Semana On

segunda-feira, 31 de julho de 2006

Boa noite e boa sorte

Maravilhoso retrato do jornalismo, baseado em fato real e em acontecimentos da década de 50, primórdios da TV nos Estados Unidos. Extremamente atual. Recomendado a jornalistas de todas as idades mentais.

http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/good-night-and-good-luck/good-night-and-good-luck-poster01.jpg

Ficha TécnicaTítulo Original:
Good Night, and Good Luck
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 93 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2005
Site Oficial: http://www.goodnightandgoodluck.com/
Estúdio: Warner Independent Pictures / 2929 Productions / Redbus Pictures / Section Eight Ltd. / Metropolitan / Participant Productions / Davis-Films / Tohokashinsha Film Company Ltd.
Distribuição: Warner Bros.
Direção: George Clooney
Roteiro: George Clooney, baseado em roteiro de Grant Heslov
Produção: Grant Heslov
Fotografia: Robert Elswit
Desenho de Produção: James D. Bissell
Direção de Arte: Christa Munro
Figurino: Louise Frogley
Edição: Stephen Mirrione

Elenco: David Strathairn (Edward R. Murrow) Robert Downey Jr. (Joe Wershba)Patricia Clarkson (Shirley Wershba) Ray Wise (Don Hollenbeck) Frank Langella (William Paley) Jeff Daniels (Sig Mickelson) George Clooney (Fred Friendly) Tate Donovan (Jesse Zousmer) Thomas McCarthy (Palmer Williams) Matt Ross (Eddie Scott) Reed Diamond (John Aaron) Robert John Burke (Charlie Mack) Grant Heslov (Don Hewitt) Alex Borstein (Natalie) Rosie Abdoo (Millie Lerner)

Sinopse: Edward R. Morrow (David Strathairn) é um âncora de TV que, em plena era do macarthismo, luta para mostrar em seu jornal os dois lados da questão. Para tanto ele revela as táticas e mentiras usadas pelo senador Joseph McCarthy em sua caça aos supostos comunistas. O senador, por sua vez, prefere intimidar Morrow ao invés de usar o direito de resposta por ele oferecido em seu jornal, iniciando um grande confronto público que trará consequências à recém-implantada TV nos Estados Unidos.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

Nós, jornalistas.

Jornalista. Esta é uma das mais ingratas profissões. A esmagadora maioria dos profissionais que atuam nesta área, diplomados ou não (isso pouco importa), vivem uma mentira. Muitos não gostam disso, mas são obrigados a exercer sua profissão, sem, no entanto, exercê-la de fato; outros, menos conscientes, escapam a esta angústia pelo simples fato de nem ao menos saberem a que vieram ao mundo (profissionalmente falando): são beneficiados pela própria estupidez.

O jornalista, este que é obrigado a "fingir" que exerce a profissão, sofre. Sofre por estar diariamente diante de um impasse: dizer o que deve ser dito ou dizer o que "pode" ser dito. Esta encruzilhada, esta armadilha moral, nos é imposta a cada santo dia e é ditada não pela censura política (aquelados tempos do chumbo grosso), mas pela ditadura econômica. Esta, que humilha nossa nobre profissão e a tem colocado de joelhos, como serva corrompida pelos (e para) quem detém o poder.

O jornalista, como todos os demais, tem contas a pagar, tem filhos a sustentar, tem seus problemas diários a resolver e, aliado a todas estas mazelas da vida moderna, tem também sua consciência a zelar (pelo menos alguns, não todos). Estes tentam a todo custo "ser" jornalistas de fato, driblando cáe lá os empecilhos do mercado para, em um momento de euforia, dizer o que deve ser dito. Pegar o jornal de manhã e pensar: "Cumpri meu papel".

Quase sempre, isso é conseguido nas entrelinhas ou jogando o jogo dos que controlam a mídia, se inserindo na guerra dos poderosos para, em uma oportunidade, comemorar um golzinho, uma notícia que tenha o poder de despertar os que vivem adormecidos.

Mas, não há nada de romântico nesta profissão. O mesmo guerrilheiro das palavras que muitas vezes se arrisca a perder o emprego para soltar determinada notícia, às vezes, atua como "ghost writer" para interesses alheios. Não, não há orgulho algum nisso.

