Semana On

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Pessoa

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Lançamento de "Outros Sentidos" no Rio


Estarei no Rio de Janeiro nesta sexta-feira,26, lançando o meu livro, "Outros Sentidos". Se estiveres no Rio apareça por lá. Confira o folder.

A face da violência no Mato Grosso do Sul

Foi-se o tempo em que Mato Grosso do Sul era visto como um estado tranqüilo, pacífico, com ares interioranos. A realidade hoje é bem diferente e se reflete em Campo Grande. Se a capital ainda não registra índices de violência similares aos dos grandes centros, os que já se apresentam assustam e são maiores do que aparentam, visto que acabam sendo maquiados pela ausência de um levantamento confiável das ocorrências. A sensação de abandono por parte do poder público faz com que a população fique acuada ou, pior, acostumada à violência.

Levantamento feito a partir da observação das editorias de polícia dos sites de notícias da capital entre os dias 1º e 24 de setembro nos oferece uma idéia do grau de violência a que o campo-grandense está exposto. Neste período os sites noticiaram três assaltos a bancos, 60 assaltos à mão armada (20 deles assaltos a ônibus), cinco furtos, quatro agressões, quatro tentativas de homicídio e sete homicídios em Campo Grande. Em todo o estado foram contabilizados 44 homicídios no período.

Com cerca de 750 mil habitantes Campo Grande aparece em 515º lugar no “Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros 2008”, levantamento feito pela Rede de Informação Tecnológica Latino Americana (RITLA), Instituto Sangari, Ministério da Saúde e Ministério da Justiça. A capital do estado - lado a lado com outros 18 municípios sul-mato-grossenses - figura em uma fatia que representa os 10% de municípios mais violentos do País, em uma relação entre o número de homicídios registrados e a população do município. Segundo a pesquisa, Campo Grande registrou 1.130 homicídios entre 2002 e 2006.

O município mais violento do país é sul-mato-grossense. Trata-se de Coronel Sapucaia, com 74 homicídios em cinco anos. Localizado a 383 quilômetros de Campo Grande, na fronteira com a cidade paraguaia de Capitan Bado, a cidade apresenta a média de 107,2 homicídios para cada 100 mil habitantes.

Nada menos do que 73,3% do total de homicídios ocorridos no Brasil foram cometidos nos 556 municípios mais violentos entre os 5.564 municípios brasileiros. Todos os estados possuem pelo menos um município fazendo parte destes 10%.

Além de Coronel Sapucaia e Campo Grande, os outros 18 municípios do estado que figuram entre os 556 mais violentos do País são Aral Moreira (39ª colocação) com 25 homicídios; Japorã (55º colocação) com 15 homicídios, Ponta Porá (156º colocação) com 194 homicídios, Corumbá (211º colocação) com 193 homicídios, Dourados (214º colocação) com 385 homicídios, Água Clara (222º colocação) com 28 homicídios, Porto Murtinho (225º colocação) com 37 homicídio, Ribas do Rio Pardo (227º colocação) com 46 homicídios, Iguatemi (239º colocação) com 24 homicídios, Paranhos (244º colocação) com 29 homicídios, Inocência (256º colocação) com 13 homicídios, Amanbai (258º colocação) com 71 homicídios, Rio Brilhante (274º colocação) com 54 homicídios, Sete Quedas (307º colocação) com 22 homicídios, Três Lagoas (364º colocação) com 136 homicídios, Bela Vista (394º colocação) com 31 homicídios, Eldorado (432º colocação) com 14 homicídios e Camapuã (515º colocação) com 19 homicídios.

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional de Mato Grosso do Sul (OAB/MS), Fábio Trad, considera que o país vive uma "guerra civil não declarada" e “triste” o fato de que Coronel Sapucaia seja considerado o campeão de assassinatos no país. Ele defende a presença do Exército na fronteira e a participação das forças policiais brasileiras e paraguaias para enfrentar o problema.

O presidente da OAB/MS cita dados do livro “Insegurança Pública”, de José Vicente da Silva Filho: “Qualquer localidade que registre três homicídios ao ano por 10 mil habitantes estará entrando em fase grave de violência; acima de cinco já está em situação gravíssima (SP, RJ e arredores do DF). Acima de sete, está em fase crítica de perda de controle. O que dizer de Coronel Sapucaia que tem 13 homicídios para cada 10 mil habitantes? Passou do último estágio de alerta. São índices do oeste americano do século 19”.

O número de prisões efetuadas pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul entre janeiro e agosto de 2008 já supera os números do mesmo período de 2007. No ano passado foram cumpridos 2.617 mandados de prisão enquanto em 2008 já são 3.947. Um crescimento de 50,82%. Além do aumento na quantidade de mandados de prisão cumpridos, a Polícia Civil também intensificou os autos de prisão em fragrante (passando de 4.040 para 4.568, o que representa variação de 13,07%) e os mandados de busca e apreensão (que subiram de 351 para 420 – aumento de 19,66%).

MAPA DA VIOLÊNCIA NO ESTADO EM SETEMBRO DE 2008
Levantamento feito com base nas editorias de polícia dos sites de notícia do estado entre os dias 1º e 24 de setembro

AMAMBAI
03 Homicídios
01 Tentativa de homicídio
03 Assaltos

AQUIDAUANA
03 Homicídios

ARAL MOREIRA
01 Homicídio

BANDEIRANTES
01 Homicídio

CAARAPÓ
01 Homicídio

CAMPO GRANDE
07 Homicídios
04 Tentativas de homicídio
02 Seqüestros relâmpago
04 Agressões
05 Roubos
20 Assaltos a ônibus
40 Assaltos
03 Assaltos à banco

CORONEL SAPUCAIA
03 Homicídios
03 Assaltos

CORUMBA
03 Tentativas de homicídio
01 Agressão

COSTA RICA
01 Tentativa de homicídio
01 Assalto

COXIM
01 Assalto

DOURADOS
09 Homícidios
09 Tentativas de Homicídio
21 Assaltos
01 Seqüestro relâmpago
03 Roubos
01 Assalto a ônibus
01 agressão

