Semana On

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Palestinos - 65 anos sem pátria



Hoje, 15 de maio, se completam 65 anos da Nakba (Catástrofe), que é como os palestinos batizaram a expulsão de quase um milhão de árabes durante os conflitos internos que deram origem a Israel e ao despatriamento de centenas de milhares de famílias.

Toda sorte de distorções e mitos já foram circulados sobre o que aconteceu na Palestina entre o final de 1947 e o começo de 1949. Na mitologia oficial israelense, no senso comum, no jornalismo mais venal ou preguiçoso, nas Wikipédias e até mesmo em livros embalados como se fossem de pesquisa historiográfica séria, essas distorções foram sedimentando uma coleção de narrativas que recorrem a falsificações não raro contraditórias entre si:

1) que o povo palestino como tal não existia;
2) que ele existia, mas que saiu voluntariamente de suas terras em 1948;
3) que não saiu voluntariamente, mas que tampouco foi vítima do sionismo, pois abandonou suas aldeias atendendo a ordens radiofônicas dos próprios árabes;
4) no ramo da pseudo-historiografia, paga para mentir, já apareceram até livros sobre como os palestinos não eram tão antigos assim na região, já que eles teriam chegado também em imigração recente.

Essas diferentes versões da mitologia oficial vão se sucedendo ou se combinando, a gosto do freguês, formando uma geleia geral de enganação empacotada.

A história é facilmente esquecida. E, por ser facilmente esquecida, é facilmente manipulada. Para quem se interessa pelo tema (e não tem preguiça de ler) segue uma pequena contribuição (pinçada de um trabalho mais extenso do estudioso Idelber Alevar) para que a história seja preservada e, em consequência, para que a verdade não se perca.

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Em 29 de novembro de 1947, quando a ONU adotou a resolução de partição da Palestina, os árabes representavam dois terços da população da região. Eles eram aproximadamente 90% no início do Mandato Britânico, em 1922. A partição proposta pelo Comitê Especial das Nações Unidas para a Palestina (UNSCOP, pela sigla em inglês) concedia ao terço judeu nada menos que 56% do território, deixando aos dois terços árabes somente 44% da terra. Por pressões do Vaticano e das nações católicas, a resolução da partição reservava à cidade de Jerusalém (de população de 200 mil pessoas, divididas mais ou menos igualmente entre árabes e judeus) a condição de área internacionalmente governada.

A divisão demográfica dos dois países era bizarra: no estado árabe, deveriam viver 818.000 palestinos, hospedando 10.000 judeus. No estado judeu, viveriam 438.000 palestinos entre 499.000 judeus. Esse estado detinha a esmagadora maioria das terras férteis e, das 1.200 aldeias palestinas, aproximadamente 400 estavam incluídas em seu interior, sob soberania sionista. Elaborada pelo UNSCOP, cujos membros não sabiam muito sobre a Palestina, a partição se transformaria na Resolução 181 da ONU. Não é de se estranhar que a liderança palestina do momento a rejeitasse. Com o boicote palestino ao UNSCOP, com certeza um erro político grave, a liderança sionista, de ampla superioridade bélica, se viu livre para dominar também o jogo diplomático.

A amarga ironia da história, quando a vemos do ponto de vista árabe, é que se os palestinos tivessem aceitado a partição, a liderança sionista com certeza a teria rejeitado. Basta examinar as comunicações entre Ben-Gurion e a hierarquia sionista para ver como a rejeição árabe ao plano de partição permitiu ao sionismo aceitá-lo publicamente e ao mesmo tempo trabalhar contra ele. Logo depois da adoção da Resolução 181, Ben-Gurion afirmava ao círculo da liderança sionista que a rejeição árabe ao plano significava que “não há fronteiras territoriais para o futuro estado judeu” e que as fronteiras “serão determinadas pela força e não pela resolução de partição”. Respondendo a um líder sionista e ministro do exterior (Moshe Sharett) acerca das possibilidades de defender o seu território, Ben-Gurion afirmava: “seremos capazes não só de nos defendermos, mas de infligir golpes letais aos sírios em seu próprio país—e tomar a Palestina como um todo”.

Essas comunicações, disponíveis para consulta nos próprios arquivos israelenses, demonstram claramente que a liderança sionista viu o plano de partição como uma conquista tática, que colocava em definitivo sobre a mesa a legitimidade de um estado judeu na Palestina e estabelecia um trampolim para conquistas posteriores. Essas conquistas, é certo, foram facilitadas pelo perplexo boicote palestino ao Comitê da ONU. Reitere-se, então, que as citações de Ben-Gurion acima são parte de uma ampla documentação que prova que a liderança sionista jogou um jogo duplo e não se comprometeu com a partição como fórmula definitiva. Isso jamais é mencionado pelos apologistas da ocupação de Israel que repetem a consigna de que “os judeus aceitaram a partição de 1947 e os árabes a rejeitaram” como justificativa dos crimes cometidos por Israel em 2010, e bem além dos limites dessa partição.

