Semana On

sábado, 31 de janeiro de 2009

Poesia

Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.

Paulo Leminski

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Abraji lança site de mapeamento temático para jornalistas

Com o objetivo de apoiar o trabalho dos jornalistas, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) lançou o site "Mapas Temáticos Sobre o Brasil", uma ferramenta para a produção de reportagens que contém mapas sobre educação, criminalidade, eleições, população, meios de comunicação, entre outros, segundo divulgação da própria Abraji. Todos os mapas, que estão disponíveis em alta resolução, podem ser reproduzidos para fins jornalísticos, desde que citada a fonte.

De acordo com a Abraji, a ferramenta permite visualizar, por exemplo, a distribuição geográfica da nova base municipal de cada partido político, o crescimento da população por município, as avaliações que os municípios tiveram no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), e a distribuição dos meios de comunicação, incluindo TV, rádio e mídia impressa, em todos os Estados brasileiros. Em breve, serão adicionados mapas interativos e sobre novos temas.

A iniciativa faz parte do projeto internacional "Mapeamento dos Meios de Comunicação da América Latina", que busca investigar a relação entre democracia e meios de comunicação no Canadá e 11 países da América Latina. Dica pinçada do site Jornalismo nas Américas.

Blogs.com: estudos sobre blogs e comunicação

O livro "Blogs.com: estudos sobre blogs e comunicação", organizado por Adriana Amaral, Raquel Recuero e Sandra Montardo, está disponível para baixar de forma gratuita. Segundo Raquel, “a intenção do livro era fazer um apanhado do 'estado da arte’ da pesquisa sobre blogs no Brasil, fornecendo algumas pistas para quem quer conhecer mais sobre o assunto”. São 12 artigos, divididos em dois capítulos: “o primeiro, referente a ‘definições, tipologias e métodos’ buscou fazer um apanhado de formas de pesquisa e do objeto ‘blog’. O segundo, ‘usos e apropriações’, discute as várias formas dos blogs através de várias pesquisas”. A obra é de leitura obrigatória para quem tem interesse no tema. Dica pinçada do Blog do Gjol.

Carta de André Nouschi ao embaixador de Israel em Paris

Carta do historiador francês de origem judaica André Nouschi ao embaixador israelense em Paris durante os bombardeios na Faixa de Gaza. Nouschi combateu os nazistas na França, tem 86 anos e é ex-professor da Universidade de Tunis e professor honorário da Universidade de Nice.

Senhor Embaixador:

Para vós é shabat, que devia ser um dia de paz, mas que é o da guerra. Para mim, e desde há vários anos, a colonização e o roubo israelense das terras palestinas exasperam-me. Escrevo-vos como francês, judeu de nascimento e artesão dos acordos entre a Universidade de Nice e a de Haifa.

Não é mais possível calar diante da política de assassinatos e de expansão imperialista de Israel.

Vós vos conduzis exatamente como Hitler se conduziu na Europa com a Áustria, a Tchecoslováquia (hoje República Tcheca e Eslováquia). Desprezais as resoluções da ONU tal como ele as da Sociedade das Nações e assassinais impunemente mulheres e crianças; não invoqueis os atentados, a Intifada. Tudo isso resulta da colonização ilegítima e ilegal; o que é roubo.

Vós vos conduzis como ladrões de terras e virais as costas às regras da moral judia. Vergonha para vós! Vergonha para Israel!

Cavais a vossa tumba sem vos dar conta. Pois estais condenados a viver com os palestinos e os estados árabes.

Se vos falta esta inteligência política, então sois indigno de fazer política e vossos dirigentes deveriam ir para a cadeia.

Um país que assassina Rabin, que glorifica seu assassino, é um país sem moral e sem honra. Que o céu e que o vosso Deus leve à morte Sharon, o assassino.

Haveis sofrido derrota no Líbano em 2006. Sofrereis outras, espero, e enviais à morte os jovens israelenses porque não tendes a coragem de fazer a paz.

Como os judeus que tanto sofreram podem imitar os seus carrascos hitlerianos? Para mim, desde 1975, a colonização recorda-me velhas lembranças, aquelas do hitlerismo. Não vejo diferença entre vossos dirigentes e os da Alemanha nazi.

Pessoalmente, vou combater-vos com todas as minhas forças como o fiz entre 1938 e 1945 até que a Justiça dos homens destruísse o hitlerismo que está no coração do vosso país.

Vergonha a Israel!!

Espero que o vosso Deus lançará contra os seus dirigentes a vingança que eles merecem. Tenho vergonha como judeu, antigo combatente da II Guerra Mundial, por vós. Que o vosso Deus vos maldiga até o fim dos séculos!

Espero que sejais punidos!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O melhor do fotojornalismo em 2008

A seleção que você vai ver abaixo foi feita pelo jornal The Boston Globe. São 120 fotos, entre elas algumas verdadeiramente chocantes. A apresentação está dividida em três partes, com 40 fotos cada. Clique nos links a seguir.

Parte 1
Parte 2
Parte 3

O holocausto como propaganda

“Durante décadas, acostumamo-nos a ver os judeus apenas como vítimas do Holocausto. E, de fato, eles foram vítimas de um massacre terrível e abominável. Mas, as centenas de filmes e documentários sobre os horrores do Nazismo, talvez impedissem muita gente de notar que os judeus - de vítimas na Segunda Guerra - haviam-se tornado agressores, invasores e algozes do povo palestino.”

De Rodrigo Vianna, no artigo “Israel massacra e perde politicamente; chamar judeu de ‘nazista’ é desrespeito”

Frases - LI

"Pelo menos na tribo dos peemedebês, o homem brasileiro parou de evoluir. Pior: tomou um caminho inverso ao que fora esboçado na grande teoria."
Josias de Souza, usando Darwin para entender o PMDB

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Livro conta a saga do povo palestino através da história de herói da resistência

Em um campo de refugiados perto de Beirute, o velho Yunis encontra-se em coma profundo. Khalil, médico e filho espiritual do doente, recusa-se a aceitar o fato de que talvez ele nunca volte a consciência e mantém-se ao lado dele, contando-lhe a sua própria história, que nada mais é que a saga do povo palestino. Quando jovem, Yunis casou-se com Nahila, uma moça que se torna cidadã israelense e fica na Galiléia, enquanto ele envolvido na Resistência, vive no campo de refugiados de Chatila, no Líbano. Yunis tinha de atravessar a fronteira clandestinamente para encontrar-se com sua esposa.

Esta é a história do livro Porta do Sol, da Editora Record. Valendo-se de histórias contadas no campo de refugiados, o autor Elias Khoury entrelaça à vida de Yunis aos muitos fatos importantes aconteceram no Oriente Médio: a Diáspora, o aperto de mãos de Arafat e Rabin em Washington, a invasão israelense ao Líbano e o massacre de Sabra e Chatila.

Leia abaixo trecho do primeiro capítulo do livro.

PARTE I
Hospital Galiléia

Umm-Hassan morreu.

Vi as pessoas correndo nos becos do campo e ouvi o pranto. As pessoas saíam de suas casas, agachavam-se para catar suas lágrimas e corriam.

Nabila, a esposa de Mahmud Alqássimi, que foi a nossa mãe, morreu. Costumávamos chamá-la de "nossa mãe" porque todos que nasceram no campo Chatila haviam caído dos úteros de suas mães diretamente nas mãos dela.

Eu também caí nas mãos dela, e no dia em que ela morreu, corri.

Umm-Hassan veio de Kweiket, seu vilarejo na Galiléia, para ser a única parteira do campo Chatila - uma mulher sem idade e sem filhos. Eu a conheci sempre velha; ombros curvados, rosto coberto de rugas e carquilhas: olhos grandes brilhando num quadrado branco e um xale branco cobrindo-lhe o cabelo branco.

Saná, sua vizinha, mulher de Karim Aljachi, o vendedor de knefe,* disse que Umm-Hassan passara por ela na noite anterior e lhe dissera que a morte chegaria.

"Ouvi sua voz, minha filha, a morte sussurra e tem a voz baixa."

Falou com seu sotaque beduíno para contar a Saná sobre o chamado da morte.

"A voz me chegou de manhã e disse: 'esteja pronta'."

"Fez as recomendações de como devia ser amortalhada."

"Pegou-me pela mão", disse Saná, "e levou-me para sua casa, abriu o guarda-roupa de madeira marrom e me mostrou a mortalha de seda branca; contou-me que tomaria banho antes de dormir. 'Assim morro pura, e não quero que ninguém me lave a não ser você.'"

UMM-HASSAN morreu.

Todo mundo sabia que a manhã dessa segunda-feira, 20 de outubro de 1995, era a data do encontro de Nabila, filha de Fátima, com a morte.

Todos acordaram e esperaram. Ninguém, porém, teve coragem de ir à sua casa para certificar-se de sua morte, pois Umm-Hassan avisara a todos, e todos acreditaram nela.

Apenas eu fui surpreendido.

Fiquei com você até as onze horas da noite; depois, exausto, fui para meu quarto e dormi. A noite do campo dormia; ninguém me avisou.
Mas as pessoas sabiam.

Não há ninguém que não acreditasse em Umm-Hassan, pois ela só falava a verdade.

Não foi ela a única que chorou na manhã de 5 de junho de 1967, enquanto todos dançavam nas ruas preparando-se para o retorno à Palestina? Ela chorou. Disse a todos com quem se encontrara que decidira vestir-se de luto. Todos riram dela e disseram que perdera o juízo. Durante os seis dias de guerra* não abriu as janelas de sua casa. No sétimo dia, saiu para enxugar as lágrimas dos outros. Disse que sabia que a Palestina não voltaria antes de todos nós morrermos.

Durante seus longos anos, Umm-Hassan enterrou seus quatro filhos, um após o outro. Chegavam carregados numa tábua com as roupas ensangüentadas. Sobrou-lhe apenas um filho chamado Naji, que vivia na América. Naji não é seu filho verdadeiro, mas é seu filho. Catou-o debaixo de uma oliveira no caminho de Kabri-Tarchiha, amamentou-o de seus secos seios, depois o entregou à sua mãe verdadeira no vilarejo de Qana, no Líbano.

Hoje morreu Umm-Hassan.

Ninguém teve coragem de entrar na sua casa. Mais de vinte mulheres aglomeraram-se na frente da casa e aguardaram. Saná chegou e bateu à porta; ninguém atendeu. Empurrou-a, abriu; correu até o quarto e viu Umm-Hassan dormindo; sua cabeça coberta pelo lenço branco. Saná aproximou-se, tocou seus ombros, a frialdade do seu corpo passou para as palmas da mulher do vendedor do knefe, que gritou. As mulheres então entraram e o choro se levantou, as pessoas correram.

Eu também queria correr com os que correram e entrar com os que entraram para ver Umm-Hassan dormir em sua cama para sempre, respirando o aroma de azeitona que exalava de sua pequena casa.

Mas não chorei.

Há três meses sinto-me incapaz de me emocionar. Apenas este homem suspenso sobre seu leito me faz sentir a tremura das coisas. Há três meses está deitado sobre esta cama no Hospital Galiléia, onde trabalho como médico, ou onde faço de conta que sou médico. Sento-me ao seu lado e tento. Ele está morto ou vivo? Eu não sei. Eu o estou ajudando ou fazendo-o sofrer? Amo-o ou o odeio? Conto-lhe histórias ou o escuto?
Faz três meses que estou no seu quarto.

E hoje, Umm-Hassan morreu, e quero que ele saiba, mas ele não ouve; quero que venha comigo para o funeral, mas ele não se levanta.

Disseram que estava em coma.

Um derrame cerebral que causou dano irreversível. Um homem deitado na minha frente, e eu aqui estou, sem saber o que fazer. Apenas tento não deixá-lo apodrecer vivo, pois estou certo de que ele está dormindo, não morto.

Mas que diferença faz?

Será que é verdade o que me dizia Umm-Hassan, que alguém dormindo é igual a um morto - que a alma abandona o corpo de quem dorme e a ele retorna quando acorda, enquanto a alma do morto parte porém não volta?

Onde estará a alma de Yunis, filho de Ibrahim, filho de Sleiman Alassadi?

Terá ido para muito longe, ou estará pairando sobre nós neste quarto de hospital, pedindo me para não abandonar o lugar, porque o homem está imerso em distantes trevas, temendo o silêncio?

Juro que não sei.

Vozes silenciadas no OI

Meu artigo "Gaza: as vozes silenciadas", publicado aqui no Escrevinhamentos no dia 20, foi publicado ontem no Observatório da Imprensa. O artigo é uma compilação dos depoimentos e narrativas do documentário “Occupation 101: Vozes da Maioria Silenciada”, acrescida de comentários e informações adicionais cujo objetivo é tornar mais claro o tema.

Vítima não, responsável

O texto abaixo é uma tradução livre da belíssima reflexão feita por Yoani Sánchez em seu blog Generarión Y, intitulado Vítima não, responsável. Sua coragem frente ao autoritarismo em Cuba tem se refletido em todo o mundo. Recomendo o blog.

“Poderia passar o dia assustada, escondendo-me destes homens lá em baixo. Encheria páginas com o custo pessoal que me trouxe este blog e com os testemunhos dos que foram “avisados” de que sou uma pessoa perigosa.