FÁTIMA DO SUL
2 Assaltos

IGUATEMI
01 Agressão

JAPORÃ
02 Homicídios

JARAGUARI
01 Homicídio

JARDIM
01 Agressão

LADÁRIO
01 Homicídio
02 Tentativas de homicídio

MIRANDA
01 Assalto

MUNDO NOVO
01 Homicídio
01 Assalto

NAVIRAÍ
02 Roubos

NOVA ANDADINA
04 Homicídios
01 Tentativa de homicídio
02 Assaltos

PARANAÍBA
01 Roubo

PONTA PORÃ
01 Homicídio
01 Tentativa de homicídio
01 Assalto à banco
03 Assaltos

RIBAS DO RIO PARDO
01 Assalto

RIO BRILHANTE
01 Homicídio

SÃO GABRIEL DO OESTE
01 Homicídio

SETE QUEDAS
01 Tentativa de homicídio

SIDROLÂNDIA
01 Tentativa de homicídio
01 Assalto

SONORA
01 Tentativa de homicídio
01 Agressão

TERENOS
01 Homicídio

TRÊS LAGOAS
01 Homicídio
03 Tentativas de homicídio
06 Agressões
12 Assaltos
03 Roubos

Victor Barone

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Poema Noturno

Um louco em mim diz vai,
fala o que é para ser dito,
arregala uma boca
cheia de veneno

Mas me acovardo atrás de letras
Digo apenas o que querem ouvir
Destilo a peçonha em mim mesmo

Um louco em mim diz grita,
caminha os passos que são claros,
fecha os olhos e pula
sem medo do ar

Mas me encolho entre vozes
Fecho os olhos, que são rasos
Apronto a ladainha que querem ouvir

Um louco em mim diz mata,
arrebenta a cabeça da cobra,
espreme este mal
pela raiz

Mas insisto em andar descalço
Por este mar de navalhas
Que me adoçam a ferida exposta

VB

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Nós, os analfabetos funcionais

É comum no imaginário brasileiro olharmos nossos vizinhos com um certo ar de superioridade, como se o Brasil estivesse em patamar superior as demais nações latino-americanas. Apesar de ficarmos atrás apenas do Chile no que se refere à economia, a “pujança” brasileira é repleta de buracos negros, de indícios de nosso subdesenvolvimento. É o que mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), divulgada nesta semana, que nos coloca atrás da Bolívia e do Suriname nos índices de analfabetismo. Estamos em 15º lugar em um ranking de 22 países da América do Sul e do Caribe.
Alguns noticiários destacaram o fato de que, assim como os demais indicadores sociais, o índice de analfabetismo também apresentou avanços em 2007, de acordo com o IBGE, atingindo o menor índice em 15 anos. O Instituto considera alfabetizado quem consegue ler e escrever pelo menos um bilhete e calcula que o país tenha 14,1 milhões de habitantes inaptos para concluir uma simples leitura ou rascunhar algumas frases.

Pelo critério mais correto, no entanto, e crescentemente adotado mundo afora - o de analfabeto funcional – a situação se mostra mais complexa. Segundo este critério, apenas 1 de cada 4 brasileiros (25% da população) seria plenamente alfabetizado. Além disso, por qualquer critério, o número absoluto de analfabetos no Brasil é maior do que o registrado em 1960 e o dobro do verificado no início do século 20, segundo pesquisa recém-concluída pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), ligado ao Ministério da Cultura (MEC).
O Analfabeto Funcional é aquele que consegue escrever um pouco, assina o nome, mas não é capaz de entender tudo o que lê, é incapaz de interpretar textos mais complexos ou de realizar simples operações matemáticas. A maioria destes brasileiros deixa a escola com menos de quatro anos de estudo e depois enfrentam limitações por toda a vida.

Recente reportagem do Jornal do Commercio, de Recife (PE), mostra o problema em seu nascedouro ao entrevistar alunos da Rede Municipal de Ensino. Um menino da 6ª série do ensino fundamental escrevia kaia no lugar de casa; no lugar de bola, bobi. A palavra mala foi grafada baga. Lata foi escrita aia. Em outra escola, um estudante de 14 anos negou-se a ler um pequeno texto do livro de ciências, ciente de sua deficiência. Na verdade, segundo uma professora, o menino não sabia ler. “Em outro colégio municipal, um estudante da 5ª série, 13, aceita o pedido, mas nas primeiras frases, desiste. Atropela as palavras e confunde as letras. Pára e diz que não quer mais continuar. Questionado se entendeu o que leu, ele fica em silêncio”, continua a reportagem.

Apesar de os índices de analfabetismo serem mais fortes no Nordeste, enganam-se os que imaginam que esta realidade seja exclusividade desta região. Ela se espalha por todo o Brasil e também não se limita ao ensino fundamental. Recentemente, em uma universidade particular de Campo Grande, um aluno do curso de jornalismo expunha sua dificuldade em entender conceitos básicos de ideologia em um artigo lido em sala de aula. Segundo um professor universitário campo-grandense, “muitos alunos são incapazes de ler um texto e interpretá-lo nas entrelinhas, ou mesmo nas linhas, e de escrever um texto de uma página com coerência e coesão”.

A pesquisa do INEP aponta que o analfabeto funcional não é fruto apenas da precariedade do ensino no Brasil, mas também de hábitos familiares. A escolaridade dos pais dos analfabetos funcionais não chega à 4ª série para 71% dos casos e apenas 6% passaram da 8ª série. A pesquisa indica que os hábitos de leitura da família e a presença de livros em casa afetam o nível de alfabetização. Normalmente quem cresceu em um ambiente em que a leitura não era valorizada hoje não tem o hábito de ler.

Segundo dados recentes do Instituto Paulo Montenegro (braço social do Ibope), no Brasil o analfabetismo funcional atinge cerca de 68% da população (30% no nível 1 e 38% no nível 2 – Veja o Box 1). Somados esses 68% de analfabetos funcionais com os 7% da população que é totalmente analfabeta, resulta que 75% da população não possui o domínio pleno da leitura, da escrita e das operações matemáticas, ou seja, apenas 1 de cada 4 brasileiros (25% da população) é plenamente alfabetizado, isto é, está no nível 3 de alfabetização funcional.

