 1988, quando ingressei na antiga Faculdade da Cidade (hoje UniverCidade), na Lagoa (RJ) - o Supremo Tribunal Federal (STF) deve votar a revogação da Lei de Imprensa e, em conseqüência, sepultar a obrigatoriedade do diploma específico em Jornalismo para o exercício da profissão no Brasil.

Conversando ontem com uma amiga querida - e colega de profissão - levantei esta lebre e ela me respondeu dizendo que “eu deveria estar muito chateado” com isso. Respondi-lhe que não, que apesar de ter concluído o curso, mantinha minha opinião sobre a obrigatoriedade do diploma. Sou contra. Mudar minha forma de enxergar este tema agora seria assinar um atestado de hipocrisia, seria compactuar com a visão corporativista (e burra) que sustentou parte dos argumentos de quem crê que diploma é garantia de um Jornalismo ético e tecnicamente qualificado.

Agora, recém-formado, olho para trás e relembro cada momento dos meus 21 anos de profissão, iniciados em 1988, pelas mãos do jornalista Luiz Paulo Coutinho (Jornal do Brasil), precursor do jornalismo comunitário que floresceu na Barra da Tijuca nas décadas de 80 e 90. Nos anos que se seguiram passei por todos os nichos do Jornalismo. Fui repórter de Geral, Polícia e Esportes em veículos de bairro e em diários cariocas, editei meus próprios jornais e revistas, fiz assessoria de imprensa. Mudei-me para Campo Grande (MS) em 2000 e aqui participei das equipes que fundaram dois jornais diários da capital (Diário do Pantanal e O Estado de Mato Grosso do Sul), onde atuei como repórter e editor; passei pelo site de notícias Midiamax e pelo semanário A Crítica, trabalhei na TV Brasil Pantanal (antiga TVE) e em secretarias estaduais, assessorei associações, empresas, políticos, o legislativo e o executivo campo-grandenses.

Posso dizer, portanto, que conheço cada cantinho desta nossa profissão e a conclusão mais latente que tiro destes anos dedicados ao Jornalismo é que minha formação se deu no dia a dia, na lida das redações e, principalmente, se construiu sobre uma curiosidade apaixonada a respeito do mundo e uma eterna vontade de questionar o estabelecido.

Não foram os três anos e meio de curso no Rio de Janeiro – interrompido por problemas que já se perderam no tempo – ou o período que passei na UCDB, quando resolvi retomar os estudos, que me fizeram jornalista. E agora, digo isso de cadeira, sem o incômodo de ter que conter a língua como fiz algumas vezes no passado, quando alguns coleguinhas menos dotados intelectualmente sugeriam que meu posicionamento contra a obrigatoriedade do canudo tinha como base o fato de eu não ser formado.

A estes dedico meu diploma. Ele estará dependurado na parede do escritório lá de casa para que, a cada vez que meus olhos o encontrem, eu me lembre que durante 21 anos me posicionei contra a hipocrisia.

Diante disso, lembro que o STF deve votar hoje (quinta-feira, 30) – salvo qualquer imprevisto - a proposta de extinção da Lei de Imprensa, “parte do chamado ‘entulho autoritário’ herdado da ditadura militar”, como bem disse o jornalista Alberto Dines em artigo fresquinho disponível no Observatório da Imprensa. Como venho dizendo há anos, mantido ou não o diploma – que é apenas um dos pontos bizarros desta Lei – nada mudará em nossa profissão, visto que não é este o ponto a ser debatido se quisermos, de fato, encontrar um caminho novo para esta antiga e nobre profissão.

Repito, então, os últimos parágrafos do artigo “Com ou sem diploma?”, que publiquei aqui em março (e que foi reproduzido no Observatório da Imprensa no dia 14 de abril), com os quais gostaria de convidar para um novo (e mais produtivo) debate todos os jornalistas (diplomados ou não):

O fato é que, mantida ou não a exigência do diploma específico para o exercício do Jornalismo no Brasil, os graves problemas éticos, econômicos e profissionais que permeiam o ofício se manterão inalterados. A manutenção ou queda desta exigência não mudará o fato de que nos encontramos em um momento no qual até mesmo a existência da profissão está em jogo diante das novas tecnologias e – em conseqüência – das novas formas do fazer jornalístico que aproximam o cidadão comum das ferramentas necessárias para tal.

A exigência ou não do canudo nada modificará na relação promíscua que mantemos com os donos do poder, na nossa subserviência que transforma jornalistas em “assessores de imprensa” dos barões da mídia. Não é o diploma que garantirá uma ética de base sólida, que formará cidadãos conscientes de seu papel social, que apontará os caminhos de um Jornalismo transformador ao invés de um jornalismo circense no qual o sensacionalismo, o entretenimento e a superficialidade tomaram o espaço da informação relevante.

Para mudar tudo isso e transformar o Jornalismo em algo mais que um amontoado de apresentadores perfumados e escribas de aluguel será preciso que enxerguemos nesta bela profissão uma ferramenta de avanço social, de combate à corrupção, de transformação. E isso exige uma formação muito mais complexa do que oferecem as centenas de cursos de Jornalismo que se espalham hoje pelo país.

Pulitzer

Os resultados do Pulitzer 2009 foram anunciados no dia 20 passado. Para checar os vencedores clique aqui.

Maria Poesia

entre as árvores esperadas
e os dedos trêmulos
deixaremos este acesso febril e dificílimo
a voz do sol os jardins os dias ermos...

a esta entrega assinalada eu ficarei livre livre!…

Maria Gomes, na Romã de Vidro

Fotojornalismo

Foto de Guido Gazzilli, durante o terremoto que matou 294 pessoas na Itália entre os dias 4 e 5. Veja a cobertura completa de Guido aqui.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Festival de Fotografia

Para uma cobertura em flashs do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre – que terminou domingo passado – visite o blog Olha, vê, de Alexandre Belém.

Fênix

Escureceu
E ainda assim procuro
a sombra das alamedas

Entre o ocaso e o soluço
murmuram todos os poetas
mas só ouço
o reverberar destes versos
"pensar nele é morrer de desventura
não pensar é matar meu pensamento"

Tenho unhas negras
de entalhar sonhos no carvão
Reminiscência e custo
de saber renascer da cinza

E ainda assim te emprestaria
meus olhos de fixar vertigens
e partilharia o mistério
que transformauma sequência de palavras
na conjuração das asas
para transpor abismos

Poema de Iriene Borges, em seu blog

Fotojornalismo

Patrick Farrell (The Miami Herald) venceu a categoria Breaking News Photography do Pulitzer 2009 por sua cobertura do furacão Ike no Haiti.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Pandorama - Coletivo Inteligente

A blogosfera ganhou nesta semana um espaço privilegiado para quem aprecia debate de alto nivel e qualidade. Trata-se do Pandorama – Coletivo Inteligente, projeto idealizado pelo jornalista Pedro Doria que, desde 2000, com o projeto No., vem honrando a internet tupiniquim. Também integram o Pandorama a poeta, compositora e haikaista Alice Ruiz, o poeta e filósofo Antonio Cicero, o professor Idelber Avelar, o publicitário Lula Borges, o blogueiro Pax e os jornalistas Villas-Bôas Corrêa e Luiz Antonio Ryff. Vida longa.

Cotas raciais

Também de Rafael Galvão, o artigo “Sobre as cotas raciais” lança luzes interessantes sobre o tema, apontando as diferenças entre a questão racial no Brasil e nos Estados Unidos e, também, apontando exageros nos discursos de quem defende e de quem repudia as cotas raciais nas universidades brasileiras. Escrevi sobre o tema na sexta passada em “Cotas, raças e preconceito”.

Leis mais sobre este tema:
- Cotas, raças e preconceito
- Ainda, as cotas
- Cotas
- É a formação superior a única saída para a inclusão social?
- Brasis
- Índio pode tudo?
- Quem é quem na questão indígena?

Diploma

Excelente o artigo “Ainda o diploma para jornalistas”, de Rafael Galvão. Vale a leitura.

Poesia

"Afrouxa o nó
liberta o rio
que teus olhos foram feitos
pra ser água"

Trecho de poema de Assis de Mello, em seu blog

Fotojornalismo

Damon Winter (The New York Times) venceu a categoria Feature Photography do Pulitzer 2009 com seu ensaio sobre a campanha de Barack Obama.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Compro

Compro uma vitrolinha. Quero ouvir meus vinis.

Depois da Guerra contra o Terror, sionistas apostam nos herdeiros de Hitler

O texto abaixo é uma análise sobre a palestra de Anne Bayefsky, Jon Voight, Elie Wiesel, Alan Dershowitz, Natan Sharansky e Shelby Steele, proferida na terça-feira durante a “Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância” - conhecida como Durban 2 - que acontece em Genebra (Suíça). A autoria é de Cecilie Surasky, do grupo Jewish Voice for Peace (JVP) e a tradução é minha.