Antes de descrever a expulsão dos palestinos de suas terras, mais um elemento do xadrez político legado pelo Mandato Britânico deve ser explicado: o acordo sionista-jordaniano que deixa os palestinos sem o apoio do principal exército árabe na Guerra de 1948 e à mercê do superior poder bélico sionista. Aliada dos ingleses na Primeira Guerra Mundial, a família real Hashemita havia recebido os reinos da Jordânia e do Iraque como recompensa por seus serviços. O que passou a ser conhecido como Transjordânia “era um pouco mais que um principado desértico e árido ao leste do Rio Jordão, cheio de tribos beduínas e aldeias circassianas”. As férteis terras da Palestina situadas a oeste do Rio Jordão, no que hoje é conhecido como Cisjordânia (ou seja, o grosso do território do que é, legalmente, a Palestina atual), passaram a ser objeto da cobiça da família real Hashemita. Havia poucos judeus ali, e entre 1946 e 1947 a realeza jordaniana e a liderança sionista chegaram um acordo: os jordanianos não interfeririam na guerra árabe-israelense que se avizinhava—promessa que os jordanianos cumpriram—e a região da Cisjordânia seria anexada pelo reino dos Hashemitas, sem interferência sionista—promessa que os israelenses quebraram em 1967, ao ocupar o território e mantê-lo sob seu controle, picotagem policial e colonização armada até hoje. Também ali se instalaria um paradigma repetido incontáveis vezes desde 1948. Acuados pelo poder superior dos sionistas, as elites árabes vizinhas rifavam os palestinos, deixando-os entregues à própria sorte num jogo no qual não tinham nenhuma chance. É mais um elemento da tragédia do Oriente Médio.

Revisando os diários de Ben-Gurion e os arquivos israelenses posteriores à partição, o historiador Ilan Pappe encontra certa surpresa e júbilo entre a liderança sionista com o caráter limitado da reação palestina ao recorte de suas terras. Seguindo-se à Resolução 181, os palestinos se limitam a convocar uma greve geral de três dias, durante a qual a repressão inglesa foi duríssima. As revoltas árabes que aconteceram entre 1936 e 1939 deram também à organização paramilitar judia Hagana sua primeira experiência na execução das táticas militares aprendidas com a Grã-Bretanha. A destruição da liderança política palestina seria decisiva para o rumo posterior dos acontecimentos. O quadro que precede a guerra de 1948 é de intenso armamento sionista, coincidindo com um momento de particular fragilidade da liderança palestina, destroçada pela repressão britânica à revolta de 1936-39. No jogo diplomático, começa a pesar a consciência culpada da Europa, em choque com as dimensões gigantescas do Holocausto judeu, recém perpetrado. Quebrar as promessas feitas aos árabes era preço relativamente pequeno para expiar, às custas de outrem, a culpa européia pelo judeocídio. No xadrez político da região, o acordo sionista-jordaniano neutralizava o principal exército árabe. Em pânico com os constantes ataques dos grupos paramilitares judeus (Hagana, Irgun e Stern), a população autóctona, já em 1947, começa a perceber o poderio sionista como uma força imbatível. Estava aberto o caminho para a limpeza étnica da Palestina.

A preparação da expulsão

Como se sabe agora, a liderança militar sionista ficou surpresa com o caráter limitado dos protestos palestinos que se seguiram ao decreto da partição, em novembro de 1947. Afinal de contas, seu território havia sido rachado com uma comunidade minoritária de colonos, que receberam não só um naco de 56% do território, desproporcional à sua representação na população, mas um naco que continha pelo menos 400 aldeias palestinas, nas quais 800.000 palestinos deviam seguir vivendo sob soberania imposta e recém chegada. Ao longo dos dias que se seguem à partição, o comando sionista se reúne para encontrar formas de ataque possíveis, ante a ausência de pretextos. Os arquivos estudados por Ilan Pappe, das reuniões a liderança judaica na Palestina, dão amplo testemunho do planejamento da limpeza étnica. Os fazendeiros dos Kibbutzim transformavam suas cooperativas em postos militares, enquanto nas aldeias palestinas a vida seguia seu curso, no qual a “normalidade era a regra e a agitação a exceção”, segundo os informes do próprio Palti Sela, membro de uma unidade de inteligência sionista. Ao longo do mês de dezembro de 1947, anterior à guerra propriamente dita, as aldeias palestinas sofrem uma campanha de terror e intimidação das organizações paramilitares judias que representam o primeiro capítulo da limpeza étnica da Palestina.