Bastaria decidir e cada um dos meus textos seria uma denúncia ou um longo dedo acusador para aqueles que buscam culpados. Mas acontece que eu não sou uma vítima, sou responsável.

Estou ciente de que me calei, que permiti a alguns o direito de governar minha ilha como se fosse uma fazenda. Fingi e aceitei que outros tomassem por mim as decisões que nos cabiam a todos, me escondia por detrás do fato de ser muito jovem, muito frágil. Sou responsável por ter colocado a máscara, por ter usado meu filho e minha família como argumento para não me atrever. Aplaudi – como quase todos – e deixei meu país quando estava farta, dizendo a mim mesma que era mais fácil esquecer que tentar mudar algo.

Também carrego o peso de ter me deixado levar – algumas vezes – pelo rancor ou pela suspeita. Tolerei que me incutissem a paranóia e em minha adolescência uma balsa no meio do mar foi um desejo frequentemente acariciado.

No entanto, como não me sinto vítima, ergo um pouco a saia e mostro minhas pernas aos dois homens que me seguem por toda a parte. Não há nada mais paralisante que uma panturrilha de mulher quando o sol bate em meio à calçada. Como também não tenho vocação para mártir, tento não desmanchar o sorriso, visto que a gargalhada é uma pedra dura para os dentes dos autoritários. Assim prossigo em minha vida, sem deixar que me convertam em puro gemido, em apenas um lamento. Afinal de contas, tudo isso que vivo hoje tem sido produto do meu silêncio, fruto direto da minha passividade anterior.”

Prêmio Philip Meyer de Jornalismo

Foram divulgados no último dia 23 os vencedores do prêmio Philip Meyer de Jornalismo que, segundo a descrição oficial, “reconhece os melhores usos de métodos da ciência social no jornalismo". São reportagens que combinam levantamento de informações públicas, por meio do Freedom of Information Act, análise de estatísticas e, como bem disse Marcelo Soares (de onde pincei a dica e os comentários sobre os premiados), “a sempre eficaz arte de sujar os sapatos”.

Vencedores de 2009

1º LUGAR: "Salvando bebês: expondo mortes repentinas de crianças", Scripps Howard News Service
"Os repórteres Thomas Hargrove, Lee Bowman e Lisa Hoffman fizeram um trabalho magistral ao expor lapsos burocráticos que impedem a busca pelas causas de mortes repentinas de bebês. Fazendo bom uso de fortes ferramentas estatísticas, a equipe analisou as agudas diferenças nos diagnósticos de causas de morte entre os estados e produziu a primeira prova rigorosa do valor das câmaras de revisão locais e estaduais sobre mortes de crianças, presentes em algumas jurisdições. Alguns meses após a publicação do projeto, o então senador Barack Obama apresentou um projeto de lei federal que exige dos examinadores médicos que façam investigações do local da morte em todos os casos de morte inesperada de bebês."

2º LUGAR: "Falhas Fatais", Kansas City Star
"Os repórteres Mike Casey e Rick Montgomery analisaram 1,9 milhão de registros da Administração Nacional de Segurança no Tráfego em Auto-Estradas para descobrir a falha da entidade em considerar a falta de airbags como um problema significativo de segurança. O trabalho de Casey e Montgomery sugere que quase 300 pessoas são mortas anualmente em acidentes pelo fato de seus airbags não terem inflado quando deviam. Inicialmente, a NHTSA contestou fortemente as conclusões, mas acabou fazendo sua própria análise dos dados e chegou às mesmas conclusões. Este projeto combinou o melhor das técnicas que Philip Meyer defende com o estado mental investigativo que se recusa a aceitar um não como resposta quando o que está em jogo (neste caso, vida e morte) é muito alto."

3º LUGAR: "Pegando pesado? - Táticas de policiamento suburbano", Philadelphia Inquirer
"Mark Fazlollah, Dylan Purcell, Melissa Dribben e Keith Herbert, da equipe do Inquirer, estudaram dados de prisão e Justiça de departamentos de polícia nos subúrbios que cercam a Filadélfia e encontraram cidades onde negros eram presos em números extraordinários por ofensas menores, como vadiagem e atravessar a rua sem observar as regras. Reportagem subseqüentes expuseram prisões onde milhares de revistas vexatórias ilegais eram conduzidas, cães policiais sendo usados para controlar crianças negras que iam a pé da escola para casa e ocorrências por tráfico sendo preenchidas com antecedência às prisões."

2008
1º LUGAR: "Falsificando as notas", Dallas Morning Herald
A pauta é parecida com a do jornal da Filadélfia que ganhou o terceiro lugar em 2007, mas a execução foi mais ambiciosa. A série de três dias mostrou sérias evidências de fraude nos testes-padrão, por mais de 50 mil estudantes de escolas públicas e particulares do estado do Texas. O jornal foi o primeiro a fazer uma reportagem sobre isso, em 2004, quando ainda sequer havia o prêmio Philip Meyer. Desta vez, os repórteres Joshua Benton e Holly Hacker analisaram um gigantesco banco de dados de notas e respostas de testes de centenas de milhares de estudantes individuais que fizeram os testes ao longo de dois anos. O rigor empregado pela série fez com que o estado anunciasse controles mais fortes sobre as condições em que os testes são feitos nas escolas do Texas, para se adaptarem aos métodos estatísticos de detecção de fraudes usados pelo jornal.

2º LUGAR: "Questão de vida ou morte", Atlanta Journal-Constitution
A pena de morte ainda é lei em vários pontos dos Estados Unidos. Em alguns estados, porém, ela é mais cruel. Em 1972, uma decisão da Suprema Corte americana classificou a aplicação da pena no estado da Geórgia – o mesmo onde se passa o filme “E o Vento Levou” – como “arbitrário e capcioso”. Nessa série de quatro duas, os repórteres Bill Rankin, Heather Vogell, Sonji Jacobs e a analista de bancos de dados Megan Clarke mergulharam em dados de 2.300 condenações por assassinato registradas desde 1995. Paralelamente, a pesquisadora Alice Wertheim fez um banco de dados com as condenações a pena de morte desde 1982. Os jornalistas fizeram diversas análises nos dados e conseguiram demonstrar que as condenações à pena de morte variavam de acordo com características demográficas dos réus e com o lugar onde viviam. Com isso, o Legislativo estadual decidiu considerar mudanças nas leis de pena de morte e o Judiciário local tomou iniciativas para melhorar o processo de revisão dos casos.

3º LUGAR: "Empresas de Seguro - Serviço ou Safadeza", Kansas City Star
Três repórteres passaram quase um ano analisando um banco de dados com mais de 35 milhões de registros de reclamações contra mais de 2.400 companhias de seguros dos Estados Unidos. A idéia era verificar quais são as reclamações dos clientes dessas empresas e como elas respondem a isso. A preocupação com o consumidor, segundo descobriram os repórteres Mike Casey, Mark Morris e David Klepper, varia muito conforme a empresa, o lugar do país e o tipo de cobertura. Logo na primeira reportagem, era mostrado o caso de uma mulher cujo plano de saúde não cobria internação hospitalar – e ela só descobriu isso ao receber uma conta de US$ 16 mil. Na última reportagem, o jornal demonstrava que as empresas de seguros passam por virtualmente nenhuma supervisão pública e que os encarregados pela pouca supervisão que há vêm das próprias empresas em que devem ficar de olho. A partir da análise do jornal, o Legislativo Americano passou a propor mudanças na regulamentação dos planos de seguros.

2007
1º LUGAR: "O dia perfeito para receber", Wall Street Journal
Foi uma série de reportagens publicadas ao longo de 2006 que expôs a prática de mudar a data de recibos de compra de ações para beneficiar quem tem informações privilegiadas com um pagamento maior. Os autores, Charles Forelle e James Bandler, usaram um modelo estatístico para calcular as chances selvagemente improváveis de que as datas de pagamento de ações simplesmente fossem muito favoravelmente lucrativas para dezenas de executivos de algumas das empresas mais conhecidas dos EUA. As reportagens sobre o escândalo levaram à abertura de uma investigação do órgão federal que fiscaliza a Bolsa para avaliar sabotagem em títulos de mais de 100 empresas até agora.

2º LUGAR: "Relatório Especial: Avaliando o Tratamento Cardíaco em Hospitais", Gannett News Service
É um pacote de matérias publicado em vários jornais dos EUA, que avaliou como mais de 3 mil hospitais seguiam as recomendações médicas de melhores práticas para tratar pacientes que sofreram ataques cardíacos. As matérias escritas pelo editor de banco de dados Robert Benincasa e pela repórter Jennifer Brooks mostravam que pacientes de áreas pobres e regiões rurais tinham menos chance de receber os cuidados recomendados. Sua análise usou um banco de dados nacional detalhando o tratamento dado a cada paciente e usou uma metodologia de escores compostos para avaliar cada hospital.

3º LUGAR: "Investigação das notas em Camden", Philadelphia Inquirer
Foi uma série de reportagens que expôs um escândalo de fraudes no teste-padrão usado pelo distrito escolar de Camden, em Nova Jersey. O trabalho dos repórteres Melanie Burney, Frank Kummer e Dwight Ott revelou que os resultados de testes aplicados em diversas escolas de Camden eram dramaticamente mais altos do que o que poderia ser esperado com base em performances passadas, e acabou levando à demissão do superintendente do distrito escolar, a uma investigação e ao monitoramento rigoroso do distrito pelo departamento estadual de educação. (O livro Freakonomics cita casos semelhantes para propor um modelo de análise desse tipo de coisa.)

2006
1º LUGAR: "Epidemia desnecessária", The Oregonian
O repórter Steve Suo demonstrou como o Legislativo americano e a DEA (departamento governamental responsável pelo combate às drogas) poderiam ter impedido uma epidemia de uso de metanfetaminas – presentes em drogas como o Ecstasy e em medicamentos controlados, como a Efedrina – se tivessem regulamentado melhor a importação dos produtos químicos necessários para sua produção. Em 1997, cerca de 5 milhões de americanos haviam provado metanfetaminas. Hoje, estima-se que cerca de 13 milhões usem de alguma forma – fumando, inalando, injetando ou ingerido. Apenas nove laboratórios no mundo inteiro produzem esses 12 elementos, e desde os anos 80 os laboratórios que os usam para fabricar medicamentos precisam manter registros de importação atualizados. Brechas legais, estimuladas pela ação de lobbies que usam como argumento a dependência de pacientes desses medicamentos, permitem que fabricantes de tóxicos tenham acesso aos produtos. Suo fez análises de dados sobre internações médicas, prisões, preço e pureza de metanfetaminas e importação de produtos químicos. A reportagem demonstra que, em dois períodos em que as autoridades federais impediram o acesso de cartéis aos produtos químicos, os crimes e internações pelo uso de metanfetaminas caiu na mesma proporção em que o preço da droga no mercado negro aumentou.

2º LUGAR: "Dispensados e desonrados", Knight-Ridder
Chris Adams e Alison Young, da sucursal de Washington da rede de jornais, mostram como a burocracia emperra as solicitações de veteranos que voltaram de guerras com deficiências físicas. Mais de 13.700 deles morreram antes de serem atendidos, e até 572 mil ex-combatentes podem não estar até hoje recebendo pensão por invalidez causada por guerras. Hoje, cerca de um terço do orçamento do VA (órgão do governo dos EUA que atende os ex-combatentes) é destinado a pagar pensões por invalidez a ex-combatentes. Os registros analisados pelos repórteres mostram as diferenças regionais no atendimento às demandas dos veteranos. Também revelam os tipos de doenças mais comuns enfrentadas pelos ex-combatentes: esquizofrenia e demência associada a trauma cerebral. A lentidão da burocracia não discrimina idade. Os repórteres encontraram um veterano da 2ª Guerra Mundial que teve o estômago rasgado por uma bala aos 19 anos, em 1945, e apenas em 1981 descobriu que sua pensão não cobria todos os danos que sofreu. A partir daí, passou 21 anos em uma batalha legal por seus direitos.

3º LUGAR: "O sumiço dos pântanos", St.Petersburg Times
Os repórteres Matthew Waite e Craig Pittmann demonstraram como 84 mil acres (quase 340 km²) de área pantanosa foram devastados por construções na Flórida após o governo George Bush (pai) anunciar uma política nacional para evitar perdas de áreas pantanosas, em 1990. Os repórteres usaram imagens de satélite de vários anos e sistemas de informações geográficas para calcular o tamanho exato da perda de área. Também analisaram os registros de permissão para exploração imobiliária de áreas pantanosas. Segundo a investigação, entre 1999 e 2003, foram aprovadas mais de 12 mil permissões de exploração – e apenas uma foi negada. A série de reportagens também contabilizou alguns prejuízos sofridos pelos governos com as construções nessas áreas. O condado de Collier, por exemplo, gastou US$ 30 milhões para indenizar moradores de bairros inundados que um dia foram áreas pantanosas.