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Isso foi o que um amigo palestino da Cisjordânia me disse, tremendo, depois de duas horas de ódio durante a palestra proferida por Anne Bayefsky, Jon Voight, Elie Wiesel, Alan Dershowitz, Natan Sharansky e Shelby Steele: “Eu apenas escutei durante duas horas a demonização dos palestinos e muçulmanos, alimentada por racismo e ódio”.

Eu já havia postado algumas notas sobre Jon-o-novo-Holocausto-Voight, mas o prato principal da palestra - que trataria do anti-semitismo, mas que na verdade tratou-se de uma promoção de anti-arabismo e de ódio aos árabes, palestinos e muçulmanos – era Alan Dershowitz.

Dershowitz é um pavão, muito inteligente e raivoso. Ao observá-lo você se sente como se ele estivesse prestes a explodir. Como todo bom demagogo, ele sabe como atiçar a platéia até os mais calorosos aplausos. Admito, tenho medo dele.

Na era de Obama e da exaustão da Guerra do Iraque, a Guerra ao Terror claramente não provê mais a base que o lobby de Israel precisa para deslegitimar as reivindicações dos palestinos por justiça ou, francamente, apenas por decência. Na palestra, Dershowitz lançou um novo argumento ocupar esta lacuna. Desde algum tempo Netanyahu e sua turma têm se apoiado sobre uma comparação entre Hitler e Ahmedinejad. Mas foi a primeira vez que eu ouvi uma comparação entre palestinos e nazistas (com poucas exceções, é claro, pois Dersh “não gosta de generealizar”). Veja algumas transcrições do vídeo acima:

A dolorosa verdade sobre o Holocausto hoje está sendo suprimida dos campi universitários, ela está sendo suprimida onde quer que o conflito palestino seja discutido. Meu doloroso trabalho hoje é falar sobre uma destas verdades históricas que muitos preferem ver ignorada.

A terrível, terrível, terrível tragédia é que existia uma linha direta entre Hitler e (o Mufti palestino anti-semita) Husseini, assim como há com o Hamas e a Jihad Islâmica. Eles são os herdeiros de Hitler. Ahmedinejad é herdeiro de Hitler. Estes, que têm sido cúmplices deste mal, são cúmplices do nazismo. O nazismo não desapareceu do mundo de hoje. Eles têm os mesmos objetivos genocidas…

Ai de vocês que apóiam o Hamas! Vocês estão apoiando os herdeiros de Hitler. Não importa se você se considera uma pessoa de esquerda ou de centro, você está sendo cúmplice do maior mal do século vinte. E não há como quebrar este vínculo. Enquanto o Hamas mantiver suas atitudes genocidas contra o povo judeu...


Há muito a ser dito sobre esta linha de raciocínio. Em posts futuros.

Frases

“Quem tem raça é cachorro”
João Ubaldo Ribeiro, sobre a questão racial.

Fotojornalismo

Índios das etnias Guarani, Terena, Guató, Kadwéu e Caiuá participam do juramento do atletas, ontem, durante a abertura dos IV Jogos Urbanos Indígenas de Campo Grande. Foto de Denilson Secreta.

sábado, 25 de abril de 2009

Chuva

Cai água penetrando dia
Alimentando terra
Enquanto aqui
Me abrigo em saudades

Despencopingo
Sobre a telha morta
Enquanto aqui
Entorno letras retas

Lágrima cristalina
Germina em mim
Enquanto lá fora
Se afogam formigas

Fotojornalismo

Foto de Stanley Greene mostra um plano de ataque desenhado no chão de uma cabana em Darfur, fronteira entre o Chad e o Sudão.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Cotas, raças e preconceito

O jornalista José Roberto Guzzo fez recentemente, em artigo publicado na revista Veja, uma contundente crítica à política de cotas raciais nas universidades brasileiras. Segundo ele, o Brasil está fazendo o possível para criar algo que não possui: um problema racial.

Se tantos outros países importantes têm questões sérias de racismo, por que o Brasil também não poderia ter a sua? Parece um motivo de desapontamento, na visão das pessoas que foram nomeadas pelo governo para defender os interesses da ‘população negra’, ou nomearam a si mesmas para essa tarefa, que o Brasil seja possivelmente o país menos racista do mundo.”, afirma Guzzo.

E vai além: “Como poderia haver (racismo), num país onde a grande maioria da população não sabe dizer ao certo qual é a sua cor, nem demonstra maior interesse em saber? ‘Moreno’ é a sugestão de resposta mais freqüente, quando a pergunta é feita para a imensa massa de brasileiros que não se identificam claramente como brancos, nem pretos, nem qualquer outra coisa... Criar um racismo que se preze, num país assim, não é trabalho fácil – mas é possível. Uma das ferramentas mais utilizadas para isso é distribuir aos ‘brancos' uma espécie de culpa geral por tudo o que ocorre de errado aqui dentro.”.

É uma leitura corajosa em tempos que hipocrisia generalizada. É muito mais simples adotar o discurso fácil da “defesa das minorias excluídas”, mesmo que esta defesa se transforme em algo funesto para toda a nação, criando um sentimento de exclusão e, ao mesmo tempo, uma falsa sensação de raça.

Duas ou três décadas atrás, quando o movimento negro no Brasil começou a adotar modelos estadunidenses passando a utilizar termos como “afro-descendentes”, a idéia de separação racial se fortaleceu, criando nestes mesmos grupos uma postura racista sob a desculpa da luta contra o racismo.

Como eu, um brasileiro com o pé na Itália, na Alemanha, em Portugal e, também, em alguma etnia indígena, devo me definir etnicamente? Ítalo-germano-luso-tupi-descendente? Ora, sou brasileiro, cria do caldeirão étnico que compõe este país. Ao adotar o termo afro-descendente, os que se reconhecem nesta definição optam por se separarem deste núcleo étnico que forma o Brasil.

Valorizar e cultivar identidades culturais é importante e desejável. Transformar isso em uma cruzada racial é pernicioso.

Um exemplo interessante deste racismo às avessas ocorreu ano passado em um dos muitos posts sobre o tema no blog Liberal, Libertário, Libertino, de Alex Castro. Em um dado momento, ao analisar o comentário de um leitor, segundo quem “Se alguém usa uma camisa escrita 100% negro, ninguém reclama, é lindo, mas se eu sair na rua usando uma camisa 100% branco vão fazer o maior alarde, vou ser chamado de nazista, skinhead, preconceituoso, o escambau!”, Castro diz o seguinte: “Uma camisa ‘100% Branco’ é de profundo mau-gosto, ao mostrar quem está por cima celebrando sua hegemonia. ‘100% Negro’, por outro lado, é a celebração de uma identidade subalterna tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.”.

Complicado...

Fico com a definição de Guzzo. “A grande vitória da humanidade contra a discriminação racial foi excluir das leis a palavra ‘raça’; o objetivo era estabelecer que todos têm direitos idênticos, sejam quais forem as suas origens, dentro da idéia de que todos os homens pertencem a uma ‘raça’ apenas – a raça humana. No Brasil de hoje, em vez de proibir o uso da noção de raça para dar ou negar direitos, tenta-se ressuscitar a tese de que os indivíduos são diferentes uns dos outros, em termos de cidadania, segundo a cor que têm.”.

No conceito de raça repousa o germe da intolerância e para comprovar isso não é preciso olhar muito longe. Se analisarmos os últimos 200 anos pinçaremos inúmeros casos onde a questão racial foi o ponto de eclosão para situações que nos envergonham enquanto seres humanos que somos. Ao admitirmos que o conceito de raça seja o ponto de partida para políticas de inclusão, estaremos abrindo precedentes perigosos, que podem gerar resultados graves em longo prazo.

No manifesto “Cento e treze cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”, intelectuais, sindicalistas, empresários e ativistas dos movimentos negros e de outros movimentos sociais expõem sua preocupação com esta tendência de “racializar a vida social no país.”.

Raças humanas não existem segundo já comprovou a genética. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, é expressa em menos de 10 genes. Não foi a existência de raças que gerou o racismo, mas o racismo que fabricou a crença em raças. A distribuição de privilégios segundo critérios etno-raciais inculcou a raça nas consciências e na vida política, semeando tensões e gestando conflitos que ainda perduram.

Cotas

Tratei deste tema específico recentemente (aqui, aqui e aqui) e a idéia central é que a experiência tem mostrado que a aplicação das políticas de cotas raciais pode gerar mais efeitos negativos que positivos na tentativa de abrandar as desigualdades de oportunidades que, não se pode negar, existem.