A linguagem da ameaça foi prática comum naquele momento, como mostra o exemplo citado por Ilan Pappe, de panfletos lançados às aldeias sírias e libanesas na fronteira palestina: “Se a guerra for levada até você, ela causará expulsão massiva de aldeões, com suas mulheres e crianças … haverá matança sem piedade, sem compaixão”. Lembremos que nesse momento o sionismo já possui um mapa completo das aldeias palestinas, incluindo-se informação sobre água, possíveis defesas e indivíduos vinculados à resistência árabe durante os protestos de 1936-39. Esse mapeamento seria chave na destruição das centenas de aldeias palestinas e na expulsão de centenas de milhares de habitantes autóctonos da região No mês de dezembro se disseminam as ações que a Hagana chamava de “reconhecimento violento” (hassiyur ha-alim): invadir uma aldeia à noite, instaurar toque de queda, atirar em qualquer um que ouse sair de casa, permanecer durante algumas horas e ir embora. A aldeia de Deir Ayyub foi uma das vítimas de dezembro de 1947. Com aproximadamente 500 habitantes, ela acabava de comemorar a abertura de uma escola. Foi invadida por tropas judaicas que passaram a atirar indiscriminadamente nas casas. Deir Ayyub ainda seria atacada três vezes antes de ser destruída em sua totalidade em abril de 1948 (p.56). No nordeste da Galileia, na aldeia de Khisas, algumas centenas de muçulmanos coexistiam pacificamente há tempos com uma centena de cristãos. Até que no dia 18 de dezembro de 1947, tropas judaicas a invadiram e passaram a explodir casas durante a noite, provocando a morte de quinze aldeões, pelo menos cinco crianças. Ações como estas proliferaram ao longo de dezembro de 1947, e não costumam ser mencionadas pelos que justificam as atrocidades de Israel com o argumento de que “os palestinos iniciaram a guerra” em janeiro de 1948.

As ações de expulsão da população anteriores à declaração formal de guerra em janeiro de 1948 não se limitaram às aldeias pequenas. Na cidade de Haifa, principal porto da Palestina, 75 mil palestinos “foram submetidos a uma campanha de terror instigada conjuntamente pelo Irgun e pela Hagana. Como haviam chegado em décadas recentes, os colonos judaicos construíram suas casas no alto das montanhas. Viviam topograficamente acima dos bairros árabes e podiam disparar e lançar morteiros contra elas. Começaram a fazê-lo com frequência a partir do começo de dezembro. Usaram também outros métodos de intimidação: as tropas judaicas rolavam barris cheios de explosivos, e enormes bolas de aço, na direção das áreas residenciais árabes, lançavam óleo misturado com combustível nas estradas, que aí incendiavam. Os residentes palestinos, aterrorizados, corriam para fora de suas casas para tentar apagar o fogo, e aí passavam a ser alvo de rajadas de metralhadora”. A descrição documentada do que aconteceu em Haifa em dezembro de 1947 é importante porque a cidade é, com frequência, mencionada como exemplo de que as lideranças judaicas insistiram para que os palestinos ficassem e eles saíram “voluntariamente”.

Epílogo e promessa

Não está contada aqui, evidentemente, nada da história do Nakba propriamente dito. Para se entender a monstruosidade a que foi submetida o povo palestino, há que se conhecer os quatro planos de limpeza étnica da Palestina elaborados pela liderança sionista desde antes da II Guerra Mundial. O Plano A, também conhecido como “Plano Elimelech”, toma seu nome do líder do comandante da Hagana que, em 1937,  já elaborara, a pedido de Ben-Gurion, um projeto de limpeza étnica a ser executado no momento em que os ingleses abandonassem a Palestina. O Plano B foi escrito em 1946 e ambos depois se fundiram no Plano C, que previa: a) assassinatos seletivos da liderança política palestina; b) destruição da infraestrutura de transporte palestina; c) sabotagem específica às fontes de sustento da população nativa, como os moinhos; d) ataques escalonados às aldeias; e) bombardeios de ônibus, cafés, locais de reunião. O fundamental desse plano é mantido no projeto que é efetivamente executado, o Plano D (Dalet), anterior à guerra de 1948, e que previa a sistemática expulsão do povo palestino de suas terras.

