Semana On

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Poema



Ao encontrar minh’alma
no reflexo do teu olhar
me depara a tempestade
por detrás da calmaria.
Me constrange a pequenez
por entre frestas de grandeza.

Ao enxergar-me
nas sombras do teu sorriso
me descubro menino
escondido na face carcomida.
Me encolho diante
do mundo.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Getúlio 1930-1945 - Do governo provisório à ditadura do Estado Novo

O segundo volume da trilogia Getúlio, de Lira Neto, cuja leitura finalizei esta semana, trata de um período conturbado da política brasileira, seguindo a trajetória de Vargas do início do governo provisório, de 1930 a 1934, à sua passagem como presidente constitucional, de 1934 a 1937 e culminando no período do ditatorial do Estado Novo, entre 1937 e 1945.

A obra, um hercúleo esforço jornalístico e de pesquisa histórica, traz à tona toda a ambivalência de Getúlio Vargas que, se por um lado foi responsável direto pela modernização do Estado brasileiro, de outro comandou uma ditadura violenta, fortemente influenciada pelo fascismo.

Durante o período abarcado pelo segundo volume de Lira Neto, o Brasil passou por transformações imensas no âmbito político, social e econômico. Livre das amarras da Constituição de 1891, Getúlio procurou estabelecer uma agenda nacionalista e estatizante de desenvolvimento socioeconômico enquanto, no plano político, engendrava complicadas maquinações palacianas para manter opositores e apoiadores — entre comunistas e militares, integralistas e sindicalistas — sob a égide de sua autoridade pessoal. A Revolução Constitucionalista de 1932, a eleição indireta e a Constituição de 1934, a “intentona” comunista de 35, o putsch integralista em maio de 38, o Estado Novo e o namoro com o Eixo, o recrudescimento da Segunda Guerra Mundial e a aproximação com os Estados Unidos são magistralmente desenhados por Lira Neto como cenário para as articulações políticas e fatos da vida pessoal de Getúlio, pinçados dos diários escritos pelo biografado.

Ali, em seus escritos pessoais, fica claro que o mito construído pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que viria a ser cristalizado com o desenrolar dos acontecimentos, o homem sorridente, bonachão e simpático que ficou na memória coletiva nem sempre encontra correspondência e ressonância nos escritos do próprio Getúlio. As anotações revelam que o homem com sorriso estampado no rosto se preocupava em saber se estava conduzindo o país a alguns becos sem saída.

Com Vargas, de um país essencialmente agrícola e semicolonial, o país deu o primeiro passo rumo a um processo de industrialização que seria reforçado nas décadas seguintes. Os setores mais tradicionais, focados na manufatura, foram contrapostos com a implementação de um parque industrial de base, especialmente no setor metal-mecânico. O Estado Novo fortaleceu a área da pesquisa, abriu caminho para as grandes empresas estatais, como a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Vale do Rio Doce e a Fábrica Nacional de Motores.

Aliado a esta orientação desenvolvimentista, a regulamentação das relações entre capital e trabalho, por meio da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), foi outra coluna de sustentação para a política do regime, apresentada às massas trabalhadoras como uma benesse do Estado, uma concessão que, de fato, havia sido construída sobre as ruínas do movimento sindical e pela cooptação das lideranças operárias, apequenadas pelo fenômeno do peleguismo.

Apesar do viés fascista, o sustentáculo social do regime deixou como legado uma imagem de Getúlio como defensor das massas oprimidas, “pai dos pobres”. Este sentimento foi fortalecido pelo passado corrompido de uma oligarquia omissa quanto ao destino da maior parte da população brasileira. Com Vargas, pela primeira vez na história política do país um líder buscava no povo sua legitimação.

A construção desta mística e de uma política que, de fato, levava o Brasil a romper com uma tradição que privilegiava unicamente os setores de uma aristocracia político-econômica, se deu sobre o signo do totalitarismo. O Brasil avançava enquanto greves eram proibidas, jornais empastelados, opositores perseguidos, organizações de trabalhadores, patronais e mesmo da elite eram cooptadas pela máquina do Estado.