No Brasil, difunde-se a promessa sedutora de redução gratuita das desigualdades por meio de cotas raciais para ingresso nas universidades. Nada pode ser mais falso: as cotas raciais proporcionam privilégios a uma ínfima minoria de estudantes de classe média e conservam intacta, atrás de seu manto falsamente inclusivo, uma estrutura de ensino público arruinada”, afirma o documento dos 113. A meta nacional deveria ser proporcionar a todos um ensino básico de qualidade e oportunidades verdadeiras de acesso à universidade.

Citado no artigo de Guzzo, o advogado José Roberto Militão, especialista em antidiscriminação na OAB de São Paulo, disse o seguinte: "Os defensores de leis raciais ludibriam a boa-fé alegando que cota racial é ação afirmativa... Ao estado cabe atuar para destruir a crença em raças... Leis raciais não servem para a redução das desigualdades entre brancos e pretos, pois atacam os efeitos, mas aprofundam as causas.".

Pobres e remediados

Há pobres e remediados de todas as cores no Brasil. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006, entre 43 milhões de pessoas de 18 a 30 anos de idade, 12,9 milhões tinham renda familiar per capita de meio salário mínimo ou menos. Neste grupo mais pobre, 30% classificavam-se a si mesmos como “brancos”, 9% como “pretos”, e 60% como “pardos”. Desses 12,9 milhões, apenas 21% dos “brancos” e 16% dos “pretos” e “pardos” haviam completado o ensino médio, mas muito poucos, de qualquer cor, continuaram estudando depois disso. Basicamente, são diferenças de renda, com tudo que vem associado a elas, e não de cor, que limitam o acesso ao ensino superior.

Portanto, critérios sociais – estes sim – seriam benéficos para uma política de inclusão. Iniciativas em favor de jovens de baixa renda de todas as cores, como a oferta de cursos preparatórios gratuitos e a eliminação das taxas de inscrição nos exames vestibulares das universidades públicas, seriam bem vindas.

Leia mais sobre este tema:
- Ainda, as cotas
- Cotas
- É a formação superior a única saída para a inclusão social?
- Brasis
- Índio pode tudo?
- Quem é quem na questão indígena?

Ensino a distância e universidades

Para os que se escandalizam com a qualidade do nosso ensino superior, sua versão EAD (Ensino a Distância) é ainda mais nefanda. Contudo, o Enade (o novo Provão) trouxe novidades interessantes. Em metade dos cursos avaliados, os programas a distância mostram resultados melhores do que os presenciais! Por quê? Sabe-se que a aprendizagem "ativa" (em que o aluno lê, escreve, busca, responde) é superior à "passiva" (em que o aluno apenas ouve o professor). Na prática, em boa parte das nossas faculdades, estudar é apenas passar vinte horas por semana ouvindo o professor ou cochilando. Mas isso não é possível no EAD. Para preencher o tempo legalmente estipulado, o aluno tem de ler, fazer exercícios, buscar informações etc. Portanto, mesmo nos cursos sem maiores distinções, o EAD acaba sendo uma aprendizagem interativa, com todas as vantagens que decorrem daí.

Do economista Claudio de Moura Castro, em interessante artigo na Veja. Grifo meu.

Fotojornalismo

O americano Justin Maxon flagra um momento de carinho entre uma criança e sua mãe vietnamita contaminada pelo vírus da AIDS.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Mendes e Barbosa



Não é novidade alguma, visto que quem não acompahou ao vivo teve centenas de opções para assistir na internet. No entanto, o bate boca de ontem no Supremo Tribunal Federal entre o presidente da casa, ministro Gilmar Mendes, e o ministro Joaquim Barbosa, foi chocante demais e merece ser reproduzida aqui também. Perde o Supremo como instituição.

Vitimização judaica

Por duas horas o ator Jon Voight (pai da atriz Angelina Joli), Alan Dershowitz e outros militantes sionistas tentaram explicar para a audiência que compareceu a sua palestra, ontem, durante a “Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância” - conhecida como Durban 2 - que acontece em Genebra (Suíça), como o Hamas e o Hezbollah se equiparam aos nazistas; como o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad é um clone de Hitler e, finalmente, suas argumentações de que os judeus passam hoje por um novo holocausto.

Presente à palestra, Cecilie Surasky, diretora de comunicação do grupo Jewish Voice for Peace (JVP), fez um paralelo entre este discurso e a “esquizofrenia moral” que domina o imaginário judaico em relação ao auto-estabelecimento de uma condição de “eternos perseguidos”, que os leva a uma incapacidade de enxergar o sofrimento em outros povos, como se isso diminuísse ou invalidasse o seu próprio sofrimento.

A mera menção ao sofrimento dos palestinos lança estas pessoas em paroxismos, deixa-os na defensiva e até com raiva. Eles se agarram à negação do holocausto, mas este fenômeno é resultado de uma mesma patologia. É virtualmente impossível para eles manterem paralelamente a narrativa de seu próprio sofrimento à narrativa do sofrimento palestino. É como se, fazendo isso, eles se quebrariam em duas partes bem diante de nós”, afirmou a ativista.

No artigo “Jewish Humanists Remembered: I.F. STONE (1907-1989)”, publicado na revista eletrônica “Outlook, Humanistic Judaism and Jewish Currents”, o pensador Bennett Muraskin (do mesmo autor, veja também o artigo “Anti-Zionism and Non-Zionism in Jewish Life—Past and Present”), cita as origens desta “esquizofrenia moral”, levantada originalmente pelo jornalista estadunidente de origem judaica I.F. Stone.

Disse Stone em 1967, no artigo "Holy War": "Israel está criando um tipo de esquizofrenia moral no mundo judaico. No mundo lá fora, o bem estar dos judeus depende da manutenção de sociedades pluralistas, seculares e não-raciais. Em Israel, os judeus vêem a si mesmos defendendo uma sociedade cujo ideal é racial e excludente. Os judeus devem lutar em todos os lugares, para a sua segurança, contra os princípios e práticas que eles têm defendido em Israel”.

Trata-se de uma crítica contundente ao sionismo, ao que ele tem de mais horrendo: a defesa de um Estado baseado na questão racial, um Estado que exclui as demais raças e credos. É também, um vislumbre do que viria em seguida, a criação desta mentalidade que coloca o judeu no patamar mais alto do martírio.

Analisando o excelente artigo “Must Jews always see themselves as victims?”, de Antony Lerman, publicado no dia 7 de março no jornal “The Independet” (cuja leitura recomendo veementemente), Judith Norman e Alistair Welch - integrantes do grupo Jewish Peace News - disseram o seguinte:

Antony Lerman, diretor do Institute for Jewish Policy Research, questionou os motivos pelos quais tantos judeus, em Israel e no mundo afora, demonstram uma cegueira para com o sofrimento dos palestinos. A resposta que ele deu - que muitos judeus vêem a si mesmos como vítimas permanentes – não é particularmente nova, mas seu artigo nos dá uma análise lúcida deste senso de vitimização e de seus efeitos sobre a legitimação de políticas que causam grande sofrimento aos palestinos.

Além de muitos judeus verem a si mesmos como vítimas, a natureza deste sofrimento judaico é pensada como algo único, profundo e intenso. O sofrimento judeu é encarado de uma forma quase (ou francamente) religiosa; transcendendo a experiência e de forma irrefutável. Cada incidente de viés anti-semita é observado de forma mais sinistra do que aparenta – um sintoma da epidemia global do ódio aos judeus. Dadas estas razões, é impossível para Israel relevar qualquer sinal de hostilidade por parte dos palestinos, visto que cada ataque palestino é um sintoma de ameaça global que os judeus têm encarado (supostamente) por milênios.

Não é necessário dizer que esta mentalidade tem causado enormes danos, não apenas para os judeus de Israel, que são incapazes (mesmo que queiram) de contextualizar os eventos atuais ou de expressar qualquer demonstração de simpatia para com o sofrimento palestino (Lerman cita evidências empíricas disso), e são, portanto, levados a apoiar uma agenda beligerante que bloqueia qualquer solução para o conflito.

O antídoto que Lerman oferece é um ato básico e corajoso de empatia: não há nada de exclusivo no sofrimento judeu e isso deve ser usado como a chave para entender o sofrimento palestino, e não como justificativa para piorá-lo.
”.

Em seu artigo, Antony Lerman aponta para um sentimento de impunidade justificada que toma conta do imaginário judaico, especialmente, dos judeus israelenses. Uma sensação de que qualquer ação lhes é permissível, justificada pelas perseguições que sofreram no passado.

