Semana On

terça-feira, 31 de março de 2009

Com ou sem diploma?

O Supremo Tribunal Federal (STF) julga amanhã, dia 1º de abril, a revogação da Lei de Imprensa e, em conseqüência, a obrigatoriedade do diploma para o exercício do Jornalismo no Brasil.

Desde 11 de outubro de 2001, quando o Ministério Público Federal em São Paulo ingressou com a Ação Civil Pública contra essa obrigatoriedade, que é vigente no Brasil desde a edição do Decreto-lei nº 972, de 17/10/1969, a questão vem dividindo opiniões entre os profissionais da área. Em 16 de dezembro de 2006 o STF concedeu liminar que suspendeu a exigência do diploma e desde então o debate que se esperava, com mútua defesa de argumentos e a construção de caminhos não ocorreu. Não houve um debate claro para que a população – e os próprios profissionais – soubessem, de fato, as vantagens e desvantagens de cada possibilidade.

No ano passado tratamos insistentemente deste tema, no esforço de ampliar esta discussão. No entanto, poucos foram os espaços dedicados – e as pessoas dispostas - a um debate honesto e isento de preconceitos. Justiça seja feita ao Observatório da Imprensa, que viabilizou um fórum para tantos quantos quisessem expressar seus pontos de vista sobre o tema, e para a Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA), que em novembro passado realizou um amplo debate reunindo profissionais e membros da academia, invertendo a postura adotada pela maior parte da academia, que optou pelo discurso vazio, de mão única em defesa do diploma ao invés da saudável contraposição de idéias.

No artigo “Debate sobre o diploma de jornalismo... que debate?”, de outubro de 2008, afirmei que, se tivessem interesse por um debate real sobre o tema, os defensores da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão teriam que analisar as fontes do procurador da República André de Carvalho Ramos ou a própria sentença da juíza-substituta Carla Abrantkoski Rister, da 16ª Vara Cível da Justiça Federal de Primeira Instância de São Paulo.

Estas fontes remetem ao Comitee to Protect Journalists (CPJ) sobre a Lei Orgânica do Colégio de Jornalistas de Honduras, de 1972; ao respeito aos princípios da Declaração Interamericana sobre os Direitos Humanos; aos pareceres da Corte Interamericana de Direitos Humanos, como aquele que é contra a exigência do diploma e de outros tipos de regulamentação; à "Charter for a Free Press", de 1987, na qual representantes de entidades jornalísticas de 34 países reunidos em Londres estabeleceram dez princípios para assegurar a liberdade de imprensa no mundo (o nono princípio afirma explicitamente: "As restrições por meio de regulamentação ou de outros procedimentos de certificação ao livre acesso ao campo do jornalismo ou sobre sua prática precisam ser eliminadas"); ao endosso do relatório "World Information and Communication Report – 1990-2000", da Unesco, aos princípios da "Charter for a Free Press"; à inclusão da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista no Brasil à lista de agressões à liberdade de imprensa citadas no documento "Overview: The Americas", do CPJ.

Finalmente, estas fontes remetem ao fato de que a exigência do diploma para o jornalismo é característica de poucos países (em sua maioria com pouca tradição democrática) como África do Sul, Arábia Saudita, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Croácia, Equador, Honduras, Indonésia, Síria, Tunísia, Turquia e Ucrânia; e de que ele não é exigido na Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, China, Costa Rica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Peru, Polônia, Reino Unido, Suécia, Suíça e em vários outros países onde, ainda assim, se faz jornalismo de tão boa (ou melhor) qualidade que o nosso.

Esta realidade reforça o argumento de que os cursos superiores de jornalismo do Brasil deveriam ser o que eles são em outros países: um diferencial na formação de profissionais.

Argumentos e preconceitos

O debate promovido pela ECA em novembro foi um dos poucos momentos nos últimos anos em que se pode por um fim a esta guerra de trincheiras na qual cada lado disparava seus argumentos devidamente protegido por barricadas de idéias pré-concebidas. Ali se delinearam alguns consensos e divergências que cercam a polêmica.

Integrante da mesa (ao lado de Pedro Pomar, editor da Revista Adusp, da Associação dos Docentes da USP, e Maria Elisabete Antonioli, professora de jornalismo da Universidade Ibirapuera e das Faculdades Integradas Rio Branco), o jornalista Maurício Tuffani (que em seu blog reúne um dos mais completos dossiês sobre a questão da obrigatoriedade do diploma) fez um amplo diagnóstico deste salutar confronto de idéias em seu artigo “Debate na USP isola falácias sobre exigência do diploma”, cujos pontos mais importantes resumo em seguida.

OS CONSENSOS

- Não à desqualificação dos oponentes: foi inadequado o procedimento da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) de reduzir à mera defesa de interesses patronais as críticas à obrigatoriedade do diploma. Em contrapartida, a defesa dessa exigência não pode ser identificada automaticamente com a defesa de interesses corporativistas de sindicatos, donos de faculdades particulares ou professores de jornalismo. Na prática, esses expedientes consistem no apelo à falácia do Argumentum ad hominem.

- O decreto-lei e a Junta Militar: não é válido o argumento de que a obrigatoriedade do diploma não é legítima porque foi estabelecida pelos ministros militares que governaram o país em 1969. Não se pode escamotear o fato de que várias reivindicações foram levadas meses antes por sindicalistas ao governo. (A esse respeito, vale a pena ler o artigo o artigo “Liberdade de expressão e regulamentação profissional”, de José Carlos Torves, publicado em 26/08/2008 no Observatório da Imprensa). No entanto, pode e deve ser explorado juridicamente o fato de esse decreto-lei não se basear em nenhuma outra lei, mas somente no AI-5 e no AI-16, revogados desde 1979.

- Não confundir a formação com sua exigência: deve-se evitar a expressão “contra o diploma”. O que está em questão não é a formação, mas a sua obrigatoriedade. Melhor dizendo, a obrigatoriedade da formação superior específica em jornalismo para o exercício dessa profissão. A ressalva pode parecer óbvia, mas a divisão simplória entre “favoráveis ao diploma” e “contrários ao diploma” tem servido para potencializar equívocos, principalmente entre aqueles que estão pouco informados sobre a questão.

- Jornalismo não é só prática: não é verdade que o jornalismo se aprende somente com a prática. Esta não é suficiente para o exercício da profissão de acordo com seus preceitos éticos e técnicos. Além disso, o jornalismo exige boa formação cultural e humanística. A divergência responsável entre favoráveis e contrários à obrigatoriedade está na forma com a qual deve ou pode ser obtida ou comprovada essa formação.

- Qualidade dos cursos não serve como argumento: a afirmação de que os cursos de jornalismo, em sua maioria, são ruins não serve para invalidar a sua obrigatoriedade. Esse argumento pode justificar a suspensão ou o fechamento caso a caso de cursos de qualquer área, mas não o fim de sua obrigatoriedade.

- Não confundir opinião com jornalismo: muitos dos que são contra a obrigatoriedade do diploma se equivocam ao usar artigos opinativos de especialistas como exemplos de bons trabalhos jornalísticos. O Decreto-lei 972/1969 não impede que especialistas de outras áreas escrevam como convidados ou como colaboradores. O que está em questão é se só a formação superior em jornalismo pode preparar alguém para exercer funções exclusivamente jornalísticas, como as de repórter, redator, editor e outras.

- Ideologização e falta de verificação: muitos daqueles que evitam o debate alegam que ele é “ideologizado”. No entanto, seja no sentido amplo ou no específico do termo “ideologia”, não é possível evitar aspectos ideológicos na discussão. O ponto relevante é que muitas manifestações têm sido feitas sem preocupação com a verificação e a análise de suas premissas.

- Não confundir exigência do diploma com regulamentação: a profissão de jornalista é regulamentada em muitos dos países em que não há o requisito de formação superior específica para ela. Uma discussão que poderia ter sido feita durante os últimos anos, mas que foi negligenciada, é exatamente sobre os diversos modelos de regulamentação vigentes.

- Jornalismo cidadão: Isso, por princípio, não é jornalismo. Na maioria dos casos, os veículos em que essa atividade é desenvolvida não devem necessariamente ser considerados jornalísticos. O fato de as novas tecnologias de comunicação abrirem cada vez mais oportunidades de expressão, como os blogs e sites pessoais, traz maior complexidade para o desafio de regulamentar a profissão, mas não serve como argumento contra a obrigatoriedade do diploma. Os veículos que não se pautam pelos preceitos técnicos e deontológicos do jornalismo — o que inclui muitos blogs e sites de pessoas formadas em jornalismo — não são jornalísticos. Não são nada mais que novas fontes.

AS DIVERGÊNCIAS

- O assunto não se limita ao aspecto constitucional: o Recurso Extraordinário 511961, do Ministério Público Federal de São Paulo não limitou o tema ao aspecto constitucional, na medida em que apelou para outros dispositivos com força de lei no Brasil como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, das Nações Unidas, e a Convenção Americana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos:

Declaração Universal dos Direitos Humanos. Artigo XIX.

Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Convenção Americana de Direitos Humanos. Artigo 13.

Liberdade de Pensamento e de Expressão

1. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão. Esse direito compreende a liberdade de buscar, receber e difundir informações e idéias de toda natureza, sem consideração de fronteiras, verbalmente ou por escrito, ou em forma impressa ou artística, ou por qualquer outro processo de sua escolha.

2. O exercício do direito previsto no inciso precedente não pode estar sujeito a censura prévia, mas a responsabilidades ulteriores, que devem ser expressamente fixadas pela lei a ser necessárias para assegurar:

a) o respeito aos direitos ou à reputação das demais pessoas; ou

b) a proteção da segurança nacional, da ordem pública, ou da saúde ou da moral públicas.

3. Não se pode restringir o direito de expressão por vias ou meios indiretos, tais como o abuso de controles oficiais ou particulares de papel de imprensa, de freqüências radioelétricas ou de equipamentos e aparelhos usados na difusão de informação, nem por quaisquer outros meios destinados a obstar a comunicação e a circulação de idéias e opiniões.