Frases - L

"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar..."
Martin Niemöller

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Entrevista com Fischer, no OI

Publicada aqui no Escrevinhamentos, no dia 22, minha entrevista com o diretor do grupo Mix Brasil, André Fischer, foi publicada hoje no Observatório da Imprensa. A entrevista trata da relação entre a mídia e a comunidade gay no Brasil.

Historiador de origem judaica faz crítica ao movimento sionista

O historiador americano de origem judaica Norman Finkelstein faz uma crítica contundente à estratégia e aos argumentos do sionismo e também ataca fortemente a política israelense atual no livro "Imagem e Realidade no Conflito Israel-Palestina".

No trecho que pode ser lido abaixo, do primeiro capítulo do livro, há uma definição do empreendimento sionista e de três tendências - sionismo político, sionismo trabalhista e sionismo cultural - que estavam comprometidas com a exigência de um Estado de maioria judaica.

Orientações Sionistas - Teoria e prática do nacionalismo judaico

Gorny começa identificando o "consenso ideológico" do qual brotou a maior parte do pensamento sionista, se não mesmo toda a sua gama. Um dos elementos deste consenso, frisa ele ao longo de seu estudo, estava no centro da crença sionista e se revelou o principal obstáculo para qualquer reconciliação com os árabes - a saber, que a

Palestina deveria um dia abrigar uma maioria judaica. No interior do consenso ideológico sionista coexistiam três tendências relativamente distintas - o sionismo político, o sionismo trabalhista e o sionismo cultural. Todos estavam comprometidos com a exigência de uma maioria judaica, mas não exatamente pelas mesmas razões.

A pedra de toque do ideal liberal da França revolucionária estava na convicção de que era possível e desejável construir uma ordem social racional e justa com base em valores políticos compartilhados, vale dizer, democráticos. Deste modo, o Estado-nação foi concebido acima de tudo como uma forma consensual de relacionamento, sendo o cidadão sua unidade irredutível e seu alicerce. Originando-se numa reação do período pós-revolucionário francês ao racionalismo e ao liberalismo do Iluminismo, ponto de partida do sionismo político era a suposta falência do ideal democrático.

Os nacionalistas românticos sustentavam que vínculos mais profundos da mesma forma "natural" uniam certos indivíduos e excluíam outros. Idealmente, concluíam, cada uma dessas comunidades organicamente constituídas deveria dotar-se de um Estado independente. Tendo identificado o pensamento de Theodor Herzl, o fundador do moderno sionismo, nessas "fontes alemãs", Hans Kohn, provavelmente a mais eminente autoridade em nacionalismo moderno (ele próprio um sionista a certa altura), observa:

"Segundo a teoria alemã, as pessoas de ascendência comum (...) deviam formar um Estado comum. O pangermanismo baseava-se na idéia de que todas as pessoas de raça, sangue e ascendência alemães, onde quer que vivessem e qualquer que fosse o Estado a que pertencessem, deviam lealdade primeiro que tudo à Alemanha e deveriam tornar-se cidadãos do Estado alemão, sua verdadeira pátria. Eles e mesmo seus pais e antepassados podiam ter crescido debaixo de céus "estrangeiros" ou em ambientes "alienígenas", mas sua "realidade" interior fundamental continuava sendo alemã."

Pressupostos análogos imbuíam a característica abordagem sionista da questão judaica. Ao longo da diáspora, sustentavam seus participantes, os judeus constituíam uma presença "alienígena" em Estados "pertencentes" a outras nacionalidades, numericamente preponderantes. O anti-semitismo era o impulso natural de um todo orgânico "infectado" por um organismo "estrangeiro" (ou por um corpo "estrangeiro" por demais presente).

Com efeito, a análise sionista da questão judaica replicava o raciocínio do anti-semitismo, que invocava o mesmo argumento para justificar o ódio aos judeus. Na realidade, a receita que propunha para o problema judaico também estava inscrita na lógica do anti-semitismo. O sionismo político não pretendia combater o anti-semitismo - que na melhor das hipóteses era encarado como um empreendimento quixotesco -, mas chegar a um modus vivendi com ele. Propunha que a nação judaica resolvesse a questão judaica se (re)estabelecendo num Estado que a ela "pertencesse".

Para isso, os judeus teriam de se constituir em algum lugar como a maioria - pois não decorria a situação de ausência de Estado dos judeus precisamente do fato de que, onde quer que se encontrassem na diáspora, formavam uma minoria numérica? A condição de maioria, conseqüentemente, ratificaria o direito constitucional dos judeus a um Estado. Assim é que o dirigente revisionista Vladimir Jabotinsky, bem-situado no contexto do consenso ideológico sionista (p. 165; todas as páginas mencionadas são do livro de Gorny), declarou que "a criação de uma maioria judaica (...) era o objetivo fundamental do sionismo", já que "a expressão 'Estado judaico' (...) significa maioria judaica", e a Palestina "haverá de tornar-se um país judeu no momento em que tiver uma maioria judaica" (p. 169, 170-1, 233).

Para o sionismo trabalhista, a questão judaica não era apenas a ausência de um Estado, mas a estrutura de classe da nação judaica, que se havia tornado desequilibrada e deformada ao longo da longa dispersão: o Galut (exílio) havia criado um excesso de comerciantes, pequenos negociantes marginais e Luftsmenschen judeus, e um déficit de trabalhadores judeus. O sionismo tinha em parte como missão lançar as bases de um Estado sadio, reconstituindo a classe trabalhadora judaica. Como os interesses desta classe (e aqui o sionismo trabalhista evidentemente tomava de empréstimo uma página de Marx, adaptando-a para suas finalidades) exigiam um Estado judaico socialista, era esta a única verdadeira solução para o problema judaico. Deste modo, o sionismo trabalhista representava menos uma alternativa do que um complemento ao sionismo político. Em termos ideais, a luta de classes e o desenvolvimento econômico haveriam de desdobrar-se num campo purificado de elementos "alienígenas". Nas palavras de Ben-Gurion:

"O direito à existência nacional independente, à autonomia nacional, que nenhuma pessoa razoável poderia considerar conflitante com a solidariedade entre os povos, significa acima de tudo: existência nacional independente com base numa economia nacional independente (p. 137-8)."

O sionismo trabalhista imbuía a exigência de uma minoria judaica de um duplo significado: primeiro, ela ratificaria o direito dos judeus de reivindicar o Estado e, segundo, assinalaria seu direito de alterar radicalmente o equilíbrio demográfico na Palestina, abrindo caminho para a concentração territorial da nação judaica. Para citar novamente Ben-Gurion: "A maioria é apenas uma etapa em nosso caminho,embora uma etapa importante e decisiva no sentido político. A partir dela, podemos prosseguir tranqüilamente confiantes em nossas atividades e concentrar as massas de nosso povo neste país e em suas imediações" (p. 216; o itálico é nosso).

De maneira geral, a exigência de uma maioria judaica feita pelo movimento sionista escorava-se num conjunto de pressuposições que iam de encontro ao ideal liberal. Já o sionismo cultural não negava explicitamente a conveniência (ou viabilidade) de uma organização política democrática. Sua exigência de uma maioria judaica não representava tanto uma rejeição categórica do liberalismo, mas uma solução para certos limites nele supostamente contidos, especialmente no terreno da cultura.

Os sionistas culturais não queriam resolver "o problema dos judeus", mas "o problema do judaísmo" no mundo moderno. A seus olhos, a sobrevivência do judaísmo e do povo judeu era menos ameaçada pelo antisemitismo do que por uma civilização cada vez mais secularizada que os transformava num anacronismo. O verdadeiro problema não estava na fria rejeição dos gentios, e sim em seu abraço tentador. A tarefa mais urgente do sionismo, assim, era elaborar uma Weltanschauung de acordo com o mundo contemporâneo e ainda assim trazendo a inconfundível marca do resplandecente legado do povo judeu. A sobrevivência da nação judaica seria determinada pelo sucesso ou o fracasso desta empreitada.

Esta nova síntese nacional não poderia efetivar-se, entretanto, enquanto o povo judeu permanecesse dispersado na diáspora. Ela exigia um "centro espiritual" capaz de concentrar e unificar as energias da nação judaica e, em última análise, servir-lhe de força centrípeta. Para criar este centro, os judeus precisavam constituir-se como maioria numérica em algum Estado, pois as instituições culturais cruciais de qualquer sociedade estão subordinadas ao Estado, que sempre traz a marca da nação majoritária. Mesmo nos Estados mais democráticos, a vida cultural da minoria só pode ser "tolhida e confinada", na formulação do eminente teórico do sionismo cultural Ahad Ha'am (p. 102-3).

O sionismo cultural encarava portanto a maioria judaica como conditio sine qua non não de um Estado dos judeus, mas do livre renascimento espiritual da nação judaica. A Palestina, com sua maioria judaica, acabaria servindo como ponto de referência espiritual para os judeus de todo o mundo; não seria, no entanto, um Estado ao qual todos os judeus teriam de vincular-se politicamente. Ainda assim, o caráter da exigência de uma maioria judaica era definido, em termos práticos, pelos setores hegemônicos do movimento sionista. Para eles, a maioria judaica e o Estado judaico estavam indissoluvelmente vinculados: a maioria judaica eram os meios, e um Estado constitucionalmente vinculado aos judeus de todo o mundo, o fim.

A exaustiva e meticulosa análise dos registros documentais empreendida por Gorny demonstra que, não obstante toda a sua flexibilidade tática, a liderança sionista nunca recuou em seu apego à idéia de um Estado da nação judaica. O que esta liderança oferecia à população árabe da Palestina era, na melhor das hipóteses, um conjunto de salvaguardas institucionais no sentido de que seus direitos "civis" não seriam violados após o estabelecimento do Estado judaico; todavia estas garantias para a futura minoria árabe não impediam - na realidade, pressupunham - que, em princípio, o pretendido Estado pertenceria ao povo judeu.

Consideremos, por exemplo, as fórmulas de "compromisso" apresentadas pelo movimento sionista após os distúrbios árabes de 1929, quando as perspectivas do empreendimento sionista encontravam-se em seu ponto mais baixo até então. Weizmann propôs o princípio da paridade - vale dizer, igualdade total na representação administrativa dos dois povos -, mas sua intenção (nas palavras de Gorny) era "assegurar o status civil dos árabes" no interior de um Estado que seria de "propriedade" judaica (p.206). Da mesma forma, o "compromisso" então favorecido por Ben-Gurion não era um Estado binacional, mas um regime binacional, no qual (na formulação de Gorny) "o povo judeu teria direitos de propriedade sobre a Palestina e a comunidade árabe teria o direito de nela residir" (p. 212).10 Finalmente, Jabotinsky prometeu aos habitantes árabes da Palestina direitos plenos e iguais como entidade nacional, de acordo com as melhores tradições do pensamento socialista austro-húngaro, mas na questão do princípio de uma maioria judaica/Estado judaico ele não aceitava compromissos (p. 233-4).

O apego da liderança sionista ao princípio de um Estado judaico da nação judaica encontrou expressão concreta e inequívoca em sua insistência em que os judeus da diáspora desfrutassem de situação privilegiada em relação ao futuro Estado. Ben-Gurion, por exemplo, negava que a existência de um Estado judaico significasse necessariamente a dominação da minoria (árabe) (p. 306-7). A minoria poderia continuar desfrutando de plena igualdade civil e nacional, além de autonomia na educação, na cultura e na religião; com efeito, um membro da minoria poderia até mesmo ser eleito presidente ou primeiro-ministro do Estado. É verdade que a maioria judaica determinaria a "imagem" do Estado, mas isso também era (ou podia ser) um fato em todos os Estados democráticos. Todavia o que haveria de distinguir o Estado judaico, em sua opinião, seria sua orientação para todo o povo judeu: "O Estado não existirá apenas para seus habitantes (...) mas para atrair massas de judeus da diáspora, para reuni-los e enraizá-los em sua pátria."

Identificamos até aqui as correntes do sionismo que se encaixam no consenso ideológico sionista mencionado por Gorny. Ele também dedica considerável espaço aos elementos do movimento sionista que não se enquadravam no consenso ideológico mas ainda assim estavam comprometidos com alguma versão do sionismo.

De maneira geral, o que atraía esses dissidentes para o sionismo era sua dimensão cultural; politicamente, eles eram favoráveis a uma solução binacional do conflito em torno da Palestina, na qual fosse reconhecida "a total igualdade dos direitos políticos dos dois povos" (p. 119). O que nos interessa sobretudo aqui, entretanto, não são seus programas e perspectivas em si mesmos (que foram em grande número, todos eles sofrendo cruciais revisões ao longo do tempo). Pois o fato é que, embora os círculos sionistas dissidentes (exemplos: o Brit-Shalom, o Ihud) pudessem ter em suas fileiras alguns dos mais eminentes membros do movimento, entre eles o respeitado sociólogo Arthur Ruppin, primeiro presidente da Universidade Hebraica Judah Magnes, e o renomado filósofo Martin Buber, não deixavam de ser numericamente fracos e politicamente marginais. Nosso interesse se volta antes para sua crítica - às vezes implícita, com maior freqüência explicíta - das correntes centrais do sionismo. Esta crítica é digna de nota porque era ao mesmo tempo interna no movimento sionista, não podendo, assim, ser facilmente descartada, e também excepcionalmente convincente e incisiva, sob todos os aspectos. Na verdade, mostra-se tão pertinente hoje quanto no momento em que era feita.