Este drama se reflete diretamente na formação do brasileiro, em sua capacidade de raciocínio e de produção. É o que mostra pesquisa para tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP), realizada no final do ano passado pelo professor de finanças e consultor de empresas Geraldo Galhano, segundo a qual trabalhadores alfabetizados não conseguem compreender informações fundamentais para o desenvolvimento da atividade profissional. Um exemplo prático ocorre em uma montadora de São Bernardo (SP), onde simples manuais de instruções de equipamentos ou comunicados do departamento de Recursos Humanos tornam-se enigmas indecifráveis para 78,5% dos funcionários de um setor da produção.

Com base no Produto Interno Bruto (PIB) das indústrias brasileiras e no percentual médio destinado pelas empresas a desenvolvimento de pessoal, estima-se que as companhias do país perdem entre US$ 6 bilhões e US$ 10 bilhões em razão do analfabetismo funcional. Isso porque, muitas vezes as empresas treinam funcionários que não entendem a mensagem transmitida, o que prejudica a produtividade.


BOX 1

O que significa Alfabetismo Funcional

A definição de analfabetismo vem, ao longo das últimas décadas, sofrendo revisões significativas como reflexo das próprias mudanças sociais. Em 1958, a UNESCO definia como alfabetizada uma pessoa capaz de ler e escrever um enunciado simples, relacionado a sua vida diária. Vinte anos depois, a UNESCO sugeriu a adoção dos conceitos de analfabetismo e alfabetismo funcional. Portanto, é considerada alfabetizada funcional a pessoa capaz de utilizar a leitura e escrita e habilidades matemáticas para fazer frente às demandas de seu contexto social e utilizá-las para continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida.

Quais os níveis de alfabetismo funcional em relação às habilidades de leitura e escrita

Analfabeto - não consegue realizar tarefas simples que envolvem decodificação de palavras e frases;
Nível 1 - Alfabetismo nível rudimentar: corresponde à capacidade de localizar informações explícitas em textos muito curtos, cuja configuração auxilia o reconhecimento do conteúdo solicitado. Por exemplo, identificar o título de uma revista ou, em um anúncio, localizar a data em que se inicia uma campanha de vacinação ou a idade a partir da qual a vacina pode ser tomada;
Nível 2 - Alfabetismo nível básico: corresponde à capacidade de localizar informações em textos curtos (por exemplo, em uma carta reclamando de um defeito em uma geladeira comprada, identificar o defeito apresentado; localizar informações em textos de extensão média); e
Nível 3 - Alfabetismo nível pleno: corresponde à capacidade de ler textos longos, orientando-se por subtítulos, localizando mais de uma informação, de acordo com condições estabelecidas, relacionando partes de um texto, comparando dois textos, realizando inferências e sínteses.

Quais os níveis de alfabetismo funcional em relação às habilidades de matemáticas.

Analfabeto - não consegue realizar operações básicas com números como ler o preço de um produto ou anotar um número de telefone;
Nível 1 - Alfabetismo nivel rudimentar: corresponde à capacidade de ler números em contextos específicos como preço, horário, números de telefone etc.;
Nível 2 - Alfabetismo nível básico: corresponde à capacidade de dominar completamente a leitura de números, resolver operações usuais envolvendo soma, subtração e até multiplicação, recorrendo facilmente à calculadora, mas não possuindo a capacidade de identificar a existência de relação de proporcionalidade;
Nível 3 - Alfabetismo nível pleno: corresponde à capacidade de controlar uma estratégia na resolução de problemas mais complexos, com execuções de uma série de operações relacionadas entre si, apresentando familiaridades com mapas e gráficos, e não apresentando dificuldades em relação à matemática.


BOX 2

A importância da escolaridade no Indicador de Alfabetismo Funcional

- A maioria dos brasileiros (64%) entre 15 e 64 anos que estudaram até a 4ª série atinge no máximo o grau rudimentar de alfabetismo, ou seja, localizam somente informações explícitas em textos curtos e efetuam operações matemáticas simples, mas não compreendem textos mais longos nem definem estratégias de cálculo para resolução de problemas.
- E ainda mais grave: 12% destas pessoas podem ser consideradas analfabetas absolutas em termos de leitura/escrita, não conseguindo codificar palavras e frases, mesmo que simples, além de terem dificuldade em lidar com números em situações do dia-a-dia.
- Dentre os que cursam da 5ª a 8ª série, apenas 20% podem ser considerados plenamente alfabetizados e 26% ainda permanecem no nível rudimentar, com sérias limitações.
- Enquanto 47% dos que cursaram ou estão cursando o Ensino Médio atingem o nível pleno de alfabetismo, esperado para este grau de escolaridade, outros 45% ainda permanecem no nível básico.
- Somente entre aqueles que atingem ou completam o Ensino Superior observa-se uma maioria (74%) com pleno domínio das habilidades de leitura/escrita e das habilidades matemáticas.

Victor Barone

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Quem é quem na questão indígena?

Afinal, que história é esta de demarcações indígenas em Mato Grosso do Sul? Quando a Fundação Nacional do Índio (Funai) publicou suas seis portarias com o intuito de iniciar estudos em 26 municípios do estado para identificar e delimitar terras indígenas dos povos guaranis-caiovás e guaranis-nhandevas o céu desabou. Produtores rurais, políticos e jornalistas alertaram para um cataclisma econômico. Defensores dos direitos dos índios levantaram a voz para apontá-los. Independente das opiniões divididas sobre a questão indígena no Brasil, é necessário abordar o tema com distanciamento, sob pena de reproduzirmos meias-verdades.

É fato que a política indigenista promovida pelo Governo Federal e pela Funai nas últimas décadas é perniciosa (em especial para os próprios índios). Excluindo as poucas tribos isoladas, com pouco ou nenhum contato com a cultura do homem branco, a maioria das populações indígenas do país está imersa em bolsões entranhados em meio à civilização. Estes índios há muito abandonaram seu modo de vida dependente da coleta e da caça. Vivem, isso sim, do paternalismo governamental, de sub-empregos nas cercanias das tribos ou da devastação de suas terras (basta perguntar quem são os maiores contrabandistas de madeira na Amazônia). São espectros vagando entre um passado de tradições e um presente pontilhado pela presença inexorável do homem branco.