Mas este não é o pior espécime entre nós, jornalistas. Há um, muito pior. E não me refiro aos omissos que simplesmente fecham os olhos e seguem a trilha como carneirinhos sem ao menos entender a nobreza de sua profissão. Refiro-me, na verdade, aqueles que sentam do outro lado da turba, que por detrás de "colunas" repletas de egocentrismo, protegidos por paredes de vidro, pousam de bons moços (ou moças) para "evacuar regras", condenar e absolver, julgar...

Estes (ou estas) certamente não entendem bem a função desta profissão tão bela, mas tão escarnecida.

Homérico...

Ser correto nos dias de hoje é um desafio daqueles homéricos, hercúleos, dignos de um herói grego, quiçá de um daqueles semi-deuses que povoavam as mitologias além mar. Sobreviver moralmente ileso as vinte e quatro horas que compõe o nosso dia é, decididamente, tarefa para “gente grande”.

Os que se propõe este verdadeiro desafio passam suas horas driblando o incompreensível, evitando as armadilhas que se espalham pelos caminhos, dando sorrisos amarelos a gente que os olha como quem conversasse com um bobo, uma criança, um incapacitado mental. Sim, pois ser honesto e correto, hoje, é ser idiota.

A hipocrisia impera, em todos os cantos de nossa “saudável” sociedade. Esta lá, impregnada nas camadas mais humildes que trocam voto por cesta básica, que remoem o remorso da pobreza e sorriem desdentados para os candidatos; está também nos círculos do poder, onde o eleitor é ridicularizado em rodinhas de uísque, onde a coerência é carcomida nos vícios inconfessáveis.

Há esperança

Que patifes, as pessoas honestas - Émile Zola

Quem de nós nunca ouviu o seguinte raciocínio? “Ser honesto no Brasil é mau negócio. Honestidade é coisa de bobo”. Certamente todos nós já nos deparamos com este tipo de pensamento que, diante da realidade crua, tem sua razão de ser.

Afinal, são muitos os exemplos de gente má intencionada que “se dá bem”. E o exemplo não vem apenas de cima, de políticos mal intencionados, de empresários pouco preocupados com o social, mas, também, da base da sociedade. O conceito de honestidade deve ser aplicado sobre todos os níveis de nossa vivência, desde os mais importantes até os mais ínfimos. O mesmo cidadão que reclama da roubalheira instituída na coisa pública nacional é aquele que sonega o imposto ou suborna o policial.

Estamos em um círculo vicioso onde a honestidade está sempre em segundo plano, esquecida, guardada no bolso para ser sacadac omo crítica ao outro, nunca como exemplo a ser dado.

Bom, nem sempre... Ainda há esperança. Esta semana, deixando à redação do jornal, rumo à minha casa, parei para um rápido bate-papo com um colega de trabalho. Com um ar divertido ele me contava que caminhava pelo centro da cidade quando avistou uma senhora nervosa que olhava a sua volta e remexia dentro de sua bolsa como se procurasse algo. Desconcertada, ela parecia atônita, olhando para o chão, voltando à vista para a bolsa como se pelo fato de a remexer mais uma ou duas vezes pudesse achar o que havia perdido.

Ele, então, percebeu um maço de notas a poucos metros dela. As pessoas passavam sem perceber, se esbarravam a poucos centímetros do dinheiro e não percebiam que ele estava ali. Na hora ele pensou nas contas que tinha que pagar, na luz atrasada, no botijão de gás que estava terminando. Avançou os poucos metros que separavam da solução dos problemas”, contou. “Dei alguns passos, me abaixei e peguei o dinheiro”

Mas, para surpresa geral, ele não colocou o dinheiro no bolso. Caminhou alguns passos e o entregou à mulher. "Sabe, na hora pensei - seu burro, tanta conta para pagar. Mas isso não durou nem um segundo, virei as costas e fui andando, muito aliviado...", me confidenciou.

Há esperança.

Dívida e cores partidárias

O senador Delcídio do Amaral, candidato do PT ao Governo do Estado, disse esta semana que pretende abrir um canal de negociação com o Governo Federal para repactuar a dívida de Mato Grosso do Sul, estimada hoje em quase R$ 7 bilhões.

A vontade do senador é bem vinda mas, infelizmente, a repactuação da dívida do Estado depende de muito mais do que vontade. É preciso para isso um amplo pacto federativo que coloque lado a lado todos os Estados sangrados mensalmente pelos juros estratosféricos de uma dívida que a cada dia se torna mais difícil de ser sanada.