- Omissão de professores: não se viu respostas dos acadêmicos defensores da obrigatoriedade a diversas contestações explícitas a essa exigência, principalmente a manifestações de importantes teóricos da comunicação. Com essa omissão, eles, na condição de docentes e pesquisadores, renunciaram a exercer plenamente o ethos acadêmico e, na condição de jornalistas, renunciam ao debate de idéias.

Um exemplo de estudioso da comunicação muito respeitado no Brasil e no mundo, e contrário à obrigatoriedade do diploma é Daniel Cornu, professor do Instituto de Jornalismo e Comunicação, da Universidade de Neuchâtel, de Lausanne, e diretor do Centro Franco-Suíço de Formação de Jornalistas, de Genebra. Mas não se vêem contestações à afirmação dele de que:

o jornalismo é uma ‘profissão aberta’, que não exige formação específica ou diploma. Sua definição é tautológica: é considerado jornalista quem exerce sua atividade principal na imprensa escrita ou nos meios de comunicação audiovisuais. Mais precisamente, são reconhecidos como jornalistas os agentes da mídia, independentemente dos meios ou técnicas de expressão utilizados, que satisfaçam três critérios: a concepção e realização de uma produção intelectual, uma relação deste trabalho com a informação, além do critério de atualidade”. (Daniel Cornu. Ética da Informação. Tradução de Laureano Pelegrin. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1998, pág. 19.)

- Condição necessária: a formação superior específica em jornalismo não é condição necessária — muito menos condição suficiente — para o exercício dessa profissão com base em seus preceitos técnicos e éticos.

Se uma pessoa tem as qualificações mínimas para exercer a medicina, a engenharia, a odontologia, a veterinária e várias outras determinadas profissões, é porque ela teve formação específica nas respectivas áreas. Ou seja, é impossível neste início de século XXI, ter tais qualificações sem ter estudado na respectiva área acadêmica. Nesses casos, a formação superior específica é condição necessária para o exercício de tais profissões. Por isso, justifica-se sua obrigatoriedade nos termos do inciso XIII do artigo 5º da Constituição.

No entanto, se uma pessoa tem as qualificações mínimas para exercer o jornalismo, não podemos afirmar que ela necessariamente estudou jornalismo, o que é atestado pelo que acontece em quase todo o mundo. O mesmo se aplica à publicidade, à administração (que é exercida também por economistas, engenheiros e formados em outras áreas) à música, às artes cênicas. Isso quer dizer que a formação superior específica não é condição necessária para o exercício dessas profissões. E é por isso que não se deve exigir formação superior específica para elas.

- Falácia recorrente: não há consenso sobre as qualificações necessárias para o jornalismo, que seriam obtidas exclusivamente por meio da formação superior específica. Esse é um dogma que sempre esteve por trás da confusão recorrente do jornalismo com profissões que exigem qualificações obtidas necessariamente por meio de cursos superiores específicos. Sem falar nos argumentos do tipo “então tem de abolir também o diploma de médico, engenheiro…”.

- Direito de opinião: a alegação de que muitos críticos da obrigatoriedade confundem direito de expressão e exercício profissional se baseia em uma premissa: a de que a formação específica é condição necessária para qualificações exigidas pela profissão. Mas é justamente isso o que deveria ser discutido. Em outras palavras, essa alegação incorre naquilo que em lógica se chama falácia da petição de princípio.

Com ou sem diploma...

O fato é que, mantida ou não a exigência do diploma específico para o exercício do Jornalismo no Brasil, os graves problemas éticos, econômicos e profissionais que permeiam o ofício se manterão inalterados. A manutenção ou queda desta exigência não mudará o fato de que nos encontramos em um momento no qual até mesmo a existência da profissão está em jogo diante das novas tecnologias e – em conseqüência – das novas formas do fazer jornalístico que aproximam o cidadão comum das ferramentas necessárias para tal.

A exigência ou não do canudo nada modificará na relação promíscua que mantemos com os donos do poder, na nossa subserviência que transforma jornalistas em “assessores de imprensa” dos barões da mídia. Não é o diploma que garantirá uma ética de base sólida, que formará cidadãos conscientes de seu papel social, que apontará os caminhos de um Jornalismo transformador ao invés de um jornalismo circense no qual o sensacionalismo, o entretenimento e a superficialidade tomaram o espaço da informação relevante.

Para mudar tudo isso e transformar o Jornalismo em algo mais que um amontoado de apresentadores perfumados e escribas de aluguel será preciso que enxerguemos nesta bela profissão uma ferramenta de avanço social, de combate à corrupção, de transformação. E isso exige uma formação muito mais complexa do que oferecem as centenas de cursos de Jornalismo que se espalham hoje pelo país.

Poesia

escrevo para não morrer a luz de março
para ouvir o canto ázimo
numa promessa ausente
despida de fé.

escrevo pelos cárceres
dia sim dia não escrevo copiosamente
pelos pássaros na respiração dos rios

se mais não for escrevo por ti.

Poema da maravilhosa Maria Gomes

Ah, tá, agora entendi

Espera aí, deixa ver se entendi.
Quer dizer que o senador José Sarney, que agora quer posar de bom moço aparando o cabide de empregos das 181 diretorias do Senado, foi o responsável (junto com Jader Barbalho e Renan Calheiros) pela criação de 70% destas mesmas diretorias?
Sim.
Ah, tá, agora entendi.

Fotojornalismo

O fotógrafo inglês Paul Gilham venceu a categoria Young Sports Photographer deste ano do concurso UK Sports Journalism.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Caçando Gollun



Para quem – como eu – é fascinado pela obra de JRR Tolkien e simplesmente agradeceu a Deus por estar vivo para assistir a trilogia no cinema, vai uma dica (se bem que, se você é mesmo fã da obra Dele já está sabendo da novidade). Bom, de qualquer forma vamos lá... o premiere do filme “The Hunt for Gollun” acontece dia 3 de maio durante o festival Sci-Fi-London, o maior evento mundial relacionado a filmes de fantasia e ficção científica.

Continuou na mesma? Explico. “The Hunt for Gollun” é um filme feito por fans para fans, sem fins lucrativos, enfocando a obra de Tolkien com produção primorosa. Estará disponível na internet a partir do dia 3 de maio, logo depois da premiere de Londres.

A produção teve início em 2007, quando o roteirista e diretor Chris Bouchard começou a adaptar o script dos apêndices de “O Senhor dos Anéis”. Para quem curte o tema e a Middle-earth, vale visitar o site oficial do filme e assistir aos dois teasers.

OBS: Esta não é a única investida independente no universo de JRR Tolkien. Outro filme, “Born of Hope”, está em fase de produção e promete.

Poesia

Na ponta da esferográfica
sangro azul
e singro realidades abissais

Trecho de poema de Iriene Borges. Em seu blog.

Frases

“Ela é uma pendurada na influência do ex-marido. Uma pessoa que não muda o sobrenome para explorar a influência do ex-marido é o fim do mundo”.
O finado Clodovil, sobre Marta Suplicy.

Fotojornalismo

Flagra do redentor às escuras durante a "Hora do Planeta", realizada sábado. Foto de Américo Vermelho


sábado, 28 de março de 2009

Doutora Mara

A palavra "doutor" é uma das mais antigas no idioma português e se repete em inglês (doctor), espanhol (doctor), francês (docteur), italiano (dottore) e alemão (doktor) e, com ligeiras variantes, praticamente em todas as línguas modernas.

Suas raízes mais remotas podem ser rastreadas até entre o primeiro e o segundo milênio antes da nossa era, nas invasões indo-europeias, que nos trouxeram a raiz dok-, da qual provém a palavra latina docere, que por sua vez derivou em doctoris (mestre, o que ensina).

Desta raiz indo-europeia provém da mesma forma o vocábulo grego dokein do qual se derivaram outras palavras da mesma família, tais como dogma, ortodoxia, paradoxo e didática.

Pois bem, minha companheira querida, Mara, defendeu ontem a sua tese de doutorado intitulada “Estratégias ventilatórias empregadas para a prevenção da lesão pulmonar induzida pela ventilação mecânica em neonatos prematuros”, pelo Programa Multi-Institucional de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (Convênio Rede Centro-Oeste, Universidade de Brasília, Universidade Federal de Goiás e Universidade Federal de Mato Grosso Sul).

Muitos sacrifícios, os louros vêm agora.

Creme dental ou liberdade?

Estes dias assisti a um debate na tevê sobre o futuro de Cuba pós-Fidel. Um dos participantes argumentou que a mudança no sistema era certa, pois os cubanos, apesar de terem acesso à educação e saúde de qualidade, não agüentavam mais não poderem escolher um creme dental, um sabonete de seu agrado.

Outro participante, ex-embaixador do Brasil na ilha, disse que o que não falta em Cuba é creme dental, que a ânsia do cubano não é por bens de consumo, como se imagina no ocidente, mas de outra natureza, trata-se de uma necessidade criada pelo alto nível intelectual deste povo, uma vontade de ter acesso ao mundo.

Lembrei desta passagem ao ler, na edição de Veja desta semana, o artigo de Lya Luft, “A mentirosa liberdade”, na qual a escritora faz uma crítica à sociedade de consumo. Diz ela: “Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher com calma.”

Novelas e comportamento

Interessante a reportagem “Soaps, sex and sociology”, publicada no The Economist, sobre a influência das novelas globais no comportamento das mulheres brasileiras. A reportagem cita pesquisas do Inter-American Development Bank, segundo as quais os valores sustentados pelos dramalhões influenciaram até na taxa de natalidade e no número de divórcios ocorridos no país nos últimos anos. Eu já havia abordado o tema, e as pesquisas, em fevereiro, no post “O BID e as novelas da Globo”.

Frases

“Os mercados podem ser livres, mas não podem ser livres de valores éticos”
Gordon Brown, primeiro-ministro inglês

Fotojornalismo

Um fotógrafo registra o pesado nevoeiro na cidade de Liuzhou, província chinesa de Guangxi. Foto da ChinaFotoPress/Getty.

sexta-feira, 27 de março de 2009

ONG vê risco para exercício do jornalismo no Brasil

O Brasil está entre os 14 lugares mais perigosos do mundo para o exercício da profissão de jornalista, junto de países em guerra, como Iraque e Afeganistão, ou que passam por conflitos civis, caso de Serra Leoa e Somália.