O artigo cita também uma pesquisa efetuada pelo professor Daniel Bar Tal, da Universidade de Tel Aviv – um dos mais conceituados psicólogos políticos da atualidade – que analisa como os judeus israelenses classificam o conflito árabe-israelense. Sua conclusão foi de que sua "consciência é caracterizada por um sentimento de vitimização, uma mentalidade de cerco, um patriotismo cego, beligerante, um sentimento de desumanização dos palestinos e de insensibilidade para com o seu sofrimento". Os pesquisadores descobriram, também, uma ligação estreita entre a memória coletiva e a memória "das antigas perseguições aos judeus" e do holocausto, “o sentimento de que o mundo inteiro está contra nós”.

Esta mentalidade, que hierarquiza o sofrimento, é a base para a justificativa de todas as ações beligerantes promovidas por Israel, de suas políticas de expansão territorial, de limpeza étnica, de manutenção do domínio e da ocupação ilegal que mantém sobre os territórios palestinos.

Leia Mais sobre este tema:
- Asneiras de Ahmadinejad absolvem Israel?
- Afinal, que horrores disse o presidente do Irã?
- Boa fonte sobre a Conferência Mundial contra o Racismo
- Os "mocinhos" abandonaram a Conferência

Fotojornalismo

Foto do atentado que matou a primeira-ministra do Paquistão, Benazir Bhutto, em 2007. De John Moore.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Jogo de palavras

Vale a pena ler o artigo “Jogos de palavras”, de Gideon Levy, publicado hoje no jornal israelense Haaretz. A tradução é de Caia Fittipaldi para o blog Amálgama. Levy faz uma leitura ácida da hipocrisia que rege o debate sobre a questão palestina no governo israelense.

A sua crítica sobre a estratégia israelense de bater monotonamente na tecla de uma exigência que já é fato – o reconhecimento de Israel – aponta o que de fato há por trás deste discurso: uma intenção inequívoca de manter as coisas como estão na certeza de que no futuro Israel ocupará majoritariamente os territórios tomados dos palestinos.

São questões terríveis. Só quem se dedique a impedir o progresso ocupa-se hoje nesse reconhecimento, que é pura vaidade. Só um país cuja autoconfiança seja muito capenga precisa de que outros reconheçam seu caráter nacional. Passa pela cabeça de alguém que a França exigiria de alguém que a reconhecesse como Estado? Ou a Itália, como Estado italiano? E de quem, afinal, Israel exige reconhecimento? Dos mesmos que há mais de 40 anos gemem sob os coturnos da ocupação… por Israel.”, afirma Levy.

E finaliza: “Parafraseando David Ben-Gurion, é preciso dizer ao presidente dos EUA que não dê atenção ao que os judeus dizem; só dê atenção ao que os judeus fazem.

Asneiras de Ahmadinejad absolvem Israel?

Outras leituras sobre o discurso do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, na Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância - conhecida como Durban 2 -, em Genebra (Suíça). O Humans Right Watch e o grupo Jewish Voive for Peace consideraram o pronunciamento “um desastre”.

Ahmadinejad teve sua cota de asneiras, como o questionamento ao Holocausto, mas disse algumas verdades dolorosas. A grande questão surge quando observamos o pavor que gera qualquer possibilidade de confronto com Israel. É como se isso fosse um tabu, um dogma inviolável. Muitos países – inclusive o Irã – agridem diariamente os direitos humanos e deveriam ser alvos de manifestações contundentes. Isso não inocente, no entanto, os crimes de Israel.

Leia Mais sobre este tema:
- Afinal, que horrores disse o presidente do Irã?
- Boa fonte sobre a Conferência Mundial contra o Racismo
- Os "mocinhos" abandonaram a Conferência

Fotojornalismo

O fotógrafo suiço Jean Revillard registrou as condições em que vivem imigrantes ilegais africanos em Calais (França).

terça-feira, 21 de abril de 2009

O roto e o maltrapilho

O ministro das Relações Exteriores israelense, Avigdor Lieberman, criticou no domingo (19) a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância, que teve início ontem, em Genebra (Suíça). Segundo ele, o evento conta com a participação de líderes "racistas", como o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

"Uma conferência internacional na qual um racista como Ahmadinejad, que defende dia e noite a destruição de Israel, é convidado a palestrar expõe quais são seus objetivos e seu caráter", disse o ministro israelense.

Certo... Ahmadinejad não é exemplo a ser seguido por ninguém. No entanto, quem é Avigdor Lieberman para acusar quem quer que seja de racista?

Líder dos racistas xenófobos do partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu, Lieberman advoga abertamente o banimento dos árabes-israelenses de Israel. O partido declara em sua plataforma a intenção de fazer de Israel um Estado puramente judeu e, ao mesmo tempo, “aumentar a Presença Judia em Yehuda, Shomron, (Cijordânia em outras palavras), Golan (Colinas de Golas, território sírio ocupado) e Jerusalém Leste, assim como trabalhar para a separação entre Gaza e Cijordânia".

Lieberman é conhecido por suas constantes incitações racistas contra palestinos com ou sem nacionalidade israelense. Em uma recente coletiva de imprensa organizada pelo seu partido em Haifa, ele impediu a participação de jornalistas árabes. Como o jornal israelense Haaretz noticiou em 6 de fevereiro, durante recente visita a escolas no norte de Israel, Lieberman foi saudado com gritos de “morte aos árabes” e propostas de “revocar a nacionalidade israelense dos árabes”. O Haaretz revelou também que Lieberman foi seguidor do movimento Kahane Kach, de extrema-direita, banido em 1988.

Idéias que já foram consideradas extremamente racistas para serem legitimamente expressas são agora parte do discurso político em Israel, enquanto outras opiniões são silenciadas. Trata-se de um sério sinal de que a situação em Israel lembra mais e mais a era do apartheid na África do Sul.

E ele fala em racismo...

Leia mais sobre este tema:
- Quem é Lieberman, Ministro das Relações Exteriores de Israel? 13/04/09
- É lícito aos israelenses apoiarem o racismo e a intolerância? 18/03/09
- A transformação autoritária de Israel 27/02/09
- Chomsky: Terrorismo de Estado ameaça a segurança de Israel 18/02/09
- Sob a sombra do fascismo 14/02/09
- Racistas podem comandar o governo em Israel 12/02/09
- Israelenses mantém o caminho da direita 11/02/09
- O que ocorre em Gaza é genocídio? 08/01/09
- Terrorismo de Estado 30/12/08

Fotojornalismo

O fotógrafo Denílson Secreta, de Campo Gande (MS), recebeu menção honrosa por esta no 3° Concurso Avistar Itaú BBA de Fotografia – “Aves Brasileiras”.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Afinal, que horrores disse o presidente do Irã?

O discurso do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, realizado hoje durante a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância - conhecida como Durban 2 -, em Genebra (Suíça), e a reação dos delegados de países membros da União Européia – que deixaram a reunião assim que Ahmadinejad começou a falar, aprofundam a hipocrisia que domina o debate sobre o Oriente Médio.

O que disse Ahmadinejad?

Afirmou que "depois do final da Segunda Guerra Mundial, (os aliados) recorreram à agressão militar para privar de terras a uma nação inteira (os palestinos), sob o pretexto do sofrimento judeu". Disse também que "(os aliados) enviaram imigrantes da Europa, dos Estados Unidos e do mundo do Holocausto para estabelecer um governo racista na Palestina ocupada", fez referências ao "sionismo mundial, que personifica o racismo", e, finalmente, atestou que a ONU "recebeu com o silêncio os crimes desse regime (israelense), como os recentes bombardeios contra civis em Gaza".

Pode-se discordar de suas afirmações, mas não há nelas nenhuma agressão odiosa a Israel ou ao judaísmo, como querem fazer crer o governo de Barack Obama e seus prepostos no Oriente Médio.

Ora, porque o presidente do Irã não pode acusar Israel de adotar políticas racistas contra os palestinos se a própria ONU é humilhada diariamente por Israel ao ver desobedecidas pelo país as suas duas resoluções sobre o conflito na Palestina ocupada; se a União Européia reconhece que Israel está ampliando os assentamentos nos territórios ocupados de forma ilegal para forçar os donos da terra, os palestinos, a migrarem; se os próprios soldados israelenses confessam assassinatos a sangue frio em Gaza; se a lógica do sionismo nega abertamente um país aos palestinos; se o racismo e a intolerância têm sido a tônica da política israelense?

Ainda, porque Ahmadinejad não deve dizer estas coisas se hoje pela manhã o ministro de Assuntos Exteriores de Israel, o racista Avigdor Liberman, líder do partido de extrema-direita Israel Beiteinu (Nossa Casa), referiu-se da mesma forma ao presidente do Irã e seu país?

Liberman, parceiro do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, é autor desta tirada: "Os árabes israelenses são um problema ainda maior do que os palestinos e a separação entre os dois povos deverá incluir também os árabes de Israel... por mim eles podem pegar a baklawa (doce árabe típico) deles e ir para o inferno". Quem é ele para falar em racismo?