Delcídio acredita que a renegociação da dívida vai estar na agenda de todosos governadores a partir de 2007: "Como a parcela mensal é vinculada a um percentual da arrecadação, todo o incremento de receita acaba não se revertendoem mais recursos para investimento e amplia o desembolso do Estado com a União. Nenhum governador vai agüentar isso", opina.

Ele pode estar certo. Mas, para transformar esta indignação em resultados práticos que forcem o Governo Federal a colocar de lado a máscara de credor e assumir uma postura mais “federativa”, será preciso esquecer colorações partidárias e unir bancadas federais que tradicionalmente caminham para lados opostos, e colocá-las marchando em uma única direção: e esta direção passanecessariamente por um enfrentamento político com o Governo Federal. Se ospartidos que sustentarão os próximos governadores deste País estarão dispostosa isso, não se pode prever.

Delcídio diz o que todos sabemos, que a situação "é insustentável", porque provoca um jorro financeiro de quase R$ 300 milhões por ano e comprometea capacidade de investimento do Estado. Diz até o que não precisa ser dito por soar como papo de campanha: “É preciso deixar bem claro que esta dívidao governo do PT herdou das administrações anteriores. Além disso, a renegociação que impôs as regras atuais de pagamento foi fechada no governo do PMDB, quando o presidente da República era Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, partidos que sempre foram aliados aqui no estado".

Falando como candidato, ele diz a verdade neste aspecto, mas, também como candidato, omite o fato de que o Governo Lula, do seu partido, também, não moveu uma palha sequer para melhorar a situação dos estados endividados. Como disse anteriormente, para resolver esta questão, será necessário colocarde lado as cores partidárias.

Cada povo tem a Assembléia Legislativa que merece

A Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul é, hoje, uma caixa preta. O foco principal de um emaranhado de interesses políticos que passam pelo Governo do Estado, rebatem no Tribunal de Contas (TCE) e atingem diretamenteo bolso de cidadão sul-mato-grossense.

Como bem disse William Shakespearehá mais de 500 anos através do atormentado Hamlet, “há mais coisas entreo céu e a terra do que supõe sua filosofia”. Fosse vivo hoje, o dramaturgo inglês se deliciaria com as tramas, conspirações e acertos pouco católicos (ou evangélicos) que ocorrem pelos corredores da principal Casa de Leis doEstado.

Comecemos pelo mal explicado orçamento da Casa. São R$ 12,5 milhões todos os meses, R$ 150 milhões por ano. Dinheiro suficiente para realizar muita coisa em benefício da população. Este dinheiro, que, reclamam os deputados, quase não dá para bancar as despesas do legislativo estadual, na verdade seria até demais. Pelo menos é o que se comenta a boca pequena entre festas e banquetes palacianos. Diz-se que, inclusive, “beiradinha” destes milhões retornaria aos cofres públicos sem que esta “benfeitoria” fosse capitalizada nas prestações de conta que se faz por aí. Outro “cadinho” desta enormidade de dinheiro ficaria por lá mesmo, pelas esquinas da Assembléia, servindocomo “reforço financeiro” para quem já ganha muito bem.

Falando em ganhar bem, é bom lembrar quanto ganha cada um dos 24 deputados que enfeitam a tribuna da Casa (bem, nem todos, há quem nunca tenha se pronunciado, nem para pedir licença e ir embora). O contribuinte de Mato Grosso do Sul paga a cada deputado cerca de R$ 15 mil de salário mensal. Com o pagamento de ajudas de custo, o rendimento chega à cerca de R$ 20 mil. Juntamente com o 13º salário, um deputado recebe aproximadamente R$ 260 mil por ano. Apenas em salários, os 24 deputados consomem R$ 6,240 milhões a cada 12 meses. Bom, estes, ao menos, são os números oficiais...

Ah, sim. Vale lembrar que esta módica remuneração é referente a três dias de trabalho por semana, na verdade algumas horas de trabalho a cada um destes três dias. O resto é política... O nobre leitor já parou para checar quantosprojetos de relevância foram votados pelos deputados estaduais nos últimos anos?

Governabilidade?