A conclusão é do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), que acaba de divulgar seu levantamento anual.

É o Índice da Impunidade que elenca os países em que os jornalistas são mortos com regularidade e em que o governo falha ao tentar solucionar os crimes.

Pelo segundo ano consecutivo o estudo traz o Brasil em 13º lugar, à frente da Índia (quanto mais elevada a colocação, piores as condições). Os líderes são Iraque, Serra Leoa, Sri Lanka, Somália e Colômbia.

Leia mais sobre o tema:
- A coerção ao exercício do jornalismo no Mato Grosso do Sul

Antes e depois

Interessante o artigo do Gravata no blog Imprensa Marrom sobre os discursos políticos na internet. Falando sobre a denúncia do delegado Protógenes Queiroz de que o presidente Lula estaria na folha de pagamento do banqueiro Daniel Dantas, ele questiona a posição dos jornalistas que têm apoiado Queiroz em suas acusações, mas que se alinham com o Governo Federal. Ele cita nominalmente – e dá exemplo de mudança de comportamento – o jornalista Luiz Nassif, que antes das acusações contra Lula enaltecia o delegado e, agora, faz ressalvas.

Centro Knight lança livro em português ‘Como Escrever para a Web’

O Centro Knight acaba de publicar a edição eletrônica em português do livro "Como escrever para a Web", escrito pelo jornalista colombiano Guillermo Franco e traduzido ao português pelo jornalista brasileiro Marcelo Soares.

O livro de Franco traz exemplos práticos sobre como escrever para publicações online e como pesquisar a partir de outras fontes. O autor o considera não só um manual, mas também um ponto de partida para um guia mais abrangente sobre como escrever para a Web. Desde a sua publicação em dezembro de 2008, a edição em espanhol já foi baixada quase 13 mil vezes.

O livro pode ser baixado em formato PDF aqui.

Fotojornalismo

Um bombeiro olha para cima nas escadas do secretariado de governo de Bangladesh, durante um treinamento de resgate em incêndio. Foto da Reuters.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Soldados israelenses falam de abusos em Gaza

No último dia 20 publiquei aqui o artigo “Jornal israelense denuncia assassinatos de civis palestinos na Faixa de Gaza”, sobre as denúncias do jornalista Amos Harel, do jornal israelesne Haaretz, de que o exército israelense havia assassinado civis na Faixa de Gaza durante a última ofensiva na região. A seguir, traduzo a reportagem 'Shooting and crying', com as transcrições de relatos de soldados que deram origem às denúncias.

'Atirando e chorando'
Por Amos Harel (Tradução Victor Barone)


Menos de um mês depois do encerramento da operação Chumbo Derretido na Faixa de Gaza, dezenas de graduados do programa preparatório da escola pré-militar Yitzhak Rabin, foram convocados para a Academia Oanin, em Kiryat Tivon. Desde 1998 o programa prepara seus participantes para o serviço militar. Muitos assumem postos de comando em combate e outros grupos de elite das Forças de Defesa de Israel (FDI). O fundador do programa, Danny Zamir, ainda o encabeça e serve como sub-comandante de um batalhão da reserva.

Na sexta-feira, 13 de fevereiro, Zamir convidou soldados e oficiais graduados no programa para uma longa discussão sobre as suas experiências em Gaza. Eles falaram abertamente, mas com considerável frustração.

A seguir, há extensas transcrições do encontro, conforme o boletim do programa, Briza, publicado na quarta-feira (17). Os nomes dos soldados foram modificados para preservar sua identidade. Os editores também deixaram de fora alguns detalhes referentes à identidade das unidades que agiram de forma problemática em Gaza.

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Danny Zamir: "Não é minha intenção que possamos avaliar as realizações e os significados político-diplomáticos da Operação Chumbo Derretido nesta noite, nem de lidar com o seu aspecto militar. Contudo, a discussão é necessária porque esta foi uma ação de guerra excepcional para a história da FDI, que estabeleceu novos limites para o código de ética do exército e do Estado de Israel como um todo.

Esta foi uma ação que semeou destruição maciça entre civis. Não é certo que poderíamos ter agido diferente, mas, em última análise, emergimos desta operação sem que os Qassams fossem interrompidos. É muito possível que repitamos essa operação em grande escala nos próximos anos, porque o problema na Faixa de Gaza não é simples e não é de todo certo que tenha sido resolvido. O que nós queremos nesta noite é ouvir os combatentes."

Aviv: "Eu sou comandante de esquadrão de uma companhia que ainda está sob treinamento na Brigada Givati. Fomos a um bairro na parte sul da cidade de Gaza. De forma geral foi uma experiência especial. No decorrer do treinamento, você aguarda o dia em que entrará em Gaza, e no fim, não é realmente como eles dizem que é. É mais como... você vem, entra em uma casa, expulsa os moradores e ocupa ela. Nós permanecemos em um casa por cerca de uma semana.

Perto do fim da operação, houve um plano para entrar em uma área densamente povoada na cidade de Gaza, propriamente dita. Nas reuniões começaram a falar conosco sobre ordens para abrir fogo no interior da cidade, porque, como você sabe, eles usaram muito poder de fogo e mataram um grande número de pessoas pelo caminho, de modo que não fossemos atingidos e eles não atirassem em nós.

Em um primeiro momento, a ação limitava-se a entrar em uma casa. Nós devíamos entrar nelas com um blindado chamado Achzarit (Cruel) para arrebentar as portas dos níveis inferiores e começar a atirar depois... Eu chamo isso de assassinato... esperava-se que subíssemos de andar em andar e atirássemos nas pessoas que encontrássemos. Inicialmente eu me questionei: qual a lógica disto?

Nossos superiores disseram que isso era permissível pois as pessoas que optaram por ficar no setor e dentro de Gaza estava condenadas, terroristas, pois não tinham fugido. Eu não entendo. Por um lado eles não tinham mesmo para onde fugir, por outro nos dizem que, como eles não fugiram, a culpa era deles. Isso também me assustou um pouco. Eu tentei exercer alguma influência, na medida do possível, a partir da minha posição de subordinado, para alterar esta situação. No final, o procedimento passou a ser o de entrar em uma casa, usar megafones dizendo (aos inquilinos): 'Vamos lá, todos para fora, vocês tem cinco minutos para sair de casa, quem não o fizer será morto.

Eu disse aos nossos soldados 'As ordens mudaram. Nós vamos entrar na casa, eles têm cinco minutos para sair, verificaremos cada pessoa que sai individualmente para confirmar que estão desarmados, e então iniciamos a checagem andar por andar... Isto significa entrar na casa, abrindo fogo em tudo que se move, atirando granadas, todas essas coisas. Então, houve um momento muito chato. Um dos meus soldados veio a mim e perguntou o por que da mudança. Eu disse, 'O que não está claro? Não queremos matar civis inocentes’. Ele respondeu, ‘É? Qualquer um que esteja lá dentro é terrorista, todo mundo sabe disso’. Eu disse, 'Você acha que as pessoas vão realmente fugir? Ninguém vai fugir’. Ele diz, ‘É claro’, e então seus amigos se juntaram a conversa: ‘Temos de matar todos que estejam lá dentro. Sim, qualquer pessoa que esteja em Gaza é terrorista’, e todas as outras coisas que eles meteram na nossa cabeça através da mídia.

Então eu tentei explicar para o cara que nem todo mundo que está lá é terrorista, e que depois que ele mata, digamos, três filhos e quatro mães, vamos subir e matar outras 20 pessoas. E, no fim, se tivermos um prédio de oito andares com cinco apartamentos em cada andar, você terá assassinado de 40 a 50 famílias. Tentei explicar porque nós temos que deixá-los sair e só depois entrarmos em suas casas. Isso não ajudou muito. É frustrante perceber que eles sabem que dentro de Gaza pode-se fazer o que bem entender, arrombar casas por nenhum outro motivo a não ser o prazer de fazer isso.

Você não quer ter a impressão, a partir dos oficiais, de que não existe qualquer lógica para isso, mas eles não dizem nada. Para escrever ‘morte aos árabes’ nas paredes, para cuspir nas fotos de família, apenas porque você pode fazer isso. Penso que esta é a principal questão para compreender o quanto a FDI decaiu no quesito ética. É disso que eu mais vou lembrar.

Um dos nossos oficiais, um comandante de companhia, viu alguém vindo por uma estrada, uma mulher, uma mulher velha. Ela estava caminhando ao longe, mas perto o suficiente, de modo que você poderia mandar alguém até ela. Se ela era suspeita ou não, não sei. No final, ele mandou alguém até o teto para eliminá-la. A partir da descrição desta história, eu senti que se tratava simplesmente de assassinato a sangue frio".

Zamir: "Eu não entendo. Porque ele atirou nela?"

Aviv: "Isso é que é supostamente legal a respeito de Gaza: você vê uma pessoa em uma estrada, caminhando. Ela não tem que estar com uma arma, você não precisa se identificar, você pode, simplesmente, matá-la. Havia uma senhora perto de nós, com quem não vi arma alguma. A ordem era abater esta pessoa assim que a víssemos."

Zvi: "Os relatos de Aviv são precisos, mas é possível entender de onde eles surgem. E essa mulher, você não sabe se ela era... Não era para ela estar lá, porque houve comunicados e bombardeios. A lógica diz que ela não deveria estar lá. O jeito de descrever isso, como assassinato a sangue frio, não é correto. Sabe-se que eles têm informantes e este tipo de coisa."

Gilad: "Mesmo antes de sairmos, o comandante do batalhão deixou claro para todos uma lição muito importante, tirada da Segunda Guerra do Líbano. Foi a forma como a FDI adentra uma região - com muito poder de fogo. A intenção é a de proteger os soldados por meio deste poder de fogo. Na operação, as nossas perdas foram realmente leves e o preço disso foi um monte de palestinos mortos."

Ram: "Eu servi em uma companhia de operações na Brigada Givati. Depois de termos ido para as primeiras casas, encontramos uma casa com uma família dentro. Parecia relativamente calma. Nós não abrimos fogo, gritamos para que todos descessem. Nós os colocamos em uma sala e, depois, saímos da casa e entramos em outra. Alguns dias depois recebemos ordens de libertar a família. Eles tinham atiradores posicionados no teto. O comandante do pelotão deixou a família sair e disse para irem para a direita. Uma mãe e seus dois filhos não entenderam e foram para a esquerda, mas esqueceram de dizer ao atirador no telhado que os deixassem passar... ele fez o que se esperava dele, seguiu suas ordens."