Devemos cobrar sobriedade e civilidade apenas dos iranianos?

OBS: Representantes do Vaticano, embora tenham criticado as declarações de Ahmadinejad, permaneceram na Conferência. Ponto para o Papa Bento XVI. "Discursos como o do presidente iraniano não vão na direção certa, já que embora não tenha negado o Holocausto ou o direito à existência de Israel, usou expressões extremistas e inaceitáveis", afirmou o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, à Rádio Vaticano. Faltou apenas criticar as “expressões extremistas e inaceitáveis” dos israelenses.

Leia mais sobre este tema:
- Os "mocinhos" abandonaram a Conferência
- Boa fonte sobre a Conferência Mundial contra o Racismo

Boa fonte sobre a Conferência Mundial contra o Racismo

O grupo Jewish Voice for Peace (JVP) enviou sua diretora de comunicação, Cecilie Surasky, para a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância - conhecida como Durban 2 -, que teve início hoje, em Genebra (Suíça).

Fundado em 1996, o JVP tem como objetivo primordial incentivar uma política estadunidense voltada para a paz, a democracia, os direitos humanos e o respeito às leis internacionais no Oriente Médio. A cobertura de Cecilie é garantia de boa informação e pode ser acompanha pelo blog Muzzlewatch ou pelo Twitter.

Os "mocinhos" abandonaram a Conferência

Estados Unidos, Austrália, Canadá, Itália, Holanda, Polônia, Nova Zelândia e Alemanha estão muito preocupados com o racismo e a intolerância. Por isso, boicotaram a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância - conhecida como Durban 2 -, que teve início hoje, em Genebra (Suíça) e durante cinco dias examinará questões como o racismo, a xenofobia e a intolerância.

Ok, agora vamos falar sério.

Esta é a quarta vez que os Estados Unidos deixam uma Conferência da ONU sobre o Racismo, sempre pela mesma razão: a condenação das políticas israelenses para com os palestinos nos debates e, até mesmo, nos documentos oficiais destes encontros. Preocupado com uma linguagem que condena as políticas de Israel, Washington já havia boicotado as duas primeiras Conferências, em 1978 e 1983, e retirou-se da terceira, em 2001.

A questão de fundo é que Estados Unidos e seus aliados – e Israel, obviamente – não aceitam qualquer relação entre sionismo e racismo. No entanto, uma resolução da ONU, de 1975, considerou racistas os fundamentos ideológicos do sionismo. Esta resolução foi revogada em 1991 por pressões políticas de Washington e Cia. As mesmas pressões políticas que vigoram ainda nas Nações Unidas, transformando-a em um teatro de marionetes cuja voz se perde em meio ao poderio ocidental.

É óbvio que há entre os países árabes, e entre as entidades civis ao seu redor, àqueles que intensificam a intolerância religiosa, em especial quando questionam o direito de o Estado de Israel existir. Os israelenses têm tanto direito a ter seu país quanto qualquer outro povo, inclusive os palestinos. Qualquer ataque contra este direito básico deve ser condenado e combatido.

No entanto, é preciso dizer à exaustão que questionar o sionismo não é o mesmo que questionar o judaísmo ou o Estado de Israel. Questionar o sionismo é, na verdade, perguntar por que diabos a Palestina deve conter uma maioria judaica (questão de fundo do sionismo) se, além dos judeus, outros povos também tem sua herança histórica ligada à região. No entanto, a desonestidade intelectual que domina este debate dá voz aos oportunistas que querem linkar qualquer crítica às políticas israelenses a uma forma de anti-semitismo.

É sobre a condenação das conseqüências do sionismo que repousa o conflito: as políticas israelenses de domínio, limpeza étnica e ocupação ilegal do território palestino (condenada pela ONU nas resoluções 181 e 242, que os israelenses se recusam a cumprir). Estados Unidos e Israel se recusam a discutir estas questões e, sob a égide do “anti-semitismo”, desqualificam qualquer posicionamento crítico em relação às políticas que adotam.

Em 2001, por exemplo, o relatório final da Conferência (veja o esboço) ressaltava o horror do holocausto judeu, mas, também a opressão contra os palestinos.

Estamos preocupados com o sofrimento imposto ao povo palestino que vive sob ocupação estrangeira. Reconhecemos o direito inalienável do povo palestino à autodeterminação e ao estabelecimento de um Estado independente e reconhecemos o direito à segurança de todos os Estados da região, entre os quais Israel.

O relatório expressava, ainda, inquietação com a intolerância religiosa, de ambos os lados.

Também reconhecemos com grande preocupação o aumento do anti-semitismo e da islamofobia em várias partes do mundo, bem como a emergência de movimentos raciais e violentos inspirados no racismo e nas idéias discriminatórias contra judeus, muçulmanos, árabes e outras comunidades.

É exatamente este caráter de nivelamento do sofrimento que o Estado de Israel não admite. Israel quer ter o monopólio da dor, usando os horrores da Segunda Guerra Mundial como eterno argumento para perpetrar sua política de expansão sobre outros povos.

Leia mais sobre este tema:
- Quem é Lieberman, Ministro das Relações Exteriores de Israel? 13/04/09
- Soldados israelenses falam de abusos em Gaza 26/03/09
- A visão distorcida de Nonie Darwish sobre islamismo 24/03/09
- Jornal israelense denuncia assassinatos de civis na Faixa de Gaza 20/03/09
- Império Israelense 19/03/09
- É lícito aos israelenses apoiarem o racismo e a intolerância? 18/03/09
- A questão humanitária definitiva do nosso tempo 03/03/09

Empreiteiras e Poder Público

Um levantamento feito pela revista Veja com base nas doações eleitorais de 2002 a 2008 e em repasses feitos aos diretórios nacionais dos partidos em 2006 e 2007 revela que as cinco maiores empreiteiras do país – Camargo Corrêa, OAS, Andrade Gutierrez, Odebrecht e Queiroz Galvão - doaram de forma legal pelo menos 114 milhões de reais a políticos no período. Em troca da generosidade, as mesmas cinco empreiteiras assinaram dezenas de contratos públicos. Só em obras do PAC, desde 2007, levaram 1,4 bilhão de reais.

Fotojornalismo

Brett Sturton flagrou a remoção do corpo de um gorila morto na Montanha dos Gorilas, Congo.

sábado, 18 de abril de 2009

Poema

O que me apavora
É despertar
Esquecido do sorriso
Adormecer
Repleto de lógica
Sonhar sonho sem lágrima

O que me enche de medo
É olhar no espelho
E descobrir-me
Senhor de certezas

É o que temo

Transplantes pelo SUS

Cerca de 92% de todos os transplantes feitos no Brasil são pagos através do Sistema Único de Saúde, o SUS. As operações custam 530 milhões de reais por ano, provendo o maior programa público de transplantes do mundo. E tem gente que acha o SUS ruim.

Leia mais sobre o tema:
- O SUS como patrimônio da humanidade
- Saúde
- Sicko: vendendo saúde

Fotojornalismo

Overdose é uma ocorrência incomum para Derrick e Cheryl, mas neste dia Cheryl passou por esta experiência. Após hiperventilar, ela bebeu vários copos de água, que lançou em um jato por sobre a cerca. Foto de Carl Kiilsgaard para a Western Kentucky University, premiada no Best of Photojournalism 2009.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Amigo Pimenta de molho

Fiquei sabendo agora que o amigo Henrique Pimenta, grande poeta, professor e titular do blog Bar do Bardo está internado no Hospital Militar de Campo Grande. Ele sofreu um acidente de carro na semana passada após uma reunião de blogueiros da cidade. Liguei para o hospital e a informação é de que ele está bem, embora não tenham me passado detalhes. Visitarei o amigo hoje ou amanhã.

Madrugada

Meus lábios romperão madrugada
E te encontrarão pela manhã
Num coro de mil vozes

Te cobrirei de melodias
Até que minha alma
Se curve sobre a tua
Até que minha voz
Se perca na penumbra

E sob aurora que te invade o rosto
Ficarei em silêncio
Aguardando o despertar

Sobre o diploma

Contundente o artigo “Sobre o diploma para jornalistas”, de Rafael Galvão. Vale a leitura.

Insignificado

Não sei guardar poemas
Não sei organizar
Não sei metrificar
Não sei rimar rima com lima
Escrevo, assim, num canto qualquer de papel de amendoim torrado,
meu verso guardado,
moído,
transmutado.
Jamais insignificado.

Belo poema de Alyne Costa, em seu blog.

Fotojornalismo

Seguranças do general afegão Abdul Rashid Dostum se preparam para revistar visitantes no seu complexo, em Cabul (Afeganistão). Foto de Mary F. Calvert para o jornal The Washington Times, premiada no concurso Best of Photojournalism 2009.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Paul Pots

Um guerrilheiro vale a vida de 10 civis?