Dizer que estas populações precisam de terras para manter suas tradições é tapar o sol com a peneira, é alimentar o romantismo arcaico que domina muitas linhas de pensamento filosófico e antropológico no Brasil. Estas populações precisam, sim, ter sua cultura preservada e incentivada, mas isso só é possível com cidadania. Muitas tribos norte-americanas mantém suas tradições imersas na cultura branca e com isso ganham em educação, formação técnico-científica e cultural o que, por conseqüência, leva desenvolvimento e melhores condições de vida a estes mesmos povos.

Portanto, é necessário repensar o tema. Nesta semana, o presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), antropólogo Carlos Caroso, publicou artigo no Jornal O Estado de São Paulo, no qual trata da reivindicação indígenas por terras em Mato Grosso do Sul. Ele garante que o alarde feito por produtores rurais não tem razão de ser. Diz que “as terras reivindicadas poderão alcançar aproximativamente de 500 mil a 600 mil hectares - 1,4% a 1,7% do território do Estado, e não 33%, como apregoado na mídia”.

Para Caroso – alinhado com o pensamento que viceja entre os indigenistas brasileiros – 44 mil hectares de terra (quantidade de terra a disposição dos guaranis no estado atualmente) é insuficiente para que os 43 mil indivíduos que compõem a população guarani em MS se desenvolvam e vivam em paz. Um hectare por pessoa. É o que os índios sul-mato-grossenses possuem hoje. É pouco? Se forem desapropriados 500 mil hectares cada índio no estado será dono de mais de 10 hectares.

É certo que a mobilização dos produtores rurais peca pelo exagero ao dizer que o estado poderia perder 12 milhões de hectares, correspondendo aproximadamente a um terço do território estadual. Colocaram no mesmo saco todas as terras passíveis de vistoria; optaram por espalhar o temor por entre a população. No entanto, o cerne da preocupação procede. Afinal, pensar em perder um centímetro de terra produtiva em uma época em que a produção de riqueza se faz tão necessária para o estado é algo difícil.

O filósofo Denis Lerrer Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), resumiu bem a questão em recente artigo que, apesar de também estar calcado em previsões superlativas quanto à quantidade de terras a serem desapropriadas, expõe a real preocupação dos que criticam a política da Funai.

Rosenfield alega que, seguindo-se a filosofia da Fundação, a maior parte da orla brasileira poderia ser desapropriada e entregue a nações indígenas: “Quais foram às primeiras cidades a que chegaram os portugueses? Salvador e Rio de Janeiro. É de todos conhecido, por relatos históricos e quadros, que se tratava de regiões tradicionalmente ocupadas por indígenas. Se fôssemos seguir esse argumento à risca, chegaríamos à conclusão de que estamos diante de terras indígenas, que deveriam ser demarcadas”, argumenta.

A questão transcende interesses regionais ou de classe. A pergunta que deve ser feita é se estamos dispostos a ceder imensas quantidades de terras a grupos indígenas que já se encontram à orla da civilização e que – até que se prove o contrário – continuarão vivendo em condições sub-humanas, com ou sem terra, pelo simples fato de que sua cultura está equilibrada sobre a fina navalha da civilização.

É preciso deixar de lado o romantismo paternalista de muitos indigenistas e as visões apocalípticas dos produtores rurais para estabelecer critérios que possibilitem aos povos indígenas condições mínimas de sobrevivência e desenvolvimento diante da inevitável proximidade da civilização. Para isso, no entanto, é preciso mexer em um vespeiro no qual poucos homens públicos teriam coragem de colocar a mão.

Victor Barone

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Não seja um analfabeto político

No dia cinco de outubro, dia no qual os 128.805.829 eleitores brasileiros escolherão seus prefeitos e vereadores, é proibida a aglomeração de pessoas e veículos com material de propaganda caracterizando manifestação coletiva de preferência eleitoral; não é permitido o uso de alto-falantes, nem a realização de comícios ou carreatas; é proibido também reunir ou transportar eleitores, fazer boca-de-urna ou qualquer espécie de propaganda de partidos políticos ou de candidatos em publicações, cartazes, camisas, bonés, broches ou adesivos em vestuário. Mas o que não pode mesmo, no dia da eleição, é alimentar as estatísticas do analfabetismo político.

Para se ter uma idéia, recente pesquisa feita com eleitores de Porto Alegre mostrou que 61% deles esqueceram em quem votaram para a Câmara de Vereadores há quatro anos. O número sobe para 65% quando se incluem na soma aqueles 4% que garantem recordar, mas não sabem dizer o nome exato do candidato. Em Campo Grande e demais municípios sul-mato-grossenses os números não seriam muito diferentes. Para confirmar, pergunte a si mesmo: em quem votei para vereador em 2004? Não lembra? Bem vindo ao Clube dos Analfabetos Políticos.

Para fugir desta contabilidade sinistra, é preciso ter em mente que o seu voto pode definir o futuro de seu município, os caminhos que ele traçará pelos próximos 1.460 dias. Conforme atesta o Guia das Eleições 2008 do Tribunal Superior Eleitoral, é bom lembrar que “os candidatos eleitos serão responsáveis pela administração das nossas cidades por um período de quatro anos, por isso temos que escolher bem os nossos representantes”.

Banco de Dados da Cidadania - O primeiro passo para “escolher bem seus representantes” é saber qual o papel deles (veja os Boxes) e, principalmente, quem são eles. Em um mundo dominado pela informação digital, alguns sites de notícia cumprem um papel fundamental na tentativa de esclarecer o eleitor sobre quem é quem durante as eleições.

Bons exemplos são os sites Transparência Brasil (http://www.transparencia.org.br) – que apresenta um apanhado geral da ação parlamentar e eleitoral no país; Excelências (http://www.excelencias.org.br/) – que traz históricos dos parlamentares brasileiros, seus processos na Justiça, como gastam o dinheiro que recebem, quem financiou suas campanhas eleitorais e muito mais; Deu no Jornal (http://www.deunojornal.org.br/) - um banco de dados de reportagens relacionadas à corrupção e seu combate, publicadas em jornais e revistas de todos os estados; e As Claras (http://www.asclaras.org.br) – que apresenta um mapa do financiamento eleitoral no Brasil.