Parafraseando o presidente da República em um estilo que muito lhe apetece, “nunca antes neste País” um governador governou com tanta facilidade quando Zeca do PT. Sua relação com a Assembléia, sempre muito cordial, também requer um certo “senão”. Dizem os “línguas pretas” de plantão, que esta tal “governabilidade”que durou oito anos - e terminou como por encanto com o finalzinho da presença de Zeca no poder – veio em troca de muitos benefícios aos vinte e quatro ditos-cujos.

Em troca da benevolência da Governadoria, ficaram, no máximo, nos discursos inflamados. Ajudaram até no blefe sobre a malfadada crise econômica do Estado– desmentida pouco depois pelos números da arrecadação de MS. Aprovaram o Fundersul, cujos recursos até hoje ninguém controla, ninguém entende, muito menos os produtores rurais... Resumindo: ação que é bom para investigar o que deveria ter sido investigado nestes oito anos: nada.

Controle?

Falando em controle. Quem controla a Assembléia Legislativa? O Tribunal deContas do Estado? Como costuma dizer um conhecido: “Até vira-lata sabe que quem tem que fiscalizar faz olhos frouxos e ouvidos moucos”. Bem sentenciou De Gaulle na década de 60: “O Brasil não é um País sério”. E não é mesmo.Onde já se viu: quem deveria fiscalizar é indicado por quem será fiscalizado! É de gargalhar.

Como ouvi de um colega recentemente, cada povo tem a Assembléia Legislativaque merece. Tomara que, em outubro, o sul-mato-grossense faça por merecer coisa melhor.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Paternalismo

Há uma colossal diferença entre programas de assistência social e programas de inclusão social.Os primeiros tendem a manter no anonimato social os seus beneficiados, acostumando-os às facilidades e a benevolência estatal. Além disso, são passos largos rumo ao estelionato eleitoral. Afinal, em um País pobre como o nosso, qualquer prato de comida pode ser transformado em moeda de troca, em voto. Passam muito próximos, também, da demagogia paternalista que nunca fez bem a País algum.

Os programas de inclusão, por sua vez, pretendem dar à população carente as ferramentas necessárias para que, um dia, possam simplesmente prescindir deste tipo de auxílio pelo simples fato de não precisarem mais lançar mão deles.

É claro que não proponho aqui que se deixe passar fome os miseráveis. De forma alguma. Os programas de assistência social têm o seu papel em certas regiões, devem ser utilizados para tirar da penúria aqueles que simplesmente não tem o que comer. Mas deve parar aí. Aliadas a eles devem haver ferramentas que tragam a possibilidade real de uma emancipação, de meios que viabilizem a criação de um cidadão e não de um "mendigo oficializado" que dependerá eternamente do Estado para sobreviver.

Como bem disse o senador Cristovam Buarque, programas como o Bolsa Família condenam os que recebem o benefício à pobreza. A afirmação pode parecer radical, injusta para com a boa intenção do programa. Mas não é. Retrata com fidedignidade a situação de milhares de pessoas que encontraram no benefício uma muleta.

Como alternativa, o senador propõe retomar o Bolsa Escola que existia no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso e criar uma espécie de emprego social para famílias carentes que não têm filhos em idade escolar. Na Bolsa Escola, a mãe receberia o dinheiro porque 'seu filho está estudando e a família sairá da pobreza'. Na realidade atual o raciocínio é outro. A família pensa: 'recebo o BolsaFamília porque sou pobre e se perder a condição de pobreza, não recebo mais'.

O Bolsa Família condena e o Bolsa Escola liberta, emancipa.

quarta-feira, 19 de julho de 2006

Medida da maldade

Qual a medida da maldade? Como mensurar a capacidade do ser humano em fazermal ao seu próximo? São perguntas que me inquietam e me deixam mais enclausuradoem mim mesmo. O ser humano, esta criação maravilhosa – de Deus ou da natureza,não importa – é capaz de feitos extraordinários e também monstruosos.

Folheando imaginariamente alguns jornais online no início da noite de terça-feira, deparei-me com exemplos desta bestialidade da qual o homem não consegue abrir mão. Casos que nos fazem questionar, até mesmo, a nossa humanidade, aquelas coisas que nos diferenciam dos animais.

Dois julgamentos de destaque nacional ocorrem simultaneamente. Um deles analisa os “comos e porquês” do assassinato do casal Manfred e Marísia von Richthofen, em 2002. Foram mortos a golpes de barra de ferro pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinho, em um crime que contou com a participação da filha do casal, Suzane von Richthofen. A violência contra o casal, a frieza de Suzane, são destas coisas que a gente quer manter sempre no campo da ficção.