No Afeganistão, assim como em Gaza e em Israel, a vida de civis não vale muito, em especial se estes vivem entre militantes palestinos, guerrilheiros islâmicos ou soldados israelenses. Disparar um míssil contra uma casa palestina repleta de civis para matar um militante do Hamas é tão odioso quanto explodir o próprio corpo entre civis em um ônibus em Tel Aviv. Bombardear um abrigo antiaéreo no qual poderia estar escondido Saddam Hussein e de quebra matar 400 civis inocentes é tão revoltante quando lançar um avião contra um prédio e matar três mil pessoas.

Embora este raciocínio seja compartilhado por muitos, civis continuam morrendo como moscas no Oriente Médio, esmagados entre guerrilhas armadas com foguetes e kalishnikovs e exércitos dotados de tanques e mísseis guiados por laser. Na última segunda-feira, foi a vez de mais um punhado de afegãos pagarem o preço da insanidade.

O grande número de civis mortos e feridos durante operações militares contra o Taliban e outros grupos islâmicos são, hoje, um dos principais pontos de tensão entre as autoridades afegãs e militares dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estacionados no Afeganistão.

Autoridades afegãs e vítimas atribuíram aos bombardeios aéreos realizados nesta semana pela Otan a morte de seis civis e ferimentos em outros 14 no Afeganistão. Os militares disseram, por sua vez, que oito “soldados inimigos” foram mortos no ataque. "Entre quatro a oito soldados inimigos foram mortos" durante uma operação na província de Kunar, afirma um relatório da International Security Assistance Force (ISAF).

Segundo a ISAF, “fontes de inteligência forneceram identificações positivas de insurgentes” em uma área conhecida por abrigar guerrilheiros afegãos na região nordeste do Afeganistão. “Interceptações da inteligência indicaram posições hostis com intenção de atacar postos da ISAF. Devido à localização remota dos alvos, a ISAF pediu suporte aéreo e eliminou a ameaça inimiga”, afirma o relatório.

No entanto, o governador do distrito de Watapour, Zalmai Yousufzai e o chefe da polícia local, Mirza Mohammad afirmaram que os alvos atingidos foram residências de civis, localizadas a 15 km a noroeste da capital da província, Asadabad. “Entre os seis mortos há duas crianças, uma mulher e três homens”, garantiu Yousufzai. Sete crianças, uma mulher e seis homens foram feridos, todos civis, segundo o governador e o policial.

Um repórter da AFP ouviu uma mulher de 25 anos, um menino de 14 e dois homens, todos feridos, no hospital de Asadabad. “Nós estávamos dormindo e de repente o teto desabou”, disse Zakirullah, de apenas 14 anos. “Não lembro de nada. Fiquei sabendo aqui que meu pai, minha mãe, meu irmão e minha irmã foram mortos e eu ferido”.

"Estávamos dormindo e ouvimos um barulho estranho e então o teto desabou sobre nós. As pessoas me tiraram dos escombros e algumas continuam aqui. Me disseram que nove pessoas da minha família foram mortas ou feridas. Não sei ainda quem morreu ou quem se feriu”, disse uma mulher, identificada como Shahida.

Segundo a Otan, o caso será investigado: “Nós sentimos profundamente qualquer possível ferimento a civis causados por nossas operações contra o inimigo. Vamos investigar e, se for verdade, proveremos assistência para as pessoas afetadas”, disse o porta voz da IASF, capitão Mark Durkin.

As denúncias de mais civis mortos e feridos surgem quatro dias depois das forças armadas dos Estados Unidos terem admitido que tropas sob seu comando mataram cinco civis – duas mulheres, uma criança e dois funcionários do governo - durante um ataque a província de Khost, no leste do Afeganistão, na semana passada.

Revolta

As constantes mortes e ferimentos de civis causaram reação ácida do parlamento afegão. Senadores da província de Khost querem que os responsáveis pelas agressões sejam julgados por cortes internacionais. Os senadores afegãos acusam as tropas da Otan, lideradas pelos Estados Unidos, de violar os tratados assinados para prevenir baixas entre não-combatentes.

No final do ano passado, o Ministério da Defesa do Afeganistão e a ISAF chegaram a um acordo para evitar alvos que pudessem causar baixas civis durante as operações militares contra os guerrilheiros muçulmanos.

Viva o fascismo indigenista!

Antes tarde que nunca. Ótima a entrevista concedida pelo professor universitário Victor Hugo Cárdenas ao jornalista Duda Teixeira, publicada recentemente na revista Veja. Cárdenas é uma das mais consistentes vozes da oposição ao presidente da Bolívia, Evo Morales, e deve candidatar-se à presidência do país em dezembro.

O professor foi uma das primeiras vítimas do texto constitucional aprovado em janeiro, que deu a 36 etnias indígenas autonomia judiciária para julgar e punir segundo as leis tribais. No início de março, sua casa no Lago Titicaca foi saqueada por indígenas partidários de Morales. Sua mulher, seus filhos e outros parentes foram agredidos violentamente com paus e chicotes.

Cárdenas, que é índio Aimará, denuncia o caráter racista e excludente das políticas promovidas por Morales. “A primeira vítima (da nova constituição) foi a democracia, pois essa nova Carta criou uma dupla cidadania, em que uns têm mais direitos que outros.”, afirma.

Segundo o professor, o Movimento para o Socialismo (MAS), partido do presidente Evo Morales, “inaugurou um racismo ao revés, em que os indígenas leais ao partido ou moradores de área rural têm mais direitos que os outros. Com isso, eles ganham privilégios e são usados como massa de manobra. Pessoas que não são indígenas passaram a ser odiadas porque são consideradas perversas por natureza.”.

Etnocentrismo

Durante a entrevista, Cárdenas faz um comentário apavorante mostrando como a manipulação da população - em especial das populações menos favorecidas – por governantes populistas pode transformar valores humanistas em protótipos de um fascismo com falsas cores socialistas.

“Na Bolívia, o MAS criou a imagem de que os indígenas são pequenos anjos. Uma espécie de reserva moral e ética da humanidade. É uma visão etnocentrista, segundo a qual a cultura aimará é superior às outras. Isso é falso. Essa ideia desmoronou, com os múltiplos casos de corrupção e assassinatos que estremeceram o país. Muitos indígenas que entraram no governo se apropriaram inescrupulosamente dos recursos públicos.”.

Leia mais sobre o tema:
- Venezuela: socialismo ou barbárie?
- Minha esquerda está mais à esquerda?
- Chavez, direita, esquerda e fascismo
- Conduzindo a boiada
- Sabedoria popular?
- Democracia caudilhesca

Fotojornalismo

O fotógrafo argentino Walter Astrada levou o prêmio de Fotojornalista do Ano no concurso Best of Photojournalism 2009 promovido pela Associação de fotógrafos de Imprensa dos Estados Unidos, a NPPA.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Quando olhamos além das aparências

Em meio a um dia de trabalho embrutecedor, um post me fez chorar aqui na redação. É isso mesmo, podem me considerar um emotivo de marca maior. Chorei mesmo. O post em questão, simples na aparência, traz um conteúdo maravilhoso. Mostra como julgamos as pessoas pela aparência, pela “casca” e, de quebra, nos brinda com duas performances musicais arrepiantes. O autor do post é meu amigo Daniel, do blog Mausoléu do Gárgula (que baseou-se em uma notícia do G1), a quem peço permissão para reproduzi-lo quase na íntegra:

Vale assistir o que Susan Boyle - uma mulher escocesa simples, de 47 anos, feia com voz de um anjo - fez aos duros apresentadores do programa Britain’s Got Talent (A Grã-Bretanha Tem Talento). Mesmo a platéia desacreditou ao vê-la, assim como os apresentadores. Todos riram ao ouvir seu sonho de ser uma cantora profissional. Tudo caminhava para um desastre, até que a ouviram. Clique aqui para assistir, pois vale a pena!

O mesmo já tinha acontecido na temporada anterior, com Paul Potts, que totalmente desacreditado, cantou Nessun dorma. Ele, também um homem simples, chegou igualmente desacreditado e arrancou lágrimas de todos! Clique aqui e assista!

A grande guerra pela civilização: a conquista do Oriente Médio - Robert Fisk

Terminei de ler no domingo o livro “A grande guerra pela civilização: a conquista do Oriente Médio” do jornalista inglês Robert Fisk, que por mais de 30 anos cobre os conflitos na região e conhece como ninguém os meandros culturais e religiosos das sociedades que a compõem. Suas 1.495 páginas formam um documento imprescindível para quem quer compreender os motivos pelos quais o Oriente Médio transformou-se em um caldeirão sempre pronto a transbordar, além da origem do rancor e da desconfiança que estes povos mantém para com o Ocidente.