Como escolher? Um predicado deve nortear todos os candidatos a cargos públicos, independente das correntes ideológicas ou coloração partidária: a honestidade. Portanto, a melhor dica para este dia de eleição é analisar bem a quem você irá confiar seu voto. Avalie o caráter do candidato, seu passado, a qualidade de suas propostas, sua competência e seu compromisso com a comunidade. Analise a história de vida do candidato: o que ele já fez, que idéias defendeu, se está metido em encrencas ou se tem apenas uma boa conversa. Desconfie do candidato que não apresente projetos viáveis e úteis para a comunidade e o município. Cuidado também com o candidato que promete maravilhas, pressiona os eleitores, compra votos e cai na armadilha da crítica fácil aos adversários, sem dizer como vai trabalhar para realizar suas promessas.


BOX 1
Qual o papel do prefeito?


O poder executivo municipal é exercido pelo prefeito, que é o responsável pela administração do município. Isso inclui a realização de obras, a prestação de serviços públicos tais como saúde, educação, abastecimento de água, limpeza das ruas e outros. Ele também é responsável pela execução de programas que beneficiem a comunidade, como programas de apoio ao agricultor, e pela fiscalização do cumprimento das leis aprovadas pelos vereadores. O prefeito deve prestar contas de seu trabalho à câmara de vereadores e aos cidadãos.
O bom prefeito - esclarece o Tribunal Superior Eleitoral - é aquele que está a serviço do município, conhece as necessidades de cada comunidade e resolve seus problemas. Não só administra com dedicação e seriedade, mas também presta contas de seu trabalho. Ele ajuda a criar as condições para que a comunidade se desenvolva. A melhor prova do trabalho de um bom prefeito são as melhorias que ele produz no município.
Cuidado com prefeitos que fazem obras ou prestam serviços como se fossem um presente para a população – isso tudo é pago com dinheiro público, que pertence ao povo. Veja bem se o prefeito administra com competência e sem nenhum favorecimento os recursos que, afinal, são da comunidade.
Que ações posso exigir da Prefeitura? O cidadão pode e deve cobrar da Prefeitura a realização de obras, consertos em bens públicos e serviços de saneamento, limpeza, educação, transporte, saúde, abastecimento, assistência social e incentivo à geração de emprego e renda, além de condições de lazer e cultura, como praças, parques e a realização de eventos culturais. O cidadão deve exigir esses direitos diretamente dos órgãos da prefeitura, como secretarias, ouvidorias, entidades de fiscalização, postos de saúde e escolas, ou do próprio prefeito, conforme o caso.


BOX 2
Qual o papel dos vereadores?


O Poder Legislativo no município é exercido pelos vereadores na Câmara Municipal. Os vereadores representam os cidadãos e fazem as leis do município, que devem ser cumpridas por todos, inclusive, pelas empresas e pela própria Prefeitura. É papel do vereador fiscalizar a atuação do prefeito, vice-prefeito e secretários municipais e os atos de toda a administração municipal. Também é dever do vereador defender melhorias para o município nas áreas de saúde, educação, transportes etc. Ou seja: os vereadores devem ser os olhos, os ouvidos e a voz do cidadão junto à prefeitura municipal.
Um bom vereador é aquele que age como representante do povo e apresenta boas propostas para melhorar a vida no município. Um bom vereador não age como intermediário para conseguir benefícios apenas para determinado cidadão. Ele pensa sempre no interesse de todos e trabalha ouvindo a população, seja na elaboração de leis melhores, seja na fiscalização da ação do governo municipal.
Que ações se pode exigir dos vereadores? O cidadão pode sugerir aos vereadores a elaboração de leis que possam, por exemplo, melhorar as condições de vida na cidade, estimular o comércio e a economia local e preservar o meio ambiente. Para acompanhar as ações de seus representantes, os cidadãos podem assistir às sessões da Câmara Municipal e participar da atividade legislativa. A população pode e deve exigir que os vereadores fiscalizem todas as ações da Prefeitura - e que denunciem o que estiver sendo feito de modo errado.

Victor Barone

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

ARS LONGA

Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.

Mario Quintana (Caderno H)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Retrato do Brasil

Índios, negros, amarelos, brancos? Somos seres humanos e brasileiros de quebra.



Que preto, que branco, que índio o quê?
Que branco, que índio, que preto o quê?
Que índio, que preto, que branco o quê?
Que preto branco índio o quê?
Branco índio preto o quê?
Índio preto branco o quê?

Aqui somos mestiços mulatos
Cafuzos pardos mamelucis sararás
Crilouros guaranisseis e judárabes

Orientupis orientupis
Ameriquítalos luso nipo caboclos
Orientupis orientupis
Iberibárbaros indo ciganagôs

Somos o que somos
Inclassificáveis

Não tem um, tem dois
Não tem dois, tem três
Não tem lei, tem leis
Não tem vez, tem vezes
Não tem Deus, tem Deuses
Não há sol a sós

Aqui somos mestiços mulatos
Cafuzos pardos tapuias tupinamboclos
Americarataís yorubárbaros

Somos o que somos
Inclassificáveis

Que preto, que branco, que índio o quê?
Que branco, que índio, que preto o quê?
Que índio, que preto, que branco o quê?
Não tem um, tem dois
Não tem dois, tem três
Não tem lei, tem leis
Não tem vez, tem vezes
Não tem deus, tem deuses
Não tem cor, tem cores
Não há sol a sós

Egipciganos tupinamboclos
Yorubárbaros carataís
Caribocarijós orientapuias
Mamemulatos tropicaburés
Chibarrosados mesticigenados
Oxigenados debaixo do sol

Nei Matogrosso

Manifestações contra a exigência de diploma de jornalismo

“Mais uma vez misturam-se conceitos, isto é, liberdade de empresa com liberdade de imprensa, diploma e democratização da informação. Por que o exercício da profissão de jornalista sem diploma ampliaria a liberdade de imprensa? Eis uma tese que não se sustenta. Ou por que o diploma por si só garantiria a democratização dos meios de comunicação? Nem uma coisa, nem outra. A democratização dos veículos de comunicação só pode ser garantida pela sociedade, que deve se mobilizar para também neutralizar a tendência da manipulação da informação, tão em voga na atualidade”.
MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND (jornalista e escritor, atuou em diversos veículos como O Pasquim, Versus, Folha de S. Paulo, Tribuna da Imprensa e outros) em Sobre democratização da mídia e o diploma, comunicação apresentada ao I Congresso de Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro, em Niterói, 8 e 9 de agosto de 2008, publicada no Observatório da Imprensa, 12/08/2008.