Pergunta do público: “A que distância se deu isso?”

Ram: "Entre 100 e 200 metros, algo assim. Eles saíram da casa onde o atirador estava, avançaram um pouco e, de repente, ele viu pessoas que se deslocavam em uma área onde estavam proibidos de estar. Eu não acho que ele sentiu-se muito mal com isso, porque, afinal de contas, até onde ele sabia, estava fazendo seu trabalho de acordo com as ordens que recebeu. E a atmosfera em geral, pelo que entendi a partir da conversa que tive com meus homens... não sei como descrever... A vida dos palestinos, vamos dizer assim, é algo muito, muito menos importante do que as vidas dos nossos soldados. Então, é assim que se justificam estas coisas."

Yuval Friedman (instrutor chefe do programa Rabin): "Não havia uma ordem para solicitar permissão para abrir fogo?"

Ram: "Não. Não existe isso além de uma determinada linha. A idéia é que se você está com medo, eles vão escapar de você. Se um terrorista se aproxima e ele está muito perto, ele podia rebentar com a casa ou algo assim ".

Zamir: "Após mortes como estas, por engano, houve alguma investigação na FDI? Eles analisaram como isso poderia ter sido evitado?"

Ram: "Não veio ninguém da unidade de investigação da Polícia Militar. Não houve nenhum... Para todos os incidentes, existem investigações individuais e exames gerais, durante todo o desenrolar da guerra. Mas eles não focam nisso especificamente."

Moisés: "A atitude é muito simples: Não é agradável de dizer isso, mas ninguém se preocupa. Nós não estamos investigando esta questão. Isto é o que acontece durante o combate e durante a rotina da segurança."

Ram: "O que eu lembro, em especial no começo, é a sensação de uma quase missão religiosa. Meu sargento é um estudante de um hesder yeshiva (um programa que combina estudo e serviço militar religiosa). Antes de irmos, ele reuniu o pelotão inteiro e fez uma oração para os que iam para a batalha. Um rabino da brigada estava lá, entrou em Gaza e correu conosco encorajando-nos e rezando. E, também, quando estávamos lá dentro, nos enviaram livretos cheios de Salmos, uma tonelada de Salmos. Penso que, pelo menos na casa onde fiquei por uma semana, poderíamos encher uma sala com salmos, folhetos e coisas assim.

Houve uma enorme lacuna entre o material da academia e o que os rabinos da FDI mandaram. A academia publicou um panfleto para comandantes - algo sobre o histórico do combate de Israel em Gaza desde 1948 até o presente. Os rabinos trouxeram uma lote de livros e artigos, e sua mensagem era muito clara: Nós somos o povo judeu, que veio a esta terra por um milagre, Deus nos trouxe de volta a esta terra e agora temos de lutar para expulsar os infiéis que estão interferindo com a nossa conquista dessa terra santa. Esta foi a mensagem principal, e toda a noção que muitos soldados tiveram nesta operação foi de que ela era uma guerra religiosa. Da minha posição como um comandante, eu tentava falar sobre a política - os fluxos na sociedade palestina, sobre como não é todo mundo que está com o Hamas em Gaza, e que não é cada habitante que quer nos derrotar. Eu queria explicar aos soldados que esta guerra não é uma guerra para a santificação do santo nome, mas sim para por fim aos Qassams."

Zamir: "Gostaria de pedir aos pilotos que estão aqui, Gideon e Yonatan, que nos contem um pouco sobre as suas perspectivas. Como soldado de infantaria, isso me interessara. Como se sentem quando bombardeiam uma cidade como essa?"

Gideon: "Em primeiro lugar, sobre o que você disse a respeito da insana quantidade de poder de gogo: Na primeira incursão durante os combates, o poder de fogo foi impressionante, muito grande, e foi isso que fez com que todos os Hamasniks se escondessem nos abrigos mais profundos e fez com que eles se escondessem até duas semanas após os combates.

Em geral, a forma como funciona para nós, para você entender um pouco as diferenças, é que à noite eu voltava para o esquadrão, faria uma incursão na Faixa de Gaza e iria para casa dormir. Eu iria para casa dormir, em Tel Aviv, na minha cama quente. Não estou preso em uma cama na casa de uma família palestina, o que faz a vida é um pouco melhor.

Quando estou com o esquadrão, não vejo um terrorista lançando um Qassam e depois decido voar atrás dele. Existe todo um sistema que nos dá suporte, que serve como nossos olhos, ouvidos e inteligência, criando mais e mais alvos em tempo real, de um nível de legitimidade ou de outra. Em qualquer caso, eu tento acreditar que estes são objetivos (determinados de acordo com) o mais alto nível possível de legitimidade.

Eles lançaram panfletos sobre Gaza e, às vezes, disparavam um míssil de um helicóptero na esquina de alguma casa, só para agitar um pouco, para que todos dentro da casa fugissem. Essas coisas funcionavam. As famílias saem, e as pessoas de verdade (ou seja, os soldados) podem entrar em casas vazias, pelo menos de civis inocentes. Sob esta perspectiva é que funciona.

De qualquer forma, eu chego ao esquadrão, obtenho um alvo com uma descrição e coordenadas, e, basicamente, certifico-me de que não está dentro da linha das nossas forças. Eu olho para a imagem da casa que tenho que atacar, vejo se ela corresponde a realidade, avanço, aperto o botão e a bomba atinge o alvo.

Zamir: "Entre os pilotos, há também os que falam em remorso? Por exemplo, eu fiquei terrivelmente surpreso com o entusiasmo em torno da morte de guardas de trânsito em Gaza no primeiro dia da operação. Mataram 180 guardas. Como piloto, eu teria questionado isso."

Gideon: "Existem duas questões aí. Taticamente falando, você chamá-los de 'policiais'... Em qualquer caso, eles estão armados e pertencem ao Hamas... Nos bons tempos estas pessoas pegaram o pessoal do Fatah e os jogaram pela janela para ver o que aconteceria.

No que diz respeito ao pensamento, você se senta com o esquadrão e existem muitas discussões sobre o significado da guerra, sobre o que estamos fazendo, há muita coisa para falar. A partir do momento em que você liga o motor do avião até o momento em que você o desliga, todos os seus pensamentos, toda a sua concentração e toda a sua atenção estão na missão que você tem de levar à cabo. Se você tem uma dúvida injustificada, você fica susceptível a estragar tudo e acertar uma escola com 40 crianças. Se o prédio não é o alvo que eu deveria atingir, mas sim uma casa onde estão os nossos soldados, o preço do erro é muito, muito elevado."

Pergunta da platéia: “Alguém no esquadrão não apertou o botão, pensou duas vezes?”

Gideon: "Essa pergunta deve ser dirigida às pessoas envolvidas nas operações com helicópteros. Com as armas que eu usei, a minha capacidade de tomar uma decisão que contradiz o que me foi dito é igual a zero. Eu lanço uma bomba de uma altura na qual posso ver toda a Faixa de Gaza. Vejo também Haifa, vejo o Sinai, mas é mais ou menos o mesmo. É realmente longe."

Yossi: "Eu sou sargento de um pelotão de operações em uma companhia de pára-quedistas da Brigada. Nós estávamos em uma casa e descobrimos uma família em seu interior, que não deveria estar ali. Nós os colocamos no porão, e deixamos dois guardas para assegurar que não causassem problemas. Gradualmente, o distanciamento emocional entre nós se rompeu – nós fumamos cigarros com eles, bebemos café com eles, falamos sobre o significado da vida e os combates em Gaza. Depois de muitas conversas o proprietário da casa, um homem de mais de 70 anos, disse que era bom que nós estivéssemos em Gaza, que era bom que a FDI estivesse fazendo o que estava fazendo.

No dia seguinte enviamos o dono da casa e seu filho, um homem de 40 ou 50, para interrogatório e descobrimos que ambos eram ativistas políticos no Hamas. Isso foi um pouco chato – que eles nos dissessem que era legal estarmos ali e blá-blá-blá, e então você descobre que eles estavam mentindo na sua cara o tempo todo.

O que me aborreceu foi que, no final, depois de descobrir que os membros desta família não eram exatamente nossos bons amigos e saber que eles mereciam ser forçados a sair, o meu comandante de pelotão sugeriu que, quando saíssemos da casa, deveríamos limpar todas as coisas, pegar e recolher todo o lixo em sacos, varrer e lavar o chão, dobrar os cobertores, fazer uma pilha com os colchões e colocá-los de volta nas camas."

Zamir: "O que você quer dizer? Todas as unidades da FDI que deixam uma casa não fazem isso?"

Yossi: "Não, absolutamente. Pelo contrário: na maioria das casas deixamos pichações para trás e coisas deste tipo.”

Zamir: "Isso é simplesmente compotar-se como animais."

Yossi: "Não se espera que você dobre cobertores enquanto estão atirando em você."

Zamir: "Eu não ouvi que estavam atirando em vocês. Não é disso que eu estou reclamando, mas se você já passou uma semana em uma casa, limpe sua sujeira."

Aviv: "Recebemos uma ordem num dia: todo o equipamento, todos os móveis, limpar toda a casa. Nós jogamos tudo, tudo pelas janelas para fazer espaço. Todo o conteúdo das casas voa pelas janelas."

Yossi: "Houve um dia, quando um Katyusha, um Grad, caiu em Be'er Sheva e uma mãe e seu bebê foram feridos. Eram vizinhos de um dos meus soldados. Ouvimos toda a história no rádio, e ele não gostou nada. Então, o cara era um pouco vingativo e você pode entendê-lo. Como dizer a uma pessoa como essa que ‘vá lá, vamos lavar o chão da casa de um ativista político no Hamas, que acabou de lançar um Katyusha contra seus vizinhos, fazendo com que um deles tivesse a uma perna amputada?’ Não é uma coisa fácil de fazer, especialmente se você não concordar com ele em tudo. Quando o meu comandante de pelotão disse ‘ok, diga a todos que empilhem colchões e cobertores, não foi fácil para mim fazê-lo’. Houve muita gritaria. No fim das contas, eu estava convencido e percebi que realmente era a coisa certa a fazer. Hoje, eu aprecio e até mesmo admiro ele, o comandante do pelotão, pelo o que aconteceu lá. No fim das contas não me parece que nenhum exército, o exército sírio, o exército afegão, iria lavar o chão da casa do inimigo, e ele certamente não dobraria cobertores para colocá-los de volta nos armários."