O outro caso envolve o julgamento dos assassinos dos adolescentes Liana Friedenbach e Felipe Silva Caffé, em 2003. Namorados, ambos enganaram os pais para passar um final de semana acampados em um local remoto. Foram rendidos por quatro vagabundos. O rapaz foi imediatamente morto com um tiro na nuca e a jovem,após ser estuprada por todos, durante dias, acabou morta a facadas.

Seu assassino, que na época tinha 16 anos, cumpre um período na Febem. Será solto daqui a três meses...

O que fazer com gente desta laia? Alguém em sã consciência poderá dizer que eles são recuperáveis? Nestes momentos a vontade é de defender a pena de morte. E não me venham, com os argumentos de que nos países onde ela existe a criminalidade não diminuiu. Não é esta a questão. A questão é outra: é preciso encontrar um meio de tirar de nossas vidas estes monstros travestidosde gente. E se a única forma de fazer isso está em uma vingança legitimada pelo Estado, que seja.

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Toneladas de hipocrisia...

É incrível como os vícios da política tradicional brasileira estão entranhados na nossa sociedade. A coisa chegou a tal ponto que, mesmo aqueles que deveriam pensar a coisa pública de uma forma mais aberta, menos viciada, não conseguem vislumbrar a beira de abismo na qual estamos nos equilibrando.

Noite destas, o senador Cristovam Buarque, candidato do PDT à Presidência da República, mostrou isso muito claramente durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura. Segundo o senador, o Brasil só tem uma chance de se transformar em um País mais justo, desenvolvido e estruturado: o investimento maciço na educação.

O que parece um raciocínio óbvio para alguns, se transforma em motivo de deboche velado para muitos. Lamentável a superficialidade dos jornalistas presentes a entrevista, gente muito bem empregada nas Folhas e Épocas da vida, mas dotada de uma visão de Brasil rasa.

As perguntas lançadas contra Cristovam, feitas com um ar de quem “sente pena do pobre velhote ultrapassado”, estiveram sempre calcadas na imbecilidade que sustenta o imediatismo. Queriam saber se ele pretendia baixar a taxa de juros, quantos empregos iria gerar, como iria salvar o Brasil e outras barbaridades irrelevantes. O pedetista, por sua vez, insistia na verdade: não há salvação, a não ser pelo viés da educação.

Os entrevistadores, uma turma muito afinada com o funcionamento da máquina política brasileira, irritados, “não queriam ouvir falar de educação”, ficaram fartos, enfastiados com a verdade crua exposta por Cristovam. Certamente se sentiriam muito mais à vontade com discursos daqueles que estamos todos cansados de ouvir: aqueles que prometem milagres irrealizáveis, mentiras saborosas e toneladas de hipocrisia.

Nós, os omissos...

O brasileiro é um povo muito interessante. Sabemos que vivemos em um estado de direito no qual àqueles que deviam manter a retidão insistem em andar por caminhos tortuosos. Reclamamos de tudo, do preço da banana ao cacho de impostos que somos obrigados a deglutir. Reclamamos do salário, das dificuldades, da saúde, da educação, reclamamos, enfim, da vida.

Somos insaciáveis quando o assunto é reclamar. No entanto, quando o brasileiro se vê cara a cara com a necessidade de tomar iniciativa frente a esta enxurrada de problemas, sua primeira reação é não ter reação. A passividade e a omissão são a mola mestra de nossa sociedade. Empurramos para o lado a responsabilidade de efetuar as mudanças necessárias, que são a única forma de colocar este País nos eixos.

Um bom exemplo desta reflexão ocorreu no dia 21 de maio em 16 cidades brasileiras durante o Dia da Dignidade Nacional. Um protesto que pretendia mostrar a indignação da população frente “a tudo isso que esta aí”. Não tenho em mãos os números da mobilização, mas, certamente, foram escassos. Aqui em Campo Grande, algumas dezenas de pessoas deram as caras sob uma chuva fina e não deixaram o dia passar em branco.

Ao que parece, reclamamos por hobby. Não há ninguém realmente indignado a ponto de sair debaixo das cobertas em um domingo chuvoso para gritar em altos brados que o Brasil não pode mais continuar do jeito que está.