Os dissidentes sionistas negavam que o êxito do projeto sionista - ou pelo menos tal como o definiam - dependesse do fato de os judeus se constituírem em maioria na Palestina. Eles não se opunham em princípio a que os judeus se tornassem em dado momento o elemento numericamente preponderante; o que não aceitavam era o significado atribuído à idéia de uma maioria judaica por seus adversários no movimento sionista. Os dissidentes argumentavam que por trás da exigência de uma maioria judaica se escondia a intenção de estabelecer uma alegação de direitos superiores sobre o pretendido Estado, conferindo aos judeus uma "vantagem em matéria de direitos" e presumindo a dominação e a supressão dos árabes da Palestina (p. 120, 145, 284). Hugo Bergmann, do Brit-Shalom, resumiu muito bem as pressuposições das correntes centrais do sionismo:

"A contradição entre os perfis políticos do Brit-Shalom e de seus opositores não se baseia apenas em nossa posição a respeito dos árabes. É algo muito mais fundamental e profundamente enraizado. Nossas convicções políticas decorrem das percepções do judaísmo. Queremos que a Palestina seja nossa para que as crenças morais e políticas do judaísmo deixem sua marca no modo de vida deste país, e para que aqui possamos pôr em prática a mesma fé que se manteve viva em nossos corações durante dois mil anos. E nossos oponentes têm pontos de vista diferentes. Quando falam da Palestina, de nosso país, estão se referindo ao "nosso país", e não ao "país deles". Este ponto de vista foi derivado da Europa em seu período de declínio. Baseia-se no conceito de um Estado que seja propriedade de um povo. (...) Desse modo, vários Estados europeus atuais consideram que a existência de um Estado significa que determinado povo, entre os povos que nele residem, deve desfrutar de direitos prioritários. (...) Eles justificam esta injustiça invocando o sagrado egoísmo do Estado" (p. 122-3; itálico no original).

Bergmann também criticava o conceito de "povo do país", que segundo ele "atribui direitos prioritários a um povo em detrimento de outro, como se um deles fosse o filho natural, e o outro, o enteado" (p. 123). Com efeito, o conceito contradizia o princípio democrático da cidadania.

As entrahas da Rede Globo

Imperdível o post “Beyond Citizen Kane”, o filme que a Globo não deixou exibir, no blog do Paulo Henrique Amorim. Para quem quer conhecer as entranhas do império dos Marinho trata-se de um documentário essencial.

Corretor com as novas regras

Muito bacana o Ortografa!, um corretor ortográfico online adaptado para as novas regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A coisa é simples: digite sua frase (até 500 caracteres) e o sistema procurará trocar as palavras para a ortografia correta. Caso ele não consiga — certamente por haver alguma ressalva — ele mostrará uma dica para você se guiar nos seus textos. Pinçado do blog Dicas de um Fuçador, do jornalista Marcelo Soares.

A esquerda israelense e Gaza

Interessante o artigo “Ofensiva militar divide opiniões na esquerda israelense” (aqui para quem assina a Folha Uol), do enviado especial da Folha ao Oriente Médio, Marcelo Ninio, no qual expõe as opiniões rachadas da esquerda israelense sobre o ataque sobre Gaza.

Ateus

“É um clichê dizer que quando não se acredita em Deus se acredita em qualquer coisa. É um clichê que não faz jus à profundidade dessa discussão, que Umberto Eco e o cardeal Martini já travaram num livrinho com mais sofisticação do que eu seria capaz. Mas ateus têm mais dificuldade em acreditar em coisas do que religiosos, não o contrário. O que ateus talvez tenham é mais conforto com a existência de dúvidas e com o fato de que algumas não serão respondidas jamais. Os que crêem atribuem uma explicação ao mistério, lhe atribuem um nome e, às vezes, dizem até que o mistério vem à Terra, tem filhos, fala com gentes. Ateus dizem: não sei.”

De Pedro Doria no imperdível post “Reinaldo Azevedo e como ele vê Obama”. Recomendo a leitura.

Poesia

interseções

Ralei osso madrugada toda.
Amanheci diagrama.
Interseções da gente
são nossos ideais.
As outras partes
nossas distâncias:
solidão cheia de sol.
Chover pra que se tenho lágrimas?
Inundo palavra-rio-arredores.
Razão não é ter água pelas canelas.
São profundezas fósseis de minhas dores.
Cultivo o tempo em jardins públicos de praças.
meu regador é aquilo que sou:
restos mortais
chão de clarear estrelas...

Flávia Muniz

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Pedro e Azevedo

“A política dos EUA em relação ao Afeganistão contribuiu, sim, para a formação da al-Qaeda. E isto não tem nada a ver com qualquer teoria conspiratória, é história oficial. Quem conta é o ex-ditador paquistanês Pervez Musharraf, aliado de Bush: foi dinheiro da CIA e treinamento da ISI paquistanesa por intermédio norte-americano que armou e preparou os árabes que lutaram contra a União Soviética durante os anos 1980. Não era uma operação secreta. Foi uma operação pública, documentada pela imprensa na época. Foram estes mesmos árabes que formaram a al-Qaeda.”

De Pedro Doria no imperdível post “Reinaldo Azevedo e como ele vê Obama”. Recomendo a leitura.

Fisk e a caixa postal

Muito interessante o artigo “Plots, sense and nonsense: the view from the post bag”, do jornalista britânico Robert Fisk, do The Independent. Autor de pérolas sobre o Oriente Médio – como o livro “A grande guerra pela civilização: a conquista do Oriente Médio” (minha leitura atual) – ele analisa neste artigo os comentários que recebe no espaço Carta do Leitor, do periódico inglês, a respeito da carnificina em Gaza. O blog do Azenha disponibilizou o artigo em português. Vale a leitura.

Poesia

o avesso do desejo

te encontraria
no deserto
às dez e meia
tonto de luz
passos trôpegos sobre a areia movediça

eu te desnudaria
meio-dia
sol a pino
e te manteria prisioneiro
até que tingisse
a tua pele
o mais negro ou rubro tom
e cegasse os teus olhos, o sol da tarde.

te abandonaria então
nu e insone
meio às sombras
sem sonhos
onde te escondias das noites quentes
de antigos janeiros.

por fim partiria
liberta
de ti
e do cárcere gelado
dos interditados verões do teu amor

desejo ao avesso
ainda pulsando em mim

Márcia Maia

domingo, 25 de janeiro de 2009

Fidel traidor?

O ex-guerrilheiro cubano Daniel Alarcón Ramírez, o "Benigno", acusa Fidel Castro de ter traído Che Guevara a mando de Moscou. Alarcón Ramirez diz que a morte de Che resultou de uma conspiração urdida por Fidel e pela União Soviética.

Best Blogs Brazil 2008

Confira os resultados do Best Blogs Brazil de 2008.

Melhor blog de Artes e cultura: Amálgama
Melhor blog de Automóveis: Velocidade
Melhor blog de Ciências: Brontossauros em meu jardim
Melhor blog de Cinema, música e TV: Poltrona
Melhor blog Corporativo: Papo de empreendedor
Melhor blog de Culinária: Homem na cozinha
Melhor blog de Design: Bem Legaus
Melhor blog de Educação: Rastro de Carbono
Melhor blog de Entretenimento: Sedentario & Hiperativo
Melhor blog de Esporte: Blog do Juca
Melhor blog de Games: Continue
Melhor blog de GLBT: Papel Pop
Melhor blog de Humor: Kibe Loco
Melhor blog Jurídico: Direito e trabalho
Melhor Metablog: Twitter Brasil
Melhor blog de Negócios e finanças: Dinheirama
Melhor blog de Pessoal e cotidiano: Planejando meu casamento
Melhor blog de Política: Pedro Doria
Melhor blog de Publicidade e Comunicação: Brainstorm #9
Melhor blog de Quadrinhos: Malvados
Melhor blog de Religião e esoterismo: Isso é bizarro
Melhor blog de Saúde: Contrapeso
Melhor blog de Sexo: Boteco sujo
Melhor blog de Tecnologia: Gizmodo Brasil
Melhor blog de Turismo: Vida de Viajante
Melhor blog de Universo Feminino: Melhor Amiga
Melhor blog de Universo Masculino: Papo de homem
Melhor Design: Sedentário & Hiperativo
Melhor Podcast: Nerdcast
Melhor Blog: Blog do Tas

Poesia

dou ao mar a gravidade dos meus lábios
a pueril imagem

ao coração
os olhos sitiados.

Maria Gomes

sábado, 24 de janeiro de 2009

Poesia

Esperança

Enquanto em vossos pratos haja um pouco de mel
Espantem as moscas dos pratos
A fim de conservar o mel
Enquanto haja cachos de uva nos vinhedos
Expulsem as raposas
Ó guardiões de vinhedos
A fim de que amadureça a uva
Enquanto fique em suas casas
Uma toalha... e uma porta
Protejam do vento os pequenos
A fim de que os filhos durmam
Vento... trio... fechem as portas
Enquanto em suas artérias haja sangue
Não o dilapidem
Pois em vocês há recém-nascidos..
Enquanto haja fogo na lareira
E café... e uma braçada de lenha.

Mahmud Darwich

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Trabalhando

Desde ontem (quinta) estou envolvido em um projeto de trabalho que só termina no domingo, portanto não postarei nestes dias, além do que já havia programado. Até segunda.

Ah, tá, agora entendi - VIII

Espera aí, deixa ver se entendi.
Israel confina 1,5 milhão de pessoas em uma área de 360 km², o que configura a mais alta densidade demográfica do mundo com mais de quatro mil pessoas por km² e diz que as vítimas civis de seus bombardeios a Gaza ocorrem porque o Hamas as usa como escudos?
Sim.
Ah, tá, agora eu entendi...

Desculpas

Aqui, sentado na realidade
Paro com assombro
Com mar salgado nos olhos
E me lembro de mim

Atolado em palavras
Te olho enviesado
A tecer crianças vazias
E peço desculpas todos os dias
Por ainda sorrir

Aqui, sentado na realidade
Tento um suspiro
Com as mãos crispadas
Me despeço de ti

Suspenso em amarras
Te vejo calado
A aceitar promessas frias
E peço desculpas todos os dias
Por me eximir

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay

No ano passado (entre os 12 e 23 de novembro), o jornalista carioca André Fischer realizou a 16º edição do Festival Mix Brasil. O evento, pioneiro na abordagem da temática gay no país, começou a ser construído no imaginário de Fischer na década de 90, quando passou uma temporada em Nova York. Em 1993, foi convidado para ser curador de uma mostra de filmes brasileiros no conhecido festival gay da cidade e, de volta ao Brasil, foi chamado pelo Museu da Imagem e do Som (MIS), de São Paulo, para organizar um evento similar.

O resultado foi a realização do 1º Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual, que contou com mostra de cinema, festas e exposições sobre gays, lésbicas, travestis e, como define Ficher, reuniu “pessoas com atitudes, comportamentos, caminhos de vida e opções sexuais pouco convencionais”. Daí em diante o negócio se desenvolveu a ponto de confundir o Guinness 2008 (o livro dos recordes) que afirmou ser o Mix Brasil “o maior festival gay do mundo”. Modesto, Fischer corrigiu o erro. É o segundo.

O sucesso do Festival Mix Brasil abriu novas possibilidades para que o agitador cultural ampliasse o raio de ação do projeto e a criação do portal Mix Brasil foi a conseqüência direta disso. O portal é um fórum de discussões para gays, lésbicas e simpatizantes, um espaço de convivência desta comunidade e sua função é informar e criar espaços para troca de informações. Além da central de notícias, o portal oferece rádio e tevê digitais. Hoje, o Mix Brasil é considerado o maior portal do gênero na América Latina.

Fischer também é escritor, tradutor e dj. Em 2005 publicou "Sozinho na Cozinha", no qual ensina receitas para solteiros, em 2007 foi a vez do “1º Almanaque de Banheiro”, em parceria com Renata Laureano e, em 2008, publicou “Como o mundo virou gay”. Como tradutor Fischer trabalhou – em 2003 – no livro “Dicas de sexo para mulheres por um homem gay” (de Dan Anderson e Maggie Berman) e, e em 2004, traduziu “Como se livrar de saias justas” (de David Borgenicht, Jennifer Worick e Joshua Piven).

Na tarde da última quarta-feira (21), André Fischer concedeu ao Escrevinhamentos uma entrevista por telefone cujo tema girou em torno da relação entre a mídia e os gays. Confira a seguir os melhores momentos deste bate-papo.

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Porque um portal especializado no público gay?
Eu trabalhava com computação gráfica e publicidade nos anos 90. Nesta época tive contato com a internet. Junto a isso, surgiu a possibilidade, por meio do Festival Mix Brasil de cinema e vídeo e, posteriormente, através do BBS MiX Brasil, de ampliar o projeto para um portal onde pudéssemos informar as pessoas e estabelecer um fórum de discussões permanente para um grupo que chamamos gays, lésbicas e simpatizantes (GLS). Foi um processo natural. O Mix Brasil, como organização, existe, portanto, desde 1993.