Zamir: "Penso que seria importante que os pais se sentassem aqui e ouvissem este debate. Penso que seria um instrutivo debate, e também muito desanimador e deprimente. Você está descrevendo um exército com normas éticas muito baixas, esta é a verdade... Eu não estou julgando você e não estou reclamando para você. Estou apenas refletindo sobre o que estou sentindo depois de ouvir suas histórias. Eu não estava em Gaza, e assumo que entre os soldados da reserva o nível de restrição e controle é superior, mas acho que no seu conjunto, vocês estão refletindo e descrevendo o tipo de situação no qual estávamos envolvidos.

Após a Guerra dos Seis Dias, quando as pessoas voltavam do combate, elas sentavam em rodas e descreviam o que haviam sofrido. Durante muitos anos as pessoas que fizeram isso diziam ter ‘atirado chorando’. Em 1983, quando voltamos da guerra no Líbano, as mesmas coisas foram ditas sobre nós. Temos de pensar sobre os eventos que temos vivenciado. Temos de lidar com eles também, em termos da criação de uma norma ou de normas diferentes.

É muito possível que o Hamas e o exército sírio se comportem de maneira diferente de nós. O ponto é que não somos o Hamas e não somos o exército sírio ou o exército egípcio, e se clérigos estão nos incomodando com unção e colocando livros sagrados em nossas mãos, e se os soldados nessas unidades não são representantes de todo o espectro do povo judeu, mas sim de certos segmentos da população - o que estamos esperando? Para quem vamos nos queixar?

Como reservistas nós não levamos tão a sério as ordens das brigadas regionais. Nós deixamos que velhos e famílias passem. Porque matar pessoas quando está claro para você que são civis? Qual o aspecto da segurança de Israel que será prejudicado, quem será prejudicado? Exercitem o julgamento, sejam humanos."

Relatório aponta ameaças ao jornalismo no Brasil

Confira o relatório para o Brasil oficializado na reunião da Sociedade Interamericana de Imprensa, realizada entre os dias 13 e 16, em Assunção (Paraguai). Em pauta, as ameaças à liberdade de imprensa no país.

State of News Media 2009

Iniciado há aproximadamente 12 anos, pela Columbia University Graduate School of Journalism, e abrangendo todos os formatos midiáticos, o tão esperado State of News Media 2009 foi disponibilizado. O relatório do Project for Excellence in Journalism faz um balanço do estado dos diversos media. Alguns dos estudos podem ser vistos aqui: 2008, 2007, 2006, 2005, 2004. Dica pinçada no Gjol.

Fotojornalismo

Um grupo de pigmeus da tribo Baka, de Camarões, faz uma performance para o Papa Bento XVI em sua despedida de Angola.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Crianças palestinas cantam para sobreviventes do Holocausto


Publicado originalmente hoje no jornal israelense Haaretz (Tradução: Victor Barone)

Os jovens palestinos de um campo de refugiados da Cisjordânia empertigam-se diante da platéia formada por sobreviventes do Holocausto, parecendo desafiadores, como quaisquer adolescentes. Então, começam a cantar.

O coro afina canções de paz, trazendo sorrisos surpresos ao público. O evento tem outra surpresa, no entanto: a maioria dos sobreviventes do Holocausto presentes não sabem que os jovens a que assistem são palestinos da Cisjordânia, uma visão rara em Israel nestes dias. Os jovens, por sua vez, não têm idéia de que se apresentam para pessoas que passaram pelo genocídio nazista – ou mesmo do que se trata o Holocausto.

“Sinto simpatia por eles”, diz Ali Zeid, um tecladista de 18 anos, que diz estar chocado pelo que ouviu sobre o Holocausto. “Somente pessoas que passam por sofrimento entendem o sofrimento de outras pessoas”, diz Zeid, cujos avós eram refugiados palestinos forçados a abandonar a cidade de Haifa durante a guerra que 1948.

Os 13 músicos, com idade entre 11 e 18 anos, fazem parte do grupo Strings of Freedom, uma modesta orquestra formada por jovens do campo de refugiados de Jenin, no noroeste da Cisjordânia, cenário de sangrentos confrontos em 2002.

O evento foi organizado pelo Holocaust Survivors Center, como parte do Good Deeds Day, e ressaltou a distância entre palestinos e israelenses.

Muitos dos jovens palestinos nunca haviam visto um civil israelense – apenas soldados armados, em uniformes militares, guarnecendo os pontos de checagem, conduzindo grupos de busca a palestinos procurados ou durante operações do exército israelense.

"Eles não se parecem conosco", disse Ahed Salameh, 12, que vestia um cachecol preto com fios prateados.

Muitos dos idosos israelenses vestiam calças e camisetas, as mulheres, usando batom, vestiam roupas esporte.

"Pessoas velhas são diferentes de onde nós viemos", diz Salameh.

Ela se disse chocada ao ouvir sobre o genocídio nazista contra os judeus. Ignorância, ou mesmo negação sobre o Holocausto é comum na sociedade palestina.

Amnon Beeri, do Abraham Fund, que apóia a coexistência entre judeus e árabes, disse que a maioria dos residentes da região não sabe nada uns dos outros.

O maestro Wafa Younis, 50, tentou explicar aos jovens quem eram aqueles idosos, mas o caos no ônibus impediu que o escutassem.

O público disse pensar que as crianças árabes fossem procedentes de uma vila vizinha – não de um campo de refugiados onde 23 soldados israelenses foram mortos ao lado de 53 militantes e civis palestinos, durante os dias do confronto de abril de 2002.

Cerca de 30 idosos reuniram-se no salão no qual os meninos e meninas chegaram 30 minutos depois, atrasados por uma parada em um posto de checagem do exército de Israel fora da cidade, conforme eles mesmos explicaram.

Algumas das jovens vestiam véus muçulmanos – mas também óculos de sol e roupas escolares.

Quando o apresentador anunciou em hebreu que os jovens eram provenientes do campo de refugiados de Jenin, houve murmúrios e engasgos na platéia. "Jenin?", uma mulher perguntou de boca aberta devido a surpresa.

Younis, da vila árabe de Ara, em Israel, explicou em hebreu fluente que os jovens iriam cantar pela paz e de pronto o público explodiu em aplausos.

"Inshallah," disse Sarah Glickman, 68, usando o termo árabe para boa vontade.

O encontro teve início com uma canção árabe, "Nós cantamos pela paz”, seguida por duas peças de violinos e tambores árabes, bem como uma música improvisada em Hebraico por duas pessoas na platéia.

Glickman, cuja família mudou-se para o recém criado estado judeu em 1949, após fugir para a Sibéria para escapar dos nazistas, disse não ter ilusões de que o encontro pudesse fazer as crianças entenderem o Holocausto, mas disse que o fato poderia fazer uma pequena diferença.

"Eles pensam que somos estrangeiros porque viemos de longe", disse Glickman. "Eu concordo: é a terá deles também. Mas não havia outra opção para nós após o Holocausto.”

Mais tarde ela batia o pé no ritmo enquanto os adolescentes faziam soar um cativante tambor árabe. Após o evento, alguns dos israelenses idosos conversaram com os estudantes e registraram o momento em fotografias.

O encontro não foi totalmente isento de política. Younis dedicou uma canção a um soldado israelense prisioneiro de militantes palestinos na Faixa de Gaza – e também criticou a ocupação israelense na Cisjordânia.

Mas, disse que o principal objetivo a orquestra, formada há sete anos para ajudar crianças palestinas a se recuperarem dos traumas da guerra, é a de reunir as pessoas.

“Estou aqui para levantar espíritos", disse Younis. “Estes são pobres idosos".

Diretrizes do Jornalismo

A reformulação das diretrizes curriculares dos cursos de Jornalismo teve seu primeiro debate na última sexta sexta-feira (20), no Palácio Capanema, sede da representação do MEC no Rio de Janeiro. A seguir, algumas leituras dos debates.

- Duas surpresas na audiência do MEC / Sylvia Moretzsohn
- A primeira audiência e uma sugestão para as demais / Rogério Christofoletti
- Comissão faz primeira audiência / Rúbia Baptista
- Audiência destaca a importância da qualidade do ensino / Sindicato do Rio
- Defesa da qualidade é enfatizada em audiência / Fenaj

Mais do excomungador

Eu já havia tratado do tema, no dia 16, com o artigo “A solidão do excomungador”. No dia 20, Leonardo Cruz reforçou a corrente com o belíssimo artigo “Como assim, senhor Bispo?”. Em pauta: o caso da menina pernambucana engravidada pelo padrasto, com ênfase na assombrosa entrevista que o Bispo Dom José Cardoso Sobrinho concedeu à Veja, na edição de 18 de março. Vale a leitura.

Agressões a árabes-israelenses aumentam exponencialmente

O aumento de ataques verbais e de agressões físicas à comunidade árabe-israelense no interior Israel tem se agravado, segundo o Mossawa Centre The Advocacy Center for Arab Citizens in Israel.

A entidade documentou 250 incidentes de agressão contra cidadãos israelenses de origem árabe desde o início do ano. Um aumento de quase 500% se comparados aos 168 incidentes do gênero registrados em todo o ano de 2008. "A agressão física e verbal tem aumentado principalmente em cidades com populações mistas de árabes e judeus", constata o relatório.

Israel tem 1,2 milhões de cidadãos israelenses de origem árabe, (20% da população), que descendem dos 160.000 árabes que não fugiram ou não foram expulsos durante a guerra de 1948, a que se seguiu à criação do Estado de Israel.

Quer um emprego? Crie um blog

Criar e manter um blog pode ajudar você a conseguir um emprego. É o que afirma um texto da Forbes, Blogging Your Way Into A Job. Vale a leitura. Dica pinçada no Gjol.