O Plano Dalet já é consenso entre a liderança sionista em Dezembro de 1947, antes da oficialização da guerra. Ao cabo do processo de limpeza étnica, espantosamente curto e brutal, mais da metade da população palestina nativa (pelo menos 750.000 pessoas) foi expulsa, 531 aldeias foram destruídas e onze bairros urbanos foram esvaziados de sua população, um crime contra a humanidade de enormes proporções, ainda hoje negado e envolvido em falsificação. Hoje, os refugiados e seus descendentes vivem esparramados por, em números aproximados, Jordânia (2 milhões), Líbano (430.000), Síria (480.000), além de 800.000  que são parte da população palestina que mora sob ocupação militar israelense na Cisjordânia (2,3 milhões) e outro 1,1 milhão que vive sob bloqueio (e frequente bombardeio) militar israelense em Gaza. Outros 1,2 milhão de palestinos vivem como cidadãos de segunda classe em Israel. O melhor guia do Nakba é o livro de Ilan Pappé, The Ethnic Cleansing of Palestine, infelizmente ainda inédito em português.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lincoln - Doris Kearns Goodwin



 “Considero que a ideia central desta luta é a necessidade que se abateu sobre nós de provar que o governo popular não é um absurdo. Precisamos resolver agora a questão de saber se, num governo livre, a minoria tem o direito de derrubar o governo sempre que desejar. Um fracasso serviria para provar a incapacidade do povo de se governar”.

O pensamento acima é de Abraham Lincoln, 16º presidente dos Estados Unidos, e diz respeito aos motivos que lançaram seu país em uma guerra civil que se estendeu de 1861 a 1865 ceifando a vida de 970 mil pessoas (3% da população do país à época). Apesar de contextualizado, o pensamento de Lincoln é tão atual, tão intrínseco a uma contemporaneidade na qual os valores democráticos são constantemente atacados e vilipendiados como se deles surgissem todos os males de nossa sociedade.

Ontem finalizei “Lincoln”, da vencedora do Pulitzer de História e romancista Doris Kearns Goodwin. Em um primeiro momento o livro passa a impressão de superficialidade, mas, conforme vamos avançando na leitura vemos descortinada a nossa frente uma das mais fascinantes personalidades do século 19. Resumir o pensamento e os feitos de Abraham Lincoln em 321 páginas pode ser considerado, por si só, um trabalho exaustivo.

O livro esmiúça a fase final da vida de Lincoln, a partir da campanha pela indicação do Partido Republicano para a disputa presidencial de 1861 em um país dividido pela questão escravagista e pelo conceito de União. Sua genialidade política, sua visão de estadista são abordadas especialmente na sua relação com os adversários - dentro do partido e no governo - cujas vaidades soube apaziguar, cujas deslealdades pode relevar e cujas personalidades conseguiu cativar.

Goodwin relata os bastidores políticos da época sem se esquecer de humanizar Lincoln diante de seus dramas pessoais, como a morte dos filhos, e inerentes ao peso de comandar uma guerra fratricida.

Talvez o retrato mais fiel desta personalidade hercúlea seja exposto nas páginas finais de Goodwin:

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Em 1908, numa área remota e afastada do Cáucaso do norte, Leon Tolstoi, o maior escritor da época, era o convidado de um chefe tribal “que morava nas montanhas, longe da vida civilizada”. Reunindo a família e os vizinhos, o chefe pediu a Tolstoi que contasse passagens da vida dos homens famosos da história. Durante horas, Tolstoi brindou o público atento com narrativas sobre Alexandre, César, Frederico, o Grande, e Napoleão. 

Quando ele se preparava para terminar, o chefe levantou-se e disse: “Mas você não nos contou nada sobre o maior general e governante do mundo. Queremos ouvir alguma coisa. Ele foi um herói. Falava com a voz do trovão, ria como o amanhecer, e seus feitos tinham a força das rochas. (...) Seu nome era Lincoln e a terra em que viveu chama-se América, uma terra tão distante que, se um rapaz saísse a pé para viajar até lá, ele já estaria velho quando lá chegasse. Fale-nos desse homem.”

“Olhei para eles”, recordou-se Tolstoi, “e vi seus rostos alvoroçados, enquanto seus olhos ardiam. Vi que aqueles toscos bárbaros realmente estavam interessados num homem cujo nome e cujos feitos já tinham se tornado lendários”. Ele lhes contou tudo o que sabia sobre Lincoln, sua “vida doméstica e sua juventude (...) seus hábitos, sua influência sobre o povo e sua força física”. Quando terminou, eles ficaram tão gratos pela história que o presentearam com “um maravilhoso cavalo árabe”.

Na manhã do dia seguinte, quando Tolstoi se preparava para partir, eles perguntaram se ele teria como conseguir para eles um retrato de Lincoln. Como acreditava que poderia encontrar um na casa de um amigo na cidadezinha próxima, Tolstoi pediu a um dos cavaleiros que o acompanhasse. “Consegui obter uma fotografia de bom tamanho com meu amigo”, recordou-se Tolstoi. Quando a entregou ao cavaleiro, ele percebeu que a mão do homem tremia ao aceitá-la. “Ele ficou alguns minutos olhando para ela em silêncio, como alguém que faz uma prece com reverência, os olhos marejados de lágrimas.”