O Brasil de 1945 não era o mesmo de 1930. Getúlio também não. Suas origens, fincadas na oligarquia regional de matriz positivista, não impediram que ele galgasse o poder como revolucionário empunhando a bandeira da ruptura radical com as oligarquias que até então comandavam os rumos da nação, mas o colocariam em um impasse diante da revolução democrática que varreria o mundo com a derrocada no nazi-fascismo.

Um dos pontos interessantes dos dois primeiros livros é a tendência de Getúlio a um fatalismo suicida. Em três de outubro de 1930, quando inicia as anotações em seu diário, já pergunta: “E se perdermos? Serei apontado como responsável. Só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”. Já anunciava a solução extrema caso a situação chegasse ao limite. Em 1932, no dia seguinte ao Nove de Julho, em outro bilhete de suicida, escreve que o sacrifício pessoal é algo que está no campo de possibilidade. Depois, na Segunda Guerra, diz que seu sacrifício pessoal seria a forma de mitigar um possível desastre. E em 1945, em abril, seis meses antes de ser deposto, escreve o que seria um esboço da Carta Testamento, colocando mais uma vez o sacrifício pessoal.

O primeiro volume da trilogia, "Getúlio (1882-1930): Dos Anos de Formação à Conquista do Poder", foi publicado em 2012 (e resenhado por mim). O título que fecha a série, ainda sem data prevista para chegar às livrarias, tratará do fim da Segunda Guerra até a volta à presidência por voto democrático e o suicídio em 1954.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Gomorra - Roberto Saviano



Nos últimos dias passei algumas horas garimpando o Google e o Youtube por reportagens, relatos e documentários sobre a Camorra, a violentíssima máfia napolitana, que domina o sul da Itália e os italianos que ali vivem. Minha curiosidade adveio da leitura de “Gomorra”, primeiro livro do jornalista Roberto Saviano. Precisava olhar o rosto dos homens e mulheres citados em sua obra, gente capaz de monstruosidades e de atos de coragem que imaginamos restritos a ficção da literatura e do cinema.


"Gomorra" não é um livro que se leia sem que os olhos ardam, as mãos se crispem, o espírito encolha. A cada linha, a cada parágrafo, a obscenidade do poder a todo custo, a lógica dos quem têm no acúmulo de poder “o único motivo que os faz levantar da cama de manhã, tirar o pijama e permanecer de pé”, nos é explicitada por Saviano em um relato que em determinados momentos flerta com a prosa poética e em outros com o jornalismo.


Mais que uma obra literária, "Gomorra" é uma autópsia da Camorra e seus principais líderes, cuja sede de conquista transformou o sul da Itália em um canteiro de lixo e em um imenso morgue.

Lançada em 2006 (em 2008 no Brasil, pela Bertrand), a obra foi traduzido em mais de 40 países, vendeu milhões de exemplares, foi adaptada para o teatro e para o cinema – o filme arrebatou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, em 2008 – e catapultou Saviano para o olimpo literário. No entanto, soterrou sua vida particular, transformando-o em mais uma vítima de um “sistema” criminoso que se impõe a vastas regiões da Itália, transformando centenas de milhares de pessoas em massa de manobra, algumas vezes conivente, em outras, reféns de um modo de vida da qual não conseguem escapar.


Desde 2006, pelo menos 14 policiais e dois carros blindados se alternam 24 horas por dia na escolta de Saviano. Jurado de morte pela Camorra, ele dorme em hotéis e apartamentos alugados, nunca por mais de um mês. "Não consigo imaginar meu futuro. Gostaria de ter uma vida normal, com um pouco de liberdade. Eu me arrependi mil vezes de ter escrito Gomorra e não outro livro, que poderia ter me dado uma vida de escritor, e não de perseguido. Eu odiei o livro por muito tempo. Sabia que devia muito a ele, talvez até demais, mas às vezes eu gostaria de poder voltar atrás e nunca tê-lo escrito”, afirmou em recente entrevista.