Fotojornalismo

Soldados do exército dos Estados Unidos caminham nas proximidades de duas grandes estátuas de bronze do ex-presidente iraquiano Saddam Hussein, em Baghdad.

terça-feira, 24 de março de 2009

Ativista americano ferido por israelenses luta pela vida


O ativista estadunidente pelos direitos humanos Tristan Anderson, 38, permanece em condições críticas após três operações no cérebro, realizadas no hospital Tel Hashomer, em Israel. Ele foi atingido na cabeça por um projétil de gás de alta velocidade, disparado por forças de segurança israelenses, durante uma demonstração de árabes e judeus no dia 13, contra a construção do Muro de Israel na região da vila Ni'lin, na Cisjordânia.

Testemunhas disseram que o projétil – que tem um alcance de 400 metros – foi disparado diretamente contra Anderson de uma distância de 60 metros, enquanto ele conversava com outros três ativistas no centro da vila. Anderson sofreu múltiplas fraturas cranianas, ferimento severo no lóbulo frontal e no cérebro além de ter um globo ocular destruído. Seus pais apelaram ontem por uma investigação aprofundada sobre o caso.

STF marca para 1º de abril o julgamento sobre a Lei de Imprensa

O Supremo Tribunal Federal julga na próxima quarta-feira, dia 1º de abril, a revogação da Lei de Imprensa e, em conseqüência, a obrigatoriedade do diploma para o exercício do Jornalismo no Brasil. Em fevereiro de 2008, os ministros da Suprema Corte concederam liminar (decisão provisória) que suspendeu a aplicação de boa parte da lei.

Leia mais sobre o tema:
- Priscila, Greenpeace e o canudo
- Os defensores do diploma e seus debates imaginários
- Debate sobre o diploma de jornalismo... que debate?
- Jornalismo e assessoria de imprensa: ética e realidade
- Manifestações contra a exigência de diploma de jornalismo

A visão distorcida de Nonie Darwish sobre islamismo e palestinos

Autora do recém lançado livro “Cruel and Usual Punishment”, Nonie Darwish publicou na semana passada, no The Wall Street Journal, o artigo “An Arab-Made Misery”. Festejado por alguns, o artigo lança sobre os árabes a responsabilidade exclusiva pelas injustiças e atrocidades aos quais os palestinos têm sido vítimas nos últimos 60 anos. O cerne do artigo de Darwish – que é fundadora da organização “Arabs for Israel” e autora do livro “Now they call me infidel” - pode ser resumido no seu último parágrafo: “É hora de os 22 países árabes abrirem suas fronteiras e absorverem os palestinos de Gaza que desejarem começar uma nova vida. É tempo de o mundo árabe realmente ajudar os palestinos, não usá-los”.

Nonie Darwish nasceu no Cairo (Egito) e, em 1950, estabeleceu-se com a famíla em Gaza (então ocupada pelo Egito). Seu pai o general Mustafa Hafez, comandou a inteligência do exército egípcio e fundou o grupo fedayeen, que combateu os israelenses na década de 50. Em julho de 1956, quando Nonie tinha oito anos de idade, seu pai foi assassinado por forças especiais do exército israelense. Em 1978, ela mudou-se com o marido para os Estados Unidos, onde converteu-se ao cristianismo por meio da fé evangélica.

Segundo Darwish, o drama palestino em Gaza decorre de “60 anos de uma política árabe no sentido de fortalecer o status de refugiados apátridas aos palestinos para usar seu sofrimento como arma contra Israel”. Ela cita o que classificou como uma “política de refugiados políticos” na qual países árabes estabeleceram leis “tornando impossível a integração dos refugiados palestinos da guerra de 1948 contra Israel”; “proibindo que os filhos dos palestinos nascidos em países árabes e que neles viveram a vida inteira obtenham a nacionalidade” deste país e estendendo esta proibição aos “cônjuges palestinos de cidadãos de outros países árabes”.

Eles precisam permanecer ‘Palestinos’, mesmo que nunca tenham posto os pés na Cisjordânia ou em Gaza... Essa política, que força a identidade, condena os palestinos à miséria, eternizando os campos”, diz a escritora.

Resumindo a ópera: os palestinos são massa de manobra dos países árabes e de organizações fundamentalistas islâmicas em sua guerra secreta contra o Estado de Israel. A saída? Os palestinos devem ser “absorvidos” pelos países árabes para que Israel possa “absorver” a Faixa de Gaza.

A linha argumentativa de Darwish é recheada de todos os clichês que Israel e o Ocidente têm usado para desqualificar o que é simples e claro: que o povo palestino vem sendo privado de suas terras por Israel desde a fundação deste Estado e que Israel precisa cumprir as resoluções 181 e 242 da ONU.

Um destes argumentos mais que batidos é que a ocupação israelense exercida por meio de assentamentos ilegais, barreiras físicas e econômicas, controle sobre o direito de ir e vir além da presença militar são conseqüências exclusivas do “terrorismo”. Outro argumento que está sempre no bolso do paletó dos pró-sionistas é que a retirada militar dos israelenses da Faixa de Gaza, em 2005, teria sido uma chance desperdiçada pelos palestinos de construir sua soberania.

Ambas as leituras são superficiais e, em grande parte, falseadas.

A política de ocupação israelense, de estabelecimento de assentamentos ilegais, de controle do direito de ir e vir e de todos os âmbitos da vida civil dos palestinos não é causada pelo “terrorismo”. O “terrorismo”, isso sim, é usado como desculpa pelos israelenses para dar continuidade a apropriação indevida de terras palestinas e inviabilizar a construção de um Estado Palestino soberano. A retirada israelense de 2005 não levantou as barreiras de terra, ar e mar impostas sobre Gaza. Israel continuou exercendo seu poder através da corrupção que se espalhou pela estrutura falida da Autoridade Palestina, estimulando a divisão político-ideológica entre o Hamas e o Fatah, encurralando um vencido Yasser Arafat e regozijando-se da ausência de lideranças palestinas que pudessem, de fato, estabelecer um governo independente e factível.

Não, os países árabes não são sacrossantos e nem exemplos a serem seguidos. A maioria é composta por ditaduras personalistas ou monarquias ferozes. Sim, muitos deles usam os palestinos como arma contra Israel. No entanto, estes fatos nem de longe são as únicas ou primordiais causas do drama palestino.

Devemos perguntar, também, se a solução para a questão é que os palestinos abram mão de suas terras. Migrar para o Egito, para a Jordânia? Porque fariam isso? Os palestinos foram privados de sua nação na década de 40, estigmatizados, acuados, agredidos e, ao responderem a isso, taxados de “terroristas”. Para completar devem desistir de suas terras? O que virá a seguir? Expulsar os palestinos da Cisjordânia para que os israelenses possam “viver em paz”?

Seja na construção de um Estado Palestino vizinho a Israel ou no estabelecimento de um estado único que englobe árabes e israelenses sob a bandeira de Israel, o fato é que nenhuma solução pode vingar sem que os palestinos sejam vistos como povo e, como tal, respeitados.

Intolerância

Não é a primeira vez que Darwish desfia sua visão deturpada da realidade política na região. No artigo “The Gaza Conflict Rooted in Sharia” ela chega a dizer que em 2005 os palestinos haviam perdido a oportunidade de transformar Gaza em “outra Hong Kong; um brilhante centro comercial” ao optarem “pela Jihad islâmica”.

Jihad, radicais islâmicos, terroristas... Como é fácil reduzir tudo a isso.

Um dos principais pilares dos argumentos de Nonie Darwish em seus libelos pró-israelenses é a crítica ao islamismo. Ela acredita que se trata de uma religião retrógrada e autoritária que tenta impor ao mundo normas culturais milenares. Segundo ela, o Islã é “uma força sinistra que deve ser confrontada e contida”, e, ainda, que é difícil “entender como uma religião inteira e sua cultua acredita que Deus ordena o assassinato de infiéis”.

Leitura mais preconceituosa seria difícil de ser expressa. Quando o primeiro homem-bomba explodiu seu corpo no Líbano, durante a invasão israelense àquele país, na década de 80, deu-se início a uma descaracterização do islamismo que, vinte anos depois, seria radicalizada com os atentados de 11 de setembro. No entanto, a interpretação radical do islamismo não pode ser imputada a esta religião de forma generalista. De acordo com a esmagadora maioria dos especialistas, religiosos e fiéis, a verdadeira face do Islã é a de uma fé que estimula o entendimento e desencoraja o conflito (leia a interessante reportagem de Veja sobre o tema).

A própria origem do termo Islã - ou ‘rendição’, em árabe - está ligada à palavra salam, que significa ‘paz’. O fundador do islamismo, o profeta Maomé, dedicou sua vida à tentativa de promover a paz em sua terra, a Arábia. Antes do Islã, as tribos árabes estavam presas num círculo vicioso de ataques, revides e vinganças. O próprio Maomé e seus primeiros seguidores escaparam de dezenas de tentativas de assassinato e de uma grande ofensiva para exterminá-los em Meca. O profeta teve de lutar, mas em nome da própria sobrevivência - quando acreditou estar a salvo, passou a dedicar-se exclusivamente à reconciliação das tribos, através de uma grande campanha ideológica de não-violência. Quando morreu, no ano de 632, a meta havia sido cumprida - e justamente em função de seus ensinamentos sobre paz e tolerância.”, afirma a reportagem citada acima.

Condenar o islamismo e seus seguidores pelos atos de radicais que fazem uma leitura equivocada de seus preceitos é o mesmo que condenar toda a igreja católica e os cristãos pelas barbaridades cometidas pelos cruzados, pela inquisição, pelas milícias maronitas cristãs do Líbano etc, etc.

Pelas redações estadunidenses

A Columbia Journalism Review está levando você para conhecer algumas redações dos noticiosos dos Estados Unidos. São 32 imagens sob diversas perspectivas: redações, estúdios, reuniões, entre outras. A imagem do post é do The New York Post. O autor é Sean Hemmerle. Dica pinçada do Gjol.

No dia em que a poesia vier ao mundo

No dia em que a poesia vier ao mundo

Na biblioteca, sobre a bancada
Páginas serão derramadas
Brancas de espanto

Talvez, num canto
Algum ponto de interrogação:
Para onde (es)correram
As palavras então?