“Uma conseqüência inevitável do fim do diploma de jornalista obrigatório seria uma enxugada vigorosa na quantidade de faculdades privadas de jornalismo. A exigência do diploma específico fez surgir no Brasil uma quantidade de cursos fáceis para quem pode pagar, que jogam anualmente no mercado uma quantidade de profissionais com mínimas possibilidades de emprego. Claro, há instituições de alto nível, como a nossa [Pontifícia] Universidade Católica. Mas não faltam arapucas, que só prosperam graças à exigência do diploma em comunicação”.
LUIZ GARCIA (jornalista e colunista de O Globo) em “Tiro na pata”, O Globo, 29/07/2008.

“Acredito que hoje o diploma represente uma reserva de legitimação dos sindicatos. É claro que os sindicatos tiveram uma importância histórica nas lutas políticas e vão continuar a ter, mas também considero que devemos passar por um momento de mudança dessa mentalidade, porque quem faz jornalismo hoje não é só jornalista. Nós temos vários outros grupos sociais produzindo jornalismo. (…) Creio que o diploma já foi importante, mas não é mais. As escolas de comunicação precisam vender qualidade e não reserva de mercado para um determinado profissional. (…) Se a exigência do diploma acabasse amanhã, os cursos de comunicação continuariam iguais. Os cursos que fazem a diferença dentro da formação desse profissional continuam formando profissionais de qualidade. O que muda e o que acaba são os cursos que realmente vendiam apenas o diploma”.
IVANA BENTES DE OLIVEIRA (diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro) na entrevista “É restritivo demais pensar só no jornalismo como centro da discussão midiática” (IHU Online, 26/03/2008).

“Na minha avaliação, levando em conta as complexidades e liberdades do mundo atual, e o que ele exige do jornalismo, o ingresso na profissão de jornalista deveria ser acessível a quaisquer cidadãos no pleno uso dos seus direitos, desde que provem ter formação superior concluída (com exceção das atividades em que tal exigência seja descabida). Precisariam, porém, passar por um período de estágio ou experiência probatória (no mínimo seis meses, no máximo um ano), com a devida remuneração, e com a obrigação de nesse período fazerem estudos sobre jornalismo, com orientação pedagógica”.
CARLOS CHAPARRO (professor da Escola de Comunicações e Artes da USP) no artigo “O diploma não pode ser o eixo da discussão” (Comunique-se, 11/8/2006).

Luiz Beltrão localizou na carga de conhecimentos o principal atributo do jornalismo, e para superar a falta de conhecimento, diante de um mundo cada vez mais exigente em saberes especializados, propôs a instituição dos cursos de jornalismo. Mas o resultado dessa experiência, praticamente única no mundo, foi constrangedor. O saber e a auto-estima dos jornalistas não aumentaram; ao contrário, caíram ainda mais. E a vocação deixou de ser critério para o ofício de jornalista. Vocação vem do latim vocare. Designa, mais que talento, um chamado interior sobre o qual não se tem controle, uma urgência de fazer algo”.
BERNARDO KUCINSKI (professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, ex-assessor especial da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República) em Jornalismo na Era Virtual: Ensaios sobre o colapso da razão ética. (São Paulo: Editora da Unesp e Fundação Perseu Abramo, 2005, pág. 103.)

“A tendência geral das sociedades contemporâneas para exigirem uma elevação dos níveis de estudos atingiu, naturalmente, o jornalismo, embora, com uma diferença notória em relação às profissões que requerem um diploma específico. O acesso ao jornalismo faz-se com recurso a cursos de comunicação ou jornalismo, mas também com base em outros cursos superiores ou universitários, acompanhados de formações ou pós-graduações específicas na área”.
JOSÉ VIEGAS SOARES (coordenador). “Implantação do processo de Bolonha a nível nacional: Comunicação”. Escola Superior de Comunicação Social, Lisboa: Instituto Politécnico de Lisboa, 30/11/2004, pág. 40.

“O primeiro problema para o jornalismo de precisão no Brasil será superar um sistema muito rígido que é feito para resistir à inovação. A maior barreira que vejo, de minha perspectiva norte-americana, é a lei que exige que os jornalistas sejam formados em escolas de jornalismo. Essa lei dá às escolas um mercado garantido e as priva do incentivo de fazer melhor as coisas. Sem a lei, as escolas teriam que visivelmente adicionar valor às habilidades existentes de seus estudantes para que pudessem sobreviver. Uma escola profissional deve ser a fonte da inovação e do desenvolvimento para a profissão a que serve. Mas, com um mercado cativo, não há necessidade de que ela faça nada além de assinar certificados de conclusão”.
PHILIP MEYER (professor de jornalismo da Universidade de Carolina do Norte em Chapell Hill e autor dos livros Precision Journalism e The Vanishing Newspaper) em entrevista ao jornalista Marcelo Soares, editor do blog E Você com Isso?, citada em sua monografia de graduação “Contribuição ao estudo das condições brasileiras para o uso das técnicas de reportagem auxiliada por computador (Computer-Assisted Reporting)”, apresentada em 2004 à Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob a orientação da professora Rosa Nívea Pedroso.

“A pergunta que as pessoas deviam fazer não é por que alguém se diz jornalista. O ponto importante é se esse alguém está de fato fazendo jornalismo. Será o trabalho o respeito aos princípios da verdade, à lealdade aos cidadãos e à comunidade de modo geral, a informação no lugar da manipulação — conceitos que fazem o jornalismo diferentes das outras formas de comunicação? A implicação importante disso tudo é esta: o significado de liberdade de expressão e de liberdade de imprensa é que eles pertencem a todos. Mas comunicação e jornalismo não são termos mutáveis. Qualquer um pode ser jornalista, mas nem todos o são. O fator decisivo não é que tenham um passe para entrar e sair dos lugares; o importante está na natureza do trabalho”
BILL KOVACH (professor de jornalismo da Universidade de Missouri e ex-curador da Fundação Nieman, na Universidade Harvard) e TOM ROSENSTIEL (diretor do Programa para Excelência do Jornalismo e ex-crítico de mídia do jornal Los Angeles Times) em Os Elementos do Jornalismo: O que os jornalistas devem saber e o que o público deve exigir. (Tradução de Wladir Dupont. São Paulo: Geração Editorial, 2003, pág. 151.)