Tolstoi fez então o seguinte comentário: “Este pequeno incidente prova como o nome de Lincoln é venerado pelo mundo afora e como sua personalidade se tornou lendária. Ora, por que Lincoln foi tão grande a ponto de suplantar todos os outros heróis nacionais? Na realidade, ele não foi um grande general, como Napoleão ou Washington; não foi um estadista hábil, como Gladstone ou Frederico, o Grande; mas sua supremacia se expressa totalmente em sua singular força moral e na grandeza de seu caráter. Washington foi um americano típico. Napoleão foi um francês típico. Mas Lincoln foi um humanitário, com a abrangência do mundo. Ele foi maior que seu país — maior que todos os Presidentes reunidos.”

“Ainda estamos próximos demais de sua grandeza”, concluiu Tolstoi. “Contudo, depois de mais alguns séculos, nossa posteridade há de considerá-lo maior do que nós o consideramos. Sua genialidade ainda está forte demais e poderosa demais para a compreensão comum, exatamente como o sol queima demais quando sua luz brilha direto sobre nós.”

“Diz-se que todo homem tem sua ambição particular”, escreveu Abraham Lincoln, aos 23 anos, em sua carta aberta ao povo do Condado de Sangamon durante sua primeira candidatura a um cargo eletivo, na legislatura estadual de Illinois. “Seja ou não verdade, posso dizer por mim mesmo que não tenho outra [ambição] tão forte quanto a de ser realmente estimado por meus próximos, tornando-me digno de sua estima. Até onde serei capaz de realizar essa ambição ainda está por se revelar.”

terça-feira, 23 de abril de 2013

Lendo Lolita em Teerã - Azar Nafisi



"O problema não é a religião, mas quando a religião se transforma em Estado, quando a religião vira lei." - Azar Nafisi

A iraniana Azar Nafisi,  tem um mundo a contar. Parte dele está em seu livro mais festejada, "Lendo Lolita em Teerã" (A Girafa, 502 páginas), cuja leitura finalizei ontem. Lançada no Brasil em 2004, a obra desvela um retrato sensível – às vezes chocante – da situação das mulheres no Irã, submetidas ao fanatismo do regime islâmico, através da experiência de Nafisi e de sete de suas alunas da época em que ela lecionava na Universidade de Teerã.

Por dois anos, desafiando a repressão do regime dos aiatolás, elas se encontraram semanalmente no apartamento de Nafisi para discutir autores proibidos no país - como Henry James, Jane Austen, Scott Fitzgerald  e Vladimir Nabokov - e exorcizar seus próprios demônios.

Nascida em Teerã, Nafisi deixou seu país aos 13 anos para estudar na Europa e nos Estados Unidos. Retornou ao Irã em 1979, logo após a Revolução Islâmica, e lá permaneceu por dezoito anos. Uma das "filhas da revolução", Nafisi era uma entre muitos intelectuais iranianos que apoiaram a derrubada do Xá  Reza Pahlavi mas que se viram enredados no totalitarismo islâmico.

Cansada de lutar contra a "atmosfera de terror", decidiu voltar para os EUA. "Para uma mulher, viver no Irã é comparável a fazer sexo com o homem que ela mais odeia, é um estupro dissimulado", diz Nafisi.

Esta tortura diária é exposta por Nafisi com maestria ao tecer, no livro, comentários trançados sobre a vida no Irã sob os aiatolás e os livros que debatia com seus alunos e alunas nas aulas de literatura inglesa que ministrou em universidades e, depois, de forma velada em sua própria casa.

Em uma recente entrevista, quando questionada sobre o motivo que a levou a elencar "Lolita" como a obra inspiradora para suas reuniões literárias e, posteriormente, como ponto de partida para seu livro, Nafisi expôs toda a força política e social que a literatura carrega e que , muitas vezes, passa ao largo de nossas percepções imediatas.

Disse ela: "Na literatura de ficção, o romance de Nabokov é uma das representações que mais se aproximam do regime totalitário em que vivíamos. Vai muito além de 1984, de George Orwell, que se tornou um símbolo do autoritarismo. Mais do que expor a dor física e a tortura das ditaduras, Nabokov transmite em Lolita como é apavorante viver num estado de terror permanente. A tragédia maior da história não é o estupro de uma menina de 12 anos por um senhor, mas o confisco de uma vida individual por outra. Lolita é uma menina que não tem para onde ir. Ela depende de Humbert, o personagem que faz de tudo para possuí-la, tenta transformá-la em sua fantasia, em seu amor, mas a destrói. Ela satisfaz os desejos dele porque não há outra saída, porque sempre é levada a crer que será recompensada. Ela é o tipo de pessoa que não pode articular a própria história. Assim é a vida numa sociedade totalitária. Um mundo de solidão, em que o Estado é o salvador e o carrasco."