No dia em que a poesia vier ao mundo

Vai ter poema sendo encontrado
Violentado no mato, dentro do rio
Brotando suado nos muros

Esquecido na seção de frios
Vai ter poema em hortifruti
Maduro entre as tangerinas

E ao invés da caixa registradora
Bater cifras assustadoras
A nota fiscal vai imprimir rimas.

No terreiro, o caboclo
Não vai baixar Orixá
Mas versos roucos,
Sonetos oxalá.

No dia em que a poesia vier ao mundo

Pacientes obturados
Obedecerão boquiabertos
Dentistas inspirados.

Suportarão suas dores
Para não interromper, de certo,
Os arroubos dos doutores.

Mulheres em parto
Iluminarão todo quarto
Pelo cordão umbilical:

Do ventre escuro
Surgirá o poema prematuro
Com fome gramatical

No dia em que a poesia vier ao mundo

Da repartição
Ao chefe de nação
Antologia poética:

Todo cidadão
Em qualquer profissão
Só vai dizer com métrica.

No dia em que a poesia vier ao mundo
Vai cair de boca, na boca do mundo
Vai cair da boca de todo mundo
No dia em que a poesia vier ao mundo.

Belíssimo poema de Tiago Cavalcanti, postado no Poema Dia

Fotojornalismo

Uma pilha de 2,426 armas ilegais é incinerada em Uhuru Gardens, em Nairobi. Foto da Reuters.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ativista palestino pelos direitos humanos é proibido por Israel de receber prêmio na Holanda

Adri Nieuwhof e Jeff Handmaker, traduzido por Victor Barone. Publicado originalmente no The Electronic Intifada

Mesmo diante da atenção da mídia internacional e de considerável pressão diplomática da Holanda, Israel não permitiu que o diretor geral da organização não governamental palestina Al-Haq, Shawan Jabarin, viajasse para a Holanda onde receberia o conceituado prêmio Geuzenpenning – concedido aos defensores dos direitos humanos – no dia 13 de março. A proibição da viagem de Jabarin e de outros ativistas pelos direitos humanos, sem motivo declarado, é flagrante violação dos princípios de julgamento justo e do direito humano básico de ir e vir, assemelhando-se, ainda, ao comportamento do regime do apartheid sul-africano.

A Al-Haq é uma organização não governamental palestina dedicada aos direitos humanos, baseada na cidade de Ramallah, no território palestino ocupado pelos israelenses na Cisjordânia. O prêmio Geuzenpenning honra o histórico grupo de resistência Geuzen, que lutou contra a ocupação nazista na Holanda durante a Segunda Guerra Mundial. O prêmio mantém acesa a chama de um ideal de resistência à opressão e promoção da democracia, assim como significa um forte alerta – na Holanda e em todo o mundo - contra todas as formas de ditadura, discriminação e racismo.

O governo de Israel proíbe que Shawan Jabarin deixe a Cisjordânia desde que ele foi apontado diretor da Al-Haq, em 2006. Antes disso, o ativista visitou diversos países, inclusive a Irlanda, onde concluiu um mestrado em direitos humanos, em 2005.

O ministro das Relações Exteriores da Holanda, Maxime Verhagen, fez pressão sobre a ministra Tzipi Livni, que em Israel ocupa o mesmo cargo, sem, no entanto, obter sucesso em seu intento. Em uma audiência perante o Supremo Tribunal israelense que violou vários princípios universais de um julgamento justo, uma audiência a qual Jabarin também não pôde comparecer devido ao seu confinamento na Cisjordânia, um grupo de três juízes mostrou mais uma vez sua impotência face à absurdas “medidas de segurança”. Após retirar todos do tribunal, exceto o advogado do Governo de Israel e um representante do Serviço de Segurança Geral de Israel (GSS), que apresentou evidências que nunca foram mostradas a Jabarin ou aos seus advogados, os juízes decidiram manter a proibição. O escrivão presente descreveu o seguinte:

O fato que não pode ser ignorado é que a Cisjordânia é uma zona militar fechada, da qual entrada e saída exigem permissão. A liberdade de ir e vir é examinada sob a ótica de uma legislação (N.R.: israelense) especial para a área... O material apontando o envolvimento de Jabarin com atividades de entidades terroristas é concreto e inegável. A não permissão para deixar o país não é uma punição por suas atividades proibidas, mas se dá devido a relevantes considerações sobre segurança.

Falando em uma coletiva de imprensa, o ministro Verhagen disse: “É frustrante e inquietante que se tenha negado (N.R.: a Jabarin) a oportunidade de receber a Medalha Geuzen”. Verhagen expressou publicamente sua crítica ao fato da corte israelense ter estabelecido que Jabarin é ou foi membro de uma organização terrorista com base em evidências as quais nem Jabarin ou seus advogados tiveram acesso.

Apesar de ter sido impedido de receber o prêmio Geuzenpenning pessoalmente, o ativista participou da cerimônia através de um link de vídeo direto de Ramallah. Em resposta a decisão da suprema corte israelense de manter a proibição imposta pelo GSS, a ONG Al-Haq distribuiu um informe em 11 de março: “Mais uma vez o judiciário israelense demonstrou sua subserviência às autoridades militares e de segurança”, dizia a nota.

O tratamento dispensado por Israel a ativistas dos direitos humanos como Jabarin, remete ao bispo Desmond Tutu protestando contra “a falange de leis draconianas como a legislação de segurança” que violava os direitos daqueles que se opunham ao apartheid na África do Sul. Durante este regime, pessoas consideradas pelo ministro da Lei e da Ordem como ameaças a segurança do Estado eram detidas indefinidamente em confinamento solitário, sem contato com suas famílias ou advogados. Além disso, pessoas eram colocadas arbitrariamente sob a proibição de deixar o país, devido à “evidências” nunca julgadas em uma corte aberta.

Estas proibições do apartheid sul-africano remetem preocupantemente ao comportamento da GSS e da suprema corte israelense. Na África do Sul, estas medidas eram tomadas para silenciar pessoas que resistiam ao apartheid. Indivíduos não podiam ser ouvidos durante estas proibições. Não podiam participar de “reuniões”, o que significava qualquer encontro com mais de uma pessoa, e não podiam viajar para fora da área jurisdicional à qual estavam confinados. Tutu protestou veementemente dizendo que estas “punições eram impostas sem as evidências que as justificavam terem sido apresentadas a quem sofria as punições, ou ao escrutínio de uma corte”.

Como Jabarin e muitos outros defensores palestinos dos direitos humanos, os líderes sul-africanos anti-apartheid e ativistas dos direitos humanos também foram proibidos de deixar o país pelos longos anos das décadas de 70 e 80, por falarem contra o governo. Entre eles Chief Albert Luthuli, Albertina Sisulu, Nelson Mandela, Steve Biko e o reverendo Beyers Naude.

Argumentos à parte, já que um suposto envolvimento com um grupo particular justificou medidas tão draconianas, é importante ter em mente o fato de que o Congresso Nacional Africano, movimento de libertação que lutou contra o apartheid na África do Sul, foi durante muitas décadas considerado pelo Ocidente como uma organização "terrorista". Ao mesmo tempo, o Ocidente, na maior parte das vezes, tolerou as políticas do apartheid sul-africano. No entanto, nem esta atitude unilateral do Ocidente, nem a feroz opressão exercida pelo regime racista da África do Sul, puderam colocar um fim na resistência ao apartheid.

Adri Nieuwhof é consultor e advogado especializado em direitos humanos na Suiça. Jeff Handmaker é advogado especializado em direitos humanos, pesquisador e professor de direitos humanos do Instituto de Estudos Sociais de em The Hague, na Holanda.

Chernobil, 23 anos depois

Impressionante essa coleção de fotos de Prypiat, a cidade na Ucrânia onde moravam os trabalhadores do reator nuclear de Chernobil. Já se passaram 23 anos e ela continua como território proibido, que gradualmente se transforma em ruínas. Dica pinçada do blog O sempre nunca.

O SUS como patrimônio da humanidade

O Conselho Nacional de Saúde (CNS) abriu dois livros de assinaturas de apoio à Regulamentação da Emenda Constitucional nº 29 e à proposta do Sistema Único de Saúde (SUS) como Patrimônio da Humanidade. As assinaturas da EC 29 serão encaminhadas ao Congresso Nacional, onde tramita o processo de regulamentação. E a manifestação popular de apoio ao SUS como Patrimônio da Humanidade será enviada a Unesco, responsável pela concessão do título de Patrimônio.

Livro de Assinatura - Sou a favor da Regulamentação - EC 29

Livro de Assinatura - Sou a favor: SUS Patrimônio da Humanidade

Para quem tem horror a simples menção da sigla, peço um momento de reflexão. O SUS, apesar de todos os problemas, é uma belíssima estratégia de saúde, baseada em princípios nobres e funcionais, melhor, por exemplo, do que o sistema de saúde estadunidense onde 40 milhões de pessoas simplesmente não têm acesso algum a saúde e outras tantas torcem para não ter que usar os planos de saúde capengas, repletos de armadilhas que endividam seus usuários até a alma. Há um longo caminho a ser traçado para que o SUS atinja um nível de excelência, grande parte deste caminho deve ser percorrido pelos próprios usuários. Por isso aconselho: antes de criticar o SUS, procure saber o que ele propõe, ajude a construí-lo.

Lavanderia

se o gelo é de água idosa, o uísque tão amadeirado se prosa
se na máquina de lavar o branco vai com o colorido, de palhaça me visto
se o tempo é de um sim e tantos nãos, o peito like a rolling stone

Poema de Rebecca Loise, em seu blog.

Fotojornalismo


O fotógrafo Julian Abram Wainwright ficou com a terceira colocação da categoria Sports Action Stories do 2008 World Press Photo of the Year contest, com esta foto do atleta brasileiro Hugo Parisi competindo na plataforma de 10 metros nas preeliminarres dos Jogos Olímpicos de Beijing 2008.

sábado, 21 de março de 2009

Carta aberta aos jornalistas do Brasil, de Leandro Fortes

Carta aberta escrita pelo jornalista Leandro Fortes, da Carta Capital.