Fisk surge como analista e testemunha implacável dos fatos e os tempera com indicações de como a história destes povos é recheada de falsidades e traições - em parte, traições infligidas pelos líderes destas nações sobre seu próprio povo, mas, principalmente, traições promovidas pela ganância e arrogância do Ocidente para com o Oriente Médio.

Desde o início do século passado, logo após a Primeira Grande Guerra, o Oriente Médio vem sendo tratado pelo Ocidente como um feudo. Nações foram criadas e destruídas, regimes foram instaurados e derrubados, ditadores foram aclamados e condenados seguindo os interesses das potências ocidentais. Ingleses, franceses e, agora, estadunidenses e seus prepostos têm sua parcela de culpa nesta política colonial que enfraqueceu a identidade dos povos árabes e persas e desaguou na situação de insegurança e violência que hoje se apresenta ao mundo. Nós, jornalistas, temos também nossa parcela de culpa. Somos, como diz Fisk, “cúmplices da selvageria” por aceitarmos de pronto as versões oficiais sobre o que ocorre na região.

O autor apresenta-se corajosamente como testemunha ocular das conseqüências desta longa política de domínio ocidental, cobrindo de perto a resistência afegã à ocupação soviética e o banho de sangue da guerra entre Irã e Iraque na década de 80, a guerra civil na Argélia e as invasões israelenses ao Líbano, nos anos 90, a Segunda Intifada palestina, em 2000 e as duas guerras travadas entre os Estados Unidos e o Iraque. Fisk também nos oferece uma análise aprofundada dos conflitos que, no passado, criaram o panorama político que hoje incendeia a região. Juntos, os relatos pessoais colhidos in loco e as análises históricas contidas na obra formam um panorama assustador do que ainda pode advir como resultado das omissões e dos erros cometidos no passado.

A postura de Fisk como jornalista se destaca em meio aos fatos minuciosamente descritos no livro, ao oferecer um pano de fundo aos relatos dos campos de batalha, de modo que a carnificina, a covardia e a intolerância – características compartilhadas por todos os conflitos armados - surgem revestidas de suas sementes históricas. Da mesma forma, seus relatos são realistas, isentos das figuras de linguagem próprias dos “jornalistas encaixados” que desde o acirramento dos conflitos no Oriente Médio seguem o roteiro das forças armadas e dos governos ocidentais. Em seus relatos, os protagonistas não são tachados de “terroristas”, o conflito entre israelenses e palestinos não é classificado como “milenar”, não existem “efeitos colaterais”, mas destruição física e mental em uma seqüência de horror que ajuda o leitor a se colocar no lugar de quem o sofre e entender que reações este horror pode provocar no futuro.

Ao ler os relatos de Fisk, não se pode dar as costas aos imensos custos humanos gerados pelas decisões tomadas nos gabinetes de governo e nos centros de comando militar, decisões que a grande mídia costuma reproduzir sem questionamentos.

É impossível olhar com normalidade para posições como a da Secretária de Estado do governo Bill Clinton, Madeleine Albright, para quem a morte de um milhão de crianças iraquianas como decorrência das sanções econômicas impostas ao país foi um preço justo a ser pago para punir Saddam Hussein pela invasão do Kuwait.

Da mesma forma é inconcebível imprimirmos qualquer tipo de justificativa para a morte de 17.500 pessoas - quase todos civis, a maioria mulheres e crianças - quando Israel invadiu o Líbano, em 1982; para a morte de 1.700 civis palestinos no massacre de Sabra-Chatila; para o massacre de 1996, em Qana, quando 106 refugiados libaneses civis, mais da metade dos quais crianças, foram assassinados em uma base da ONU; para o assassinato dos refugiados de Marwahin, que receberam ordens de Israel para sair de suas casas, em 2006, e foram assassinados na rua pela tripulação de um helicóptero israelense; ou para os mil mortos no mesmo bombardeio de 2006, na mesma invasão do Líbano, praticamente todos civis. É impossível justificar a morte de civis inocentes em Gaza ou na Cisjordânia sob a justificativa de que “o alvo eram os terroristas” do Hamas, do Hizbóllah ou de outro grupo qualquer.

Igualmente, é inconcebível justificar os pavorosos assassinatos de reféns no Iraque – muitos dos quais cruelmente filmados e divulgados pela internet; os milhares de assassinatos na guerra civil da Argélia; os muitos atentados contra civis cometidos em nome do islã; o assassínio de civis israelenses por franco-atiradores ou homens-bomba; as atrocidades do 11 de setembro que causou a morte de 3 mil inocentes. Não é possível aceitarmos qualquer tipo de justificativa para a barbárie.

No entanto, como aponta Robert Fisk, é possível – e necessário – compreendermos os motivos pelos quais esta verdadeira insanidade coletiva se abateu sobre estas nações. Estes motivos estão expostos página a página desta fabulosa obra de jornalismo investigativo, um relato ácido sobre como podemos transformar seres-humanos em nada em nome do poder e da cobiça.

Fotojornalismo

Foto do ensaio que Rogério Albuquerque realizou durante o carnaval. Ele ficou em um hotel onde as escolas de samba de São Paulo prepararam os seus destaques antes dos desfiles.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Com diploma ou sem ele?

Meu artigo "Com ou sem diploma?", publicado aqui no dia 31 de março, foi publicado hoje no Observatório da Imprensa sob o título "Diploma de Jornalismo: Vantagens e desvantagens de cada possibilidade". Quem não leu aqui pode checar por lá.

MS no relatório de produção parlamentar da Transparência Brasil

A Transparência Brasil (TB) divulgou - como parte de seu projeto Excelências - um relatório com informações a respeito do desempenho de todos os parlamentares pertencentes às principais Casas legislativas brasileiras: Senado Federal, Câmara dos Deputados, todas as Assembléias Legislativas e todas as Câmaras de Vereadores das capitais estaduais. São 55 Casas, com um total de 2.368 parlamentares em exercício, todos cobertos pelo projeto. As informações englobam a produção legislativa desses parlamentares – projetos de lei, projetos de resolução, requerimentos, indicações (sugestões), pedidos de informação, moções etc.

Segundo o relatório da Transparência Brasil, “das 55 Casas acompanhadas pelo projeto, apenas 36 publicam essa produção na Internet”. Dessas, continua o relatório, “nove dão informações precárias ou as apresenta de forma a dificultar a consulta (não há classificações nem buscas)”.

Apenas 27 destas 55 Casas publicam sua produção de modo a permitir uma consulta organizada. O relatório analisou a produção legislativa de 24 dessas 27 Casas (para três delas – de Campo Grande, Cuiabá e Curitiba – o processo que a Transparência Brasil usa para recolher as matérias ainda estava em desenvolvimento quando da confecção do relatório).

A Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul está listada entre as que disponibilizam na Internet a produção legislativa de seus integrantes. Amazonas, Goiás, Pará, Rio Grande do Norte e Roraima não o fazem, enquanto Acre, Alagoas, Maranhão, Mato Grosso, Piauí, Sergipe e Tocantins publicam os dados de uma forma que dificulta a busca e coleta da informação.

Entre as Câmaras de Vereadores das capitais, só dez publicam organizadamente a sua produção legislativa e outras duas (Manaus e Palmas) o fazem de modo precário. Aracaju, Belém, Boa Vista, Goiânia, Macapá, Maceió, Natal, Porto Velho, Recife, Rio Branco, Salvador, São Luís, Teresina e Vitória não publicam nenhuma informação.

Relevância Zero

O estudo feito pela TB mostra que das 182.240 matérias alocadas a parlamentares especificados constantes do banco de dados do projeto Excelências até os últimos dias de março de 2009, apenas 17,6% (32.220) poderiam ser classificadas como “Matérias de Impacto” (relativas a assuntos com inserção no dia a dia da população). Quarenta e quatro mil e setenta e duas matérias (24,2% delas) foram classificadas pela entidade como material “com pouco ou nenhum impacto”. Elas somam 36.629 homenagens, 4.384 batismos, 2.162 sessões solenes/especiais, 705 datas comemorativas, 92 simbologias, 54 cidades símbolo e 46 cidades irmãs.

Produção

No Senado, Mato Grosso do Sul ficou na melhor colocação no que se refere à produção de matérias com pouco ou nenhum impacto, conforme os estados de origem dos parlamentares. Foram apenas quatro matérias (três delas aprovadas) deste tipo, uma média de 1,3 por senador. O estado mais profícuo na produção de matérias irrelevantes foi o Amazonas, com 900 matérias do gênero (300 por senador).

No que se refere a matérias de impacto, MS produziu 56 (18,7 por senador), ficando em 16º lugar. Destas, apenas duas foram aprovadas (3,6%), deixando a bancada do Estado em 22º lugar no quesito eficiência.