A situação de Saviano tem paralelo com a das poucas pessoas que resolveram enfrentar a Camorra e que, se não tiveram a vida abreviada pelos killers da organização, foram lançadas em um ostracismo social. É o caso de uma jovem professora citada pelo autor no percurso da obra, que opta por testemunhar um crime cometido por matadores a soldo da máfia.


“O que torna escandaloso o gesto da jovem professora foi a sua escolha de considerar natural, instintivo, vital, o ato de poder testemunhar. Possuir esta conduta de vida é como acreditar realmente que a verdade pode existir... uma escolha inexplicável. Aí acontece de as pessoas próximas se sentirem em dificuldade, se sentirem descobertas pelo olhar de quem renunciou às regras da própria vida, que elas aceitam integralmente. Aceitam sem vergonha, porque afinal deve ser assim, porque é assim que sempre foi, porque não se pode mudar tudo com as próprias forças e então é melhor economizá-las e aderir à caravana e viver como é permitido viver.”


Saviano não descreve o panorama social napolitano sob as lupas da isenção e do afastamento crítico. Ele o decompõe com a intimidade de quem, como um verme, esteve inserido na carne deste corpo putrefato que incha e explode revelando toda a sujeira interior da estrutura física e moral da Camorra.

O porto de Nápoles é o ponto de partida para a jornada de Saviano. Lá desembarcam diariamente todo tipo de mercadorias vindas da Itália, do oriente e de várias partes da Europa. Desde resíduos químicos, material tóxico e lixo, vestuário e quinquilharias de todos os tipos produzidas nos mercados asiáticos, toneladas de cocaína, alta costura e até restos humanos descartados de cemitérios de forma clandestina para abrir espaço ao lucro. Tudo isso é despejado clandestinamente na região da Campânia sob os olhos gulosos dos boss da Camorra.


Em “Gomorra”, Saviano explica o esquema que permite que o lixo tóxico produzido no norte industrializado do país - cuja legislação de descarte de resíduos é mais rígida - seja enterrado no sul da Itália contaminando os lençóis freáticos e até mesmo a produção da conhecida mussarela local. Esmiúça a falsificação de alta costura, que inclui o trabalho escravo de mão-de-obra chinesa e é ostentada até mesmo no tapete vermelho hollywodiano. Aponta o controle mafioso de ramos importantes da construção civil, como a produção de cimento.


Se no século XX a máfia se ocupava apenas de negócios ilegais, como o jogo, o contrabando de bebidas e o tráfico de drogas, agora, financiada pelo lucro da ilegalidade, estes conglomerados criminosos tem cada vez mais participações em negócios legais e muito lucrativos. E estão mais perto do que imaginamos. Conexões brasileiras da máfia são citadas em alguns trechos da obra e nos fazem pensar em negócios ocorridos em nossas grandes (e não tão grandes) cidades.


Em meados de novembro de 2008 Saviano voltou a participar de eventos públicos, sempre acompanhado por sua escolta. Foi homenageado pela Academia Nobel, em Estocolmo, que promoveu uma conferência sobre liberdade de expressão em apoio a ele e a Salman Rushdie – cuja cabeça ainda está a prêmio devido ao livro “Versos Satânicos” - pela coragem de terem publicado obras que denunciaram autoridades religiosas, morais, políticas e criminosas.


A insistência em enfrentar uma estrutura tão entranhada no tecido social italiano e de expor suas fissuras de forma tão clara tem um preço alto. Saviano se diz sufocado por uma vida que não escolheu, mas da qual nunca fugiu. Talvez o último parágrafo de “Gomorra” traduza bem este sentimento, que compartilham todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se veem obrigados, sob a pena de enlouquecer, a contrapor o óbvio, a nadar contra a maré, a esmurrar a ponta da faca.