A seguir, alguns trechos pinçados do livro, cuja força e relevância me cativaram:

Durante cerca de dois anos, quase todas as quintas-feiras pela manhã, com chuva ou com sol, elas vinham à minha casa e, em quase todas as vezes, eu não conseguia me recuperar do choque de vê-las tirar sua sobrigatórias túnicas e véus, e explodir em cores.

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"A curiosidade é a insubordinação em sua forma mais pura." - Nabokov

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"A docilidade do prisioneiro é um orgulho da prisão" - Nabokov em Invitation to a Beheading

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Todo conto de fadas oferece o potencial para superar os limites presentes e, assim, num certo sentido, os contos de fadas oferecem liberdades que a realidade nos nega.

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Humbert, como a maioria dos ditadores, estava interessado somente em sua própria visão das outras pessoas. - Nafisi falando do personagem de Nabokov em Lolita.

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Eles invadem todos os espaços privados e tentam moldar cada gesto para nos forçar a nos tornarmos um deles, o que em si mesmo é uma outra forma de execução.

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O Partido Comunista Tudeh e a Organização Marxista Fedayin apoiavam os radicais reacionários contra os que chamavam de liberais.

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A melhor ficção sempre nos força a questionar o que não damos importância, porque damos como certo.

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Nos Estados Unidos, quando gritávamos Morte a isso ou a aquilo, essas mortes pareciam mais simbólicas, mais abstratas, como se a impossibilidade dos nossos slogans nos encorajasse a insistir neles ainda mais. Mas em Teerã, em 1979, esses slogans se tornavam realidade com uma precisão macabra. Sentia-me impotente e indefesa: todos os sonhos e todos os slogans se tornavam verdades, e não havia como escapar deles.

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A maioria dos grupos revolucionários concordava com o governo sobre a questão das liberdades individuais, que eles condescendentemente chamavam de "burguesas" e "decadentes". Isso facilitou a promulgação de algumas das leis mais reacionárias pela nova elite dominante, que chegou a ponto de criminalizar certos gestos e a expressão de emoções, como o amor... Baniu o balé e a dança, e avisou às bailarinas que elas podiam escolher entre atuar e cantar. Mais tarde, as mulheres foram proibidas até de cantar, porque a voz de uma mulher, como seu cabelo, era sexualmente provocante e deveria se manter oculta.

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Não queria discutir com Mahtab e suas amigas, cuja organização marxista havia tacitamente ficado ao lado do governo, denunciando os que protestavam como discordantes, divisores e, em última análise, como instrumentos a serviço dos imperialistas. De algum modo, acabei discutindo, não com o senhor Bahri, mas com elas, as ostensivamente progressistas. Elas afirmavam que existiam peixes maiores a fritar, que precisávamos primeiro lidar com os imperialistas e seus lacaios. Concetrar-se nos direitos das mulheres era individualista e burguês, e fazia o jogo deles.

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Sentados na sala da união dos estudantes, bebendo café ou Coca-Cola, nossos camaradas, atrapalhando o flerte que rolava na mesa vizinha, se inflamavam e defendiam os direitos das massas de torturar e eliminar fisicamente os seus opressores. Ainda lembro de um deles... argumentando que existiam dois tipos de tortura, dois tipos de assassinato - aqueles cometidos pelo inimigo, e aqueles cometidos pelos amigos do povo. Era legal assassinar os inimigos.

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Será que meus antigos camaradas previram que um dia eles seriam julgados pelo Tribunal Revolucionário, torturados e mortos como traidores e espiões? Será que eles poderiam prever, senhor Bahri? Posso lhes dizer com certeza absoluta que eles não previram. Nem em seus sonhos mais alucinados.

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... o maior pecado é ficar cego diante dos problemas e do dofrimento das outras pessoas. Não enxergar esses problemas e esses sofrimentos significa negar sua existência.

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Um grande romance eleva suas percepções e sua sensibilidade sobre as complexidades da vida e dos indivíduos, e impede que você, da sua hipocrisia, encare a moralidade através de fórmulas determinadas sobre o bem e o mal.

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Só depois que cheguei em casa que compreendi o verdadeiro sentido do exílio. Enquanto caminhava por aquelas ruas ternamente amadas, amorosamentre relembradas, senti que esmagava as memórias que jaziam no caminho.

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Pensar que as universidades seriam fechadas parecia tão artificial quanto a possibilidade de as mulheres finalmente sucumbirem a usar o véu... O comitê foi autorizado a expulsar docentes e alunos indesejáveis... Se os esquerdistas chegassem ao poder, eles fariam a mesma coisa.

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O assunto não era o véu, mas a liberdade de escolha... Pouco e mal sabia que em breve me seria dada a escolha entre usar o véu ou ser presa, açoitada e talvez morta se desobedecesse.