Como a mídia convencional trata este público?
Acho que há uma simpatia condescendente. Esta relação evoluiu bastante e hoje, geralmente, o gay é tratado de uma maneira respeitosa, dentro do politicamente correto. Há lugares muito piores pelo mundo. Mas, é sempre dentro dos limites do politicamente correto. As novelas, por exemplo, tem personagens gays, tem casais gays, embora estes relacionamentos não se desenvolvam. O noticiário cobre as paradas gays. Há um acompanhamento respeitoso.

Mas há preconceito na mídia convencional?
Acho que sim. Não adianta, quando se fala de mídia, 50% é Globo. É lá que esta discussão aparece de forma mais clara. Talvez, o melhor exemplo do tratamento dado pela mídia à questão esteja no tabu do beijo gay na tevê. A Globo é uma emissora comercial que é simpática aos gays, sempre retrata personagens gays em novelas de maneira positiva, mas tem um receio de ir além disso. Não sei até que ponto este receio é real, mas há um episódio recente que é emblemático: foi quando, na última novela das oito (A Favorita), a personagem de Paula Burlamaqui (Estela) se declara para Catarina (interpretada por Lília Cabral), uma dona de casa. As donas de casa trocaram de canal. Houve queda de audiência. A Globo tem que ter uma responsabilidade social, mas tem que ficar de olho na audiência. Estes tabus têm que ser quebrados aos poucos.

É papel da arte quebrar estes tabus?
Da arte, sim, mas não sei se considero novela uma arte, é um entretenimento comercial. Cinema, teatro, linguagens que possuem públicos mais específicos, são diferentes. Um filme pode se arriscar a falar para um público mais específico. A novela tem mais uma obrigação comercial, se não atingir os 40 pontos de audiência, uma novela das oito terá problemas estruturais.

É objetivo do portal Mix Brasil acompanhar as políticas públicas e os direitos civis dos gays no Brasil?
Desde sempre. De cara a central de noticias é a nossa maior audiência. Mesmo que estas notícias não sejam as mais acessadas, são informações que atingem os ativistas e a militância gay. Estamos jogando estas informações junto ao entretenimento e elas têm o seu espaço.

O público do portal o utiliza para denunciar o preconceito e para se informar sobre este aspecto?
Usa muito e é engraçado isso. Este noticiário de militância tem uma repercussão muito grande na comunidade, uma repercussão muito mais ampla do que o número de acessos que contabiliza. São as notícias menos clicadas, mas que têm mais repercussão. São informações que replicam na comunidade. Um beijo gay da Britney Spears tem muito mais acesso do que a denúncia de preconceito feita por um grupo de ativistas. No entanto, a repercussão desta última notícia é muito mais forte.

No final do ano passado, a Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS) teve, pela segunda vez, negado pela Câmara Municipal de Campo Grande o recebimento do título de utilidade pública municipal, apesar de ter o mesmo título no âmbito estadual e federal e cumprir todos os requisitos para tal. A concessão esbarrou na objeção das bancadas evangélica e católica da Casa. O preconceito ainda impera no Brasil?
Acho que vivemos uma série de avanços, mas para cada dois avanços temos um retrocesso e por isso a luta e o papel da militância têm uma importância tão grande. Vou bastante à França e tenho muitos amigos por lá que participaram de militância e que dizem que lá resta pouco a ser conquistado. Eles têm os direitos básicos, de casar etc. Falta apenas o direito de adotar. Os direitos básicos foram conquistados por lá e a militância, por isso, é menos articulada. No Brasil é diferente. Por conta destes retrocessos é que temos que reafirmar a necessidade de uma militância forte. Estas notícias negativas deveriam funcionar como estímulo para a batalha contra o preconceito.

O gay brasileiro é engajado?
O brasileiro não é engajado, não adianta cobrar isso de forma específica dos gays. Antes de sermos gays, somos brasileiros. A diferença é que somos um grupo que tem de ser mais engajado, pois nos faltam os direitos civis básicos, que devem ser garantidos. Deveríamos ser mais engajados por isso.

Leia mais sobre o mesmo tema:
- Eles eram mais livres
- Preconceito e cidadania
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado

Poesia

Desafio

Atem-me
proíbam-me os livros
os cigarros
obstruam minha boca com areia
a poesia é sangue
a água dos olhos
se imprime com as unhas
as órbitas
as adagas
Clamarei seu nome
no cárcere
no banho
na pedreira
sob o látego
a violência das correntes
Um milhão de pássaros
sobre os ramos de meu coração
inventam o hino combatente

Mahmud Darwich

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

E agora?

Adriana, poeta maravilhosa e amiga blogueira me pergunta:

Gostaria de saber qual a sua visão a respeito da saída das tropas de Israel de Gaza e o que isso representa efetivamente em relação ao conflito. Prezo muito a sua opinião, principalmente, depois de tantas reportagens suas a respeito. Um grande abraço.”.

Respondo.

Sem querer ser pessimista, a saída das tropas israelenses de Gaza não significa absolutamente nada no contexto geral.

Os 1,5 milhão de palestinos de Gaza, sob o domínio religioso e autocrático do Hamas, continua isolado por Israel, que controla suas fronteiras terrestre, marítima e aérea sem permitir que ninguém entre ou saia da região e os cerca de três milhões de palestinos da Cijordânia, sob o governo democrático da Autoridade Palestina, continuam na pobreza, esmagados em um labirinto territorial mesclado por bolsões de riqueza, que são os assentamentos israelenses na região.

Nada vai mudar enquanto Israel não sair dos territórios ocupados e tratar (junto com o resto do mundo ocidental) os palestinos como um povo que necessita de uma nação (assim como os judeus precisavam de uma nação e a conquistaram na década de 40).

Ocorre que este não é o interesse de Israel. O que Israel quer, de fato, é tornar a vida dos palestinos nos territórios ocupados tão miserável, tão horrenda, que eles acabem optando por migrar para a Jordânia ou para o Egito, o que seria mais uma catástrofe humana sobre este povo.

É lamentável, mas a solução está longe de ser encontrada, pois Israel conta com o apoio irrestrito dos Estados Unidos que já usou seu direito de veto (outro absurdo) 40 vezes em favor de Israel quando as Nações Unidas condenaram o país por inúmeras violações do direito internacional, em especial a instalação de colônias permanentes nos territórios palestinos ocupados.

Democracia na web

A reportagem “Internet será interface de Obama com os americanos”, publicada ontem no portal Folha Online, reforça a tendência do uso da internet como ferramenta para o aprimoramento da democracia ao citar as experiências iniciais do Governo Obama para ouvir a população por meio da web.

Na página da transição de Obama, Change.gov, os internautas podem oferecer sugestões para as áreas de atuação do governo, como economia, educação e saúde. De acordo com o site, “as melhores idéias serão encaminhadas para o livro dos cidadãos que será entregue ao presidente Obama depois do juramento” (ocorrido ontem).

Apesar de tímidos, estes são conceitos que podem fortalecer a idéia da democracia direta.

Leia mais sobre o mesmo tema:
- O ciberespaço e as possibilidades de democracia participativa
- Economia faria maioria dos brasileiros trocar democracia por ditadura
- Democracia participativa
- Brasileiro está mais familiarizado com governo eletrônico
- Obama incentiva a democracia participativa?

Eles eram mais livres

No rastro da lamentável aprovação da "Proposta 8" pela população da Califórnia, no último dia 4, que baniu o casamento homossexual naquele estado norte-americano, a jornalista Giovana Sanchez, do G1, publicou ontem interessante reportagem intitulada “Motivo de polêmica eleitoral nos EUA, união gay era aceita na Antigüidade”, na qual demonstra que a relação entre pessoas do mesmo sexo era legítima na Grécia e em Roma e que a condenação da prática teve início nas religiões monoteístas e estados eclesiásticos. Vale a leitura.

Leia mais sobre o mesmo tema:
- Preconceito e cidadania
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado

Frases - XL

"A independência de qualquer publicação decorre de uma clara imposição: seu exclusivo objetivo tem de ser os interesses dos leitores à luz daqueles que, conforme suas crenças e princípios, são também do país e da nação. Da ética e da razão."

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Caretas e risadas

Considerado um dos maiores especialistas do mundo em direitos humanos, o estadunidense Richard Falk - relator especial das Nações Unidas (ONU) para a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados por Israel e professor emérito da Universidade de Princeton (EUA) – publicou ontem no jornal britânico The Independent um belíssimo artigo sobre a hipocrisia dos grandes líderes mundiais e dos grupos extremistas em relação aos palestinos. Traduzido por Caia Fittipaldi, o texto está disponível no blog Amalgama sob o título “Caretas e risadas. E as vítimas apodrecem”.

Falk, que esteve no Brasil no último dia sete, a convite do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), foi expulso do território israelense no dia 14 de dezembro no que seria sua primeira missão como relator especial – uma reunião com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. Apesar de estar em visita oficial, ele foi detido por 15 horas antes de ser retirado do país sob a alegação de ser “anti-Israel”.

“Minha expulsão é um claro aviso à ONU de que Israel não quer cooperar com relatores críticos à ocupação, e faz parte de uma política para excluir possíveis testemunhas oculares dos fatos que estão acontecendo em Gaza neste momento”, avaliou.

Priscila e o jornalismo no OI

Meu artigo “Priscila, a Greenpeace e o canudo”, postado aqui no Escrevinhamentos na semana passada, foi publicado hoje no Observatório da Imprensa.

Obama

O 44º presidente estadunidense, Barack Hussein Obama, tomou posse hoje concretizando de forma simbólica o “sonho” de Martin Luther King que, em 1963, falava do dia em que os seus filhos não seriam julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter.

Com um índice de confiança popular que atinge os 79% - o mais alto que um presidente americano exibiu em sua posse nos últimos 30 anos – Obama elegeu-se com o discurso da mudança, da modernidade e com a promessa de um olhar menos belicista para o futuro.

No entanto, após o sonho e a festa, o mundo deve aguardar pra enxergar o que, de fato, há por detrás do sorriso do presidente.

O correspondente em Nova York do Guardian, Gary Younge, definiu bem as expectativas: “Como democrata característico, ele (Obama) encabeça um partido que em qualquer outro país ocidental seria considerado de direita em política externa, de centro em política econômica e de centro-esquerda em política social.

No Observatório da Imprensa, os mestres Alberto Dines e Luiz Weiss também apontam o caminho das pedras para entender o que virá depois dos holofotes. O primeiro afirma que “parte dos milagres já aconteceu” com “a escolha tranqüila de um negro para ocupar a Casa Branca” a partir do seguinte conceito: “a postulação do candidato democrata foi apresentada como fator de união, claramente pós-racial e pós-ideológica”.

O segundo, por sua vez, põe os confetes de volta ao saco: “A partir de hoje, 20 de janeiro de 2009, a mídia precisa julgar Barack Hussein Obama não mais pela singularidade de sua trajetória, nem tampouco pelos notáveis atributos de sua personalidade pública, mas pelo conteúdo de suas decisões como o governante mais poderoso do mundo”.

É esperar para ver.

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Gaza: as vozes silenciadas

O documentário “Occupation 101: Vozes da Maioria Silenciada” (2006) é um belíssimo trabalho jornalístico sobre as origens e conseqüências do conflito entre judeus e palestinos no Oriente Médio. Em cerca de uma hora e meia de primorosa edição pontilhada de entrevistas, imagens perturbadoras e comentários relevantes o filme – dirigido por Sufyan Omeish e Abdallah Omeish, e narrado por Alison Weir, fundadora da organização If Americans Knew - discute os eventos a partir do surgimento do movimento Sionista até a segunda Intifada, passando pelo processo de limpeza étnica da Palestina, as relações entre Israel e Estados Unidos e as violações dos direitos humanos e abusos cometidos por colonos e soldados israelenses contra os palestinos.

O documentário mostra, em primeiro lugar, que o conflito entre o Estado de Israel e os palestinos é mais um episódio no qual uma minoria étnica é levada a um estado de rebelião devido à impossibilidade de subsistir enquanto povo ou nação.

Qualquer violência por parte de uma população não ocorre porque esta população é mais violenta que outra, mas é um alarme, um aviso, um sinal de que há algo errado no tratamento dado a esta população”. A frase – da jornalista israelense Amira Hass (do Ha'aretz) - com a qual o filme é iniciado e o comentário de Alison Weir, que vêm em seguida, introduzem o observador a uma realidade com a qual os ocidentais não estão acostumados a serem confrontados:

A mídia ocidental retrata a violência no Oriente Médio como se fosse algo intrínseco à cultura e a região, colocando o conflito entre Israel e Palestina como se fosse um problema antigo e sem solução. Isso ocorre porque ouvimos apenas uma parte da história”, afirma a ativista.

Segundo Douglas Dicks, integrante da Catholic Relief Services em Jerusalém, o principal mito que os ocidentais sustentam a respeito do conflito entre árabes e judeus é que ele teria raízes milenares e que ambos os povos continuariam lutando pelos anos vindouros por conta disso. Ex-embaixador dos Estados Unidos na Arábia Saudita (1973/1975), James E. Akins considera esta afirmação “bizarra” e reforça as afirmações de Weir e Dicks. Para ele, “basta ler um pouco de história para descobrir que isso não é verdade”, e completa: “Não existe um conflito congênito histórico entre árabes e judeus”.