 “Em certas horas não há nada que se possa fazer senão seguir nossos delírios como alguma coisa que você não escolhe, que você sofre e pronto. Tive vontade de berrar, queria gritar, queria rasgar os pulmões com toda a força do estômago, romper a traqueia, com toda a voz que a garganta pudesse ainda soltar: “Malditos filhos-da-puta, eu ainda estou vivo!”.

sábado, 31 de agosto de 2013

Poema

Flor
Que eclode em teus
Lábios cada vez que exalas
Que nos teus olhos
Emudece todos os aromas
Que me envolve
E sufoca
Como um jardim oculto

Pétala
Que transpira em
Tua pele em suave toque
Que em tuas mãos
Embala todos meus sonhos
Que me envolve
E esmaga
Como um mar de seda

sábado, 10 de agosto de 2013

"Dirceu: a Biografia" - Otávio Cabral


Finalizei ontem a leitura de “Dirceu: a biografia”, de autoria do jornalista Otávio Cabral. O que me atraiu à leitura foi o tiroteio travado por petistas e tucanos após o lançamento do livro, em junho. Os primeiros capricharam na ridicularização da obra, apontada como um apanhado de imprecisões históricas, fruto de um “recorta e cola” de publicações jornalísticas e dossiês policialescos. Os últimos classificaram o livro como um relato desapaixonado e bem construído sobre a vida de um dos mais importantes personagens políticos do país que, por ambição política e pouco respeito às práticas republicanas acabou por cair em desgraça, levando consigo a aura de moralidade de seu partido. Eu prefiro ficar no meio, procurando um ponto de equilíbrio entre as opiniões de detratores e aliados do ex homem forte do Governo Lula – a quem tive a oportunidade de entrevistar há alguns anos (leia aqui - http://tinyurl.com/lz8vmhj).

É fato que o livro de Cabral carece de fontes (identificáveis, ao menos). O autor fala em 63 pessoas que teriam sido entrevistadas na fase de pesquisas, mas poucas são citadas nas notas de rodapé. Notas que chancelam determinadas informações apontam para “um assessor”, “um jornalista” ou “uma testemunha”. A jornalista Mônica Bergamo, por exemplo, desmentiu no Facebook um relato no qual se viu citada. “Otávio Cabral, da Veja, diz que entrevistou 63 pessoas. Não me entrevistou. E deu uma informação completamente errada citando meu nome”, afirmou.

Por si só estes fatos desabonam o livro de Cabral? Penso que não, mas é preciso discernimento para separar o que é fato histórico e o que é análise baseada em contextos que mereciam ao menos um embate de versões.

Durante a divulgação do livro, Cabral revelou que não conseguiu conversar pessoalmente com o ex-ministro, mas explicou que Dirceu também não impediu que a obra fosse realizada ou que pessoas próximas a ele dessem entrevistas com informações referentes à sua vida. "Ele não fez nada para impedir que alguém da proximidade dele falasse comigo. Ele não colocou nenhuma objeção", revelou o jornalista. O autor disse ainda que tentou ser o mais imparcial possível durante a realização da obra. "Tentei ser mais um narrador do que um comentarista".

O livro traz passagens prosaicas da vida de José Dirceu, desde o seu nascimento, em Passa Quatro (MG), até a condenação pelo STF no processo do Mensalão, passando por sua projeção durante o movimento estudantil na década de 60, a luta armada, a prisão, o exílio em Cuba, os anos de clandestinidade no Brasil até a abertura, a criação do PT e a conquista do poder. Tudo isso entremeado pelas incontáveis aventuras amorosas do Don Juan petista.

Dirceu foi personagem central nesta bola de neve política das últimas três décadas. Ajudou a fundar o PT, liderou o partido na oposição a Collor, Sarney e FHC, foi mentor da transformação de um agrupamento de tendências de esquerda em um partido pragmático para chegar ao poder, coordenou a vitória de Lula, comandou o expurgo da esquerda petista e as alianças com partidos conservadores e fisiológicos. Alianças que levaram ao Mensalão, que provocou sua queda do comando da Casa Civil e o processo que levou à sua condenação. 