“Todo mundo precisar ir à escola de Jornalismo? Claro que não. Mas nestes dias, quando a maioria das redações não investe muito tempo em treinamento, as escolas não são irrelevantes. A questão então é: o que os jornalistas precisam saber e quanto se pode esperar que as escolas ensinem?”
BRENT CUNNINGHAM (professor da Escola de Jornalismo da Universidade Colúmbia, em Nova York, e editor-executivo da revista Columbia Journalism Review) em “Searching for the Perfect J-school”, Columbia Journalism Review, nov/dez 2002, tradução do Observatório da Imprensa.

“An October ruling suspended Decree-Law 972, issued under military rulers in 1969, which required citizens to hold a university diploma in journalism before registering as a journalist with the Ministry of Labor. In 1985, the Costa Rica based Inter-American Court of Human Rights ruled that mandatory licensing of journalists violates the American Convention on Human Rights”.
COMMITTEE TO PROTECT JOURNALISTS, Attacks on the Press: 2001, 2002 (refere-se à liminar de outubro de 2001, concedida pela 16ª Vara Federal Cível de São Paulo).

“Favorecidos pela legislação, ao longo de quase duas décadas (desde que começou o debate público sobre o assunto), as escolas de jornalismo preocuparam-se apenas em tirar partido deste fabuloso privilégio. Estão interessadas em entregar o canudo a um número cada vez maior de ingênuos e ingênuas que vêem nele a chave para abrir os portões do mercado de trabalho”.
ALBERTO DINES (diretor do Observatório da Imprensa) em “A obrigatoriedade autocondenou-se”, Observatório da Imprensa, 21/11/2001.

“Com o entusiasmado apoio dos sindicatos de jornalistas, criou-se uma reserva de mercado que, a rigor, só serviu para encher os bolsos dos donos das escolas de comunicação e despejar às portas das redações uma atônita peonada de canudo em punho, que, salvo as raras e proverbiais exceções, passou pelo menos quatro anos de vida sem aprender nem a profissão nem o bê-á-bá do vasto mundo de que ela se ocupa”.
LUIZ WEIS (editor do blog Verbo Solto, articulista do Observatório da Imprensa e do jornal O Estado de S. Paulo) em “Luz no fim do canudo”. Observatório da Imprensa, 07/11/2001.

“A excepcionalidade de que goza o jornalismo, dentre as instituições democráticas, consiste em que seu poder não repousa num contrato social, numa delegação do povo por eleição ou por nomeação com diploma ou por voto de uma lei impondo normas. Para manter seu prestígio, e sua independência, a mídia precisa compenetrar-se de sua responsabilidade primordial: servir bem à população”.
CLAUDE-JEAN BERTRAND (1934-2007, professor do Instituto Francês de Imprensa, da Universidade de Paris II) em seu livro A Deontologia das Mídias. (Tradução de Leonor Loureiro. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1999, págs. 22-23.)

“Não gosto disso [a obrigatoriedade do diploma de jornalismo no Brasil]. Menos da metade dos jornalistas do Post estudaram em escola de jornalismo. Se você me perguntar quem eu contrataria para trabalhar aqui, entre um jovem saído de Amherst College, com uma boa formação humanística e geral, ou uma pessoa com um diploma da escola de jornalismo da Universidade de Arizona, escolherei sempre o candidato de Amherst College, mesmo que ele ou ela não saiba muito sobre jornalismo. Isso, eu ensinarei a eles, na redação”.
BENJAMIN BRADLEE (vice-presidente do jornal The Washington Post, onde foi editor-chefe de 1968 a 1991, responsável pela cobertura do Caso Watergate) em entrevista a Paulo Sotero: O homem que derrubou o presidente dos EUA. (O Estado de S. Paulo, 30/10/1999, Caderno 2).

“O jornalismo é uma ‘profissão aberta’, que não exige formação específica ou diploma. Sua definição é tautológica: é considerado jornalista quem exerce sua atividade principal na imprensa escrita ou nos meios de comunicação audiovisuais. Mais precisamente, são reconhecidos como jornalistas os agentes da mídia, independentemente dos meios ou técnicas de expressão utilizadas, que satisfaçam três critérios: a concepção e realização de uma produção intelectual, uma relação deste trabalho com a informação, além do critério de atualidade”.
DANIEL CORNU (professor do Instituto de Jornalismo e Comunicação, da Universidade de Neuchâtel, de Lausanne, e diretor do Centro Franco-Suíço de Formação de Jornalistas, de Genebra) em seu livro Ética da Informação. (Tradução de Laureano Pelegrin. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1998, pág. 19.)

“Nuestro problema no es, por tanto, salir a pelear em los periodistas que afirman que la formación ãsosnc no es necesaria, pues nos podrían echar em cara muchas cosas em ãs que tendrían toda la razón. Y si, además, García Márquez viene a decirles que eso es verdad, que él aprendió a hacer periodismo em la bohemia bogotana, em los cafetines… ¿ãs se sale ãs enredo?”
JESÚS MARTÍN-BARBERO (professor, pesquisador e autor de diversos livros de jornalismo, ex-presidente da Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación — ALAIC e da Federación Latinoamericana de Facultades de Comunicación Social — FELAFACS), em “Las facultades de comunicación no pueden renunciar a em proyecto de país”, entrevista a Sygno y Pensamiento, 1997, nº 31, p. 52.