O artigo a seguir é uma compilação dos depoimentos e narrativas de “Occupation 101: Vozes da Maioria Silenciada”, acrescida de comentários e informações adicionais cujo objetivo é tornar mais claro o tema.

Origens do conflito

Os judeus migraram para o mundo árabe quando começaram a ser perseguidos de forma sistemática em toda a Europa, no final do século 19. “Então, judeus europeus tentaram achar uma solução para o problema. Uma minoria destes ativistas era sionista, ou seja, defensores da idéia segundo a qual o único lugar seguro para um judeu seria em um Estado Judeu”, explica o professor Rashid Khalidi, da School of International and Public Affairs, da Universidade de Columbia.

Este Estado, segundo os projetos dos judeus sionistas, seria implantado na Palestina. Ocorre que, diferentemente do que eles apregoavam, de que Israel seria “uma terra sem povo para um povo sem terra”, a Palestina não estava desocupada.

A sociedade judaico-israelense dominante acredita, pois assim ela foi educada, que a Palestina estava desocupada quando os colonos judeus vieram para cá”, lembra o historiador israelense Ilan Pappé, da Universidade de Exeter.

Mas, como dissemos anteriormente – e isso vale ser repetido a exaustão - a Palestina não estava desocupada. Era uma terra povoada por árabes com alto grau de cultura e educação, com fazendas e mercados, vilas e cidades, com estradas, comércio e muita interação com o resto do mundo.

Quem pagou o preço pelos colonos? É verdade que se tratava de uma terra sem povo para um povo sem terra?”, questiona Phyllis Bennis, integrante do Institute for Policy Studies e membro do U.S. Campaign to End Israeli Occupation. A resposta é óbvia: o preço foi pago pelos palestinos.

Em 1878 havia quase meio milhão de árabes muçulmanos e cristãos na Palestina - 96,8% da população local. Entre 1882-1914, seguindo o sonho sionista, 65 mil judeus europeus chegaram à região em uma movimentação populacional que cresceu depois da 1º Guerra Mundial, quando a região estava sob o domínio britânico.

Quando os britânicos implementaram a Declaração Belfort, que prometia aos judeus uma nação na Palestina - indo contra as declarações anteriores de autodeterminação para os habitantes árabes da região - ajudaram os sionistas a estabelecerem a estrutura básica do estado israelense e, ao mesmo tempo, negaram esta autodeterminação aos árabes que já residiam ali. Ou seja, os palestinos observaram, impotentes, um poder europeu decidir sobre o destino de um território não europeu, ignorando sua presença e interesses.

Com o passar dos anos, paulatinamente, judeus de toda a Europa tomaram o rumo do Oriente Médio.

Em 1922, os árabes muçulmanos e cristãos na Palestina eram 757,182 (87,6% da população) e os judeus 11%. Na década de 20 a terra começou a mudar de mãos, dando início aos primeiros conflitos entre palestinos e judeus. Entre 1920 e 1931, outros 108.825 judeus chegaram à Palestina. Em 1931, árabes cristãos e muçulmanos eram 1.035,154 (81,6% da população), contra 17% de judeus.

Com a Segunda Guerra Mundial e o advento do nazismo a migração tomou impulso. Entre 1932 e 1936, mais 174 mil judeus chegaram à região, dobrando a população judaica e, entre 1937 e 1945, outros 119.800 judeus desembarcaram na Palestina.

Na tentativa de amenizar os crimes nazistas, a intenção de fazer da Palestina um estado judeu se fortaleceu e encontrou apoiadores entre os países aliados. “Só que os palestinos não eram nazistas, nada tinham a ver com o holocausto. Mas foram eles que pagaram o preço”, afirma Phyllis Bennis.

Em 1947, o conflito entre palestinos e judeus saiu do controle e a Inglaterra – que até então dominava a região – retirou-se do cenário, passando o problema para as Nações Unidas, que, sob pressão, propôs dividir o território da Palestina em dois estados, um árabe e um judeu. Aos árabes seria dado 43% da terra, apesar de representarem 2/3 da população e possuírem 92% do território. Aos judeus seria concedido 56% do território, apesar de serem 1/3 da população e possuírem menos de 8% da terra. “Os judeus não apenas ganharam a maior parte da terra, mas a maioria das terras férteis”, lembra Rashid Khalidi.

Os líderes sionistas, através da superioridade militar, começaram então a ocupar importantes cidades árabes na Palestina, iniciando um processo de sistemática expulsão forçada dos árabes muçulmanos e cristãos que ali residiam.

Eu estava entre as pessoas que conquistou a cidade de Acre. Estávamos andando pela cidade e entramos em um apartamento onde havia um par de sapatos de uma criança pequena, de cerca de dois anos de idade. Eles não tiveram tempo de pegar os sapatos e os deixaram lá. Eles deixaram tudo”, relembra Hava Keller, ex-soldado israelense e membro da Woman's Organization for Political Prisoners.

Neste período as pessoas foram simplesmente expulsas de suas casas, iniciando um movimento sem precedentes de refugiados na região. A população árabe começou a ser repelida em um processo de limpeza étnica e confrontos que geraram massacres como o da vila Deria Yassin, onde mais de 100 homens mulheres e crianças foram assassinados pelas forças israelenses. A partir daí o pânico se instaurou e 300 mil refugiados palestinos começaram a vagar pela região antes mesmo que qualquer plano pudesse ser traçado para atenuar o drama humano inerente à divisão daquela terra milenar em dois países.

Então, em 15 de maio de 1948, estados árabes visinhos a Israel – que já não viam com bons olhos a criação de um Estado Judeu ao seu lado - intervieram enviando 68 mil soldados contra 90 mil soldados israelenses. Como conseqüência da derrota árabe que logo se consolidaria, o exército de Israel ocupou a maior parte do que seria o estado Palestino proposto pela ONU, dominando 78% da Palestina. A Cijordânia ficou sob o controle da Jordânia e a Faixa de Gaza sob o domínio dos egípcios.

Este é o ponto de inflexão da moderna tragédia palestina. Depois do cessar fogo, 700 mil palestinos tornaram-se refugiados, vivendo em campos, isolados e sonhando em voltar para as suas casas, que agora estavam em território israelense.

Nos meses seguintes, no entanto, a maioria das vilas palestinas localizadas em Israel e nos territórios agora ocupados foi reduzida a pó e substituída por assentamentos judeus ou terras para agricultura. Das 500 vilas palestinas dentro de Israel em 1948, 400 foram destruídas, o que foi denunciado pela ONU como flagrante violação das leis internacionais. Israel passou a incorporar os territórios ocupados, expulsando seus habitantes e desrespeitando o direito internacional que rege a relação entre exércitos invasores e povos sob ocupação.

Os acontecimentos de 1948 foram definitivos para o Oriente Médio. Deste ponto em diante, a instabilidade reinou na região e levou à guerra de 1967, na qual Israel ocupou o restante da Palestina histórica, o que é conhecido hoje como Cijordânia e Gaza. Mais 400 mil palestinos foram desalojados de suas vilas e cidades e metade dos refugiados de 1948 foram desalojados pela segunda vez em menos de 20 anos.

Para os palestinos, havia ficado claro que o mundo não iria defender sua causa. Eles viviam como cidadãos de 3º classe, em um estado que os havia excluído pela identidade, vivendo em territórios ocupados e no estrangeiro, onde continuaram como refugiados despossuídos.

A ONU emitiu diversas resoluções afirmando seus direitos, líderes árabes defenderam verbalmente sua causa, mas todos falharem em agir de forma concreta.

A pouca importância atribuída por Israel a ONU é histórica. O país não segue de forma alguma a lei internacional e é sempre bom lembrar que a ocupação sobre os territórios palestinos é ilegal. Trata-se de uma violação da 4ª Convenção de Genebra, segundo a qual a um exército de ocupação não é permitido construir assentamentos, estradas, expropriar terras, deportar pessoas, restringir sua liberdade de movimento, arrasar a economia do país ocupado ou colocar o seu povo na pobreza e no desemprego. Israel é o País que mais violou as resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Os Estados Unidos, por sua vez, usaram seu poder de veto mais de 40 vezes nas Nações Unidas para defender Israel quando este violou leis internacionais.

Revolta, pedras e tanques

Finalmente, em 1987, os palestinos reagiram em um levante chamado Intifada (a revolta das pedras), na qual grupos de palestinos – a maioria muito jovem – enfrentou as forças israelenses a pedradas. Para conter as manifestações, o primeiro ministro de Israel, Isaac Rabin, adotou a estratégia batizada de “Quebrar Ossos”, na qual soldados israelenses quebravam braços e pernas de manifestantes palestinos presos – o que foi documentado diversas vezes por jornalistas ocidentais.

Durante a Primeira Intifada, entre dezembro de 1987 e dezembro de 1993, 1100 palestinos foram mortos – entre eles 256 crianças – assim como 114 israelenses – entre eles cinco crianças. Milhares de palestinos foram encarcerados. Desde 1967, mais de 400 mil foram presos por Israel - muitos sem acusação formal - sofreram abusos físicos, tortura e estupros.

No final de 1993 os palestinos entraram em um processo de paz com Israel, que levou à assinatura do Tratado de Oslo, onde o líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, e o primeiro ministro israelense, Isaac Rabin, apertaram as mãos diante do presidente estadunidense Bill Clinton, no dia 13 de setembro do mesmo ano. Mas o que parecia um processo de paz era, na verdade, uma fina casca a esconder a continuidade do conflito.

Há uma falsa idéia de que os tempos de Oslo foram tempos de paz”, explica a jornalista Amira Hass. “Naquele período, enquanto supostamente estava em andamento um tratado de paz, a situação dos palestinos ficou ainda pior. Os deslocamentos entre os territórios ocupados tornaram-se ainda mais difíceis. A realidade é que esta foi uma nova forma de dominação dos israelenses sobre os palestinos”, complementa Phyllis Bennis.

Direitos econômicos e sociais são os direitos de se ter saúde, trabalho, educação, etc. Estas áreas pioraram para a maioria dos palestinos”, lembra Roger Normand, do Center for Economic and Social Rights. De acordo com Allegra Pacheco, advogada e ativista israelense pelos direitos humanos, “todos os indicadores econômicos palestinos caíram durante Oslo, durante os processos de paz”.

O professor Rashid Khalidi sustenta que os assentamentos judeus nas áreas ocupadas continuaram a se expandir mesmo durante as negociações, dobrando sua população de 200 para 400 mil pessoas.

Enquanto o controle israelense se expandia, a Autoridade Palestina caía nas armadilhas do poder. As dificuldades para transformar o território palestino, mesclado por assentamentos israelenses, em uma nação, eram imensas. Além disso, eles não tinham autoridade alguma de fato e virtualmente poder algum. Seu poder era legitimado por Israel e podia ser cancelado a qualquer momento.

O antropólogo Jeff Halper, membro do Comitê israelense contra a demolição de casas, afirma que os palestinos nas áreas ocupadas sempre estiveram totalmente alijados de meios de administrar a si mesmos: “Eles não ocupam nenhuma posição de destaque em sua própria comunidade. Não estão nos conselhos e muito menos nas administrações, seja na Cijordânia ou em Gaza. As políticas são feitas para manter o controle israelense, é tudo muito cínico, para impedir os palestinos de crescerem e mantê-los isolados em bolsões. Assim, a maioria dos territórios ocupados está livre para a implantação de assentamentos israelenses”.

É muito conveniente acreditar que não há ocupação alguma. Quantos aspectos de sua vida são determinados por outras pessoas? Isso é ocupação. Nas últimas décadas Israel pôde determinar todos os aspectos da vida dos palestinos. E os palestinos ouviram Arafat dizer dez, 100 vezes que Ramallah estava livre, que Gaza estava livre. Como poderiam estar livres com um exército a sua volta? Os líderes palestinos falaram muito superficialmente sobre a situação, sobre a realidade e estavam escondendo os fatos da grande maioria da população e isso foi um desastre”, explica Amira Hass.

Rashid Khalidi reforça: “Estes abusos, esta violação da confiança da população estavam ocorrendo regularmente desde o início do processo de Oslo. Ao invés de terem uma verdadeira Autoridade, havia esta instituição corrompida, que cumpria tarefas determinadas por Israel, policiando os palestinos, evitando que eles continuassem resistindo à ocupação”.

Eles desperdiçaram muito dinheiro que a comunidade internacional doou para reconstruir as vilas e reverter a pobreza em que as massas palestinas viviam”, analisa o relator especial das Nações Unidas para a situação dos direitos humanos nos territórios ocupados por Israel, Richard Falk.

Enquanto a mídia contava ao mundo que um processo de paz estava em andamento, Israel continuava sua política de demolição de casas nos territórios ocupados. Desde 1967, cerca de 12 mil casas palestinas já haviam sido demolidas. Destas, 740 foram demolidas durante o processo de paz de Oslo, deixando claro que os palestinos jamais voltariam para suas terras.