Destaco como pontos relevantes do livro a relação conflituosa entre Dirceu e Lula e a sua disputa por poder no partido e no governo com outras cabeças coroadas do PT. A certeza de que foi abandonado à própria sorte pelo partido – especialmente por Lula - após a condenação pelo Supremo e o pragmatismo que o levou a ser um dos mais bem pagos lobistas do país também são pontos chave na trama traçada por Cabral para nos apresentar um José Dirceu que, ao contrário do que o autor insinua nas últimas linhas da obra, foi um dos responsáveis direitos pelo Brasil que conhecemos hoje, com todas as suas contradições e avanços.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Deixa ela entrar - John Ajvide Lindqvist



“Deixa ela entrar” (2004) é o primeiro livro do sueco John Ajvide Lindqvist. Trata-se de uma das mais perturbadoras ficções de terror dos últimos tempos. Grande parte de seu impacto se deve à originalidade com que Lindqvist aborda a seara do vampirismo. Vários elementos dessa literatura estão presentes – a começar pelo título, que faz referência à crendice de que vampiros só podem entrar em lugares para os quais são convidados –, porém ambientados no mais cru realismo.

No enredo, Oskar, um garoto de doze anos, vive com a mãe no subúrbio de Estocolmo, na década de 1980. Solitário e alvo de bullying na escola, passa o tempo lendo e colecionando notícias sobre serial killers e planejando se vingar de seus perseguidores. No entanto sua rotina é alterada quando uma garota de doze anos, Eli, se muda para o apartamento ao lado. Uma profunda identificação aproxima o menino a Eli, ao mesmo tempo em que a vizinhança passa a ser assolada por uma onda de mortes misteriosas.

Muito mais que sustos, o livro de Lindqvist desperta os horrores de quem tem de passar da infância para a maturidade em circunstâncias adversas e em um cenário opressivo. Com habilidade, o autor recorre a um registro naturalista, temperado de referências à cultura pop, para desenvolver uma história em que os medos são despertados tanto por elementos sobrenaturais quanto pela realidade concreta.

Pedofilia, prostituição, empalamentos e que tais se perfilam na narrativa das 500 páginas da obra, em um inquietante panorama que escapa da banalidade do terror barato por meio de uma bem construída paisagem que retrata a solidão de um grupo de personagens esmagados pela falta de expectativas econômicas, sociais e amorosas. E por um vampiro-criança...

Lindqvist nasceu em Blackeberg, subúrbio de Estocolmo, na Suécia, em 1968. Antes de se tornar autor de romances e contos de terror, trabalhou como roteirista de séries para a TV sueca, como mágico e comediante de stand-up. Seu segundo livro, “Mortos entre vivos” aborda outro fértil campo do terror moderno, os zumbis, mas de um ponto de vista totalmente original.

Quatro anos após seu lançamento nas livrarias, Deixe ela Entrar ganhou sua primeira adaptação cinematográfica. Dirigida pelo competente Tomas Alfredson (O espião que sabia demais), a produção sueca foi muito bem recebida pela crítica e ajudou Hollywood a dar sinal verde para sua versão para a história. Deixe-me Entrar, que contou com Chloë Grace Moretz (Kick-Ass) e Kodi Smit-McPhee (A Estrada) como protagonistas e com Matt Reeves (Cloverfield) responsável pela direção não se saiu muito bem nas bilheterias mas, assim como seu primo europeu, ganhou vários elogios dos especialistas.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

50 anos a mil - Lobão

“Preparem-se porque, a partir de agora, vou contar uma história de amor louca, insólita, humana, demasiadamente humana, imprevisível, improvável, mas bem real: a história da minha vida, que se mescla e se confunde com a da minha geração, do nosso país e de nosso tempo. Não se trata de uma simples narração de um passado longínquo, morto e enterrado, fruto de um devaneio nostálgico. É uma história cheia de vida, de intensidade e de revelações, que incide no presente e se projeta em direção ao futuro. Portanto, não se enganem: o melhor ainda está por vir, pois essa promessa eu fiz aos meus amigos, ao pé de suas lápides. E tenham a certeza absoluta de que a cumprirei à risca.”