Parece mesmo, então, que aquela gente lá do Congresso, que desfia discursos vazios em tom de escárnio, tem mesmo razão. Pasmem. Eles têm razão. Não há povo, não há opinião pública. O que há, parece, é uma imensa massa de manobra guiada pelos caprichos da mídia e pelo tom de voz emocionado ou consternado que, volta e meia, é vomitado pelo Plantão do Jornal Nacional.

A passividade da população assusta. Assusta ainda mais a passividade da juventude, que há alguns anos pintou a face de verde e amarelo e foi às ruas para derrubar um presidente. Onde estão estas pessoas? Onde está a geração “cara pintada”, que hoje já ultrapassa os 30 anos de idade? Está acomodada, sentada, como diria Raul Seixas, no sofá da sala “com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”.

Onde está a juventude de hoje? Transformados em zumbis da tecnologia, desligados de tudo quanto ocorre à sua volta, caminhando lentamente para um processo de “imbecilização”, que pode transformar este País em um grande deserto intelectual.

Pensando a democracia e o voto...

A conquista da democracia gera a ilusão de que a política finalmente passou a ser uma atividade das massas. O voto a cada eleição não indica participação efetiva na política, mas apenas o exercício de um direito que, em nosso caso, é também um dever, já que é obrigatório. Boa parte da população nega a política institucionalizada, considera que é algo próprio dos políticos profissionais e se restringe a votar nas eleições.

O crescente descrédito em relação à política e aos políticos é uma reação compreensível. No fundo, o eleitor torce apenas para que os políticos não atrapalhem a sua vida. Acompanha o noticiário político como se este não lhes dissesse respeito direto. Sabe, entretanto, que determinadas políticas podem ser prejudiciais; quando muito, resiste, mas não vê o mundo da política como o “seu mundo”. Parece-lhe que os políticos vivem em outra esfera, são um mal necessário.

Este eleitor, na linguagem política, é classificado como alienado, uma espécie de analfabeto político, e representa o conservadorismo político. Mas a realidade não é tão simples. Primeiro, a minoria militante, aquela que se engaja na política, muitas vezes tem mais a conservar do que os que apenas “deixam a vida lhes levar”. Segundo, há uma diferença entre ser apolítico e anti-político (contra os políticos e a política partidária). Terceiro, não participar da política institucional não significa necessariamente não fazer política: a negação é também uma ação política.

Os indivíduos atuam por interesse, isto é, esperam recompensas. É a probabilidade de ser recompensado que move a política partidária – mesmo os idealistas esperam alcançar algo, nem que seja o reconhecimento de que são missionários de um novo mundo e quem sabe, por isso, alcançaram o paraíso celeste ou a imortalidade na memória das gerações posteriores. A palavra interesse, de origem latina, significa “estar entre”, “no meio”, “participar”.

Os partidos políticos são organizações voltadas essencialmente para os interesses, isto é, o estar entre os que têm acesso a determinados bens simbólicos e materiais inacessíveis à maioria dos representados e governados. Todo partido almeja o poder; alguns imaginam fazer a revolução conquistando o Estado. Porém, o objetivo declarado de conquistar o poder acaba se traduzindo na conquista do governo e de posições nas instituições.

Ocorre, então, uma inversão: são as instituições do Estado burguês quem conquista os partidos. O objetivo se reduzirá simplesmente à garantia dos cargos no partido e no Estado, e, assim, ter o poder de transferir aos seus seguidores, discípulos e apoiadores, as benesses da máquina do Estado.

Se todos parecem iguais, se o discurso de todos se equivale, por que participar desta política? O que realmente mudará se elegermos este ou aquele candidato? A impressão que fica é que tanto faz. Nestas condições, é lícito perguntar: por que votar? Para que servem os partidos políticos?

Os candidatos tentam responder a estas interrogações apresentando um discurso universalista, do bem comum e tentam ganhar ares de seriedade. Em tempos eleitorais, a educação, a saúde, a segurança etc., assumem tom de realismo virtual: todos são transformados em cidadãos e cidadãs! Todos parecem ter acesso aos direitos de cidadania ou prometem que usufruiremos e que tais direitos serão ampliados. Mas a vida real teima em desmentir a propaganda eleitoral.O eleitor mais simples se pergunta: por que não fizeram isto antes? Por que nesta época surgem propostas, que se apresentam como novas, para solucionar velhos problemas que permanecem para serem lembrados nas próximas eleições?