Ex-embaixador dos Estados Unidos em Israel (1997/1999), Edward Walker aponta as discrepâncias de Oslo: “O que ocorria era uma demanda justa dos palestinos durante os processos de paz, enquanto os israelenses tomavam mais territórios por meio dos assentamentos, se instalando em lugares que estavam sob negociação”.

Segunda Intifada

Desesperados para por um fim na ocupação, os palestinos voltaram para a mesa de negociação em 2000, mas, novamente, os esforços pela paz não foram bem sucedidos.

Israel ofereceu 95% da Cijordânia, mas foi repelido. A suposição é que tendo 95% da terra você tem 95% da soberania. É muito fácil comparar isso com uma prisão. Se você olhar a planta de uma prisão, parece que os prisioneiros dominam o lugar. Eles têm 95% da área: as áreas de convivência, pátio de exercício, refeitório, áreas de trabalho. Tudo que as autoridades têm é 5 %. É o controle”, compara Jeff Halper.

Nós não achávamos que eles iriam jogar fora esta chance, mas eles se desligaram, pois não havia nada a jogar fora. Pois há uma constante expropriação da terra, desmatamento, construção de estradas. Junto a isso há uma injusta divisão da água, deixando muitas famílias (palestinas) com apenas duas horas de água por semana no verão. Ao lado você tem um assentamento com piscinas e estufas. O que você espera que estas pessoas pensem?”, questiona o Rabbi Arik Ascherman, do grupo israelense Rabbis for Human Rights.

Esta sensação de exclusão explodiu em setembro de 2000, na segunda Intifada. “O que chamamos de segunda Intifada é essencialmente uma mobilização de resistência contra o sistema de opressão e ocupação. Israel, no início destas demonstrações, fez uso da força. Usou munição real contra manifestantes desarmados, causou muitas mortes e centenas de baixas nos primeiros dias”, afirma Falk.

Nos primeiros 10 dias as forças de segurança israelenses mataram 74 palestinos e feriram cerca de 3000. Muitas vítimas eram crianças. “Temos muitos casos documentados e evidências de que as forças israelenses dispararam contra grupos de crianças”, aponta Sharon Burke, diretora de advocacia da Anistia Internacional.

Os israelenses também sofreram com ataques suicidas, emboscadas a colonos e muitos foram mortos. “Quando houve um horrível ataque suicida na Praça da Paz, em Jerusalém, eu fui visitar algumas das crianças feridas no hospital e foi horrível. Foi horrível ver o que havia acontecida àquelas crianças”, desabafa a Rabbi Rebecca Lillian, da organização Jewish Alliance for Justice and Peace. “Você vê sangue, vê a agonia das famílias, é isso o que o mundo vê. Mas você não pode tirar isso do contexto geral, e o contexto é o da ocupação israelense, que pode não parecer brutal, mas é, sim, muito brutal e torna a vida das pessoas impossível”, afirma a jornalista Amira Hass.

Para Jeff Halper, “é preciso mudar a noção sobre Israel”. Segundo ele, “Israel gosta de vender a idéia de que é uma nação pacifica cercada por um mar de árabes hostis e que quer apenas a paz”. Na verdade Israel é a 5ª maior potência nuclear do planeta, possui entre 200 a 300 ogivas nucleares e é uma super-potência na região.

O uso da força excessiva contra a população civil pelo exército israelense é historicamente desproporcional e por isso as vítimas do confronto são, em sua maior parte, gente comum, desarmada e inofensiva. De setembro de 2000 a fevereiro de 2007, 4009 palestinos foram mortos pelo exército israelense enquanto 1021 israelenses pereceram por meio da ação armada dos palestinos. Entre as vítimas palestinas, 816 eram crianças. Os israelenses contabilizaram a morte de 119 crianças.

Em agosto de 2005 Israel desmantelou os assentamentos e postos militares em Gaza, re-alocando os colonos em outras regiões. A mídia israelense se referiu a isso como um “sacrifício sem precedentes”, mas, na verdade, foi uma simples concordância de Israel em cumprir a lei internacional. A evacuação dos colonos de Gaza atingiu apenas 2% do total da população de colonos israelenses e a cada um deles foram prometidos 270 mil dólares para se re-alocarem. Um custo total de 2 bilhões dólares, uma despesa que Israel pediu aos EUA que pagassem.

A presença de Israel em Gaza ficou pouco visível, mas os israelenses mantiveram o controle sobre toda a fronteira, o litoral e o espaço aéreo, criando uma prisão virtual na qual 1,5 milhão de pessoas tentavam viver em meio a pobreza.

Assim que Israel se retirou de Gaza iniciou um processo de confisco de terras palestinas adicionais na Cijordânia e continuou a construção de um muro de separação entre os refugiados e os assentamentos israelenses localizados nas terras palestinas. Este muro tem o dobro da altura do Muro de Berlim e é quatro vezes mais longo que este. Ele atravessa vilas, separa trabalhadores de seu trabalho, separa civis da assistência médica e da educação, separa fazendeiros de suas terras e famílias de seus amados.

Você tem este enorme muro sendo construído bem no meio da Cijordânia, como alguém pode acreditar que haverá um estado palestino ali? É um símbolo da opressão”, afirma o Rabbi Michael Lerner, da Tikkun Community.

A intenção de negar aos palestinos uma nação fica mais clara nas palavras do Major General Ya’ir Naveh, líder das forças de ocupação de Israel na Cijordânia: “Nós não temos intenção de deixar a Judéia e Samaria (Cijordânia). Nós permaneceremos aqui, de uma maneira ou outra, por centenas e milhares de anos”. Hoje, há aproximadamente 420 mil colonos israelenses vivendo dentro da Cijordânia e em Jerusalém Leste.

Diante de tudo isso, em janeiro de 2006, insatisfeitos com os rumos da “democracia” concedida pelos israelenses, exasperados com a sua inviabilização enquanto nação, com a manutenção dos assentamentos e a corrupção interna da Autoridade Palestina, os palestinos votaram pela saída da OLP do governo dando ao Hamas os assentos necessários para obter a maioria do parlamento.

Os israelenses não vêem que é assim que se cria o terrorismo? Não entendem que sendo tão opressivos para com a população civil, fazem com que ela se veja sem opção?”, questiona Kathy Kamphoefner, representante da Quaker International Affairs em Jerusalém.

Terrorismo ou reação?

O Hamas é uma organização extremista, baseada no fundamentalismo islâmico, que não reconhece o Estado de Israel. Dificilmente tal organização encontrará apoiadores entre a democracia ocidental ou entre os que defendem os direitos humanos. No entanto, apesar de ter eleito o Hamas nas últimas eleições, a população palestina não pode ser responsabilizada nem punida por isso, muito menos sua reação à ocupação pode ser classificada como terrorismo.

O uso de homens-bomba, seja contra alvos militares ou populações civis, tem sido uma das principais críticas feitas contra os militantes do Hamas. Para Richard Falk, o uso deste tipo de estratagema retrata um ato de desespero: “É a arma dos fracos”, resume.

Peter Boukaert, diretor de emergências da Human Rights Watch, considera que há uma clara relação entre os abusos contra os direitos humanos cometidos por Israel na Cijordânia e em Gaza e a resposta dos militantes palestinos a estes abusos na forma de ações extremistas.

Uma reportagem que examinou os antecedentes de 87 militantes palestinos suicidas concluiu que “homens-bomba frequentemente experimentaram traumas pessoais relacionados às forças israelenses, fazendo-os voluntários na seqüência da morte ou ferimento de um membro da família”.

A violência começou com a ocupação e a oposição é a resistência a esta ocupação. Esta violência é legítima em qualquer lugar do mundo. Posso discordar de alguns atos da resistência, acho algumas táticas estúpidas, mas não posso condenar a reação em si”, justifica Peretz Kidron, do grupo israelense pela paz Yesh Gvul.

Para Rashid Khalidi, os ataques a civis israelenses “são estúpidos, imorais e improdutivos para a causa palestina”. “Eles deveriam parar”, opina. No mesmo tom, o dr. Iyad Sarraj, diretor do Programa Comunitário de Saúde Mental da Faixa de Gaza, condena o uso do terrorismo e mesmo de qualquer tipo de violência: “Nós não deveríamos usar a violência, não importa como, pois isso destrói nossas intenções e a nossa posição, que tem um alto padrão moral. Nós somos as vitimas. E o mundo pode não entender que somos as vitimas”, afirmou.

O paralelo sul-africano

Um paralelo comum entre a situação dos palestinos nos territórios ocupados por Israel é com a situação dos negros na África do Sul durante o regime do apartheid. Para Richard Falk, a situação dos palestinos é ainda pior. “Trata-se de uma comparação desagradável e incômoda, mas tendo visitado a África do Sul naquele período, devo dizer que eles (os negros) estavam bem melhor quer os palestinos que vivem hoje em campos de refugiados”, afirma.

Um discurso de Nelson Mandela na ONU também pode ser visto como reforço para esta explicação dos motivos que levaram a deflagração da violência na Palestina, em especial a reação dos palestinos contra a ocupação israelense. “Nós fomos encarcerados porque era impossível ficar sentados e esperar enquanto a obscenidade do apartheid estava sendo imposta sobre o nosso povo”, disse o líder sul-africano.

Ocupação e colonização

Para Phyllis Bennis “o conceito de ocupação é de difícil entendimento para os ocidentais”. Ela explica: “ocupação é quando um exército estrangeiro ocupa sua terra e controla todos os aspectos da sua vida”.

Os palestinos estão sob ocupação e é por isso que há tanta violência. É o que ocorre com eles há décadas. Eles não são cidadãos, não têm direitos civis, nascem, crescem e morrem sob lei marcial”, afirma Allegra Pacheco.

No mesmo tom, Richard Falk destaca o caráter opressivo dos assentamentos israelenses frente aos palestinos: “Há cerca de 190 assentamentos israelenses espalhados na Cijordânia. São colônias estratégicas construídas por Israel, conectadas por estradas, e que separam as comunidades palestinas uma das outras impedindo sua reintegração aos proprietários originais e confirmando a intenção expansionista israelense”.

O bispo católico da diocese Washington, Allen Bartlett, Jr., reforça: “Os assentamentos israelenses são áreas palestinas, as melhores terras e recursos hídricos, que são selecionadas, destruídas e substituídas por uma nova cidade para abrigar os colonos judeus.”.

Os assentamentos são construídos próximos as melhores terras e recursos hídricos. São cercados por arame farpado e seus moradores recebem equipamento militar, sendo defendidos externamente pelo próprio exército israelense. “O seu principal propósito é manter o controle israelense sobre o território ocupado”, afirma Pacheco. Para Jeff Halper, “a finalidade é fazer com que os palestinos saiam do país”, e vai além: “Sei que este é um termo duro, mas trata-se de limpeza étnica”.

O governo e os militares israelenses não estão lidando com o povo palestino como iguais. Acho que este é o principal problema. Os israelenses não consideram os palestinos seus iguais”, opina Yael Stien, do grupo israelense de direitos humanos B'Tselem. “Penso que, moralmente e praticamente, a única forma de parar toda esta violência é tratar de sua causa primária, a ocupação”, sustenta Adam Keller, membro do Gush Shalom, grupo israelense que luta pela paz na região.

Para a Rabbi Rebecca Lillian, os israelenses não percebem a desigualdade entre os colonos e os palestinos nas regiões ocupadas: “No lado israelense, nos assentamentos, há comida, luz, água, gás, lazer, coleta de lixo, tudo o que seus vizinhos palestinos não têm por causa da ocupação militar”.

Lingüista e professor do Massachusetts Institute of Technology, Noam Chomsky relata a sensação do gueto vivida pelos palestinos: “Em Hebron, por exemplo, uma cidade árabe onde há alguns judeus, os colonizadores andam com fuzis como se fossem donos da cidade. Vão às vilas palestinas, queimam suas plantações, destroem suas casas, agridem os palestinos”. Kathleen Kamphoefner, afirma que é comum mulheres palestinas serem açoitadas pelos colonos nas ruas sem motivo aparente para a agressão, se é que há motivo para se açoitar uma mulher.

O governo não tenta conter os colonos. De todos os casos em que estes mataram palestinos os acusados acabaram recebendo anistia ou penas curtas. Em muitos casos o exército simplesmente acoberta os abusos. “Muitos palestinos se sentem reféns dos colonos”, resume Yael Stein. “A finalidade é tornar as coisas tão difíceis para os palestinos que qualquer um que queira um futuro para seus filhos, que queira viver bem, que queira viver uma vida normal será obrigado a sair”, resume Jeff Halper.

Segundo Adam Keller, há dois tipos de colonos. Os ideológicos, que pensam que todo o território foi prometido por Deus aos judeus, e que cada lugar mencionado na Bíblia pertence a eles. Estes consideram que não têm apenas o direito, mas o dever de ocupar o território e acabar pela força com qualquer um que se oponha a isso. O outro tipo, que representa a maioria dos colonos, são israelenses comuns que vem para os assentamentos simplesmente por que o governo oferece moradia barata e vantagens financeiras, tais como a suspensão do pagamento dos empréstimos governamentais adquiridos para sua instalação nas terras aos que permanecerem na região por mais de dez anos.