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Certo dia, na primavera de 1981, tornei-me irrelevante.

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Um aiatolá implacável, um filósofo-rei cego e improvável, decidira impor seu sonho sobre um país e sobre um povo, e nos recriar segundo sua própria visão míope.

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Por causa da esmagadora objeção das mulheres às novas leis, o governo impôs os novos regulamentos nos locais de trabalho e depois nas lojas, que ficaram proibidas de atender mulheres sem véu. A desobediência era punida com multas em dinheiro, com até setenta e cinco chibatadas e com a prisão. Mais tarde, o governo criou os notórios esquadrões da moralidade: quatro homens armados e uma mulher, em carros toyota de patrulha, monitoravam as ruas e asseguravam o cumprimento  das leis.

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Não tinha compreendido o quanto as rotinas da vida criam uma ilusão de estabilidade.

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Desta vez abrimos os portões, não para os invasores estrangeiros, mas para os domésticos, aqueles que voltaram para nós em nome de nosso próprio passado, mas que distorceram cada milímetro dele e nos roubaram Ferdowsi e Hafez.

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Era um lugar pequeno, um bar em seus dias pré-revolucionários, agora encarnado num café. Pertencia a um armênio, e verei para sempre ao lado do nome do restaurante, em letras miúdas na porta de vidro, o aviso compulsório em grandes letras pretas: MINORIA RELIGIOSA. Todos os restaurantes administrados por não-muçulmanos tinham que exibir esse aviso em suas portas para que  os bons muçulmanos, que consideravam sujos todos os não-muçulmanos, e que não comiam nos mesmos pratos ou bebiam nos mesmos copos ou xícaras, pudessem ser advertidos com antecedência.

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"Quem quer que lute com monstros", Nietzsche dissera, "deve cuidar para que no processo não se torne um monstro. E quando você olha longamente para o abismo, o abismo também olha dentro de você."

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"Graças a Deus que você é um fracasso - foi o motivo pelo qual o distingui! Qualquer outra coisa atualmente é muito abominável. Olhe ao seu redor - veja os sucessos. Você seria um deles sobre a sua honra?" - Henry James em Os Embaixadores.

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Essas são pessoas que conscientemente escolheram o fracasso para preservar seu próprio senso de integridade... Eles se isolaram em si mesmos, e fervilharam em seus sonhos destroçados.

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Aqueles nas associações islâmicas haviam provado o gosto e o poder das coisas ocidentais: eles usaram seu poder, sobretudo, para usufruir privilégios negados a outros.

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De fato, às vezes me parecia que nossa época era mais ficcional do que a própria ficção.

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Como todos os fazedores de mitos, ele tentara moldar a realidade pelo seu sonho e, no final, como Humbert, conseguira destruir tanto a realidade quanto o sonho. Adicionada aos crimes, aos assassinatos e às torturas, naquele momento tivemos que enfrentar essa última indignidade - o assassinato dos nossos sonhos. Ainda assim, ele o fizera com a nossa completa aquiescência, o nosso total assentimento e cumplicidade.

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Meus anos de juventude testemunharam a chegada de duas mulheres ao ministério. Depois da revolução, essas mesmas duas mulheres foram sentenciadas à morte, pelos pecados de antagonizar a Deus e disseminar a prostituição. Uma delas, a ministra para os assuntos das mulheres, estava no exterior na época da revolução, e permaneceu no exílio, onde se tornou uma importante porta-voz dos direitos das mulheres e dos direitos humanos. A outra, a ministra da educação e antiga diretora da minha escola secundária, foi colocada num saco e apedrejada até morrer.

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Todos precisamos criar um paraíso  para escapar

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Mais do que qualquer outra coisa, sinto falta da esperança.

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Tenho uma fantasia recorrente de que mais um artigo foi acrescido à Declaração de Direitos Humanos: o direito ao acesso livre à imaginação. Cheguei à conclusão e agora acredito que a genuína democracia não pode existir sem a liberdade de imaginar e sem o direito de usar obras ficcionais sem quaisquer restrições. Para possuir a totalidade de uma vida, precisamos ter a possibilidade de modelar e de expressar publicamente mundos, sonhos, pnsamentos e desejos privados, de ter constantemente acesso a um diálogo entre  omundo público e o mundo privado. De que outra maneira nós saberemos que existimos, sentimos, desejamos, odiamos e tivemos medo?

Para mais resenhas e minhas últimas leituras clique AQUI.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ditadura de esquerda é lindo

Mais um "debate" no Facebook com gente que acha linda a ditadura de Fidel Castro em Cuba.
Tudo por causa de Yoani Sánchez.
Para não perder no timeline, posto o link AQUI.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poema



Deixa deitar meu cansaço
No teu colo de espinhos
Enxaguar teus lábios
Com o orvalho da minha ira

Deixa o mel das palavras
Azedar na minha língua

Deixa abraçar teu olhar
Como um velho menino
Inundar tua pele
Com a aspereza da minha vida

Deixa escorrer teu sal em mim

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Nosso novo, velho jornalismo

Nosso novo, velho jornalismo...