No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado “Comitê de Imprensa”, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do “Comitê de Imprensa”, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.
Nesta carta, contudo, falo somente por mim.
Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalista, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico – de áudio nunca revelado – envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.
Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.
Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.
Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?
Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.
Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.
Leandro Fortes
Jornalista

Carta ao Rei da Jordânia

No dia 27 de Janeiro de 2009, foi publicado no New York Times, um artigo assinado por Thomas L. Friedman (Prémio Pulitzer 2002 e colunista do NYT) intitulado “Abdullah II: The 5-State Solution”, onde o autor realizava uma avaliação/previsão estratégica a partir da simulação de uma carta de Abdullah II, Rei da Jordânia, dirigida ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, propondo-lhe uma solução para o conflito entre israelenses e palestinos baseada em 5 pontos e 5 anos.

Israel se retiraria dos territórios ocupados, com a possibilidade de ajustes territoriais, dentro do princípio terra por terra; a Palestina, sob uma Autoridade Nacional Palestina renovada na reconciliação e unidade, aceitaria um programa de assistência na manutenção da segurança, a ser operacionalizado através de um número limitado de forças militares e policiais do Egito, em Gaza, e da Jordânia, na Cisjordânia, que garantiriam a segurança e o controlo das fronteiras; o Egito garantiria o contingente de forças militares e policiais necessárias ao cumprimento da sua missão de interposição e segurança na Faixa de Gaza; a Jordânia, de igual modo, o faria para a Cisjordânia; a Arábia Saudita pagaria a fatura e os EUA seriam o único árbitro.

O plano teria por base as Resoluções das Nações Unidas, 242, de 22 de Novembro de 1967, e 338, de 22 de Outubro de 1973, e a aprovação do Conselho de Segurança.

Eis o cenário arquitetado por Friedman, num texto interessante e que merece ser lido.

Poesia

enquanto saio correndo pelo entorno da baía
a vergar o corpo de cal, suor e chuva
porque também chove e porque também os olhos
são graves de tarefas, plenos de ataques a crediários,
encostas, ementas, trens e teorias.

Fragmento de poema de Tatiana Pequeno, no Poema Dia

Fotojornalismo

Franck Robinchon ficou em terceiro lugar na categoria Sports Action Singles do 2008 World Press Photo of the Year contest com esta foto do atleta cubano Alexis Copello competindo durante a qualificação do salto triplo nas Olimpíadas de Beijing 2008.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Bebês palestinos mortos e mesquitas bombardeadas: Coleção 2009 do exército israelense

Chocante a reportagem “Dead Palestinian babies and bombed mosques - IDF fashion 2009”, do jornalista Uri Blau, publicada hoje no site do jornal israelense Haaretz. A camiseta que você vê acima, que mostra uma palestina grávida com uma mira telescópica sobre o ventre e os dizeres, “um tiro, duas mortes”, é um dos designs escolhidos pelos atiradores de elite israelenses para marcar o término de seu período de treino ou uma “temporada de caça” em Gaza.

Jornal israelense denuncia assassinatos de civis palestinos na Faixa de Gaza

O Jornal israelense Haaretz publicou em sua edição de quarta-feira reportagem do jornalista Amos Harel com relatos de soldados do exército de Israel que participaram dos 22 dias de ofensiva na Faixa de Gaza – ocorrida sob o pretexto de atacar o movimento islâmico Hamas. Os soldados admitiram ter matado civis que não representavam ameaça às tropas e de terem destruído intencionalmente suas propriedades, "simplesmente porque podiam". Realizada entre os dias 27 de dezembro e 18 de janeiro deste ano, a ofensiva deixou ao menos 1.300 palestinos mortos, dos quais ao menos 900 civis.

Os militares, entre eles pilotos de combate e soldados de infantaria, fizeram as revelações em relatórios do curso preparatório militar Yitzhak Rabin, na cidade de Tivon. O que eles dizem é chocante.

Havia uma casa com uma família dentro... Nós os colocamos em um quarto. Mais tarde, nós saímos da casa e outro pelotão entrou. Poucos dias depois recebemos uma ordem para deixar a família sair. Eles (N.R.: os soldados) se posicionaram no piso superior. Havia um atirador em posição no telhado. Disseram para que fossem (N.R.: a mãe e os filhos) pela direita. Uma mãe e os dois filhos não entenderam (N.R.: a ordem do comandante) e foram à esquerda, mas esqueceram de dizer ao atirador de elite no telhado que deixasse eles irem, que tudo estava normal e que não devia atirar. O atirador viu a mulher e os dois filhos se aproximando dele além das linhas que ninguém devia atravessar. Ele atirou neles. De toda forma o que houve foi que, no fim, ele os matou. Não acho que ele (N.R: o atirador) tenha se sentido mal com o caso, pois, até onde ele sabia, estava seguindo ordens. E a atmosfera de modo geral, do jeito que eu entendo e a partir do que conversei com muitos dos meus homens... não sei como descrever isso... Digamos que a vida dos palestinos seja muito menos importante que a vida dos nossos soldados”, disse o líder de um pelotão de infantaria sobre um incidente no qual um atirador de elite disparou contra uma mulher palestina e seus dois filhos.

Outro líder de pelotão da mesma brigada falou sobre um incidente no qual o comandante de sua companhia ordenou que uma senhora palestina fosse baleada e morta; ela estava caminhando por uma estrada a cerca de 100 metros da casa onde estava o comando da companhia.

O mesmo líder de pelotão disse ter argumentado com seu comandante sobre as regras de combate que permitiam aos soldados “limpar” as casas palestinas, disparando em seu interior sem avisar aos moradores. Depois que esta prática foi modificada, os soldados reclamaram dizendo que "deveriam matar todo mundo em Gaza, pois todo mundo é terrorista". O mesmo líder de pelotão continua: "Você não tem a impressão dos comandantes de que há qualquer lógica nisso, mas eles não dizem nada. Nós escrevíamos ‘morte aos árabes’ nas paredes, pegávamos as fotos de família e cuspíamos nelas, apenas porque podíamos. Eu acho que isso é o principal aspecto: entender o quanto as Forças Armadas israelenses caíram no âmbito de ética. Isso é o que eu mais me lembrarei".

Estes são os dois relatos publicados na quarta-feira pelo Haaretz. O jornal diz que publicará outros testemunhos nos próximos dias.

Reação

O chefe do serviço jurídico do Exército israelense, general Avichai Mendelblit, ordenou a abertura de uma investigação sobre as circunstâncias dos fatos relatados pelos soldados, que considera "errôneos" e "inaceitáveis" para as Forças Armadas de Israel.

O diretor do curso militar, Danny Zamir, disse que não sabia o que os soldados haviam escrito nos relatórios entregues à academia e que as declarações o deixaram chocado. Depois de ouvir os soldados, ele afirmou ter alertado o chefe das Forças de Defesa, Gabi Ashkenazi, sobre seu temor por uma “séria falha moral” entre os militares. Segundo Zamir, o escritório da chefia das Forças de Defesa pediu a transcrição dos relatos dos soldados e uma reunião foi marcada para esta semana para debater o tema. "Eles não pretendem evitar a responsabilidade", disse.

O ministro de Defesa de Israel, Ehud Barak, respondeu as declarações publicadas pelo jornal dizendo estar confiante de que as Forças de Defesa lidarão com o tema "com toda a seriedade", e emendou: "Eu passei dezenas de anos em uniforme. Sei o que aconteceu na Iugoslávia, Afeganistão, Iraque e digo a você que ao chefe das Forças de Defesa ao último soldado, o Exército mais moral do mundo está pronto para receber ordens do governo de Israel. Eu não tenho dúvidas de que cada incidente será analisada individualmente".

É possível negar?

No artigo “Can Israel dismiss its own troops' stories from Gaza?”, Amos Harel afirma que os testemunhos dos soldados possibilitam um olhar sem censura sobre algumas das unidades de combate que atuaram na ofensiva. Para o jornalista, os depoimentos mostram as coisas como elas são no campo de batalha e não através de uma ótica preparada pelos comandantes para o público e para a mídia.

Os soldados não estavam mentindo, pela simples razão de que não haveria motivo para isso. Se você ler a transcrição que aparecerá no Haaretz nesta sexta-feira (N.R.: dia 20), você não verá qualquer julgamento ou vanglória. Aquilo foi o que os soldados, a partir de seus pontos de vista, viram em Gaza. Há uma continuidade nestes depoimentos, vindos de diferentes setores, que reflete um retrato perturbador e deprimente.”, afirma Harel.

O jornalista lembra que os relatos são provenientes de soldados israelenses e não apenas de testemunhas palestinas ou da “mídia hostil”.

É possível que, em algum ponto, tenha havido alguns erros ou exageros, já que um líder de pelotão muitas vezes não vê o quadro todo. Mas isso é evidência, em primeira mão, do que muitos israelenses preferem refutar. É assim que o exército conduz esta guerra contra terroristas armados, com uma população de 1,5 milhão de pessoas presas no meio”, continua Harel.

Crimes de Guerra

Na última terça-feira (17), o analista de direitos humanos das Nações Unidas para os territórios palestinos, Richard Falk, disse que a ofensiva israelense contra o Hamas em uma área densamente povoada constituiu-se em um crime de guerra de “grande magnitude”.

Para ele, a Convenção de Genebra exige que as forças em conflito distingam entre alvos militares e os civis que habitam as áreas de combate. “Se isso não for possível, então lançar um ataque é ilegal e se constitui crime de guerra de grande magnitude sob as leis internacionais”, afirmou. Falk pediu a formação de um grupo independente de especialistas para provar os possíveis crimes de guerra cometidos tanto pelo exército israelense como pelo Hamas.

Os mortos

O Palestinian Center for Human Rights publicou nesta semana os nomes de 1417 palestinos mortos nos confrontos. Segundo o relatório, 926 eram civis, 236 combatentes e 255 membros das forças de segurança palestinas na Gaixa. Muitos dos policiais foram mortos em uma série de bombardeios no dia 27 de dezembro, o primeiro dia do conflito. O grupo diz estar investigando a morte de cada civil. A lista dos mortos pode ser encontrada no website do grupo.