Estratégia de Dominação

Israel estabeleceu postos de controle por toda a Cijordânia fazendo com que os palestinos esperem horas para percorrerem distâncias curtas. Nem mesmo a liberdade de ir e vir é garantida a eles. O acesso ao trabalho, a hospitais, escolas ou qualquer estrutura que compõem a vida civil de milhões de pessoas é cerceado diariamente, violando um direito fundamental da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O maior problema são as pessoas que precisam de cuidados médicos. Há inúmeros casos documentados de pessoas que morreram nas barreiras tentando chegar a um hospital. “Registramos muitos casos de pessoas que morreram por não conseguirem ultrapassar as barreiras. O caso mais recente foi o de uma mulher grávida que estava trabalhando e não permitiram que ela fosse ao hospital. Ela é seu bebê morreram”, revela Sharon Burke.

A ativista expõe os riscos e situações vexatórias por que passam os palestinos que simplesmente tentam se locomover entre os territórios ocupados e os assentamentos israelenses: “Você tem jovens recrutas israelenses nestas fronteiras, que ficam ali sentados, vendo as pessoas passarem e com autoridade para prender qualquer um, por qualquer razão. Podem detê-lo por horas e constrangê-lo de todas as formas. Isso atinge violentamente a população civil e não os terroristas, atinge gente que não está envolvida em qualquer ataque a civis ou ao exército de Israel”, explica Burke.

Se pessoas que realmente precisam chegar a hospitais são barradas pelo exército, imaginem o que ocorre com gente comum que quer ir trabalhar, às compras, ou simplesmente visitar amigos”, exemplifica Yael Stien. Segundo ela, é em Gaza que as humilhações perpetradas aos palestinos ultrapassam todos os níveis: “Lá os bairros foram demolidos, centenas de pessoas não têm mais casa, pois moravam próximos dos assentamentos, próximos da fronteira. Claramente é uma violação dos direitos humanos”.

A estratégia israelense de dificultar a vida das pessoas fez com que às famílias palestinas tivessem que encarar uma queda substancial na sua renda, já que a maioria dos palestinos trabalha em Israel. De acordo com estimativas do Banco Mundial, o desemprego atinge 53% da população palestina e 75% dos palestinos vivem em estado de pobreza, com menos de dois dólares por dia.

O sistema educacional também é afetado em todos os níveis. As universidades palestinas estão sempre sujeitas a serem fechadas pelos israelenses por tempo indeterminado. Durante a primeira Intifada, por exemplo, a Birzeit University ficou fechada por cinco anos.

Durante este tempo, organizamos o que o exército israelense chama de ‘células ilegais de educação’. Estávamos ensinando em apartamentos, igrejas, mesquitas, jardins, carros e mantemos esta infra-estrutura para minimizarmos os danos e darmos continuidade a universidade”, revela o dr. Albert Aghazarian, da Birzeit. “Em lugares como os Estados Unidos, as pessoas não entendem o que passamos aqui, simplesmente porque essa experiência está além de sua vivência. O mais impressionante não é que existam casos de estudantes suicidas entre os palestinos, mas que alguns estudantes tentam seguir em frente em meio ao caos”, opina.

Campos de refugiados, mesmo sem conflitos militares, são lugares horríveis. A superlotação em Gaza, por exemplo, faz com que um cômodo seja dividido por 14 a 25 pessoas. Não há espaço para as crianças, apenas becos, não há árvores, apenas concreto. Muitos palestinos nasceram, cresceram e continuam a viver nos campos de refugiados por toda a Palestina ocupada. Em 1938 eles eram mais de 750 mil. Hoje chegam a quase 4,5 milhões.

Falk relata sua experiência na região: “Uma coisa que nos foi dita em Gaza por um psicólogo palestino muito respeitado e que havia acabado de concluir um estudo com mil crianças palestinas, é que muitas destas crianças não têm mais vontade de viver. Elas estão desumanizadas, afetadas por verem seus pais serem surrados por soldados israelenses. Esta condição psicológica é uma das dimensões deste conflito que não são completamente entendidas”.

Isso tudo ocorre como uma punição coletiva sobre o povo palestino, uma vingança contra a ação dos extremistas e, principalmente, como estratégia para tornar insuportável a vida nos territórios ocupados. “É como viver em uma prisão gigantesca”, afirma Falk. O resultado final, objetivo claro de Israel, é ocupar toda a região, não dando aos palestinos outro destino qualquer que o de deixar suas terras ancestrais.

Israel e EUA

Israel recebe mais assistência econômica dos Estados Unidos do que todos os demais países do mundo juntos. Do total de recursos doados pelos Estados Unidos anualmente, Israel recebe 1/3. De 1949 a 2006 a ajuda dos estadunidenses ao seu aliado chegou a 108 bilhões de dólares. Isso significa de 2 a 3 bilhões de dólares por ano, ou 6 a 8 milhões de dólares por dia. “Tudo que Israel faz nos territórios ocupados é pago com impostos americanos, cujos recursos servem para dar a eles apoio financeiro e militar”, denuncia Noam Chomsky.

Em março de 2003, o governo dos Estados Unidos aprovou uma ajuda de 10 bilhões de dólares para Israel. Ao mesmo tempo, negou auxílio de 3,6 bilhões para melhorar o treinamento de membros de grupos de socorro que primeiro respondem a ataques terroristas em território estadunidense. Gastando estes 10 bilhões em ações internas, o governo poderia ter provido atendimento em saúde para mais de quatro milhões de crianças que hoje não tem acesso a uma saúde adequada dentro dos Estados Unidos, ou custear as despesas para que cerca de 1,5 milhão de crianças participassem do programa Headstart, um tipo de reforço escolar, ou até mesmo ajudar estados com grandes problemas financeiros em meio a grave crise financeira e fiscal.

Para Richard Falk, esta ajuda não se dá apenas devido aos bem organizados lobbies pró Israel em atuação no Congresso dos EUA, mas representa o ponto de vista do governo que vê em Israel um aliado estratégico e indispensável para controlar e exercer influência na região do Oriente Médio. “Israel não faria o que faz sem a ajuda americana”, resume James Akins.

A relação entre Estados Unidos e Israel é única no Congresso. Em 22 anos que servi ali, nunca houve um momento em que se discutiu a política dos EUA no Oriente Médio. Era sempre ‘o que Israel quer?’, e quase sempre o Congresso deu o que eles queriam, sem qualquer debate, sem qualquer consideração. Este tipo de política existe devido a vários pontos. Um deles é lobby dos EUA para com Israel, através do Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel (AIPAC, em inglês). Esta instituição tem um orçamento milionário, mantém um grupo de lobistas trabalhando no Congresso, que legisla o processo, que conhece as pessoas e atua em favor de Israel”, explica o ex-congressista estadunidense (1961-1983) Paul Frindley.

Os congressistas imaginam que se você se opor a Israel será derrotado nas próximas eleições”, resume Akins.

Entre 1978 e 2006, os Comitês de Ação Pró-Israel contribuíram com US 43.724.035,00 milhões para a campanha de candidatos que se comprometeram a votar de acordo com as orientações da AIPAC no Congresso estadunidense.

Frindley cita outro aspecto interessante do apoio incondicional que os estadunidenses concedem a Israel. Trata-se de um conceito de fundo religioso: “Outro fator deste apoio é a comunidade cristã fundamentalista (como a Christian Coalition of América). Os fundamentalistas, representados por pastores de tevê, acreditam que um Israel mais forte é parte dos planos de Deus. Eles acreditam que um dia virá em que uma batalha ocorrerá no Oriente Médio, como no Armagedon, com as forças da verdade e da justiça de um lado e as forças do mal do outro lado. E nesta luta, os cristãos, liderados pelo Cristo em sua segunda vinda irão prevalecer. Todos os judeus ou serão destruídos ou imediatamente convertidos ao cristianismo. Este ponto de vista pode ser encarado de forma não convencional, mas, acredite, é amplamente apoiada por milhões de americanos”.

Esta visão apocalíptica é defendida, por exemplo, pelo Reverendo Pat Robertson, que disse ter tido uma visão na qual os cristãos americanos deveriam ajudar Israel: “Não importa o que aconteça, não importa o que eles (os judeus) façam, esta é a vontade de Deus”, afirmou.

Professor de história, teólogo e membro do grupo Christians and Muslims for Peace, o dr. William Baker discorda: “Eu, como cristão e pastor, rebato esta tese, não em meu nome, mas em nome de 120 milhões de cristãos. Como ele ousa dizer que podemos apoiar injustiça e opressão? Nós não podemos!”.

A mídia estadunidense tem uma responsabilidade direta na manutenção do suporte a Israel, escondendo grande quantidade de informações: “É o clássico caso da mentira por omissão”, afirma Alison Weir. Segundo ela, importantes declarações de diplomatas americanos, senadores e líderes militares não são reportadas ao grande público, ou são simplesmente retiradas das reportagens. “A informação esta sendo manipulada”, afirma.

Esta influência sobre o Congresso prejudica o direito de livre expressão e do debate aberto, o que considero muito destrutivo para as nossas instituições e para o nosso melhor interesse nas questões mundiais”, conclui Frindley.

Anti-semitismo?

Uma das principais estratégias adotadas por Israel para desclassificar as críticas contra seus métodos de dominação sobre os palestinos e suas terras é imediatamente classificá-las como reações anti-semitas.

Trata-se de um engodo, de uma manobra que tenta imprimir um caráter ilegítimo a denúncias que são confirmadas por pessoas e entidades que historicamente nunca tiveram posturas deste gênero, mas sim de luta por causas humanitárias. “Criticar as políticas israelenses de assassinar pessoas e atirar em crianças não é racismo, é afirmar a humanidade”, afirma Allegra Pacheco.

Nós temos que dizer a verdade sobre o que está ocorrendo. E dizer da forma mais clara possível (aos israelenses), se vocês continuarem pactuando com isso vão destruir a si mesmos. Nenhum inimigo destruirá vocês. Vocês irão para o seu próprio fim pelo método que usam contra inocentes”, conclui Adam Keller.

Finalizando

“Occupation 101: Vozes da Maioria Silenciada” nos oferece uma tenebrosa idéia do que é ser um palestino em um território ocupado pelos israelenses. Talvez seus produtores tivessem, no entanto, a esperança de que, alguns anos depois de finalizarem o filme, o mundo estivesse mais consciente e propenso a exigir um basta no terrorismo de Estado promovido por Israel. Infelizmente, as forças do poder político-econômico ainda logram manter um véu de ilusão sobre a mídia internacional e boa parte da civilização ocidental. Os resultados desta cegueira e desta omissão estão refletidos no massacre de inocentes promovido nas últimas semanas na Faixa Gaza.

Após 23 dias de bombardeios quase ininterruptos, finalmente esta nova matança chegou ao fim (pelo menos oficialmente). A ofensiva israelense sobre a Faixa de Gaza, iniciada no dia 26 de dezembro de 2008, cujo objetivo – segundo Israel – era destruir a estrutura militar do Hamas deixou, até a última contagem, 1310 palestinos mortos e cerca de 5600 feridos. Grupos de defesa dos direitos humanos em Gaza disseram que 700 dos mortos são civis, muito deles crianças. Israel perdeu dez soldados em combates e três civis mortos por foguetes.

As mortes de civis desencadearam protestos públicos no exterior e levaram altos representantes da ONU a pedir investigações independentes para determinar se Israel cometeu crimes de guerra. Os palestinos há muito tempo pedem que as repressões militares israelenses sejam julgadas no âmbito internacional. Mas faltam dispositivos legais para isso.

A Corte Criminal Internacional (CCI) em Haia não tem jurisdição para investigar na Faixa de Gaza, já que o território não é um Estado. Embora a Autoridade Palestina venha funcionando como instância soberana interina desde 1993, ela foi expulsa de Gaza pelo Hamas no ano passado, depois de o grupo islâmico vencer uma eleição.

Embora Israel não tenha assinado o Estatuto de Roma, que instituiu a CCI, o país pode ser investigado, mas isso exigiria um mandato do Conselho de Segurança da ONU. Qualquer proposta nesse sentido certamente seria vetada pelos EUA.

Médicos e grupos de defesa dos direitos humanos também acusam Israel de uso ilegal de munições contendo fósforo branco, que pode provocar queimaduras graves. Israel não apresentou qualquer relatório sobre as munições, mas disse que todas suas armas obedecem às leis internacionais. Outra acusação feita a Israel é de violação do princípio da proporcionalidade nos ataques aos guerrilheiros palestinos, cujas forças eram muito inferiores. Israel diz que usou da força necessária para minimizar suas baixas durante a guerra urbana contra o Hamas.

O fato é que, como disse João Villaverde em seu blog, “2009 começa e a Palestina continua ocupada”.

Talvez a melhor forma de finalizar este texto seja citando o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que em artigo publicado originalmente no site Brecha e reproduzido no RS Urgente (tradução de Katarina Peixoto), pergunta: “Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não conseguiu bombardear impunemente ao País Basco para acabar com o ETA, nem o governo britânico pôde arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência manda chuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?