Entre os senadores sul-mato-grossenses, Delcídio do Amaral (PT) aparece entre os oito que mais apresentaram matérias com impacto e que não propuseram nenhuma sem impacto. Foram 20, ambas aprovadas.

O senador Valter Pereira (PMDB), por sua vez, aparece em quinto lugar no número de matérias relacionadas à Regulação Política (eleições, partidos, federalismo). Foram cinco, nenhuma aprovada, no entanto.

Em relação à produção dos deputados federais no que se refere às matérias com impacto, a bancada sul-mato-grossense ficou em 21º lugar, com uma média de 5,5 matérias por deputado, na frente, somente, das bancadas do Acre (5,4), Alagoas (1,4), Bahia (5,4), Piauí (2,5), Sergipe (5,3) e Tocantins (4,5). Apesar da baixa produção, a bancada de Mato Grosso do Sul está entre as mais eficazes em termos de porcentagem de projetos aprovados em relação ao total (2,3%). Ficou atrás, apenas, das bancadas do Distrito Federal (4,2%) e Amapá (3,1%).

No que tange as matérias com baixo ou nenhum impacto, apenas dois estados produziram menos que MS: Alagoas (0,0 por deputado) e Sergipe (0,5). Ao lado de Roraima, Mato Grosso do Sul ficou com uma média de 0,6 matérias do gênero por deputado.

Corrupção

Um tema pouco debatido nas Assembléias Legislativas e Câmaras de capitais diz respeito à Corrupção. A maioria das proposições desse tipo é apresentada no Senado e na Câmara Federal. Este fato é preocupante, visto que dados da TB apontam que a incidência de corrupção é muito maior nos estados e municípios do que na União.

Juntas, a Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul e a Câmara Municipal de Campo Grande apresentaram apenas uma matéria deste tipo. Ao lado dos legislativos estadual e municipal (da capital) da Paraíba, MS está em último lugar em proposições que possibilitam a investigação de corrupção.

Fotojornalismo

Mais uma bela foto de Adriana Zehbrauskas, feita em Espinazo (México/2009) para o projeto Fé.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Rock sob a lua

Noite clara, lua alta e dois excelentes shows ontem, na Concha Acústica Helena Meirelles - Parque das Nações Indígenas. Primeiro, o Pink Floyd afinado da banda Pulse e, logo depois, o blues sarcástico dos Bêbados Habilidosos. Rock'n'roll sul-mato-grossense da melhor qualidade.

Futebol e filosofia

Para rir um pouco, dica da jornalista e blogueira Manuela Baren, Monty Phyton e seu "Futebol Filosófico".

Quem é Avigdor Lieberman, Ministro das Relações Exteriores de Israel?

Confira os links e fontes (em inglês e hebraico), indicados pela organização judaica americana JStreet para saber quem é Avigdor Lieberman:

- Lieberman não entende a experiência judaica. Ele afirmou que “as minorias são o maior problema no mundo.”

- Lieberman já provocou um incidente internacional, ao declarar que, o presidente do Egipto Hosni Mubarak podia "ir para o inferno" e obrigando o governo de Israel a pedir desculpas a um dos seus raros amigos na região. Ele também apelou a que Israel bombardeasse a barragem egípcia de Aswan.

- Lieberman tem repetidamente alegado que, “Todas as negociações baseadas na troca de terra por paz são um erro fatal.”

- A proposta de Lieberman sobre o “juramento de fidelidade” pode privar os cidadãos dos seus direitos civis. Precisa de uma comparação histórica? Pense nos reflexos negativos resultantes das perseguições de McCarthy, na década de 50, nos Estados Unidos.

- Lieberman liderou o esforço da Comissão Eleitoral Central israelense 0para que os partidos políticos Árabes israelenses fossem proibidos de concorrer às eleições de fevereiro; o Supremo Tribunal israelense decidiu revogar esta proibição. No Supremo Tribunal, Lieberman disse a um membro árabe do Knesset, “Nós vamos cuidar de você da mesma forma que o Hamas. Você é um terrorista.

- Lieberman, durante um debate no plenário do Knesset, disse a um dos seus membros, o árabe Wassel Taha, “é pena o Hamas não estar encarregue de cuidar de ti…. És o representante dos terroristas nesta Casa” e acrescentou, “O destino dos colaboradores no Knesset deve ser semelhante aos dos colaboradores dos nazistas… No final da II Guerra Mundial, não só os criminosos foram executados nos julgamentos de Nuremberg, mas também os seus colaboradores. Espero que seja também esse o destino dos colaboradores (no Knesset).”

- Lieberman apoia uma forma de limpeza étnica, defendendo a transferência dos cidadãos árabes-israelenses para fora de Israel. (A transferência da população é conhecida, de acordo com o direito internacional, como uma forma de "limpeza étnica"). Ele argumenta: "a idéia da terra pela paz é falsa... o princípio orientador tem de ser troca de populações e territórios... Nunca vamos concordar com uma definição de "dois Estados para dois povos".
Lieberman também afirmou que “Os árabes tem todos os seus direitos em Israel, mas não tem direito ao Eretz Yisrael. [Terra de Israel] "

- Lieberman referindo-se "àqueles israelenses e judeus que agem contra o Estado no exterior", afirmou que “podem ser comparados aos Kappos (judeus colaboracionistas) nos campos de concentração”. Também se refere os que pertencem aos israelenses pacifistas como “Hellenists" [Estrangeirados].

- Lieberman tem poucos amigos na comunidade judaica americana. O proeminente rabino americano Eric Yoffie escreveu que Lieberman promoveu “uma campanha (eleitoral) ultrajante, abominável, cheia de ódio, transbordante de incitamentos que, se não forem devidamente controlados, poderão levar Israel às portas do Inferno”. O chefe do Comitê Judaico Americano, David Harris, afirmou que as propostas de Lieberman são "no mínimo, profundamente irresponsáveis," e podem “gelar" a democracia em Israel.

A plataforma política de Lieberman poderá ameaçar a histórica relação EUA-Israel. Durante décadas, judeus americanos e outros amigos de Israel têm apoiado esta relação devido à partilha comum de valores democráticos e de interesses nacionais. O que acontecerá quando um destes pilares - valores democráticos comuns - é ameaçado ou destruído?

Fotojornalismo

A fotógrafa Adriana Zehbrauskas integrou a equipe de fotojornalistas da Folha de S. Paulo, no começo dos anos 90, ao lado de feras como Jorge Araújo, Gaudério, Soubhia, Pisco del Gaiso, Rogério Assis, Marlene Bérgamo e Adi Leite. Agora, Adriana vive no México e anda fazendo reportagens para vários veículos, entre eles o The New York Times e é representada pela Polaris Images. A foto acima, de sua autoria, é parte da reportagem Zapatistas ( 2005-2006).

sábado, 11 de abril de 2009

Palestino que perdeu três filhas na ofensiva israelense é indicado para Prêmio Nobel da Paz

O médico ginecologista palestino Ezzeldeen Abu al-Ashi, de 55 anos, foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz, segundo o jornal árabe asharq alawsat, num artigo, em inglês, intitulado “A jornada de Ezzeldeen Abu al-Ashi”.

O médico, que mora no campo de refugiados de Jabaliya, na Faixa de Gaza, protagonizou umas das cenas mais trágicas da recente ofensiva militar israelense, quando perdeu três filhas em um ataque no dia 17 de janeiro.

O caso foi emblemático, pois al-Ashi ligou para um jornalista israelense, seu amigo, Eldad Slomi, do Canal 10, para pedir auxílio logo após o ataque (sua residência foi atingida por disparos de artilharia), no momento em que este que estava no estúdio. Mesmo estando no ar, o jornalista atendeu a chamada, preocupado, e transmitiu a conversa ao vivo.

Do outro lado da linha, os gritos desesperados de Abu al-Aish, contando a Eldad que as filhas estavam mortas. Sem disfarçar a emoção, o jornalista tenta usar seus contatos e envia uma ambulância para socorrer o amigo palestino, trazendo as vítimas para serem atendidas em hospitais de Israel.

As cenas do drama são indescritíveis – veja o vídeo (que demora 4:18 minutos, em hebreu, com legendas em inglês – para ativar as legendas clique no triângulo que se encontra no canto inferior esquerdo da imagem).

Abu al-Aish formou-se em Israel e durante anos trabalhou em diversos hospitais do país.

A indicação para o prêmio foi feita pelo Departamento de Estado da Bélgica, que considerou al- Aish um "soldado da paz". O médico já tinha sido agraciado anteriormente com a cidadania honorária belga “em reconhecimento dos seus esforços ao serviço da humanidade”.

OBS: 1.455 palestinos, dos quais 431 crianças morreram durante a ofensiva israelense. Dos 5.380 feridos, 1.872 eram crianças.