Relendo o primeiro volume do “Teorias do Jornalismo”, do Nelson Traquina, me deparei com duas passagens curiosas sob o ponto de vista do jornalismo que se pratica hoje no Brasil, especialmente nos grotões onde os poucos leitores e anunciantes são disputados no tapa por jornais com tiragem indigente e emissoras de TV e rádio onde a notícia é mera coadjuvante na programação.

A primeira passagem é uma reflexão sobre “The image of the Journalists in France, Germany, and England, 1845-1848”, de Leonor O’Boyle, segundo a qual a nova classe média inglesa no século 19 formou um público que queria notícias políticas e econômicas, de modo que foi possível a um jornal diário atrair leitores e anunciantes suficientes para se auto-sustentarem, sem qualquer dependência de subsídios políticos.

Na segunda passagem, Traquina cita estudos segundo os quais havia, na França do século 19, pouca publicidade paga e escasso público leitor. Como consequência, os jornais franceses não conseguiam se transformar em negócio lucrativos e auto-suficientes. “Permaneciam dependentes financeiramente dos vários partidos políticos, e assim altamente politizados e partidários”, afirma o acadêmico português.

Ora, substituindo a geografia de ambas as citações pelo Mato Grosso do Sul da atualidade chego a conclusão de que ainda praticamos um jornalismo ao etilo do século 19.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Humanos de índole torta

Humanos de índole torta

"O que fazer com um cidadão que dispara uma arma de fogo no rosto de uma mulher grávida?"

O corpo da secretária Daniela Oliveira, de 25 anos, que morreu após ser baleada durante uma tentativa de assalto, foi enterrado ontem (11) em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. Daniela, que estava grávida de nove meses, foi atingida por um disparo de arma de fogo no rosto logo após descer de um Ford Fiesta na frente do condomínio em que morava. Ela foi abordada por dois criminosos em uma moto, que atiraram nela e fugiram sem levar nada. 

Seis minutos após a entrada de Daniela no Hospital do Campo Limpo, os médicos decidiram pela realização da cesariana, para salvar o bebê. A criança, chamada Gabriela, nasceu com 2,2 quilos e saudável. A família decidiu doar os órgãos de Daniela.

Assunto encerrado.

Daniela Oliveira em breve sairá dos noticiários, se transformará em apenas uma fração dos índices que medem a violência desenfreada que assola o país. 

Recente relatório sobre o Peso Mundial da Violência Armada aponta que, entre os anos de 2004 e 2007, os doze maiores conflitos armados, provocados por disputas territoriais, guerras civis e movimentos libertários, em diferentes partes do mundo, mataram 169.574 pessoas. No mesmo período, 192.804 pessoas foram assassinadas no Brasil. 

Entre 1992 e 2009, de acordo com o IBGE, a taxa de homicídios no Brasil cresceu 41%, com a média de assassinatos saltando de 19,2 para 27,1 mortes em cada cem mil habitantes. Nos últimos trinta anos, houve aumento de 83,1% na taxa de homicídios no Brasil.

Em 2010 ocorreram quase 50 mil assassinatos no Brasil, ao ritmo de 137 homicídios por dia, número superior ao de “um massacre do Carandiru por dia”, como assevera o pesquisador Julio Jacobo Waisefisz, do Instituto Sangari.

Estes números assustadores têm causas diversas, em especial a desigualdade social, o absurdo desequilíbrio na distribuição de renda, a educação de qualidade indigente oferecida aos jovens, o naufrágio da cidadania diante da cultura de consumo desenfreado entre outras mazelas de cunho social.

Podemos atribuir uma parcela de responsabilidade sobre a escalada da violência a todos estes tristes aspectos da sociedade brasileira. Há um, no entanto, que costuma ficar de fora das análises, dos programas de governo, dos discursos políticos: a maldade.

Nossa cultura de classe média culpada, propensa a paternalismos e ao acalanto do mito do bom selvagem, tende a “passar a mão na cabeça” do criminoso, a exigir direitos humanos para humanos de índole torta, deformada. 

Ao iniciar este artigo, apenas uma questão se colocava em minha mente, insistente... O que fazer com um cidadão que dispara uma arma de fogo contra o rosto de uma mulher grávida?

domingo, 23 de dezembro de 2012

Poema

Como uma tarde indo embora
Me calo
Enrubesço
Me encho de azul

Como uma tarde indo embora
Me visto de nuvens
Amanheço pássaros
Transbordo em lilás

Procuro teus olhos

No céu que desmonta
Na tarde que vai