“La mayoría de los graduados llegan em ãsosncias flagrantes, tienen graves problemas de gramática y ãsosnci, y dificultades para em comprensión reflexiva de textos. Algunos se precian de que pueden leer al revés em documento secreto sobre el ãsosnci de em ministro, de grabar diálogos casuales sin prevenir al interlocutor, o de usar como noticia em conversación convenida de antemano como confidencial. Lo más grave es que estos atentados éticos obedecen a em noción intrépida ãs oficio, asumida a conciencia y fundada em orgullo em la sacralización de la primicia a cualquier precio y por encima de todo. No los conmueve el fundamento de que la mejor noticia no es siempre la que se da primero sino muchas veces la que se da mejor. Algunos, conscientes de sus ãsosncias, se sienten defraudados por la escuela y no ãs tiembla la voz para culpar a sus maestros de no haberles inculcado ãs virtudes que ahora ãs reclaman, y em especial la curiosidad por la vida”.
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, “El Mejor Oficio del Mundo”, 52ª Asamblea de la Sociedad Interamericana de Prensa (SIP), Los Angeles, 17/10/1996.

“Enfim, o direito à informação — direito do povo a ser informado, com fidelidade, pelos profissionais do jornalismo — há de ser atendido livremente por pessoas argutas, inteligentes, cultas e dotadas de qualidades comunicativas (escrita, fala, boa expressão), com a condição de que (ao transmitirem notícia sobre fatos e fenômenos objeto de conhecimento específico de profissões regulamentadas) sua interpretação e explicação de provirão de profissionais formalmente qualificados (diplomados), a que deverá reportar-se os jornalistas. É desse modo que se obedece ao art. 5º, XIII da Constituição. (…) A interpretação que propomos mostra que o Brasil é um estado de direito democrático, com responsabilidades definidas e proteção a valores sociais e individuais fundamentais, como se dá em todos os países civilizados, que adotam princípios semelhantes, e que jamais cogitaram de — como o fez, para nossa vergonha, a Junta Militar — exigir diploma para exercício da profissão de jornalista”.
GERALDO ATALIBA (1936-1995, professor de direito tributário e direito constitucional da USP e da PUC-SP, da qual foi reitor de 1972 a 1976) em parecer citado na sentença de 18/12/2002, da juíza Carla Abrantkoski Rister, 16ª Vara Cível Federal de São Paulo, Processo nº 2001.61.00.025946-3, págs. 27-33.

“La censura previa, ãs restricciones a la circulación de los ãsos o a la divulgación de sus mensajes, la imposición arbitraria de información, la creación de obstáculos al libre flujo informativo y ãs limitaciones al libre ejercicio y movilización de los periodistas, se oponen directamente a la libertad de prensa”.
DECLARACIÓN DE CHAPULTEPEC. International Center for Journalists (ICJ), México, DF, 11 de marzo de 1994, artigo 5º.

“Não deixa de ser irônico que os mais encarniçados defensores da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão pertençam aos mesmos grupamentos ideológicos que sustentam posições xenófobas e condenam a hegemonia dos princípios do jornalismo dos EUA no Brasil. (…) No geral, ‘as novas dimensões do jornalismo’, como as classificou Celso Kelly, autor de um currículo mínimo obrigatório do Conselho Federal de Educação para os cursos de jornalismo, foram definidas pelos autores americanos ingênuos das décadas de 1930 a 1950 e reproduzidas acriticamente por escritores brasileiros como o próprio Kelly, Luiz Beltrão, Mário Erbolato e outros”.
CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA (ombudsman e ex-diretor adjunto da Folha de S. Paulo, ex-diretor-adjunto do Valor Econômico, ex-professor da Escola de Comunicações e Artes da USP) em seu livro O Adiantado da Hora: A influência americana sobre o jornalismo brasileiro. (São Paulo: Summus Editorial, 1991, págs. 84-85.)

“La corte es de opinión: Primero, por unanimidad, que la colegiación obligatoria de periodistas, en cuanto impida el acceso de cualquier persona al uso pleno de los medios de comunicación social como vehículo para expresarse o para transmitir información, es incompatible con el artículo 13 de la Convención Americana sobre Derechos Humanos. Segundo, por unanimidad, que la Ley nº. 4420 de 22 de setiembre de 1969, Ley Orgánica del Colegio de Periodistas de Costa Rica, objeto de la presente consulta, en cuanto impide a ciertas personas el pertenecer al Colegio de Periodistas y, por consiguiente, el uso pleno de los medios de comunicación social como vehículo para expresarse y transmitir información, es incompatible con el artículo 13 de la Convención Americana sobre Derechos Humanos”.
CORTE INTERAMERICANA DE DERECHOS HUMANOS, Opinión Consultiva OC-5/85, 13/11/1985.

“A imprensa, ao apontar novas possibilidades de carreira, pode ajudar a quebrar o círculo vicioso causado por uma avaliação exagerada dos graus universitários. Enquanto as pessoas continuarem acreditando que o grau universitário será garantia absoluta para uma ocupação de status, e enquanto também algumas poucas ocupações forem vistas como prestigiosas, haverá, com certeza, frustração pessoal, desemprego de intelectuais e escassez de talentos para muitos empreendimentos novos, essenciais ao desenvolvimento”.
LUCIEN W. PYE (professor emérito de ciência política do Instituto de Tecnologia de Massachusetts — MIT, onde foi diretor do Centro de Estudos Internacionais) no artigo “Comunicação, formação de instituição e o alcance da autoridade” in: Daniel Lerner & Wilbur Schramm (orgs.), Comunicação e Mudança nos Países em Desenvolvimento. (Tradução de Maria Heloiza Schabs Capelatto. São Paulo: Edições Melhoramentos, Editora da Universidade de São Paulo, 1973, pág. 55.)

“Restrictions on the free entry to the field of journalism or over its practice, through licensing or other certification procedures, must be eliminated”.
CHARTER FOR A FREE PRESS. World Press Freedom Committee, London, 1987, Principle 5.

“Para ser jornalista é preciso ter uma formação cultural sólida, científica ou humanística. Mas as escolas são precárias. Como dar um curso sobre algo que nem eu consigo definir direito? Trabalhei quarenta anos em jornal e acho muito difícil definir o que meia dúzia de atrevidos em Brasília definem como curso de jornalismo. Foi o que fez o patife do Gama e Silva (ministro da Justiça do governo Costa e Silva), que elaborou a lei para tirar os comunistas dos jornais”.CLÁUDIO ABRAMO (1923-1987), em seu livro A Regra do Jogo. (São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pág. 247.)