E não é que João Luiz Woerdenbag Filho (o Lobão) faz exatamente o que prometeu?

Terminei há pouco sua autobiografia “50 anos a mil”. Não, não é bem escrito, há muitas repetições de fatos, em certos momentos a história perde a linearidade e a participação do Claudio Tognolli não acrescentou absolutamente nada à obra. Enquanto o biografado ia fundo nas próprias lembranças, Tognolli fazia a pesquisa factual: compilava notícias publicadas nos últimos 30 anos, recolhia os inúmeros processos judiciais que Lobão teve de responder, entrevistava outros personagens. Mas o conteúdo e apresentação da contribuição são fracos.  Ainda assim o livro é muito, muito bom.

“50 anos a mil” é um brainstorm de fatos e histórias vividas por Lobão e pelos principais personagens da contracultura carioca (e nacional). Muita droga, muito sexo e muito roquenrol, mas também muita cultura, verve e disposição para dar um chute daqueles na bundamolice que insistia se acomodar em meio à produção cultural do país (e que prevaleceu, infelizmente, nos dias de hoje).

De fundador da Blitz como baterista, à sua reinvenção como artista que o levou a ganhar um Grammy em 2007 (melhor disco de rock com seu Acústico MTV), Lobão destrincha sua história sem pudores, vai fundo em suas próprias feridas e exorciza fantasmas adormecidos. Entre amores, prisões, drogas, incontáveis polêmicas envolvendo artistas como Herbert Vianna e Caetano Veloso, a histórica e breve passagem pelo Rock in Rio ll, seu envolvimento com o Comando Vermelho, o amor declarado pelos amigos Júlio Barroso e Cazuza, e seu embate com a indústria fonográfica que culminou na lei de numeração de discos, “50 anos a mil” narra através de uma prosa espontânea as diversas faces que compõem a personalidade do cara mais odiado e mais amado do rock nacional.

Me pergunto se o livro tem o mesmo peso para quem não viveu a adolescência ou o início da fase adulta no Rio de Janeiro, nos anos 80. Afinal, todas as mirabolantes histórias que Lobão nos apresenta nas quase 600 páginas do livro tem cheiro de Rio de Janeiro nos anos 80. Eu, por exemplo, tenho a nítida lembrança de um bate papo com colegas no antológico Colégio Peixoto (na Gávea) sobre a novidade musical do momento: o primeiro disco da Blitz em 1982. Dali para frente, a história da nossa geração mudou drasticamente com a explosão do rock Brasil. Lobão foi personagem central em todo este processo e o livro traz estes momentos únicos junto com a lembrança de uma juventude ainda amortecida com os resquícios da ditadura, mas totalmente a fim de reverter o mundo.

Lobão faz questão de dizer que o melhor ainda está por vir. E tem feito por onde. Em 2012 auto-produziu seu CD e DVD “Lino, Sexy & Brutal”, e lançou recentemente – com a mesma polêmica que lhe é peculiar - seu segundo livro “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”.  Lobão disse: "O livro inteiro sou eu morrendo muitas vezes, de várias maneiras. E depois, sempre, me reinventando". Nada mais Lobão.

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Confira a seguir este trecho antológico no qual Lobão e Cazuza cheiram uma lagarta sobre o caixão do poeta e rocker Júlio Barroso:

“O Júlio era um homem-arquivo, um poço das mais variadas informações. Um ser de uma inteligência prodigiosa, de grande coragem e inspiração; um articulador.
Era um esteta, e perseguia obsessivamente a novidade, digerindo tudo que estava ao seu alcance, sem barreiras, sem dogmas. Fora a sua alegria... O Júlio era um grande poeta, uma criatura engraçadíssima, uma aventura ambulante, um sexista, um sátiro e, antes de qualquer coisa, um amigo raro.
Com tudo isso passando pela cabeça, naquele velório, suor e lágrimas se fundiam. O silêncio se desfazia com o cantar dos passarinhos, que despertavam com o dia a me causar calafrios. Na sala, o caixão fechado invocava toda uma angústia da incapacidade em não poder dar o último abraço, o último beijo. Daí pensei: “Cazuza, pensa bem: tá todo mundo dormindo, a gente tá aqui sozinho, com ele... Vamos sublimar a paradinha. Vamo esticar duas carreironas em cima do caixão? Pelo menos essa kartirinha da Ordem dos Músicos vai servir pra alguma coisa. A gente não pode se negar a fazer isso, né?” Eu fungava, apalpando freneticamente os bolsos
“Vai ser nossa última homenagem... Não tem ninguém olhando... Vamo nessa, rapá!”
“Lobãothinho”, Cazuza de vez em quando me chamava assim, ciciando, “tá bom, vamos nessa. Mas será que não vão pegar a gente com o canudo no nariz?”
“Claro que não, bobo. Tá todo mundo cansadão, dormindo pelos cantos. E se alguém nos flagrar, vai pensar que tá tendo um visual causado pela estafa e pelo sofrimento. Além do mais, isso aqui é uma licença poética!” Depois de algum tempo tremelicando, consegui tirar a tampa de Minalba do bolso, cheia de cocaína, despejar no verso da kartira azul e pousá la em cima do caixão. Estiquei diligentemente duas enormes lagartas que reluziam a brilhar naquela insólita superfície — que naquele instante, em todo o seu conjunto, mais parecia uma instalação de arte contemporânea —, e passei o canudo de caneta Bic pro Cazuza: “Vai nessa, meu irmão. Pensa que é pro Júlio.” Ele me deu uma risada meio amarga, meio úmida, deu uma cafungada forte e, sem perder o fôlego, me passou o canudo secando a narina no antebraço, dizendo baixinho: “A gente é muito louco! A gente é maluco...” Pausa. Mais uma risadinha canalha e emenda: “Mas também, o que nos resta?!” Respirei um pouco pra pegar um ar depois do catranco e, me dirigindo a um Júlio que, nesse exato momento, parecia descer das nuvens, todo de branco, como sempre gostava de se trajar, a nos abençoar, escancarando um sorriso de quem está pronto para gritar para seus irmãozinhos — “Aleluia, rapeizy!” —, contrito, lhe prometi: “Meu amigo, você vai sempre estar com a gente, você vai sempre estar vivendo dentro da gente, pode crer!”
Recebemos um fluxo de energia poderoso. Um momento ritual. A partir de então, a minha vida se resumiria em antes e depois daquele instante. A morte do Júlio Barroso foi um marco: existia o antes e o depois daquela perda. Não só para mim, mas para toda a história.
E olhando pro Cazuza, inflado de amor, arrematei: “E tem outra, rapá, não vão derrubar a gente assim tão mole, não! Vamos em frente, mesmo porque a morte do Júlio não vai ser em vão. A nossa vida não pode ser em vão, e, se nada pode deter uma pessoa feliz, nada poderá nos deter, pois a nossa história vai ser cada vez mais... cada vez mais...” Chorava copiosamente. Diante daquele vazio, gaguejando mentalmente, tentando pinçar na cabeça o que poderia ser “cada vez mais”, arrematei: “INTENSA!!!!” E não satisfeito, prossegui: “e cada vez mais... DIVERTIDA!!!!” E concluí: “A nossa onda de amor não há quem corte!!” Chacoalhando de emoção, abracei com toda a força o caixão.
Talvez tenha sido ali, naquele momento surreal, que nasceu não só uma vontade, mas um compromisso tácito entre meus amigos de que, uma vez sobrevivendo, eu deveria contar toda a história. Uma saga à procura de um lugar a que se pertencer… Eu precisava, através de um juramento, me motivar o bastante para não ver nossos sonhos serem sepultados com meus amigos.”

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Também vale checar este teaser do livro
http://youtu.be/eFKj_PT7bIk